Fogueira das Vaidades

De boas intenções, o inferno está cheio

Como um mantra ideológico, ‘Nunca Mais’ está associado primariamente à política sobre genocídios dos anos 1940 e, nesse contexto, sua eficácia tem sido questionável, na melhor das hipóteses. Como um imperativo dominante, ele tem sido muito mais importante dentro da esfera econômica, como uma resposta à Grande Depressão dos anos 1930. Embora o assassinato em massa etnicamente seletivo seja amplamente desaprovado, suas atrações têm sido difíceis de suprimir. A depressão deflacionária, por outro lado, simplesmente não tem permissão para acontecer. Este tem sido o axioma supremo da moralidade prática por quase um século, moldando nossa era de maneira única e distinta. Podemos chamá-lo de Diretriz Primária.

Para o mundo ocidental, os anos 1930 foram uma experiência de quase morte, um encontro íntimo com o abismo, lembrado com intensidade religiosa. Já que a ameaça era ‘existencial’ – ou insuperável – o remédio foi investido com a paixão absoluta de uma fé. A Diretriz Primária foi adotada como uma lei básica e final, à qual todas as instituições e interesses sociais estavam subordinados, sem reservas. Questionar ou resistir a ela era convidar um desastre abrangente, e apenas um herege radicalmente desinformado ou criminosamente imprudente – um ‘doente’ – faria isso. Qualquer coisa é melhor que a depressão deflacionária. Isso é a New Deal Law.

A consolidação do planejamento financeiro central, baseada em bancos centrais e moedas fiduciárias, fornecia ao sacerdócio da Diretriz Primária tudo o que era necessário para assegurar a obediência coletiva: nenhuma depressão deflacionária sem deflação, e nenhuma deflação com uma impressora bem azeitada. A inflação “anticíclica” sempre foi uma opção, e a hegemonia da experiência histórico-econômica anglófona no florescente século americano marginalizou a memória dos traumas inflacionários para remansos globais de influência limitada. Ao lado da grandeza moral da Diretriz Primária, a integridade monetária não contava de nada (apenas um doente, ou um alemão, poderia argumentar de outra forma).

A Diretriz Primária define um regime que é historicamente concreto e sistemicamente generalizável. Como Ashwin Parameswaran explica em seu blog Macroeconomic Resilience, esse tipo de regime é expresso com igual clareza em projetos para gerenciar uma variedade de outros sistemas complexos (não econômicos), incluindo rios e florestas. A silvicultura moderna, dominada por um imperativo à supressão de incêndios, fornece um exemplo especialmente esclarecedor. Ele observa:

O ímpeto tanto para a supressão de incêndios e quanto para a estabilização macroeconômica veio de uma crise. Na economia, essa crise foi a Grande Depressão, que destacou a necessidade de estabilizar a política fiscal e monetária durante uma crise. De todas as iniciativas, a mais crucial do ponto de vista sistêmico foi a expansão das operações de um credor de último recurso e de resgates bancários que tentaram eliminar todos os distúrbios em sua origem. Nas palavras de [Hyram] Minsky: “A necessidade de operações de credor de último recurso ocorrerá freqüentemente antes que a renda caia abruptamente e antes que a renda semi-automática e os efeitos estabilizadores financeiros do Grande Governo entrem em ação.” (Stabilizing an Unstable Economy pg 46)

