Deus, uma Confusão

Um mundo de joelhos, e na sua garganta

“As Três Fés Abraâmicas Louvam O Mesmo Deus?” pergunta Peter Berger, em seu blog no American Interest. Sua Resposta, que parece ser programada pelo menos tanto pelas sensibilidades da política inter-fés quanto pelas exigências da teologia rigorosa, é um “sim (mas)” educadamente nuançado. Se alguém não está convencido sobre a urgente pertinência da diplomacia multicultural para a questão, Berger resolve tais dúvidas rapidamente ao descrever a concepção integrada de ‘fé abraâmica’ como uma resposta ao clima de ‘Choque de Civilizações’ que surgiu na esteira do 11 de setembro, “com a intenção completamente admirável de se opor ao ódio anti-islâmico”.

Na sua essência, seu argumento é tanto realista quanto relativamente incontroverso. Ele é comparável a uma teoria dos conjuntos, ou cladística, informal, inspecionando brevemente similaridades e dissimilaridades de família entre os ramos da ‘árvore’ religiosa abraâmica e concluindo, de maneira razoável o suficiente, que nenhum dos potenciais agrupamentos são absolutamente estritos (cada fé, mesmo definida de maneira estreita, é diferenciada dentro de si por sub-ramos e galhos) e que a coerência do monoteísmo ‘judaico-cristão’ é consideravelmente mais forte do que aquela da ‘fé abraâmica’ em geral. Qualquer que seja a complexidade dessas ramificações, contudo, elas derivam de um tronco prontamente identificável. Berger cita uma palestra do teólogo protestante Miroslav Volf:

Sim, pode-se dizer que cristãos e muçulmanos acreditam no “mesmo Deus”. Há afirmações comuns o suficiente para justificar isso—de maneira mais importante, claro, a crença de que há apenas um único Deus (o que o falecido Richard Niebuhr, coincidentemente outro professor de divindades de Yale, chamou de “monoteísmo radical”)—mas também a crença em um criador pessoal distinto da criação e o legislador de um código moral.

Quando avaliado de um ângulo amplo o suficiente, é claro que o Deus dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos é distintamente especificado, em relação a tradições religiosas alternativas:

Às vezes é uma boa ideia recuar e olhar para a coletividade imputada de longe. Pode ajudar olhar para as três fés ‘abraâmicas’ a partir, digamos, de Benares, uma das cidades mais sagradas do hinduísmo e próxima da qual o Buda pregou seu primeiro sermão. Olhada de tão longínqua localidade, a semelhança de família entre as três versões, de repente, aparece bem claramente. Hindus e budistas às vezes falam da ‘religião do oeste asiático’ em contraste com as suas religiões do ‘sul’ ou ‘do leste asiático’. Então, parece simplesmente inevitável dizer que os judeus, os cristãos e os muçulmanos, quaisquer que sejam suas diferenças, de fato louvam o mesmo Deus.

Por certo, há similaridades entre Benares e Jerusalem também. Há versões hindus do teísmo, com devoções intensas a divindades pessoais (bhakti), mas não há nenhum análogo real do monoteísmo que se originou nos desertos do Oriente Próximo. No Vedanta, possivelmente a forma mais sofisticada de hinduísmo, a realidade última é o brahman, o oceano impessoal de divindade no qual todas as identidades individuais eventualmente se dissolvem. Há elementos teístas no budismo mahayana, com a devoção direcionada a boddhisatvas divinos—indivíduos que alcançaram a Iluminação, mas que, por compaixão, adiam sua entrada na beatitude final a fim de ajudar os outros a chegar lá. Mas essa beatitude também termina naquele oceano impessoal de divindade que pareceu durante muitos séculos ter dominado a imaginação religiosa da Índia, a partir de onde ele migrou para o leste.

Ainda assim, embora a dimensão teológica desta questão esteja muito longe de desinteressante ou inconsequente, ela limita a questão pelo menos tanto quanto a esclarece. Mais do que uma fé, os ‘filhos de Abraão’ compartilham uma estória, e – de maneira ainda mais importante – um sentido da história enquanto estória, e este é o fator que mais firmemente os agrupa, independentemente de qualquer discussão sobre detalhes narrativos. Abraão é o começo de um conto, mesmo que ele possa ser projetado (pelo menos um pouco) para antes dele. Ele define o significado da história, como uma interação com Deus, através da qual a passagem do tempo coletivo adquire estrutura, direção, unidade, finitude radical e significância moral e religiosa. A história abraâmica tem um propósito e uma destinação. Sobretudo, ela conta a estória de uma comunidade moral, cuja retidão e irreditão serão derradeiramente julgadas. A escatologia é sua verdadeira chave.

