Moore e Mais

Redobrar a Lei de Moore é a principal corrente futurista

Ciclos não podem ser descartados da especulação futurista (eles sempre voltam), mas não mais a definem. Desde o começo da era eletrônica, sua contribuição para a forma do futuro tem sido progressivamente marginalizada.

O modelo de tempo histórico linear e irreversível, originalmente herdado das tradições religiosas ocidentais, foi remendado com ideias de crescimento e melhoria contínuas durante a revolução industrial. Durante a segunda metade do século XX, a dinâmica da manufatura de eletrônicos consolidou mais uma atualização – uma que era fundamental – embasada na expectativa de mudança continuamente acelerante.

A aritmética elementar de se contar ao longo da linha de números naturais fornece um modelo intuitivamente confortável para a progressão do tempo, devido a sua conformidade aos relógios, calendários e à simples ideia de sucessão. Ainda assim, as forças históricas dominantes do mundo moderno promovem um modelo significativamente diferente de mudança, um que tende a deslocar a adição para cima, até um expoente. Demografia, acumulação de capital e índices de desempenho tecnológico não aumentam através de passos unitários, mas através de taxas de retornos, duplicações e decolagens. O tempo explode exponencialmente.

A expressão icônica deste tempo neo-moderno, contando a sucessão em logaritmos binários, é a Lei de Moore, que determina um período de duplicação de dois anos para a densidade de transistores em microchips (“atulhando mais componentes nos circuitos integrados”). Em um curto ensaio publicado na Pajamas Media, celebrando o prolongamento da Lei de Moore, enquanto a Intel empurra a arquitetura de chips à terceira dimensão, Michael S. Malone escreve:

“Hoje, quase meio século depois que foi primeiro elucidada pelo lendário co-fundador da Fairchild e da Intel, o Dr. Gordon Moore, em um artigo para uma revista comercial, é cada vez mais aparente que a Lei de Moore é a medida definidora do mundo moderno. Todas as outras ferramentas preditivas para se entender a vida no mundo desenvolvido desde a Segunda Guerra Mundial – demografia, tabelas de produtividade, taxas de alfabetização, econometria, os ciclos da história, análise marxista, etc, etc – falharam em prever a trajetória da sociedade ao longo das décadas… exceto a Lei de Moore.”

Embora cristalize – in silico – a aceleração inerente do tempo linear neo-moderno, a Lei de Moore é intrinsecamente não-linear, por pelo menos duas razões. Primeiro e mais diretamente ao ponto, ela expressa a dinâmica de feedback positivo do industrialismo tecnológico, no qual máquinas eletrônicas que avançam rapidamente continuamente revolucionam sua própria infraestrutura de produção. Chips melhores fazem robôs melhores que fazem chips melhores, em uma aceleração espiralante. Segundo, a Lei de Moore é, de uma só vez, uma observação e um programa. Como a Wikipédia observa:

“A artigo [original de Moore] observava que o número de componentes em circuitos integrados havia dobrado a cada ano desde a invenção do circuito integrado, em 1958, até 1965 e previa que a tendência continuaria ‘por pelo menos dez anos’. Sua previsão se provou ser inquietantemente precisa, em parte por que a lei agora é usada na indústria de semicondutores para guiar o planejamento de longo prazo e para estabelecer metas para a pesquisa e o desenvolvimento…. Embora a Lei de Moore tenha sido inicialmente feita na forma de observação e previsão, quanto mais amplamente ela se tornou aceita, mais ela serviu enquanto meta para toda uma indústria. Isto levou os departamentos de marketing e engenharia de produtores de semicondutores a focar uma enorme energia, visando o aumento especificado em poder de processamento que se presumia que um ou mais de seus concorrentes logo atingiria de fato. Neste aspecto, ela pode ser vista como uma profecia auto-realizadora.”

Malone comenta:

“…companhia de semicondutores ao redor do mundo, grandes e pequenas, e não menos por causa de seu respeito por Gordon Moore, se puseram a defender a Lei – e tem o feito desde então, apesar de obstáculos técnicos e científicos aparentemente impossíveis. Gordon Moore não apenas descobriu a Lei de Moore, ele a tornou real. Como seu sucessor na Intel, Paul Otellini, me disse uma vez, ‘Eu não vou ser o cara cujo legado é que a Lei de Moore morreu em seu turno’.”

