Manufatura Radical

Vendo o futuro em três dimensões

A Revolução Industrial inventou a fábrica, onde concentrações cada vez maiores de trabalho, capital, energia e matérias-primas poderiam ser reunidos sob uma estrutura administrativa unificada para extrair economias de escala da produção em massa, baseada na padronização de insumos e produtos, incluindo um trabalho especializado e rotinizado e – em última análise – linhas de montagem programadas de maneira precisa e servidas por robôs. Foi na fábrica que os trabalhadores se tornaram ‘proletários’ e através da fábrica que o investimento produtivo ser tornou ‘grandes empresas’. Conforme o sistema amadureceu, seus vastos ciclos de produção fomentaram o consumismo em massa (junto com o ‘consumidor’ genérico) necessário para absorver seu dilúvio de bens altamente padronizados. Conforme a divisão do trabalho e a agregação de mercados transbordaram fronteiras nacionais, as atividades econômicas foram implacavelmente globalizadas. Este complexo de especialização, padronização, concentração e expansão veio a ser identificado com a essência da produção modernizada (em ambas as suas variantes, ‘capitalista’ e ‘socialista’).

Inicialmente, a eletrônica parece ter apenas perpetuado – ou seja, intensificado – essa tendência. Bens eletrônicos e seus componentes são padronizados em níveis anteriormente inimagináveis de resolução, através de processos de produção ultra-especializados e são manufaturados em ‘fabs’ vastas e imensamente caras que derivam suas economias de escala de ciclos de produção que apenas mercados globais integrados podem absorver. A personalização da computação sugeriu pessoas produtivamente empoderadas, trabalhando de casa, e mercados desagregados (‘caudas longas’), mas esta promessa permaneceu basicamente virtual. Os últimos tablets encarnam as forças familiares da produção fabril, assim como os automóveis da Ford já o fizeram, apenas ainda mais.

A computação pessoal em rede se provou ser um catalisador de fragmentação cultural, dissolvendo a mídia de massa e erodindo o modelo de radiodifusão (que é continuamente suplantado por um ‘conteúdo’ de nicho e peer-to-peer). Ela não pode perturbar radicalmente – ou revolucionar – o sistema industrial, contudo, porque computadores não conseguem se reproduzir. Apenas robôs podem fazer isso. Tais robôs estão agora entrando em foco e inspirando uma excitada discussão pública, muito embora sua natureza e potencial implícitos permaneçam parcialmente disfarçados pela nomenclatura legada, que os subsume sob obscuros processos de manufatura: prototipação rápida, manufatura aditiva e impressão em 3D.

Como esta terminologia discrepante sugere, a revolucionária tecnologia de manufatura que está aparecendo no horizonte pode ser entendida de uma série de maneiras diferentes e aparentemente incompatíveis, dependendo da linhagem industrial em particular a que ela é atribuída. Ela pode ser concebida como o último episódio na história da impressão, como a culminação das capacidades de CAD (computer assisted design – design auxiliado por computadores) ou como um tipo inovador de ferramenta mecânica produtiva (construindo um objeto ‘aditivamente’, em vez de usiná-lo ‘subtrativamente’). Ela permite que ideias sejam materializadas em objetos, que objetos sejam escaneados e reproduzidos ou que objetos desajeitadamente ‘esculpidos’ sejam substituídos por alternativas montadas de maneira precisa.

Tipicamente, a impressão em 3D materializa um objeto definido de maneira digital, ao montá-lo em camadas. A matéria-prima pode ser metal em pó, plástico ou mesmo chocolate, depositados por passos e então fundidos por um processo reiterado de sinterização, adesão ou endurecimento. Enquanto máquinas muito flexíveis (tendendo à universalidade), as impressoras 3D encorajam ciclos de produção mínimos, customização, e manufatura sob medida ou de butique. Mudar o produto não exige mais do que trocar ou mexer no design (programa), sem a exigência de se trocar de ferramentas.

