Domínio Calêndrico (Parte 6)

Contagem Regressiva

No começo do século XXI, a hegemonia cultural global está em movimento. Por cerca de 500 anos, as sociedades e agências ocidentais — e, mais tarde, mais especificamente as anglófonas — guiaram de maneira predominante o desenvolvimento do atual sistema mundial. Conforme sua preeminência econômica míngua, pode-se esperar que sua influência cultural e política sofra um declínio comparável. Nos estágios iniciais da transição por vir, contudo, a forma terminal da hegemonia cultural ocidental – o politicamente correto multicultural (PCM) – está bem posicionada para gerir os termos do recuo. Ao reconfigurar os temas religiosos e políticos ocidentais básicos enquanto uma sensibilização ao privilégio imerecido, o PCM é capaz de se distanciar de sua própria herança e continuar a viver, no ressentimento do ‘outro’, como se fosse o juiz neutro de disputas nas quais não tem nenhuma parte.

Quando o PCM volta sua atenção ao calendário gregoriano (ou cristão ocidental), ele fica chocado, é claro. Mas também está preso. O que poderia ser mais insensível à diversidade cultural do que um sistema ecumênico de contagem da data, enraizado nas peculiaridades étnicas da religião abraâmica em sua fase grega, que celebra seu triunfo, sem pedir desculpas, nas intransigentes palavras Anno Domini? E, no entanto, a convergência global exige um padrão, nenhum calendário alternativo tem reivindicações superiores de neutralidade e, em todo caso, o rolo compressor inercial dos sistemas complexos em larga escala – ‘aprisionamento’ ou ‘dependência de caminho’ – apresenta barreiras para a mudança que parecem efetivamente insuperáveis. A solução proposta pelo PCM para esse dilema é tão fraca que equivale à conclusão do Domínio Calêndrico gregoriano, que deve ser simultaneamente reformulado (educadamente) e reconhecido em sua universalidade irresistível como a articulação de uma ‘Era Comum’.

O PCM suplanta problemas de poder cultural com uma etiqueta ofuscante e, em termos absolutos, sua desonestidade presunçosa é difícil de gostar. Enquanto fenômeno relativo, contudo, seu apelo é mais óbvio, uma vez que as ‘soluções’ radicais para o Domínio Calêndrico gregoriano, recomeçando no Ano Zero, em geral se reverteram em assassinato em massa. Carecendo de reivindicações persuasivas de uma quebra histórica nova, fundamental e universalmente reconhecida, elas substituíram por terror uma verdadeira singularidade global, como se o destino pudesse ser apagado com sangue.

Uma vez que o ressentimento não chega a lugar nenhum, seja em suas variantes branda (PCM) ou severa (campos de execução), vale a pena entreter possibilidades alternativas. Estas começam com uma atenção às reais diferenças culturais, ao invés da mera ‘diversidade cultural’ conforme ela se apresenta à mente vazia processada pelo PCM. Logo após Shanghai ter sido selecionada como cidade hóspede da Expo Mundial 2010 (em dezembro de 2002), as contagens regressivas começaram. Para os ocidentais, elas provavelmente tinham associações com a era espacial, despertando memórias das contagens regressivas para a ‘decolagem’ que foram popularizadas pelo Programa Apolo e pelas mídias de ficção científica subsequentes. Está longe de ser impossível que os chineses compartilhassem dessas evocações, embora eles também fossem capazes de acessar um reservatório de referência muito mais profundo – o que seria dizer civilizacionalmente fundamental. Isso é porque o tempo chinês tipicamente conta regressivamente, modelado como é no funcionamento de relógios d’água. A língua chinesa sistematicamente descreve antes como ‘acima’ (shang) e próximo como ‘abaixo’ (xia), conformando-se a uma intuição do tempo enquanto descida. O tempo é contado regressivamente conforme corre para fora, de um corpo hidráulico elevado para dentro do futuro afundado que o recebe.