Se a Singularidade Tecnológica é o ‘arrebatamento dos nerds’, Gordon Moore é seu Moisés. O capitalismo eletro-industrial é instruído a ir adiante se multiplicar e a fazê-lo com um expoente binário especificado no tempo de maneira bastante precisa. Em sua adesão à Lei, a indústria de circuitos integrados é singularmente escolhida (e uma luz para os povos). Como Malone conclui:

“Hoje, cada segmento da sociedade ou abraça a Lei de Moore ou está correndo para chegar lá. Isto é porque eles sabem que se apenas eles conseguirem embarcar no foguete – isto é, se eles conseguirem adicionar um componente digital ao seu negócio – eles também podem acelerar para longe da concorrência. É por isso que nenhuma das invenções que nós Baby Boomers, quando crianças, esperávamos desfrutar quando fôssemos adultos – carros atômicos! helicópteros pessoais! armas de raios! – se tornaram realidade; e também por isso temos ferramentas e brinquedos cada vez mais poderosos – como alternativa. O que quer que possa se tornar digital, se não no todo, pelo menos em parte – marketing, comunicação, entretenimento, engenharia genética, robótica, guerra, manufatura, serviços, finanças, esportes – irá, porque virar digital significa pular na Lei de Moore. Perca esse trem e, enquanto negócio, instituição ou fenômeno cultural, você morre.”

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Tempestade Perfeita

As previsões do tempo para o inverno de 2012 estão ficando cada vez mais selvagens

Mesmo antes de receber o tratamento hollywoodiano, o ano de 2012 já estava se configurando como sendo uma ‘convergência harmônica‘ singularmente potente de entusiasmo sobre o fim dos tempos. Inicialmente condensada a partir do calendário Maia, a contagem regressiva até 2012 logo foi fervilhada a um inebriante coquetel por meio de interpretações especulativas do Yijing, do paganismo aquariano da ‘Nova Era’, da ufologia e do misticismo com cogumelos. Uma vez que se atingiu uma massa crítica, 2012 se tornou um ponto de reunião para explicações escatológicas flutuantes judaicas, cristãs e islâmicas (vinda ou retorno do Messias, advento do Anticristo, Armagedom, Arrebatamento, emergência do Décimo-Segundo Imã saindo da ocultação, entre outros). Basicamente qualquer coisa cosmicamente imaginável é firmemente esperada – por alguém – que chegue no final de Dezembro de 2012.

A escatologia secular também tem seus cães na briga. Vindos de enclaves reciprocamente isolados da Internet, vertentes apocalípticas de Marxismo (e libertarianismo) alegremente antecipam o colapso iminente da economia global, completamente confiantes que sua queda inauguraria uma ordem social pós-capitalista (ou sociedades de livre mercado sem entraves). Os mais audazes proponentes da iminente Singularidade Tecnológica se prepararam para receber a inteligência artificial super-humana (quando a Skynet já estaria com cinco anos de atraso). Ambientalistas radicais, neo-malthusianos, tementes do pico do petróleo e da redução de recursos e teóricos do Choque de Civilizações também contribuíram substancialmente para a atmosfera de crise iminente. Independentemente do aquecimento global antropogênico, tudo estava esquentando rapidamente.

Este clima se provou altamente receptivo às ideias proféticas de William Strauss e Neil Howe, onde encontrou uma auto-descrição fresca e evocativa. A partir de seu livro Generations (1992), Strauss & Howe buscaram explicar o ritmo da história através do padrão de gerações, conforme elas se sucediam umas às outras em ciclos de quatro fases. Sua unidade cíclica ou ‘saeculum’ dura de 80 a 100 anos e consiste de ‘estações’ geracionais ou ‘viradas’, cada uma caracterizada por um arquétipo distintivo. A Quarta Virada, que começou no início do novo milênio, é ‘inverno’ e ‘crise’. Eles observam: “Os americanos mais velhos de hoje em dia reconhecem este como o humor da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, mas um humor similar tem estado presente em todos os outros grande portais de nossa história, desde a Guerra Civil e da Revolução, até à história colonial e inglesa”.

