Animação Suspensa (Parte 4)

Ganhando tempo

No começo da segunda década do novo milênio, o mundo havia começado a se adaptar a um problema que o havia torturado nos anos 1930 e o deformado subsequentemente – aquele do equilíbrio sub-ótimo. A significância prática desta ideia é difícil de exagerar.

Como um economista rigoroso, Henry Hazlitt estava teoricamente intitulado – e até mesmo compelido – a ridicularizar de maneira selvagem o modelo keynesiano de ‘equilíbrio de baixo emprego’ e a explicar meticulosamente que ele não descrevia um equilíbrio de nenhum tipo (em termos econômicos). Ainda assim, tais ataques, como aqueles dos austríacos de maneira mais geral, foram de pouca consequência, uma vez que Keynes não era, em nenhum sentido fortemente defensável, um economista, mas sim um economista político, em ambas as maneiras óbvias que essa expressão pode ser entendida. Seu equilíbrio ruim não refletia a operação de forças de mercado, mas sim o funcionamento do mercado sob uma concepção específica de circunstâncias politicamente realistas, e a ‘análise’ da Teoria Geral era menos uma descrição tecnicamente rigorosa dos eventos do que uma prescrição política para a ação, profundamente atenta às oportunidades e restrições que afetam sua aplicação, ou transição em política.

Keynes definiu o espírito político da segunda metade do século XX, primeiro no Ocidente e mais tarde de maneira mais ampla, ao normalizar a proeminência do estado nos assuntos econômicos e ao subordinar a ideia de auto-correção econômica a considerações políticas. O papel da nova economia política, agora convencionalizada tecnocraticamente como política econômica, era contornar os mercados de trabalho, os quais nunca se poderia esperar que funcionassem de maneira eficiente, uma vez que as correções para baixo eram julgadas politicamente inaceitáveis. A economia pura foi encerrada ou, pelo menos, absolutamente marginalizada pelo reconhecimento de que o trabalho poderia sair do jogo, chutar a mesa e se recusar a bancar a mercadoria. A precificação do trabalho a níveis de equilíbrio de mercado se tornou uma concepção abstrata (e, para os keynesianos, risível), desatenta às realidades da política democrática popular e – in extremis – ao potencial para uma revolução marxista.

Daí a simpatia de consenso para com a abordagem keynesiana na direita do establishment, onde ele foi interpretado como um baluarte contra as tentações marxistas, e também a profunda antipatia que provocou na direita anti-establishment, onde ele era (de maneira não menos realista) entendido como uma concessão preventiva ao socialismo. Na esquerda, um cisma comparável era evidente, entre aqueles que o abraçavam como um contingenciamento do capitalismo, e aqueles que o denunciavam como um socialismo substituto, concebido para um conveniência conservadora. O ‘meio’ keynesiano foi a realidade política decisiva do século XX, e seus múltiplos significados ideológicos ainda organizam todos os principais eixos de controvérsia sócio-econômica.

Quando os mercados de trabalho são protegidos contra o lado inconveniente – através do reconhecimento macroeconômico e da petrificação política da sua ‘aderência’ – algum tipo de mecanismo de catraca socioeconômica é automaticamente produzido. Em certa medida, o capital pode fugir para a informalidade (por exemplo, trabalho imigrante ilegal) ou para a arbitragem internacional do trabalho, que intensifica a tendência à terceirização e à globalização. Mais central, contudo, são as macro-tendências gêmeas nas quais Keynes focou: em direção a compensações fiscais e monetárias, embasadas na administração da demanda e na exploração da ‘ilusão do dinheiro’ (ou apego à renda nominal). Estímulos fiscais podem ser realizados em uma tentativa de elevar a demanda, até que ela alcance um ponto de equilíbrio artificial comensurável com os níveis de preço do trabalho (eliminando, assim, o desemprego). De maneira alternativa, ou em concerto, a oferta monetária pode ser expandida – e a moeda degradada – para facilitar diminuições reais do salário, apesar da aderência nominal.

Essencialmente, é isso. Não há outras munições no arsenal macroeconômico. Isso é notável dado o fato de que os ajustes tanto ficais quanto monetários são meros truques, e não são nem mesmo truques sofisticados, mas tentativas bastante diretas de manipulação de confiança, através das quais qualquer um com ‘expectativas racionais’ pode ver imediatamente, assim neutralizando-as. Do lado monetário, isso é especialmente óbvio – e bem atestado historicamente. Uma vez que as expectativas inflacionárias tenham se enraizado, elas se tornam o tópico básico de negociações salariais, como se viu nos anos 1970. Não há nenhuma evidência que seja para sugerir que os trabalhadores são indiferentes à depreciação inflacionária do salário. A ‘ilusão do dinheiro’ – na medida em que ela sequer existe – é basicamente um golpe único, colhido no breve período em que uma reputação bem estabelecida de gestão responsável da moeda é jogada no lixo. Engane-me uma vez, vergonha sua; engane-me duas vezes, não vai acontecer. Embasar uma política econômica nisso é o tipo mais barato de manha de rua (e poucos o tentariam em público mais).

