Domínio Calêndrico (Parte 2)

César com a alma de Cristo

O politicamente correto legislou tacitamente contra os acrônimos ainda predominantes que definem o calendário internacional hegemônico (AC-AD), e propôs alternativas claras (AEC-EC). Tanto a crítica quanto a sugestão são inteiramente consistentes com seus princípios. De acordo com a doutrina do multiculturalismo (uma hegemonia mais recente e também mais ativa), estende-se a presunção liberal de igualdade formal de indivíduos para ‘culturas’, alocando direitos de grupos e identificando – ao passo em que imediatamente se denuncia – a discriminação e o privilégio. Como poderia se esperar de uma ideologia que se concentra excepcionalmente entre elites intelectuais, o remédio proposto é puramente simbólico, tomando a forma de uma retificação de signos. O ‘problema’ é diagnosticado como uma falha de consciência, ou sensibilidade, exigindo apenas uma elevação de consciência (a ser efetuada, pode-se seguramente assumir, através de profissionais apropriadamente credenciados e compensados).

Mesmo considerada em seus próprios termos, contudo, a retificação que é sugerida não equivale a nada mais do que um gesto de recusa vazio, que acompanha uma conformidade fundamental. Ao passo em que a ‘esquerda’ simbólica tira conforto da insistência em uma mudança sem importância, com sua ofensa intrínseca às suposições conservadoras, reforçada por uma crítica moral implícita da tradição, a indignação compensadora da ‘direita’ fixa toda a disputa dentro das trincheiras imobilizadas da ‘guerra cultural’ anglo-americana. A estrutura profunda dos signos calêndricos persiste sem ser afetada. Entre o domínio cristão (que invoca ‘Nosso Senhor’) e uma ‘era comum’ que é obedientemente enquadrada pela datação da revelação cristã, não há diferença que importe. É o que conta que conta.

O politicamente correto falha aqui da maneira que sempre o faz, devido à sua desconexão do ‘correto’ de qualquer princípio rigoroso de cálculo e à separação da ‘sensibilidade’ de qualquer percepção realista. Um calendário é um edifício cultural profundo, que orquestra a apreensão do tempo histórico. Como tal, ele é invulnerável às mordidas de mosquito da irritabilidade ideológica (e a dominância não é redutível a falta de educação).

O problema do Domínio Calêndrico Ocidental não é de supremacismo (etiqueta), mas de supremacia (fatalidade histórica). Poderia ser colocado assim: Como a globalização modernista veio a ser expressa como um Oecúmeno Cristão? Em grande medida, esta é a questão de Max Weber e de Walter Russell Mead, mas ela transborda as investigações de ambos, na direção da antiguidade européia e do oriente médio. O estímulo inicial para essa investigação é fornecida por uma estranha – e mesmo fantástica – coincidência.

Em seus cadernos, Friedrich Nietzsche imaginava o super-homem (Übermensch) como um “César com a alma de Cristo”, um ser quimérico cujas tensões ecoam aquelas da Igreja de Roma, da liturgia cristã latinizada e do calendário ocidental. Este hibridismo é expressado por uma multidão de características calêndricas, que seguem uma divisão geral de trabalho entre uma estruturação romana do ano (dentro do qual os festivais pagãos superficialmente cristianizados estão espalhados de maneira não sistemática), e uma contagem de anos cristã, mas também aponta em direção a um plano de fusão críptico – até mesmo radicalmente ininteligível.

No Ano Zero, que nunca aconteceu, uma misteriosa sincronização ocorreu, imperceptivelmente e despercebida, fundando a nova ordem calêndrica teopolítica. Para os cristãos, que não assimilariam o Império até o reino de Constantino no começo do século IV AD, Deus encarnou como homem, no embrião de Jesus Cristo. Simultaneamente, em uma Roma que estava perfeitamente desatenta à concepção do Messias, o calendário juliano se tornou operacional. A reforma calêndrica de Júlio César começara 45 anos antes, após os Anos de Confusão, mas uma execução incompetente nas décadas subsequentes havia sistematicamente calculado errado o ano bissexto , intercalando um dia a cada três anos, em vez de um a cada quatro. O anômalo ciclo trienal foi abandonado e “o calendário romano finalmente foi alinhado ao calendário juliano em 1 AC (com 1 AD o primeiro ano completo de alinhamento)”, embora nenhuma significância especial fosse ser atribuída a esses anos até que Dionísio Exíguo integrasse a história cristã em 525 AD.

Dada a espantosa negligência desse evento gêmeo, alguma ênfase adicional é apropriada: O calendário juliano, que persistiria, sem modificação, por quase 1600 anos e que ainda domina o entendimento coloquial da duração do ano (em 365.25 dias), nasceu – por um ‘acaso’ puro e escandaloso – na origem precisa da Era Cristã, conforme registrado pela numeração ocidental, e agora internacional, do tempo histórico. A contagem dos anos, assim, simula de maneira exata uma comemoração do próprio calendário – ou, pelo menos, de seu protótipo – muito embora o nascimento deste calendário, seja ele entendido em termos de razão secular ou providência divina, não tenha absolutamente nenhuma conexão com o começo contado. Isto é uma coincidência – ou seja, um destino percebido sem compreensão – que nem a autoridade romana, nem a revelação cristã foram capazes de explicar, mesmo ao passo em que ela sorrateiramente molda a história ocidental (e, depois, global). Conforme o calendário dominante mundial conta os anos sob o que parece ser uma inspiração religiosa particular, ele se refere secretamente ao seu próprio início, aludindo a mistérios do tempo que são alienígenas para qualquer fé. Esse tanto é simples fato.