A discussão de Jim Quinn sobre a Quarta Virada no Zero Hedge antecipa as tempestades do inverno: “Baseado numa revisão dos problemas previsíveis que confrontam nossa sociedade, é claro para mim que uma implosão financeira ainda pior nos atingirá antes da eleição presidencial de 2012. Ela pode ser desencadeada por um confronto sobre o teto de gastos, o fim do QE2, um pânico de fuga do dólar, hiperinflação, um pico nos preços do petróleo, ou alguma combinação destas possibilidades. O colapso subsequente dos mercados de ações e títulos removerá os últimos vestígio de confiança no sistema financeiro existente e nos burocratas governamentais que tomaram dólares dos contribuintes e os canalizaram para estes oligarcas de Wall Street”.

Ainda mais sinistramente, Quinn conclui: “A história nos ensinou que Quartas Viradas acabam em guerra total. O resultado das guerras está sempre em dúvida…. Pode fazer 150 anos desde que Walt Whitman previu a marcha iminente de exércitos, visões de ações em gestação e uma aniquilação da antiga ordem, mas a história nos trouxe bem de volta aonde começamos. Desafios imensos e ameaças aguardam nossa nação. Nós as enfrentaremos com a coragem e força moral de nossos antepassados? Ou nos afastaremos de nossa responsabilidade para com as gerações futuras? A batida da história fica mais alta. Nosso encontro com o destino acena”.

Já está tempestuoso o suficiente? Se não, há o clima severo do inverno de Kondratiev entrando em cena também.

As ‘ondas longas’ de Nikolai Kondratiev flutuam a aproximadamente duas vezes a frequência dos saecula de Straus & Howe (durando cerca de 40 a 60 anos da ‘primavera’ ao ‘inverno’). Originalmente descoberta através da investigação empírica dos movimentos dos preços, as ondas de Kondratiev estimularam uma gama notável de teorias econômico-históricas. Joseph Schumpeter interpretou o ciclo como um processo de inovação tecno-econômica, no qual o capital era criativamente revolucionado e destruído através da depreciação, ao passo que Hyman Minsky a atribuiu ao ritmo da especulação financeira (no qual a estabilidade fomentava a super-confiança, o excesso e crises com regularidade cíclica).

A descoberta da ‘onda longa’ pareceu coincidir com seu desaparecimento – nas mãos do gerenciamento macroeconômico (a política contra-cíclica keynesiana). Não surpreendentemente, a crise do Keynesianismo sob as presentes condições de ‘saturação de débitos‘ reanimou a discussão sobre as ondas longas. Em seu blog “Tipping Points“, inspirado em Kondratiev, Gordon T. Long prevê um inverno selvagem, marcado por uma progressão da crise financeira, através da crise econômica, até a crise política, culminando em um ‘colapso da moeda’ (do dólar americano) em 2012.

Agasalhem-se bem.

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Criaturas Escalosas

Cidades são aceleradores e existem números sólidos para demonstrar isso

Entre as características mais memoráveis da World Expo 2010 de Shanghai estava o quinteto de ‘Pavilhões Temáticos’ projetados para facilitar a exploração da cidade em geral (condizentes com o tema orientado ao urbano do evento: ‘Cidade Melhor, Vida Melhor’). Ao passo em que muitos participantes internacionais sucumbiram ao populismo fácil em seus pavilhões nacionais, estes Pavilhões Temáticos mantiveram um tom impressionantemente elevado.

O mais notável de todos para a penetração filosófica era o Pavilhão do Ser Urbano, com sua exibição devotada à questão: que tipo de coisa é uma cidade? Redes de infraestrutura receberam um escrutínio especialmente focado. Canos, cabos, conduites e artérias de transporte compõem sistemas intuitivamente identificáveis – totalidades de nível mais elevado – que indicam fortemente a existência de um ser individualizado e complexo. A conclusão era resolutamente inescapável: uma cidade é mais do que uma massa agregada. Ela é um entidade singular e coerente, merecedora de seu nome próprio – até mesmo pessoal – e, não sem razão, concebida como uma ‘forma de vida’ composta (ainda que não exatamente um ‘organismo’).

