Bits e Peças

P2P ou não 2P, eis a questão

Conforme o dólar americano alcança profundezas de depreciação que teriam violentado a imaginação de Calígula, as pessoas têm buscado candidatas alternativas para uma moeda de reserva global. O problema é formidável. O Euro e o Yen japonês enfrentam calamidades próprias comparáveis (que misturam crises de débito e colapso demográfico), o Yuan chinês não é conversível, e os híbridos Direitos Especiais de Saque (DESs) do FMI meramente juntam um grupo de moedas fiduciárias com problemas sob um acrônimo tecnocrático.

Entusiastas dos metais preciosos têm uma opção óbvia, uma que já está sendo espontaneamente exercida. Ainda assim, embora números crescentes sem dúvida se agarrarão ao ouro e à prata enquanto botes salva-vidas financeiros, seu uso mais amplo enquanto moeda (em oposição a reservas de valor) é obstruído por uma gama intimidadora de problemas técnicos e políticos. Eles não são digitalmente transferíveis sem complicados instrumentos de mediação e permanecem expostos a um risco político extremo – crises financeiras foram regularmente acompanhadas por confiscos e controles direcionados a participações e transações privadas de metais preciosos.

Para superar tais problemas, um moeda precisaria ser estruturalmente imunizada contra as depredações de bancos centrais, compartilhar do viés deflacionário dos metais preciosos e participar plenamente da tendência técnica em direção à abstração matemática e à comunicabilidade eletrônica, ao passo em que também goze de forte proteção criptográfica contra fiscalização, expropriação e fraude. Surpreendentemente, tal moeda parece já existir. Seu nome é ‘Bitcoin’.

Os motores gêmeos e interativos da modernidade – comércio e tecnologia – se reúnem no Bitcoin com uma intensidade fusional sem precedentes. Essa é uma moeda que é simultaneamente um programa de computador de código aberto, inteiramente nativa do cyberespaço e uma inovação financeira, conduzindo um experimento em tempo real que é de uma só vez social, técnico e econômico. Construída sobre os fundamentos da criptografia de chave pública (PKE), ela cria uma rede aberta peer-to-peer – sem qualquer nó controlador ou gerenciamento discricionário humano – para sustentar um sistema monetário radicalmente descentralizado.

Originalmente inventada por Satoshi Nakamoto (cujo artigo de esboço pode ser encontrado aqui), o Bitcoin desconecta a confiança da autoridade. Em particular, ele é projetado para superar o problema do gasto duplo.

Uma vez que ‘bens’ digitais podem ser replicados a um custo próximo de zero, eles são economicamente definidos como ‘não-rivais’. Se você me vende um computador, ele agora é minha propriedade e não sua. Assim como com todos os bens rivais, a propriedade implica exclusão. Se você me vende um programa de computador, por outro lado, não há qualquer razão para assumir que você não manteve uma cópia para si, ou que o ‘mesmo’ programa não possa ser vendido a múltiplos compradores. Tais bens não-rivais apresentam diversas questões econômicas intrigantes, mas uma coisa está inteiramente clara: um dinheiro não-rival é uma impossibilidade. Sem escassez, ou troca exclusiva, a própria ideia de quantidade monetária perde qualquer sentido, assim como o valor monetário, gasto e investimento, e a escolha do consumidor.

O algoritmo do Bitcoin torna uma moeda digital rival e, assim, efetiva enquanto dinheiro, sem recurso a nenhuma autoridade administrativa. Ela o faz iniciando um ecologia automática ou espontânea, na qual os computadores na rede autenticam as trocas de Bitcoin como efeito colateral da ‘mineração’ de novas moedas. Nós ganham novas moedas, em uma taxa decrescente, ao resolver um enigma digital – acessível apenas a uma abordagem de força bruta computacionalmente intensiva – e, assim, exibir uma prova de trabalho. Este teste filtra o sistema contra intervenções maliciosas, ao estabelecer uma barreira praticamente intransponível para qualquer usuário que busque falsificar o registro de trocas. Discussões competentes podem ser encontradas aqui, aqui e (de maneira mais diversa) aqui.

Esse problema e essa solução estão muito longe de serem arbitrários. É precisamente porque as moedas fiduciárias existentes assumiram características não-rivais perturbadores que a preocupação com a depreciação da moeda alcançou tamanho tom de exasperação. Quando um banco central, no curso de operar uma política monetária tipicamente relaxada, pode simplesmente acelerar as impressoras ou (ainda pior) seu equivalente eletrônico, a integridade da oferta de dinheiro é devastada na raiz. O Bitcoin rigorosamente extirpa tal ruinosa discrição de seu sistema, ao instanciar uma teoria de dinheiro saudável enquanto experimento eletrônico precisa e publicamente definido.

Sem surpresa, o agregado monetário do Bitcoin é modelado sobre os metais preciosos, gerados por mineradores a partir de uma reserva global finita, com custos crescentes de extração. A recompensa pela mineração de moedas cai ao longo do tempo em uma taxa logarítmica (zenônica), em direção a um limite fracionariamente abaixo de 21000000 BTC. Cada Bitcoin pode ser subdividido até oito casas decimais, até um total de mais de dois quadrilhões (2100000000000000) de fragmentos, equivalente a 210000 ‘quanta’ de Bitcoin para cada uma das 10 bilhões de pessoas que compõem a população humana máxima antecipada da Terra. Um quantum de Bitcoin (0,00000001 BTC) é chamado de um ‘Satoshi’ (de Satoshi Nakamoto), embora emendas ao sistema, que permitam mais subdivisões em algum estágio futuro, não estejam excluídas. (Para o tamanho total da economia do Bitcoin olhe aqui.)