Ao contrário do calendário juliano, o calendário gregoriano foi determinado sob os auspícios cristãos, ou pelo menos sob a autoridade cristã formal (aquela do Papa Gregório XIII), e foi promulgado por bula papal em 1582. Ainda assim, um olhar basta para revelar a continuação do domínio calêndrico juliano, uma vez que a reforma gregoriana efetua transformações que permanecem estritamente compatíveis com o padrão juliano, modificado apenas por operações elementares de re-escalonamento e inversão decimal. Onde o calendário juliano tomava quatro anos como sua unidade cíclica basal, o gregoriano toma quatro séculos, e onde o juliano adiciona um dia bissexto em quatro anos, o gregoriano deixa um e subtrai três em 400. O resultado foi uma aproximação melhorada do ano tropical (em média ~365,24219 dias), do ano juliano de 365,25 dias para o gregoriano de 365,2425 dias, uma redução de mais de 20 vezes na discrepância, de uma média de ~0,00781 dias por ano (desviando das estações a um dia a cada 128 anos) para ~0,00031 (desviando um dia a cada 3226 anos).

A combinação de fidelidade arquitetônica com ajustes técnicos define a reforma conservadora. Ela é claramente evidente neste caso. Um calendário neo-juliano, estruturado em seus fundamentos na sua origem em 1 AD menos 1, mas tecnicamente modificado na margem no interesse de uma precisão melhorada, armou o Ocidente com o mais eficiente sistema de marcação de tempo em larga escala do mundo, por volta do início do período moderno. Na China, onde os letrados confucionistas organizavam competições para testar vários calendário de todo o mundo contra a previsão de eclipses, jesuítas equipados com o calendário gregoriano prevaleceram contra todas as alternativas, garantindo a inexorável tendência em direção às convenções calêndricas ocidentais ou, pelo menos, a firme identificação dos métodos ocidentais com a eficiência modernista. Dada apenas uma margem, na China e em outros lugares, a dinâmica de sistemas complexos assumiu o controle, pois os ‘efeitos de rede’ prenderam o padrão predominante, ao mesmo tempo em que sistematicamente marginalizavam seus concorrentes. Muito embora o Ano Zero ainda estivesse faltando, ele estava, cada vez mais, faltando ao mesmo tempo para todo mundo. “César com a alma de Cristo” – o mestre do quadriênio e do eclipse – havia se instalado como o significado implícito da história.

(Ainda por vir – na Parte 4? – Contra-Calendários, mas provavelmente precisamos de uma excursão por entre o zero primeiro).

Original.

Domínio Calêndrico

Como a hegemonia ainda conta

Modernidade e hegemonia são obsessões do Urbano Futuro, o que poderia (pelo menos em parte) desculpar um link para este artigo no Daily Mail britânico, sobre o tópico do cristianismo, do calendário e do politicamente correto. Ele se dirige ao domínio internacional do calendário cristão gregoriano e ocidental, e às sensibilidades daqueles que, embora talvez reconciliados com a inevitabilidade de se contar em anos de Jesus, permanecem determinados e desevangelizar a acronímia que o acompanha. Mais particularmente, ele se foca na BBC e em sua tentativa de sensibilizar em nome de outras pessoas (passa a pipoca).

O departamento de religião e ética da BBC diz que as mudanças são necessárias para evitar ofender não-cristãos.

Ele afirma: ‘Uma vez que a BBC está comprometida com a imparcialidade, é apropriado que usemos termos que não ofendam ou alienem não-cristãos.’

‘De acordo com a prática moderna, AEC/EC (Antes da Era Comum/Era Comum) são usados como uma alternativa religiosamente neutra a AC/AD).’

Mas o movimento irritou os cristãos…

Ann Widdecombe, a ex-ministra católica Tory, disse: ‘Eu acho que o que a BBC está fazendo é ofensivo aos cristãos. Eles estão descartando termos que existem há séculos e são bem entendidos por todos’

‘O que eles vão fazer a seguir? Se livrar de todo o calendário com base em que ele tem raízes no cristianismo?’

É uma questão interessante, e a tentativa de mantê-la aberta, tão provocadoramente quanto possível, poderia ser a melhor razão para se evitar remédios simplistas e politicamente corretos ao ‘problema’, como quer que ele seja entendido. Anno Domini nos lembra de domínio, que é um guia bem melhor para a realidade histórica do que os gestos kumbaya em relação a uma ‘Era Comum’, como se a hegemonia não tivesse conteúdo para além da união. Uma vez que o domínio não foi alcançado primariamente através da falta de educação ou da insensibilidade, o multiculturalismo politicamente correto é uma resposta irrelevante (e desonesta) a ele.

Independentemente de se Jesus é seu Senhor ou não, o calendário cristão domina, ou pelo menos predomina, e os acrônimos tradicionais registram este fato de maneira acurada. AD caralho!, como os comentadores do Zerohedge poderiam dizer.