Tais intuições, não importa o quão plausíveis, não são suficientes, em si mesmas, para estabelecer a cidade enquanto um objeto científico rigorosamente definido. “[A]pesar de muita evidência histórica de que as cidades são os motores principais da inovação e do crescimento econômico, um teoria quantitativa e preditiva para o entendimento de sua dinâmica e organização e para estimar sua trajetória futura e sua estabilidade permanece sendo elusiva”, observam Luís M. A. Bettencourt, José Lobo, Dirk Helbing, Christian Kühnert e Geoffrey B. West, em seu prelúdio a um artigo de 2007 que fez mais do que qualquer outro para remediar o déficit: ‘Growth, innovation, scaling, and the pace of life in cities‘.

Neste artigo, os autores identificam padrões matemáticos que são, de uma só vez, distintivos do fenômeno urbano e aplicáveis de maneira geral a ele. Eles, assim, isolam o objeto de um uma ciência urbana emergente e esboçam suas características iniciais, alegando que: “a organização e a dinâmica social que relacionam a urbanização ao desenvolvimento econômico e à criação de conhecimento, entre outras atividades sociais, são muito gerais e aparecem como regularidades quantitativas não triviais, comuns a todas as cidades, através de sistemas urbanos”.

Observando que as cidades frequentemente foram analogizadas a sistemas biológicos, o artigo extrai o princípio que suporta a comparação. “Notavelmente, quase todas as características fisiológicas de organismos biológicos variam em escala junto à massa corporal… como uma lei de potência cujo expoente é tipicamente um múltiplo de 1/4 (que se generaliza para 1/(d+1) em d dimensões)”. Estas relações escalares relativamente estáveis permitem que características biológicas, tais como taxas metabólicas, expectativas de vida e períodos de maturação sejam antecipadas com um alto nível de confiança, dada apenas a massa corporal. Além disso, elas se conformam a uma elegante série de expectativas teóricas que não se baseiam em nada além das restrições organizacionais abstratas em uma espaço n-dimensional:

“Estruturas altamente complexas e auto-sustentadoras, sejam células, organismos ou cidades, exigem uma integração estreita de enormes números de unidades constituintes que precisam de manutenção eficiente. Para realizar esta integração, a vida em todas as escalas é sustentada por redes ramificadas otimizadas, preenchedoras de espaço e hierárquicas, que crescem com o tamanho do organismo enquanto estruturas exclusivamente especificadas e aproximadamente auto-similares. Uma vez que estas redes, por exemplo, os sistemas vasculares de animais e plantas, determinam as taxas nas quais a energia é entregue às unidades funcionais terminais (células), elas estabelecem o ritmo dos processos fisiológicos enquanto funções escalares do tamanho do organismo. Desta forma, a natureza auto-similar das redes de distribuição de recursos, comuns a todos os organismos, fornece a base para uma teoria quantitativa e preditiva da estrutura e dinâmica biológica, apesar de muita variação externa em aparência e forma.”

Se as cidades são, em certos aspectos, meta- ou super-organismos, contudo, elas também são o inverso. Metabolicamente, cidades são anti-organismos. Conforme os sistemas biológicos aumentam em escala, eles ficam mais lentos, em uma taxa matematicamente previsível. As cidades, em contraste, se aceleram conforme crescem. Algo que se aproxima da lei fundamental da realidade urbana é, assim, exposto: maior é mais rápido.

O artigo quantifica suas descobertas, embasadas em uma base substancial de dados urbanos (com as cidades dos EUA sobre-representadas), ao especificar um ‘expoente escalar’ (ou ‘ß’, beta), que define a correlação regular entre escala urbana e o fato sob consideração.

Um beta de 1 corresponde a uma correlação linear (entre uma variável e o tamanho da cidade). Por exemplo, descobriu-se que a oferta de habitação, que permanece constantemente proporcional à população ao longo de todas as escalas urbanas, tem – sem surpresas – um ß = 1.00.

Um beta menor que 1 indica um economia de escala consistente. Tais economias são encontradas sistematicamente entre redes urbanas de recursos, exemplificadas por postos de gasolina (ß = 0.77), vendas de gasolina (ß = 0.79), comprimento de cabos elétricos (ß = 0.87) e superfície de estradas (ß = 0.83). A correlação sub-linear entre os custos dos recursos e a escala urbana torna a vida citadina cada vez mais eficiente, conforme a intensidade metropolitana se eleva.

