A Tentação do Vazio (Parte 1)

A Fronteira da Desilusão

…a ideia que não somos mais capazes de realizar feitos que outrora conseguíamos (como viajar para a Lua) se choca com a narrativa dominante de que marchamos sempre adiante. Não apenas não conseguimos chegar na Lua no presente, mas os E.U.A. não tem mais um programa de ônibus espaciais – originalmente planejado para tornar as viagens espaciais tão rotineiras quanto as viagens aéreas. E, por falar nisso, eu não tenho mais a opção de comprar um bilhete para voar transatlântico em velocidades supersônicas no Concorde. As narrativas podem quebrar.
Tom Murphy (negritos no original)

A Expo Mundial 2010 em Shanghai incluía todo um pavilhão dedicado aos futuros urbanos. Entre as exibições estava um vídeo que se repetia em uma tela grande, retratando variedades de tipos de cidades futuristas como animações especulativas, alegres e com orientação óbvia para os jovens. Uma vez que as crianças são os cidadãos do futuro, faz sentido tratá-las como público alvo para uma visão do mundo de amanhã, mas o efeito também era desconcertante, como se colocasse entre parênteses o que era mostrado em forma de uma ironia negável e não abrasiva. É com isso que o futuro costumava se parecer. Ainda é? Neste ponto, uma sutil reserva se oculta como uma concessão à credibilidade infantil ou mesmo a uma fantasia inconsequente.

Uma das quatro cidades futuras em exibição havia sido construída fora do planeta, na órbita da terra. Ela era populada por humanos felizes (ou, pelo menos, humanoides). Nenhuma data era prevista. Livre de um firme compromisso futurista, ele cruzava a percepção adulta como um fragmento de memória transcultural.

Imagine uma cidade no espaço, como uma criança poderia. Dada a obscuridade estratégica desta afirmação, quando encontrada em uma evento internacional cuidadosamente elaborado, em uma cidade chinesa sofisticada, cosmopolita e global, em 2010, é tentador abordá-la através de uma analogia. Meio século atrás, quando as crianças ocidentais eram encorajadas a imaginar tais coisas, durante as décadas do crepúsculo da modernidade (1.0), fazia-se uma promessa sincera a elas de que elas herdariam o sistema solar? Se sim, tal promessa está agora sendo humoristicamente referenciada, ou ela está sendo redirecionada e refeita?

A Expo 2010 tinha uma Pavilhão Espacial, também, que apenas aprofundava a perplexidade. Dada a oportunidade de reativar as tradições da Expo de grandiosidade tecno-industrial, foi um erro espetacular de lançamento, não contendo quase nada em termos de hardware monumental. O conteúdo caía em duas categorias amplas: efeitos especiais baseados em vídeo (altamente apreciados pelas crianças) e aplicações domésticas ordinárias da tecnologia espacial, no modelo aproximado da lamentável campanha publicitária “somos os caras que lhe trouxeram a frigideira que não gruda” da NASA. Qualquer um que esperasse análogos militares de veículos de lançamento ciclópicos esmagadores de alma e o fedor acre do combustível de foguete tinha claramente entrado no século errado. A etiqueta internacional contemporânea prevalecia e, de acordo com ela, esse negócio de resplandecer em órbita é cru demais – até mesmo primitivo – para ser vigorosamente divulgado.

Então, mesmo na China, pelo menos na sua janela para o mundo em 2010, aspirações exoplanetárias eram indissoluvelmente misturadas com fantasias de infância. A insinuação inconfundível, harmonizada com os altos comandos da opinião pública, era de que esses sonhos de ficção científica haviam sido superados. Em vez de olhar através de uma janela para a ressonante oficina do emergente programa espacial da China, os visitantes ocidentais viram seus olhares refletidos em vidro espelhado, em um vácuo ‘pós-moderno’ de expectativas desmoronadas, entre as ruínas erodidas da Apollo. Quatro décadas de falha espacial ocidental educadamente sorriam de volta. Vocês perderam, não é mesmo? (Uma viagem rápida através do Huangpu, até ao tristemente mundano Pavilhão dos EUA era suficiente para uma confirmação inequívoca.)

A rejeição de um futuro humano exoplanetário como um sonho infantil tem muito em que se basear. As editoras e as livrarias há muito acomodaram seus sistemas de classificação à desprezível ambiguidade do ‘gênero ficção científica / fantasia’, no qual o futurismo se desmancha em onirismo, e os vestígios dos programas da FC séria (satélites de telecomunicação, bases lunares, elevadores espaciais) estão espalhados em meio a mitologias fantásticas de elfos no espaço (de Star Wars a Avatar). Profecias competitivas se degeneram em alegorias polêmicas, fazendo afirmações sobre tudo e qualquer coisa exceto a forma do futuro.

De todas as ondulações culturais vindas do truncamento da trajetória espacial da era da Apollo, nenhuma é mais reveladora do que a crescente popularidade da teoria da conspiração da ‘Fraude da Lua’. Não satisfeitos com a evacuação prospectiva dos céus, os conspiradores sobre a Lua começaram a editar sistematicamente os viajantes espaciais para fora do passado, começando com os pousos lunares. Embora claramente enlouquecedores para os tecnólogos espaciais, patriotas americanos, defensores da NASA e tipos sensatos em geral, essa forma de ‘negacionismo’ não é apenas historicamente compreensível, mas até mesmo inevitável. Se ninguém contesta seriamente o fato de que Colombo chegou ao Novo Mundo, é pelo menos em parte porque o que se iniciou ali continuou acontecendo. Algo começou e continuou. Nada comparável pode ser dito sobre o processo de colonização lunar e isso, em si mesmo, é uma extravagância provocadora. Quando previsões são lembradas, pode-se esperar que resultados abandonados baguncem as memórias.

Entusiasta espacial da velha-guarda, Sylvia Engdahl acha toda a situação patológica e a sujeita a um tipo de psicanálise feita às pressas. Com um otimismo desafiador, ela atribui “o atual hiato nas viagens espaciais” ao trauma xenofóbico:

Muito é dito sobre o efeito positivo das fotos da Terra obtidas pela Apollo 8, que pela primeira vez mostraram nosso planeta como um globo, um frágil refúgio em meio a um entorno árido e, assim, lançou o movimento ambientalista. O impacto negativo concomitante — a disseminação de conhecimento visceral de que o espaço é um lugar real que contém pouco do que é familiar para nós e talvez muito que preferimos não conhecer — não é comentado. Mas pode não ser menos significante. Poderia ser essa uma das razões pelas quais o interesse no espaço morreu tão rápido depois do primeiro pouso na Lua, resultando no cancelamento das últimas poucas missões planejadas da Apollo?

Ela elabora:

A maior parte das pessoas não quer contemplar a significância de um universo aberto. Elas não deixam o desconforto sobre isso entrar em suas mentes, mas por baixo, conforme o inconsciente coletivo da humanidade absorve o conhecimento, elas o compreendem e reagem com desalento disfarçado de apatia. Não lhes ocorre que elas poderiam ser perturbadas pelo prospecto da exploração espacial. Antes, elas acreditam que, embora na teoria elas queiram que a humanidade alcance novos mundos, é de baixa prioridade comparado aos problemas de aqui e agora. …[A] convicção muito difundida de que o público não se importa mais com o espaço pode também ser uma racionalização.

Engdahl insinua uma variante moderna do mito de Orfeu e capta algo de impressionante significância. Foi-nos dito que não olhássemos para trás da órbita, mas é claro que o fizemos, e o que vimos nos puxou de volta para baixo. A danação do nosso salto extraterrestre deu origem a uma visão ambientalista lúcida – a terra vista do espaço. É por isso que Tom Murphy se volta para o Grande Arquedruida da Antiga Ordem dos Druidas na América, John Michael Greer, para transmutar desilusão elegíaca em aceitação:

Os orbitadores estão silenciosos agora, esperando pela última estranha jornada que os levará para os museus que armazenarão o maior dos sonhos falidos de nossa civilização. Não haverá contagem regressiva, nenhum pilar de chamas para empurrá-los pela atmosfera e mandá-los chicoteando em torno do planeta em velocidades orbitais. Tudo isso acabou. …Na análise final, viagens espaciais eram simplesmente o desdobramento mais distante e mais característico da civilização industrial e dependiam — como tudo da civilização industrial depende — de vastas quantias de energia barata, altamente concentrada e prontamente acessível. Essa condição básica está chegando a um fim ao nosso redor agora mesmo.

Desilusão é simplesmente acordar de coisas infantis, os druidas nos dizem. Este é um ponto que Murphy faz questão de endossar: “fantasias espaciais podem nos impedir de abordar problemas mundanos”. Intrigantemente, seu passo inicial em direção à aceitação envolve uma retificação de uma falsa memória, através de um análogo (são) da negação da ‘Fraude da Lua’. Pesquisando seus alunos sobre sua compreensão da história recente do espaço (“desde 1980 mais ou menos”), ele descobriu que nada menos que 52% pensavam que os humanos haviam partido da Terra até a Lua (a 385.000 km de distância) nessa época. Apenas 11% entendiam, corretamente, que nenhuma expedição tripulada havia escapado da Órbita Baixa da Terra (OBT, a 600km) desde o fim do programa Apollo. A atividade espacial humana recente, pelo menos da maneira em que era imaginada, não havia ocorrido. Ela era predominantemente uma alucinação coletiva.