O Bitcoin é programado para a deflação ([de um tipo). Isto é uma fonte de deleite para os tipos do dinheiro forte, e de ultraje para aquelas no campo do dinheiro relaxado (inflacionário). Enquanto experimento, o grande mérito do Bitcoin é elevar esse antagonismo para além do nível da polêmica recíproca, até aquele de potencial evidência histórica – e escolha real. Austrolibertários há muito alegam que sistemas de dinheiro livre tendem à deflação e que o banco central encoraja a inflação como um mecanismo sorrateiro de expropriação econômica, com um efeito em última análise desastroso. Os keynesianos, em contraste, deploram a deflação como uma doença econômica que suprime o investimento produtivo e o emprego. Um teste empírico logo poderia ser possível.

Diversas outras questões, teóricas e práticas, se apresentam. No nível prático, tais questões se realizam através de volatilidade especulativa, adaptação institucional e desafios técnicos. Uma vez que toda a economia do Bitcoin continua muito pequena, mudanças relativamente modestas no comportamento econômico produzem oscilações selvagens no valor do BTC, incluindo picos como de bolhas, colapsos precipitados, hypes incontinentes e acusações extravagantes. Apesar da resiliência do algoritmo central, as instituições periféricas que sustentam a economia do Bitcoin permanecem vulneráveis a roubo, fraude e intervenções maliciosas. Como com qualquer experimento revolucionário, a trajetória de desenvolvimento do Bitcoin provavelmente será tumultuosa e altamente imprevisível.

As questões teóricas podem ser entretidas de maneira mais calma. A mais importante destas se relaciona à natureza essencial do dinheiro e seu futuro. O Bitcoin simula de maneira bem-sucedida as características significantes dos metais preciosos, de tal modo que sua substância pode ser descartada da equação monetária como escória irrelevante? Quão poderosas são as forças que levam à convergência monetária? As vantagens de primeiro movimento ‘prenderão’ o Bitcoin, às custas de alternativas posteriores? Ou sistemas monetários múltiplos – talvez cada vez mais heterogêneos – continuarão a co-existir? O Bitcoin é meramente um estágio em uma sequência aberta de sistemas monetários inovadores, ou ele captura as características essenciais do dinheiro de maneira bastante definitiva (deixando espaço apenas para melhorias incrementais ou ajustes)?

Defensores do status quo monetário poderiam insistir em mais uma linha de questionamento, mais escarnecedora: o Bitcoin é um beco sem saída, uma irrelevância ou uma fantasia libertária cipherpunk ilusória, a ser julgada eventualmente como algo similar a um boato? O que seria notar que, em última análise, as maiores questões serão políticas, e as discussões mais aquecidas já o são.

Os governos podem se dar ao luxo de tolerar moedas não geridas e autônomas? Veremos.

Original.

Edward Glaeser sobre o Triunfo da Cidade

Entrevistamos o urbanista mais atual do mundo

Shanghai não é uma das cidades que aparecem seu livro. Ela é massiva e massivamente feita de arranha-céus. Você já considerou escrever sobre ela?

Shanghai é uma das maiores cidades do mundo, mas eu não conheço a cidade bem o suficiente para escrever sobre ela. Espero conhecer a cidade melhor e colocar os sucessos de Shanghai em alguma obra posterior.

A China é um lugar onde as cidades cresceram de maneira incrivelmente rápida e houve um êxodo em massa do campo para a vida urbana. No que você acha que as cidades da China deveriam se focar conforme crescem?

A cidades, hoje, prosperam enquanto forjas de capital humano e motores de inovação. A China claramente reconhece isto e está investimento maciçamente em educação. Isso deveria continuar. De maneira igualmente importante, a China precisa focar em fomentar mais empreendedorismo eliminando quaisquer barreiras que restem a pequenas start-ups.

Você fala sobre como as cidades deveria ser vistas como “massas de humanidade conectada”, em vez de aglomerações de construções. Você acha que isto é bem entendido neste momento, ou muitos lugares ainda estão tentando “construir seu caminho de volta ao sucesso”?

Infelizmente, muito frequentemente líderes político tentam angariar manchetes com uma nova estrutura chamativa. A chave é focar naqueles investimento em infraestrutura que realmente beneficiarão as pessoas na cidade.

Você é otimista quanto à possibilidade dos planejadores urbanos ao redor do mundo encontrarem o equilíbrio entre Paris e Mumbai, isto é, entre o planejamento central no estilo Haussman, que corre o risco de esterilidade, e um cada-um-por-si caótico?

Essa é a pergunta de um trilhão de dólares. Eu gostaria de poder ser mais otimista, mas o planejamento urbano é difícil e muitos governos são ou incapazes de gerenciar o caos, ou demasiado inclinados ao controle central. Isto reque não apenas conhecimento, mas força política, e essa é uma combinação rara.

Quais cidades ao redor do mundo estão acertando? Quais não estão?

Eu acredito que Singapura é a cidade mais bem gerida do mundo – boas escolas, uma excelente política de transportes e um abordagem sensata à regulamentação. Mas Hong Kong também é bastante impressionante, e eu pessoalmente prefiro seu estilo um pouco mais caótico.

O ocidente tem muitas potência urbanas, mas poucas delas são realmente modelos de gestão perfeita. Por exemplo, eu sou um grande fã do Prefeito Menino em Boston, mas apesar de mais de 15 anos de trabalho duro, as escolas de Boston ainda estão tendo dificuldades.

Obviamente, Barcelona, Paris e Milão são todas cidades encantadoras e maravilhosas, mas elas não são necessariamente modelos de boa gestão.