Um beta maior que 1 indica retornos crescentes de escala. Fatores que exibem este padrão incluem inventividade (por exemplo, ‘novas patentes’ ß = 1.27, ‘inventores’ ß = 1.25), criação de riqueza (por exemplo, ‘PIB’ ß = 1.15, salários ß = 1.12), mas também doenças (‘novos casos de AIDS’ ß = 1.23) e crimes sérios (ß = 1.16). O crescimento urbano é acompanhado por um aumento supra-linear em oportunidades de interação social, sejam elas produtivas, infecciosas ou maliciosas. Mais não é apenas melhor, é muito melhor (e, em alguns aspectos, pior).

“Nossa análise sugere dinâmicas sociais humanas únicas, que transcendem a biologia e redefinem as metáforas do ‘metabolismo’ urbano. A criação em aberto de riqueza e conhecimento exige que o ritmo da vida aumente com o tamanho organizacional e que os indivíduos e instituições se adaptem em uma taxa continuamente acelerante para evitar estagnação e potenciais crises. Estas conclusões muito provavelmente se generalizam para outras organizações sociais, tais como corporações e empresas, potencialmente explicando por que o crescimento contínuo necessita de uma esteira acelerante de ciclos dinâmicos de inovação.”

Cidade maior, vida mais rápida.

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Implosão

Poderíamos estar à beira de uma implosão catastrófica – mas isso é OK

A ficção científica tem tendido à extroversão. Na América especialmente, onde ela encontrou um lar natural entre um povo incomumente orientado ao futuro, o objeto icônico da FC foi indisputavelmente a nave espacial, que parte dos confins da Terra para fronteiras sem entraves. O futuro era medido pelo enfraquecimento do fosso de gravidade terrestre.

O cyberpunk, chegando na metade dos anos 1980, causou um choque cultural. O Neuromancer de William Gibson ainda incluía alguma atividade espacial (na órbita da Terra) – e até mesmo uma comunicação de Alpha Centauri – mas suas jornadas agora se curvavam para dentro do espaço interior de sistemas computacionais, projetadas através dos tratos desprovidos de estrelas do Ciberespaço. A comunicação interestelar contornava espécies biológicas e ocorria entre inteligências artificiais planetárias. Os Estados Unidos da América pareciam ter desaparecido.

Espaço e tempo haviam colapsado na ‘matriz do ciberespaço’ e no futuro próximo. Mesmo as distâncias abstratas do utopismo social haviam sido incineradas nos núcleos de processamento de micro-eletrônicos. Julgado pelos critérios da ficção científica mainstream, tudo em que o cyberpunk tocava estava passando raspando e ficando ainda mais perto. O futuro havia se tornado iminente e colado.

As cidades de Gibson não haviam acompanhado sua visão mais ampla – ou estreita. Os espaços urbanos de sua Costa Leste da América do Norte ainda eram descritos como ‘The Sprawl’, como se encalhados em um estado de extensão que rapidamente ficava obsoleto. As forças esmagadoras da compressão tecnológica haviam pulado para além da geografia social, sugando toda a animação histórica das cascas decadentes do ‘espaço de carne’. Construções eram relíquias, contornadas pela vanguarda da mudança.

(As referências de Gibson a cidades asiáticas, contudo, são bem mais intensas, inspiradas por inovações em compressão urbana tais como a Kowloon Walled City, e os ‘hotéis caixão’ japoneses. Além disso, os urbanistas desapontados pela primeira onda do cyberpunk têm toda razão para prosseguir até Spook Country, onde a influência da tecnologia de GPS sobre a reanimação do espaço urbano nutre especulações altamente férteis.)

Cruzeiros estelares e civilizações alienígenas pertencem à mesma constelação da ficção científica, reunidas pela suposição do expansionismo. Assim como, no âmbito da ficção, esse futuro de ‘ópera espacial’ colapsou no cyberpunk, na ciência (mais ou menos) mainstream – representada pelos programas do SETI – ele pereceu no deserto do Paradoxo de Fermi. (OK, é verdade, o Urbano Futuro tem uma obsessão bizarramente nerd com este tópico.)