De maneira similar, a batalha pela completa supressão de incêndios foi conquistada após os Grandes Incêndios de Idaho em 1910. “Os Grandes Incêndios de Idaho de agosto de 1910 foram um evento decisivo para a política e a gestão de incêndios, de fato para a política e gestão de todos os recursos naturais nos Estados Unidos. Muitas vezes chamado de Big Blowup, o complexo de incêndios consumiu 3 milhões de acres de madeiras valiosas no norte de Idaho e no oeste de Montana… O grito de batalha dos silvicultores e filósofos naquele ano foi simples e convincente: incêndios são maus e devem ser banidos da Terra. O Weeks Act federal, que estava paralisado no Congresso há anos, foi aprovada em fevereiro de 1911. Essa lei ampliou drasticamente o Serviço Florestal e estabeleceu programas federais-estaduais cooperativos de controle de incêndios. Isso marcou o início dos esforços federais de combate a incêndios e efetivamente pôs fim às práticas de queimas leves em quase todo o país. A pronta supressão de incêndios florestais por agências governamentais tornou-se um paradigma nacional e uma política nacional” (Sara Jensen e Guy McPherson). Em 1935, o Serviço Florestal implementou a política ’10 AM’, uma meta para extinguir todos os novos incêndios às 10h00 do dia seguinte ao da denúncia.

Em ambos os casos, o trauma de um desastre catastrófico desencadeou uma nova política que tentaria eliminar todas as perturbações na fonte, por menor que fossem.

No Zerohedge, The World Complex elabora sobre a história da supressão de incêndios nos Estados Unidos:

As florestas do sudoeste dos Estados Unidos eram submetidas a uma longa estação seca, bem diferente das florestas do nordeste. As florestas nordestinas eram úmidas o suficiente para que a decomposição de material morto reabastecesse os solos; mas no sudoeste, o clima era muito seco no verão e muito frio no inverno para que a decomposição fosse eficaz. O fogo era necessário para garantir florestas saudáveis. Além de reabastecer os solos, era necessário fogo para reduzir os resíduos inflamáveis, e o calor ou a fumaça eram necessários para germinar as sementes.

No final do século XIX, as queimas leves – fazer incêndios de pequena superfície episodicamente para limpar a vegetação rasteira e manter as florestas abertas – era uma prática comum no oeste dos Estados Unidos. Contanto que os incêndios permanecessem pequenos, eles tendiam a queimar a vegetação rasteira, deixando o crescimento mais antigo das florestas ileso. Os colonos que seguiam essa prática reconheciam sua herança nativa; assim como seus oponentes a chamavam de ‘florestamento de paiutes’ como uma expressão de desprezo (Pyne, 1982).

Os defensores das queimadas o faziam por razões filosóficas e práticas – fazer queimadas sendo a “maneira indígena”, assim como a expansão de pastagens e a redução de combustíveis para incêndios florestais. Os detratores argumentavam que os pequenos incêndios destruíam as árvores jovens, os solos esgotados, tornavam a floresta mais suscetível a insetos e doenças e eram economicamente prejudiciais. Mas o argumento crítico apresentado pelos oponentes das queimadas era que ela era hostil ao Espírito Progressivo da Conservação. Como um povo moderno, os americanos deveriam usar as abordagens científicas superiores de manejo florestal que estavam agora disponíveis para eles e que não tinham estado disponíveis para os nativos. Pior do que estar errado, aceitar os métodos de manejo florestal nativos seria primitivo.

Soletrar as conseqüências eventuais da reforma ‘progressista’ das práticas de manejo florestal provavelmente não é necessário, pois – em notável contraste com seu análogo econômico – suas lições foram completamente absorvidas, ampla e freqüentemente referenciadas. Ambientalistas ecologicamente sofisticados, em particular, se apegaram a ela como um modelo dissuasivo de intervenção arrogante e suas conseqüências perversas. Todo mundo sabe que a tentativa de eliminar os incêndios florestais, ao invés de extinguir o risco, apenas o deslocava, e até mesmo o acentuava, já que a acumulação de material inflamável transformava um regime pontuado por incêndios relativamente frequentes de escala moderada em um episodicamente devastado por enormes conflagrações que consumiam tudo.