Você é cautelosamente otimista em seu livro, mas o que lhe preocupa mais quanto ao futuro da cidade?

Os maiores desafios estão nas mega-cidades do mundo em desenvolvimento, especialmente na África. Estamos muito longe de fornecer sequer os essenciais básicos como água potável em muitos lugares.

Nos EUA, temos problemas enormes de má gestão fiscal que precisão ser abordados. Além disso, há sempre a possibilidade de desastres físicos realmente grandes – sejam naturais ou humanos.

Há alguma maneira de se contornar o fato de que as cidades mais vibrantes também se tornam as mais caras – ou, como você diz no livro, isto é simplesmente o preço da boa saúde urbana?

As leis da oferta e da demanda não podem ser revogadas. Se uma cidade é atraente e produtiva, a demanda pelos seus imóveis será alta. O melhor antídoto para isso é uma oferta abundante, mas é um erro subsidiar a habitação urbana. O melhor caminho em direção a uma maior acessibilidade vem de uma construção privada de habitação que seja regulamentada apenas tanto quanto for absolutamente necessário. Ainda assim, construir pode ser caro e isso sempre tornará os preços nas cidades bem-sucedidas mais caros.

Ao funcionarem como motores de oportunidade econômica e como refúgios, as cidades tendem a concentrar disparidades econômicas. Você acha que se pode argumentar que tais desigualdades poderiam ser interpretadas como um sintoma do sucesso urbano? Você poderia estar sutilmente sugerindo isso em sua própria obra?

Eu estou sugerindo exatamente isso. A desigualdade nacional pode ser um problema real, mas a desigualdade local pode ser um sinal de saúde. As cidades tipicamente não tornam as pessoas pobres, elas atraem pessoas pobres. A desigualdade de uma cidade reflete o fato de que ela atrai pessoas ricas e pobres igualmente, e isso é algo a se admirar.

Como as cidades podem se esforçar para controlar a desigualdade e evitar guetos de ricos e pobres? Elas sequer deveriam estar tentando?

A educação é a melhor arma contra a desigualdade. As cidades deveriam estar se esforçando para garantir que as crianças de cada pai e mãe tenham uma chance de serem bem-sucedidas.

Algum grau de estratificação por renda é inevitável, mas a segregação pode ser bastante custosa porque tais separações significam que pessoas isoladas perdem as vantagens urbanas da conexão. Não existem grandes ferramentas para a redução da segregação, mas os governos deveriam garantir que suas políticas não exacerbem a segregação.

Geoffrey West, no Santa Fe Institute, tem estudado as cidades como ‘sistemas complexos’ e identificou uma série de padrões confiáveis e quantificáveis sobre este fundamento. Você acha este tipo de análise informativa ou relevante para sua obra?

Cidades são, de fato, sistemas complexos.

Mesmo no mundo moderno, com o nacionalismo ascendente, cidades-estado parecem ser incomumente bem-sucedidas. As cidades fornecem um desafio às concepções dominantes sobre organização política em larga escala? Como você avalia os prospectos das políticas de devolução, com uma ênfase municipal?

Eu não acho que os estados-nação estarão propensos a ceder tanto poder assim, e as cidades podem continuar economicamente dominantes, mas politicamente fracas. O caminho nos EUA continua a ser em direção a mais, não menos, poder nacional, e eu acho que isso provavelmente é um erro. Em muitos casos – tais como Mumbai – escolhas locais certamente seriam melhores do que as escolhas impostas às cidades vindas de cima.

Além do seu próprio trabalho, quem você considera serem os autores mais importantes sobre cidades hoje?

Eu admiro profundamente o historiador de Columbia, Kenneth Jackson.

Original.

Futurismo Duro

Você está pronto para a próxima grande (e sórdida) coisa?

Para qualquer um com interesses tanto no futurismo prático extremo quanto na renascença da Sinosfera, Hugo de Garis é um ponto de referência irresistível. Ex-professor de Computação Quântica Topológica (não pergunte) na Escola Internacional de Software da Universidade de Wuhan e mais tarde Diretor do Laboratório de Cérebros Artificiais da Universidade de Xiamen, a carreira de de Garis simboliza a emergência de uma fronteira tecnocientífica cosmopolita chinesa, onde a margem externa da possibilidade futurista se condensa em realidade de engenharia precisa.

O trabalho de de Garis é ‘duro’ não apenas porque envolve campos tais como Computação Quântica Topológica ou porque – de maneira mais acessível – ele tenha devotado suas energias de pesquisa à construção de cérebros em vez de mentes, ou mesmo porque ela tenha gerado questões mais rápido do que soluções. Em sua ‘semi-aposentadoria’ (desde 2010), duro-enquanto-difícil e duro-enquanto-hardware foram suplantados por duro-como-em-entorpecentemente-e-incompreensivelmente-brutal – ou, em suas próprias palavras, uma obsessão cada vez maior com a iminente ‘Gigamorte’ ou ‘Guerra de Artilectos‘.

De acordo com de Garis, a aproximação da Singularidade revolucionará e polarizará a política internacional, criando novos eleitorados, ideologias e conflitos. A dicotomia básica à qual tudo deve eventualmente sucumbir divide aqueles que adotam a emergência da inteligência trans-humana e aqueles que a resistem. Os primeiros ele chama de ‘cosmistas‘, os últimos, de ‘terranos’.