A solução de John M. Smart para o Paradoxo de Fermi é integral às suas mais amplas ‘Especulações sobre a Cultura Cósmica’ e emerge naturalmente do desenvolvimento compressivo. Inteligências avançadas não se expandem espaço adentro, colonizando vastos tratos galáticos ou dispersando sondas-robô auto-replicantes em um programa de exploração. Em vez disso, elas implodem, em um processo de ‘transcensão’ – provendo seus próprios recursos primariamente através dos ganhos hiper-exponenciais de eficiência da miniaturização extrema (através da engenharia de escala micro, nano e até femto, de componentes funcionais subatômicos). Tais culturas ou civilizações, nucleadas por sobre uma inteligência tecnológica auto-aumentadora, emigram do universo extensivo na direção da intensidade abismal, esmagando a si mesmas até densidades de buracos negros, na borda da possibilidade física. Através da transcensão, elas se retiram da comunicação extensiva (embora, talvez, deixem ‘fósseis radiofônicos’ para trás, antes que eles parem de piscar, indo para o silêncio da fuga cósmica).

Se as especulações de Smart capturam os contornos básicos de um sistema de desenvolvimento atraído pela densidade, então se deveria esperar que as cidades seguissem um caminho comparável, caracterizado por uma fuga para dentro da interioridade, uma viagem interior, involução ou implosão. Aproximando-se da singularidade em uma trajetória acelerante, cada cidade se torna cada vez mais voltada para dentro, conforme se torna presa da irresistível atração de sua própria intensificação hiperbólica, ao passo que o mundo exterior desvanece em estática irrelevante. Coisas desaparecem em cidades, em um caminho de partida do mundo. Sua destinação não pode ser descrita dentro das dimensões do universo conhecido – e, com efeito, tediosamente familiar demais. Apenas no interior exploratório profundo é que a inovação ainda está ocorrendo, mas ali ela tem lugar a uma taxa infernal e que derrete o tempo.

O que um desenvolvimento urbano de tipo Smart poderia sugerir?

(a) Devo Previsibilidade. Se o desenvolvimento urbano não é nem aleatoriamente gerado por processos internos, nem arbitrariamente determinado por decisões externas, mas sim guiado predominantemente por um atrator de desenvolvimento (definido primariamente pela intensificação), se segue que o futuro das cidades é, pelo menos parcialmente, autônomo em relação às influências política nacional, econômica global e arquitetônica cultural que são frequentemente invocadas como fundamentalmente explicativas. O urbanismo pode ser facilitado ou frustrado, mas suas principais ‘metas’ e caminhos práticos de desenvolvimento são, em cada caso individual, interna e automaticamente gerados. Quando uma cidade ‘funciona’, não é porque ela se conforma a um ideal externo e discutível, mas sim porque ela encontrou uma rota para a intensificação cumulativa que projeta fortemente seu ‘próprio’ caráter urbano, singular e intrínseco. O que uma cidade quer é se torna ela mesma, mas mais – levando a si mesma mais adiante e mais rápido. Apenas isto é o florescimento urbano, e entendê-lo é a chave que destranca a forma do futuro de qualquer cidade.

(b) Metropolitanismo. O nacionalismo metodológico tem sido sistematicamente sobre-enfatizado nas ciência sociais (e não apenas às custas do individualismo metodológico). Uma variedade de pensadores urbanos influentes, de Jane Jacobs a Peter Hill, buscaram corrigir este viés, ao focar na significância e parcial autonomia de economias urbanas, culturas urbanas e da política municipal para a prosperidade, a civilização e as eras douradas. Eles estavam certos em fazê-lo. O crescimento das cidades é o fenômeno sócio-histórico básico.

(c) Introversão Cultural. John Smart argumenta que uma inteligência que sofre um desenvolvimento relativista avançado acha a paisagem externa cada vez menos informativa e absorvente. A busca por estímulo cognitivo a atrai para dentro. Conforme as culturas urbanas evoluem, através de uma complexidade social acelerante, pode-se esperar que elas manifestem exatamente este padrão. Seus processos internos de implosão desembestada de inteligência se tornam cada vez mais emocionantes, cativantes, surpreendentes, produtivos e educacionais, ao passo que a paisagem cultural mais ampla fica para trás no tédio previsível, de relevância meramente etnográfica e histórica. A singularidade cultural se torna cada vez mais urbana-futural (em vez de etno-histórica), para o previsível descontentamento dos estados-nação tradicionais. Como o Ciberespaço Terrestre de Gibson, que encontra outro de seu tipo em uma órbita ao redor de Alpha Centauri, a conectividade cosmopolita é criada através da viagem interior, ao invés da extensão expansiva.

