A Espiral do Tempo

Na Nota do Autor ao Oracle Bones (2006, com o subtítulo de ‘A Journey Between China’s Past and Present’, “Uma Jornada Entre o Passado e o Presente da China”) de Peter Hassler, explica-se que:

Os principais capítulos desse livro estão arranjados de maneira cronológica, mas as seções curtas rotuladas de ‘artefatos’ não estão. Elas refletem um sentido mais profundo do tempo — as maneiras na quais as pessoas fazem sentido da história depois que ela recuou ainda mais no passado.

Conforme o tempo avança, o passado recua. A modernidade, contudo, é mais do que isso. Ela é a própria escavação do passado através da aceleração até o futuro, um processo de descoberta, recuperação e dilação, através do qual o passado é explosivamente expandido. Como Hessler percebe, os Ossos Oraculares (“Oracle Bones”), que ligam de maneira indissolúvel a recuperação da história profunda da China com sua ativação da modernidade, fornecem uma ilustração exemplar disso.

Ainda assim, a modernidade, consolidada sobre os fundamentos europeus, tem desprezado a história chinesa, vendo apenas escala sem padrão:

Na visão tradicional do passado chinês, não há nenhum equivalente da queda de Roma, nenhuma Renascença, nenhum Iluminismo, imperador sucede imperador, e dinastia segue dinastia. A história como papel de parede.

Em uma loja de presentes de um museu de Nanjing, Hessler vislumbra um modelo alternativo:

Em um museu de Nanjing, eu comprei um cartaz rotulado ESBOÇO DA HISTÓRIA ANTIGA DA CHINA. O cartaz apresentava uma linha do tempo torcida na forma de uma espiral. Tudo começava no centro, em um ponto minúsculo identificado como ‘Homem-Macaco de Yuanmou’. Depois do Homem-macaco de Yuanmou (aproximadamente 1.7 milhões de anos atrás), a linha do tempo passava pelo Homem de Pequim e então fazia uma curva abrupta. Por volta da dinastia Xia, a espiral havia completado um círculo completo. As dinastias Shang e Zhou completavam uma segunda revolução. A espiral ficava maior com cada volta, como se pegasse velocidade. Quando quer que algo acabasse — uma dinastia, um estado guerreiro – a espiral era marcada com uma linha e um X preto, e então algo novo tomava seu lugar. Não haviam ramos ou becos sem saída. A partir do Homem-macaco de Yuanmou, levou-se três voltas da espiral para se chegar à revolução de 1911, onde a linha do tempo finalmente quebrava o ciclo, ficava reta e apontava diretamente para cima e para fora da página.

Seja dobrando a linha história do tempo, ou expandindo uma concha de caracol, a espiral sintetiza repetição e crescimento. Ela descreve um escalonamento cíclico que escapa — ou precede — o antagonismo entre tradição e progresso, elucidando a restauração como algo além de um simples retorno.

Esta é uma questão de inelutável importância, porque a história da modernidade está rapidamente se tornando chinesa, e a história chinesa não é um ‘papel de parede’ serpenteando, mas Restauração Confucionista, em conformidade com três grandes ondas, cada uma delas uma volta da espiral, ou Giro. Seguindo a era clássica da China, e o renascimento da tradição filosófica na Dinastia Song, a terceira época confucionista, ou segunda Restauração Confucionista, está em andamento, coincidindo de maneira exata com a renascença da Modernidade Global (como ‘Modernidade 2.0’). Conforme o futuro e o passado evoluem — ou involuem — juntos, a espiral do tempo é nossa guia.

Original.

Urbano Futuro (2.1)

Em comparação com o registro do caos sísmico que leva a este ponto, a transição final do Urbano Futuro para uma plataforma WordPress conveniente e confiável é um tremor pouco discernível. Todo o material postado no agora defunto site Joomla foi transferido para cá, em alguns casos amalgamado, ou anotado.

Em resposta ao feedback dos leitores, o template é seriamente sombrio. (Desculpas àquela pequena minoria de leitores que expressaram preferência por um plano de fundo claro.) O sistema de comentários deveria ser amigável e observações civis de qualquer tipo são avidamente bem-vindas, especialmente aquelas que fomentem uma discussão inteligente.

A agenda do UF2.0 permanece inalterada em suas características essenciais:

O Urbano Futuro (2.0) é um lugar para se pensar sobre cidades e o tempo. Baseado em Shanghai — o modelo da ‘cidade do futuro’ — ele se foca especialmente no que está acontecendo aqui e o que isso significa para todos os outros lugares. Este blog está estabelecido no agora, mas o ‘agora’ não tem nenhuma duração fixa.

Mais, talvez, do que qualquer outra cidade no mundo, Shanghai opera seu presente através de memórias e expectativas. O que Shanghai tem sido ainda está explicitamente ocorrendo, no caminho até um destino que há muito foi antecipado. Ela está correndo para encontrar a modernidade absoluta e globalmente incandescente que a atormentou por mais de 150 anos. Pressentimentos obscuros dessa estranha trajetória remontam de ainda antes. Agora ele está mais próximo do que jamais esteve, quase palpável, indicado em uma miríade de sinais.

Conforme a chegada se aproxima, coisas são desencadeadas, ou inflamadas, em uma sucessão cada vez mais rápida. O Urbano Futuro está — mais uma vez — entre elas.

Original.

Tempos Torcidos (Parte 1)

Abe: “Você devia ir pra China.”

Joe: “Estou indo pra França.”

Abe: “Eu sou do futuro. Você devia ir pra China.”/
Looper

No Looper (2012) de Rian Johnson, a cidade de Shanghai volta atrás 30 anos para atrair pessoas. Ao longo dessas décadas, ela se alimenta com base no que ela deve se tornar: a cidade do futuro. Quando comparado a isto, tudo o mais que acontece no filme é mera distração, mas não chegaremos lá por um tempo.