É um paradoxo intrigante e inelutável da modernidade globalizada de que sua aproximação de universalidade permanece fundamentalmente estruturada por peculiaridades etno-geográficas de um tipo distintivamente pré-moderno. O mundo não foi integrado através de união, mas por uma sucessão de potências particulares, com seus traços, legados e paroquialismos característicos. Para melhor ou para pior, essas características peculiares foram instaladas profundamente na ordem governante do mundo. Seus signos foram meticulosamente conservados e estudados, ao invés de desajeitadamente apagados, porque eles são pistas críticas para a real natureza do destino.

Sem exceção, os calendários são tesouros de informação etno-histórica intricadamente sedimentada. Eles tentam resolver um problema em última análise insolúvel, ao racionalizar aritmeticamente quantidades astronômicas irracionais, mais obviamente os ciclos incomensuráveis da órbita terrestre (ano solar), da órbita lunar (mês) e da rotação terrestre (dia). Nenhum construto aritmético coerente pode jamais reconciliar esses períodos, e mesmo um calendário repulsivamente deselegante só pode fazê-lo até uma margem tolerável de erro. O consequente compromisso periclitante, tipicamente deformado por uma série tortuosa de ajustes, reembaralhamentos e intercalações, conta uma estória elaborada de prioridades culturais fixas e variáveis, mudanças de regime, restrições herdadas, influência alienígenas, capacidades conceituais e refinamentos observacionais, complicados ainda mais por processos de deriva, adoção e inovação que ondulam por através de signos numéricos e linguísticos.

O calendário hegemônico (gregoriano), por exemplo, é uma irregular colisão temporal de períodos incomensuráveis, em que múltiplas variedades de desunião se atropelam conjuntamente. As semanas não se encaixam nos meses ou nos anos solares e lunares, mas os atravessam de maneira quase aleatória, de modo que dias e datas deslizam ébrios uns pelos outros. O duração da semana é bíblica, mas os nomes dos dias combinam astrologia antiga (de “Saturday” [sábado] até “Monday” [segunda-feira]) com os deuses da mitologia nórdica (de “Tuesday” [terça-feira] até “Friday” [sexta-feira]). Embora o aspecto linguístico nórdico da semana não tenha sido fortemente globalizado, seu aspecto judaico-numérico foi. Os meses são uma bagunça medonha, desajeitadamente incompatíveis uns com os outros, com o ciclo lunar e com a sucessão das semanas e atestam a astro-política confusa e errática do Império Romano em sua mistura linguística de divindades (Janeiro, Março, Abril?, Maio, Junho), festivais (Fevereiro), imperadores (Julho, Agosto) e números (de Setembro até Dezembro). Não há necessidade se escavar esse exuberante monte de esterco aqui, exceto para se observar que o ‘cristianismo’ do calendário ocidental repousa sobre fundações pagãs e poli-numéricas apodrecidas pelo caos.

O que importa para o debate de AD-AC (vs EC-AEC) não é a desordem interna multitudinariamente murmurante do calendário ocidental, mas sua estimativa dos anos, ou ‘era’. Neste aspecto, ele tem claros competidores e, assim, desperta ressentimentos definidos, uma vez que seus primos mais próximos afirmam suas próprias eras. A era do calendário hebreu remonta ao tohu (caos) do ano antes da criação e registra os anos do mundo (latinizado como Anno Mundi) até o atual 5778 AM. O calendário islâmico, que começa a partir da Héjira de Maomé, de Meca até Medina, chegou a 1439 AH em 2018 AD.

O calendário cristão, primeiro sistematizado em 525 AD por Dionísio Exíguo (Denis, o Menor), conta o primeiro Anno Domini Nostri Iesu Christi como o ano de nascimento de Jesus filho de José, um falso messias para os judeus, o Cristo e Redentor para os cristãos, um profeta para os muçulmanos, o nazareno opressor para os satanistas, e alguma outra coisa, ou nada demais, para todo o resto. Independentemente da precisão de sua cronologia ou teologia tácita, contudo, essa é a contagem de anos que foi herdada globalmente a partir do processo real da modernidade e reconhecida como um padrão mundial pelas Nações Unidas, entre outras organizações internacionais.

Comparado aos calendários abraâmicos, aqueles dos gigantes democráticos da Ásia em geral careciam de um foco doutrinário e didático firme. Normalmente pode-se confiar na Índia para inundar qualquer tópico que seja em multiplicidade delirante, e o calendário não é nenhuma exceção. Os calendários bengali, malaiala e tâmil são todos amplamente usados em suas respectivas regiões, o Calendário Nacional Indiano conta a partir de 78AD = 0, o que, de agourento acordo com os atuais eventos, nos coloca em 1940, e o calendário religioso hindu mais amplamente aceito soma os anos desde o nascimento de Krishna, chegando a 5119 em 2018 AD.

