Soberania na Internet

Um declaração de importância geoestratégica imensa é notada pelo Wall Street Journal:

Na extensão de uma página na segunda-feira, o jornal porta-voz do Partido Comunista traçou a posição da China sobre como se deveria lidar com a Internet e sua infraestrutura em todo o globo.

A página apresentava entrevistas com cinco experts chineses, incluindo o chamado "pai" do Grande Firewall da China, Fan Binxing. O resultado: Eles acreditam que cada país deveria ter poder definitivo de determinar qual tráfego da Internet flui para dentro e para fora de seu território. É um conceito que a China denominou como "soberania na Internet" e, embora as opiniões de cada expert no artigo variasse, a mensagem central é que cada nação deveria ter o direito de governar a Internet como lhe aprouver.

A única previsão absolutamente segura nesse ponto: Vai ser complicado.

ADICIONADO: Certamente relacionado —

Concebida pelo Pentágono a fim de manter linhas de comunicação abertas depois de um ataque atômico, a Internet se tornou uma ameaça. A humanidade mais uma vez foi mais esperta que si mesma. Agora precisamos de confiança em nossa capacidade de encontrar uma maneira de neutralizar o inimigo.

(Boa sorte com isso.)

ADICIONADO: The Diplomat estranhamente minimiza o caráter defensivo da iniciativa.


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Links para Ayache

Há uma troca desalinhada de ideias com Elie Ayache ocorrendo nesta seção de comentários (conduzida, do lado de Ayache, com graça impecável). Chegar a um estado de competência mínima nessa conversa não vai ser fácil. Caso outros estejam inspirados a escalar os mesmos intimidadores penhascos intelectuais, eu reuni alguns links preliminares.

O arquivo principal dos seus escritos está aqui.

Sobre a principal obra de Elie Ayache, The Blank Swan ("O Cisne Branco", ainda sem tradução), o próprio EA se refere a duas análises, no NYT e no The Hindu. (O primeiro é sugestivo de completa incompreensão, o último faz uma impressão mais convincente de um entendimento pelo menos tênue.)

‘The Medium of Contingency’ ("O Meio da Contingência"), um ensaio filosófico no qual Ayache esboça sua tese básica, pode ser encontrado aqui.

Duas seções de discussão se engajam na obra de Ayache (aqui e aqui). Ayache participa da primeira como "numbersix".

A obra de Ayache é onde o Realismo Especulativo (especialmente Meillassoux) intercepta a realidade econômica. De uma perspectiva alternativa, ela é uma ‘radicalização’ extrema da crítica de Nassim Nicholas Taleb à modelagem gaussiana do mercado.

Ao descrever The Blank Swan, Ayache resume seu argumento como "… colocar o preço antes da probabilidade e a contingência absoluta antes da possibilidade". Interpretado em termos mais literários-filosóficos, isso equivale a "… uma reconstrução do mercado das reivindicações contingentes no âmbito da escrita e da diferença, em vez da identidade da delimitação de estados".

Este blog mantém que a inferência bayesiana (subjetiva probabilística) aplicada é o esquema insuperável da racionalidade capitalista, ou processamento de risco, em geral, como mais lucidamente evidenciado na especulação financeira. Quando Ayache alega ter excedido tal pensamento, para chegar em uma compreensão prática (e até mesmo algorítmica) da contingência absoluta, a resposta inicial do UF só pode ser altamente cética. Atualmente, tais reservas estão sendo sustentadas apenas como ‘antecedentes’ primitivos. Em outras palavras, esta inovação intelectual se parece, obscuramente, com uma aposta muito ruim.


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Viés Verbal

É muito fácil pros tipos limitados às palavras se esquecerem do que a Internet é feita:

Impressões de fotos chegaram ao seu pico em (digamos) 80bi ou algo assim em 1999.
Compartilhamentos anualizados no FB + WhatsApp + IG + SC = mais de meio trilhão anualizados.
Filmes já foram um quarto da demanda por prata do mundo.

É o mesmo argumento que aparece em uma pesquisa recente de Nellie Bowles sobre o ‘momento‘ da tecnologia em LA:

"Os americanos assistem 5.3 horas de televisão por dia, e eles leem menos de meia hora", o VC Mark Suster me contou mais tarde. "Quer você goste ou não, você não vai mudar os padrões de consumo das pessoas de modo dramático. Se você aceitar essa premissa, então você tem que aceitar que Internet vai se tornar uma grande plataforma de vídeo, e LA vai ganhar."