Descrevendo a manufatura aditiva como “The Next Trillion Dollar Industry” (“A Próxima Indústria de um Trilhão de Dólares”, em tradução livre), Pascal-Emmanuel Gobry celebra “potencialmente a maior mudança em como fabricamos coisas desde que a invenção das linhas de montagem tornou a era moderna possível”. Ao passo em que seus adeptos iniciais representam os grupos razoavelmente estritos de prototipadores rápidos, fabricantes de especialidades e amadores, ele explicitamente observa que “as primeiras pessoas que se importaram com coisas como carros, aviões e computadores pessoais foram amadores”.

Gobry vê o mercado crescendo rapidamente: “E o cenário de uma impressora em todo lar não é tão exagerado assim – apenas tão exagerado quanto ‘um computador em todo lar’ era em 1975. Como qualquer outro item tecnológico, as impressoras 3D estão sempre ficando mais baratas e melhores. Impressoras 3D hoje podem ser compradas por cerca de US$5000”.

Rich Karlgaard na Forbes reforça a mensagem: “O custo das impressoras 3D caiu por um fator de dez em cinco anos. Essa é a verdadeira jogada aqui – a impressão em 3D está pegando carona na curva da Lei de Moore, assim como a impressão em 2D começou a fazer nos anos 1980”.

Com o preço das impressoras 3D tendo caído cerca de duas ordens de magnitude em uma década, as comparações com outros mercados consumidores de eletrônicos desenfreados não parecem nada exageradas. “Não é difícil de imaginar um mundo no qual, daqui a 10 ou 20 anos, todo lar terá uma impressora 3D”, observa o dailymarkets.com. A disponibilidade em massa de capacidades de manufatura quase universais prometem a descentralização radical da atividade industrial, um fenômeno que já está chamando a atenção dos principais meios de comunicação. No techliberation.com, Adam Marcus destaca as iminentes questões legais, nos campos da propriedade intelectual e (especialmente) da responsabilidade pelos produtos.

Para compreender o potencial da impressão em 3D em sua radicalidade plena, contudo, a voz mais indispensável é aquela de Adrian Bowyer, do Center for Biomimetic and Natural Technology, no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Bath, Reino Unido. Bowyer é o instigador do RepRap – “um projeto para construir um prototipador rápido replicante. Esta máquina, se bem sucedida, será um exemplo de um Construtor Universal de von Neumann, que é um dispositivo manufaturador de propósito geral que também é capaz de se reproduzir, como uma célula biológica”.

Ele elabora:

Há um sentido no qual uma oficina de manufatura bem equipada é (quase) um construtor universal – ela poderia fazer muitas das ferramentas mecânicas que estão nela. O problema é que quanto mais bem equipado a oficina é, mais fácil se torna fazer qualquer item individual, mas maior é o número e a diversidade dos itens que precisam ser feitos. Certamente é o caso de que a engenharia humana, considerada como um todo, é um construtor universal: ela se auto-propaga sem qualquer insumo externo. …RepRap será um dispositivo mecatrônico usando um engenharia inteiramente convencional (de fato simples). Mas ele é uma parte da biologia. Isto é porque ele pode se auto-replicar com a assistência simbiótica de uma pessoa. Qualquer coisa que possa se copiar imediata e inescapavelmente fica sujeita à seleção darwiniana, mas existe uma importante diferença entre o RepRap e os organismos naturais: na natureza, as mutações são aleatórias, e apenas uma minúscula fração são melhorias; mas com o RepRap, toda mutação é um produto do pensamento analítico de seus usuários. Isto significa que a taxa de melhoria deveria ser muito rápida, pelo menos no começo; é mais análogo à reprodução seletiva – o processo que usamos para criar vacas a partir de auroques e trigo a partir da grama selvagem. Pode-se confiar na evolução para fazer designs muito bons emergirem rapidamente. Ela também gradualmente eliminará itens da lista de partes que precisam ser externamente fornecidas. Note também que qualquer máquina RepRap antiga e não tão boa ainda pode criar uma nova máquina no design melhor e mais novo.