O estilo altamente desenvolvimento de druidismo numerato de Murphy representa a hipótese nula no debate sobre colonização espacial: talvez não estejamos lá fora porque não há nenhuma razão convincente para se esperar qualquer outra coisa. O espaço extraterrestre não é uma fronteira, nem mesmo uma que é árdua, mas sim uma desolação implacavelmente hostil que não promete nada além de pesar e desperdício. Há alguns dados científicos a serem compilados e também (embora Murphy não enfatize isso) oportunidades para a teatralidade política. Fora isso, contudo, não há nada para além da OBT que se valha alcançar.

O ponto de partida neo-druídico tem, sem remorsos, os pés no chão. Ele começa com a física energética, e o fato impiedoso que de fazer basicamente qualquer coisa esquenta as coisas. De acordo com os cálculos de Murphy, uma taxa de crescimento econômico global de modestos 2.3% é suficiente para colocar a superfície da terra no ponto de ebulição da água dentro de quatro séculos, mesmo na completa ausência de efeitos estufa (positivos). O crescimento econômico é essencialmente exponencial, e isso garante que estamos fritos, devido a princípios termodinâmicos elementares, limites de eficiência e a geofísica da dissipação de calor. Dentro deste quadro geral, as preocupações convencionais com a “crise de energia” não passam de detalhes complicadores, embora Murphy se ocupe minuciosamente delas. (Ele fornece um hábil resumo de seu argumento, com links internos, aqui.)

Da perspectiva neo-druídica, a ‘fronteira’ espacial é um horizonte de puro escapismo, que atrai aqueles que teimosamente negam a necessidade de limitação (pestilentos viciados em crescimento):

…confiar no espaço para fornecer uma base infinita de recursos adentro dos quais podemos crescer/nos expandir para sempre é equivocado. Não apenas é muito mais difícil do que muitas pessoas apreciam, mas representa uma distração da mensagem que o crescimento não pode continuar na Terra e deveríamos nos ocupar de planejar uma transição para uma existência não embasada em crescimento e verdadeiramente sustentável.

Uma vez que muitos irreprimíveis promotores de crescimento seriamente querem ir até lá, Murphy espalha desencorajamento em camadas grossas e viscosas. A maior parte dos fatores de dissuasão são relativamente familiares, mas nenhum deles são frívolos ou facilmente descartados. O principal problema é o mais qualitativo (e druídico): a adaptação humana às condições terrestres. Isto é notavelmente iluminado por uma consideração dos ambientes terrestres de fronteira que permanecem quase inteiramente inexplorados, apesar de características ambientais que são esmagadoramente mais benignas do que qualquer coisa que possa ser encontrada fora do planeta. Quando comparados com qualquer estação espacial, campo de mineração de asteróides, base lunar ou colônia em Marte, mesmo os lugares mais ‘difíceis’ na terra – o solo oceânico, por exemplo, ou a Antártica – são caracterizados por uma extrema hospitalidade, com acesso imediato a ar respirável, nutrientes, combustíveis e outros recursos essenciais, uma gama moderada de temperaturas, proteção contra a radiação cósmica e a proximidade de assentamentos humanos existentes. Isso deve ser contrastado com as condições extraterrestres típicas de vácuo intenso, exposição total, completa ausência de química biocompatível e distâncias incompreensíveis.

Murphy tocou nessas distâncias em sua pesquisa sobre a ignorância espacial dos estudantes. Se a terra for representada por um globo “padrão” de 30 centímetros, a OBT está a 1.5 centímetros da superfície, e a lua a 9 metros completos mais longe. Para uma compreensão intuitiva de visões espaciais mais expansivas, contudo, uma recalibração é necessária.

Faz sentido modelar a terra como uma pequena maçã (8.5cm em diâmetro), porque então a unidade astronômica (AU, a distância média entre o sol e a terra, de aproximadamente 150 milhões de quilômetros, 93 milhões de milhas, ou 500 segundos-luz) diminui para um quilômetro, com o sol representado por uma esfera de pouco mais de 10 metros de diâmetro. A lua agora está a menos de 2.7 metros de distância de nossa terra de brinquedo, mas Marte nunca está a menos de 400 metros de distância, o asteróides mais próximos a um quilômetro. A distância até a borda do sistema planetário solar (Netuno) está a pelo menos 29 quilômetros e, dentro desse volume espacial (uma esfera de aproximadamente 113.400 AU³), menos de uma parte em 27 bilhões é algo além de vácuo desolado, com quase todo o resto sendo a fornalha solar. Na escala de brinquedo, a borda exterior do sistema solar, e a nuvem de Oort, está 50.000 quilômetros da terra. A distância de nossa murcha maçã até a estrela mais próxima, Proxima Centauri, é 277.600 quilômetros de brinquedo (ou 41.5 trilhões dos de verdade).

Se a colonização espacial estiver sendo interpretada como uma escapada das restrições de recursos terrestres, então um padrão de atividade precisa ser costurado ao longo dessas distâncias, produzindo – no mínimo – um excedente energético. Em um sistema cinético sem fricção, governado quase puramente pela conservação (macroscópica) do momento, a moeda básica da atividade especial é o ‘delta-v’, ou a transformação da velocidade. O delta-v é amplamente proporcional ao gasto de energia em “pequenas queimas”, quando o consumo de combustível faz uma diferença negligenciável no total de massa propelida, mas quando vôos completos ou “grandes queimas”são calculadas, a matemática se torna não linear, uma vez que a redução da carga útil de combustível se torna um fator crítico na equação (subtraindo a resistência inercial na medida em que ela adiciona força motora). Em termos práticos, a economia de energia exoplanetária (‘espacial’) consiste do consumo de propelente para mover o propelente, com a massa não combustível do veículo contribuindo pouco mais do que um erro de arredondamento nos cálculos.

Um pouco contra-intuitivamente, é possível fazer com que o foguete se mova mais rápido que a velocidade de escape, uma vez que a massa de combustível exceda 63% da massa inicial total. Para obter valores de delta-v na faixa de 20 km/s, quando a velocidade de escape for inferior a 5 km/s, não é preciso quase nada além de combustível. …Os grandes delta-v necessários para contornar o sistema solar exigem muito combustível…

Esse registro duplo do combustível dentro da equações não lineares da “matemática de foguetes” – como carga útil e propelente – é a chave para o profundo ceticismo de Murphy sobre a viabilidade de uma economia energética exoplanetária. Os recursos combustíveis espalhados dentro do sistema solar interior – mesmo assumindo sua absoluta abundância – não podem ser movido de maneira útil por menos energia do que fornecem. Júpiter oferece o exemplo mais atormentador. Esse gigante gasoso rico em metano pode ser superficialmente apreendido como um imenso depósito de combustível cósmico, mas até mesmo os cálculos mais generosos dos requisitos delta-v para uma “corrida de petroleiros” até Júpiter implicam gastos de energia pelo menos uma ordem de magnitude maior do que a energia obtida da operação de escavação sozinha. O sistema solar interior é abundante em “recursos encalhados” que não podem concebivelmente ser extraídos a um custo menor do que seu valor. Esta, pelo menos, é a perspectiva neo-druídica coerente.

…e, ainda assim, no vácuo que se escancara, onde as colônias especiais eram para ter estado, os movimentos não cessaram. Parece até mesmo haver, inconfundivelmente, uma aceleração do passo. ‘Taikonautas‘ chineses, empresas privadas (americanas) do ‘NewSpace‘ e robôs cada vez mais avançados estão se aventurando para além dos destroços de sonhos mortos. Eles estão indo para qualquer lugar que funcione, ou que sequer faça sentido?

[A seguir…]

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4f(inal)

Parte 4f: Aproximando-se do Horizonte Biônico

É hora de dar a esta longa digressão uma conclusão, esticando-se impacientemente em direção ao fim. O tema básico tem sido controle mental, ou supressão de pensamento, como demonstrado pelo complexo midiático-acadêmico que domina as sociedades ocidentais contemporâneas e ao qual Mencius Moldbug dá o nome de Catedral. Quando as coisas são esmagadas, elas raramente desaparecem. Pelo contrário, elas são deslocadas, fugindo para dentro de sombras acolhedoras e, às vezes, virando monstros. Hoje, conforme a ortodoxia supressora da Catedral se desfaz, de várias maneiras e em numerosos sentidos, um tempo de monstros está se aproximando.

O dogma central da Catedral tem sido formalizado como o Modelo Padrão das Ciências Sociais (SSSM, na sigla em inglês) ou ‘teoria da tábula rasa’. É a crença, completada em sua essência pela antropologia de Franz Boas, de que toda questão legítima sobre a humanidade está restrita à esfera da cultura. A natureza permite que ‘o homem’ seja, mas nunca determina o que o homem é. Questões direcionadas às características e variações naturais entre humanos são, elas mesmas, apropriadamente compreendidas como peculiaridades, ou mesmo patologias, culturais. Falhas de ‘educação’ (nurture) são a única coisa que temos permissão de ver.

Uma vez que a Catedral tem uma orientação ideológica consistente e peneira seus inimigos de acordo, uma avaliação científica comparativamente independente do SSSM facilmente vira antagonismo bruto. Como Simon Blackburn observa (em uma análise criteriosa do Tábula Rasa de Steven Pinker), “A dicotomia entre natureza e educação (nurture) rapidamente adquire implicações políticas e emocionais. Para colocar de maneira crua, a direita gosta de genes e a esquerda gosta de cultura…”.