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Leitura Rápida

No Dark Alien Social Ecologies, Craig Hickman embarca em uma recapitulação do Aceleracionismo em múltiplas partes. Sua decisão de enquadrá-lo como ‘Prometeico’ gera uma abundância de material para discussão, mesmo antes de se deixar o título. Com a primeira parte pairando à beira do Manifesto por uma Política Aceleracionista de Williams e Srnicek, ela está pronta para fornecer a visão geral mais abrangente da corrente até o momento. (Vide a contribuição de Hickman aos seus próprios comentários para um senso da estrutura geral).

Um tema emergente — a partir do texto de Hickman e de seu halo — é a significância irredutível do Aceleracionismo enquanto sintoma, o que seria dizer: enquanto registro do estímulo capitalista. Questões relacionadas ao seu potencial de resistência cultural se retorcem, quase imediatamente, em estimativas da provocação teconômica. A crítica arquetípica do aceleracionismo toma a forma de: O Capital não tem nenhum direito de nos excitar. Há um escorregão para dentro de uma controvérsia ético-estética altamente carregada (como Hickman observa). Ele não deveria ser fascinante.

HK3

(Em lugar nenhum no Reino Unido)

"… o capitalismo é qualquer coisa menos excitante. Ele é mundano, chato" diz Edmund Berger, nos comentários. Por mais vazia que uma afirmação dessas possa soar, ela transmite uma tese complexa, de pertinência, insistência e significância notáveis e de importância prática bem maior do que qualquer objeção meramente técnica poderia ter. Será necessário dizer muito mais sobre ela, em algum ponto futuro. Por ora, a resposta mais premente é superficialmente trivial: Quanta tristeza geo-histórica se encontra refletida em tal posição?

ADICIONADO: Accelerationism: The New Prometheans por Craig Hickman Parte Dois: Seção Um Parte Dois: Seção Dois Cyberlude Red Stack Attack! Automate Architecture

Também:
Accelerationism: Ray Brassier as Promethean Philosopher
no boredom – Arran James on Mark Fisher and Accelerationism beyond Boredom
Accelerationism, Boredom and the Trauma of Futurity
Nick Land and Teleoplexy – The Schizoanalysis of Acceleration
Science Fiction, Technology, and Accelerationist Politics: Final Thoughts on an Williams and Srnicek’s Manifesto


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Ciclos Competitivos

Um argumento interessante de Marc Andreessen sobre algumas dinâmicas comparativamente negligenciadas da concorrência tecnológica (extratos selecionados):

1/Compressão do tempo de ciclo pode ser a força mais subestimada na determinação de vencedores & perdedores na tecnologia.
— Marc Andreessen (@pmarca) June 3, 2014

6/Segunda instância clara da compressão de tempo de ciclo: Melhorias de produto & ciclos de atualização para o consumidor para telefones vs TVs e carros.
— Marc Andreessen (@pmarca) June 3, 2014

7/Consumidores podem atualizar seus telefones a cada 1-2 anos, vs TVs a cada 5-8 anos? Carros a cada 10-12 anos? Com os telefones melhorando a passos largos.
— Marc Andreessen (@pmarca) June 3, 2014

9/Implicação: TVs e carros se tornarão acessórios para telefones, não o contrário. E já está acontecendo: Airplay, Chromecast.
— Marc Andreessen (@pmarca) June 3, 2014

Parece se seguir deste argumento que forças competitivas conduzem ciclos de produto na direção da compressão e, assim, da aceleração tecno-econômica. Indústrias com o comprimento de onda teconômica mais curto (maior frequência) ascendem à dominância, drenando recursos de setores relativamente retardados e resetando o pulso social para velocidades cada vez maiores.

ADICIONADO: Os "ensaios de twitter" de Andreessen integrados para uma leitura conveniente.


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Usurpação do Replicador

O gráfico da evolução do desempenho computacional, feito em 1998 por Hans Moravec, surgiu na Twittersfera (via Hillary Haley). Ele tem vinte e dois anos agora, mas a estória que ele conta não mudou muito (o que significa que o clímax está bastante mais próximo).