Parameswaran explica que a ausência de incêndios leva ao acúmulo de combustível, à deriva ecológica em direção a espécies menos resistentes ao fogo, à redução na diversidade e ao aumento da conectividade. A floresta ‘protegida’ ou ‘estabilizada’ muda de natureza, de um sistema limpo, robusto, misto e retalhado para a uma massa cheia de combustível, frágil, cada vez mais mono-cultural e fortemente interconectada, equivalendo quase a um dispositivo explosivo. A estabilidade degrada a resiliência e prevenir a catástrofe-por-vir torna-se cada vez mais caro e incerto, mesmo na medida em que a importância da prevenção aumenta. No penúltimo estágio desse processo, o gerenciamento de crises criou um apocalipse iminente: um evento desastroso que simplesmente não pode ter permissão de acontecer (embora certamente vá acontecer).

Parameswaran chama essa seqüência apocalíptica de desenvolvimento de A Patologia da Estabilização em Sistemas Complexos Adaptativos. É ao que a Diretriz Primária inevitavelmente leva. Infelizmente, o diagnóstico não contém sinais de remédio. Cada passo na estrada torna a fuga mais improvável, à medida em que a escala de calamidade potencial aumenta. Poucos encontrarão muito conforto na percepção de que esse caminho era insano.

“Caixas-pretas” (ou gravadores de voo) recuperados de desastres aéreos são informativos a esse respeito. Com surpreendente regularidade, as últimas palavras do piloto, anunciadas a ninguém em particular, eloquentemente expressam um reconhecimento da realidade pouco atraente mas inconfundível: “Ah %$#&@!”. Menos comum – de fato, inédito – é qualquer abordagem honesta para com os passageiros: “Senhoras e senhores, este é o seu capitão falando. Estamos todos prestes a morrer”. Qual seria o ponto?

Tudo que pode ser realisticamente esperado de nossas elites políticas e financeiras dominantes pode ser previsto por uma analogia rigorosa. Este voo não termina em nenhum lugar bom, mas seria tolice aguardar um anúncio.

Desonerado de uma posição oficial na Catedral da Diretriz Primária, “Mickeyman” no World Complex está livre para resumir as coisas com honestidade brutal:

Temos vivenciado um longo período de gestão financeira, em que instituições financeiras falidas foram apoiadas por intervenções de emergência (aplicadas de maneira um tanto seletiva). Falências não foram permitidas. O resultado foi um tremendo acúmulo de papel pronto para queimar. Se os incêndios de inadimplência tivessem tido permissão para queimar livremente no passado, poderíamos ter instituições financeiras mais saudáveis. Em vez disso, encontramos nossos bancos carregados com todos os tipos de produtos de papel inflamáveis; seus porões estavam cheios de barris de pólvora negra. Trilhas de pó preto correm de um banco para outro, e está chovendo fósforos.

Original.

Sinais de Progresso

Como o mundo moderno perdeu seus sentidos

Quanto mais sofisticados os animais se tornam, pior eles ficam em se conectar com a realidade. Conforme eles se cefalizam e socializam, estórias substituem os reflexos, e o valor de sobrevivência de uma estória não deve quase nada à sua factualidade. Acreditar no que todo mundo acredita, ou no que faz você se sentir bem, conta muito mais. Aonde quer que a discussão conduza, é apenas muito rara e acidentalmente na direção da realidade.

A ciência começa com a percepção de que estórias não são confiáveis, mesmo – ou especialmente – se soarem confiáveis, se conformarem intuições anteriores e prontamente obtiverem aprovação social. Como a satisfação narrativa é a grande enganadora, a ciência vai além da linguagem até os vastos e frígidos tratos dos signos matemáticos, despojada de todo significado moral e emocional. Endurecendo-se contra a tentação de ver rostos nas nuvens, ou de ouvir vozes dos céus, ela mergulha decididamente na bancada de testes de números e sinais quantitativos, onde palavras sedutoras são levadas para morrer.