Uma vez que a tradição abraâmica está enraizada em uma experiência distintiva da história, ela se estende para além da fé teísta. De fato, qualquer compreensão desta tradição que exclua o marxismo, o milenarianismo fascista e o progressismo secular ‘liberal’ (mesmo aquele dos ‘novos ateus’) está lamentavelmente incompleta, ao ponto de propaganda diversória. De maneira ímpar, as fés abraâmicas não meramente surgem, caem e persistem. Elas são suplantadas por novas revelações ou afligidas por heresias e cismas. Seus encontros e (inevitáveis) conflitos se tornam episódios internalizados que imediatamente exigem inteligibilidade doutrinária e narrativa. Daí a afinidade entre as fés abraâmicas e a dialética histórica (em ‘oposição’ à pedagógica, cósmica ou naturalista): o ‘outro’, meramente por aparecer no palco, deve desempenhar seu papel no drama histórico-mundial da crença.

O monoteísmo estrito é a personificação da unidade narrativa e, no final das contas, é a unidade narrativa que importa. Quer a história seja finalmente avaliada da perspectiva do povo de Israel, da Igreja, da Umma, do comunismo alcançado, de uma raça ariana superior ou do globalismo secular multicultural, ela terá sido integrada através da produção de uma comunidade moral e julgada como um todo coerente pelo padrão de pureza e retidão dessa comunidade. Ela terá sido compreendida por um sujeito coletivo cuja estória – ele insiste – é todo o significado do mundo.

Para os paganismos menores da antiguidade, e para os paganismos maiores do oriente, essa estrutura de entendimento tem o potencial objetivo de ser ofensiva a um grau quase inestimável, então o fato de que os pagãos raramente a contestaram com uma animosidade que sequer remotamente se aproxima de seus conflitos e disputas ‘internas’ é intrigante. Embora casos de anti-semitismo, anti-clericalismo, islamofobia, anti-comunismo, anti-fascismo e incorreção política sistemática tenham, ocasionalmente, sido plausivelmente derivadas de inspirações pagãs, na maioria esmagadora dos casos são os vários ramos ‘fraternos’ da grande família abraâmica que causaram devastação uns aos outros. De fato, a perseguição, como um modo particular de violência ‘zelosa’ ou ‘entusiasta’, parece ser uma especialidade abraâmica, uma que depende de concepções de idolatria, heresia, apostasia, falsa consciência ou incorreção política ‘intoleráveis’ que não são encontradas em nenhum outro lugar.

Deus disse para Abraão matar seu próprio filho, e ele estava pronto para o fazer (Gen 22:1-19). É assim que ganhou seu status como ur-patriarca da tradição, cujos filhos são definidos pelo fantasma de uma faca em suas gargantas. Uma vontade demonstrada de matar em nome do Senhor ou de seu equivalente abstrato (o significado da história) é o ideal iniciatório e o começo da estória mundial que agora abrange todos. Depois desse ritual original, a vida de Isaac não era mais natural, mas ideológica. Ela foi suspensa, vulneravelmente, a partir de uma palavra que não devia nada ao vínculo protetivo que liga um animal a sua progenitura (simbolicamente exterminado pela rendição de Abraão ao comando divino), mas colocada nas alturas, na estrutura narrativa do mundo. Se Deus o tivesse querido – ou se a estória o tivesse exigido – ele teria sido assassinado. Desta maneira, um linha antinatural, que existe apenas como uma expressão do propósito divino, quebra com a arcaica ordem pagã de procriação e criação ‘sem significado’. (O local especificado para o sacrifício, o Monte Moriá, mais tarde seria o local de Jerusalém, a cidade do fim do tempo e para além da natureza.) Isaac foi poupado, mas o mundo pagão não recebeu uma moratória similar.

A existência de uma tradição abraâmica tem uma importância que excede em muito sua política interna e suas rivalidades intestinas, uma vez que ela é indistinguível da unificação histórica do mundo e nenhum ‘outro’ é capaz de permanecer fora de sua ordem narrativa. Em muito do mundo, mesmo em suas áreas abraâmicas centrais, recusar Deus não é nada demais, e talvez seja pouco mais do que uma afetação levemente cômica, mas se afastar da História Mundial é uma questão bastante diferente. É aí que a faca de Abraão brilha novamente.

Original.