Uma vez que os massivamente amplificados e roboticamente reforçados ‘cosmistas’ ameaçam se tornar invencíveis, os ‘terranos’ não têm outra opção além da prevenção. Para preservar a existência humana em um estado reconhecível, é necessário suprimir violentamente o projeto cosmista antes de sua realização. O mero prospecto da Singularidade é, portanto, suficiente para provocar uma convulsão política – e, em última análise, militar – de escala sem precedentes. Um triunfo Terrano (o que poderia exigir muito mais do que apenas um vitória militar) marcaria um ponto de inflexão na história profunda, conforme a tendência supra-exponencial de produção terrestre de inteligência – que dura mais de um bilhão de anos – fosse rematada ou revertida. Uma vitória Cosmista significa o término do domínio da espécie humana e uma nova época nos processos geológico, biológico e cultural da terra, conforme a tocha do progresso material seja passada para o emergente techno sapiens. Com apostas tão altas, o esplendor melodramático da narrativa de de Garis arrisca atenuação, não menos do que hipérbole.

A giga-magnitude da contagem de corpos que de Garis postula para sua Guerra de Artilectos (intelectos artificiais) é a expressão do lado negro da Lei de Moore ou dos retornos crescentes kutzweileanos – uma extrapolação a partir de tendência históricas exponenciais, neste caso, dos números de vítimas de grandes conflitos humanos ao longo do tempo. Ela reflete a tendência cumulativa de guerras globais motivadas por ideologias trans-nacionais com ricos cada vez maiores. Um rei talvez seja muito parecido com outro, mas uma direção social totalitária é muito diferente de uma liberal (mesmo que tais caminhos sejam, em última análise, revisáveis). Entre uma ordem mundial Terrana e uma trajetória Cosmista até a Singularidade, a distinção se aproxima de um absoluto. O destino do planeta é decidido, com custos correspondentes.

Se o cenários de Guerra de Gigamorte de de Garis é preventivo em relação ao prospecto da Singularidade, sua própria intervenção é meta-preventiva – uma vez que ele insiste que a política mundial deveria ser antecipadamente reforjada a fim de prevenir o desastre iminente. A previsão da Singularidade se espalha para trás através de ondas de pré-adaptação que respondem, em cada estágio, a eventualidades que ainda se desdobrarão. A mudança se desenrola a partir do futuro, complicando a seta do tempo. Talvez não seja nenhuma coincidência que, entre os principais interesses de pesquisa de de Garis, esteja a computação reversa, onde a direcionalidade temporal é abalada no nível de engenharia precisa.

A etnia e a tradição cultural meramente se dissolvem ante a frente da maré deste Armagedom iminente? A questão não é de inteiro simples. Referindo-se a sua sondagem informação da opinião sobre a vindoura grande divisão, de Garis relembra sua experiência de ensino na China, observando:

Eu sei, a partir das palestrar que dei ao longo das últimas duas décadas sobre dominância da espécie, que, quando eu convido meu pública a votar sobre se eles são mais Terranos do que Cosmistas, o resultado normalmente é 50-50. … Primeiro, eu pensei que isto fosse uma consequência do fato de que a questão da dominância da espécie é nova demais, fazendo com que as pessoas não a entendessem realmente para votar de maneira quase aleatória – logo o resultado 50:50. Mas, gradualmente, me ocorreu que muitas pessoas se sentiam tão ambivalentes sobre a questão quanto eu. Tipicamente, a divisão Terrana/Cosmista iria de 40:60 até 60:40 (embora eu note que, com meu publico chinês muito jovem na ciência da computação, os Cosmistas estão em cerca de 80%).

Original.

Antropoceno

A história humana é geologia em velocidade

Sistemas complexos, caracterizados por uma alta (e localmente crescente) entropia negativa, são essencialmente históricos. As ciências devotadas a eles tendem inevitavelmente a se tornarem evolutivas, como exemplificado pelo curso das ciências da terra e da vida – que haviam se tornado completamente historicizadas por volta do final do século XIX. Talvez a compreensão mais elegante, abstrata ou ‘cósmica’ dessa necessidade seja encontrada na obra de Vladmir Ivanovich Vernadsky (1863-1945), cujos escritos visionários buscavam estabelecer a base pare um entendimento integrado da história terrestre, concebida enquanto processo de aceleração material através de épocas geoquímicas.

Apesar do poder filosófico de suas ideias, o treinamento científico de Vernadsky como químico ancorava seus pensamentos na realidade concrete e literal. A aceleração do processo terrestre foi mais do que uma impressão antropocêntrica, registrando mudanças social e culturalmente significativas (tais como a cefalização da linha primata que levou à humanidade). A evolução geoquímica era fisicamente expressa através da velocidade média das partículas, conforme o metabolismo biológico (biosfera) e, eventualmente, as culturas humanas (noosfera), introduziam e propagavam redes cada vez mais intensas de reações químicas. A vida é a matéria com pressa, e a cultura ainda mais.

Embora Vernadsky tenha sido esporadicamente redescoberto e celebrado, sua importância – embasada na profundidade, rigor e suprema relevância de sua obra – ainda tem que ser plena e universalmente reconhecida. Ainda assim, é possível que seu tempo esteja finalmente chegando.

A edição de 28 de maio – 3 de junho de 2011 da The Economist devota um editorial e uma grande reportagem ao Antropoceno – uma época geológica distintiva proposta por Paul Crutzen em 2000, agora sob consideração da Comissão Internacional sobre Estratigrafia (a “o árbitro final da escala de tempo geológica”). O reconhecimento do Antropoceno seria um reconhecimento de que habitamos uma época geológica cuja assinatura física tem sido fundamentalmente remoldada pelas forças tecnológica da ‘noosfera’ ou ‘etosfera’ – na qual a inteligência humana tem sido introduzida enquanto uma força massiva (e até mesmo dominante) da natureza. Uma metamorfose radical (e uma aceleração) dos ciclos de nitrogênio e carbono da terra são sinais especialmente pronunciados do Antropoceno.