A duração não apenas flui, ela pinga. Talvez, então, uma ‘orientalização’ da percepção e da organização calêndrica seja algo que excede significativamente uma simples (ou mesmo extremamente difícil) renegociação de começos. Recomeçar poderia ser considerado largamente irrelevante para o problema, pelo menos quando comparado à reorientação de um Ano Zero original para um terminal. Embora não seja exatamente uma transição na direção do tempo, tal mudança envolveria uma transição na direção da intuição do tempo, simultaneamente ultrapassando as mais selvagens ambições de re-originação calêndrica e sutilmente se organizando ‘dentro dos poros’ da ordem temporal estabelecida. Conforme modelada pela Expo 2010 e, antes, pelo Y2K, a mudança para o tempo regressivo não desafia frontalmente, tampouco busca substituir diretamente a ordem calêndrica no ser. Em vez de contar da mesma maneira, a partir de um lugar diferente, ela conta de uma maneira diferente, dentro do enquadramento temporal já existente. É uma revolução com ‘características chineses’, o que seria dizer: uma insurgência furtiva, que muda o que algo já era, em vez de substituí-lo por alguma outra coisa.

Tanto a Expo 2010 quanto o Y2K também revelam a extrema dificuldade de qualquer transição dessas, uma vez que um Ano Zero futural, um calendário regressivo, tem que navegar a seta do tempo e sua assimetria cognitiva (entre o conhecimento do passado e do futuro), pressupondo uma previsão exata, confiante e consensual.

É por isso que ela se aproxima tanto de uma aceitação conservadora. Se a contagem regressiva tem que estar certa de chegar no término agendado, o ‘evento’ de destino deve já ser uma data (em vez de um ‘acontecimento’ empírico). Nada será suficiente além de uma inevitabilidade aritmética e rigorosamente certa, tão inescapavelmente predestinada quanto o ano 2000, ou 2010, que não podem deixar de chegar. Da perspectiva do calendário regressivo, é para isso que o Domínio Calêndrico (gregoriano) terá servido. É uma oportunidade para se programar uma chegada inevitável.

Mas quando? A pura passagem (queda) do tempo garantiu que a oportunidade para a revolução calêndrica apresentada pelo ‘bug do milênio’ no Y2K tenha sido irrecuperavelmente perdida (de modo que 1900 AD ≠ 0). O mesmo é verdadeiro sobre a Expo Mundial de 2010, um evento sem a pretensão de ser qualquer coisa além de um modelo ‘prático’ em miniatura da singularidade global-temporal. Quanto à verdadeira Singularidade (tecno-comercial) – esta é uma previsão histórica imprecisa, de uma só vez controversa e incapaz de suportar uma previsão exata.

Um prospecto mais apropriado é sugerido pelo escrito de ficção científica Greg Bear, em seu romance Queen of Angels, situado na expectativa do ‘milênio binário’ (2048 = 2¹¹) no meio do século XXI. Este é um ‘evento’ formalmente apropriado, puramente calêndrico, que deriva sua significância da aritmética, em vez da ideologia ou de uma profecia incerta. Ele até mesmo o vislumbra como um momento de revolução insurgente, quando a inteligência artificial surge furtivamente e sem ser notada. Ainda assim, a arbitrariedade prejudica essa data (por quê a 11ª potência de 2?) e nenhuma tentativa séria é feita para se explicar sua elevação à uma preeminência cultural excepcional.

Se uma cultura global ajustada convergir em uma data de contagem regressiva, ela deve ser óbvia, intrinsecamente persuasiva e ideologicamente incontroversa, em outras palavras, espontaneamente plausível. O alvo que a Expo Mundial de 2010 sugere (anagramaticamente) é 2100 AD, uma data que desempenha os estágios finais de uma contagem regressiva (2, 1, 0…). Reforçando esta indicação, o ‘bug do milênio’ do Y2K ameaçava redefinir a data de 2000 AD para 1900 AD, o que teria tacitamente se reiterado no fim exato do século XXI. Se ele continuar a tagarelar sobre o calendário, talvez seja assim a maneira.

O iminente Apocalipse Maia, agendado para 21 / 12/ 2012, ofereceu uma chance preliminar para se saciar de um festival de números de contagem regressiva – assim como 2010, ele se parece muito como mais uma simulação da singularidade digital. Se a manhã de 22 de dezembro de 2012 não deixou para o mundo nada pior do que uma ressaca, ele pode gradualmente se resolver por um novo sentido dos Anos Restantes (no fim de todo o tempo que conta, ou o século XXI).

2100 AD = 0 AR

2099 AD = 1 AR

2098 AD = 2 AR

2096 AD = 4 AR

2092 AD = 8 AR

2084 AD = 16 AR

2068 AD = 32 AR

2036 AD = 64 AR

1972 AD = 128 AR

1844 AD = 256 AR

1588 AD = 512 AR

1076 AD = 1024 AR

52 AD = 2048 AR

É difícil antecipar com o que isso se parece do outro lado.