A fabulosa complexidade do calendário tradicional da China o torna um paraíso para os nerds. Mais comumente, ele conta os anos de cada reino imperial e é, desta forma, integrado por uma narrativa literária de história dinástica, em vez de um contínuo aritmético. (O obstáculo que isso apresentou para a universalização modernista é brutalmente óbvio.) Alternativamente, contudo, ele agrupa o tempo histórico em ciclos de sessenta anos, começando a partir de 2637 AC (o que nos coloca no 35º ano do ciclo 78). A maioria dos chineses hoje parece ter uma conexão extremamente tênue com esta dimensão de sua herança calêndrica, que mal sobrevive fora dos departamentos acadêmicos de história antiga e nos templos taoistas. Embora a estrutura interna do ano tradicional sobreviva sem danos, como atestado pelo ciclo anual de festividades, a rendição chinesa à contagem de anos gregoriana parece absoluta.

Os conservadores cristãos certamente estão corretos em argumentar que é a contagem dos anos – o número e a era – que importa. Os acrônimos são meramente explicativos e até mesmo essencialmente tautológicos. Uma vez que se tenha decidido que a história é medida pelo nascimento de Jesus e dividida por ele, é tarde demais para se tergiversar sobre a atribuição de dominância. AD caralho. Esse argumento acabou.
(A seguir, na Parte 2 – Contra-calendários)

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Neomodernidade

Alegações de se ter descoberto ou inventado o neomoderno, a neomodernidade ou o neomodernismo têm sido anunciadas em campos tão variados quanto as belas artes, a filosofia política e moral, a teologia, a economia, a memética, o xadrez e, aparentemente, o design de banheiros. Na sociologia, a “segunda modernidade” de Ulrich Beck é um equivalente próximo.

Assim como com o modernismo e o pós-modernismo, é a arquitetura que é central para a definição pública duradoura da neomodernidade. Os filósofos sempre apenas interpretaram o mundo, mas os arquitetos conseguem construi-lo. Embora ainda incoerente, uma paisagem arquitetônica neomoderna está bastante inequivocamente em construção. Isto é especialmente evidente em Shanghai.

Quando guiado pela construção arquitetônica real, o fio que leva até a neomodernidade de Shanghai começa em Turim, com a ‘restauração’ da Fábrica da Fiat em Lingotto feita por Renzo Piano em 1989. Esta obra foi exemplar em uma série de aspectos. Ela equilibrava criação com renovação, atualizando radicalmente e reaproveitando uma estrutura existente e de larga escala, ao passo em que venerava a original. A fábrica já era um icônico edifício modernista, imortalizado no Vers une Architecture (1923) de Le Corbusier. O design multi-uso de Piano misturava revolução funcional com conservação estrutural. Características hiper-contemporâneas (incluindo uma bolha no telhado e um novo sistema de janelas) empregavam materiais leves e transparentes, a fim de minimizar o impacto estrutural (ao passo em que maximizava o impacto funcional). Desta maneira, uma planta industrial foi transformada em um hotel e um espaço de lazer, exibição e conferência, através da recapitulação da herança industrial. O padrão neomoderno havia sido estabelecido.

Seria possível se argumentar, de maneira razoável, que o moderno é sempre já e inerentemente neomoderno, que atualizações implacáveis e auto-superadoras estão embutidas nele desde o princípio. Ainda assim, o prefixo complicador é importante e informativo, como Piano demonstra. Em vez de expressar uma melhoria regular e contínua, a construção neomoderna manifesta e celebra a descontinuidade. A modernidade é dividida e se torna, em parte, passado. A noção semi-paradoxal de ‘herança modernista’ se torna uma inspiração animadora, ou re-animadora.

A modernidade fica datada de maneira estranha e intrigante, porque se posiciona na vanguarda do tempo, expressando uma infusão do futuro. Em seu sentido vital e coloquial, o ‘moderno’ é um termo indexical que descreve o que está acontecendo agora ou recentemente. É neste sentido que a modernização permanece irrepreensivelmente atualizada, ancorada, indexicalmente, ao contemporâneo. Deslizar-se, desancorado, do ‘agora’ para as águas mortas da história é, assim, abandonar a reivindicação de modernidade. O que é distintivamente passado não pode ser moderno, e o moderno não pode ser simplesmente passado.

Embora ‘vulgar’ pelos padrões do uso intelectual e técnico, é esse sentido popular do ‘moderno’ que gera sua força intensa e agitacional. Mesmo entre a intelligentsia, o pós-modernismo extraiu seus poderes de incitação da reivindicação implícita e incompreensível de habitar um momento além de agora. Embora não seja um exagero tornar a dilatação ou a contração do ‘agora’ compatível com a intuição, propor um estado contemporâneo no lado distante do agora convida uma perplexidade estimulante. (O ‘agora’ chinês é revelador neste aspecto, com xianzai indicando literalmente o ‘lugar em’ que ‘primeiro’ estamos, onde sempre começamos, iniciando aritmeticamente.)

Nas belas artes, a distinção consensual entre o ‘moderno’ e o ‘contemporâneo’ resolve essa tensão, mas apenas ao drenar da palavra ‘moderno’ o seu sentido coloquial e provocador, deixando apenas uma casca de referência histórica. Importar-se com essas palavras e movimentos, contudo, é insistir que a modernidade, mesmo a modernidade primordial, resiste a uma absorção na história realizada, porque ela se relaciona com um futuro absoluto. O agora dinamizado da modernidade é irredutível a um período ou a um momento no tempo. O que a modernidade descobriu e perpetuamente se relembra não é apenas a próxima coisa na estrada, mas a estrada adiante em geral, e talvez mesmo a estrada.