Estímulos não são muito melhores. A demanda real é, em última análise, uma troca e, assim, derivativa da oferta. Ninguém pode (economicamente) demandar nada sem ter algo o que oferecer em troca – esta é a Lei de Say, e ela é teoricamente inexpugnável, porque é um bom senso elementar. A única maneira de se desviar dela é por conjuração, extraindo a demanda de uma parte da economia de maneira invisível e a reinserindo conspicuamente em algum outro lugar. Este tipo de mágica pode ficar bastante bizantina, então ela tende a atingir a exaustão mais lentamente do que o abuso monetário, mas seus fundamentos na realidade econômica sustentável não são nem um pouco mais seguros. Uma vez que os contribuintes reconheçam as dívidas do governo como passivos (pagamentos futuros de impostos) que já foram virtualmente deduzidos de seu poder de compra, o jogo acabou. Uma vez que um modelo plausível de exaustão da política fiscal (expansiva) é a crise da dívida soberana, não é irracional começar a já fechar as cortinas.

Dada a tendência exponencial da história social, a maior parte do que já aconteceu ocorreu desde que a Grande Depressão começou e, durante esse tempo, o mundo tem habitado — de maneira mais ou menos consciente — um sistema deliberadamente construído de ilusão, ou truque de confiança. Quer ele seja analisado pela esquerda ou pela direita, a característica mais impressionante dessa situação foi inadequadamente apreendida, ou sequer interrogada: como ela persistiu? Como algo que é transparentemente [insira epíteto] impraticável poderia durar mais de 80 [insira epíteto triplo] anos?

Oitenta anos é um bom tempo de vida humana. Alguém poderia facilmente passar sua vida dentro do palácio dos sonhos keynesianos, literalmente vivendo uma mentira, com a implicação de que, qualquer importância que a ‘realidade’ possa ter na teoria, ela não precisa ter quase nada a ver conosco. Podemos perde-la completamente, presos em um show de mágica que excede nossa longevidade, meio hipnotizados por ilusões em que ninguém realmente acredita, mas que são suficientes para adiar, e adiar, e adiar, e… no longo prazo estamos todos mortos. Quem se importa com uma verdade que nunca chegar? Um truque de mágica que dura toda sua vida é a sua vida. Quase ninguém vivo hoje conhece alguma outra coisa.

E tudo isso vai acabar muito em breve… honestamente…

Original.

Animação Suspensa (Parte 3)

A mão morta do estado

Eu queria estar dizendo que vai acontecer logo… esta é a crise de maior duração, na qual as pessoas tem dado datas falsas, pessoas aparecendo para cúpulas dizendo que tem que ser resolvido, nada acontece e as pessoas vão embora e o céu não cai… mais cedo ou mais tarde o céu vai cair, eu só não sou inteligente o suficiente para saber quando vai ser.
— Anthony Fry, Presidente no Reino Unido do Espírito Santo Investment Bank (para a CNBC)

A Europa adotará a solução americana. O BCE não permitirá que grandes bancos venham a falir. Ele inflará para comprar os ativos ruins, ou então comprará os títulos dos governos, para que eles consigam fazer pagamentos. Então os banqueiros colocarão esse dinheiro em reservas excedentárias. Novos empréstimos para empresas cessarão. O Ocidente entrará em uma recessão permanente ou estase sem crescimento. Os governos absorverão uma percentagem cada vez maior do capital da região: vendas de títulos. As firmas privadas não serão capazes de emprestar a taxas baixas. O desenvolvimento do capital se enrugará.
— Gary North (aqui)

O novo milênio está nos ensinando vastamente mais sobre zumbis do que qualquer um poderia ter antecipado. Há muito se foram os vampiros viris e predatórios que outrora populavam as estórias de horror sobre o capitalismo, sugando a essência vital do proletariado em fortalezas góticas de ‘trabalho morto’. Em vez disso, destroços destruídos por vermes trituram por aí, sem meta, enquanto aumentam seus números em circuitos canibais obscuros que desafiam a compreensão racional e que são, em todo caso, horríveis demais para se contemplar fixamente. Demônios se degeneraram em canibais, que não caçam e se alimentam para se fortalecer, mas apenas prosseguem prolongando sua decrepitude putrescente.