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 5)

Do Paraíso Carmesim ao Apocalipse Suave

Apesar de sua modernidade e decimalismo, o calendrier républicain ou révolutionnaire francês não tinha Ano Zero, mas redefiniu os termos de entendimento. Um tópico que havia sido concebido como uma interseção entre comemoração religiosa e fato astronômico se tornou abertamente ideológico e foi dominado por considerações da política secular. O novo calendário, que substituiu 1792 AD pelo primeiro ano da nova ‘Era da Liberdade’, durou menos de 14 anos. Ele foi abolido formalmente por Napoleão, efetivado a partir de 1º de janeiro de 1806 (o dia depois do 10 nivoso ano XIV), embora tenha sido brevemente revivido durante a Comuna de Paris (em 1871 AD, ou Année 79 de la République), quando o entusiasmo revolucionário do país foi momentaneamente reacendido.

Para a esquerda, a redefinição calêndrica significava refundação radical e extirpação simbólica do Ancien Régime. Para a direita, significava a imanentização do eschaton e a origem do terror totalitário. Ambas a definições foram conformadas em 1975, quando o Ano Zero foi finalmente alcançado nos campos de execução do Khmer Vermelho cambojano, onde mais de um quarto da população do país pereceu durando esforços para limpar o quadro social e começar de novo. O líder do Khmer Vermelho, Saloth Sar (melhor conhecido por seu nom de guerre, Pol Pot), tornou o ‘Ano Zero’ seu para sempre, rebatizado como uma solução final do sudeste asiático.

O Ano Zero, dali em diante, tinha sabor de cadáver demais para reter valor de propaganda, mas isso não torna a equação calêndrica 1975 = 0 insignificante (mais o oposto). Independente de seu paroquialismo no tempo e no espaço, que corresponde bastante estritamente a uma reincarnação do ‘nacional socialismo’ (xenofóbico-suicida), ele define uma época significativa como a marca de maré alta do logro utópico e a complementar revalorização do pragmatismo conservador. De maneira suficientemente apropriada, o Ano Zero descreve um instante sem duração, no qual a era do tempo utópico é terminada em exata coincidência com sua inauguração. A era que ele abre é caracterizada, quase perfeitamente, por sua renúncia, conforme a programação social de fantasia se extingue em sangue e colapso. O eschaton imanente imediatamente se amaldiçoa.

A ironia histórica torna essa excursão puramente (sub-)acadêmica, porque a nova era está essencialmente desinclina a ser conceber como tal. O que começa a partir deste Ano Zero é uma cultura global de exaustão ideológica, ou de ‘senso comum’, agudamente sensível à cabeça sorridente da morte nos sonhos bonitos e reconciliada com um acordo com o não-ideal. Da perspectiva da expectativa revolucionária fantástica, a maré alta da visão perfeccionista decai até desilusão e insatisfação tolerável – mas pelo menos ela não come nossos filhos. A modéstia estrutural da nova era de ambição não tem tempo algum para um recomeço radical ou para um paraíso carmesim, mesmo quando é historicamente definida por um.

O Ano Zero de Pol Pot está imprensado entre a publicação de A Era Ecumênica de Eric Voegelin e os primeiros protestos chineses massivos contra a Grande Revolução Cultural Proletária (ao longo dos meses que se seguiram à morte de Zhou Enlai, em janeiro de 1976). Vale a pena notar que Deng Xiaoping elogiou Zhou em sua cerimônia memorial por ser “modesto e prudente” (assim fala o Novo Éon).

No mundo anglo-americano, a política da exaustão ideológica estava prestes a tomar uma forma explicitamente conservadora, positivamente expressa como ‘realismo de mercado’ (e, neste sentido, profundamente ressonante, assim como sincronizada, com os desenvolvimentos chineses). Margaret Thatcher assumiu a liderança do Partido Conservador inglês em fevereiro de 1975, e Ronald Reagan declarou sua candidatura presidencial em novembro do mesmo ano. A esquerda anglófona logo seria traumatizada por uma paradoxal ‘revolução conservadora’ que extraía uma energia implacável da própria restrição da possibilidade política. O que não poderia acontecer rapidamente se tornou o dínamo social primário, como articulado pela máxima thatcherita: “Não há alternativa” (= opção zero). A auto-imolação da utopia havia se transmutado em um novo começo.