Estranho o bastante, ‘tudo o mais’ deveria ter simplesmente sido tudo. Joe estava indo para Paris, e Shanghai não estava nem no filme. Isso foi antes que as autoridades chinesas dissessem a Johnson que elas cobririam o custo da filmagem em Shanghai, fazendo do filme uma co-produção, com um acesso conveniente ao mercado cinematográfico chinês. O Velho Mundo não tinha nenhuma chance.

Para as audiências americanas, Looper jogou com a tendência da opinião, através de suas visões urbanas contrastantes entre uma Kansas City deteriorada e destruída pelo crime e os esplendores de uma Shanghai ‘futurista’. O filme não responde a questão: Como a América perdeu o futuro? Não obstante, ele aceita a premissa, como algo próximo de um fato pré-instalado.

Ainda assim, se Looper confirmou a direção das atitudes populares americanas, ele marcou uma mudança do lado chinês. Apenas alguns anos antes, a mídia ocidental reportava, com divertimento, que as autoridades radiodifusoras chinesas haviam banido ficções de viagem no tempo das frequências da nação, aparentemente preocupadas que os cidadãos do país estivessem desertando para um passo pré-republicano, sob a influência de narrativas que “casualmente inventam mitos, têm enredos monstruosos e esquisitos, usam táticas absurdas e até mesmo promovem o feudalismo, a superstição, o fatalismo e a reencarnação”. Agora uma estória de viagem no tempo estava sendo ativamente recrutada para fechar um loop de promoção urbana, ligando a imagem internacional de Shanghai a um retrato de uma anomalia retro-crônica. A indústria de viagem no tempo de Shanghai tinha chegado.

Antes de proceder a uma investigação em múltiplos fascículos sobre a Meta-História Topológica circuitos temporais emaranhados, os quais a ‘viagem no tempo’ ilustra apenas enquanto dramatização crua, vale a pena pausar sobre o ‘enredo monstruoso e esquisito’ de Looper. A viagem no tempo tem uma relação singularmente íntima, e sedutoramente mórbida, tanto com a ficção quanto com a história, porque ela embaralha em profundidade o próprio princípio de uma ordem narrativa. Se as autoridades midiáticas ocidentais assumissem o mesmo papel de guardião cultural que tem sido tradicional entre seus pares chineses, elas também poderiam ter sido compelidas a denunciar um gênero que flagrantemente subvertia o princípio fundamental da poética aristotélica: a de que qualquer estória digna de veneração deveria ter um começo, um meio e um fim. Se uma viagem no tempo pode ocorrer, parece (pelo menos inicialmente) que a ordem é uma ilusão, de modo que ficção e realidade trocam de lugar.

De uma perspectiva conservadora, portanto, o conforto deve ser encontrado no flagrante absurdo das estórias de viagem no tempo (na medida em que isso possa ser confinado a um reductio ad absurdam da própria estrutura do loop temporal, em vez de se espalhar para fora como o índice de uma desordem cósmica primordial). Neste aspecto, Looper é um modelo de tranquilização.

O procedimento de viagem no tempo de Looper é monopolizado por um sindicato do crime, que o utiliza exclusivamente para um propósito: o descarte de indivíduos incômodos, que são retornados em 30 anos, a tempo de serem assassinados, em estilo de execução, por assassinos profissionais (sim: “Isso soa bem estúpido”). O absurdo exorbitante desse cenário poderia isentá-lo de uma atenção mais crítica, não fosse ele o sintoma de coisas mais interessantes e a porta de entrada para outras.

O sintoma primeiro: Estruturas temporais não lineares são despedaçadas quase imediatamente uma vez que se permita o transporte de coisas de volta no tempo. A economia de Looper expõe isso com particular clareza. Os assassinos de 2044 são pagos em barras de prata por êxitos ‘comuns’ e em ouro por ‘fechar loops’ ou executar seus retro-depositados eus mais velhos. As barras são enviadas de volta de 2074 e são circuladas através de uma operação de troca interna, que permuta lingotes por papel-moeda (chinês). Embora este circuito temporal cru seja apresentado como um sistema de pagamento, o processo descrito funciona, na verdade, como uma uma máquina de fazer dinheiro de baixo desempenho. Ao utilizá-la, realiza-se o pesadelo derradeiro da economia austríaca ao se imprimir metais preciosos, porque um lingote enviado para trás no tempo é duplicado, ou adicionado a sua instância ‘anterior’ (que já existe no passado). Uma reiteração mecânica do processo garantiria um crescimento exponencial de graça. Não nos é dito o que a organização criminosa de 2074 vê como seu negócio central, mas ele deve ser seriamente lucrativo — emocionante o suficiente, em todo caso, para distraí-los do fato de que sua máquina de ração assassina é realmente um reprodutor rápido de ouro. Eles poderiam tê-la enchido de pás de diamantes, dobrando sua fortuna a cada ‘tempo’, mas decidiram, em vez disso, duplicar os estorvos humanos em 2044. O filme silenciosamente nos pede para suspender nossa impertinente descrença e confiar que eles sabem o que estão fazendo.

O excelente comentário de Mike Dickison sobre Looper descreve sucintamente esse procedimento implícito para riqueza ilimitada, entre outras oportunidades incrivelmente perdidas. Certamente tem que contar como uma crítica do filme que seu frágil quadro de coerência de enredo é dependente da imbecilidade de seus agentes significantes, que cegamente passam tropeçando pelo prospecto de poder total em sua busca implacável de uma mísera extorsão. Este absurdo, como já notado, serve a um propósito conservador: O potencial do loop tem que ser suprimido para sustentar o drama narrativo e a inteligibilidade. A falha básica do filme é que coisas demais foram dadas antes que a maior parte fosse desajeitadamente retirada.

