Tempo em Transição

Tem que haver um hexagrama para isso

O Philosophae Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton abstraiu o tempo dos eventos, estabelecendo sua tratabilidade para o cálculo científico. Concebido enquanto duração pura e absoluta, sem qualidades, ele se conforma perfeitamente à sua idealização matemática (enquanto linha numérica real). Uma vez vez que o tempo já é puro, sua realidade indistinguível de sua formalização, uma matemática pura da mudança – o cálculo – pode ser aplicada à realidade física sem obstrução. O cálculo pode descrever de maneira exata as coisas enquanto elas ocorrem em si mesmas, sem se desviar, sequer infinitesimalmente, dos rigorosos ditames da inteligência formal. Desta maneira, a filosofia natural se torna ciência moderna.

(Talvez seja irônico que a formulação newtoniana do tempo não-qualitativo coincida com uma ruptura revolucionária – ou transição qualitativa – talvez inigualada na história. Isso, contudo, é uma questão para um outro momento.)

A ciência moderna não acabou com Newton. O tempo foi, desde então, relativizado à velocidade (Einsten) e perfurado com catástrofes (Thom). Ainda assim, as qualidades do tempo, uma vez evacuadas, não podem ser prontamente restauradas.

A tecnologia do relógio é suficiente para contar esta estória, por si só. Dispositivos de crono-“metragem” produzem uma medida de duração, de acordo com os princípios gerais da produção mecânica padronizada, de modo que um minuto marcado no relógio é despojado de distinção qualitativa automaticamente. Cronometricamente, qualquer diferença entre um minuto e outro é uma discrepância mecânica, estritamente análoga à um mau funcionamento da linha de produção.

A modernização do tempo culmina em uma inversão de definição, eventualmente padronizando a partir um bloco construtivo precisamente reprodutível (o segundo atômico), em vez de se acomodar a um ciclo natural de larga escala – qualificado por variações de luminosidade – que gera sub-unidades através de divisões. Uma vez que o segundo tenha se tornado inteiramente sintético, toda referência a um ‘quando’ qualitativo foi apagada. Tudo o que resta é comparação quantitativa, cronometragem e sincronização, como se o relógio tivesse sido modelado sobre o cronômetro. Calendários se tornaram um anacronismo.

As intuições modernas do tempo encontrariam bastante apoio, mesmo na ausência de uma cronometria mecânica. Toda tendência quantificável, desde o movimento de ações ou um problema de desemprego até um padrão demográfico ou um desastre ecológico, pode ser comunicado através de gráficos que assumem uma facilidade popular com a intuição gráfica e, assim, implicitamente, com a geometria algébrica e mesmo com o cálculo. O tempo é tão ampla e facilmente identificado com o eixo x de tais gráficos que o princípio de representação pode ser deixado sem explicação, por mais estranho que isto pudesse ter parecido aos pré-modernos. Claramente, se o tempo pode ser lido a partir de um eixo – de maneira rápida e intuitiva – ele está sendo concebido, de maneira geral, como se fosse uma linha numérica (‘newtoniana’).

O tempo qualitativo, por agora, é um exotismo pouco acessível. Em nenhum lugar isto é mais óbvio do que no caso do antigo Clássico da Mudança chinês, o Yijing, uma obra que hoje não é menos hermética para os chineses do que é para os estrangeiros.

O Yijing é um livro de números tanto quanto um livro sobre o tempo, mas seu números são combinatórios em vez de métricos, exaurindo um espaço de possibilidades e construindo uma tipologia de tempos. O Yijing fala frequentemente de quantidades, mas não as mede. Em vez disso, ele as tipologiza enquanto processos de aumento e diminuição, ascensão e queda, lassitude e aceleração, típicos de fases qualitativas de ciclos recorrentes, com um caráter identificável e uma implicação prática confiável.

O ponto de tudo isto (caso você estivesse se perguntando)?

O tempo atual é um período de transição, com uma qualidade distintiva, que caracteriza o fim de uma época. Algo – alguma era – está chegando bem rapidamente a um fim.

Esta não é uma situação a que a mentalidade moderna esteja bem adaptada, uma vez que viola certas estruturas essenciais de nossa consciência temporal. Ela elude nossas intuições e nossos relógios. Nossos gráficos a registram apenas como uma quebra, à medida em que terminam com o eixo x em um ponto de infinitude sem sentido (hiperinflação, índices p/l de ações em bolhas, exposição global de derivativos, intensidade urbana, explosão de inteligência tecnológica) ou em um colapso até zero (produtividade marginal da dívida, credibilidade da moeda fiduciária, custos unitários de bens de capital auto-replicantes). A barriga explode de tanto empurrar. As coisas não podem continuar como estiveram, e não vão.

Dado o clima político aquecido em torno da iminente transição do sistema econômico global, um diagnóstico não controverso é quase certamente inalcançável. Niall Ferguson descreve uma Era de Indignação Global, ou Ataque de Raiva Global, na qual a natureza objetivamente insustentável da ordem estabelecida, embora seja percebida de maneira ampla, mesmo que vaga, ainda elude o reconhecimento sóbrio. Revoltas, coquetéis molotov e fabulosas teorias da conspiração são o resultado.