A economia nunca foi uma ciência, mas o comportamento econômico, e até mesmo a teoria, foi capaz de se valer de um pouco de alavancagem contra a narração de estórias. Seu grande recurso nesse sentido tem sido o sistema de preços, expresso em quantidades “sem significado” (sem significância narrativa imediata) que permitem que o cálculo econômico sustente uma postura de indiferença ideológica. Um contador que conta uma estória é um mau contador e, muito provavelmente, um criminoso, ao passo em que um empreendedor fixado em uma estória de como as coisas ‘devem estar’ está sujeito à nêmesis mercantil-darwinista. Isso, pelo menos, é a maneira aproximada como o capitalismo laissez-faire com um dinheiro sólido outrora trabalhou, como atestado, por exemplo, pela indignação de Charles Dickens, que insistia no direito de contar estórias morais, políticas e religiosas em meio a um processo que sistematicamente desdenhava dele.

As coisas progrediram incalculavelmente desde então, numa direção que poderia ser confiantemente descrita como ‘dickensiana’ se esse adjetivo ainda não tivesse sido estabelecido em seu propósito polêmico altamente eficaz. Que a ‘Big Story’ (BS) triunfaria sobre o realismo calculista de scroogeano era talvez inteiramente previsível, mas a abrangência quase metafísica de sua vitória – e de sua vingança – era menos fácil de antecipar. Ao tentar avaliar esse progresso, o dinheiro é o melhor indicador, ou melhor, a destruição do dinheiro como indicador é o sinal mais revelador.

Sob as condições do capitalismo industrial com um dinheiro sólido, o progresso segue duas pistas, rigorosamente contabilizadas. Mais notoriamente, ele é medido como um processo de acumulação ou agregamento de fortunas por meio da atividade comercial lucrativa. A inteligência econômica é socialmente dispersa junto com a infinidade de fortunas, com cada unidade de capital acompanhada de sua própria função contábil, pesando as receitas contra os gastos e estimando a viabilidade da operação contínua. Essa inteligência não se presta à agregação pública conveniente ou confiável.

Acompanhando a multiplicidade de progressões (e regressões) privadas, há um segundo caminho que mede o avanço social em termos estritamente quantitativos, sem significado e inequívocos. Nessa trilha, melhorias técnicas e organizacionais na atividade comercial transbordam as contas particulares e assumem a forma de ‘externalidades’ públicas. Em qualquer sistema monetário competente para registrar a realidade, tais avanços sociais gerais são expressos como queda de preços, redução de custos ou deflação. (Um post de Zero Hedge tipicamente perspicaz sobre o tópico pode ser encontrado aqui.)

A importância desse ponto é difícil de enfatizar demais, especialmente porque contradiz diretamente nosso senso comum neo-dickensiano cuidadosamente fabricado: Deflação! Isso não é tipo um fascismo ou algo assim?

A deflação pode certamente representar um tipo de infortúnio socioeconômico, sob condições específicas. Durante os períodos do ciclo de declínio de negócios, por exemplo, ele pode refletir reduções e queimas de ativos ou de estoques, impulsionadas por crises de crédito e as agravando. A seriedade e tipicidade de tais casos é fortemente afirmada na estória (neo-dickensiana) dominante da Grande Depressão. Vale notar, contudo, que mesmo nessas circunstâncias – na pior das hipóteses – o efeito de primeira ordem da deflação é gerar um aumento espontâneo da riqueza ou poder aquisitivo. Quando a vida está mais difícil, fica mais barato viver.

No mundo do dinheiro sólido, uma deflação leve crônica simplesmente é progresso social. Os dois conceitos são efetivamente indistinguíveis. Uma deflação suave é a boca-livre invisível, dando a todos um pouco mais de quase tudo, ano a ano, distribuindo espontaneamente uma fração do ‘excedente social’, ou dividendo público sobre a produtividade crescente. Mesmo no mundo radicalmente progredido de dinheiro arruinado de hoje, a produção da indústria de eletrônicos de consumo ainda consegue exibir as tendências deflacionárias que foram obliteradas em outros lugares (então, da próxima vez que comprar uma engenhoca, não se esqueça de se sentir adequadamente oprimido).