Um artigo de 2002 no Guardian sobre a “economia zumbi do Japão” prefigura uma série de revelações posteriores e mais gerais. Em particular, ele identifica o apocalipse zumbi que se espalha com o colapso em câmera lenta do keynesianismo, conforme as políticas monetárias e fiscais ‘estimulantes’ (taxas de juros zero combinadas com um gastos deficitários governamentais massivos) perdem seus poderes mágicos de revitalização e, em vez disso, meramente perpetuam um estado interminável de morte-viva. Hiper-estímulos são necessários apenas para se manter na assistolia.

Claro, sendo o Guardian, a solução é óbvia: “o que a economia precisa agora é uma boa dose de inflação”. Para keynesianos mortos-vivos, não há mal-estar profundo demais que uma revigorante onda de destruição monetária não resolva. É aqui que o metabolismo zumbi realmente fica interessante. No fim da década, a América tinha ela mesmo se tornado totalmente zumbi e começou a perceber que isso não era apenas alguma coisa japonesa estranha que ela não entendia, mas um fenômeno completamente mais geral e radicalmente misterioso. O Federal Reserve de Ben Bernanke empurrou as taxas de juros dos EUA para o chão (ZIRP) e começou a monetizar incontinentemente a dívida pública (QE) enquanto nacionalizava a dívida privada (TARP), usando todo instrumento político disponível para direcionar a economia em uma direção inflacionária, em velocidade máxima. Nada demais aconteceu. Zumbis não ficam com febre.

Neste ponto, as questões vêm em inundação. Por exemplo: por que alguém ainda está comprando títulos dos governos japonês ou americano? Não é óbvio que esse papel não representa nada além de uma fatia de dívidas irresgatáveis, que promete um retorno insultante, ‘garantido’ por uma entidade estruturalmente insolvente e associado com políticas mais ou menos explicitamente orientadas à destruição deliberada da moeda? O que a pessoas estão pensando? Para responder isso, é necessário se aventurar um pouco mais fundo no mundo zumbi.

A ideia do dólar americano (ou do iene japonês) como ‘porto seguro’ poderia soar como uma piada, e você provavelmente já a ouviu antes:

Joe Dollar e Jacques Euro estão acampando no mato, quando de repente ouvem o fungar aterrorizante de uma carnívoro faminto se aproximando. Joe apressadamente começa a amarrar seus tênis de corrida. “O que você está fazendo?” pergunta Jacques. “Você não consegue ser mais rápido que um mercado-urso.”

“Eu não preciso ser mais rápido que o mercado”, Joe responde. “Eu só preciso ser mais rápido que você.”

No Asia Times Online, Martin Hutchinson vislumbra um fim de jogo para a crise financeira que “elimin[e] os mercados de dívida governamental que formaram a peça central dos últimos três séculos”, devolvendo o mundo ao dinheiro baseado no mercado e ao regime de bancos livre de 1693, antes da criação do Banco da Inglaterra. Paradoxalmente, contudo, o prospecto de colapso eleva a potência financeira do estado a um nível sem precedentes, conforme a ‘segurança’ que ele promete se desconecta das questões de competência econômica e se reverte a algo bem mais atávico e hobbesiano. Uma vez que tudo começa a se afivelar, a credibilidade se vincula ao maior, mais malvado e mais implacável fornecedor de ‘proteção’ ao estilo da máfia. A política do poder relativista (de soma zero ou negativa) toma o centro do palco.

Um relatório financeiro pedestre, mas informativo, da Bloomberg estabelece claramente:

Jim Chanos, fundador do hedge fund Kynikos Associates Ltd., disse que, embora as chances de uma recessão possam estar aumentando, a economia dos EUA é “a melhor casa em uma vizinhança ruim”

O dólar americano poderia não ser nada mais do que o “cavalo mais bonito na fábrica de cola”, mas, uma vez que a lógica financeira do apocalipse zumbi assume o controle, as implicações podem ser de longo alcance, a Bloomberg continua:

Os tesouros de dez anos apagaram as perdas depois que os EUA vendeu US$29 bilhões en títulos de sete anos a um rendimento em baixa recorde de 1.415 por cento, somando US$99 bilhões em vendas de notas nesta semana. Os rendimentos de dez anos caíram quatro pontos-base, para 1.88 por cento, depois de subir até quatro pontos mais cedo. A taxa está em alta depois de uma baixa recorde de 1.67 em 23 de setembro.

Os tesouros dos EUA que maturam entre sete e 10 anos devolveram 14 por cento este ano, superando um retorno de 9.3 por cento para o mercado de tesouros mais amplo, de acordo com os índices Merrill Lynch do Bank of America, dados de ontem [23 de novembro].