Na ausência de censores controladores, a estória de Johnson reprime a si mesma, de maneira mal-arranjada, cômica e pouco convincente. “Essa merda de viagem no tempo só frita seu cérebro como um ovo”, o Joe mais velho (Bruce Willis) confessa em nome de Johnson. Viagens no tempo liberadas são um anti-enredo, inconsistente com uma apresentação dramática. (Se você não está disposto a aceitar a palavra de Aristóteles quanto a isso, assistir Primer algumas dúzias de vezes deveria esclarecê-lo.) Destroços narrativos são o que viagens no tempo fazem.

O absurdo da viagem no tempo é uma escolha. É uma decisão tomada, de maneira pelo menos semi-deliberada, por razões conservadoras e protetoras, porque a alternativa seria a ruína. Mesmo a representação de uma anomalia temporal radicalmente não linear) pela ‘viagem no tempo’ é um indicador disso, uma vez que ela é programada pela preservação de uma função narrativa (o ‘viajante no tempo’), independente de custos conceituais. Muito antes a confusão incoerente de duplicação de matéria, proliferação de linhas do tempo, vertentes imunizadas de memória pessoal e a inibição arbitrária de potencialidades do que uma desordem narrativa absoluta, loops de destino, a aniquilação da agência e a emergência de uma consistência alienígena que subverte todo o significado histórico.

Se a máscara da viagem no tempo escorregou o bastante para expor alguma pista do intolerável emaranhado por baixo, estamos prontos para tomar o próximo passo…

(Isso vai ajudar.)

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Uma República, Se Você Conseguir Mantê-La

As realizações interligadas de Kurt Gödel, que revolucionaram o entendimento rigoroso da lógica, da aritmética e do tempo, não são de uma natureza que prontamente recebem a aclamação do público. Há, não obstante, uma estória amplamente factual sobre ele que alcançou algum nível notável de popularidade, e é uma que se conecta sugestivamente com as preocupações centrais de sua obra. No website do Institute for Advanced Study (onde Gödel esteve estabelecido de 1940 até sua morte em 1978), a recordação de Oskar Morgenstern sobre o episódio em questão está registrada:

[Gödel], de maneira um tanto animada, me contou que, ao examinar a Constituição, para sua angústia, ele havia encontrado algumas contradições internas e que ele poderia demonstrar como, de uma maneira perfeitamente legal, seria possível que alguém se tornasse ditador e estabelecesse um regime fascista, nunca planejado por aqueles que elaboraram a Constituição. Eu lhe disse que era muito improvável que tais eventos jamais ocorressem, mesmo assumindo que ele estivesse certo, algo do que, claro, eu duvidava.

Mas ele era persistente e, então, tivemos muitas conversas sobre esse ponto em particular. Eu tentei lhe persuadir de que ele deveria evitar levantar tais questões no exame perante o tribunal em Trenton, e eu também contei a Einstein sobre isso: ele ficou horrorizado que tal ideia tivesse ocorrido a Gödel, e ele também lhe disse que não deveria se preocupar com essas coisas, nem discutir a questão.

Muitos meses se passaram e finalmente a data do exame em Trenton chegou. Naquele dia em particular, eu busquei Gödel com meu carro. Ele sentou atrás e então fomos buscar Einstein em sua casa na Mercer Street e dali dirigimos até Trenton. Enquanto dirigíamos, Einstein se virou um pouco e disse, “Ora, Gödel, você realmente está preparado para esse exame?”. Claro, esta observação irritou Gödel tremendamente, que era exatamente o que Einstein pretendia, e ele se divertiu muito quando viu a preocupação no rosto de Gödel.

Quando chegamos a Trenton, fomos conduzidos a uma sala grande e, embora normalmente as testemunhas fossem questionadas separadas do candidato, por causa da aparição de Einstein, uma exceção foi feito e todos os três de nós fomos convidados a nos sentarmos juntos, Gödel no centro. O examinador primeiro interrogou Einstein, depois eu, se pensávamos que Gödel seria um bom cidadão. Nós o asseguramos que este certamente seria o caso, que ele era um homem distinto, etc.

E então ele se voltou para Gödel e disse “Ora, Sr. Gödel, de onde você vem?”

Gödel: De onde eu venho? Da Áustria.

O examinador: Que tipo de governo vocês tinham na Áustria?

Gödel: Era uma república, mas a constituição era tal que finalmente ela foi alterada para uma ditadura.

Examinador: Ah! Isso é muito ruim. Isso não poderia acontecer neste país.

Gödel: Ah, sim, eu posso provar.

Para grande vantagem da inteligência na terra, Gödel não acabou se desqualificando para residência noa EUA através de seu entendimento desastrosamente super-preciso de sua constituição. Evidentemente, apesar de tudo que havia acontecido até 1947, um apego detalhado à constituição ainda não havia se tornado uma crimidéia.

Hoje, um apego enfático à Constituição dos EUA está restrito à franja lunática, isto é, decente do Partido Externo e a exceções ainda mais ranzinzas. Libertários extremos tendem a descartá-la como uma distração, se não uma encarnação maligna da degeneração estatista (quando comparado aos Artigos da Confederação, menos compatíveis com o Leviatã). Realistas reacionários da escola de Moldbug (em todas suas vastas multidões) são pelo menos igualmente desdenhosos, vendo nela pouco mais do que um objeto de fetiche e uma evasão da questão prática atemporal: Quis custodiet ipsos custodes? Se constituições são realisticamente indefensáveis, tanto em princípio quanto como uma questão de fato histórico brutalmente demonstrado, que significância elas poderiam ter para qualquer análise desapaixonada sobre o poder?

Uma vez que a esmagadora maioria das atividades atuais do Governo dos EUA é transparentemente inconstitucional, o argumento cético em grande parte se faz sozinho. Presidentes mobilizam apoio congressional para apontar juízes da Suprema Corte cuja principal qualificação para o cargo é a vontade de conspirar na subversão da constituição, para os aplausos ensurdecedores de um eleitorado devorador de favorecimentos e de seus intermediários lobistas. Como plausivelmente se poderia resistir a isso? Talvez esse fosse o ponto de Gödel.