Moravec-graph

(Clique para ampliar)

O que aconteceu com a curva? De acordo com este relato, ela se nivelou de maneira significativa desde 2002, mas nunca foi fácil se fixar exatamente o que quantificar. MIPS são geralmente ridicularizadas enquanto métrica, em parte devido à simples obsolescência quantitativa (que excede três ordens de magnitude desde 1998).

O determinismo do hardware de Moravec, brutalmente quantitativo, permanece sendo uma ferramente preditiva crível, contudo, especialmente se espera-se que efeitos emergentes não planejados dominem (soterrando a engenharia de software). Uma vez que a história tenha vomitado capacidade cerebral sintética o suficiente, as coisas podem começar a se mudar para lá.


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Tecno-Leviatã

Escrevendo na E-International Relations, Brett Scoot levanta uma crítica de Esquerda à revolução do blockchain, em um nível estimulante de sofisticação teórica. Seu argumento central é importante: Cripto-sistemas de blockchain são a realização tecnológica do impulso "distópico e conservador" — primeiro cristalizado por Thomas Hobbes — de se estabelecer uma soberania politicamente imunizada. Esse modelo social, previamente subvertido pela falível humanidade dos líderes, está finalmente se tornando alcançável na forma de um governo algorítmico, o Tecno-Leviatã de Scott:

Libertários conservadores se mantém firmes na crença de que, se apenas direitos de propriedade fortes e regras claras de contratação fossem postos em prática, sistemas ótimos espontaneamente emergiriam. Na verdade, eles não estão tão longe de Hobbes nesse sentido, mas sua irritação com a visão de Hobbes é que ela depende de políticos que, sendo pessoas reais, não agem como um Soberano contratual desapegado deveria, mas sim tentam intervir, tornar as coisas melhores, ou roubar. Blockchains descentralizados não oferecem o prospecto derradeiro de direitos protegidos de propriedade com regras claras, mas sem a interferência política?

Scott navega o Teste de Turing Ideológico bem o suficiente para se tornar um ponto de referência em discussões futuras. Seus oponentes, sem dúvida, em muitos casos concederão (como esse blog) que a ‘distopia’ que ele descreve, embora retratada em tons agourentos e fúnebres, captura notavelmente bem os apegos — e des-apegos — dos zelosos promotores do blockchain.

Scott claramente pensa que a confiança política é um bem social que pode ser reconstruído ou recuperado (talvez reinicializando-se a democracia). Ainda que assim o seja, o tempo restante para essa operação de salvamento está acabando rápido


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China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial, Parte 2

Eu tenho muitos amigos que são programadores. Os programadores sempre foram tipo "Esses caras [do Bitcoin] são loucos".

E então, quase 100 por cento do tempo, eles sentam, leem o artigo, leem o código — demora umas duas semanas — e eles saem do outro lado. E eles ficam tipo: "Meu deus, é isso. Esse é o grande avanço. Essa é a coisa pela qual estivemos esperando. Ele resolveu todos os problemas. Quem quer que ele seja deveria ganhar o Prêmio Nobel — ele é um gênio. É isso! Essa é a rede de confiança distribuída que a Internet sempre precisou e nunca teve".

Então, um dos desafios é você pegar pessoas que não são programadores profissionais ou matemáticos e então esperar que elas entendam desde o início. E é intimidador. E então uma palavra é anexada a isso, como ‘moeda’ ou do que quer que você queira chamar isso, e aí as pessoas acham que é algo que não é. E você tem uma noção disso, mas é um conceito muito mais profundo do que moeda. É a ideia de confiança distribuída.

—Marc Andreessen (em conversa com Brian Fing)

Fotografia secreta do BTC Guild, o maior pool de mineração de Bitcoin e um dos mais antigos pools restantes de Bitcoin (crédito: Jakub Szypulka CC-BY)

Observou-se, na primeira parte dessa série de ensaios, que a ordem econômica do mundo está sendo radicalmente remoldada por duas transformações aproximadamente coincidentes de consequências estupendas: uma mudança secular da capacidade industrial, do Ocidente para o Oriente, e uma revolução baseada na Internet na natureza do dinheiro. Desses eventos, o primeiro já está profundamente estabelecido, e é reconhecido de maneira geral, ao passo que o último ainda está em um estágio inicial de emergência e, até o momento, é bem menos óbvio em suas implicações. A intersecção entre eles permanece profundamente obscura.