“O que todos os Indignados têm em comum é a recusa de abordar diretamente o problema que quase todos os países ocidentais enfrentam. Esse problema é que os sistemas de bem-estar social que se desenvolveram na metade do século XX são impagáveis sob as circunstâncias demográficas e econômicas do século XXI. A crise financeira meramente exacerbou o que já era um crise estrutural severa das finanças públicas, impulsionando os déficits enquanto desacelera o crescimento.”

Com toda a probabilidade, a análise contundente de Ferguson provocará novos paroxismos de indignação. Ainda assim, conforme as sociedades mais mimadas do mundo deslizam cada vez mais para dentro da insolvência, tais avaliações pouco diplomáticas ficarão cada vez mais comuns, e a raiva que inspiram ficará cada vez mais desequilibrada.

John B. Taylor enfatiza a senescência e morte da macroeconomia keynesiana (com base no trabalho anterior de Robert E. Lucas e Thomas J. Sargent). Sua pesquisa conclui que “o multiplicador keynesiano para pagamentos de transferência ou descontos de impostos temporários não foi significativamente diferente de zero para o tipo de programas de estímulo promulgados na década de 2000”. Em outras palavras, os estímulos estão deixando de estimular, e dívidas públicas gigantescas foram acumuladas sem qualquer propósito racional. Esta é a ‘saturação de dívida’ que Joe Weisenthal descreve como “uma transição de fase em nossa relação de dívida”, retratada graficamente no “[gráfico] mais assustador de todos os tempos”.

Entre o estímulo financeiro e o estímulo químico, não há qualquer distinção de significância prática. Keynesianismo e cocaína são ambos inicialmente revigorantes, antes de se estabilizarem em hábitos caros que continuamente perdem efetividade conforme o vício se aprofunda. No momento em que a falência e a mortalidade acenam, sair do estímulo parece ser quase impossível. Melhor bater e queimar – ou esperar que alguma coisa ‘apareça’ – do que sofrer as agonias da abstinência, que será o inferno e não promete nada mais sedutor do que uma normalidade mínima no final de uma estrada sombria. O caráter decai até fraude crônica, raiva intermitente e auto-piedade sentimental. Ninguém gosta de um viciado, muito menos de uma civilização viciada.

O keynesianismo nasceu em engano – a exploração deliberada da ‘ilusão do dinheiro’ para propósitos de gestão econômica. Seu efeito sobre uma cultura política é profundamente corrosivo. O ilusionismo se espalha por todo o corpo social, até que as próprias ideias de moeda forte (dinheiro honesto) ou orçamentos equilibrados (gasto honesto) sejam marginalizadas a uma franja ‘excêntrica’ e ser ‘politicamente realista’ tenha se tornado sinônimo de uma negação mais ou menos total da realidade. Esperar que um establishment econômico keynesiano confronte honestamente suas próprias falhas é compreender risivelmente mal a síndrome em discussão. Um reino de mentiras é estruturalmente incapaz de ‘ficar limpo’ antes de pular do penhasco (alguém precisa fazer outra paródia de A Queda, sobre a macroeconomia no bunker do Führer).

A longa farra de coca keynesiana foi o que o Ocidente fez com o seu lado da globalização, e, conforme tudo se desfaz – em meio a procrastinação política e furiosos protestos de rua – uma restauração planetária de algum tipo é inevitável. O motor ‘Chimérico‘ de globalização pós-colonial requer uma revisão fundamental, se não uma substituição completa. O imenso dinamismo da Era Chimericana, assim como suas duradouras realizações, dependeram de desequilíbrios sistemáticos que se tornaram patentemente insustentáveis, e é altamente improvável que todas as consequência negativas venham a se confinar a apenas um lado do registro mundial.

Por exemplo, a crescente taxa de investimento chinesa, que se estima ter chegado a 70% do PIB, parece ter se desconectado de qualquer prospecto de retornos econômicos razoáveis. A Pivot Capital Management conclui: “o crescimento do crédito na China atingiu níveis críticos e sua efetividade em impulsionar o crescimento está caindo”. Para a quinta geração da liderança da RPC, programada para assumir a responsabilidade pela gestão política da China a partir de 2012, a inércia não será uma opção. Nesse momento, meia década de saturação global de estímulos, mau funcionamento econômico em cascata e ‘cisnes negros’ em série (o ‘clusterflock‘ do novo milênio) terão remodelado a arquitetura financeira, os padrões comerciais e os debates políticos do mundo. O que quer que venha a seguir tem que ser algo novo, acompanhado – pelo menos momentaneamente – de uma apreensão genuína da realidade econômica.

Para a Shanghai pós-Expo, uma cidade reconstruída de maneira inacreditável na era da Chimérica, o tempo de transição é uma questão de preocupação especialmente aguda. Esta é uma metrópole que ascende e cai junto com o pulso do mundo, rigidamente presa às grandes marés de picos e recessões da globalização. A próxima fase da história mundial a tratará tão bem quanto a última?

Original.