Domínio Calêndrico (Parte 2)

César com a alma de Cristo

O politicamente correto legislou tacitamente contra os acrônimos ainda predominantes que definem o calendário internacional hegemônico (AC-AD), e propôs alternativas claras (AEC-EC). Tanto a crítica quanto a sugestão são inteiramente consistentes com seus princípios. De acordo com a doutrina do multiculturalismo (uma hegemonia mais recente e também mais ativa), estende-se a presunção liberal de igualdade formal de indivíduos para ‘culturas’, alocando direitos de grupos e identificando – ao passo em que imediatamente se denuncia – a discriminação e o privilégio. Como poderia se esperar de uma ideologia que se concentra excepcionalmente entre elites intelectuais, o remédio proposto é puramente simbólico, tomando a forma de uma retificação de signos. O ‘problema’ é diagnosticado como uma falha de consciência, ou sensibilidade, exigindo apenas uma elevação de consciência (a ser efetuada, pode-se seguramente assumir, através de profissionais apropriadamente credenciados e compensados).

Mesmo considerada em seus próprios termos, contudo, a retificação que é sugerida não equivale a nada mais do que um gesto de recusa vazio, que acompanha uma conformidade fundamental. Ao passo em que a ‘esquerda’ simbólica tira conforto da insistência em uma mudança sem importância, com sua ofensa intrínseca às suposições conservadoras, reforçada por uma crítica moral implícita da tradição, a indignação compensadora da ‘direita’ fixa toda a disputa dentro das trincheiras imobilizadas da ‘guerra cultural’ anglo-americana. A estrutura profunda dos signos calêndricos persiste sem ser afetada. Entre o domínio cristão (que invoca ‘Nosso Senhor’) e uma ‘era comum’ que é obedientemente enquadrada pela datação da revelação cristã, não há diferença que importe. É o que conta que conta.

O politicamente correto falha aqui da maneira que sempre o faz, devido à sua desconexão do ‘correto’ de qualquer princípio rigoroso de cálculo e à separação da ‘sensibilidade’ de qualquer percepção realista. Um calendário é um edifício cultural profundo, que orquestra a apreensão do tempo histórico. Como tal, ele é invulnerável às mordidas de mosquito da irritabilidade ideológica (e a dominância não é redutível a falta de educação).

O problema do Domínio Calêndrico Ocidental não é de supremacismo (etiqueta), mas de supremacia (fatalidade histórica). Poderia ser colocado assim: Como a globalização modernista veio a ser expressa como um Oecúmeno Cristão? Em grande medida, esta é a questão de Max Weber e de Walter Russell Mead, mas ela transborda as investigações de ambos, na direção da antiguidade européia e do oriente médio. O estímulo inicial para essa investigação é fornecida por uma estranha – e mesmo fantástica – coincidência.

Em seus cadernos, Friedrich Nietzsche imaginava o super-homem (Übermensch) como um “César com a alma de Cristo”, um ser quimérico cujas tensões ecoam aquelas da Igreja de Roma, da liturgia cristã latinizada e do calendário ocidental. Este hibridismo é expressado por uma multidão de características calêndricas, que seguem uma divisão geral de trabalho entre uma estruturação romana do ano (dentro do qual os festivais pagãos superficialmente cristianizados estão espalhados de maneira não sistemática), e uma contagem de anos cristã, mas também aponta em direção a um plano de fusão críptico – até mesmo radicalmente ininteligível.

No Ano Zero, que nunca aconteceu, uma misteriosa sincronização ocorreu, imperceptivelmente e despercebida, fundando a nova ordem calêndrica teopolítica. Para os cristãos, que não assimilariam o Império até o reino de Constantino no começo do século IV AD, Deus encarnou como homem, no embrião de Jesus Cristo. Simultaneamente, em uma Roma que estava perfeitamente desatenta à concepção do Messias, o calendário juliano se tornou operacional. A reforma calêndrica de Júlio César começara 45 anos antes, após os Anos de Confusão, mas uma execução incompetente nas décadas subsequentes havia sistematicamente calculado errado o ano bissexto , intercalando um dia a cada três anos, em vez de um a cada quatro. O anômalo ciclo trienal foi abandonado e “o calendário romano finalmente foi alinhado ao calendário juliano em 1 AC (com 1 AD o primeiro ano completo de alinhamento)”, embora nenhuma significância especial fosse ser atribuída a esses anos até que Dionísio Exíguo integrasse a história cristã em 525 AD.