O que diabos céus aconteceu? Como os sentidos metalo-monetários da modernidade foram desligados, arrebatando Scrooge em uma canção natalina e eclipsando a realidade industrial? Um óbvio cara neo-dickensiano para isso é William Jennings Bryan (1860-1925), um político cuja guerra multi-dimensional contra a realidade – verdadeiramente surpreendente em sua consistência – representa o entusiasmo pela Big Story (ou ‘evangelho social’) na sua forma mais intransigente. O anti-darwinismo de Bryan (o julgamento de Scopes) ou seu ardente proibicionismo (fazendo campanha pela 18ª emenda) teriam bastado para lhe render um lugar no registro histórico como um herói do Estado BS (‘evangélico’ ou ‘progressista’), mas seu legado mais duradouro repousa sobre o discurso que ele proferiu em 9 de julho de 1896, à Convenção Nacional Democrata em Chicago, na qual ele declarou – como se ao próprio Scrooge – que “Você não pressionará contra a testa do trabalho esta coroa de espinhos; você não crucificará a humanidade sobre uma cruz de ouro”.

Esta é uma declaração que é sublimada à universalidade progressista através da eliminação do contexto. Inserido nos debates do final do século XIX sobre o bimetalismo (fixação de preços das taxas de câmbio entre ouro e prata), suas implicações atuais são significativamente diluídas, ou pelo menos complicadas, por questões sobre a responsabilidade financeira das autoridades centrais, a guerra entre credores e devedores, integração econômica, tensões agrário-urbanas e política regional (leste-oeste) nos EUA. Ainda assim, fundamentalmente, pode-se reconhecê-la como “dickensiana”: a denúncia apaixonada de um critério neutro para a realidade econômica, precisamente por sua neutralidade ou indiferença à Big Story da narrativa histórico-moral. O ouro é frio. Mede sem julgamento. Entre condenação e salvação, ele não demonstra preferência ou inclinação.

De maneira concreta, o ouro registrava, em termos econômicos, a agitação social da urbanização industrial americana. A mecanização da agricultura implicava na queda dos preços dos alimentos, na ruína dos pequenos agricultores e no despovoamento rural, durante um processo contínuo de desordem maciça, cujas misérias só foram superadas pela revitalização socioeconômica em seu rastro. Em sua distribuição e em sua função contábil, o ouro facilitou a desvalorização do trabalho rural, a falência de empresas mal alocadas e o fortalecimento do capital industrial concentrado nos centros urbanos em ascensão do país. Bryan articulou os pontos de vista daqueles que estavam no limite mais agudo dessa mudança, que acharam o mensageiro culpado pela mensagem, os sentidos culpados pela cena: “Se teu olho te ofender, arranca-o” (Mateus 18:9). (Mesmo que Bryan tenha perdido todas as três candidaturas para as eleições presidenciais, estamos todos totalmente empenhados.)

Fazer do dinheiro um veículo de propósito moral, ao invés de um registro neutro de fato, é fazer a travessia do liberalismo e do progresso como eles eram compreendidos (industrialismo dinâmico), para o liberalismo progressista de hoje (evangelismo político). Se o dinheiro pode nos salvar (através da ‘gestão da demanda’), como insistem os keynesianos, então sua politização é um imperativo moral, cuja negligência é um pecado de omissão. Os sentidos são transformados em contadores de estórias. Feche as janelas e ouça a canção natalina. É o progresso (honestamente).

Original.

Saudações de Ano Novo

Há muita ruína em um hospício global

2012 é um ano que chegou pré-marcado. Foi a última oportunidade de terminar o mundo no prazo. Até o final de dezembro, a janela para a profundidade apocalíptica tinha se fechado, e estávamos de volta aos riscos da catástrofe aleatória e sem sentido.