Um tópico que parece, tentadoramente, conectar esses fios históricos é a morte em perspectiva – ou pelo menos o rebaixamento radical – do dólar dos EUA. O Dilema de Triffin argumenta que qualquer moeda que alcance o status de reserva mundial tende, de maneira talvez irresistível, a se destruir.[1] O declínio econômico relativo da América parece pronto para exacerbar o ‘inverno’ desse grande ciclo. Do outro lado, o dólar é ameaçado pela emergência fragmentada de um sistema monetário não estatal totalmente sem precedentes, livre de todas as instituições familiares de gestão monetária. No horizonte histórico do dólar americano globalizado, o yuan chinês e o bitcoin estão obscuramente reunidos.

Abstratamente antecipada, essa ameaça gêmea se integra em um único evento de significância composta, mas previsões concretas podem facilmente se perder em suas novas complexidades. Por cerca de meio milênio, as transições na liderança econômica mundial foram suavizadas por afinidades culturais e colaboração estratégica íntima, dentro de uma tradição comercial protestante que compartilhava de uma língua comum, e de inimigos comuns, desde o final do século XVIII[2]. Nada comparável é concebível hoje, conforme a supremacia global americana é erodida em um contexto de intensa competição estratégica e marcada diferença entre civilizações.

Dentro de um dos armazéns na Islândia estão as plataformas de mineração da Cointerra, da KnCMiner e da recém-chegada spondoolies-tech. Esses equipamentos empilhadas indicam claramente que a mineração de bitcoin agora é um empreendimento profissional e que estudantes minerando bitcoins inteiros em seus dormitórios logo serão coisa do passado. A CloudHashing está pronta para expandir suas operações. Fonte: cryptocoinsnews.com. Todos os direitos reservados.

Em relação à passagem da libra esterlina para o dólar dos EUA, a adoção sistemática do yuan chinês exigiria "cruzar o grande oceano" – uma expedição tão intimidadora que é improvável, em qualquer sentido simples, que ela ocorra. Superficialmente, as criptomoedas digitais estão situadas em um grau ainda mais distante de separação, alheias até aos pontos em comum que abrangem o abismo entre civilizações. E, ainda assim, elas são positivamente promovidas pela proximidade do iminente precipício monetário mundial, porque representam uma solução para a ausência de confiança.

A palavra "bitcoin" representa duas coisas muito diferentes (embora uma contenha a outra). Em seu uso estrito e exato, ela designa uma moeda específica, abreviada como BTC, que encarna um um sistema monetário radicalmente inovador, cujo projeto foi plenamente especificado no artigo "Bitcoin" de Satoshi Nakamoto em 2008.[3] A moeda se tornou operacional em 2009.

O artigo de 2008 é tanto uma invenção prática quanto uma contribuição substancial para a filosofia do dinheiro. Seu discernimento central é de que o dinheiro funciona como um sistema de racionamento, adquirindo valor ou aplicação a bens e serviços comercializáveis através de uma função de escassez. Se for para o dinheiro digital efetuar essa função, ele tem dois problemas interconectados para resolver. Ele tem que ser intrinsecamente limitado e tem que ser exclusivamente alienável.

O Bitcoin resolve o primeiro desses problemas ao emular um metal precioso. Ele é obtido através de um processo de mineração que requer trabalho criptográfico, a fim de acessar bitcoins de uma ‘reserva’ finita, liberados em estágios e somando, no total, 21 milhões de BTC. Preservar a finitude desse estoque monetário de bitcoins depende da solução para o segundo problema — o de ‘gasto duplo’. Considerado o principal obstáculo para a criação de um dinheiro digital, o problema do gasto duplo surge automaticamente em um meio que efetua transferências através de cópias. A menos que o dinheiro seja deduzido do pagador enquanto é creditado ao beneficiário, despesas que conservem o valor são impossíveis, e, contudo, essa simples operação — que vai na contramão da troca digital de informações — parecia exigir a introdução de um garantidor, ou parte externa confiável, que o sistema em si era incapaz de fornecer integralmente.

Equipamento privado de mineração. Fonte: bitcoinexaminer.org. Todos os direitos reservados.