Vale a pena tirar um momento para digerir esses números. Ninguém espera que a inflação média dos EUA ao longo dos próximos sete anos fique abaixo de 1.415% a.a., ou abaixo de 1.88% ao longo dos próximo dez, então o rendimento é pura extorsão. Ainda assim, esse ataque flagrante ao cólon inferior dos poupadores foi compatível com um retorno de 14% (!) em um ano – eles estão implorando por isso. Sério, quem se importa se Bernanke está acendendo um gordo charuto cubano com uma nota alta tirada direto do seu bolso? Isso só faz ele parecer mais foda e é por isso que eles estão pagando. O ouro parece bom em teoria, mas ele não vem junto com sua própria organização gangster, então se agarrar a ele em meio ao interlúdio zumbi pode ser difícil. É bem mais seguro, de longe, investir no estado alfa.

Uma vez que essa zumbinomia hobbesiana é política e relativista, existem estados epsilon no outro lado da troca, assim como um estado beta preso no meio. A Europa não é sequer um estado, claro, que é como a (interminável) fase final da zumbinomia começou. Antes dela mudar, contudo, o ato de conjuração da UE parecia estar indo muito bem. Cada estado membro da zona do Euro emitindo dívida do governo na moeda comum pagava rendimentos que estavam amplamente harmonizados, como se a Europa fosse um entidade financeiramente soberana, estando unida por trás de seus papéis. A percepção de que a soberania econômica permanecia nacional, mesmo depois da alienação da soberana monetária ao Banco Central Europeu, veio meio como um choque, e os diferenciais das obrigações se escancararam de acordo.

A alucinação da ‘Europa’ como um estado alfa unido e honorário rapidamente se degenerou na realidade, recodificando os títulos do governo como títulos de ações no apocalipse zumbi. Repentinamente, os títulos gregos pararam de ter muito a ver com o BCE e começaram a resmungar promessas em grego – em última análise, que o estado grego faria o que fosse necessário para assegurar a redenção, ao mesmo tempo em que mobilizaria seus poderes olímpicos para manter a disciplina social, se necessário. Uma luta pelas saídas imediatamente se seguiu. Idem, com variações de velocidade e intensidade, para todos os epsilons (= PIIGS).

Para onde fugir? Esta é a questão zumbinômica par excellance (procurando o cavalo mais bonito na fábrica de cola). Primeira escolha, para os leitores mais afiados de Hobbes, era ir direto ao Mr. Big, também conhecido como Benny, o Ianque, esperar educadamente enquanto ele terminasse de fumar um nuke fumegante e então implorar por proteção (eis seu salto de 14% em um ano no valor do título de 10 anos do Tesouro dos EUA, bem aqui). A segunda escolha — mais atraente para os tipos antiquados que pensavam que a economia ainda contava de algo – era procurar por uma responsabilidade financeira comparativa mais perto de casa.

De maneira breve, esta rota levava à qualidade genuína, mas a zumbinomia rapidamente retomou seu controle:

A Suíça provocou temores de uma nova guerra cambial na terça-feira [6 de setembro] depois que atrelou o franco suíço ao euro na tentativa de proteger sua economia da crise da dívida europeia.

O Banco Nacional Suíço, com efeito, desvalorizou o franco, comprometendo-se a comprar “quantidades ilimitadas” de moedas estrangeiras para forçar seu valor para baixo. O BNS avisou que não permitiria mais que um franco suíço valesse mais do que €0.83 – equivalente a SFr1.20 por euro – tendo assistido as duas moedas se aproximarem de uma paridade, conforme a Suíça se tornou um “porto seguro” contras as devastações da crise na zona do euro.

…o que nos traz à Alemanha e ao último capítulo na saga zumbi – cômica ou trágica, provavelmente ambos, irônica ao ponto do absurdo em todo caso. Arruinada, encolhida, dividida e traumatizada pela culpa, a Alemanha do pós-guerra buscou sobretudo enterrar suas aspirações nacionalistas na Europa. O que se tornou a UE foi para a Alemanha – como a Argélia foi para os legionários estrangeiros da França – um lugar no qual esquecer. Agora o ‘mercado’ de títulos, em sua busca cada vez mais desesperada por um um estado grande, durão e disciplinador (um beta global seria suficiente), está determinado a desenterrar o Leviatã Teutônico de sua cova.

Com lembranças gêmeas da hiper-inflação de Weimar e da hiper-afirmação estatista ainda vívidas, a Alemanha está teimosamente resistindo à opção zumbi-total de devassidão financeira (monetária e fiscal) contra-balanceada por uma política de segurança hobbesiana. Esta relutância em se atirar no espírito da era, naturalmente o bastante, a expôs a uma vilificação internacional implacável, e a pressão só vai aumentar. Tudo isso poderia ficar desagradavelmente interessante.

Original.

Animação Suspensa (Parte 2)

O que aconteceu com o inferno?

“Não pode continuar assim… mas por quantas semanas já dissemos isso?” — Justin Urquhard Stewart, diretor do Seven Investment Management (via James Pethokoukis aqui)

Fazer um tópico prolongado deste fenômeno é oferecer um refém à sorte. Tudo poderia ir desfiladeiro abaixo amanhã. Talvez já tenha ido (e estamos apenas esperando, como o Willy Coyote, pelo choque consumador).