Talvez um consenso profético tivesse surgido no outono, mas na época a perspectiva estava nublada, na melhor das hipóteses. Navegar pelos sites mais excitáveis ​​da Web em 2012 não trazia nada de muito claro ao foco. Uma vez que a discussão avança além do sólido fundamento da longa contagem maia e da Quarta Era da Criação (que durou de 11 de agosto de 3114 A.C. até 21 de dezembro de 2012), as coisas se transformavam em caos com uma rapidez desconcertante.

Se a Terra está destinada a mergulhar em um buraco negro é uma questão de controvérsia (pelo menos limitada), mas o fato de que quase todas as espécies imagináveis ​​de possíveis calamidades ou transformações estavam sendo sugadas para o vórtice profético de 2012 era facilmente confirmado por qualquer um com um navegador web. Até mesmo o gênero básico permanece incerto, com expectativas variando descontroladamente de colisões celestiais, explosões solares e super-vulcões, a despertares espirituais, harmonizações cósmicas e incontáveis ​​variedades de realização messiânica. De acordo com os sóbrio videntes no 2012apocalypse.net: “Os maias, hopis, egípcios, cabalistas, essênios, anciões qero do Peru, navajos, cherokees, apaches, a confederação iroquesa, a tribo de Dogon e os aborígines acreditam em um fim para este Grande Ciclo Apocalíptico de 2012″. Eles perderam Madre Shipton, Nostradamus, Terence McKenna, Kalki Bagavan e Web Bot, mas de alguma forma o pessoal da Cracked permanece inconvicto.

Como um aparte, a melhor linha que o UF já viu entre os negadores (desculpe, não pude resistir a isso), é esse espécime deliciosamente autodestrutivo de Ian O’Neill: “Ninguém jamais previu o futuro, e isso não está prestes a mudar”.

Em uma paisagem cultural cada vez mais desagregada, não é fácil separar a história secular e a opinião sensata do festival orgiasticamente reunido do Fim dos Tempos, e – por incrível que pareça – o processo mundial não está fazendo muito para colaborar. Os posts ritualísticos de previsões-para-o-ano-seguinte em sites de política e economia são praticamente indistinguíveis das profecias de o-Armagedon-2012-está-aqui, embora o lado sano do prognóstico seja caracterizado por uma maior uniformidade de desolação implacável: colapso econômico abrangente, agravado por esclerose administrativa e acompanhado por um crescente conflito internacional / desintegração social, em meio aos gritos enfurecidos das civilizações fragmentadas (e um ‘Feliz Ano Novo’ para você também).

O goldbug Darryl Robert Schoon demonstra alguma restrição profissional, mas ele nem sequer tenta impedir que a crise financeira iminente se espalhe até imensidades cósmicas:

O final do calendário maia em 2012 é tão mal entendido quanto a interação entre crédito e dívida, e oferta e demanda; mas o colapso coincidente do paradigma econômico atual e um indicador misterioso de mudança não devem ser descartados. …A atual grande onda [de aumento de preços] começou em 1896. O fato que ela poderia chegar à crista e quebrar em 2012 poderia ser uma coincidência. Ou talvez não.

É provável que a ciência, a tecnologia, a cultura criativa e as empresas gerem algumas surpresas, mas o horror degenerativo da economia política keynesiana hegemônica do mundo – combinada com a crescente e irresponsável democracia neoconservadora – sincronizou-se sinistramente com as visões mais sombrias dos cultos de 2012. Um modo patentemente disfuncional de organização socioeconômica, baseado em dinheiro falso, idiocracia beligerante e golpes de pilhagem eleitorais, está se impondo agressivamente – com uma quase incompreensível ausência de auto-reflexão – sobre um mundo que já tem muitas patologias nativas com as quais lidar. A Nova Ordem Mundial resultante, inteiramente previsível, é um asilo lunático, e mesmo seus componentes mais funcionais (como Singapura e as RAEs chinesas de Hong Kong e Macau) estão ligados ao delírio coletivo. Quando o euro, o iene japonês e o dólar americano entrarem em colapso (provavelmente nessa ordem), o tsunami financeiro e geopolítico inundará a todos. Se isso não aconteceu em 2012, é porque a história não tinha nenhum senso de clímax narrativo que fosse.