Este é o avanço mais inconfundível do Bitcoin. Toda transação que ocorre dentro do sistema é incluída em um livro público sequencial, ou blockchain, que tem que ser atualizado como um todo para que qualquer troca seja registrada. O trabalho criptográfico da atividade mineradora do sistema agora adquire uma segunda função automática, a de validar cada iteração do blockchain e de defender o livro da usurpação por parte de agentes fraudulentos. O garantidor de cada transferência – preservadora de valor – ’em dinheiro’ é, portanto, todo o blockchain em si, operando como um mecanismo de confiança espontâneo ou independente de agentes. Através desse registro continuamente atualizado e integrado de todos os eventos comerciais, o blockchain sustenta um relato consistente da escassez sintética comunicável pela Internet, ou racionamento digital auto-regulado — em outras palavras, o primeiro sistema monetário eletrônico totalmente descentralizado do mundo. A escassez do Bitcoin é descentralizada devido a sua independência em relação às promessas de uma autoridade emissora.

Ao descrever esse sistema, passa-se muito rapidamente do singular para o genérico, de uma maneira que é facilmente entendida por analogia e digna de reflexão momentânea. Tivesse "Netscape" sido adotado como o nome de navegadores web em geral, certas confusões teriam certamente surgido. De maneira mais significativa, a questão "o Netscape sobreviverá?" teria sido fatalmente ambígua. Como a história real demonstrou, o Netscape nesse sentido contra-factual era tanto capaz de morrer quanto de florescer para além de qualquer expectativa anterior. Muitas centenas de milhões de pessoas usam um ‘Netscape’ todos os dias, embora sob outros nomes (gerais e específicos), ao passo que apenas uma fração extremamente pequena está ciente de que o Netscape jamais existiu. Não está claro se o Bitcoin, em seu sentido específico, jamais poderia ser inteiramente extinto, mas ele certamente poderia ser marginalizado para a borda da irrelevância: expulso do mercado por criptomoedas competitivas, através das quais o Bitcoin, no sentido geral, avança em direção à ubiquidade.

Em sua evocação mais ampla, o Bitcoin simboliza uma revolução crescente da Internet, de escala e profundidade que são difíceis de exagerar. A capacidade técnica exigida para operar o BTC — software instalado de sustentação para o blockchain — tem potencial para se estender muito além da moeda em si, e apenas uma fração muito pequena disso tem sido explorada até o momento. Isso é mais dramaticamente evidenciado no crescimento de altcoins, uma extensa ecologia de ramificações do bitcoin, ou sistemas de contrato P2P parecidos com o Bitcoin, marcadas pelo sufixo "-coin". Altcoins proeminentes incluem Darkcoin, Dogecoin, Litecoin, Namecoin e Truthcoin, com muitas outras a caminho. Na borda exterior da abstração do blockchain estão aplicações tais como o Ethereum, cuja linguagem de programação Turing-completa pode dar suporte a smart contracts e até mesmo agentes inteligentes autônomos. Neste ponto de sofisticação, a potencialidade últimas do sistema não são meramente subdeterminadas, mas indetermináveis em princípio, e o portal para um cosmos tecno-comercial previamente não visitado está aberto.

É essa extrema generalidade que Eli Dourado celebra em seu artigo "Bitcoin isn’t Money — It’s the Internet of Money" ("O Bitcoin não é Dinheiro — Ele é a Internet do Dinheiro", argumentando:

"O Bitcoin não é apenas um substituto para o dinheiro; ele pode ser uma forma de contratação generalizada, programável e descentralizada. […] A maior parte dos críticos do Bitcoin estão cometendo um erro categórico. Eles estão mirando na moeda do Bitcoin, quando, na verdade, o Bitcoin é muito mais que uma moeda, da mesma maneira que a Internet é muito mais do que os serviços de telecomunicação que a precederam. […] O Bitcoin é uma nova camada de transporte para finanças, que permite o desenvolvimento descentralizado, disruptivo e sem permissão[4] de aplicações em uma camada separada. Ele tem a capacidade de fazer pelas finanças o que a Internet fez pela comunicação."

