Para Além da Urbanização

‘Urbanização’ não captura muito do que as cidades estão fazendo

(Este post é basicamente uma nota de rodapé preventiva. Por favor, sinta-se ainda mais livre para ignorá-la do que você normalmente estaria.)

O tópico principal do Urbano Futuro é o desenvolvimento das cidades (com Shanghai enquanto caso exemplar). É peculiarmente frustrante, portanto, descobrir que nenhum termo único existe para descrever um processo que é, sem dúvidas, o mais importante de todos os fenômenos sociais e até mesmo a chave para qualquer significado que possa ser descoberto na história humana.

Uma coisa, pelo menos, é clara (ou deveria ser): o desenvolvimento urbano não é urbanização.

‘Urbanização’ é um conceito demográfico comparativamente rigoroso e bem definido, que se refere à redistribuição dinâmica de populações da existência não-urbana para a urbana. Uma vez que descreve a proporção de habitantes de cidades dentro de uma população, ela pode ser quantificada por uma percentagem, que estabelece um limite matemático estrito para o processo (assintótico em 100% urbanizado). Quando concebida historicamente, a aproximação a este limite segue uma curva abrupta, que ecoa as tendências (abertas) exponenciais ou super-exponenciais da modernização e da industrialização.

Embora teoricamente indispensável, claro, significativo e informativo, o conceito de urbanização é inadequado ao fenômeno do desenvolvimento urbano. As cidades são essencialmente concentracionais ou intensivas. Elas são definidas pela densidade social, distribuição desigual ou entropia negativa demográfica. A urbanização descreve apenas uma parte disso.

Dentro de todo o sistema demográfico, a urbanização fornece uma medida da fração urbana (embasada em uma definição pelo menos semi-arbitrária de uma cidade, por tamanho e por fronteira). Ela não diz nada sobre o padrão das cidades: quão numerosas elas são, o quanto elas diferem em escala relativa, quão rápido as cidades maiores crescem em comparação às menores ou, em geral, se uma população urbanizada está se tornando mais ou menos homogeneamente distribuída entre cidades. Na verdade, ela não nos diz nada que seja sobre a distribuição da população urbanizada, excepto que ela está, de alguma forma, agrupada em aglomerações de ‘escala citadina’.

Uma vez ‘agrupadas’ – ou trazidas para dentro do limiar espacial de uma nuvem de tamanho de cidade – uma partícula demográfica troca de identidade binária, de não-urbanizada para urbanizada. Registrada enquanto habitante de uma cidade, não há mais nada a ser dito sobre ela. Ainda assim, a cidade é, em si, uma distribuição, de densidade variável, ou concentração heterogênea. Dentro de cada cidade, a intensidade urbana pode aumentar ou cair, independente do nível geral de urbanização. O limite da urbanização não estabelece nenhuma restrição sobre as tendências de intensificação urbana, como exemplificado pela arquitetura de arranha-céus.

A urbanização é um conceito proporcional, indiferente à escala demográfica absoluta. Em contraste, medir intensidade, ou entropia negativa, fornece uma informação refinada que cresce com o tamanho do sistema considerado (uma vez que a medida da entropia é uma função logarítmica da escala do sistema, definida pela totalidade de distribuições possíveis, o que cresce exponencialmente com a população). Embora os fenômenos científicos sociais ou demográficos sejam altamente intratáveis para a análise intensiva quantitativa, sua realidade ainda assim é intensiva, o que seria dizer: determinada por uma variação distributiva de magnitudes absolutas. A medida da urbanização não é afetada pela duplicação da população de uma cidade, a menos que a população geral cresça a uma taxa menor. A intensidade urbana, em contraste, é altamente sensível à flutuação demográfica absoluta (e, não raramente, hiper-sensível).

Intensidades são caracterizadas por limiares de transição. Conforme elas crescem e caem, elas cruzam ‘singularidades’ ou ‘transições de fase’ que marcam uma mudança de natureza. Uma pequena mudança na magnitude intensiva pode desencadear um mudança catastrófica no comportamento do sistema, com a emergência de propriedades previamente não reveladas. Ao medir a urbanização, uma cidade é uma cidade é uma cidade. Enquanto concentração intensiva, contudo, uma cidade é um indivíduo real essencialmente variável, que passa através de limiares conforme cresce, inovando comportamentos sem precedentes e, assim, se tornando algo ‘qualitativamente’ novo.

Enquanto invoca a coragem para circular um neologismo adequado (‘urbanomia’?), o Urbano Futuro cambaleará adiante com estranhos compostos tais como ‘desenvolvimento urbano’, ‘intensificação urbana’, ‘condensação urbana’, ou o que quer que pareça menos doloroso no momento (embora queira dizer, em cada caso, o que a ‘urbanização’ descreveria se os urbanistas tivessem conseguido pegá-la antes que os demógrafos o fizessem).