No limite do ódio recíproco, o determinismo hereditário confronta o construtivismo social, com cada um deles comprometido com um modelo radicalmente reduzido de causalidade. Ou a natureza se expressa como cultura, ou a cultura se expressa em suas imagens (‘construções’) da natureza. Ambas estas posições estão presas em lados opostos de um circuito incompleto, estruturalmente cegas à cultura do naturalismo prático, o que seria dizer: à manipulação tecno-científica / industrial do mundo.

Adquirir conhecimento e usar ferramentas é um único circuito dinâmico, que produz a tecnociência como um sistema integral, sem divisibilidade real em aspectos teóricos e práticos. A ciência se desenvolve em loops, através da técnica experimental e da produção de uma instrumentação cada vez mais sofisticada, ao passo em que está incorporada dentro de um processo industrial mais amplo. Seu avanço é o aperfeiçoamento de uma máquina. Esse caráter intrinsecamente tecnológico da ciência (moderna) demonstra a eficiência da cultura enquanto força natural complexa. Ela nem expressa uma circunstância natural pré-existente, tampouco meramente constroi representações sociais. Em vez disso, natureza e cultura compõem um circuito dinâmico, à beira da natureza, onde o destino é decidido.

De acordo com o pressuposto auto-reforçador da modernização, ser compreendido é ser modificável. É de se esperar, portanto, que a biologia e a medicina evoluam em conjunto. A mesma dinâmica histórica que subverte abrangentemente o SSSM através de ondas inundantes de descoberta científica, simultaneamente volatiliza a identidade biológica humana através da biotecnologia. Não há qualquer diferença essencial entre aprender o que realmente somos e nos redefinirmos como contingências tecnológicas, ou seres tecnoplásticos, suscetíveis a transformações precisas e cientificamente informadas. A ‘humanidade’ se torna inteligível conforme é subsumida na tecnosfera, onde o processamento de informação do genoma – por exemplo – coloca a leitura e a edição em perfeita coincidência.

Descrever esse circuito, conforme ele consome a espécie humana, é definir nosso horizonte biônico: o limiar de uma fusão conclusiva entre natureza e cultura, no qual uma população se torna indistinguível de sua tecnologia. Isto não é nem determinismo hereditário, nem construtivismo social, mas é ao que ambos teriam feito referência, tivessem eles indicado qualquer coisa real. É uma síndrome vividamente antecipada por Octavia Butler, cuja trilogia Xenogenesis é devotada ao exame de uma população de além do horizonte biônico. Seus ‘comerciantes de genes’ Oankali não têm nenhuma identidade separável do programa biotecnológico que eles perpetuamente implementam sobre si mesmos, conforme adquirem comercialmente, produzem industrialmente e reproduzem sexualmente sua população dentro de um único processo integral. Entre o que os Oankali são e a maneira em que eles vivem, ou se comportam, não existe nenhuma diferença firme. Uma vez que eles criam a si mesmos, sua natureza é sua cultura e (claro) reciprocamente. O que eles são é exatamente o que eles fazem.

Os tradicionalistas da Ortosfera Ocidental estão certos em identificar o iminente horizonte biônico com um evento teológico (negativo). A auto-produção tecno-científica suplanta de maneira específica a essência fixa e sacralizada do homem enquanto um ser criado, em meio à maior reviravolta na ordem natural desde o surgimento da vida eucarionte, há meio bilhão de anos. Não é meramente um evento evolutivo, mas o limiar de uma nova fase evolutiva. John H. Campbell anuncia a emergência do Homo autocatalyticus, enquanto argumenta: ‘De fato, é difícil imaginar como um sistema de herança poderia ser mais ideal para a engenharia do que o nosso é’.

John H. Campbell? – um profeta da monstruosidade e a desculpa perfeita para uma citação monstruosa:

Os biólogos suspeitam que novas formas evoluem rapidamente a partir de exogrupos bastante pequenos de indivíduos (talvez até mesmo uma única fêmea fertilizada; Mayr, 1942) à margem de uma espécie existente. Ali, a pressão de um ambiente praticamente inabitável, a endogamia forçada entre membros isolados da família, a “introgressão” de genes estranhos de espécies vizinhas, a falta de outros membros da espécie contra quem competir, ou o que seja, promove uma grande reorganização do programa genômico, possivelmente a partir de uma mudança modesta na estrutura genética. Quase todos esses fragmentos transmutados de espécies se extinguem, mas ocasionalmente um deles é afortunado o suficiente para se encaixar em um novo nicho viável. Ele prospera e se expande até uma nova espécie. Sua conversão em um pool genético estatisticamente constrito então estabiliza a espécie contra maiores mudanças evolutivas. Espécies estabelecidas são bem mais notáveis por sua estase do que por mudanças. Mesmo produzir uma nova espécie filha não parece mudar uma espécie existente. Ninguém nega que as espécies possam gradualmente se transformar e o fazer em várias medidas, mas essa chamada “anagênese” é relativamente pouco importante, se comparada à grande saltação, geologicamente súbita, na geração de novidade.

Três implicações são importantes.

1. A maior parte das mudanças evolutivas estão associadas com a origem de novas espécies.

2. Diversos modos de evolução podem operar simultaneamente. Neste caso, o mais efetivo domina o processo.

3. Pequenas minorias de indivíduos fazem a maior parte da evolução, ao invés da espécie como um todo.

Uma segunda característica importante da evolução é a autorreferência (Campbell, 1982). A caricatura cartesiana de um “ambiente” externo autônomo que dita a forma de um espécie, como um cortador de biscoitos corta estêncis a partir de folhas de massa, está completamente errada. A espécie molda seu ambiente tão profundamente quanto o ambiente “evolui” a espécie. Em particular, os organismos causam as condições limitadoras do ambiente sobre o qual eles competem. Portanto, os genes desempenham dois papéis na evolução. Eles são os alvos da seleção natural e são eles também que, em última análise, induzem e determinam as pressões seletivas que agem sobre si. Esta causalidade circular submerge o caráter mecânico da evolução. A evolução é dominada pelo feedback das atividades evoluídas dos organismos sobre sua evolução.

A terceira percepção seminal é de que a evolução se estende para além da mudança nos organismos enquanto produtos da evolução, a uma mudança no próprio processo. A evolução evolui (Jantsch, 1976; Balsh, 1989; Dawkins, 1989; Campbell, 1993). Os evolucionistas sabem deste fato mas nunca concederam ao fato a importância que ele merece, porque é incomensurável com o darwinismo. Os darwinistas, e especialmente os neodarwinistas modernos, equacionam a evolução com a operação de um princípio lógico simples, que é anterior à biologia: A evolução é meramente o princípio darwiniano da seleção natural em ação e é disso que a ciência da evolução trata. Uma vez que princípios não podem mudar com o tempo ou as circunstâncias, a evolução tem que ser fundamentalmente estática.

Claro, a evolução biológica não é assim de forma alguma. Ela é um processo complexo real, não um princípio. A maneira em que ela ocorre pode mudar com o tempo e indisputavelmente o faz. Isto é de máxima importância, porque o processo de evolução avança conforme procede (Campbell, 1986). A matéria pré-viva na sopa primordial da terra era capaz de evoluir apenas através de mecanismos “químicos” sub-darwinianos. Uma vez que estes processos insignificantes criaram moléculas genéticas com informação para sua autorreplicação, então a evolução foi capaz de se engajar na seleção natural. A evolução então embrulhou os genomas auto-replicantes dentro de organismos auto-replicantes para controlar a maneira em que a vida responderia aos ventos da seleção vindos do ambiente. Mais tarde, ao criar organismos multicelulares, a evolução ganhou acesso à mudança morfológica enquanto alternativa a uma evolução bioquímica mais lenta e menos versátil. Mudanças nas instruções em programas de desenvolvimento substituíram mudanças nos catalisadores enzimáticos. Sistemas nervosos abriram caminho para uma evolução comportamental, social e cultural ainda mais rápida e mais potente. Finalmente, esses modos mais elevados produziram a organização necessária para uma evolução racional e propositada, guiada e propelida por mentes orientadas a metas. Cada um desses passos representou um novo nível emergente de capacidade evolutiva.

Desta forma, existem dois processos evolutivos distintos, mas entrelaçados. Eu os chamo de “evolução adaptativa” e “evolução geradora”. A primeira é a familiar modificação darwiniana de organismos para aumentar sua sobrevivência e sucesso reprodutivo. A evolução geradora é inteiramente diferente. Ela é a mudança em um processo, em vez de uma estrutura. Além disso, esse processo é ontológico. Evolução literalmente significa “se desdobrar” e o que está se desdobrando é a capacidade de evoluir. Animais superiores se tornaram cada vez mais hábeis em evoluir. Em contraste, eles não são nem um pouco mais aptos do que seus ancestrais ou as formas mais baixas de micróbios. Toda espécie hoje teve exatamente o mesmo histórico de sobrevivência; na média, todo organismo mais elevado vivo hoje ainda deixará apenas duas proles, como era o caso cem milhões de anos atrás, e as espécies modernas têm tanta probabilidade de serem extintas quanto aquelas do passado. As espécies não podem se tornar cada vez mais aptas porque o sucesso reprodutivo não é um parâmetro cumulativo.