Animação Suspensa (Parte 5)

Motores da Devastação

O pós-modernismo ainda parece legal para alguém? — Provavelmente não. Tendo vendido qualquer simulacro de alma que poderia ter tido para os instáveis deuses da moda, ele aprendeu mais sobre o reino de Cronos do que poderia ter esperado – as crianças são devoradas e se vai adiante para algo novo. O que foi aceito sem nenhuma boa razão é descartado sem nenhuma boa razão. Na ciência política, se chama democracia (mas isso é uma outra discussão).

Claramente, há algo profundamente justo sobre o desaparecimento do pós-modernismo na lata de lixo da diferença aleatória (o que está ‘in‘ tem que ser novo, de preferência sem significado). É até mesmo ‘poeticamente justo’, o que quer que isso signifique. Mas isso também destrói informação. Embora o pós-modernismo tenha certamente sido um modismo, ela também foi um zeitgeist, ou espírito dos tempos. Ele significou algo, apesar de seus melhores esforços, pelo menos enquanto sintoma. O desaparecimento da realidade que ele anunciava era, ele mesmo, real, assim como o era o domínio da simulação que a substituiu. Pelo menos em sua morte, ele pode ter importado em algo.

Considere seu maior mistagogo, Jacques Derrida, e seu outrora amplamente celebrado ‘conceito’ de differance (sim, em francês), um termo dentro de uma série de palavras mágicas que marcam as indecidíveis, incompreensíveis, inapresentáveis e, em última análise, inconcebíveis não-coisas ontológicas que suplantam os eventos reais, através de uma sucessão infinita de deslocamentos e adiamentos. Não podemos realmente dizer nada sobre isso, então temos que falar sobre ele interminavelmente, e departamentos universitários inteiros são necessários para se fazer isso. É ridículo (e então acabou). Mas é também, bastante exatamente, a cultura globalmente hegemônica do estagnacionismo macroeconômico programático keynesianizado, e isto ainda não acabou, embora sua morbidez já seja altamente conspícua. Ao contrário do pós-modernismo acadêmico passageiro, sua morte vai ser realmente interessante.

Muito antes que os derridóides tivessem começado, Keynes havia ensinado aos governos que a differance era algo que eles poderiam fazer. A procrastinação – a suspensão estratégica da realidade econômica através de uma série popularmente incompreensível de deslocamentos e adiamentos – rapidamente veio a definir a arte da política. Por que sofrer hoje o que pode ser adiado até amanhã, ou sofrer você mesmo algo que poderia ser o problema de outra pessoa? Adie! Desloque! No longo prazo estamos todos mortos. A realidade é para perdedores.

A differance como ela realmente funciona é muito mais crua do que sua reflexão na filosofia pós-moderna (e o que poderia ser filosoficamente mais cru do que um apelo à noção de ‘reflexão’?). Por exemplo, ela é pescada do abgrund ontológico e processada por mecanismos específicos de políticas públicas, sustentada por instituições concretas de maneiras que são, em uma medida considerável, economicamente mensuráveis, com limites geográficos e históricos elásticos, mas muito certamente finitos. Mais cru de tudo e derradeiramente decisivo é a circunscrição da desrealização pelo real e o retorno do apocalíptico, não mais enquanto avatar fantasmagórico da ‘metafísica da presença’ (ou falsa promessa de um evento real), mas enquanto evento real iminente, e um cujo processo de construção histórica é, em grande medida, inteligível. A differance real não ‘desconstruiu’ o apocalipse, ela o construiu. Não é nem mesmo tão difícil ver como.

No EconLog, David Henderson postou suas notas sobre a palestra de John H. Cochrane na conferência sobre ‘Restaurar o Crescimento Econômico Robusto na América’ da Hoover Institution da Universidade de Standford, em 3 de dezembro. Não há nenhuma menção à differance, mas não precisa haver.

Por quase 100 anos, tentamos parar as corridas aos bancos com garantias governamentais — depósito de segurança, um generoso emprestador de último recurso e resgates. Esse caminho leva a um enorme perigo moral. Dar a um banqueiro uma garantia de resgate é como dar a um adolescente as chaves do carro e uma garrafa de uísque. Então, apontamos reguladores que deveriam impedir os bancos de assumirem riscos, em uma corrida armamentística desesperada contra MBAs, advogados e lobistas espertos que tentam contornar a regulamentação e embora permitamos — não, encorajemos e subsidiemos — a expansão de ativos passíveis de corridas aos bancos.

No Dodd-Frank, os EUA simplesmente duplicou nossas apostas nesse regime. ….