Shanghai alcançou a velocidade escape até a neomodernidade de maneira comparativamente recente. O desenvolvimento de Xintiandi na virada do século, por exemplo, foi um marco na restauração urbana, mas foi apenas embrionicamente, e talvez também retrospectivamente, neomoderno. Um exemplo bem mais claro das tendências arquitetônicas representadas por Piano é encontrada no desenvolvimento da Red Town, que data de 2004.

O projeto neomoderno arquetípico é um ‘aglomerado criativo’, e a Red Town não é nenhuma exceção. Ela consiste de um local industrial radicalmente renovado, reanimado como um eixo de artes e lazer. Em sua borda geográfica, e centro conceitual, está a gigantesca casca da antiga Usina de Aço N. 10 da Shanghai Steel Company, agora lar do Shanghai Sculpture Space (SSS). Em estilo neomoderno definitivo, as relíquias monumentais da indústria pesada foram abraçadas e revitalizadas: não meramente restauradas, mas esteticamente transfiguradas.

No primeiro ano do SSS, enormes peças de maquinário enferrujado, extraídas das construções reaproveitadas, jaziam espalhadas em meio e ao lado das esculturas externas, como se embaralhassem deliberadamente as fronteiras entre arte e sucata. Alguns desses detritos, de maneira mais notável, uma mistura de calhas massivas que outrora serviam como conduítes para metal derretido, renasceram como obras de arte pós-industriais.

No coração do neomoderno está algo similar a um campo de ruínas e, no entanto, não há nada remotamente ozymandiano sobre esses restos mortais. Eles atestam mais fortemente a uma sobrevivência resiliente (mesmo que interrompida), do que a desaparecimento e esquecimento. Sua mensagem é renascença.

Sobretudo, talvez, o neomoderno é manifestado de maneira indireta, através de espaços de exposição. Ele aponta para longe de si, em direção ao que ele revive, na maneira do design de museus contemporâneos, com seu ideal de mediação invisível. Seu orgulho está adaptado a uma era de informação, na qual a sutilidade triunfa sobre a afirmação, a percepção inventiva suplanta a auto-expressão, e a antecipação flexível supera o propósito obstinado.

“Queremos demolir museus e bibliotecas”, Marinetti declarou em seu manifesto futurista, enfurecendo-se contra a mão morta do passado. No entanto, fazer uma exposição de museu da modernidade não é mortificar, mas sim o oposto. A vitalidade tenaz do moderno é conspicuamente demonstrada pelo fato de que ele não permaneceu o que era. A morte da casca é a vida do filhote.

O estilo neomoderno de Shanghai é, de uma só vez, chocantemente cru e hiper-refinado, orquestrando uma justaposição forte (ou forte/suave) de restos de metal pesado e design intangível. Ele se exulta nas estruturas mais ciclópicas, tensionadas e temporalmente torturadas: vigas queimadas e enferrujadas, correntes massivas, vastas placas de paredes semi-desintegradas de tijolos, concreto esburacado, alvenaria estilhaçada, as cascas cavernosas e erodidas de armazéns e oficinas. Seus componentes preferidos da herança são caracterizados por um funcionalismo industrial implacavelmente prosaico e brutal, expresso em uma escala que esmaga a mente.

Em volta e em meio a esses esqueletos de dinossauros paleo-modernistas, ele tece uma teia requintada de estruturas maximamente desmaterializadas e semi-transparentes, enfatizando leveza, sutilidade, abertura e inovação. Comunicações digitais de banda larga, sistemas inteligentes de controle ambiental, trepadeiras nutridas de forma hidropônica, mobiliário hiper-projetado, uma decoração interior minimizadas com bom gosto e obras de arte sofisticadas completam a metamorfose.

A neomodernidade é, de uma só vez, mais modernidade e modernidade de novo. Ao sintetizar a mudança progressiva (acelerante) com uma recorrência cíclica, ela produz um esquema ou figura distintivo: a espiral do tempo. Mas isso é ficar um pouco além de nós mesmos…

Postscript
Com peculiar sincronia, meia hora após postar isso, uma cópia do ensaio ‘Reflections on Time and Related Ideas in the Yijing’ (“Reflexões sobre o Tempo e Ideias Relacionadas no Yijing”) de Wonsuk Chang chegou em minha caixa de entrada. O artigo termina:

“O tempo no Yijing pode servir a um propósito conservador – a saber, restaurar o passado. Mas ele também serve ao propósito criativo de produzir novidade. Esses dois aspectos do tempo não se contradizem um ao outro. Muitas passagens no Yijing, se não todas, expressam que aquilo que restaura o passado simultaneamente envolve algum elemento de criação nova. O processo começa a partir de seu movimento incipiente e finalmente alcança o ponto onde a novidade criativa emerge. Este processo evolutivo é aquele de uma espiral que avança, que sempre produz novidade, ao passo em que simultaneamente retorna de novo e de novo às fontes nascentes.”

Original.