Para os nacionalistas raciais, preocupados com que seus netos sejam parecidos consigo, Campbell é o abismo. Miscigenação não chega nem perto da questão. Pense em tentáculos faciais.

Campbell também é um secessionista, embora não tenha quaisquer distrações com as preocupações da política de identidade (pureza racial) ou do elitismo cognitivo tradicional (eugenia). Ao se aproximar do horizonte biônico, o secessionismo assume uma atitude completamente mais selvagem e mais monstruosa – em direção à especiação. O pessoal no euvolution captura bem o cenário:

Raciocinando que a maior parte da humanidade não vai voluntariamente aceitar políticas de gerenciamento populacional qualitativo, Campbell aponta que qualquer tentativa de elevar o QI de toda a raça humana seria tediosamente lento. Ele ainda aponta que o ímpeto geral da eugenia primordial não era tanto melhoria da espécie quanto prevenção do declínio. A eugenia de Campbell, portanto, advoga o abandono do Homo sapiens enquanto ‘relíquia’ ou ‘fóssil vivo’ e a aplicação de tecnologia genética para se intrometer no genoma, provavelmente escrevendo novos genes a partir do zero usando um sintetizador de DNA. Tal eugenia seria praticada por grupos da elite, cujas realizações ultrapassariam tão rápida e radicalmente o andamento comum da evolução que, dentro de dez gerações, os novos grupos terão avançado para além de nossa atual forma, no mesmo grau em que nós transcendemos os símios.

Quando visto do horizonte biônico, o que quer que venha a emergir da dialética do terror racial permanece preso em trivialidades. É hora de seguir em frente.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4e

Parte 4e: História transcodificada

Democracia é o oposto de liberdade, quase inerente ao processo democrático é que ele tende na direção de menos liberdade, em vez de mais, e a democracia não é algo que pode ser consertado. A democracia está inerentemente quebrada, assim como o socialismo. A única maneira de consertá-la é romper com ela.
Frank Karsten

O historiador (principalmente da ciência) Doug Fosnow pediu que os condados “vermelhos” dos EUA se separassem dos “azuis”, formando uma nova federação. Isso foi recebido com muito ceticismo pela audiência, que notou que a federação “vermelha” não ficaria com praticamente nenhum litoral. Doug realmente pensou que uma secessão dessas tinha alguma probabilidade de ocorrer? Não, ele admitiu alegremente, mas qualquer coisa seria melhor do que a guerra racial que ele acha provável que ocorra, e é dever dos intelectuais propor possibilidade menos horríveis.
John Derbyshire

Assim, em vez de por meio de uma reforma de cima para baixo, sob as atuais condições, sua estratégia deve ser a de uma revolução de baixo para cima. A princípio, a compreensão dessa visão pareceria tornar a tarefa de uma revolução social liberal-libertária impossível, pois isso não implica que ter-se-ia que persuadir uma maioria do público a votar pela abolição da democracia e pôr um fim a todos os impostos e legislações? E isso não é pura fantasia, dado que as massas são sempre estúpidas e indolentes, ainda mais dado que a democracia, como explicado acima, promove a degeneração moral e intelectual? Como alguém pode esperar que uma maioria de pessoas cada vez mais degeneradas, acostumadas com o “direito” de votar, jamais renunciasse voluntariamente à oportunidade de saquear a propriedade alheia? Colocado desta maneira, tem-se que admitir que o prospecto de uma revolução social deve, de fato, ser considerado como virtualmente nulo. Em vez disso, é apenas com base em uma reconsideração, ao considerar a secessão como uma parte integral de qualquer estratégia de baixo para cima, que a tarefa de uma revolução liberal-libertária parece menos do que impossível, mesmo que ainda continue sendo intimidadora.
Hans-Herman Hoppe

Concebida de maneira genérica, a modernidade é uma condição social definida por uma tendência integral, resumida como taxas de crescimento econômico sustentadas que excedem os aumentos de população e, assim, marcam uma escapada da história normal, aprisionada dentro da armadilha malthusiana. Quando, no interesse da apreciação desapaixonada, a análise é restrita aos termos deste padrão quantitativo básico, ela suporta uma subdivisão nos componentes positivo (crescimento) e negativo da tendência: contribuições tecno-industriais (científicas e comerciais) à aceleração do desenvolvimento, por um lado, e as contra-tendências sócio-políticas à captura do produto econômico por parte de interesses especiais de rent-seeking democraticamente empoderados (demosclerose), por outro. O que o liberalismo clássico dá (a revolução industrial), o liberalismo maduro leva embora (por meio do cancerígeno estado de intitulações). Na geometria abstrata, isso descreve uma curva em S de fuga auto-limitante. Assim como um drama de liberação, é uma promessa quebrada.

Concebida de maneira particular, como uma singularidade ou coisa real, a modernidade tem características etno-geográficas que complicam e qualificam sua pureza matemática. Ela veio de algum lugar, se impôs de maneira mais ampla e levou os vários povos do mundo a uma extraordinária gama de novas relações. Estas relações eram caracteristicamente ‘modernas’ se envolviam um transbordamento dos limites malthusianos anteriores, permitiam a acumulação de capital e iniciavam novas tendências demográficas, mas elas reuniam grupos concretos em vez de funções econômicas abstratas. Pelo menos em aparência, portanto, a modernidade foi algo feito por pessoas de um certo tipo com – e não incomumente a (ou mesmo contra) – outras pessoas, que eram conspicuamente diferentes delas. No momento em que hesitava no declive de desvanecimento da curva em S, no começo do século XX, a resistência às suas características genéricas (‘alienação capitalista’) havia se tornado quase inteiramente indistinguível da oposição à sua particularidade (‘imperialismo europeu’ e ‘supremacia branca’). Como consequência inevitável, a auto-consciência modernista do núcleo etno-geográfico do sistema deslizou em direção ao pânico racial, em um processo que só foi reprimido pelo surgimento e imolação do Terceiro Reich.

Dada a tendência inerente da modernidade à degeneração ou auto-cancelamento, três prospectos amplos se abrem. Estes não são estritamente exclusivos e não são, portanto, verdadeiras alternativas, mas, para propósitos esquemáticos, é útil apresentá-los como tal.

(1) Modernidade 2.0. A modernização global é revigorada a partir de um novo núcleo etno-geográfico, liberado das estruturas degeneradas de seu predecessor eurocêntrico, mas sem dúvida confrontando tendências de longo prazo de um caráter igualmente mortuário. Este é de longe o cenário mais encorajante e plausível (de uma perspectiva pró-modernista) e, se a China permanecer, mesmo que aproximadamente, em seu curso atual, será certamente realizado. (A Índia, infelizmente, parece ter ido muito longe em sua versão nativa da demosclerose para competir à sério.)

(2) Pós-Modernidade. Equivalendo essencialmente a uma nova idade das trevas, na qual os limites malthusianos se reimpõem brutalmente, este cenário assume que a Modernidade 1.0 globalizou tão radicalmente sua própria morbidez que todo o futuro do mundo colapsa ao seu redor. Se a Catedral ‘vencer’, estas são as consequências.

(3) Renascença Ocidental. Para renascer é primeiro necessário morrer, então, quanto mais forte a ‘reinicialização forçada’, tanto melhor. Crise abrangente e desintegração oferecem as melhores chances (mais realisticamente como um subtema da opção #1).

Visto que a concorrência é boa, uma pitada de Renascença Ocidental apimentaria as coisas, mesmo que – como é extremamente provável – a Modernidade 2.0 seja a principal rodovia do mundo para o futuro. Isso depende do Ocidente parar e reverter basicamente tudo que vem fazendo há mais de um século, com exceção apenas de inovações científicas, tecnológicas e empresariais. É aconselhável manter a disciplina retórica dentro de um modo estritamente hipotético, porque a possibilidade de qualquer uma dessas coisas é profundamente colorida pela incredulidade:

(1) Substituição da democracia representativa pelo republicanismo constitucional (ou por mecanismos governamentais anti-políticos ainda mais extremos).

(2) Redução massiva do governo e seu confinamento rigoroso a funções centrais (no máximo).

(3) Restauração da moeda lastreada (moedas de metais preciosos e notas de depósito desses metais) e abolição do banco central.

(4) Desmantelamento da discrição monetária e fiscal do estado, abolindo assim a macroeconomia prática e liberando a economia autônoma (ou ‘catalática’). (Este ponto é redundante, uma vez que ele se segue rigorosamente de 2 & 3 acima, mas é o verdadeiro prêmio e, logo, digno de enfatização.)

Há mais – isto é, menos política – mas já está absolutamente claro que nada disso vai acontecer aquém de um cataclisma existencial da civilização. Pedir que os políticos limitem seus próprios poderes é um não-começo, mas nada a menos nem remotamente leva na direção certa. Este, contudo, não é sequer o problema mais amplo ou profundo.