Os resgates adiam um evento econômico doloroso (adiamento) ao passo que transferem a responsabilidade financeira (deslocamento). O risco é restaurado à virtualidade, enquanto o desastre é transformado de volta em uma ameaça, mas não é a mesma ameaça. Por qualquer método remotamente são de contabilidade, agora está pior. Uma deterioração virtual significante substitui um desconforto real. Esse é o custo da desrealização.

Como as coisas ficam piores, exatamente? — De muitas maneiras. Comece com o ‘perigo moral’, que é uma maneira educada de dizer ‘insanidade’. Ações são dissociadas de suas consequências, removendo o desincentivo à loucura. O resultado, de maneira absolutamente previsível, é mais loucura. Na verdade, qualquer coisa que sistematicamente aumente o perigo moral simplesmente está fabricando loucura. É jogar LSD no reservatório de água, embora provavelmente pior. Então os resgates nos deixam insanos e destroem a civilização (ninguém realmente contesta isso, embora possam tentar evitar o tópico).

Ah, mas tem mais! — Muito mais, porque todos esses deslocamentos não apenas movimentam as coisas de lugar, eles as movem para cima. O risco é centralizado, concentrado, sistematizado, politicado – e isso no (inteiramente irrealista) melhor caso, quando ele não é também expandido e degradado pela corrupção e pela ineficiência de instituições públicas com incentivos fracos ou cínicos. Essa é a economia da cascata – na verdade, uma enchente – para cima, na qual tudo de ruim que jamais acontece com qualquer um é despojado de qualquer sanidade residual (ou estimativa realista de consequências), agrupado, recodificado, complicado por regulamentações compensatórias e deslocado para altitudes cada vez mais etéreas de irresponsabilidade democrática populista, onde a única coisa que importa é o que as pessoas querem ouvir e que realmente jamais vai ser verdade.

“Faça bastante besteira e você provavelmente sofre ou morre” – essa é a verdade. É uma mensagem que não se traduz na linguagem da política keynesiana de empurrar com a barriga, que é o pós-modernismo popular. O mais próximo que chegamos, conforme as mandíbulas começam a se fechar sobre a a corrente do chapéu de resgate, é “Vamos precisar de um barco maior”. Depois de inúmeros episódios disso, estamos todos amontados no Titanic, e as coisas estão mais ou menos parecendo OK. Pelo menos a banda ainda está tocando…

Quando abstraído de sua esquálida psicose, o padrão é matematicamente bastante preciso. É chamado de sistema de gamarra, melhor conhecido dos americanos como ‘o dobro ou nada’ (e para os britânicos como ‘o dobro ou sai’). Cochrane já tocou nele (“os EUA simplesmente duplicou nossas apostas”). Aposte no vermelho, e vem preto. Sem problema, simplesmente duplique a aposta e repita. Você não pode perder. (Se você gosta desta lógica, Paul Krugman tem uma recuperação econômica para lhe vender.)

O que aparece como desastre adiado é, na realidade virtual, um desastre expandido. A entrada da Wikipédia sobre o sistema de gamarra prestativamente o conecta à Distribuição de Taleb, também conhecida como catar moedas na frente de um rolo compressor. A persistência de pequenos ganhos faz esse modelo de negócio parecer uma coisa certa — até que não.

Nassim Nicholas Taleb e Mark Blyth expandem sobre essa ideia no Foreign Affairs, com aplicação a vários aspectos da atual (ou iminente) crise. Perguntando por quê “a surpresa [é] a condição permanente da elite política e econômica dos E.U.A.”, eles traçam o problema à “supressão artificial da volatilidade — os altos e baixos da vida — em nome da estabilidade”.

Sistema complexos que suprimiram artificialmente a volatilidade tendem a se tornar extremamente frágeis, ao mesmo tempo em que não exibem nenhum risco visível. Na verdade, eles tendem a ser calmos demais e a exibirem uma variabilidade mínima, enquanto os riscos se acumulam sob a superfície. Embora a intenção declarada dos líderes políticos e dos formuladores de políticas econômicas seja estabilizar o sistema, inibindo flutuações, o resultado tende a ser o oposto. Esses sistemas artificialmente restritos se tornam propensos a “Cisnes Negros” – isto é, eles se tornam extremamente vulneráveis a eventos de larga escala que estão longe da norma estatística e que são, em grande parte, imprevisíveis para um dado conjunto de observadores.