Ainda assim, a despeito deste obstáculo linguístico, uma quantia surpreendente pode ser dita sobre o processo urbano em geral. Fazer um começo quanto a isso vem a seguir.

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Eterno Retorno, e Depois

Se o conhecimento oculto está indisponível, a futurologia deve depender de padrões históricos. Em última análise, alguma variante da extrapolação é seu único recurso.

Os perigos da extrapolação são múltiplos e são frequentemente discutidos. Uma tendência aparentemente robusta pode ser ilusória, a forma de sua curva pode ser mal reconhecida, e processos coincidentes podem perturbá-la. Ainda mais insidiosamente, o reconhecimento de uma tendência pode levar as repostas que a transformam ou anulam.

Ainda assim, uma vez que governos, negócios e indivíduos necessariamente agem de acordo com modelos do futuro, fazer previsões é uma característica incessante, inevitável e frequentemente automática da existência social. Quaisquer que sejam as complexidades da previsão, a sobrevivência depende da tomada de decisões adaptada ao futuro. Um futurismo basal é simplesmente inevitável. Um ceticismo radical – independente de seus méritos intelectuais – não oferece uma alternativa prática.

Existem apenas quatro caminhos fundamentais que as coisas podem tomar: elas podem continuar as mesmas, elas podem se deslocar ciclicamente, elas podem diminuir ou elas podem crescer. Na realidade, essas linhas de tendência estão usualmente entrelaçadas. Em meio a sistemas complexos, a estabilidade tipicamente é meta-estabilidade, que é preservada através da ciclicidade, ao passo que o crescimento e a diminuição frequentemente são componentes de uma onde cíclica da escala maior.

A imaginação histórica de todas as culturas antigas era dominada por grandes ciclos. Na cultura védica da Índia, o tempo se desdobrava como épocas regulares e degenerativas (yugas) que subdividiam cada ‘Dia de Brahma’ (4.1 bilhões de anos em duração). O tempo chinês tinha era moldado pelo metabolismo das dinastias imperiais. “Há muito unido, o império deve se dividir. Há muito dividido, ele deve se unir”, começa o Romance dos Três Reinos. As civilizações mesoamericanas viam a história do mundo como uma sucessão de criações e destruições. No Ocidente, Platão descreveu a história da cidade como um grande ciclo, que se degenerava através das fases da Timocracia (ou governo dos virtuosos), Oligarquia, Democracia e Tirania.

As eras da humanidade descritas por Hesíodo e, mais tarde, por Ovídio, são menos obviamente cíclicas, assim como o é o tempo herdado do antigo judaísmo pelas fés abraâmicas. Nesses casos também, contudo, o curso da história é entendido como fundamentalmente degenerativo e guiado à restauração de uma origem sagrada (como descrito por Mircea Eliade em sua análise do mito do Eterno Retorno).

Mesmo Karl Marx continua cativado por este padrão histórico mítico, em sua variante abraâmica. Seus épico do desenvolvimento social humano começa com um ‘comunismo primitivo’ edênico que cai na degeneração alienada de uma sociedade de classes, subdividida em uma série de eras. A culminação escatológica da história na revolução comunista, assim, completa um grande ciclo, selado por um momento de restauração sagrada (de um autêntico ‘ser genérico’). Não é nenhuma coincidência que esse aspecto de ‘quadro geral’ mito-religioso do marxismo tenha impingido bem mais profundamente na consciência popular do que seu intricado modelo matemático da dinâmica tecno-econômica dentro do ‘modo capitalista de produção’, apesar do fato dos escritos de Marx serem esmagadoramente focados no último. Um grande ciclo é um lar.

Nos tempos modernos, o exemplo mais claro de história no modo antigo do grande ciclo é encontrado na obra de um outro filósofo socialista alemão: Oswald Spengler. Modelando as civilizações sobre os ciclos de vida dos seres orgânicos, ele concebeu sua ascensão e inevitável decadência através de fases previsíveis. Para o Ocidente, firmemente travado no lado descendente da onda, uma degeneração implacável e acelerante pode ser confiavelmente antecipada. O pessimismo fulminante de Spengler parece não ter prejudicado significantemente o conforto cultural derivado de seu esquema histórico arquetípico.

Eliade descreve o mito do Eterno Retorno como um refúgio do “terror da história”. Firmemente enraizado nos padrões orgânicos familiares e no ciclo das estações, ele estabelece o modelo básico das culturas tradicionais. Ao identificar o que ainda está por vir com o que já foi atemporalmente comemorado, ele promete a pré-adaptação dos arranjos sociais e dos padrões de comportamento existentes a coisas ainda não encontradas, neutralizando psicologicamente a ameaça de eventualidades radicalmente sem precedentes. Estivemos aqui antes e, de alguma forma, sobrevivemos. O inverno não dura para sempre.