Os verdes tem lidado exatamente com essa questão, por um tempo. Depois que Paul Ehrlich teve sua credibilidade incendiada por Julian Simon, na aposta mais intelectualmente consequente da história, ele respondeu em frustração: “A aposta não significa nada. Julian Simon é como o cara que pula do Empire State Building e diz quão ótimas as coisas estão indo assim que ele passa do 10º andar”.

Se a catástrofe ambiental está estruturada assim, de acordo com um padrão de insustentabilidade durável, ou adiamento desconcertante, não há nenhuma teoria óbvia para explicar o fato. Com a economia, as coisas são diferentes, em tal medida que toda a economia política do mundo, junto com a esmagadora preponderância da ‘ciência’ econômica profissionalizada, foi ajustada ao longo do curso de um pouco menos de um século para o adiamento de crises enquanto objetivo dominante. Se a Nova Ordem Mundial segue um plano mestre, esse é ele.

Para os puristas ideológicos na direita de livre mercado, o capitalismo laissez-faire é o ‘ideal desconhecido’ (embora a Shanghai do começo do século XX tenha se aproximado dele, assim como o fez sua aluna, Hong Kong, décadas mais tarde), mas não é necessário nenhum purismo que seja para reconhecer que a Grande Depressão efetivamente o enterrou enquanto princípio organizador do mundo e que o sistema que o substitui encontrou expressão política e intelectual nas ideias de John Maynard Keynes. A auto-organização comercial, que construiu o capitalismo industrial antes que qualquer um tive mesmo o mais superficial entendimento do que estava acontecendo, deu lugar à tecnocracia da macroeconomia, guiada pela crença radicalmente original de que os governos tinham uma responsabilidade de administrar as oscilações da sorte econômica.

Nas palavras de Peter Thiel (extraídas direto do id do livre mercado):

…a tendência tem ido na direção errada por muito tempo. Para retornarmos às finanças, a última depressão econômica nos Estados Unidos que não resultou em uma intervenção massiva do governo foi o colapso de 1920-21. Ela foi acentuado mas curta e implicou no tipo de “destruição criativa” schumpeteriana que poderia levar a uma verdadeira alta. A década que se segui — os loucos anos 1920 — foi tão forte que os historiadores esqueceram a depressão que a iniciou. Os anos 1920 foram a última década na história americana durante a qual se poderia estar genuinamente otimista sobre a política. Desde 1920, o vasto aumento nos beneficiários de bem-estar social e a extensão do direito ao voto para as mulheres — dois eleitorados que são notoriamente difíceis para os libertários — tornaram a noção de “democracia capitalista” um oximoro.

Como Daniel J. Mitchell do Cato coloca, mais estritamente:

Uma economia vibrante e dinâmica exige a possibilidade de grandes lucros, mas também a disciplina da falência. De fato, o capitalismo sem falência é como uma religião sem inferno.

Uma vez que o inferno é difícil de vender, a racionalidade política e econômica tem caminhado em direções diferentes por 80 anos. Mesmo as latitudes tropicais do purgatório se provaram ser socialmente combustíveis e a política popularmente sensibilizada – que não precisa ser formalmente ‘democrática’ – tende (fortemente) a fugir dos coquetéis Molotov, na direção da administração macroeconômica. A máxima keynesiana crucial, “No longo prazo, estamos todos mortos”, é especialmente pertinente aos regimes. Quem vai regenerar a recuperação econômica profunda, se a rota para ela jaz em meio a golfos de fogo e enxofre que são fundamentalmente incompatíveis com a sobrevivência política? A história, redundantemente, fornece a resposta óbvia: ninguém vai.

O caminho amaldiçoado não tomado, através do abismo infernal, ficou tão negligenciado e coberto de ervas daninhas que raramente é notado, mas ainda é graficamente marcado pelo conselho que o Secretário do Tesouro, Andrew Mellon, deu a Herbert Hoover sobre a maneira para se navegar a Grande Depressão (conselho que foi, claro, descartado):

… liquide o trabalho, liquide as ações, liquide os fazendeiros, liquide os imóveis… isso expurgará a podridão do sistema. Altos custos de vida e vidas elevadas virão abaixo. As pessoas trabalharão mais duro, viveram uma vida mais moral. Os valores serão ajustados, e as pessoas empreendedoras tomarão das pessoas menos competentes

Ao relembrar esta recomendação como a opção inaceitável, Hoover comemora o momento preciso em que o capitalismo deixou de existir enquanto uma possibilidade social politicamente crível. A alternativa – que tem muitos nomes, embora ‘corporativismo’ seja o suficiente – foi definida por sua recusa sistêmica ao caminho ‘liquidacionista’. Sair mais forte do outro lado não significava nada, porque a passagem provavelmente nos mataria – ela certamente destruiria nossas carreiras políticas. Em todo caso, foi uma solução de longo prazo para um problema de curto prazo, programado pela volátil irritabilidade popular e pelos ciclos eleitorais, e, no longo prazo, estamos todos mortos. Melhor, de longe, usar a ‘política macroeconômica’ (controle mental monetário) para prolongar artificialmente a euforia econômica insustentável – ou mesmo sua simulação exausta e de ressaca – do que mergulhar em uma catástrofe que poderia imaginavelmente ser adiada.