Reino do Tripé

A ascensão da China e o futuro da trêstandade

De acordo com Arvind Subramanian, até mesmo projeções conservadoras das tendências comparativas de crescimento colocam a China em uma posição global, por volta de 2030, que é surpreendentemente similar àquela da Grã-Bretanha e da América em seus respectivos momentos de predominância econômica, sendo responsável por uma parcela da economia mundial de cerca de 150% do tamanho de seu rival mais próximo. Se isso viesse a acontecer, tal liderança invocaria uma ‘hegemonia’ como questão de puro fato quantitativo – bastante independentemente de intenções explícitas. O ‘modelo chinês’ promoveria a si mesmo, mesmo na completa ausência de reforço político e diplomático, e o poder magnético da cultura chinesa continuaria a se fortalecer em proporção aproximada à sua influência comercial. A China se tornaria o objeto de uma atração irresistível – contrabalanceada, sem dúvida, por ressentimentos – e seu exemplo queimaria incandescente, mesmo nos olhos ofendidos de seus detratores. Então, qual é esse ‘exemplo’?

Ao explorar essa questão, um lugar para se começar é a história da hegemonia econômica e, em particular, aquela instanciada pelas potências anglo-americanas ao longo de seus dois ‘longos séculos’ de supremacia global. Este é um tópico perseguido com excepcional discernimento por Walter Russell Mead, mais notavelmente em sua obra God and Gold: Britain, America, and the Making of the Modern World.

Mead localiza a chave da hegemonia da ‘anglosfera’ no ‘meme dourado’ da mão invisível, que se origina na ideia religiosa da providência e foi modernizado na mecânica celestial newtoniana, na economia política smithiana e na biologia evolutiva darwiniana. Em sua forma mais abstrata, essa ideia é tanto uma afirmação quanto uma renúncia, com sua potência e maleabilidade derivando de ambas. Reconhecer a mão invisível é fomentar um tipo especial de fatalismo positivo, confiando na tendência espontânea da história, que é abraçada como um pacto e uma eleição (no sentido teológico) explícita ou implícita. Tais temas são, sem disfarces, religiosos, e Mead não faz nada para obscurecer suas raízes na tradição, ou meta-tradição, abraâmica, que estabelece uma visão providencial da histórica enquanto finita, progressiva e inevitável, tendendo inexoravelmente à conclusão escatológica, estruturada por uma lei sobre-humana e (através de sua predestinação divina) facilitando a função da profecia.

A cultura profunda da anglosfera não é apenas genericamente abraâmica, contudo, ela é também especificamente pluralista. A mão invisível toma o centro do palco porque o centro é, de outra forma, desocupado ou distribuído. A providência esotérica suplanta a soberania exotérica porque uma incapacidade de se chegar a um acordo é eventualmente institucionalizada – ou pelo menos estabilizada de maneira informal – em um equilíbrio triangular de poder.

O que os britânicos fizeram, em última análise, foi confiar no que Burke chamou de “convenção”. Escritura, tradição e razão – cada uma tinha seu lugar e cada uma tinha seus devotos. Mas todas elas devam errado se você as pressionasse demais. Você deveria respeitar as escrituras e se submeter a elas, mas não interpretar as escrituras de uma maneira que lhe levasse a algum secto milenar esquisito ou até um comportamento social absurdo. Você honrava a tradição, mas não a pressionava tanto que lhe levasse aos braços do absolutismo real ou ao poder papal. Você pode e deve empregar a crítica da razão contra os excessos tanto da escritura quanto da tradição, mas não pressionar a razão ao ponto onde você se queixasse de todas as instituições existentes, comesse raízes e latisse por sua saúde ou, pior, minasse os direitos de propriedade e a igreja estabelecida. Pode-se imaginar John Bull coçando sua cabeça e lentamente concluindo que se deve aceitar que, na sociedade, haverão loucos da bíblia, loucos da tradição e loucos da razão – fundamentalistas, papistas e radicais. Isso não é necessariamente o fim do mundo. Em algum grau, eles se cancelam uns aos outros – os fanáticos fundamentalistas reprimirão os papistas e vice-versa, e os religiosos manterão os radicais em seu lugar – mas a concorrência entre sectos também impedirá que a igreja estabelecida pressione sua vantagem longe demais e que ela forme uma ideia por demais exaltada sobre a estatura, prestígio e emolumentos apropriados ao clero. [p. 223]

A hegemonia cultural se segue de uma fatalização semi-deliberada, conforme o centro soberano é deslocado por um processo social substancialmente automatizado que nenhum agente social é capaz de dominar ou impedir inteiramente. Cada facção principal recua para sua posição no triângulo, a partir da qual ela pode se engajar estrategicamente com as outras, mas nunca dominá-las completamente ou erradicá-las. O triângulo como um todo constitui um motor social e histórico, sem representação adequada em qualquer ponto identificável.

O pluralismo, mesmo ao custo da consistência racional, é necessário em um mundo de mudança. Forças e valores compensatórios devem competir. Razão, escritura, tradição: todas elas tem seus usos, mas nenhuma delas, sem controle, irá longe demais. Além disso, sem disputas constantes, controvérsia constante, concorrência constante entre ideias rivais sobre qual aparência a sociedade deveria ter e o que ela deveria fazer, o passo da inovação e da mudança provavelmente se desaceleraria, conforme as forças da inércia conservadora ficassem presunçosas e incontestas. [p. 212-2]

Este blog já tocou anteriormente na Singlosfera, onde aspectos das culturas anglófona e chinesa convergem na aceitação liberal manchesteriana / taoista da ordem espontânea, ou laissez-faire. Essa convergência se estende ao pluralismo triádico e se aplica ao núcleo sinosférico da China continental? A análise de Mead é altamente sugestiva em ambos os aspectos.