Dada a espantosa negligência desse evento gêmeo, alguma ênfase adicional é apropriada: O calendário juliano, que persistiria, sem modificação, por quase 1600 anos e que ainda domina o entendimento coloquial da duração do ano (em 365.25 dias), nasceu – por um ‘acaso’ puro e escandaloso – na origem precisa da Era Cristã, conforme registrado pela numeração ocidental, e agora internacional, do tempo histórico. A contagem dos anos, assim, simula de maneira exata uma comemoração do próprio calendário – ou, pelo menos, de seu protótipo – muito embora o nascimento deste calendário, seja ele entendido em termos de razão secular ou providência divina, não tenha absolutamente nenhuma conexão com o começo contado. Isto é uma coincidência – ou seja, um destino percebido sem compreensão – que nem a autoridade romana, nem a revelação cristã foram capazes de explicar, mesmo ao passo em que ela sorrateiramente molda a história ocidental (e, depois, global). Conforme o calendário dominante mundial conta os anos sob o que parece ser uma inspiração religiosa particular, ele se refere secretamente ao seu próprio início, aludindo a mistérios do tempo que são alienígenas para qualquer fé. Esse tanto é simples fato.

Ao contrário do calendário juliano, o calendário gregoriano foi determinado sob os auspícios cristãos, ou pelo menos sob a autoridade cristã formal (aquela do Papa Gregório XIII), e foi promulgado por bula papal em 1582. Ainda assim, um olhar basta para revelar a continuação do domínio calêndrico juliano, uma vez que a reforma gregoriana efetua transformações que permanecem estritamente compatíveis com o padrão juliano, modificado apenas por operações elementares de re-escalonamento e inversão decimal. Onde o calendário juliano tomava quatro anos como sua unidade cíclica basal, o gregoriano toma quatro séculos, e onde o juliano adiciona um dia bissexto em quatro anos, o gregoriano deixa um e subtrai três em 400. O resultado foi uma aproximação melhorada do ano tropical (em média ~365,24219 dias), do ano juliano de 365,25 dias para o gregoriano de 365,2425 dias, uma redução de mais de 20 vezes na discrepância, de uma média de ~0,00781 dias por ano (desviando das estações a um dia a cada 128 anos) para ~0,00031 (desviando um dia a cada 3226 anos).

A combinação de fidelidade arquitetônica com ajustes técnicos define a reforma conservadora. Ela é claramente evidente neste caso. Um calendário neo-juliano, estruturado em seus fundamentos na sua origem em 1 AD menos 1, mas tecnicamente modificado na margem no interesse de uma precisão melhorada, armou o Ocidente com o mais eficiente sistema de marcação de tempo em larga escala do mundo, por volta do início do período moderno. Na China, onde os letrados confucionistas organizavam competições para testar vários calendário de todo o mundo contra a previsão de eclipses, jesuítas equipados com o calendário gregoriano prevaleceram contra todas as alternativas, garantindo a inexorável tendência em direção às convenções calêndricas ocidentais ou, pelo menos, a firme identificação dos métodos ocidentais com a eficiência modernista. Dada apenas uma margem, na China e em outros lugares, a dinâmica de sistemas complexos assumiu o controle, pois os ‘efeitos de rede’ prenderam o padrão predominante, ao mesmo tempo em que sistematicamente marginalizavam seus concorrentes. Muito embora o Ano Zero ainda estivesse faltando, ele estava, cada vez mais, faltando ao mesmo tempo para todo mundo. “César com a alma de Cristo” – o mestre do quadriênio e do eclipse – havia se instalado como o significado implícito da história.

(Ainda por vir – na Parte 4? – Contra-Calendários, mas provavelmente precisamos de uma excursão por entre o zero primeiro).

Original.

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