A democracia poderia começar como um mecanismo procedural defensável para se limitar o poder do governo, mas ela rápida e inexoravelmente se desenvolve em algo bastante diferente: uma cultura de roubo sistemático. Tão logo os políticos tenham aprendido a comprar apoio político com o ‘dinheiro público’ e tenham condicionado os eleitorados a abraçar a pilhagem e o suborno, o processo democrático se reduz à formação das ‘coalizões distributivas’ (de Mancur Olson) – maiorias eleitorais cimentadas juntas pelo interesse comum em um padrão coletivamente vantajoso de roubo. Pior ainda, uma vez que as pessoas não são, na média, muito brilhantes, a escala de depredação disponível para o establishment político de longe excede até mesmo o saqueamento insano que está aberto ao escrutínio público. Pilhar o futuro, através de degradação monetária, acúmulo de dívidas, destruição do crescimento e retardamento tecno-industrial, é especialmente fácil de ocultar e, assim, confiavelmente popular. A democracia é essencialmente trágica porque fornece à população uma arma para se destruir, uma que sempre é avidamente aproveitada e usada. Ninguém jamais diz ‘não’ para coisas de graça. Quase ninguém sequer vê que não existem coisas de graça. A ruína cultural total é a conclusão necessária.

Dentro da fase final da Modernidade 1.0, a história americana se torna a narrativa mestra do mundo. É ali que o grande transmissor cultural abraâmico culmina no neo-puritanismo secularizado da Catedral, conforme estabelece sua Nova Jerusalém em Washington DC. O aparato do propósito messiânico-revolucionário é consolidado no estado evangélico, que está autorizado, por quaisquer meios necessários, a instalar uma nova ordem mundial de fraternidade universal, em nome da igualdade, dos direitos humanos, da justiça social e – sobretudo – da democracia. A confiança moral absoluta da Catedral garante a busca entusiasta de um poder centralizado irrestrito, otimamente ilimitado em sua penetração intensiva e em seu escopo extensivo.

Com uma ironia completamente escondida da própria prole dos queimadores de bruxas, a ascensão dessa corte de sombrios fanáticos morais a alturas previamente inescaláveis de poder global coincide com a decadência da democracia de massas a profundidades previamente inimagináveis de corrupção gulosa. A cada cinco anos, a América rouba-se de si mesma novamente e se revende em troca de apoio político. Essa coisa de democracia é fácil – você simplesmente vota no cara que lhe promete mais coisas. Um idiota conseguiria fazê-lo. Na verdade, ela gosta de idiotas, os trata com aparente gentileza e faz tudo o que pode para fabricar mais deles.

A tendência implacável da democracia à degeneração apresenta um caso implícito a favor da reação. Uma vez que cada um dos principais limiares de ‘progresso’ sócio-político levou a civilização ocidental em direção a uma ruína abrangente, um retraçamento de seus passos sugere uma reversão da sociedade de pilhagem a uma ordem mais antiga de auto-suficiência, indústria e comércio honestos, aprendizado pré-propagandístico e auto-organização cívica. As atrações desta visão reacionária são evidenciadas pela voga de vestuário, símbolos e documentos constitucionais do século XVII entre a minoria substancial (Tea Party) que claramente vê o curso desastroso da história política americana.

O alarme de ‘raça’ já soou na sua cabeça? Seria surpreendente se não tivesse. Cambaleie de volta, em imaginação, até antes de 2008, e o sussurro tenso da consciência já está questionando seus preconceitos contra revolucionários quenianos e professores marxistas negros. Continue em reverso até a era da Grande Sociedade / Direitos Civis e os avisos alcançam um tom histérico. É perfeitamente óbvio, neste ponto, que a história política americana progrediu ao longo de trajetórias gêmeas e entrelaçadas, que correspondem à capacidade e à legitimação do estado. Lançar dúvidas sobre sua escala e escopo é, simultaneamente, disputar a santidade de seu propósito e a necessidade moral-espiritual de que ele comande quaisquer recursos e imponha quaisquer restrições legais que possam ser requeridas para cumpri-lo. Mais especificamente, recuar da magnitude do Leviatã é demonstrar insensibilidade à imensidão – de fato, quase infinitude – de culpa racial herdada e ao único imperativo categórico sobrevivente da modernidade senescente – o governo precisa fazer mais. A possibilidade, de fato quase certeza, de que as consequências patológicas do ativismo governamental crônico tenham há muito suplantado os problemas que ele originalmente visava é uma contenção tão completamente mal-adaptada à época da religião democrática que sua insignificância prática é garantida.

Mesmo na esquerda, seria extraordinário encontrar muitos que genuinamente acreditam, após continuada reflexão, que o motor primário da expansão e centralização do governo tenha sido o desejo ardente de fazer o bem (não que intenções importem). Ainda assim, conforme as trajetórias gêmeas se cruzam, tamanho é o choque elétrico do drama moral, saltando o fosso entre o Gólgota racial e o Leviatã intrusivo, que o ceticismo é suspenso, e o grande mito progressista, instalado. A alternativa a mais governo, fazendo cada vez mais, era ficar lá, negligentemente, enquanto eles linchavam outro negro. Esta proposição contém todo o conteúdo essencial da educação progressista americana.

As trajetórias históricas gêmeas de capacidade e propósito estatal podem ser concebidas como um protocolo de tradução, que permite que qualquer restrição recomendada ao poder do governo seja ‘decodificada’ como obstrução maligna da justiça racial. Este sistema de substituições funciona tão suavemente que fornece todo um vocabulário de ‘code-words‘ ou ‘dog-whistles‘ (bipartidários) – ‘welfare’, ‘liberdade de associação’, ‘direitos dos estados’ – garantindo que qualquer elocução inteligível na Dimensão Política Principal (esquerda-direita) ocupe um registro duplo, semi-saturado de evocações raciais. A regressão reacionária cheira a frutos estranhos.

…e isso é antes de se sair do calamitoso século XX. Não foi a Era dos Direitos Civis, mas a ‘Guerra Civil Americana’ (nos termos dos vencedores) ou ‘Guerra entre os Estados’ (naqueles dos vencidos) que primeiro transcodificou indissoluvelmente a questão prática do Leviatã com a dialética racial (negro/branco), estabelecendo o centro de junção do antagonismo político e retórico subsequente. O passo primário indispensável em compreender esta fatalidade serpenteia ao longo de uma estranha diagonal entre o relato estatista mainstream e o revisionista, porque a conflagração que consumou a nação americana no início dos anos 1860 foi inteiramente, mas não exclusivamente, sobre a emancipação da escravidão e sobre direitos dos estados, sem nenhuma ‘causa’ sendo redutível a outra ou suficiente para suprimir as duradouras ambiguidades da guerra. Embora exista algum número de ‘liberais’ felizes em celebrar a consolidação de um poder governamental centralizado na triunfante União, e, simetricamente, um número (bem menor) de neo-confederados apologistas da instituição da escravidão nos estados do sul, nenhuma dessas posições não conflituosas capturam o legado cultural dinâmico de uma guerra através dos códigos.

A guerra é um nó. Ao dissociar, na prática, a liberdade em emancipação e independência e então arremessar uma contra a outra em meia década de carnificina, azul contra cinza, estabeleceu-se que a liberdade seria quebrada no campo de batalha, qualquer que fosse o resultado do conflito. A vitória da União determinou que o sentido emancipatório da liberdade prevaleceria, não apenas na América, mas ao redor do mundo, e o eventual reino da Catedral foi garantido. Não obstante, o esmagamento da segunda guerra de secessão da América fez piada da primeira. Se a instituição da escravidão deslegitimava uma guerra de independência, o que sobrevivia de 1776? A coerência moral da causa da União exigia que os fundadores fossem reconcebidos como proprietários de escravos brancos patriarcais politicamente ilegítimos e a história americana comburida na educação progressista e nas guerras culturais.

Se a independência é a ideologia dos donos de escravos, a emancipação requer a destruição programática da independência. Dentro de uma história transcodificada, a efetuação da liberdade é indistinguível de sua abolição.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4d

Parte 4d: Casamentos Esquisitos

As origens da palavra ‘cracker‘ enquanto termo de ridicularização étnica são distantes e obscuras. Ela parece já ter circulado, como um insulto contra brancos pobres sulistas, de ascendência predominantemente celta, no meio do século XVIII, derivada talvez de ‘corn-cracker‘ (máquina de descascar milho) ou do escocês-irlandês ‘crack’ (gracejo). O rico aspecto semântico do termo, inextricável da identificação de elaboradas características raciais, culturais e de classe, é comparável àquela de sua imencionável prima obscura – “the ‘N-word” – e extrai do mesmo poço de verdades geralmente reconhecidas, mas proibidas. Em particular, e enfaticamente, ela atesta o truísmo ilícito de que as pessoas ficam mais excitadas e animadas com suas diferenças do que com seus pontos em comum, ‘apegando-se amargamente’ – ou pelo menos tenazmente – à sua não-uniformidade e resistindo obstinadamente às categorias universais da administração populacional iluminada. Os crackers são areia na engrenagem do progresso.

As características mais deleitáveis do insulto, contudo, são inteiramente fortuitas (ou qabalísticas). ‘Crackers‘ quebram códigos, cofres, compostos químicos orgânicos – sistemas selados ou delimitados de todos os tipos – com eventuais implicações geopolíticas. Eles antecipam um crack-up (uma rachadura), uma cisma ou secessão, confirmando sua associação com a corrente subterrânea desintegradora anatematizada da história anglófona. Não é nenhum surpresa, então – a despeito de saltos e falhas linguísticas – que a figura do cracker recalcitrante evoque um Sul ainda não pacificado, insubordinado ao destino manifesto da União. Isto o retorna, por curto-circuito, às profundezas mais problemáticas de seu significado.