Um Construtor Universal auto-replicante e simbioticamente montado se proliferaria exponencialmente, colocando uma estupenda capacidade de fabricação em uma multidão de mãos, a um custo rapidamente decrescente. Além disso, a dinâmica evolutiva do processo resultaria em um crescimento explosivo em utilidade, comparável àquele alcançado pela domesticação de plantas e animais, mas em uma passo grandemente acelerado.

As implicações do projeto para a economia política são fascinantes, mas obscuras. Bowyer o descreve como um exercício em “Marxismo Darwinista”, ao passo em que o colega RepRapper Forrest Higgs se descreve como um “anarquista tecnocrata”. Em todo caso, parece não haver razão para esperar que as agitações ideológicas do Industrialismo 2.0 (aditivo e distribuído) sejam menos profundas do que aquelas do Industrialismo 1.0 (subtrativo e concentrado). A queda da fábrica está colocada para ser o maior evento em séculos, e a política de robôs pode já estar tomando forma.

Original.

Desacelerando?

Charles Stross quer descer do ônibus

Ao escrever Accelerando, Charles Stross se tornou para a Singularidade Tecnológica o que Dante Alighieri foi para a cosmologia cristã: o transmissor literário preeminente de uma doutrina esotérica, embalando uma concepção metafísica abstrata em imagens vibrantes, detalhadas e concretas. O tom de Accelerando é transparentemente irreverente, mas ainda assim muitas pessoas parecem tê-lo levado inteiramente a sério. Stross já se cansou disso:

“Eu periodicamente recebo e-mails de um pessoal que, tendo lido ‘Accelerando’, assume que eu sou algum tipo de fanático extropiano cuspidor de fogo que acredita na iminência da singularidade, no upload dos libertários e no arrebatamento dos nerds. Eu acho isso levemente angustiante e então eu acho que é hora de ajustar os ponteiros e dizer o que eu realmente penso. …Versão curta: Papai Noel não existe.”

Na seção de comentários (#86), ele esclarece sua motivação:

“Eu não estou convencido de que a singularidade não vai acontecer. É só que eu estou mortalmente cansado do esquadrão de líderes de torcida me abordando e exigindo saber precisamente quantos femtosegundos vai demorar até que eles possam fazer upload até o paraíso da IA e deixar o saco de carne para trás.”

Como essas observações indicam, há mais gesticulação irritável do que argumentação estruturada no post de Stross, o que Robin Hanson bastante razoavelmente descreve como “um tanto como um desabafo – forte em emoção, mas fraco em argumento”. Apesar disso – ou, mais provavelmente, por causa disso – uma pequena tempestade na rede se seguiu, conforme blogueiros pró e contra aproveitaram a desculpa para recriar – e talvez renovar – alguns antigos debates. O militantemente sensível Alex Knapp contribui como uma série em três partes sobre sua própria versão de ceticismo sobre a Singularidade, ao passo em que Michael Anissimov do Singularity Institute for Artificial Intelligence responde tanto a Stross quanto a Knapp, misturando um pouco de contra-argumento com bastante contra-irritação.

Sob o risco de repetir o erro original da base de fãs presos-no-saco-de-carne de Stross e investir muita credibilidade no que é basicamente um post de passagem, poderia valer a pena selecionar alguns de seus aspectos seriamente esquisitos. Em particular, Stross se apoia em uma teoria inteiramente sem explicação de causalidade moral-histórica:

“… antes de criar uma inteligência consciente artificial, temos que perguntar se estamos criando uma entidade merecedora de direitos. É assassinato desligar um processo de software que está, em algum sentido, ‘consciente’? É genocídio usar algoritmos genéticos para evoluir agentes de software em direção à consciência? Esses são alguns grandes impedimentos…”

Anissimov bloqueia essa no passe: “Eu não acho que esses sejam ‘impedimentos’ …Só porque você não quer não significa que não vamos construir.” Pode-se adicionar a questão, de maneira mais geral: Em qual universo objeções arcanas da filosofia moral servem como obstáculos para desenvolvimentos históricos (porque certamente não parece ser este)? Stross seriamente pensa que a pesquisa e o desenvolvimento robótico prático está propenso a ser interrompido por preocupações com os direitos de seres ainda não inventados?