Na verdade, ninguém realmente sabe qual era o ponto de Gödel. Jeffrey Kegler, que examinou o tópico cuidadosamente, o deixa aberto. “Aparentemente, a ‘inconsistência’ observada por Gödel é simplesmente que a Constituição prevê sua própria alteração”, sugere um Mark Dominus “gravemente desapontado”, que “estivera esperando por algo brilhante e sutil que apenas Gödel tivesse notado”. Dominus tira essa conclusão tentativa a partir de Paradox of Self-Amendment (“Paradoxo da Auto-Emenda”) de Peter Suber, onde mais audaciosamente se afirma:

Kurt Gödel, o logicista austríaco, entendeu que uma CE onipotente continha o risco da tirania. Gödel estudou a constituição dos EUA em preparação para seu exame oral de cidadania em 1948. Ele observou que a CE tinha limitações procedurais, mas nenhuma limitação substantiva; consequentemente, ela podia ser usada para derrubar as instituições democráticas descritas no resto da constituição.

Suber adiciona: “Um desejo de se limitar o poder de emenda, ou de torná-lo mais difícil — o que não é a mesma coisa — demonstra uma desconfiança para com a democracia, ou uma negação de que, em geral, as pessoas merecem o que recebem”. (Voltaremos a isso mais tarde.)

Isso é conceitualmente persuasivo, porque harmoniza as preocupações constitucionais de Gödel com sua preocupação intelectual central: a emergência de inconsistências dentro de sistemas formais auto-referentes. A Cláusula de Emenda (Artigo V, secção 1) é a ocasião para que a constituição fale sobre si mesma e, assim, encontre problemas rigorosamente comparáveis àqueles familiares dos teoremas de incompletude de Gödel na lógica matemática. Apesar da elegância dessa ‘solução’, contudo, não há nenhuma evidência sólida para sustentá-la. Além disso, estruturas auto-referentes podem ser identificadas em inúmeros outros pontos. Por exemplo, a autoridade da Suprema Corte em relação à interpretação constitucional não é um ponto similar de reflexividade, com potencial ilimitado de circularidade e paradoxo? Esta compreensão, em alta consideração entre os neo-reacionários, reconhece que a constituição permite – em princípio – que uma Suprema Corte suficientemente corrupta ‘interprete’ seu caminho até o poder absoluto (em conformidade com uma constituição que foi sublimada em ‘vida’ pura). Na medida em que a constituição permite seu próprio processamento, ela tem que – em última análise – permitir tudo.

Moldbug nos pede para acelerar por entre essa emaranhado formal, cortando o nó górdio. “A soberania é conservada”, ele repete, insistentemente, então as ocasiões em que o poder se compromete a se atar são essencialmente risíveis. É claro que o guardião final da constituição é um ditador constitucionalmente irrestrito. Isso é simplesmente sanidade schimittiana.

Com todo devido desdenho para com o argumentum ad hominem, provavelmente pode se concordar que Gödel não era um tolo, de modo que sua animada identificação de uma falha localizada na Constituição dos EUA merece consideração como exatamente isso (em vez de uma desculpa para jogar no lixo toda a problemática). As ressonâncias formais entre seus argumentos topicamente díspares fornecem um incentivo adicional para desacelerar.

Seja na teoria dos números ou na cosmologia do espaço-tempo, o método de Gödel era avançar a formalização do sistema sob consideração e então testá-lo até a destruição nos ‘loops estranhos’ que ele gerava (paradoxos de auto-referência e viagem no tempo). Em cada caso, demonstrava-se que o sistema permitia casos que ele não poderia consistentemente absorver, abrindo-o a um processo interminável de revisão, ou melhoria técnica. Desta forma, definia-se uma inteligência dinâmica, ou a lógica da imperfeição evolutiva, com uma adequação que era tanto suficiente quanto necessariamente inconclusiva. O que não se fez foi jogar no lixo a própria possibilidade de uma aritmética, de uma lógica matemática ou de uma história cósmica — exceto na medida em que essas eram falsamente identificadas com ídolos de finalidade ou fechamento.

Com base nas esguias evidências disponíveis, a ‘leitura’ que Gödel fez da Constituição dos EUA foi estritamente análoga. Longe de desculpar o abandono do constitucionalismo, ela identificou o projeto constitucional como a única resposta intelectualmente séria ao problema da política (isto é, ao poder sem travas). É uma necessidade lógica sutil que as constituições, como quaisquer sistemas formais de complexidade comparável, não pode ser aperfeiçoada ou consistentemente completada. Em outras palavras, como Benjamin Franklin reconheceu, qualquer república é precária. Nada necessariamente se segue disso, mas uma série de coisas poderia.

De forma mais abrupta, pode-se contemplar a criança enferma com tristeza, antes de se abandoná-la na encosta aos lobos. Quase todas as vozes interessantes na direita parecem estar indo nessa direção. Constituições são uma piada desagradável.

Alternativamente, o constitucionalismo poderia ser elevado a um novo nível de dignidade cultural, condizente com seu status enquanto único modelo de governo republicano, ou política verdadeiramente lógica. Isto exigiria, primeiro de tudo, que a necessidade de modificação constitucional fosse reconhecida apenas quando tal modificação tornasse a constituição mais forte, em termos puramente formais, ou sistêmicos. No caso dos EUA, a primeira indicação de tal abordagem seria uma emenda ao próprio Artigo Quinto, a fim de especificar que emendas constitucionais são toleradas apenas quando elas satisfazem critérios de melhoria formal, legitimados em termos exatos e matemáticos, de acordo com padrões de prova não diferentes daqueles aplicáveis a argumentos absolutamente incontroversos (teoremas). O projeto constitucional seria subordinado à matemática aplicada, como uma subsecção da teoria do controle não linear.