Não é preciso um fanático schumpeteriano para suspeitar que tal ‘destruição criativa (mas sem a destruição)’ tem pouca chance de fornecer uma receita sustentável para a vitalidade econômica. Quando avaliada de maneira realista, é uma fórmula que programa uma tendência à estagnação perpétua. Estagnação enquanto escolha.

Uma vez que o dinheiro serve como um equivalente geral e, assim, como um meio de troca neutro, não específico e puramente quantitativo, ele é muito solidário a certas ilusões econômicas altamente consequentes, de um tipo a que a macroeconomia tem sido especialmente propensa. Pode facilmente parecer como se ‘a economia’ consistisse essencialmente de agregados indiferenciados e quantitativos, tais como ‘demanda’, ‘produto interno bruto’, ‘oferta monetária’, ‘terra’, ‘trabalho’ e ‘capital’. Na verdade, nenhuma dessas coisas existe, exceto enquanto abstrações de alto nível, precipitadas pela função monetária de permutabilidade geral.

Um entendimento da destruição criativa schumpeteriana exige, como preliminar, o reconhecimento de que o capital é heterogêneo. Quando expresso em uma forma monetária, ele pode aparecer como uma quantidade homogênea, suscetível a uma simples acumulação, mas, em sua realidade social produtiva, ele consiste de um aparato tecnológico – ferramentas, máquinas, infraestruturas e instalações – que representa investimentos irrecuperáveis, de tipos qualitativamente distintos. O equivalente monetário desse capital industrial é derivado dos valores de mercado atribuídos a seus vários componentes, e esses são extremamente dinâmicos, virtuais e especulativos. Uma vez que o valor recuperável a partir da liquidação (e, derradeiramente, da sucata) é geralmente uma pequena fração, ou limite inferior, do valor dos ativos de capital, o ‘capital social’ é estimado com referência ao seu uso produtivo, em vez de seu valor intrínseco. Schumpeter foi cuidadoso em decompor isto em dois aspectos muito diferentes.

Primeiramente, e de maneira mais direta, o capital industrial é um recurso que deprecia em uma taxa regular e amplamente previsível, como função da produção. Ele é consumido no processo de produção, como qualquer outro insumo material, mas em uma taxa mais lenta. A destruição criativa, contudo, se refere a um segundo tipo, bem mais drástico, de depreciação de capital, resultante da obsolescência tecnológica. Neste caso, o capital social é ‘destruído’ – repentina e imprevisivelmente – por uma inovação, ocorrendo em outro lugar da economia, que torna seu uso antecipado não lucrativo. Desta maneira, grandes ‘quantidades’ de capital ‘acumulado’ podem ser depreciadas, do dia para a noite, até valores de sucata, e os investimentos que elas representam são aniquilados. A alucinação do capital homogêneo é instantaneamente vaporizada, conforme fortunas diligentemente construídas são reduzidas a nada.

Diversos pontos se sugerem:

1. A violência da destruição criativa é diretamente proporcional à sua fecundidade. Quanto maior, mais profunda e mais abrangente a inovação, mais colossal é a destruição de capital resultante. No extremo, revoluções tecnológicas profundas devastam não apenas máquinas e habilidades específicas, mas infraestruturas, indústrias, categorias ocupacionais e sistemas financeiros por completo.

2. A implicação cultural da destruição criativa em muito excede questões de ‘perigo moral’ e ‘preferência temporal’. As vítimas das ondas de mudança industrial – sejam elas empresas, trabalhadores ou financistas – não são estão sendo punidas pelo mercado por imprudência, negligência ou miopia Elas são arruinadas pelo risco puro, enquanto recíproco da natureza absolutamente não antecipada da invenção tecnológica (ocorrendo em outro lugar). Nem a criação, nem a destruição são remotamente ‘justas’ – ou jamais poderia ser. (Embora a ‘virtude’ darwiniana esteja na adaptabilidade flexível — Hong Kong sempre fica OK.)

3. As destruição massiva de capital expressa uma revolução tecnológica. A análise macroeconômica (que mede agregados homogêneos) sempre perderá os episódios mais significativos da evolução industrial, uma vez que esses não se registram primariamente como crescimento, mas sim o oposto. O inferno é uma estufa.