Ele parece pensar, porque mesmo teólogos estão aparentemente recebendo um veto:

“Fazer uploads… não é obviamente impossível, a menos que você seja um dualista mente/corpo cru. Contudo, se isso se tornar plausível no futuro próximo, podemos esperar extensos argumentos teológicos. Se você achava que o debate sobre aborto era acalorado, espere até você ter pessoas tentando se tornar imortais via cabos. Fazer upload refuta implicitamente a doutrina da existência de uma alma imortal e, portanto, apresenta uma rejeição bruta àquelas doutrinas religiosas que acreditam em uma vida após a morte. Pessoas que acreditam no pós-vida irão para o ringue para manter um sistema de crenças que lhes diz que seus entes queridos mortos estão no céu em vez de apodrecendo na terra.”

Isso é tão profunda e abrangentemente perdido que poderia realmente inspirar um momento de perplexa hesitação (pelo menos entre aqueles de nós atualmente não engajados na implementação urgente da Singularidade). Stross parece ter uma confiança desmesurada em um processo de veto social que, com adequação aproximada, filtra o desenvolvimento tecno-econômico em favor de uma compatibilidade com ideais morais e religiosos de alto nível. Na verdade, ele parece pensar que já gozamos do abrigo paternalista de uma teocracia global eficiente. A Singularidade não pode acontecer, porque isso seria realmente ruim.

Não é de se admirar, então, que ele exiba tamanha exasperação com os libertários, com sua “drástica super-simplificação do comportamento humano”. Se as coisas – especialmente coisas novas – acontecessem principalmente porque mercados descentralizados as facilitaram, então o papel do Conselho Planetário para a Aprovação de Inovações seria vastamente reduzido. Quem sabe que tipo de horrores apareceriam?

Fica pior, porque a ‘catalaxia’ – ou emergência espontânea a partir de transações descentralizada – é o motor básico da inovação histórica, de acordo com a explicação libertária, e ninguém sabe o que os processos catalácticos estão produzindo. Línguas, costumes, precedentes do direito comum, sistemas monetários primordiais, redes comerciais e montagens tecnológicas são sempre apenas retrospectivamente compreensíveis, o que significa que elas eludem inteiramente o julgamento social concentrado – até que a oportunidade de impedir sua gênese tenha sido perdida.

Stross está certo em juntar impulsos singularitários e libertários no mesmo emaranhado de críticas, porque ambos subvertem o poder de veto, e se o poder de veto ficar bravo o suficiente com isso, estamos entrando com total inclinação no território de de Garis. “Só porque você não quer não significa que não vamos construir”, Anissimov insiste, como qualquer Cosmista obstinado faria.

Uma IA auto-aperfeiçoadora avançada é tecnicamente factível? Provavelmente (mas quem sabe?). Há apenas uma maneira de descobrir, e o faremos. Talvez ela até seja projetada, de maneira mais ou menos deliberada, mas é bem mais provável que ela surja espontaneamente de um processo complexo, descentralizado, cataláctico, em algum limiar não antecipado, de uma maneira que nunca foi planejada. Existem candidatos definitivos, que frequentemente são esquecidos. Cidades sencientes parecem quase inevitáveis em algum ponto, por exemplo (‘cidades inteligentes’ já são amplamente discutidas). A informatização financeira empurra o capital em direção à auto-consciência. A guerra com drones está puxando as forças armadas cada vez mais fundo na manufatura de mentes artificiais. A biotecnologia está computadorizando o DNA.

Os ‘singularitários’ não têm nenhuma posição unificada sobre nada disso, e realmente não importa, porque eles são apenas pessoas – e pessoas não são nem de longe inteligentes ou informadas o suficiente para dirigir o curso da história. Apenas a catalaxia pode fazer isso, e é difícil imaginar como alguém poderia pará-la. A vida terrestre foi estúpida por tempo o suficiente.