“O termo ‘mudança de paradigma’ é é vendido com facilidade promíscua”, observa a The Economist. “Mas as ciências naturais tornarem a atividade humana central para sua concepção do mundo, em vez de uma distração, marcaria tal mudança a sério.”

O arquiteto mestre do Terceiro Reich, Albert Speer, é notório por sua promoção do ‘valor da ruína’ – a persistente grandeza das construções monumentais, encontradas por arqueólogos no futuro distante. O Antropoceno introduz uma perspectiva similar sobre uma escala ainda mais vasta. Como a The Economist observa:

A maneira mais comum de distinguir períodos de tempo geológico é por meio dos fósseis que eles contém. Nesta base, apontar o Antropoceno nas rochas dos dias por vir será bem fácil. As cidades farão fósseis particularmente distintivos. Uma cidade em um delta de rio que afunda rapidamente (e deltas de rio que afundam rapidamente, minados pelo bombeamento de águas subterrâneas e privados de sedimentos por barragens a montante, são ambientes antropocênicos comuns) poderiam passar milhões de anos enterradas e ainda assim, quando eventualmente descobertas, revelar através de suas estruturas trituradas e misturas estranhas de materiais que é diferente de qualquer outra coisa no registro geológico.

Conforme a história terrestre se acelera, as unidades distintivas de tempo geológico são comprimidas. Os éons Arqueano e Proterozoico são medidos em bilhões de anos, as eras Paleozoica e Mesozoica em centenas de milhões, os períodos Paleogênico e Neogênico em dezenas de milhões. A época do Holoceno dura menos do que 10000 anos, e o Antropoceno (época ou mera fase?) apenas séculos – porque seu reconhecimento já é uma indicação de seu fim.

Para além do Antropoceno está o Tecnoceno, distinguido pela manipulação nanotecnológica da matéria – uma revolução geoquímica de tamanha magnitude que apenas a montagem de moléculas replicadoras (RNA e DNA) é comparável em implicações. Dentro do vindouro Tecnoceno (durando meras décadas?), o ciclo do carbono é retransmitido através de processos de fabricação sub-microscópicos que o utilizam como o recurso industrial derradeiro – matéria-prima para a fabricação de nanomáquinas diamantoides. As conseqüências para a deposição geológica e, portanto, para as descobertas de geólogos no futuro distante, são substanciais, mas opacas. No lado mais distante da era nanofabricada, femtomáquinas aguardam, montadas com precisão a partir de quarks, e decompondo a química em física nuclear.

No momento, contudo, mesmo a origem do Antropoceno – quanto mais sua extinção – continua sendo uma questão de viva controvérsia. Assumindo que ele coincide com a industrialização (o que não é universalmente aceito), geólogos se descobrirão enredados em um debate em meio a historiadores, conforme o carregado termo ‘modernidade’ toma uma definição geoquímica. Qualquer que seja o resultado, Vernadsky está de volta.

Original.

Nêmesis

Apostando tudo que o cassino vai queimar

A Family Radio de Harold Camping avisou seus ouvintes para que esperassem alguns eventos incomumente dramáticos na primavera:

Pela graça e tremenda misericórdia de Deus. Eles está nos dando um aviso antecipado sobre o que Ele está prestes a fazer. No Dia do Julgamento, 21 de maio de 2011, este período de 5 meses de horrível tormento começará para todos os habitantes da terra. Será no 21 de maio que Deus levantará todos os mortos que já morreram de suas covas. Terremotos devastarão todo o mundo, já que a terra não mais ocultará seus mortos (Isaías 26:21). As pessoas que morreram como indivíduos salvos experimentarão a ressurreição de seus corpos e imediatamente deixarão este mundo para ficarem para sempre com o Senhor. Aqueles que morreram sem salvação serão erguidos também, mas apenas para ter seus corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.

Claramente, previsões podem ser um negócio perigoso.

Ainda assim, como Karl Popper observou a respeito de teorias científicas, previsões falsificáveis também servem a um propósito valioso – até mesmo indispensável. Qualquer modelo da realidade que seja capaz de fazer previsões específicas ganha uma credibilidade a que ‘visões de mundo’ mais vagas não têm direito, embora ao preço de uma vulnerabilidade radical à desvalorização, caso suas antecipações se provem infundadas.

De forma muito similar ao Marxismo, o Libertarianismo da teoria econômica da Escola Austríaca combina expectativas históricas (de maior ou menor exatidão) com um núcleo de compromissos filosóficos, políticos e até mesmo emocionais que está comparativamente imunizado contra a refutação empírica. Tanto o Marxismo quanto o Austrolibertarianismo são ideologias grandes e altamente variegadas, com histórias complicadas, que expressam um descontentamento profundo com a ordem dominante do mundo moderno e estão propensas a tentações utópicas. Ambas são doutrinas político-morais (frequentemente indignadas) extrapoladas de maneiras muito diferentes dos direitos de propriedade da lei natural lockeana (ao seu próprio corpo e à sua atividade produtiva). Ambas atraem um amplo espectro de seguidores, de acadêmicos sóbrios a defensores revolucionários desesperados, que vêem, no desenrolar do drama da história, a possibilidade de uma vindicação definitiva (como os fiéis das teologias milenaristas sempre fizeram e – como o caso de Camping demonstra – continuam a fazer).