4. Um ambiente político projetado para preservar agregados macroeconômicos (p. ex. ‘riqueza’ ou ’emprego’) necessariamente se opõe ao processo histórico básico da revolução industrial, porque a destruição da economia existente é estritamente indistinguível da renovação industrial. Para que aquelas coisas velhas valham algo (além de sucata), temos que continuar usando-as, o que significa que não estamos em transição. Para cruzar o golfo, temos que entrar no golfo. (Como a maioria das coisas neste universo: duro, mas verdadeiro.)

5. O avanço histórico real agora é politicamente inaceitável. Ou a política vence (estagnação eterna) ou a história vence (colapso político). Tempos interessantes (ou não).

O mundo não conseguiu aguentar o calor, então ele saiu da cozinha. Tem mingau frio para o jantar, e vai ser mingau frio para o café da manhã. Eventualmente o mingau vai acabar, mas isso pode levar um tempo…

…e eis aqui Ben Bernanke sobre o tópico: “Eu não sou um crente da teoria do Antigo Testamento sobre os ciclos empresariais. Eu acho que se pudermos ajudar as pessoas, precisamos ajudar as pessoas.” (via Mike Krieger no ZH).

Política do mingau frio para sempre. Hum!

Original.

Animação Suspensa

O limbo começa a parecer um lar

De acordo com a Lei de Herbert Stein, o aviso característico de nossa era, “Se algo não pode continuar para sempre, vai parar”. A questão é: Quando?

As preocupações centrais de ambientalistas e economistas radicais do mercado são fáceis de distinguir – quando não são diretamente opostas – e, no entanto, ambos os grupos enfrentam um dilema mental e histórico comum, que poderia até ser considerado a descoberta social excepcional dos tempos recentes: a extraordinária durabilidade do insustentável. Um padrão de comportamento em massa é observado, o qual leva transparentemente a uma crise, embasado em tendências explosivas (exponenciais) que são reconhecidas sem controvérsia, e, contudo, o consenso sobre questões de fato coexiste com discordâncias políticas paralisantes, uma procrastinação aparentemente interminável e irresolução. A crise iminente continua a crescer, próxima, horrivelmente próxima, mas sem estar, de nenhuma maneira que seja persuasivamente mensurável, mais próxima, como algum tipo de irritante purgatório de Godot: “Você deve continuar; não posso continuar; continuarei”.

O Urbano Futuro não sabe fazer uma angústia verde tão bem quanto uma irritação austro-libertária com ranger de dentes, então ele não vai realmente tentar. Basta dizer que ser um verde está prestes a se tornar quase inimaginavelmente enlouquecedor, se já não é. Exatamente enquanto o modelo padrão de ‘efeito estufa’ se insinua, quase universalmente, na estrutura do senso comum, o registro da temperatura mundial está travado em uma linha plana, com a crescente produção de CO2 aparecendo em todo lugar, exceto enquanto aquecimento. Pior ainda, uma onda de recursos energéticos — teimosamente embasada nos satânicos hidrocarbonetos e de uma magnitude verdadeiramente estupefaciente — está se estendendo de maneira inercial, com quase nenhuma pista de obstrução efetiva. Areias betuminosas, fraturamento hidráulico e depósitos de petróleo submarino no pré-sal de águas profundas já estão todos entrando em produção, com clatratos de metano logo a frente. O mundo está queimando, e não pode continuar assim (mas continua).

A insustentabilidade financeira não é menos flagrante ou bizarramente duradoura. Desde o começo do século XX, economias ocidentais outrora liberais (clássicas) viram o gasto do governo subir de menos de 5% para mais de 40% da renda total, com muito da Europa cruzando a linha vermelha de 50% (depois da qual nada remotamente familiar como ‘capitalismo’ existe mais). Os níveis de dívida pública estão traçando curvas exponenciais geometricamente elegantes, a dependência crônica está substituindo a participação social produtiva, e a insolvência soberana generalizada agora é um questão de fato simples e óbvia. A única coisa mais clara do que a inevitabilidade da falência sistêmica é a impossibilidade política de se fazer algo sobre ela, então as coisas continuam, muito embora elas realmente tenham que parar. Magnitudes multi-trilionárias ininteligíveis de calamidade iminente se empilham mais e mais em um futuro próximo que nunca realmente chega.