Contradições exigem resolução, mas cracks (rachaduras) podem continuar a se alargar, se aprofundar e se espalhar. De acordo com o ethos cracker, quando as coisas desmoronam – está tudo OK. Não há qualquer necessidade de se chegar a um acordo, quando é possível se separar. Esta obstinação, perseguida até seu limite, tende ao estereótipo do hill-billy firmado em uma choupana ou trailer enferrujado, nos confins de uma passagem nas montanhas Apalaches, onde todas as transações econômicas são conduzidas em dinheiro (ou moonshine), interações com agentes do governo são conduzidas ao longo do cano de uma espingarda carregada, e a sabedoria antipolítica atemporal é resumida no reflexo do não-pise-em-mim: “Sai do meu quintal”. Naturalmente, esse desdém pelo debate integrador (dialética) é codificado dentro do mainstream da história global anglocêntrica – isto é, do puritanismo evangélico ianque – como uma deficiência não apenas de sofisticação cultural, mas também de inteligência básica, e mesmo o mais escrupuloso adepto da retidão construtivista social imediatamente se reverte a uma psicometria hereditária dura quando confrontado com a obstinação do cracker. Para aqueles a quem uma ampla tendência de progresso sociopolítico parece um fato simples e incontestável, a recusa de se reconhecer qualquer coisa do tipo é percebida como clara evidência de retardamento.

Uma vez que estereótipos geralmente têm um elevado valor de verdade estatística, é mais do que possível que os crackers estejam fortemente aglomerados à esquerda da curva de sino de QI dos brancos, concentrados ali por gerações de pressão disgênica. Se, como Charles Murray argumenta, a eficiência da seleção meritocrática dentro da sociedade americana tem crescido constantemente e conspirado com o acasalamento preferencial para transformar diferenças de classe em castas genéticas, seria extraordinariamente estranho se o estrato cracker fosse caracterizado por uma conspícua elevação cognitiva. Ainda assim, alguma questões estranhamente intrigantes intervém neste ponto, contanto que se persiga diligentemente o estereótipo. Acasalamento preferencial? Como isso pode funcionar quando os crackers se casam com seus primos? Ah sim, tem isso. Baseando-se em grupos populacionais de além do noroeste da Linha de Hajnal, os padrões de parentesco tradicionais dos crackers são notavelmente atípicos à norma exogâmica anglo-saxã (WASP).

A incansável ‘hbdchick‘ é o recurso crucial sobre este tópico. Ao longo do curso de uma série verdadeiramente monumental de posts no seu blog, ela emprega ferramentas conceituais hamiltonianas para investigar a zona fronteiriça onde natureza e cultura se interceptam, incluindo estruturas de parentesco, as diferenciações que elas requerem no cálculo da aptidão inclusiva e os perfis étnicos distintivos na psicologia evolutiva do altruísmo que daí resultam. Em particular, ela dirige atenção à anormalidade da história (do Noroeste) da Europa, onde a exogamia obrigatória – através de uma rigorosa proscrição do casamento entre primos – prevaleceu por 1600 anos. Esta distintiva orientação à exogamia, ela sugere, explica de forma plausível uma variedade de peculiaridades bio-culturais, a mais historicamente significativa das quais é uma singular preeminência do altruísmo recíproco (sobre o familial), como indicado pelo individualismo enfático, famílias nucleares, uma afinidade com instituições ‘corporativas’ (livres de parentesco), relacionamentos contratuais altamente desenvolvidos entre estranhos, níveis relativamente baixos de nepotismo / corrupção e formas robustas de coesão social independente de vínculos tribais.

A endogamia, em contraste, cria um ambiente seletivo que favorece o coletivismo tribal, sistemas estendidos de lealdade e honra familiar, desconfiança para com não aparentados e instituições impessoais e – em geral – aqueles traços ‘clânicos’ que se entrosam desconfortavelmente com os principais valores da modernidade (eurocêntrica) e são, assim, denunciados por sua ‘xenofobia’ e ‘corrupção’ primitivas. Valores clânicos, claro, são criados em clãs, tais como aqueles que populam a franja celta da Grã-Bretanha e suas terras fronteiriças, onde o casamento entre primos persistiu, junto com suas formas socioeconômicas e culturais associadas, em especial o pastoreio (em vez da agricultura) e uma disposição para a violência extrema e vingativa.

Esta análise introduz o paradoxo central da ‘identidade branca’, uma vez que os traços étnicos especificamente europeus que estruturaram a ordem moral da modernidade, inclinando-a para longe do tribalismo e em direção ao altruísmo recíproco, são inseparáveis de uma herança singular de exogamia que é intrinsecamente corrosiva para a solidariedade etnocêntrica. Em outras palavras: é quase exatamente o agrupamento étnico fraco que torna um grupo etnicamente modernista, competente na construção de instituições ‘corporativas’ (não familiais) e, assim, objetivamente privilegiado / favorecido dentro da dinâmica da modernidade.

Esse paradoxo é mais completamente expresso nas formas radicais do renascimento etnocêntrico europeu exemplificado pelo paleo- e pelo neo-nazismo, que confundem igualmente seus proponentes e antagonistas. Quando uma ‘traição da raça’ excepcionalmente avançada é sua característica racial quintessencial, a oportunidade para uma política etno-supremacista viável desaparece em um abismo lógico – mesmo que ocasiões para a criação de problemas em larga escala sem dúvida continuem a existir. Admitidamente, um nazista, por definição, está disposto a (e ansioso por) sacrificar a modernidade no altar da pureza racial, mas isto é ou não entender ou tragicamente afirmar a consequência inevitável – que é ser superado na modernização (e, assim, derrotado). A política identitária é para perdedores, inerente e inalteravelmente, devido a um caráter essencialmente parasitário que só funciona vindo da esquerda. É porque a endogamia sistematicamente contra-indica o poder moderno que Übermenschen raciais não fazem qualquer sentido real.

Em todo caso, não importa o quão infinitamente fascinantes os nazistas possam ser, eles não são qualquer tipo de chave confiável para a história ou a direção da cultura cracker, para além de estabelecer um limite lógico à construção e ao uso pragmáticos da política identitária branca. Tatuar suásticas em suas testas não faz nada para mudar isso. (Hetfields vs. McCoys é mais pushtu do que teutônico.)

A conjunção que tem lugar na Fábrica de Crackers é bastante diferente, e bem mais desconcertante, enredando os defensores urbanos e cosmopolitas da mercantilização hiper-contratariana com tradicionalistas românticos, etno-particularistas e nostálgicos da ‘Causa Perdida’. É primeiro necessário entender este enredamento em toda sua esquisitice fundidora de mentes, antes de explorar suas lições. Para isso, alguns dados pontuais simples e semi-aleatórios podem ser úteis:

* O Mises Institute foi fundado em Auburn, Alabama.

* Os boletins informativos de Ron Paul na década de 1980 contêm observações de um matiz decididamente derbyshireano.

* Derbyshire ama Ron Paul.

* Murray Rothbard escreveu em defesa da BDH.

* Os contribuídores do lewrockwell.com incluem Thomas J. DiLorenzo e Thomas Woods.

* Tom Palmer não ama Lew Rockwell ou Hans-Herman Hoppe porque “Juntos Eles Abriram os Portões do Inferno e Acolheram os Mais Extremos Racistas, Nacionalistas e Charlatães Variados da Direita”

* Libertários / constitucionalistas representam 20% da lista de observação ‘Direita Radical’ do SPLC (Chuck Baldwin, Michael Boldin, Tom DeWeese, Alex Jones, Cliff Kincaid e Elmer Stewart Rhodes)

…talvez isso seja o suficiente para se prosseguir (embora haja bem mais de fácil alcance). Esses pontos foram selecionados, questionavelmente, cruamente e perniciosamente para emprestar um suporte impressionista a uma única tese básica: forças sócio-históricas fundamentais estão crackerizando o libertarianismo.

Se as conclusões preliminares da pesquisa tiradas pela hbdchick forem aceitas como um frame, a estranheza desse casamento entre temas libertários e neo-confederados é imediatamente aparente. Quando posicionados sobre um eixo bio-cultural, definido por graus de exogamia, a ausência de sobreposição – ou sequer proximidade – é dramaticamente exposta. Um polo é ocupado por uma doutrina radicalmente individualista, focada quase exclusivamente em redes mutáveis de intercâmbio voluntário de um tipo econômico (e notoriamente insensível à própria existência de vínculos sociais não negociáveis). Próximo do outro polo está uma rica cultura de apego local, família estendida, honra, desprezo pelos valores comerciais e desconfiança de estranhos. A racionalidade destilada do capitalismo fluído é justaposta à hierarquia tradicional e ao valor não alienável. A priorização absoluta da saída é embaralhada em meio a comportamentos tradicionais dos quais nenhuma saída é sequer imaginável.

Grampear os dois juntos, contudo, é uma conclusão simples e cada vez mais irresistível: a liberdade não têm nenhum futuro no mundo anglófono fora do prospecto da secessão. O crack-up vindouro é o único caminho para fora.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4c

Parte 4c: A Fábrica de Crackers

Em um certo sentido, viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, eles estavam assinando uma nota promissória da qual todo americano seria herdeiro. Esta nota era uma promessa de que todos os homens – sim, homens negros tanto quanto homens brancos – teriam garantidos os direitos inalienáveis da vida, da liberdade e da busca pela felicidade. É óbvio hoje que a América deu um calote nessa nota promissória, naquilo que concerne seus cidadãos de cor. Em vez de honrar essa obrigação sagrada, a América deu às pessoas Negras um cheque ruim, um cheque que voltou marcado “fundos insuficientes”.
Martin Luther King Jr.