As raízes ocidentais tanto do Marxismo quanto do Austrolibertarianismo chegam até a escatologia redentora judaica e à tragédia grega (talvez seja digno de nota que Karl Marx e Ludwig von Mises compartilharam características biográficas intrigantes, incluindo origens germano-judaicas altamente assimiladas, mergulhadas na alta cultura européia). O Capitalismo-Estatista é retratado como o anti-herói Satânico-Prometeico de uma narrativa épica, que descreve uma violação sustentada da justiça se descobrindo responsabilizada em momento apocalíptico final que dá significado à história e uma hubris aparentemente irrestrita que encontra sua eventual nêmesis. O elevado é trazido abaixo, através de uma crise cujo mero prospecto oferece uma satisfação psicológica esmagadora e, assim, um extraordinário apego emocional.

Desde os anos 1980, o Marxismo tem tendido a se retirar do modo preditivo. Seus entusiastas sem dúvida continuam comprometidos com o prospecto de uma crise terminal do capitalismo, talvez até mesmo uma que seja iminente, mas a profecia Marxista parece tímida e incerta hoje, mesmo sob condições de um deslocamento econômico global incomum. Os Austrolibertários, por outro lado, estão sendo atraídos para um ramo profético – possivelmente contra sua vontade – com consequências incalculáveis para sua credibilidade futura. Sua suposição fundamental, de que governos são, por essência, incompetentes e desqualificados para administrar os sistemas monetários exigidos pelas economias avançadas, os leva uma conclusão quase inescapável: hiperinflação.

A hiperinflação poderia ser o único exemplo econômico de uma verdadeira singularidade: uma aproximação hiperbólica ao infinito (em tempo finito), produzindo um descontinuidade pontual. Quando a hiperinflação ocorre, ela escala rapidamente na direção de um limite firme, onde o dinheiro morre. Na esfera econômica, é o exemplo insuperável da incompetência de um regime. Como os Austrolibertários – cujas inclinações apocalípticas são equiparáveis apenas ao seu desdém pela autoridade política – não poderiam estar irresistivelmente atraídos por ela?

O blog Shadow Government Statistics de John Williams não é facilmente caracterizado como um site Austrolibertário ferrenho (Williams se descreve como um “conservador Republicano com uma inclinação libertária”), mas o prognóstico delineado cuidadosamente em seu Hyperinflation Special Report (2011) exemplifica a tendência a prever uma nêmesis iminente para a política monetária de comando-e-controle. Williams se subscreve de todo coração à certeza austríaca de que ’empurrar com a barriga’ – a característica central da política macroeconômica keynesiana – garante uma eventual catástrofe, e ‘eventual’ acabou de ficar muito mais perto. A nêmesis está para vencer.

Tanto o governo federal quando o Banco Central demonstraram que não tolerarão um colapso sistêmico e uma grande deflação, como vistos durante a Grande Depressão. …esses riscos estão sendo enfrentados, e serão enfrentados, a qualquer custo que possa ser coberto pela criação ilimitada de novo dinheiro. Era uma escolha do diabo, mas a escolha foi feita. Intervenções sistêmicas extremas e medidas formais para depreciar o dólar americano através da criação efetiva ilimitada de dinheiro, para cobrir as necessidades sistêmicas e as obrigações do governo, empurraram o momento de um colapso sistêmico – que se ameaçou em setembro de 2008 – diversos anos para o futuro. O custo da salvação instantânea, no entanto, foi a inflação. Um eventual colapso sistêmico é inevitável nesse ponto, mas será em uma grande depressão hiperinflacionária, em vez de uma deflacionária.

Williams não tem medo de cravar algumas datas, com 2014 proposto como o limite externo de possibilidade – e antes é mais provável:

No momento, é a Administração Obama que tem que considerar abandonar o padrão de dívida (hiperinflação) e começar de novo. Ainda assim, e Administração e muitos no Congresso tomaram ações recentes que sugerem que esperam apenas empurrar o dia do ajuste das crises econômica e sistêmica de solvência até depois da eleição presidencial de 2012. Eles não têm esse tempo

Como ele elabora:

As ações já tomadas para conter a crise de solvência sistêmica e para estimular a economia (que não funcionaram), mais o que deve ser um renovado impacto devastador da contração econômica inesperada sobre as receitas tributárias, prepararam o terreno para uma crise muito antes. Os riscos são altos de que a hiperinflação comece a romper nos meses adiante; ela provavelmente não pode ser evitada para além de 2014; pode já estar começando a se desenrolar.

É neste ambiente de rápida deterioração fiscal e de necessidades de financiamento massivas relacionadas que o dólar americano permanece aberto a um rápido e massivo declínio, junto com um dumping de Títulos do Tesouro dos EUA domésticos e estrangeiros. O Banco Central seria forçado a monetizar somas ainda mais significantes da dívida do Tesouro, desencadeando as fases iniciais de um inflação monetária.

Sob tais circunstâncias, os déficits atuais de vários trilhões de dólares rapidamente alimentariam um ciclo vicioso e auto-alimentador de desvalorização monetária e hiperinflação. Com a economia já em depressão, o início da hiperinflação rapidamente empurraria a economia para uma grande depressão, uma vez que rupturas vindas de uma inflação incontida provavelmente levarão a atividade comercial normal a parar.

O que acontece depois qualquer um pode especular.