Sob essas (improváveis) circunstâncias, o propósito da constituição é se sustentar e, assim, à República. Enquanto objeto matemático, a constituição é maximamente simples, consistente, necessariamente incompleta e interpretável como um modelo de lei natural. A autoridade política é alocada unicamente para servir à constituição. Não existem autoridades que não são supervisionadas, dentro de estruturas não lineares. A linguagem constitucional é construída formalmente para eliminar toda ambiguidade e ser processada de maneira algorítmica. Elementos democráticos, junto com a discrição oficial e o julgamento legal, são incorporados de maneira relutante, minimizados em princípio e gradualmente eliminados através de melhorias formais incrementais. O argumento defere à perícia matemática. A política é uma doença que a constituição é projetada para curar.

Um ceticismo extremo deve ser antecipado, não apenas vindo dos monarquistas moldbuggianos, mas de todos aqueles educados pela teoria da Escolha Pública a analisarem ‘a política sem romance‘. Como defender a constituição poderia se tornar um imperativo absoluto, categórico ou incondicional, quando os únicos possíveis defensores são pessoas, guiadas por incentivos múltiplos, poucos dos quais se alinham nitidamente com a ordem constitucional objetiva? Ainda assim, como isto é diferente da questão do progresso matemático ou natural-científico? Matemáticos não são igualmente pessoas, com apetites, egos, motivações por status guiadas pelo sexo e capacidades profundamente defeituosas de introspecção realista? Como a matemática avança? (Ninguém pode negar seriamente que ela o faz.) A resposta certamente jaz em seus critérios autônomos ou impessoais de excelência, combinados com instituições pluralistas que facilitam uma convergência darwiniana. A equivalência gödeliana entre lógica matemática e governo constitucional indica que tais princípios e mecanismos estão ausentes do domínio público apenas devido a um projeto (democrático-burocrático) defeituoso.

Quando se trata de realismo profundo e de armas, há qualquer razão para se pensar que as forças armadas são resistentes, por natureza, à subordinação constitucional? Entre o cargo sublime de Comandante-em-Chefe e o mero homem, não é óbvio que a autoridade deveria tender a gravitar em direção ao primeiro? Pode-se argumentar que a civilização não é nada além disso, ou seja: a tendência da autoridade pessoal de declinar até zero. Homens-macacos rejeitarão isso, é claro. É o que eles fazem.

Entre democracia, monarquia, anarquia ou governo republicano, os argumentos não acabarão em breve. Eles são verdadeiramente antigos, e estão ilustrados na Odisseia, pela estratégia de amarrar contra o chamado das Sereias. Odisseu pode se amarrar? Apenas os republicanos defendem a tentativa, como Gödel o fez. Todos os outros deixam as Sereias ganharem. Talvez elas ganhem.

Original.

Queixas contra Moldbug

Ser um reacionário, minimamente falando, não exige mais do que um reconhecimento de que as coisas estão indo para o inferno. Conforme a fonte da decadência é traçada cada vez mais para trás e atribuída a suposições sociopolíticas cada vez mais profundamente enraizadas – e seguramente convencionais – a atitude reacionária se torna cada vez mais extrema. Se elementos inovadores são introduzidos, seja no diagnóstico ou no remédio proposto, uma mentalidade neo-reacionária nasce.

Conforme os Estados Unidos, junto com o mundo que ele construiu, voa para a calamidade, o extremismo neo-reacionário está embaraçosamente próximo de se tornar uma moda. Se evidências forem necessárias, considere o Vacate Movement, uma facção dissidente dentro dos 0.0000001% que cresce rapidamente. Este é um desenvolvimento que dificilmente teria sido imaginável, não fosse pelas provocações meticulosamente elaboradas, mas retoricamente efervescentes de Mencius Moldbug.

Com Moldbug, a neo-reação imoderada aprendeu muitos fatos essenciais e surpreendentes sobre a genealogia e a tendência da aflição central da história, recém batizada de a Catedral. Ela foi liberada do mesmerismo do ‘universalismo democrático’ – ou ultra-puritanismo evangélico – e treinada de volta na direção de livros honestos (e, assim, proibidos). Ela reaprendeu a análise de classes, com um poder explicativo sem precedentes. Muito mais poderia ter sido adicionado, antes de chegarmos ao nosso destino: o esboço esquemático de uma alternativa ‘neocameral’ à manifestamente moribunda ordem política global. (Sobre uma questão trivial de etiqueta: Moldbug educadamente pede para ser tratado como ‘Mencius’ – pedidos semelhantes de Platão Jiggabug e Siddhartha Moldbucket também foram evadidos.)

Moldbug escrupulosamente distancia sua propostas de qualquer indício de agitação revolucionária, ou sequer das variedades mais brandas de desobediência civil. O neocameralismo não é projetado para antagonizar, mas sim para restaurar a ordem a corpos sociais que a desperdiçaram, através da elaboração de um quadro compatível com a arte há muito perdida do governo eficaz. (‘Há muito perdida’, isto é, para o Ocidente – o exemplo de Singapura, entre aqueles de outras cidades-estado e zonas econômicas especiais, nunca está muito distante.) O neocameralismo não derrubaria nada, mas sim surgiria em meio às ruínas. É uma solução que aguarda a configuração terminal de um problema.

O programa neocameral segue aproximadamente os seguinte passos:

Fase-1: Lamentação construtivamente disciplinada

Fase-2: A civilização colapsa

Fase-3: Re-inicialização até uma forma modernizada de monarquia absoluta, na qual os cidadão são abrangentemente despojados de todos os direitos políticos historicamente acumulados

Apesar de suas óbvias atrações para partidários da liberdade, esse programa não carece de suas características dúbias, algumas das quais pode-se abordar aqui enquanto se ensaia o argumento de Moldbug a favor do governo neocameral um pouco mais detalhadamente. Formulado de maneira sucinta e preliminar, nossas reservas entram em foco quando aquele cara no cavalo branco aparece. De onde exatamente ele vem?