(d) Ressonância de Escala. No nível mais abstrato, a relação entre urbanismo e microeletrônicos é escalar (fractal). Os computadores por vir estão mais próximos de cidades em miniatura do que de cérebros artificiais, dominados por problemas de tráfego (congestionamento), migração / comunicação, questões de zoneamento (uso misto), o potencial de engenharia de novos materiais, questões de dimensionalidade (soluções 3D para restrições de densidade), dissipação de entropia ou calor / desperdício (reciclagem / computação reversível) e controle de doenças (novos vírus). Uma vez que as cidades, assim como computadores, exibem um desenvolvimento (filogenético acelerante) dentro de um tempo histórico observável, elas fornecem um modelo realista de melhoria para máquinas compactas de processamento de informação, sedimentado como uma série de soluções práticas para o problema da intensificação implacável. A emulação do cérebro poderia ser considerada uma meta computacional importante, mas ela é quase inútil enquanto modelo de desenvolvimento. Tecnologias microeletrônicas inteligentes contribuem para o processo em aberto da solução de problemas urbanos, mas elas também a recapitulam em um novo nível.

(e) Matriz Urbana. O desenvolvimento urbano exibe a real embriogênese da inteligência artificial? Em vez da Internet global, da Skynet militar, ou de um programa de IA com origem em um laboratório, seria o caminho da cidade, embasado em intensificação acelerante (compressão STEM), que melhor fornece as condições para a computação sobre-humana emergente? Talvez a principal razão para pensar assim seja que o problema da cidade – administração e acentuação de densidade – já a compromete à engenharia computacional, antes de qualquer pesquisa deliberadamente guiada. A cidade, por sua própria natureza, se comprime, ou intensifica, em direção ao computrônio. Quando a primeira IA falar, poderia ser em nome da cidade que ela identifica como seu corpo, embora mesmo isso fosse pouco mais do que um ‘fóssil radiofônico’ – um sinal anunciando a beira do silêncio – conforme o caminho da implosão se aprofunda e desaparece dentro do interior alienígena.

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Horizonte de Eventos

As pessoas gravitam em direção às cidades, mas em direção ao que a cidades estão gravitando? Algumas estranhas possibilidades se sugerem.

As cidades são definidas pela densidade social. Esta compreensão simples, mas de enormes consequências, fornece a tese central do Triumph of the City: How our Greatest Invention Makes us Richer, Smarter, Greener, Healthier and Happier (2011) de Edward Glaeser, onde é enquadrada tanto quanto ferramenta analítica quanto como projeto político.

“As cidades são a ausência de espaço física entre pessoas e companhias. Elas nos permitem trabalhar e brincar juntos, e seu sucesso depende da demanda por conexão física”, observa Glaeser.

A vida urbana de alta-densidade se aproxima de uma tautologia, e ela é uma que Glaeser não apenas observa, mas também celebra. Pessoas muito próximas são mais produtivas. Como Alfred Marshal notou em 1920, ‘economias de aglomeração’ alimentam um processo auto-reforçador de compressão social que sistematicamente supera populações difusas em todos os campos de atividade industrial. Além disso, os urbanitas também são mais felizes, vivem mais e sua pegada ecológica é menor, Glaeser insiste, baseando-se em uma variedade de evidências científicas sociais para fazer seu argumento. Quer os problemas sociais sejam articulados em termos econômicos, hedônicos ou ambientais, o urbanismo (denso) oferece a solução mais prática.

A conclusão que Glaeser tira, com bastante lógica, é que o adensamento deveria ser encorajado, em vez de inibido. Ele interpreta o espalhamento como um reflexo de incentivos perversos, ao passo em que contesta sistematicamente as escolhas de políticas que restringem a tendência à compressão urbana contínua. Sua linha de argumentação mais determinada se dirige em favor do desenvolvimento de arranha-céus e contra as restrições de planejamento que mantém a cidades tolhidas. Uma cidade que é impedida de se elevar será excessivamente cara e estará deficientemente excitada, sendo inflexível, ineficiente, suja, retrógrada e atravancada perifericamente com espalhamento e favelas. Adiante e acima é o caminho.