Pode valer a pena fazer mais um ponto sobre a privação de inteligência, uma vez que este diagnóstico verdadeiramente define a posição singularitária, e confiavelmente enfurece aqueles que não compartilham dela – ou a priorizam. Uma vez que uma espécie alcança um nível de inteligência que permite uma decolagem tecno-cultural, a história começa e se desenvolve muito rapidamente – o que significa que qualquer ser senciente que se encontre na história (pré-singularidade) é, quase por definição, basicamente tão estúpido quanto qualquer ‘ser inteligente’ pode ser. Se, apesar das doutrinas morais e religiosas projetadas para ofuscar essa realidade, isso eventualmente for reconhecido, a resposta natural é buscar sua urgente melhoria, e isso já é transhumanismo, se não ainda um singularitarismo maduro. Talvez uma formulação não controversa seja possível: defender a burrice é realmente burro. (Mesmo os dignatários burros deveriam ficar felizes com isso.)

Original.

Bits e Peças

P2P ou não 2P, eis a questão

Conforme o dólar americano alcança profundezas de depreciação que teriam violentado a imaginação de Calígula, as pessoas têm buscado candidatas alternativas para uma moeda de reserva global. O problema é formidável. O Euro e o Yen japonês enfrentam calamidades próprias comparáveis (que misturam crises de débito e colapso demográfico), o Yuan chinês não é conversível, e os híbridos Direitos Especiais de Saque (DESs) do FMI meramente juntam um grupo de moedas fiduciárias com problemas sob um acrônimo tecnocrático.

Entusiastas dos metais preciosos têm uma opção óbvia, uma que já está sendo espontaneamente exercida. Ainda assim, embora números crescentes sem dúvida se agarrarão ao ouro e à prata enquanto botes salva-vidas financeiros, seu uso mais amplo enquanto moeda (em oposição a reservas de valor) é obstruído por uma gama intimidadora de problemas técnicos e políticos. Eles não são digitalmente transferíveis sem complicados instrumentos de mediação e permanecem expostos a um risco político extremo – crises financeiras foram regularmente acompanhadas por confiscos e controles direcionados a participações e transações privadas de metais preciosos.

Para superar tais problemas, um moeda precisaria ser estruturalmente imunizada contra as depredações de bancos centrais, compartilhar do viés deflacionário dos metais preciosos e participar plenamente da tendência técnica em direção à abstração matemática e à comunicabilidade eletrônica, ao passo em que também goze de forte proteção criptográfica contra fiscalização, expropriação e fraude. Surpreendentemente, tal moeda parece já existir. Seu nome é ‘Bitcoin’.

Os motores gêmeos e interativos da modernidade – comércio e tecnologia – se reúnem no Bitcoin com uma intensidade fusional sem precedentes. Essa é uma moeda que é simultaneamente um programa de computador de código aberto, inteiramente nativa do cyberespaço e uma inovação financeira, conduzindo um experimento em tempo real que é de uma só vez social, técnico e econômico. Construída sobre os fundamentos da criptografia de chave pública (PKE), ela cria uma rede aberta peer-to-peer – sem qualquer nó controlador ou gerenciamento discricionário humano – para sustentar um sistema monetário radicalmente descentralizado.

Originalmente inventada por Satoshi Nakamoto (cujo artigo de esboço pode ser encontrado aqui), o Bitcoin desconecta a confiança da autoridade. Em particular, ele é projetado para superar o problema do gasto duplo.

Uma vez que ‘bens’ digitais podem ser replicados a um custo próximo de zero, eles são economicamente definidos como ‘não-rivais’. Se você me vende um computador, ele agora é minha propriedade e não sua. Assim como com todos os bens rivais, a propriedade implica exclusão. Se você me vende um programa de computador, por outro lado, não há qualquer razão para assumir que você não manteve uma cópia para si, ou que o ‘mesmo’ programa não possa ser vendido a múltiplos compradores. Tais bens não-rivais apresentam diversas questões econômicas intrigantes, mas uma coisa está inteiramente clara: um dinheiro não-rival é uma impossibilidade. Sem escassez, ou troca exclusiva, a própria ideia de quantidade monetária perde qualquer sentido, assim como o valor monetário, gasto e investimento, e a escolha do consumidor.