Responder ‘Carlyle’ seria fácil e não exatamente impreciso, mas também se desviaria da coerência estrutural da questão. Moldbug se recusa a chamar seu ditador neocameral de ‘CEO nacional’ (o que ele é), preferindo descrevê-lo como um ‘monarca’ (o que – enquanto nomeado executivo não dinástico – ele não é), por razões tanto estilísticas quanto substanciais. Estilisticamente, o monarquismo é uma provocação e uma dramatização da fidelidade reacionária. Substancialmente, isso enfatiza a questão da soberania.

A filosofia política de Moldbug é fundada em uma revisão do conceito de propriedade, suficiente para apoiar a afirmação de que o poder soberano é propriamente entendido como o dono de um país. É apenas nesse nível de organização política que direitos de propriedade reais – isto é, proteções – são sustentados.

Propriedade é qualquer estrutura estável de controle monopolístico. Você é dono de algo se apenas você o controla. Seu controle é estável se ninguém mais pode tirá-lo de você. Esse controle pode ser assegurado pelos seus próprios poderes de violência, ou pode ser delegado por um poder superior. Se o último, ela é propriedade secundária. Se o primeiro, ela é propriedade primária ou soberana.

O poder soberano (a corporação soberana, ou ‘sovcorp’), sozinha, é capaz de assegurar seus próprios direitos de propriedade. Seu poder e seus direitos são absolutamente idênticos e, a partir dessa identidade primária, direitos subordinados (à ‘propriedade secundária’) cascateiam através da hierarquia social. O neocameralismo não é nada além do reconhecimento sistemático e institucional dessa realidade. (Se ela é, de fato, uma ‘realidade’ é uma questão à qual em breve procederemos.)

Talvez surpreendentemente, as conclusões de Moldbug podem ser apresentadas em termos que libertários em recuperação acharam atraente:

O neocameralismo é a ideia de que um estado soberano, ou corporação primária, não é organizacionalmente distinto de uma corporação secundária ou privada. Desta forma, podemos alcançar uma boa administração e, assim, um governo libertário, ao converter as sovcorps ao mesmo modelo administrativo que funciona bem no setor privado atual – a corporação de sociedade anônima.

Uma maneira de se abordar o neocameralismo é vê-lo como o refinamento do monarquismo, um sistema antigo no qual a sovcorp é um tipo de negócio familiar. Sob o neocameralismo, os caprichos biológicos do monarquismo são eliminados e o Estado “abre seu capital”, contratando os melhores executivos, independentemente de sua linhagem ou mesmo nacionalidade.

Ou você pode simplesmente ver o neocameralismo como parte do padrão capitalista comum, no qual os serviços são otimizados ao se alinhar os interesses do prestador de serviços com os do consumidor de serviços. Se isso funciona para mercados, por que não funcionaria para o governo? Eu tenho dificuldade em aceitar a possibilidade de que o constitucionalismo democrático geraria preços mais baixos ou melhores produtos na Safeway…

A fim de dar um passo para trás desta visão, em direção às suas fundações, é útil examinar seus blocos de construção. Quando Moldbug define a propriedade como “qualquer estrutura estável de controle monopolístico”, o que realmente se quer dizer com ‘controle’? Poderia parecer simples o bastante. Controlar algo é usá-lo, ou fazer uso dele – colocá-lo para funcionar, de tal forma que um resultado desejado seja de fato alcançado. A ‘propriedade’ seria representada como direito exclusivo de uso, ou utilização instrumental, concebida com amplitude suficiente para abranger o consumo, e talvez (chegaremos a isso), doação ou troca.

Complicações surgem rapidamente. ‘Controle’, nesse caso, envolveria competência técnica, ou a capacidade de fazer algo funcionar. Se o controle exige que alguém consiga usar algo efetivamente, então ele exige conformidade com um fato natural (através de um entendimento tecno-científico e habilidades práticas). Mesmo o consumo é um tipo de uso. Essa variável histórica – vastamente distante de noções intuitivas de soberania – realmente é apropriada a uma definição de propriedade?

Poderia ser realista conceber a propriedade através do controle, e o controle através da competência técnica, mas seria difícil defender isso como um avanço no formalismo. Uma vez que este problema infunde totalmente o tema do ‘poder’, ou soberania operacional, também é difícil isolá-lo, ou colocá-lo entre parênteses. As digressões frequentes e entusiásticas de Moldbug sobre as praticidades de aparatos militares cripto-bloqueados atestam fortemente isso. Começa a emergir a impressão de que a própria possibilidade de uma propriedade soberana está vinculada a uma investigação irredutivelmente nebulosa, historicamente dinâmica e empiricamente intricada da micro-mecânica do poder, que se dissolve em uma névoa ácida de ‘fricção’ clausewitziana (ou imprevisibilidade ineliminável).

Mais promissor, de longe – para os propósitos de argumento tratável – é um uso estritamente formal ou contratual de ‘controle’ para designar o direito exclusivo à livre disposição ou alienação comercial. Definida desta maneira, a propriedade é uma categoria legal, co-original com a ideia de contrato, que se refere àquelas coisas que se tem o direito de trocar (baseado na lei natural). A propriedade é essencialmente comercializável. Ela não pode existir a menos que possa ser alienada através de uma negociação. Um príncipe que não pode negociar seu território não o “possui” em nenhum sentido que importe.

Moldbug parece reconhecer isso, de pelo menos três maneiras. Em primeiro lugar, sua formalização do poder soberano, através de sua conversão em ações soberanas, o comercializa. Dentro do regime neocameral, o poder toma a forma de uma propriedade geradora de receita, disponível para a livre disposição daqueles que a manejam. Esta é a única base para a analogia corporativa. Se as ações soberanas não fossem livremente disponíveis, seus ‘donos’ seriam meros administradores, sujeitos a obrigações, responsabilidade políticas não alienáveis, ou deveres administrativos que demonstram, com absoluta clareza, a subordinação a uma soberania superior. (Esta é, em termos gerais, a atual situação e a teoria política inofensivamente convencional.)