A destruição hiperinflacionária da moeda de reserva do mundo seria um evento decisivo. A mera possibilidade de tal ocorrência divide o conjunto de potenciais futuros entre dois cursos. Em um, no qual o dólar americano sobrevive, o alarmismo Austrolibertário é humilhado, a competência econômica do governo dos EUA é – de maneira geral – confirmada, e os princípio da produção de moeda fiduciária e dos bancos centrais são reforçados, junto com seus apoiadores naturais entre os macroeconomistas anti-deflacionários neo-keynesianos. No outro, os Austrolibertários dançam nas cinzas do dólar, metais preciosos substituem o papel fiduciário, bancos centrais sofrem um ataque político fulminante, e o papel econômico do governo em geral fica sujeito a uma grande investida por livre mercadistas energizados. Pelo menos, é com isso que um universo justo ou uma aposta leal se pareceriam.

Apostar em um universo justo poderia ser o grande erro, contudo – e essa é uma tentação que a grande narrativa moralista Austrolibertária acha difícil de evitar. Em um universo moralmente indiferente, a Nêmesis não é redentora, e toda a aposta é uma Aposta de Pascal inversa, com desvantagens de todos os lados. Faça uma brava previsão de hiperinflação e ou você perde, ou você perde – neo-keynesianos regojizantes, maior endividamento e um governo mais gordo de um lado, ou alguma espécie ainda não consolidada de horror neo-totalitário do outro. (É digno de nota que uma turnê pela história dos regimes pós-hiperinflacionários não passa por muitos exemplos de repúblicas comerciais laissez-faire.)

Então, o dólar vai morrer? Bastante possivelmente. E aí as coisas poderia ficar realmente sórdidas – mais Harold Camping do que Ludwig von Mises: “corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.”

Original.

Chimérica

Uma nova ordem mundial vai para o saco

“Por quase 30 anos, tivemos duas Estratégias Globais funcionando de maneira simbiótica, o que criou uma espiral virtuosa de crescimento econômico. Infelizmente, os fundamentos econômicos eram falhos e, como consequência, o ciclo virtuoso acabou. Ele está agora no processo de se reverter e se tornar uma espiral econômica viciosa descendente”, escreve Gordon T. Long, em um post convidado no Zero Hedge. “Uma das estratégias é a Estratégia Mercantil Asiática. A outra é a Estratégia da Moeda de Reserva do Dólar Americano.”

O sistema que Long vê se desvendando foi apelidado de ‘Chimérica’ por Niall Ferguson e Moritz Schularick, em referência à mítica besta híbrida da antiguidade. A Chimérica emergiu através do acoplamento dinâmico das economias dos EUA e chinesa, que dominou a onda de globalização no mundo pós-economia de comando. Ela serviu como um poderoso motor de desenvolvimento, espalhando prosperidade para além do estreito enclave do ‘Primeiro Mundo’ (euro-americano) e facilitando a implantação global das tecnologias de redes digitais, do computador pessoal e telefonia móvel à Internet. Nos anos recentes, contudo, suas características insustentáveis ficaram proeminentemente visíveis.

Em seus fundamentos, a Chimérica equivalia a algo similar a um ‘acordo’ geopolítico informal que simultaneamente promovia o status internacional do dólar americano e a industrialização doméstica chinesa. O principal mecanismo financeiro era a reciclagem de excedentes comerciais chineses em Obrigações do Tesouro dos EUA, em um processo que acentuou a competitividade chinesa (ao restringir a subida do Yuan) e suprimiu a inflação dos EUA (preservando a credibilidade do USD). Isto permitiu que a expansão industrial chinesa procedesse a uma velocidade bem maior do que seu mercado doméstico poderia ter suportado, ao passo que forneceu aos governos dos EUA a latitude para operar uma política monetária cronicamente relaxada, imunizada contra o prospecto de colapso monetário. Os setores de manufatura chinesa e bancário americano foram os mais óbvios beneficiários. Ambos prosperaram conspicuamente.

Como Niall Ferguson escreveu em novembro de 2008, nos primeiros dias da crise financeira mundial:

“No coração desta crise está o gigantesco desequilíbrio entre os Estados Unidos, com seu atual déficit 1 por cento em excesso do produto interno bruto do mundo, e os países de excedente que o financiam: os exportadores de petróleo, o Japão e a Ásia emergente. Destes, o relacionamento entre a China e a América tem se tornado crucial. Mais do que qualquer outra coisa, tem sido a estratégia da China de acumulação em reserva de dólar que tem financiado o hábito de dívidas da América. A poupança chinesa é uma razão chave para as taxas de juros a longo prazo dos EUA terem ficado baixas e a farra de empréstimos ter continuado. Agora que a era de alavancagem acabou, a ‘Chimérica’ – a parceria entre o grande economizador e o grande gastador – é chave.”

Tendo alcançado um estado de crise, a Chimérica parece certa de se desfazer. Isto poderia ocorrer ou através de um reequilíbrio medido que aumente o consumo doméstico chinês ao passo que reduz o gasto deficitário dos EUA, ou como uma desintegração bagunçada – envolvendo uma repentina contração de demanda, guerras monetárias e uma escalada nas recriminações mútuas. Qualquer que seja o eventual desenlace, uma ordem mundial remodelada é um resultado inevitável – ou seja, definidor.

Ao passo em que Ferguson limita suas apostas, Gordon Long explica uma previsão específica e agourenta, na qual o ciclo virtuoso da globalização chimericana se reverte em uma viciosa ‘espiral da morte’. Conforme a ‘saturação de débito‘ fecha a opção de continuidade de políticas, as ações do Banco Central dos EUA se tornam manifestamente ineficazes, auto-contraditórias e, em última análise, paralisadas. Há muito adiado, o processo de destruição da moeda começa, então, a sério. Long oferece uma lista útil de marcos na estrada para a ruína (procedendo a partir da calamidade financeira, passando pela econômica, até a política):

1. Um dólar americano em deterioração

2. Taxas de juros crescentes nos EUA

3. Desemprego sustentado e crônico nos EUA

4. Inflação asiática, especialmente em comida, onde 60% da renda asiática disponível é gasta

5. Pressões sobre as indexações monetárias asiáticas

6. Valores das participações do BC dos EUA em colapso

No final deste processo, o mundo terá sido violentamente catapultado para fora de uma arquitetura financeira que remonta a 70 anos atrás e de uma filosofia monetária dominante que prevaleceu ao longo do curso de séculos.