No lado ‘positivo’ – para todos os que empurram com a barriga por aí – as palavras de Adam Smith que definiram 2011 continuam a ressoar. “Jovem, há muita ruína em uma nação” e ainda mais em um sistema global. Talvez a desintegração lenta do neofascismo da social-democracia keynesiana hegemônica rodopie para além do horizonte do calendário maia, o que realmente nos daria algo para esperar…

Original.

Humor Político

As coisas que realmente importam

O prospecto da Singularidade Tecnológica, ao tornar o futuro próximo inimaginável, anuncia “o fim da ficção científica”. Esta não é, contudo, uma proclamação que todos estão obrigados a acatar. Entre os odisseus que deliberadamente se ensurdeceram ao chamado desta sereia, nenhum procedeu de maneira mais ousada do que Charles Stross, cujo Singularity Sky não é apenas um romance de ficção científica, mas uma ópera espacial que habita um universo literário obsolescido por Einstein muito antes que I.J. Good completasse sua demolição. Não apenas humanos reconhecíveis, mas seres humanos inter-estelares com navegação espacial! O homem não tem vergonha?

Stross depende muito do humor para sustentar seu audacioso anacronismo e, em Singularity Sky, ele coloca o anacronismo para trabalhar explicitamente. O elemento mais consistentemente cômico do romance é uma reconstrução da política russa do século XIX no planeta de Rochard’s World, onde o ludismo semi-czarista da Nova República é ameaçado por uma conspiração de revolucionários cujo modo de organização política e retórica é de um tipo marxista-leninista reconhecível (e até mesmo paródico). Esses rebeldes, contudo, são ideologicamente libertários radicais, buscando derrubar o regime e instalar uma utopia anarquista de livre mercado, um objetivo que é perfeitamente conciliado com a dialética materialista, apelos à disciplina revolucionária e invocações de camaradagem fraternal.

É uma piada que funciona bem, porque o seu absurdo transparente coexiste com uma plausibilidade substancial. Libertários são de fato (não raro) materialistas ateus cripto-abraâmicos, firmemente ligados a um economicismo determinista e a convicções de inevitabilidade histórica, levando a lúgubres profecias socioeconômicas de um tipo distintamente escatológico. Quando o libertarianismo é casado com o tecno-apocalipticismo do singularitarismo, o potencial cômico e as ressonâncias marxistas são redobrados. Stross martela o ponto chamando sua IA super inteligente de ‘Eschaton’.

O mais hilário de tudo (à maneira da Frente Popular da Judeia contra a Frente do Povo da Judeia) é o facciosismo que aflige um movimento político extremo, cuja absoluta marginalidade não obstante deixa espaço para amarga recriminação mútua, apoiada por uma barroca criação de conspirações. Este não é realmente um tema de Stross, mas é uma especialidade libertária americana, exibida na incessante agitprop conduzida pelos ultras-rothbardianos do LewRockwell.com e do Mises Institute contra o transigente ‘Kochtopus’ (Reason e Cato) – a divisão Stalin-Trotsky que anima a “direita” de livre mercado. Qualquer um que esteja procurando por um lugar no ringue em uma luta recente pode ir para a seção de comentários aqui e aqui.