O algoritmo do Bitcoin torna uma moeda digital rival e, assim, efetiva enquanto dinheiro, sem recurso a nenhuma autoridade administrativa. Ela o faz iniciando um ecologia automática ou espontânea, na qual os computadores na rede autenticam as trocas de Bitcoin como efeito colateral da ‘mineração’ de novas moedas. Nós ganham novas moedas, em uma taxa decrescente, ao resolver um enigma digital – acessível apenas a uma abordagem de força bruta computacionalmente intensiva – e, assim, exibir uma prova de trabalho. Este teste filtra o sistema contra intervenções maliciosas, ao estabelecer uma barreira praticamente intransponível para qualquer usuário que busque falsificar o registro de trocas. Discussões competentes podem ser encontradas aqui, aqui e (de maneira mais diversa) aqui.

Esse problema e essa solução estão muito longe de serem arbitrários. É precisamente porque as moedas fiduciárias existentes assumiram características não-rivais perturbadores que a preocupação com a depreciação da moeda alcançou tamanho tom de exasperação. Quando um banco central, no curso de operar uma política monetária tipicamente relaxada, pode simplesmente acelerar as impressoras ou (ainda pior) seu equivalente eletrônico, a integridade da oferta de dinheiro é devastada na raiz. O Bitcoin rigorosamente extirpa tal ruinosa discrição de seu sistema, ao instanciar uma teoria de dinheiro saudável enquanto experimento eletrônico precisa e publicamente definido.

Sem surpresa, o agregado monetário do Bitcoin é modelado sobre os metais preciosos, gerados por mineradores a partir de uma reserva global finita, com custos crescentes de extração. A recompensa pela mineração de moedas cai ao longo do tempo em uma taxa logarítmica (zenônica), em direção a um limite fracionariamente abaixo de 21000000 BTC. Cada Bitcoin pode ser subdividido até oito casas decimais, até um total de mais de dois quadrilhões (2100000000000000) de fragmentos, equivalente a 210000 ‘quanta’ de Bitcoin para cada uma das 10 bilhões de pessoas que compõem a população humana máxima antecipada da Terra. Um quantum de Bitcoin (0,00000001 BTC) é chamado de um ‘Satoshi’ (de Satoshi Nakamoto), embora emendas ao sistema, que permitam mais subdivisões em algum estágio futuro, não estejam excluídas. (Para o tamanho total da economia do Bitcoin olhe aqui.)

O Bitcoin é programado para a deflação ([de um tipo). Isto é uma fonte de deleite para os tipos do dinheiro forte, e de ultraje para aquelas no campo do dinheiro relaxado (inflacionário). Enquanto experimento, o grande mérito do Bitcoin é elevar esse antagonismo para além do nível da polêmica recíproca, até aquele de potencial evidência histórica – e escolha real. Austrolibertários há muito alegam que sistemas de dinheiro livre tendem à deflação e que o banco central encoraja a inflação como um mecanismo sorrateiro de expropriação econômica, com um efeito em última análise desastroso. Os keynesianos, em contraste, deploram a deflação como uma doença econômica que suprime o investimento produtivo e o emprego. Um teste empírico logo poderia ser possível.

Diversas outras questões, teóricas e práticas, se apresentam. No nível prático, tais questões se realizam através de volatilidade especulativa, adaptação institucional e desafios técnicos. Uma vez que toda a economia do Bitcoin continua muito pequena, mudanças relativamente modestas no comportamento econômico produzem oscilações selvagens no valor do BTC, incluindo picos como de bolhas, colapsos precipitados, hypes incontinentes e acusações extravagantes. Apesar da resiliência do algoritmo central, as instituições periféricas que sustentam a economia do Bitcoin permanecem vulneráveis a roubo, fraude e intervenções maliciosas. Como com qualquer experimento revolucionário, a trajetória de desenvolvimento do Bitcoin provavelmente será tumultuosa e altamente imprevisível.