O planejamento urbano tem sua própria medida de densidade: o COS (ou Coeficiente de Ocupação do Solo), tipicamente determinado como limite estabelecido sobre a concentração permitida. Um COS de 2, por exemplo, permite que um empreiteiro construa um prédio de dois andares sobre toda uma área, um de quatro andares em metade da área, ou um de oito andares em um quarto da área. Um COS estabelece um teto médio para o desenvolvimento urbano. É essencialmente um dispositivo burocrático para tolher deliberativamente o crescimento vertical.

Como Glaeser mostra, os problemas de desenvolvimento urbano de Mumbai foram praticamente inevitáveis, devido ao bastante ridículo COS de 1,33 que foi estabelecido para a capital comercial da Índia em 1964. O desenvolvimento de favelas foi o resultado totalmente previsível.

Embora dispute com Jane Jacobs o impacto da construção de arranha-céus sobre a vida urbana, Glaeser está, em última análise, de acordo com a importância do desenvolvimento orgânico, embasado em padrões espontâneos de crescimento. Ambos atribuem os problemas urbanos mais ruinosos a erros de política, mais obviamente a tentativa de canalizar – e, na verdade, deformar – o processo urbano através de decretos burocráticos arrogantes. Quando as cidades falham em fazer o que vem naturalmente, elas fracassam, e o que vem naturalmente, Glaeser argumenta, é o adensamento.

Seria elegante se referir a esta profunda tendência em direção à compressão social, à emergência, crescimento e intensificação do assentamento urbano, como urbanização, mas não podemos fazer isso. Mesmo quando desajeitadamente nomeada, contudo, ela expõe uma realidade social e histórica profunda, com implicações surpreendentes, que quase equivalem a uma lei da gravitação especificamente social. Tal como acontece com a gravidade física, a compreensão das forças da atração social apóia as previsões, ou pelo menos os contornos gerais, da antecipação futurista, uma vez que essas forças de aglomeração e intensificação manifestamente moldam o futuro.

John M. Smart faz apenas referências passageiras a cidades, mas sua hipótese da Singularidade do Desenvolvimento (SD) é especialmente relevante para a teoria urbana, uma vez que foca no tópico da densidade. Ele argumenta que a aceleração, ou compressão temporal, é apenas um aspecto de uma tendência evolutiva (ou, mais precisamente, evolutiva-desenvolvimentista, ou ‘evo-devo’) geral que abarca espaço, tempo, energia e massa. Esta ‘compressão-STEM’ é identificada com uma inteligência ascendente (e com entropia negativa). Ela reflete uma pulsão cosmo-histórica profunda ao aumento da capacidade computacional que casa “processos evolutivos que são estocásticos, criativos e divergentes [com] processos de desenvolvimento que produzem estruturas e trajetórias estatisticamente previsíveis, robustas, conservadoras e convergentes”.

Smart observa que “a vanguarda da complexidade estrutural em nosso universo aparentemente transicionou de uma matéria primitiva universalmente distribuída, para galáxias, para estrelas replicantes dentro de galáxias, para sistemas solares em zonas galáticas habitáveis, para a vida sobre planetas especiais nessas zonas, para uma vida superior dentro da biomassa superficial, para cidades e, em breve, para tecnologia inteligente, que será um subconjunto vastamente mais local do espaço citadino da Terra”.

Audaciosamente, Smart projeta esta tendência ao seu limite: “Pesquisas atuais (Aaronson 2006, 2008) agora sugerem que construir computadores futuros embasados na teoria quântica, uma das duas grandes teorias da física do século XX, não produzirá uma capacidade computacional com crescimento exponencial, mas apenas quadrático, em relação à computação clássica de hoje. Na busca pela emergência de uma capacidade computacional futura verdadeiramente disruptiva, podemos, portanto, olhar para a segunda grande teoria física do último século, a relatividade. Se a hipótese da SD está correta, o que podemos chamar de computação relativista (um buraco-negro que se aproxima de um substrato computacional) será o atrator comum final para todas as civilizações universais em desenvolvimento bem-sucedidas”.

Conceba as histórias das cidades, portanto, como os segmentos iniciais de trajetórias que se curvam assintoticamente na direção da densidade infinita, no derradeiro horizonte de eventos do universo físico. O começo é fato registrado e o fim, bastante literalmente, ‘já era’, mas o que jaz no meio, isto é, a seguir?

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