Embora a era de não recomeçar do zero possa ser datada com uma precisão aproximada (a partir de n – 1975 AD) e tenha, assim, de fato recomeçado do zero, de uma forma profundamente furtiva, sua consequência ampla foi espalhar e enraizar o Domínio Calêndrico (gregoriano) ainda mais ampla e profundamente. A combinação predominante de globalização radicalmente inovadora (tanto econômica quanto tecnológica) com um conservadorismo social prudente tornou esse resultado inevitável. O recomeço simbólico não estava na pauta de ninguém e, mesmo enquanto os pós-modernistas declaravam o fim das ‘grandes narrativas’, a primeira estrutura narrativa hegemônica planetária da história estava consolidando sua posição de monopólio incontestável. A globalização era a estória do mundo, com a datação gregoriana como sua gramática.

Órfão da exaustão ideológica, estigmatizado para além de qualquer recuperação por sua associação com o Khmer Vermelho e radicalmente mal ajustado ao espírito reinante de pragmatismo incremental, por volta do final do século XX o Ano Zero estava aparentemente fora de pauta, sem programação e por sua própria conta. Tempo, então, para algo verdadeiramente insidioso.

Em 18 de janeiro de 1985, o usuário da Usenet Spencer L. Bolles chamou atenção para um prospecto perturbador que havia deixado um amigo insone:

Eu tenho um amigo que levantou uma questão interessante, que eu imediatamente tentei provar falsa. Ele é um programador e tem essa noção de que, quando alcançarmos o ano 2000, os computadores não aceitarão a nova data. Os computadores assumirão que é 1900, ou isso sequer vai causar um problema? Eu me opus violentamente a isso porque parece tão insignificante. Os computadores entraram em existência durante este século, e os softwares, especificamente os softwares de contabilidade, foram preparados para essa virada? Se isto realmente vier a ocorrer e meu amigo estiver correto, o que acontecerá? Isso é algo com o que se preocupar?

O amigo anônimo de Bolles estava perdendo o sono com o que viria ser conhecido como o ‘problema do Y2K’. A fim de economizar memória nos computadores primitivos das primeiras gerações, uma convenção amplamente adotada registrava as datas com dois dígitos. O milênio e o século eram ignorados, uma vez que se assumiu que atualizações de software teriam tornado o problema irrelevante quando ele se tornasse iminente, próximo do ‘rollover‘ (do século e do milênio) no ano 2000 AD. Poucos haviam antecipado que o conservadorismo comparativo das heranças de software (em relação ao desenvolvimento de hardware) teria deixado o problema inteiramente sem solução, mesmo ao passo em que a data da crise se aproximava.

No fim, o Y2K foi um não-evento que não contou para nada, embora seus custos de preparação, seus efeitos de estímulo (especialmente na terceirização para a emergente indústria de software indiana) e seu potencial de pânico tenham sido todos consideráveis. Sua importância para a história do calendário – embora ainda quase inteiramente virtual – é extremamente extensa.

O Y2K resultou da emergência acidental — ou ‘espontânea’ — de uma nova ordem calêndrica dentro da tecnosfera globalizada. Seu Ano Zero, 0K (= 1900) estava despido de toda comemoração paroquial ou intenção ideológica, mesmo ao passo em que era propagado através de canais de comunicação cada vez mais computadorizados até um ponto de ubiquidade que convergia, assintoticamente, com aquela alcançada pelo Domínio Calêndrico ocidental sobre o alcance completo da história mundial. O século XX havia sido registrado, automaticamente, como o primeiro século do Contínuo Cibernético. Se o Y2K tivesse completado sua reformatação da tração da esfera planetária da forma em que alguns (poucos histéricos iludidos) haviam esperado, o mundo agora estaria se aproximando do meio do ano 0K+118, instalado seguramente em seu primeiro calendário universal aritmeticamente competente e orientado historicamente pelo mesmo sistema de computação eletrônica que havia inconscientemente decidido sobre a origem do tempo positivo. Ao invés disso, o ‘bug do milênio’ foi consertado e a contagem teológica da data prolongou sua dominância, sem interrupções (após muito barulho por nada). Muito provavelmente, o complexo cultural hegemônico encrustado no Domínio Calêndrico nunca sequer notou a insurreição cibernética que havia esmagado.