Entre as facilidades embasadas no blockchain que Dourado vislumbra estão contratos de garantia, mercados de previsão e micropagamentos contínuos, além de um notário, identidades vinculadas e serviços de classificação de reputação. É fácil de ver porque ‘sacar’ o Bitcoin desencadeia algo similar a um choque metafísico. Como um depositário digital auto-suficiente de identidades legais, ele exibe — virtualmente — um potencial para absorver a infraestrutura cultural das transações formais sem limites óbvios. Talvez não exista nenhum ‘negócio’ concebível sem compatibilidade com o blockchain e, portanto, nenhum horizonte definitivo para sua utilidade comercial, legal ou mesmo política.

De particular relevância aqui é a inovação do blockchain da confiança artificial, frequentemente referido como ausência de confiança, uma vez que ela substitui a confiança e está, assim, pré-adaptada para um mundo no qual a confiança não está disponível.[5] Sob as condições atualmente iminentes, de uma transição hegemônica que ocorre para além do consenso internacional ou da continuidade civilizacional, essa característica profunda do Bitcoin parece certa de ser colocada em primeiro plano. Por uma coincidência aparentemente notável, uma ordem em colapso de promessas, ou de autoridades globais críveis, é acompanhada pela emergência de um sistema alternativo de credibilidade. Conforme os sustentáculos tradicionais da arquitetura institucional do mundo são sujeitados a uma erosão acelerante[6], o prêmio para uma funcionalidade sem confiança só pode aumentar. O Bitcoin se sugere como um substituto para autoridades garantidoras, ao passo em que abre visões inteiramente novas de criação institucional descentralizada. O contexto de fricção, disfunção e desacordo de um mundo em desordem hegemônica apenas reforça sua atração.

Em comparação com as transições suaves em supremacia econômica, das Províncias Unidas, para o Reino Unido, para os Estados Unidos, a passagem para além da ordem mundial americana só pode ser considerada dura. É essa dureza que molda a tomada, para a qual o Bitcoin — em seu sentido mais expansivo — é o plugue. A instalação de sistemas sem confiança se encaixa em um buraco no mundo.

Como o surgimento de tecnologias sem confiança na Internet modifica a paisagem estratégica das grande potências e dos outros principais atores mundiais? Em que medida suas respostas podem ser antecipadas? Apenas abordando essas questões é que alguma concretude pode ser introduzida em nosso entendimento do caminho adiante. Elas, portanto, fornecem o tópico para a terceira (e última) parte dessa série.


Notas:

[1] O mecanismo, descrito de maneira aproximada, é que os déficits crônicos exigidos para a distribuição internacional de uma moeda de reserva minam os fundamentos econômicos domésticos dos quais a credibilidade dessa mesma moeda inicialmente, e em última análise, depende. Esse mecanismo endógeno é afiado por rivalidades geoestratégicas e é ainda mais desestabilizado por fatores complicadores e parcialmente independentes, tais como as vicissitudes da convenção do petrodólar. Em combinação, seu efeito tem exibido uma direcionalidade clara nos tempos recentes, com a proporção de reservas estrangeiras internacionais mantidas em dólares dos EUA caindo de 55% para 33% desde 2000.

[2] A transição da liderança econômica mundial das Províncias Unidades para o Reino Unido foi institucionalmente facilitada pela integração transnacional de elites, coroada pela Revolução Gloriosa de 1688. A sucessão posterior dos Estados Unidos à preeminência econômica global envolveu um grau menos claramente formalizado, mas não obstante inconfundível de coordenação do regimes, construída em grande parte sobre a cooperação militar, administrativa e de inteligência forjada no crisol da Segunda Guerra Mundial. Inúmeros indicadores podem ser mencionados, incluindo até mesmo o fator dinástico da ancestralidade híbrida anglo-americana de Winston Churchill.

[3] A identidade de Satoshi Nakamoto permanece um tópico de especulação intensa, que excede os limites da atual discussão.

[4] Dourado cita o artigo de 2012 "Keep the Internet Open" ("Mantenha a Internet Aberta") de Vinton Cerf, onde a noção de "inovação sem permissão" desempenha um papel conceitual crucial.

[5] Pesquise a combinação "sem confiança + bitcoin" no Google para uma confirmação abundante.

[6] As autoridades monetárias são o exemplo mais relevante aqui, mas qualquer instituição dependente de alguma medida de confiança pública está, em princípio, suscetível a uma concorrência implícita com alternativas embasadas no blockchain (ou seja, sem confiança).


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