Em segundo lugar, o estado neocameral existe dentro de um patchwork, ou sistema de interações, através do qual eles competem por população e no qual redistribuições pacíficas (ou comerciais) – incluindo aquisições e rompimentos – são facilitadas. A menos que as ações soberanas possam ser comercializadas dentro do patchwork, elas não são propriedade de forma alguma. Isto, por sua vez, indica que a legislação positiva ‘interna’, conforme ditada pelo ‘soberano’ doméstico, está inserida em uma sistema normativo bem mais expansivo, e que definição de ‘propriedade’ não pode ser exaurida por sua determinação local dentro da micro-pólis neocameral. Como Moldbug repetidamente observa, se poderia esperar que um despotismo introvertido que violasse as normas mais amplas do patchwork – tais como aquelas que governam a saída livre – sofresse um colapso no valor das ações soberanas (o que implica que a substância das ações soberanas é determinada de maneira sistêmica, e não local). Se todo o estado neocameral é disciplinado através do patchwork, quão real pode ser sua soberania local? Esta disciplina sistêmica ou subversão da soberania local, deve-se notar, é a única atração do esquema neocameral para os defensores da geografia dinâmica (que não querem nada mais além de que o governo nacional se torne a cadela do sistema do patchwork).

Em terceiro lugar (e de maneira relacionada), o neocameralismo é circulado como um modelo de governo experimental, guiado ciberneticamente até a efetividade pelos mesmos tipos de mecanismos de feedback que controlam corporações ‘secundárias’. Em particular, o tráfego populacional entre estados neocamerais é concebido como um regulador fundamental, medindo continuamente a funcionalidade do governo e corrigindo-o na direção da atratividade. A estrutura de incentivo do regime neocameral – e, assim, sua reivindicação de racionalidade prática – repousa inteiramente sobre isso. Mais uma vez, contudo, é evidentemente a limitação radical da soberania local, em vez de sua expressão irrestrita, que promete fazer tais governos funcionarem. A saída livre – para tomar a instância mais importante – é uma regra imposta em um nível superior àquele da soberania nacional, operando como uma lei natural de todo o patchwork. Sem saída livre, um estado neocameral não é mais do que um despotismo paroquial. O soberano absoluto do estado deve escolher se sujeitar a uma regra que ele não legislou… algo está se soltando aqui (é hora de enviar o cavalo branco para os tanques de biodiesel).

O neocameralismo necessariamente comercializa a soberania e, ao fazê-lo, ele acomoda o poder à lei natural. As ações soberanas (a ‘propriedade primária’) e a ‘propriedade secundária’ se tornam comercialmente intercambiáveis, dissolvendo a distinção original, enquanto a soberania local é tornada compatível com a ordem comercial mais ampla e, assim, se torna uma forma de ‘soberania secundária’, restrita em relação à soberania primária ou absoluta do sistema em si. A autoridade final sangra para o conjunto cataláctico, a agora ou commercium, onde o que pode realmente acontecer é decidido pela lei natural. É a isso que os acionistas soberanos, se quiserem ser eficazes e prosperar, devem se submeter.

O ponto fundamental, e a razão pela qual o pretendente no cavalo branco é tão enganador, é que a soberania não pode, em princípio, ser inerente a qualquer agente social em particular – seja ele indivíduo ou grupo. Isto é melhor demonstrado em referência ao conceito de lei natural (que James Donald esboça com brilhantismo inigualado). Quando propriamente entendida, ou articulada, a lei natural não pode ser violada. Colocar sua mão no fogo e se queimar não desafia a lei natural de que temperaturas para além de uma certa faixa causam dano tecidual e dor. Similarmente, suprimir a propriedade privada e produzir um cataclisma econômico não desafia a lei natural que o comportamento econômico humano é sensível a incentivos.

A lei positiva, como criada por legisladores, toma a forma: faça (ou não faça) isso. Violações serão punidas.

A lei natural, como descoberta por qualquer ser racional, toma a forma: faze o que tu queres e aceita as consequências. Recompensas e punições são intrínsecas a ela. Ela não pode ser desafiada, mas apenas mal compreendida. Ela é, portanto, absolutamente soberana (Deus sive Natura). Como qualquer outro ser, governos, não importa o quão poderosos, podem apenas se submeter a ela, seja através de adaptação inteligente e florescimento, ou através de ignorância, incompetência, degeneração e morte. Para Deus-ou-Natureza, não importa de forma alguma. A lei natural é indistinguível do verdadeiro poder soberano que realmente decide o que pode funcionar, o que não funciona, o que pode então – ‘secundariamente’ – ser aprendido por seres racionais, ou não.

Moldbug sabe disso – de verdade. Ele o demonstra – para tomar apenas um exemplo altamente informativo – através de sua insistência de um estado neocameral tenderia a tributar no ótimo de Laffer. Isto é, tal estado provaria sua efetividade maximizando o retorno sobre a propriedade soberana em conformidade com a realidade. Ele não legisla a curva de Laffer, ou escolhe que ela exista, mas em vez disso reconhece que ela foi descoberta e, com ela, um aspecto da lei natural. Qualquer coisa a menos, ou outra, seria inconsistente com sua legitimidade enquanto protetor competente de propriedade. Para sobreviver, prosperar e sequer pretender soberania, ele não pode fazer nada além disso. Seu poder é delegado pelo commercium.

Certamente não é nenhuma coincidência que Canuto, o Grande tenha sido descrito por Norman Cantor como “o rei mais efetivo da história Anglo-Saxã”. Conforma a Wikipédia relata sua estória:

Sua ascensão ao trono dinamarquês em 1018 reuniu as coroas da Inglaterra e da Dinamarca. Canuto manteve sua base de poder junta ao unir dinamarqueses e ingleses sob vínculos culturais de riqueza e costume, em vez de pura brutalidade.