Entre 0K e Y2K, o alfa e o ômega do apocalipse suave, há não apenas um século de tempo histórico, mas também uma inversão de atitude. O tempo se afasta do 0K, como de qualquer ponto de origem, acumulando duração decorrida através de sua conta. o Y2K, em contraste, era um destino, do qual o tempo se aproximava, como se de um horizonte apocalíptico. Embora não tenha sido registrado como uma contagem regressiva, muito facilmente poderia ter sido. O término estava precisamente determinado (não menos do que a origem), e a formulação mais estrita do bug do milênio interpretava o ponto de rollover como um limite absolute para o tempo registrável, além do qual nenhum futuro era sequer imaginável. Para qualquer inteligência computacional hipotética restrita pelo Y2K, negada um acesso a procedimentos de datação que transbordem seu registro anual de dois dígitos, o tempo residual se reduzia em direção ao zero conforme o evento do milênio se agigantava. Uma vez que se alcance todos os noves, o tempo está acabado, no limite da eternidade, onde começo e fim são indistinguíveis (no 0).

“0K, é hora de embrulhar esse filhote.” – Apocalipse 6:14

(a seguir, e finalmente, o fim (enfim))

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 4)

Uma Digressão ao Princípio de Realidade

Entre o mundo que gostaríamos de habitar e o mundo que existe, há uma lacuna que nos testa. Mesmo a descrição mais simples dessa lacuna já clama por uma decisão. ‘Ideologias’, no sentido mais amplo e quase culturalmente esgotante, servem primariamente para amenizá-la. Sentido e mesmo compaixão são atribuídos ao lado da realidade, prometendo uma reconciliação última entre esperanças e desejos humanos e a natureza ‘objetiva’ das coisas. A ciência, uma disciplina tipicamente desprezada e misantrópica, tende à suposição oposta, enfatizando a severa indiferença da realidade para com os interesses e expectativas humanas, com a implicações de que as lições que ela nos ensina podem ser administradas com uma brutalidade ilimitada. Podemos nos arremessar contra a realidade, se insistirmos, mas não podemos antecipar de maneira realista alguma moderação misericordiosa das consequências. A natureza não repreende ou pune, ela meramente nos quebra, friamente, sobre a cremalheira de nossas inverdades.

Como outras instituições culturais, os calendários estão saturados de ideologias e são testados até a destruição contra uma realidade implacável. A suas colisões com a natureza são especialmente informativas, porque expressam desejos humanos obstinados como números favorecidos (selecionados entre inteiros positivos pequenos) e registram o golfo do real de uma forma estritamente quantitativa. Qualquer calendário sobrevivente relata a estória de uma adaptação à realidade, ou a deferência cultural à natureza (e sua deformação por ela), conforme preferências numéricas foram comprometidas através de seu encontro com fatos quantitativos.

A pura ideologia na esfera calêndrica é representada em sua perfeição pelo ano fantasioso dos antigos mesopotâmios, com 360 dias de duração e harmonizado com a aritmética sexagesimal (módulo 60) dos sumérios. Sua influência persistiu nos 360 graus do círculo geométrico e na relacionada divisão sexagesimal em minutos e segundos (de tempo e arco). Os arcaicos calendários da Meso-América e do leste asiático, assim como aqueles do Oriente Médio, parecem ter sido atraídos pelo ano de 360 dias como se por um modelo ideal. Se o Grande Arquiteto do Universo tivesse sido um geômetra antropomórfico, esse seria o calendário que funcionaria.