De maneira mais séria, os revolucionários libertários de Stross estão comprometidos de todo o coração com a afirmação marxista, outrora considerada fundamental, de que a produtividade é drasticamente inibida pela persistência de arranjos sociais antiquados. O verdadeiro direito histórico da revolução, indistinguível de sua inevitabilidade e irreversibilidade práticas, é seu alinhamento com a liberação das forças de produção de limitações institucionais esclerosadas. A produção do futuro, ou produção futurista, exige o enterro da sociedade tradicional. Aquilo que existe – o status quo – é uma supressão sistemática, rigorosamente mensurável ou pelo menos determinável em termos econômicos, do que poderia ser e quer ser. A revolução cortaria os grilhões da autoridade ossificada, colocando os motores da criação para uivar. Isso desencadearia uma explosão tecno-econômica que abalaria o mundo ainda mais profundamente do que a revolução industrial “burguesa” o fez antes (e continua a fazer). Algo imenso escaparia, para nunca mais ser enjaulado novamente.

Essa é a Antiga Fé, o credo Paleo-Marxista, com sua intensidade de manipulação de cobras e sua inebriante promessa materialista. É uma fé que os camaradas libertários de Rochard’s World ainda professam, com razão e derradeira vingança, porque o potencial histórico das forças de produção foi atualizado.

O que a matéria poderia fazer, que atualmente não se permite que ela faça? Essa é uma pergunta que os marxistas (da ‘Antiga Religião’) outrora fizeram. Sua resposta foi: entrar em processos de produção que estão livres dos requisitos restritivos da lucratividade privada. Uma vez ‘libertada’ dessa maneira, contudo, a produtividade cambaleou sem destino, adormeceu ou passou fome. Os libertários riram e defenderam uma reversão da fórmula: a produção livre para entrar em circuitos auto-escalonantes de lucratividade privada, sem restrição política. Eles foram largamente ignorados (e sempre serão).

Se nenhuma facção da fé revolucionária Marxo-Libertária terrestre foi capaz de reacender o velho fogo, é porque se afastaram das profundezas da questão (“o que a matéria poderia fazer?”). É uma questão que faz uma revolução. Os heróis da revolução industrial não eram jacobinos, mas sim fabricantes de caldeiras.

“O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”, proclamou Lenin, mas a eletrificação foi permitida antes que os bolcheviques tomassem seu lado, e persistiu desde a partida dos soviéticos. A menos que a transformação política coincida com a liberação de um potencial produtivo anteriormente reprimido, ela permanece essencialmente aleatória e reversível. Mera mudança de regime não significa nada, a menos que algo aconteça que não tenha acontecido antes. (Reembaralhamentos sociais não significam acontecimentos, exceto nas mentes dos ideólogos, e os ideólogos morrem.)

Os libertários também são como os leninistas: tudo o que eles jamais conseguem ganhar pode (e será) tirado deles. Eles outrora já tiveram uma república constitucional na América (e o que aconteceu com isso?). A Grã-Bretanha teve uma aproximação grosseira do capitalismo laissez-faire, antes de perdê-la. Alguém realmente acha que o liberalismo vai ficar mais ‘clássico’ do que isso em breve? Confiar na democracia em massa para preservar a liberdade é como contratar Hannibal Lecter como babá. As liberdades sociais podem também ser projetadas para morrer. Não há a menor razão para acreditar que a história está do lado delas. A revolução industrial, em contraste, é para sempre.

Em Rochard’s World, eles sabem exatamente o que a matéria poderia fazer que é proibido: auto-replicação mecânica em nano-escala e auto-modificação inteligente. É com isso que a ‘base material’ de uma revolução se parece, mesmo que seja sub-microscópica (ou especialmente porque é), e quando ela atinge os limites da tolerância social, ela descreve precisamente o que é necessário, automaticamente. Uma vez que ela sai da caixa, ela fica fora.

Stross se diverte o suficiente com a tecnosfera desencadeada para chamar seu avatar espacial de “o Festival”. Ele entra em contato com os revolucionários libertários de Rochard’s World bombardeando o planeta com telefones, e qualquer um que atenda um ouve a posição inicial de barganha: “entretenha-nos”. Mais engraçado de tudo, quando as autoridades neo-czaristas tentam pará-lo, elas são comidas.

Original.