O conservadorismo… é um movimento de pessoas brancas, não obstante uma dispersão de discrepantes. Sempre foi, sempre será. Eu já participei de pelo menos uma centena de encontros, conferências, cruzeiros e comemorações conservadoras: deixe eu lhe contar, não há muitas passas neste pão. Eu entrei e saí dos escritórios da National Review por doze anos e a única pessoa negra que via lá, além de quando Herman Cain vinha chamar, era Alex, o cara que operava a sala de correspondência. (Ei, Alex!)
Isso não é porque o conservadorismo é hostil a negros e mestiços. Muito pelo contrário, especialmente no caso do Conservadorismo S/A. Eles bajulam o ocasional não-branco com uma deferência de filhote que, honestamente, enevoa o ar com embaraço. (P: Como você chama o cara negro num encontro de 1000 Republicanos? R: “Sr. Presidente.”)
É só que os ideais conservadores como autossuficiência e dependência mínima do governo não têm qualquer apelo com as minorias com baixo desempenho – grupos que, na generalidade estatística, estão aquém dos atributos que contribuem para o sucesso do grupo em uma nação comercial moderna.
De que lhes serviria adotar tais ideais? Eles acabariam ainda mais decisivamente reunidos na parte de baixo da sociedade do que estão atualmente.
Uma estratégia muito melhor para eles é se aliar a tantos subgrupos descontentes de brancos e asiáticos quanto conseguirem (homossexuais, feministas, sindicatos de fim de carreira), alcançar maiorias eleitorais e instituir grandes governos redistributivistas para lhes dar empregos de faz de conta e transferir riqueza de grupos bem-sucedidos para eles.
Que é o que, muito racional e sensatamente, eles fazem.
John Derbyshire

Neo-secessionistas estão em todo lugar ao nosso redor… e a liberdade de expressão lhes dá um cobertor confortável de proteção. Rick Perry insinuando que o Texas poderia se separar em vez de aderir à lei federal do sistema de saúde, Todd Palin pertencendo a uma associação política que advoga a secessão do Alaska, e Sharron Angle falando sobre ‘remédio da segunda emenda’ para lidar com disputas com autoridades federais são todos exemplos de uma retórica secessionista perigosa que permeia o discurso moderno. A mídia foca nossa atenção em reencenadores da Guerra Civil e picapes com bandeiras confederadas esvoaçando sobre elas. Mas figuras públicas são influenciadas também, por acadêmicos que lutam para perpetuar um tipo muito perigoso de revisionismo.
Practically Historical

Afro-Americanos são a consciência do nosso país.
– comentador ‘surfed’ no blog de Walter Russell Mead (editado pela ortografia)

O ‘pecado original’ racial da América foi fundacional, datando de antes do nascimento dos Estados Unidos, à limpeza dos povos aborígenes pelos colonizadores europeus e – de forma ainda mais saliente – à instituição da escravidão. Esta é a história do Velho Testamento das relações entre brancos e negros americanos, definida em uma narrativa providencial de escapada do cativeiro, na qual documentação factual e exortação moral estão indissoluvelmente fundidas. A combinação de um abuso social prolongado e intenso, em um padrão estabelecido pela Torá, recapitulando o mito moral-político primordial da tradição ocidental, instalou a estória de escravidão e emancipação como o quadro insuperável da experiência histórica americana: deixe meu povo ir.

‘Practically Historical’ (citado acima), cita Lincoln sobre a Guerra Civil:

Ainda assim, se Deus quiser que continue até que toda a riqueza pilhada pelos duzentos e cinquenta anos de trabalho não recompensado do escravo seja afundada e até que cada gota de sangue extraída com o chicote seja paga por uma outra extraída com a espada, como foi dito três mil anos atrás, assim ainda deverá ser dito “os julgamentos do Senhor são verdadeiros e inteiramente justos”.

O Novo Testamento da raça na América foi escrito nos anos 1960, revisando e especificando o modelo. A combinação do Movimento dos Direitos Civis, com a Lei de Imigração e Nacionalidade de 1965 e a Estratégia Sulista Republicana (apelar para brancos insatisfeitos nos estados da antiga Confederação) forjou um identificação partidária entre Negros e o Partido Democrata que equivalia a um renascimento liberal-progressista, estabelecendo os termos de uma polarização racial partidária que durou – e mesmo se fortaleceu – ao longo das décadas subsequentes. Para um movimento progressista comprometido por uma história de racismo eugenista sistemático, e um Partido Democrata tradicionalmente alinhado com obstinação sulista e com a Ku Klux Klan, a era dos direitos civis apresentou uma oportunidade de expiação, purificação ritual e redenção.

Reciprocamente, para o conservadorismo americano (e seu veículo cada vez mais sem direção que era o Partido Republicano), esta progressão significou uma morte prolongada, por razões que continuam a eludi-lo. A Ideia da América agora era inextricável de uma renúncia veemente do passado e mesmo do presente, na medida em que o passado ainda o moldava. Apenas uma ‘união cada vez mais perfeita’ poderia se conformar a ela. No nível mais superficial, as implicações partidárias mais amplas da nova ordem eram inequívocas, em um país que estava se tornando cada vez mais democrático e cada vez menos republicano, com a soberania efetiva concentrada nacionalmente no executivo, e a urgência moral de um governo ativista instalada como um princípio de fé. Para o que já havia se tornado a ‘Old Right’, não havia saída ou retorno, porque o caminho para trás cruzava o horizonte de eventos do movimento dos direitos civis, para dentro de tratos de impossibilidade política cujo significado derradeiro era escravidão.

A esquerda prospera na dialética, a direita perece através dela. Na medida em que há uma lógica pura da política, ela é essa. Uma consequência imediata (repetidamente enfatizada por Mencius Moldbug) é que o progressismo não tem inimigos à esquerda. Ele reconhece apenas idealistas, cujo tempo ainda não chegou. Conflitos facciosos na esquerda são politicamente dinâmicos, celebrados por seu potencial motriz. O conservadorismo, em contraste, está preso entre a cruz e a espada: espancado à esquerda pelo rolo compressor do estatismo pós-constitucional e agitado à ‘direita’ por tendências incoerentes que são tanto inassimiláveis (ao mainstream) quanto muitas vezes mutuamente incompatíveis, indo desde variedades extremas (austro-libertárias) de defesas capitalistas laissez-faire até estirpes de tradicionalismo social obstinado e teologicamente fundamentado, ultra-nacionalismo ou política identitária branca.

‘A direita’ não tem nenhuma unidade, real ou prospectiva e, assim, não tem nenhuma definição simétrica àquela da esquerda. É por esta razão que a dialética política (uma tautologia) gira em apenas uma direção, previsivelmente, à expansão do estado e a um ideal igualitário substancial cada vez mais coercitivo. A direita se move para o centro, e o centro se move para a esquerda.

Independentemente das fantasias conservadoras mainstream, o controle liberal-progressista da providência americana se tornou incontestável, dominado por uma dialética racial que absorve contradições ilimitadas, ao passo que posiciona a subclasse afro-americana como a crítica encarnada da ordem social existente, o critério de emancipação e o único caminho para a salvação coletiva. Nenhuma estrutura alternativa de inteligibilidade histórica é politicamente tolerável ou mesmo – estritamente falando – imaginável, uma vez que a resistência à narrativa é anti-americana, antissocial e (claro) racista, servindo apenas para confirmar a existência de uma opressão racial sistemática através da violência simbólica manifesta em sua negação. Argumentar contra ela já é prová-la correta, ao demonstrar concretamente as mesmas forças ignorantes de atraso social que estão sendo verbalmente negadas. Ao resistir à demanda por reeducação social orquestrada, os boçais “amargurados” apenas demonstram o quando ainda há a se fazer.

Em sua forma mais abstrata e abrangente, a dialética liberal-progressista racial abole o seu exterior, junto com qualquer possibilidade de uma consistência de princípios. Ela afirma – a um e mesmo tempo – que a raça não existe e que sua pseudo-existência socialmente construída é um instrumento de violência interracial. O reconhecimento racial é tanto obrigatório quanto proibido. Identidades raciais são meticulosamente catalogadas para propósitos de remediação social, detecção de crimes de ódio e estudos de impacto desigual, que visam grupos para ‘discriminação positiva’, ‘ação afirmativa’ ou ‘promoção de diversidade’ (para listar estes termos em sua ordem aproximada de substituição histórica), mesmo enquanto são denunciadas como sem sentido (pelas Nações Unidas, não menos) e descartadas como estereótipos maliciosos, que não correspondem a nada real. Sensibilidade racial extrema e dessensibilização racial absoluta são exigidas simultaneamente. Raça é tudo e nada. Não há saída.