Em primeiro lugar, ela encoraja uma considerável equanimidade em relação à esperada transição global, mesmo quando a atenção se foca no coração político e ideológico da China contemporânea. Poderia parece, superficialmente, que a passagem de uma cultural mundial dominante dominada por atitudes cristãs tácitas para uma em que ideias sino-marxistas pouco familiares se elevam a uma proeminência internacional sem precedentes deve ser caracterizada por uma descontinuidade imensa – mesmo semi-absoluta. Um salto desse pode ocorrer sem se sucumbir a um choque cultural catastrófico e a uma fricção intratável? Quando examinado de uma perspectiva mais ampla, contudo, tal alarmismo é bem menos do que totalmente garantido.

Para melhor ou para pior, a abrangente continuidade cultural da mudança vindoura é garantida pelo profundo parentesco que liga o marxismo à ampla família de sistemas de crença abraâmicos. Teologicamente enraizado no engajamento dialético com a espiritualidade judaico-cristã, iniciado por Hegel e Feuerbach, o quadro básico do pensamento marxista perturba apenas trivialmente a estrutura da histórica profética, escatológica, redentora e providencial. Suas expectativas milenares não são mais aterrorizantes, suas certeza proféticas não mais irracionais, sua submissão às leis de ferro da história não mais restritivas e seu entusiamo moral não mais zeloso ou impraticável do que aquelas dos apocalipticismos judaico ou cristão antes dele.

O espectro de um ressurgimento totalitário marxista na China é tão realista quanto o medo de um golpe teocrático nos Estados Unidos da América, o que seria dizer, não tem qualquer realidade que seja. Em ambos os casos, maturidade, pluralismo e tradições estabelecidas protegem contra o domínio da sociedade por parte de qualquer facção intolerante em particular. É desnecessário ser cristão ou marxista para reconhecer o contínuo ímpeto histórico-mundial de uma meta-narrativa abraâmica ampla, ou para aceitar a consistência de tal narrativização social em larga escala com a regeneração perpétua do ímpeto prático, ou para ver uma solução social estabelecida e espontaneamente improvisada – e encarnação do conservadorismo dinâmico – no duradouro impasse triangular entre as escrituras marxistas, as tradições institucionais do Partido Comunista e o radicalismo de mercado na China de hoje. Assim como com o pluralismo anglosférico de Mead, as limitações recíprocas que cada uma dessa facções impõe às outras inevitavelmente desapontarão muitos, mas não há razão para que elas horrorizem ninguém.

Na medida em que Mead estiver correto em identificar a hegemonia anglosférica com o reino do tripé, ou seja, com a realização sócio-cultural do pluralismo (enquanto estabilidade dinâmica triangular), o potencial disruptivo da liderança chinesa emergente deveria ser considerado massivamente descontado, porque o tripé é um nativo chinês. Todo templo no país está equipado com um queimador de incenso com três pés, toda coleção de bronze em museus é dominada por caldeirões de três pernas, e cada um desses tripés tem um significado cultural definido e explicitamente conceitual. Isso não é apenas embasado na óbvia verdade intuitiva e prática de que o modelo mais simples de estabilidade vêm do tripé, mas também de um reconhecimento de que o impasse triangular exemplifica o dinamismo sustentável em sua forma elementar, desintegrando o universo em possibilidade estratégica.

Para a elaboração literária desse tema, é necessário apenas se voltar ao Romance dos Três Reinos, talvez o mais amplamente lido dos quatro grandes romances clássicos da China. Sua instanciação mais conspícua enquanto entretenimento popular é visto no jogo de pedra, papel e tesoura, que remonta (pelo menos) à dinastia chinesa Han (206A.C. – 220 D.C.), quando era conhecido como shoushiling.

A expressão última da estabilidade dinâmica triangular, não apenas na China, mas mundialmente, sem dúvidas é apresentada pelo Clássico das Mutações, o Yi Jing ou Zhouyi. É sobre esta obra de gênio singular e inumano, no qual a pura aritmética fala mais puramente do que jamais o fez antes ou depois, que todos os bronzes cerimoniais, lutais literárias e jogos infantis da China convergem.

No sistema numérico do Yi Jing, o tripé encontra uma fonte mais básica do que a meta-tradição abraâmica pode fornecer, independente de quão trinitária esta última tenha se tornado. Isto é porque, neste ur-estrato cultural chinês, a unidade não figura como uma unidade original, subsequentemente desintegrada em um triângulo teológico, dialético ou sociopolítico, mas é, ao contrário, derivada. Como o comentário confucionista explica: “O número 3 foi atribuído ao céu, 2 à terra, e desses vieram os (outros) números”. No princípio eram os números – dispersão primordial.

A ‘língua’ do tripé encontra sua expressão mais conveniente no trigrama, cujas três linhas constituem uma unidade elementar. Para se compreender o Yi Jing enquanto modelo aritmético completo de tríade dinâmica, contudo, é necessário proceder imediatamente para a estrutura do hexagrama.