Claro, ele não funciona (com todo o devido respeito ao cativante contra-argumento bíblico esboçado aqui). Em vez disso, na principal tradição calêndrica mundial – conforme determinado pelo eventual resultado global – um primeiro nível de adaptação sistematizou o ano em 365 dias – o ano egípcio. Ao contrário do ano arquetípico de 360 dias, que tem todos os três primeiros primos como fatores e, assim, se divide convenientemente em ‘meses’ ou outros períodos componentes, o ano de 365 dias representa uma relutante concessão ao fato quantitativo. O número 365 tem apenas dois fatores (ambos primos, 5 e 73), mas nenhum parece ter adquirido qualquer valência calêndrica discernível, talvez por conta de sua óbvia inadequação a uma descrição sequer aproximada dos períodos lunares. Os egípcios se voltaram, em vez disso, a uma estranha, mas influente, inovação: a intercalação. Um apêndice de cinco dias foi adicionado ao ano, como uma pura correção ou comensuração suplementar e um lembrete anual da lacuna entre a elegância numérica e a realidade astronômica. Embora as intercalações tivessem sido investidas com significância mítico-religiosa, isso era essencialmente compensatório – um testamento cruamente obscurecido à fraqueza da idealidade (e, assim, do sacerdócio sistemático como um modo de apreensão da realidade, ou propósito social eficiente). Se as intercalações eram necessárias, então a natureza não estava enfeitiçada e os sacerdotes-mestres do tempo calêndrico tinham sido expostos, tacitamente, como fornecedores de mistificações, cujos limites eram traçados pelo horizonte de credulidade social. O tempo astronômico zombava dos significados dos homens.

Ao longo do tempo, o ano real (‘tropical’) desacredita suas idealizações calêndricas ao desamarrar as datas das estações, em um processo de deriva temporal que expõe a discrepância e impele a reforma do calendário. Calendários imprecisos são gradualmente desprovidos de sentido, conforme as associações sazonais de seus termos temporais são erodidas até a aleatoriedade absoluta – por meses ‘de verão’ congelantes e meses ‘de inverno’ escaldantes. Claramente, nenhum sacerdócio pode sobreviver em um clima que ridiculariza a ordem estabelecida do ano e no qual os fazendeiros que ouvem as palavras sagradas (do tempo) asseguram uma fome inevitável. A menos que seja rastreado, dentro de uma margem tolerável, por um calendário que ‘mantenha’ o tempo, o ano se reverte a um a coisa alienígena e ininteligível, inteiramente exterior à compreensão cultural, enquanto os símbolos dominantes da sociedade aparecem como balbuciações risíveis e sem sentido, abafadas pelo caos uivante do real.

Com a introdução do calendário juliano, que coincidiu com o (não evento do) ano zero, vem o reconhecimento de que o ano tropical é incomensurável com qualquer inteiro e que um ciclo mais amplo de intercalação é necessário para rastreá-lo. Um tipo de modernidade, ou desmistificação estrutural, nasce com a renúncia do ano ideal e de tudo que simboliza em termos de desígnio cósmico ou harmonia celestial. O apêndice do demônio está apenso, irremediavelmente.

A numeracia e a medição do tempo se divorciam na origem do Domínio Calêndrico cesário, mas é fácil confundir os acidentes neste caminho com concessões essenciais à realidade. Mesmo que se admita a função inescapável das intercalações, não havia nada inevitável – pelo menos absoluta ou cosmicamente inevitável – sobre a ruína total da coerência numérica que o calendário juliano encarnou e passou adiante.

Para explorar mais esse tópico (admitidamente arcano), é necessária uma digressão à segunda potência, às relações entre números e desejo antropomórfico. O ponto de partida óbvio é o calendário de 360 dias da antiga Suméria, e a questão: O que tornou esse número atraente? Seja ao examinar o 360 ou sua raiz sexagesimal (60), uma atenção aritmeticamente convencional aos fatores primos (2, 3 e 5) é, inicialmente, enganadora – embora, em última análise, seja indispensável. Uma introdução mais iluminadora começa com os fatores compostos 10 e 12, o último relevante primariamente para o ciclo lunar (e o sonho arcaico de um ano de 12 meses astronomicamente – ou, melhor, astrologicamente – consistente) e o primeiro refletindo o antropomorfismo primordial em questões numéricas: o decimalismo. O calendário de 360 dias é um objeto do desejo humano porque é um híbrido antropo-lunar (ou menstrual-licantrópico?), que fala intrinsecamente com os ciclos da fertilidade humana e com os padrões ‘digitais’ instanciados nos planos corporais mamíferos. Um ano de 360 dias seria nosso (mesmo se coisas alienígenas estivessem escondidas nele).