As questões teóricas podem ser entretidas de maneira mais calma. A mais importante destas se relaciona à natureza essencial do dinheiro e seu futuro. O Bitcoin simula de maneira bem-sucedida as características significantes dos metais preciosos, de tal modo que sua substância pode ser descartada da equação monetária como escória irrelevante? Quão poderosas são as forças que levam à convergência monetária? As vantagens de primeiro movimento ‘prenderão’ o Bitcoin, às custas de alternativas posteriores? Ou sistemas monetários múltiplos – talvez cada vez mais heterogêneos – continuarão a co-existir? O Bitcoin é meramente um estágio em uma sequência aberta de sistemas monetários inovadores, ou ele captura as características essenciais do dinheiro de maneira bastante definitiva (deixando espaço apenas para melhorias incrementais ou ajustes)?

Defensores do status quo monetário poderiam insistir em mais uma linha de questionamento, mais escarnecedora: o Bitcoin é um beco sem saída, uma irrelevância ou uma fantasia libertária cipherpunk ilusória, a ser julgada eventualmente como algo similar a um boato? O que seria notar que, em última análise, as maiores questões serão políticas, e as discussões mais aquecidas já o são.

Os governos podem se dar ao luxo de tolerar moedas não geridas e autônomas? Veremos.

Original.

Edward Glaeser sobre o Triunfo da Cidade

Entrevistamos o urbanista mais atual do mundo

Shanghai não é uma das cidades que aparecem seu livro. Ela é massiva e massivamente feita de arranha-céus. Você já considerou escrever sobre ela?

Shanghai é uma das maiores cidades do mundo, mas eu não conheço a cidade bem o suficiente para escrever sobre ela. Espero conhecer a cidade melhor e colocar os sucessos de Shanghai em alguma obra posterior.

A China é um lugar onde as cidades cresceram de maneira incrivelmente rápida e houve um êxodo em massa do campo para a vida urbana. No que você acha que as cidades da China deveriam se focar conforme crescem?

A cidades, hoje, prosperam enquanto forjas de capital humano e motores de inovação. A China claramente reconhece isto e está investimento maciçamente em educação. Isso deveria continuar. De maneira igualmente importante, a China precisa focar em fomentar mais empreendedorismo eliminando quaisquer barreiras que restem a pequenas start-ups.

Você fala sobre como as cidades deveria ser vistas como “massas de humanidade conectada”, em vez de aglomerações de construções. Você acha que isto é bem entendido neste momento, ou muitos lugares ainda estão tentando “construir seu caminho de volta ao sucesso”?

Infelizmente, muito frequentemente líderes político tentam angariar manchetes com uma nova estrutura chamativa. A chave é focar naqueles investimento em infraestrutura que realmente beneficiarão as pessoas na cidade.

Você é otimista quanto à possibilidade dos planejadores urbanos ao redor do mundo encontrarem o equilíbrio entre Paris e Mumbai, isto é, entre o planejamento central no estilo Haussman, que corre o risco de esterilidade, e um cada-um-por-si caótico?

Essa é a pergunta de um trilhão de dólares. Eu gostaria de poder ser mais otimista, mas o planejamento urbano é difícil e muitos governos são ou incapazes de gerenciar o caos, ou demasiado inclinados ao controle central. Isto reque não apenas conhecimento, mas força política, e essa é uma combinação rara.

Quais cidades ao redor do mundo estão acertando? Quais não estão?

Eu acredito que Singapura é a cidade mais bem gerida do mundo – boas escolas, uma excelente política de transportes e um abordagem sensata à regulamentação. Mas Hong Kong também é bastante impressionante, e eu pessoalmente prefiro seu estilo um pouco mais caótico.