Apreendido em operação, o Yi Jing não é apenas um sistema aritmético binário (como Leibniz o interpretou), mas uma conjunção bino-decimal. Isto é demonstrado pelo fato de que ele sistematicamente recompensa a aplicação da redução digital decimal, e revela seu padrão dinâmico apenas sob estas condições. (Isto poderia, bastante razoavelmente, ser considerado uma sugestão altamente surpreendente, uma vez que a redução digital – conforme surgiu dentro da história do Qabalismo Ocidental – parece ter sido gerada, automaticamente, a partir da interferência dos numerais decimais hindus com os sistemas numéricos alfabéticos mais antigos, ou ‘gematrias’, que vinculavam valores cardinais a letras específicas, sem o uso da notação posicional. É imediatamente óbvio que este relato histórico não pode ser traduzido para um contexto chinês, onde alfabetos não têm qualquer raiz tradicional.)

A redução digital é uma técnica numérica extremamente simples, que não envolve nada além de adições de dígitos únicos e negligencia a magnitude decimal. Um número com múltiplos dígitos é tratado como uma sequência de adições de dígitos únicos, e o processo é reiterado no caso de um resultado com múltiplos dígitos.

Expressar a série das potências binárias em notação decimal produz a sequência familiar 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, 1024, 2048, 4096, 8192… Quando esta série é comprimida a uma sequência de dígitos únicos através da redução, ela prossegue: 1, 2, 4, 8, (1 + 6 =) 7, (3 + 2 =) 5, (6 + 4 =) 1, (1 + 2 + 8 = 11 = 1 + 1 =) 2, (2 + 5 + 6 = 13 = 1 + 3 =) 4, (5 + 1 + 2 =) 8, (1 + 0 + 2 + 4 =) 7, (2 + 0 + 4 + 8 = 14 = 1 + 4 =) 5, e assim repetidamente, através do ciclo de 6 passos 1, 2, 4, 8, 7, 5. Este processo expõem a necessidade aritmética do hexagrama do Yi Jing, enquanto exaustão arquetípica das fases do tempo.

Para se escavar o triádico ou tripódico, é útil se voltar ao clássico (e agora integral) comentário confucionista, as ‘Dez Asas’ (Shi Yi), que explora a estrutura dos trigramas e dos hexagramas de várias maneiras. Estas incluem uma fórmula explícita para se dobrar as seis linhas do hexagrama de volta em uma tríade, ao se combinar as linhas: primeira e quarta; segunda e quinta; terceira e sexta. Estas díades têm uma ordem aritmética consistente, quando calculadas de acordo com os valores bino-decimais reduzidos gerados acima: 1 + 8 = 9; 2 + 7 = 9; 4 + 5 = 9. “O que estas seis linhas demonstram é simplesmente isto, a maneira dos três Poderes”.

A soma até nove regularmente serve como confirmação dentro do Shi Yi. Por exemplo, na seção traduzida por Legge como ‘O Grande Apêndice’:

52. Os número (exigidos) para Khien (ou linha não dividida) equivalem a 216; aqueles para Khwan (ou a linha dividida), a 144. Juntos eles são 360, correspondendo aos dias do ano.
53. O número produzido pelas linhas nas duas partes (do Yî) equivalem a 11.520, correspondendo ao número de todas as coisas.
54. Portanto, por meio das quatro operações, o Yî está completo. São necessárias 18 mutações para se formar um hexagrama.

44 = 1 + 4 + 4 = 9

216 = 2 + 1 + 6 = 9

360 = 3 + 6 + 0 = 9

11,520 = 1 + 1 + 5 + 2 + 0 = 9

18 = 1 + 8 = 9

Há muito mais a dizer sobre a importância do número nove na cultura tradicional chinesa, e além, mas este não é o momento. Por ora, é suficiente notar que o nove, ou ‘Antigo Yang’, representa o ponto extremo de maturidade ou acúmulo positivo no Yi Jing e, assim, uma transição incipiente. Desta forma, ele ecoa a função do mesmo numeral dentro de um sistema decimal de notação posicional com zero, reforçando fortemente a impressão de que o Yi Jing assume uma familiaridade cultural com tal numeracia e, assim, indica sua extrema antiguidade dentro da China.

O ciclo de seis fases se colapsa em uma dinâmica triádica, cujos estágios são as díades 1&8, 2&7, 4&5. Ele é, desta forma, exatamente isomórfico ao circuito de pedra, papel e tesoura, ou melhor, este último pode ser visto como uma simplificação do tripé dinâmico do Yi Jing, tratando cada estágio como simples, em vez de geminado. Onde o bagua, ou conjunto de trigramas, meramente enumera o conjunto de variantes de 3 bits de maneira estática, o sistema de hexagramas rigorosamente constrói uma dinâmica triangular, que é apresentada como um modelo do tempo.

Se esse é o ‘exemplo chinês’ em sua forma mais essencial, então é exatamente o exemplo anglosférico, como determinado por Mead, exceto levado a um nível de abstração bem mais exaltado, ou seja, a uma pureza proto-conceitual. O pluralismo dinâmico não está sob nenhuma ameaça vinda de um futuro chinês, na medida em que a evidência cultural profunda conte para algo. O reino do tripé mal começou.

Original.