“A eventualidade de uma crise da moeda fiduciária está estabelecida e tem estado desde os primeiros avisos em 2007 sobre a Crise Financeira”, insiste Long. “O roteiro ficou claro para todos que realmente quiseram olhar.”

Original.

Conectividade

Duas garotas incomuns testam os limites da identidade

Na vanguarda da tecnologia da informação – e em meio aos comentários ‘transhumanistas’ que ela estimula – a ideia de auto-identidade está sofrendo um interrogatório implacável. As culturas influenciadas de maneira substancial pelas tradições religiosas abraâmicas, nas quais a integridade resiliente e a individualidade fundamental da ‘alma’ são fortemente enfatizadas, estão especialmente vulneráveis ao prospecto de uma revisão conceitual radical e desconcertante.

A informatização das ciências naturais – incluindo as neurociências – garante que a investigação do cérebro humano e a inovação de sistemas de inteligência artificial avancem em paralelo, ao mesmo tempo em que reticulam e reforçam mutualmente uma à outra. Cada vez mais, o entendimento do cérebro e de sua emulação digital tende a se fundir em um único programa de pesquisa complexo. Conforme este programa emerge, metafísica arcaica e doutrinas espirituais se tornam problemas de engenharia. A identidade individual se parece cada vez menos com uma propriedade básica e mais com uma realização precária – ou desafio – determinada por processos de auto-referência e por um isolamento comunicativo relativo. (Casos de ‘cérebro dividido’ ilustraram de maneira vívida a instabilidade e a artificialidade do indivíduo auto-identificador.)

Uma programa de IA – ou um cérebro – que fosse acoplado de maneira estreita à Internet através de conexões de banda larga ainda se consideraria estritamente individuado? Ciborgues – ou uploads mentais – dissolvem suas almas? Um robô em rede poderia dizer ‘eu’ e falar sério? Uma vez que tais questões estão se tornando cada vez mais proeminentes e práticas, não é surpreendente que um artigo do New York Times de Susan Dominus, devotado às gêmeas siamesas craniopagus Krista e Tatiana Hogan, tenha gerado uma quantidade incomum de excitação e links na Internet.

As gêmeas não são apenas fundidas pela cabeça (craniopagus), seus cérebros são conectados por uma ‘ponte neural’ que permite que sinais passem de um ao outro. O neurocirurgião Douglas Cochrane propõe “que os estímulos visuais entram através das retinas de uma garota, alcançam o seu tálamo e então tomam dois cursos diferentes, como a eletricidade que viaja ao longo de um fio que se divide em dois. Na garota que está olhando para o estrobo ou para um bicho de pelúcia em seu berço, o estímulo visual continua em seu caminho usual, um dos quais acaba no córtex visual. No caso da outra garota, o estímulo visual alcançaria seu tálamo através da ponte talâmica e então viajaria até os seus próprios circuitos neurais visuais, acabando nos sofisticados centros de processamento de seu próprio córtex visual. Agora ela viu, provavelmente milissegundos depois de sua irmã.”

Os cérebros das gêmeas, ou um cérebro-gêmeo? O caso Hogan é tão extraordinário que uma ambiguidade irredutível surge:

Os cérebros das garotas são formadas de maneira tão incomum que os médicos não conseguiram prever como seria o seu desenvolvimento: cada garota tem um corpus callosum incomumente pequeno, a banda neural que permite que os dois hemisférios cerebrais se comuniquem, e, em cada garota, os dois hemisférios cerebrais também diferem em tamanho, com o hemisfério esquerdo de Tatiana e o direito de Krista sendo significante menores do que é típico. “A assimetria levanta questões intrigantes sobre se um consegue compensar o outro por causa da ponte cerebral”, disse Partha Mitra, um neurocientista no Cold Spring Harbor Laboratory, que estuda arquitetura cerebral. A cognição das garotas pode tem estar enfrentando desafios específicos que ninguém mais experimentou: algum tipo de conversa cruzada confusa que exigiria energia adicional para filtrar e processar. Além de separar as experiências sensoriais comuns do mundo, os cérebros das garotas, acreditam seus médicos, foram forçados a se adaptar a sensações que se originam nos órgãos e nas partes do corpo de uma outra pessoa. …Krista gosta de ketchup, e Tatiana não, algo que a família descobriu quando Tatiana tentou raspar o condimento de sua própria língua, mesmo quando não o estava comendo.

Conforme elas lutam para fazer sentido de seu limites, as gêmeas são avatares de uma confusão iminente e universal:

Embora cada garota frequentemente usasse “eu” quando falava, eu nunca ouvi nenhuma dizer “nós”, apesar de toda sua colaboração. Era como se mesmo elas parecessem confusas sobre como pensar sobre si mesmas, com a linguagem correta talvez as eludindo neste estágio de desenvolvimento, sob essas circunstâncias incomuns – ou talvez sem sequer existir. “É como se elas fossem uma e duas pessoas ao mesmo tempo”, disse Feinberg, o professor de psiquiatria e neurologia no Albert Einstein College of Medicine. Que pronome captura isso?

Original.