O decimalismo antropomórfico sugere como certas oportunidades numéricas ficaram faltando, junto como zero. ‘Apreensão’ e ‘compreensão’ referem o entendimento aos órgãos preênseis de um organismo específico, cuja simetria bilateral combina mãos com cinco dedos para produzir uma conta que chega a dez, através de um intervalo que pertence a um terceiro, alienígena e intratável. Seres triádicos são monstros e decimalmente incompreensíveis. A estrutura bino-decimal do Yi Jing exibe isto com total clareza, através de seu ciclo temporal com seis estágios que conta na sequência recorrente 1, 2, 4, 8, 7, 5… Cada potência de três (dentro dos numerais decimais) é expelida, junto com o zero, para fora da ordem do tempo apreensível. Não há nenhuma maneira em que uma numeracia calêndrica ternária jamais pudesse ter sido antropomorficamente aceitável – o próprio pensamento é (quase por definição) abominável.

Ainda assim, a astronomia parece ser horrivelmente cúmplice da abominação, pelo menos se os anos forem geminados. A sexta potência de três (3^6) se aproxima da duração de dois anos tropicais com uma discrepância de apenas ~1.48438 dias, ou menos de um dia por ano. Uma intercalação de três dias a cada quatro anos (ou dois ciclos de anos-gêmeos) o traz à precisão do calendário juliano, e uma redução desta intercalação em um dia a cada 128 anos (ou 64 (2^6) ciclos de anos-gêmeos) excede a precisão do calendário gregoriano.

Poderia ser necessário ser ligeiramente desequilibrado para apreciar plenamente essa extraordinária conjunção de elegância numérica e fato astronômico. Um sistema de computação calêndrica que conte apenas em dois e três e que mantenha uma ordem perfeitamente triádica da divisão temporal até à duração de um período de dois anos, é capaz de, bem facilmente, exceder a performance do calendário internacional dominante (chegando a um nível de precisão que desaparece na instabilidade inerente do ano tropical e, assim, estritamente falando, é inaperfeiçoável).

Quantos dias existem em um ano? ((3 x 3 x 3 x 3 x 3 x 3) / 2) + ~0.74219

O horror, o horror…

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 3)

Em Busca do Ano Zero

Um Ano Zero significa um recomeço radical que faz reivindicações universais. Nos tempos modernos, especialmente nos tempos modernos recentes, ele está associado sobretudo com visões ultra-modernistas de política total, em seu ponto máximo de extremidade utópica e apocalíptica. A ordem existente do mundo é reduzida a nada, a partir do qual uma nova história é iniciada, fundamentalmente desconexa de qualquer coisa que tenha ocorrido antes e moralmente obrigada apenas a si mesma. Previsivelmente o bastante, entre comentaristas conservadores (no sentido mais amplo), tais visões são largamente indistinguíveis das paisagens com cadáveres espalhados de uma catástrofe social assombrada pelos fantasmas de sonhos irrealizáveis.

O Domínio Calêndrico global do cristianismo é paradoxal – talvez até mesmo ‘dialético’ – neste aspecto. Ele fornece o modelo governante de ruptura histórica e extensão ecumênica ilimitada e, desta forma, de revolução total, enquanto ao mesmo tempo representa a ordem conservadora antagonizada pela ambição modernista. Seu exemplo incita a guinada ao Ano Zero, mesmo ao passo em que não possui nenhum ano zero próprio. Em última análise, sua provocação dialética tende em direção à tentação satânica: a promessa do Apocalipse Anti-Cristão, ou novidades absolutas a uma segunda potência. (“Se os cristão conseguiram fazê-lo, por quê não conseguiríamos?” Uma deixa para contagens de corpos que se escalam em direção ao infinito.)

A tensão existe não apenas entre uma ordem cristã estabelecida e sua pós-imagem pseudo-secular revolucionária, mas também dentro do próprio cristianismo, que se divide internamente pela unidade aparente e real dissociação do ‘tempo messiânico’. O processo de consolidação calêndrica cristã foi imensamente prolongado. Uma distância de mais do que meio milênio separou a formulação clara da contagem dos anos a partir do momento comemorado, com ainda mais séculos necessários para se integrar completamente o registro histórico com esta base, digerindo os registros anteriores judeus, romanos e locais e estabelecendo as bases para uma articulação cristã universalizada do tempo. Quando as ‘boas novas’ revolucionárias haviam sido formalizadas de maneira coerente em um protótipo reconhecível do calendário ocidental hegemônico, elas haviam sofrido uma longa transição de quebra histórica para tradição estabelecida, com impecáveis credenciais conservadoras.