O ocidente tem muitas potência urbanas, mas poucas delas são realmente modelos de gestão perfeita. Por exemplo, eu sou um grande fã do Prefeito Menino em Boston, mas apesar de mais de 15 anos de trabalho duro, as escolas de Boston ainda estão tendo dificuldades.

Obviamente, Barcelona, Paris e Milão são todas cidades encantadoras e maravilhosas, mas elas não são necessariamente modelos de boa gestão.

Você é cautelosamente otimista em seu livro, mas o que lhe preocupa mais quanto ao futuro da cidade?

Os maiores desafios estão nas mega-cidades do mundo em desenvolvimento, especialmente na África. Estamos muito longe de fornecer sequer os essenciais básicos como água potável em muitos lugares.

Nos EUA, temos problemas enormes de má gestão fiscal que precisão ser abordados. Além disso, há sempre a possibilidade de desastres físicos realmente grandes – sejam naturais ou humanos.

Há alguma maneira de se contornar o fato de que as cidades mais vibrantes também se tornam as mais caras – ou, como você diz no livro, isto é simplesmente o preço da boa saúde urbana?

As leis da oferta e da demanda não podem ser revogadas. Se uma cidade é atraente e produtiva, a demanda pelos seus imóveis será alta. O melhor antídoto para isso é uma oferta abundante, mas é um erro subsidiar a habitação urbana. O melhor caminho em direção a uma maior acessibilidade vem de uma construção privada de habitação que seja regulamentada apenas tanto quanto for absolutamente necessário. Ainda assim, construir pode ser caro e isso sempre tornará os preços nas cidades bem-sucedidas mais caros.

Ao funcionarem como motores de oportunidade econômica e como refúgios, as cidades tendem a concentrar disparidades econômicas. Você acha que se pode argumentar que tais desigualdades poderiam ser interpretadas como um sintoma do sucesso urbano? Você poderia estar sutilmente sugerindo isso em sua própria obra?

Eu estou sugerindo exatamente isso. A desigualdade nacional pode ser um problema real, mas a desigualdade local pode ser um sinal de saúde. As cidades tipicamente não tornam as pessoas pobres, elas atraem pessoas pobres. A desigualdade de uma cidade reflete o fato de que ela atrai pessoas ricas e pobres igualmente, e isso é algo a se admirar.

Como as cidades podem se esforçar para controlar a desigualdade e evitar guetos de ricos e pobres? Elas sequer deveriam estar tentando?

A educação é a melhor arma contra a desigualdade. As cidades deveriam estar se esforçando para garantir que as crianças de cada pai e mãe tenham uma chance de serem bem-sucedidas.

Algum grau de estratificação por renda é inevitável, mas a segregação pode ser bastante custosa porque tais separações significam que pessoas isoladas perdem as vantagens urbanas da conexão. Não existem grandes ferramentas para a redução da segregação, mas os governos deveriam garantir que suas políticas não exacerbem a segregação.

Geoffrey West, no Santa Fe Institute, tem estudado as cidades como ‘sistemas complexos’ e identificou uma série de padrões confiáveis e quantificáveis sobre este fundamento. Você acha este tipo de análise informativa ou relevante para sua obra?

Cidades são, de fato, sistemas complexos.

Mesmo no mundo moderno, com o nacionalismo ascendente, cidades-estado parecem ser incomumente bem-sucedidas. As cidades fornecem um desafio às concepções dominantes sobre organização política em larga escala? Como você avalia os prospectos das políticas de devolução, com uma ênfase municipal?

Eu não acho que os estados-nação estarão propensos a ceder tanto poder assim, e as cidades podem continuar economicamente dominantes, mas politicamente fracas. O caminho nos EUA continua a ser em direção a mais, não menos, poder nacional, e eu acho que isso provavelmente é um erro. Em muitos casos – tais como Mumbai – escolhas locais certamente seriam melhores do que as escolhas impostas às cidades vindas de cima.

Além do seu próprio trabalho, quem você considera serem os autores mais importantes sobre cidades hoje?

Eu admiro profundamente o historiador de Columbia, Kenneth Jackson.

Original.