Discutindo este artigo no PJMedia, Richard Fernandez comenta e afia sua conclusão:

Parte do problema é a consequência do próprio amortecimento [das elites]. Ao tentar administrar centralmente os sistemas de acordo com algum esquema pré-determinado, elas na verdade armazenam volatilidade em vez de dispersá-la. Ao empurrar com a barriga, elas eventualmente se condenam a dar de cara com uma pilha enorme de coisas quando a barriga acaba. …Mas as elites não podem admitir surpresas; tampouco elas podem admitir que coisas ruins comecem sob sua guarda. Portanto, elas continuam varrendo coisas para debaixo do tapete até que, como em alguns filmes de horror, elas geram um zumbi. Para tornar os sistemas robustos, diz Taleb, você tem que admitir que você pode cometer erros e pagar o preço. Você vai ter que pagar no fim das contas de qualquer jeito.

Não estamos no pós-modernismo mais, Totó. Estamos mais próximos disso:

O movimento ondulatório que afeta o sistema econômico, a recorrência de períodos de explosão que são seguidos por períodos de depressão, é o resultado inevitável das tentativas, repetidas de novo e de novo, de se abaixar a taxa bruta de juros do mercado por meio de expansão de crédito. Não há meio de se evitar o colapso final de uma explosão provocada por uma expensão de crédito. A alternativa é apenas se a crise deveria vir mais cedo, como resultado de um abandono voluntário de mais expansão de crédito, ou mais tarde, como uma catástrofe final e total do sistema monetário envolvido. (Ludwig von Mises, Human Action)

Ou mesmo disso:

Grande é a Falência; o grande insondável golfo no qual todas as Falsidades, públicas e privadas, de fato afundam, desaparecendo; à qual, desde a primeira origem delas, elas estavam todas fadadas. Pois a Natureza é verdadeira e não uma mentira. Nenhuma mentira você pode falar ou agir que não virá, depois uma circulação maior ou menor, como uma Fatura extraída da Realidade da Natureza, e que não será lá apresentada para pagamento, –com a resposta, Sem efeitos. Pena apenas que frequentemente tenha uma circulação tão longa: que o forjador original fosse tão raramente aquele que suportasse a dor final dela! Mentiras, e o fardo do mal que elas trazem, são passadas adiante; transferidas de costas a costas e de classe para classe; e, assim, aterrizam, finalmente, na mais burra baixa classe, que com pá e enxada, com coração ferido e carteira vazia, diariamente entram em contato com a realidade e não podem mais passar o engodo adiante.

Observe, não obstante, como, por uma justa lei compensadora, se a mentira com seu fardo (nesse confuso redemoinho da Sociedade) afunda e é transmitida cada vez mais para baixo, então, em troca, a angústia dela se eleva cada vez mais. Através da qual, depois do longo anseio e semi-inanição daqueles Vinte Milhões, um Duque de Coigny e sua Majestade viessem também a ter sua ‘desavença real’. Tal é a lei da justa Natureza; trazendo, embora em longos intervalos, e fosse apenas pela Falência, as questões de volta novamente à marca.

Mas com uma Bolsa de Fortunato em seu bolso, através de qual período de tempo quase toda Falsidade não poderia durar! Sua Sociedade, seu Lar, Arranjo prático ou espiritual, é inverdadeiro, injusto, ofensivo ao olho de Deus e do homem. Não obstante, sua lareira está cálida, sua despensa bem reabastecida: os inúmeros Suíços do Céu, com um tipo de lealdade Natural, se reúnem ao seu redor; provarão, por panfletagem, mosquetaria, que é uma verdade; ou, se não uma Verdade sem mistura (sobrenatural, impossível), então melhor, uma saudavelmente temperada (como o vento é para o cordeiro tosquiado), e funciona bem. Perspectiva alterada, contudo, quando bolsa e despensa ficam vazias! Se seu Arranjo era tão verdadeiro, tão de acordo com as maneiras da Natureza, então como, em nome do milagre, a Natureza, com sua recompensa infinita, veio a deixá-lo faminto aqui? Para todos os homens, para todas as mulheres e todas as crianças, agora é indubitável que o seu Arranjo era falso. Honra à Falência; sempre direita na grande escala, embora no detalhe seja tão cruel! Sob todas as Falsidades ela trabalha, incansavelmente minerando. Nenhuma Falsidade, mesmo que ela se elevasse ao céu e cobrisse o mundo, ainda assim a Falência, um dia, a varrerá para baixo e nos livrará dela. (Thomas Carlyle, via Mencius Moldbug, mas citado em todo lugar recentemente)

Lá vem ela.

Original.