Dificilmente é surpreendente, portanto, que a concepção do tempo histórico progressivo tenha sido tão lenta em se consolidar. John M. Smart resume as conclusões alcançadas pelo historiador J. D. Bury em seu The Idea of Progress (1920), observando: “…a ideia do progresso no âmbito material esteve perdida, surpreendentemente, até mesmo na maior parte da Renascença Européia (…entre os séculos XIV e XVII). Apenas por volta da década de 1650, próximo do fim desta explosão cultural, é que a ideia de uma força imparável de progresso finalmente começou a emergir como possibilidade para a mente instruída média”. A ideia de progresso, enquanto crescimento contínuo e inovador, é única da modernidade e fornece sua característica cultural definidora.

Os modernos se encontraram, pela primeira vez, lançados para fora do berçário cósmico do Eterno Retorno. Um estranho novo mundo os aguardava.

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Introduzindo o Urbano Futuro

O que os leitores podem esperar deste blog? Uma vez que ele promete estar orientado para o futuro, faz sentido começar com algumas previsões preliminares sobre si mesmo.

De maneira mais básica e previsível, o Urbano Futuro foi programado por seu nome. Seu tópico principal é a intersecção das cidades com o futuro. Ele visa fomentar discussões sobre cidades enquanto motores do futuro, e sobre o futurismo enquanto uma influência dinâmica sobre a forma, o caráter e o desenvolvimento das cidades. De maneira mais particular, ele escava em busca de pistas e flutua especulações sobre a Shanghai de amanhã. Ele antecipa um futuro urbano global no qual Shanghai aparece de maneira proeminente, e uma Shanghai vindoura que expressa, de maneira tanto firme quanto sutil, as forças transformativas do futurismo global. Isso já é nos anteciparmos bastante, que é o que tipicamente faremos.

Para alguns leitores, ‘futurismo’ invocará o movimento cultural de vanguarda do início do século XX, cristalizado no Manifesto Futurista de Filippo Tommaso Marinetti de 1909. O futurismo, eles poderiam razoavelmente objetar, foi definido e até mesmo fechado pela passagem do tempo. Como o modernismo, ele agora pertence ao arquivo da história concluída. O que existe hoje, e nos dias por vir, só pode ser um neo-futurismo (e um neo-modernismo): não menos retrospectivo do que prospectivo, uma repetição tanto quanto uma especulação. Tais considerações, correções e lembranças, com todas suas perplexidades concomitantes, são extremamente bem-vindas. O tempo de abordá-las logo chegará.

Uma vez que Shanghai está entre-cruzada por índices fraturados no tempo de ambiguidade histórico-futurista, do paleo-modernismo ao neo-tradicionalismo, o blog terá toda oportunidade de discutir tais coisas. Por ora, uma referência casual aos estranhamente geminados ícones arquitetônicos de tais emaranhados temporais, o Park Hotel e a Jinmao Tower – cada um deles uma obra-prima retro-futurista ou cibergótica – tem que servir de substituta, enquanto mnemônico e nota promissória.

Também, em tempo, os obstáculos à previsão precisam ser abordados de maneira meticulosa: tópicos tais como o catastrofismo histórico, a hipótese dos mercados eficientes (EMH), a crítica do historicismo de Karl Popper, a incerteza knightiana (ou as “incógnitas desconhecidas” rumsfeldianas) e a teoria do Cisne Negro de Nassim Nicholas Taleb. A fim de nos instalarmos e começarmos a funcionar, todos esses pensamentos complicadores foram temporariamente colocados entre parênteses, como bestas astutas e ferozes, mas não permanecerão enjaulados para sempre, ou mesmo por muito tempo.

Uma vez que há algo irresistivelmente distorcido sobre se começar com o futuro, a primeira enxurrada de posts irá direto para o amanhã, com os tópicos se tornando cada vez mais focados em cidades e em Shanghai conforme as coisas progredirem. Uma série inicial de posts interconectados delineará o pensamento futurista em termos amplos, incluindo esboços preliminares dos principais pontos de parada na [l=]linha principal da tradição tecno-científica que o suporta.

Em última análise, nada relevante para o futuro de Shanghai é alienígena ao propósito deste blog. Ele se embasará na história, geografia e cultura de Shanghai, em filosofias tradicionais chinesas do tempo (Yijing e Taoísmo), em teorias sobre a modernidade e sobre o urbanismo, em biologia evolutiva, ficção científica, discussões tecno-científicas sobre sistemas complexos e emergência, na economia da ordem espontâneaondas longas, tendências tecnológicas, pesquisa e desenvolvimentos da robótica, em modelos de mudança acelerativa e antecipações da Singularidade Tecnológica. As coisas deveriam ficar continuamente mais esquisitas.

Amanhã, começa.

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