Simultaneamente, contudo, o processo de consolidação calêndrica sustentou, e até mesmo afiou, a expectativa messiânica de uma ruptura pontual e verdadeiramente contemporânea, projetada adiante como a duplicação ou ‘segunda vinda’ da divisão inicial. Mesmo que o momento no qual a história havia sido fendida em duas partes – antes e depois, AC e AD – agora estivesse em uma antiguidade bastante distante, seu exemplo permanecia urgente e promissor. A esperança messiânica foi, assim, rasgada e compactada por uma intrínseca duplicação histórica, que a esticou entre um começo vastamente retrospectivo e gradualmente reconhecido e um prospecto de repentina conclusão, cuja credibilidade era assegurada por seu status enquanto repetição. O que tivera sido seria novamente, transformando a contagem dos AD em uma sequência completa que era confirmada da mesma maneira em que era exterminada (através da intervenção messiânica).

Sem surpresas, a história substancial do establishment calêndrico ocidental é geminada com a ascensão do milenarianismo, através de fases que tendem cada vez mais a formas social-revolucionárias e, eventualmente, abrem caminho para variedades auto-conscientemente anti-religiosas, mas decididamente escatológicas, de política total modernista. Já que o que quer que tenha acontecido tem que – pelo menos – ser possível, a própria existência do calendário apoia antecipações de ruptura história absoluta. Sua conta, simplesmente por começar, prefigura um fim. O que começa pode recomeçar, ou acabar.

O zero, contudo, se introduz diagonalmente. Ele até mesmo introduz um aspecto cômico, uma vez que qualquer que seja a importância da revelação cristã para a salvação de nossas almas, é descaradamente óbvio que ela falhou em entregar uma notação aritmética satisfatória. Para isso, a Europa cristã teve que esperar a chegada dos numerais decimais da Índia, através do Oriente Médio muçulmano, e a subsequente revolução do cálculo e da contabilidade que coincidiu com a Renascença, junto com o nascimento do capitalismo mercantil nas cidades-estado do norte da Itália.

De fato, para qualquer um que busque um calendário verdadeiramente moderno, a Chegada do Zero marcaria uma excelente ocasião para um novo ano zero (0 AZ?), por volta de 1500 AD. Embora tal coisa plausivelmente datasse a origem da modernidade, a imprecisão histórica do evento conta contra ela, contudo. Além disso, a assimilação do zero por um capitalismo germinal europeu (e, assim, global) foi evidentemente gradual – mesmo que comparativamente rápida – em vez de uma transição ‘revolucionária’ pontual do tipo ao qual o zero calêndrico comemorativo é otimamente apropriado. (Se o Ano Zero é, desta forma, barrado da designação de sua própria operacionalização histórico-mundial, talvez ele esteja estruturalmente fadado à má aplicação e à produção de desilusão.)

A conspícua ausência do zero d(a conta d)o calendário ocidental, exposta em seu solavanco abrupto de 1 AC para 1 AD, é um estigma intolerável e irreparável que leva sua ironia mundial a um zênite. Na própria operação de integrar a história mundial, em preparação para a modernidade planetária, ele observa sua própria antiguidade e particularidade debilitantes, no sentido moderno mais condescendente do limitado e do primitivo – cru, defeituoso e subdesenvolvido.

Como um momento de incompetência calculista auto-evidente poderia fornecer um ponto de origem convincente para o cálculo histórico subsequente? O Ano Zero escapou de toda possibilidade de apreensão conceitual no momento da contagem do tempo ao qual agora ele é visto pertencer, e o infinito (o recíproco do zero) se prova não menos elusivo. O infinito foi inserido em um tempo quando (e um local onde) ele demonstravelmente não fazia nenhum sentido, e a extraordinária impressão histórico-mundial que ele fez não fez nada – nem mesmo nada – para mudar essa situação. Esse não é um enigma digno para os teólogos? Onipotente, onisciente, onibenevolente e, no entanto, sem esperanças na matemática – essas não são as características de uma revelação projetada para impressionar tecnólogos ou contadores. Tanto mais razão, então, para levar essa comédia a sério, em toda a sua ambivalência – uma vez que o mundo emergente dos tecnólogos e contadores, o mundo tecno-comercial (industrial desembestado, ou capitalista) que globalizaria a terra, foi desmamado dentro do cercadinho deste calendário, e de nenhum outro. A modernidade selecionara para datar a si mesma de uma maneira que seus próprios alunos do jardim de infância desdenhariam.