O estado de limbo congelado da insustentabilidade durável é o novo normal (que durará até que deixe de durar). A expressão da cultura pop é o apocalipse zumbi, um estado trôpego e imortal de decomposição infinitamente prolongada. Quando traduzida para a análise econômica, o resultado é epitomado pelo influente e-book de Tyler Cowen, The Great Stagnation: How America Ate All the Low-Hanging Fruit of Modern History, Got Sick, and Will (Eventually) Feel Better (“A Grande Estagnação: Como a América Comeu Todos os Frutos Mais Baixos da História Moderna, Ficou Doente e (Eventualmente) Ficará Melhor”, sem edição em português). (Sim, o Urbano Futuro está chegando incrivelmente tarde para essa festa, mas em um limbo congelado isso não importa.)

Em poucas palavras, Cowen argumenta que a exaustão das três principais fontes de ‘frutos mais baixos’ levou a tendência secular de crescimento americano a um estado de estagnação que ciclos empresariais de alta frequência obscureceram parcialmente. Com o consumo do excedente de fronteira (terra livre), do excedente educacional (uma população inteligentes mas educacionalmente não atendida) e – de maneira mais importante – do excedente tecnológico da América, de grandes avanços abrindo amplas avenidas de exploração comercial, as taxas de crescimento murcharam a um nível para o qual as pessoas do país não estão preparadas para aceitar como normal.

Coube ao colega de Cowen na GMU, Peter Boettke, fazer claramente o argumento pró-mercado sobre o estagnacionismo que Cowen parece pensar que já tinha persuasivamente articulado. Em um post abertamente solidário, Boettke transforma o argumento um tanto elusivo de Cowen em uma polêmica anti-governo bem mais aguçada – a descoberta de um novo equilíbrio depressivo, no qual a implacável degeneração sócio-política absorve e neutraliza uma tendência decadente de avanço tecno-econômico.

Um excedente econômico acumulado foi criado pela era da inovação, o qual a era da ilusão econômica desperdiçou. Estamos agora chegando ao fim desse excedente acumulado e, assim, todo o peso das ineficiências do governo está começando a ser sentido por toda a economia.

Talvez de maneira surpreendente, o teor geral da resposta da direita libertária foi bastante diferente. Em vez de celebrar a exposição que Cowen fez da ruína estatista que visitou as sociedades ocidentais, a maior parte dos comentários se concentrou na tese estagnacionista em si, atacando-a de uma variedade de ângulos interligados. A revisão de David R. Henderson para o Cato faz argumentos econômicos pungentes contra as alegações de Cowen sobre terra e educação. Russ Roberts (no Cafe Hayek) demonstra como estória funesta de Cowen sobre as estagnantes rendas familiares médias se baseia em dados distorcidos pelas mudanças históricas na estrutura familiar e nos padrões residenciais dos EUA. A linha mais comum de resistência, contudo, instanciada por Don Boudreaux, John Hagel, Steven Horwitz, Bryan Caplan, e Ronald Bailey, entre outros, se reúne em defesa do capitalismo de consumo realmente existente. Bailey, por exemplo, observa:

Em 1970, um televisão a cores de 23 polegada custava US$386 (US$2000 em dólares de 2009). Hoje, uma TV Phillips tela plana LCD de 22 polegadas custa US$190. Em 1978, um toca-fitas de cartucho custava US$169 (US$550). Hoje, um iPod Touch com 8 gigabytes de memória custa US$204. Em 1970, uma máquina de adição da Olympia custava US$80 (US$437 em dólares de 2009). Hoje, uma calculadora de escritório da Canon custa US$6,65. Em 1978, um computador Radio Shack TRS80 com 16k de RAM custava US$399 (US$1300 em dólares de 2009). Hoje, a Costco lhe venderá um netbook ASUS com 1 gigabyte de RAM por US$270. O carro médio custava US$3900 em 1970 (US$21.300 em dólares de hoje). Um veículo de tamanho médio em 2011 custaria algo em torno de US$20.000 e duraria duas vezes mais.

Uma outra maneira muito crua de se olhar para isso é que os americanos são quatro vezes mais ricos em termos de refrigeradores, 10 vezes mais ricos em termos de TVs, 2.5 vezes mais ricos quando se trata de ouvir música em movimento, 3 mil vezes mais ricos em calculadoras, cerca de 400 mil vezes mais ricos quando se trata do preço por kilobyte de memória de computador e duas vezes mais ricos em carros. Cowen descarta esse tipo de progresso como meras “melhorias de qualidade”, mas, neste caso, a qualidade se torna seu próprio tipo de quantidade, quando se trata de padrões vida melhores.

O que parece muito claro da maior parte disso (e já no relato de Cowen) é que nada de mais esteve se movendo adiante nas economias ‘desenvolvidas’ do mundo por quatro décadas, exceto pela revolução da tecnologia da informação e sua dinâmica da Lei de Moore. Abstraia o microprocessador e mesmo a visão mais determinadamente otimista das tendências recentes é esvaziada ao ponto de expiração. Sem computadores, não há nada acontecendo ou, pelo menos, nada de bom.

[…ainda rastejando…]

Original.