O conservadorismo é dialeticamente incompetente por definição e tão abjetamente sem noção que ele se imagina sendo capaz de explorar essas contradições, ou – em sua formulação iludida – dissonância cognitiva liberal. Os conservadores que triunfantemente apontam tais inconsistência parecem nunca ter passado os olhos na produção de um programa contemporâneo de humanidades, no qual grossas jangadas de vitimização internamente conflitante são amavelmente tecidas a partir de queixas incompatíveis, a fim de exultar na promessa progressista radical de suas lamentações discordantes. A inconsistência é combustível para a Catedral, exigindo argumentação ativista e realizações cada vez mais elevadas de unidade. O debate público integrador sempre movimenta as coisas para a esquerda – isso poderia não parecer um ponto especialmente difícil de se compreender, mas entendê-lo é expor a futilidade fundamental do conservadorismo mainstream, e isso não é do interesse de quase ninguém, então não será entendido.

O conservadorismo é incapaz de uma dialética funcional, ou contradição simultânea, mas isso não o impede de servir ao progresso (pelo contrário). Em vez de celebrar o poder da inconsistência, ele tropeça por entre as contradições, descomprimido, em sucessão, à maneira de uma exibição de fósseis e de uma folha. Depois de “ficar na frente da história, gritando ‘Pare!'” durante a Era dos Direitos Civis e, assim, banindo-se eternamente à danação racial, o mainstream conservador (e Republicano) reverteu o curso, apoderando-se de Martin Luther King Jr. como uma parte integral de seu cânone e buscando se harmonizar com “um sonho profundamente enraizado no sonho americano”.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais”.

Eu tenho um sonho que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Cativado pelo apelo de King ao tradicionalismo constitucional e bíblico, por sua rejeição da violência política e por seus hinos desinibidos à liberdade, o conservadorismo americano gradualmente veio a se identificar com seu sonho de reconciliação e cegueira racial e a aceitá-lo como o significado verdadeiro e providencial de seus próprios documentos mais sagrados. Pelo menos, esta veio a ser a ortodoxia conservadora mainstream e pública, muito embora ela tenha se consolidado tarde demais para neutralizar suspeitas de insinceridade, falhado quase inteiramente em convencer a própria demografia negra e continuasse aberta a um escárnio escalante vindo da esquerda por seu formalismo vazio.

Tão convincente foi a reafirmação de King do Credo Americano que, em retrospectiva, seu triunfo sobre o mainstream político parece simplesmente inevitável. Quanto mais o conservadorismo americano se afastou do racionalismo maçônico dos fundadores, na direção da religiosidade bíblica, tanto mais indistinguível sua fé se tornou de uma experiência americana negra, miticamente articulada através do Êxodo, no qual o quadro básico da história era de uma escapada do cativeiro, levada em direção a um futuro em que “todos os filhos de Deus – homens negros e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos – poderão juntar as mãos e cantar na palavras do antigo hino negro: ‘Livre afinal! Livre afinal! Graças ao Deus Todo-Poderoso, somos livres afinal!”

A genialidade da mensagem de King está em seu extraordinário poder de integração. A fuga dos hebreus do Egito, a Guerra de Independência Americana, a abolição da escravidão na esteira da Guerra Civil Americana e as aspirações da era dos direitos civis foram miticamente comprimidas em um único episódio arquetípico, perfeitamente consoante com o Credo Americano e levado adiante não apenas por sua força moral irresistível, mas mesmo por um decreto divino. A medida desta genialidade integradora, contudo, é a complexidade que ela domina. Um século após a “alegre alvorada” da emancipação da escravidão, King declara, “o Negro ainda não é livre”.

Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é tristemente paralisada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro vive em uma ilha solitária de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda está lânguido nos cantos da sociedade americana e se descobre um exilado em sua própria terra.

A estória do Êxodo é saída, a Guerra de Independência é saída e a emancipação da escravidão é saída, especialmente quando isto é exemplificado pelo Underground Railroad e pelo modelo de auto-liberação, escapada, ou fuga. Ser ‘algemado’ pela segregação, ‘acorrentado’ pela discriminação, estar preso em uma ‘ilha solitária de pobreza’ ou ser ‘exilado’ em sua ‘própria terra’, em contraste, não tem qualquer relação que seja com a saída, além daquela que uma fascinante metáfora possa alcançar. Não há nenhuma saída para a integração e aceitação social, para a prosperidade igualmente distribuída, para a participação pública ou para a assimilação, mas apenas uma aspiração, ou um sonho, refém do fato e da fortuna. Como a esquerda e a direita reacionária foram rápidas em notar, na medida em que esse sonho se aventura significantemente para além de um direito à igualdade formal e para dentro do reino de um remédio político substancial, ele é um sonho a que a direita não tem nenhum direito.

Na sequência imediata do caso John Derbyshire, Jessica Valenti, no blog da The Nation faz o ponto de maneira clara:

… isso não é apenas sobre quem escreveu o que – é sobre as políticas intensamente racista que são típicas do conservadorismo. Algumas pessoas gostariam de acreditar que o racismo é apenas a discriminação explícita e dita em voz alta e o ódio que é facilmente identificável. Não é – é também empurrar políticas xenofóbicas e apoiar a desigualdade sistêmica. Afinal, o que é mais impactante – um racista singular como Derbyshire ou a lei de imigração do Arizona? Uma coluna ou a supressão de eleitores? Livrar-se de um racista de uma publicação não muda o fato de que a agenda conservadora é uma que pune desproporcionalmente e discrimina as pessoas de cor. Então, sinto muito, pessoal – você não pode apoiar a desigualdade estrutural e depois se dar um tapinha nas costas por não ser abertamente racista.

A ‘agenda conservadora’ não pode jamais ser sonhadora (esperançosa e inconsistente) o suficiente para escapar das acusações de racismo – isso é intrínseco à maneira em que a dialética racial funciona. Políticas amplamente compatíveis com o desenvolvimento capitalista, orientadas à recompensa da baixa preferência temporal e, assim, à punição da impulsividade, confiantemente terão um pacto desigual sobre os grupos sociais menos economicamente funcionais. Claro, a dialética demanda que o aspecto racial deste impacto desigual possa e deva ser fortemente enfatizado (para o propósito de condenar incentivos à formação de capital humano como racistas) e, ao mesmo tempo, forçosamente negado (a fim de denunciar exatamente a mesma observação como estereótipo racista). Qualquer um que espere que os conservadores naveguem este dilema com agilidade política e graça deve, de alguma forma, ter perdido o final do século XX. Por exemplo, os idiotas perdedores condenados conservadores do Washington Examiner, notando alarmados que:

Os Democratas da Câmara receberam treinamento esta semana sobre como abordar a questão da raça para defender programas governamentais… O conteúdo preparado de uma apresentação na terça-feira para o Caucus Democrata da Câmara e seu pessoal indica que os Democratas buscarão retratar a retórica de livre mercado aparentemente neutra como sendo carregada de viés racial, consciente ou inconsciente.

Não há versões alternativas a uma união cada vez mais perfeita, porque uma união é a alternativa às alternativas. Buscar onde as alternativas poderiam outrora terem sido encontradas, onde a liberdade ainda significava saída e onde a dialética era dissolvida no espaço, leva para dentro de uma casa de horrores de palhaços, fabricada como a sombra, ou cara-metade, da Catedral. Uma vez que a direita nunca teve uma unidade própria, deu-se uma a ela. Chame-a de Fábrica de Crackers.

Quando James C. Bennett, em The Anglosphere Challenge, buscou identificar as principais características culturais do mundo de língua inglesa, a lista resultante era geralmente familiar. Ela incluída, além da própria língua, tradições do direito comum, individualismo, níveis comparativamente altos de abertura econômica e tecnológica e reservas distintamente enfáticas sobre o poder político centralizado. Talvez a característica mais impressionante, contudo, seja uma tendência cultural marcante de se resolver discordâncias no espaço, em vez de no tempo, optando por cisma territorial, separatismo, independência e fuga, no lugar de transformação revolucionária dentro de um território integrado. Quando os anglófonos discordam, eles frequentemente buscaram se dissociar no espaço. Em vez de um resolução integral (mudança de regime), eles buscam uma irresolução plural (através da divisão de regimes), proliferando estados, localizando o poder e diversificando sistemas de governo. Mesmo em sua forma presente e altamente atenuada, esta predisposição anti-dialética e dessintetizadora à desagregação social encontra expressão em uma hostilidade teimosa e sussurrante aos projetos políticos globalistas e em uma atração vestigial ao federalismo (em seu sentido fissional).

Dividir-se, ou fugir, é tudo saída e anti-dialética (não recuperável). É a fonte básica da liberdade dentro da tradição anglófona. Se a função de uma Fábrica de Crackers é bloquear todas as saídas, há um único lugar para construí-la – bem aqui.

Como o Inferno, ou Auschwitz, a Fábrica de Crackers tem um slogan simples inscrito em seu portão: Escapar é racista. É por isto que a expressão ‘white flight’ – que diz exatamente a mesma coisa – nunca foi denunciada por ser politicamente incorreta, apesar do fato de que ela se baseia numa generalização estatística étnica do tipo que, em qualquer outro caso, provocaria paroxismos de indignação. O ‘white flight’ não é mais ‘branco’ do que a baixa preferência temporal, mas esta insensibilidade de pincel largo é considerada aceitável, porque apoia estruturalmente a Fábrica de Crackers e a indispensável confusão da antiga liberdade (negativa) com o pecado original (racial).

Você absolutamente, definitivamente, não deve ir lá … então, é claro, nós vamos … [a seguir].

Original.