De maneira mais importante:

Henrique de Huntingdon, o cronista do século XII, conta como Canuto colocou seu trono à beira-mar e ordenou que a maré parasse e não molhasse seus pés e robes. Ainda assim, “continuando a subir como de costume, [a maré] salpicou seus pés e pernas sem respeito por sua pessoa real. Então, o rei pulou para trás, dizendo: ‘Que todos os homens saibam o quão vazio e insignificante é o poder dos reis, pois não há nenhum digno do nome, além d’Ele a quem o céu, a terra e o mar obedecem pelas leis eternas'”.

Original.

Jogos Finais

Em algum momento no final de 21 de dezembro de 2012, o Evento Terrestre Ômega 2012 passou rápido, com relativa tranquilidade, em uma trajetória saída do temido reino das premonições sinistras, indo até a abóbada empoeirada dos absurdos extintos. (O fato de que seu golpe de visão reduziu o Urbano Futuro a um emaranhado de detritos fumegantes fracamente radioativos não deve ser motivo de preocupação para ninguém, exceto para nossos cinco leitores regulares.) Um outro não evento foi assim adicionado à longa cadeia de omissões ontológicas que compõem a Tradição Apocalíptica. As coisas continuam, em suas trilhas existentes, como o senso comum previu com confiança.

Para um mundo saturado de ironia modernista, onde mesmo as crenças mais passionais são moduladas por formas de entretenimento de massa, nenhum ‘Grande Desapontamento’ é possível mais, tal como aquele que afligiu os milleritas da metade da década de 1840. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos em 2012 descobriu que 10% da população mundial (e não menos do que 20% dos chineses) haviam ‘sinceramente’ esperado que o Fim chegasse em 21 de dezembro. Quando isso não aconteceu, e daí? Sempre há alguma outra coisa passando – ou, melhor, a mesma coisa, em sabores diferentes.

Saltear entre canais é especialmente fácil porque não é nem sequer necessário mudar de gênero. O colapso da Ordem Mundial Ocidental é como o Model T de Henry Ford: “Você pode tê-lo em qualquer cor que quiser, desde que seja preto”. O que você não consegue fazer é acabar com ele. É grande demais para falhar, mesmo depois que tenha manifestamente falhado.

O não evento de dezembro não foi o Fim, ou sequer o fim do Fim, mas sim o fim do fim do Fim. Dias do Julgamento Datados foram desativados, deixando um Terminar indefinidamente dilatado sem conclusão. Agora que o prospecto de uma finalização foi finalizado, finalizar se tornou interminável. As datas marcham adiante, sem destino, para dentro de horizontes cada vez mais estendidos de colapso. O Apocalipse, despojado do Armagedom, é normalizado. Ele pode agora exigir um reconhecimento sem distrações enquanto ‘o sistema’, o modo do mundo, que se alimenta do espetáculo de uma crise permanente através do Complexo Midiático-Apocalíptico. Conforme a política Liberal Democrática (do Fukuyama final) se ajusta a um estado crônico de emergência, é finalmente possível ‘fazer as coisas‘, em um tempo em que nada pode ser feito. A insanidade desinibida se deleita em sua mania derradeira.

Por ser insanidade, ela não pode realmente durar, mas o Apocalipse durou mais que o Dia do Julgamento, e a realidade perdeu seus últimos sinais. Para propósitos de conversação educada, portanto, é melhor conceder aos keynesianos / pós-modernistas o triunfo absoluto e concordar que as consequências do irrealismo podem ser indefinidamente adiadas. Quando estiver no manicômio, faça como os malucos. Qualquer outra coisa seria irascibilidade sem sentido, fora do espírito da época. Afinal de tudo (exceto de si mesmo), o Apocalipse Para Sempre é a religião final do ocidente.

O Apocalipse Progressista, o Apocalipse Para Sempre, assume a morte do Dia do Julgamento, o que fornece a ocasião para um obituário. Para reacionários da variedade “trono e altar”, o luto se inclinará à escatologia, conforme o momento do julgamento definitivo for enterrado. Aqui, nas ruínas do Urbano Futuro destruídas pelo eschaton, contudo, nossa recordação é mais concisamente aritmética. Relembramos datas perdidas para sempre e, com elas, as inversões temporais que são expressas através de contagens regressivas, escalonamentos intensivos e compressões. Quando o fim tinha uma data, o tempo poderia chegar ao zero nela, em vez de se dissipar em nevoeiros infinitamente estendidos de futuridade arruinada.

21 de dezembro de 2012 foi a última data do Dia do Julgamento e, assim, o Dia do Julgamento morreu. Pode até mesmo ter sido o mais popular, mas estava longe de ser o maior. Extraído predominantemente do calendário dos Maias, ele concluiu com clareza o 13º Baktun, mas, ao fazê-lo, rompeu arbitrariamente com a organização numérica (já desajeitada e comprometida) do sistema de datação, com sua preferência por hierarquias unitárias de módulo 20. Quaisquer que sejam as atrações do exotismo, se voltar para a maianologia pop em busca de um cronograma do Apocalipse planetário também foi radicalmente arbitrário, dada a Hegemonia Abraâmica que havia estruturado a ordem no meio milênio anterior. Ainda assim, os maias haviam conduzido seu próprio experimento preliminar em termos de colapso, permitindo que Mel Gibson escavasse um filme impressionante das ruínas, introduzido por uma citação de Will Durant: “Uma grande civilização não é conquistada de fora até que tenha se destruído por dentro”.

Quando estimado em termos de elegância numérica de profundidade metafísica, o Dia do Julgamento realmente grande foi o Y2K, a mais bela arma da história (apesar de sua falha em detonar). O Y2k era automnático e tecno-compatível (na verdade, tecno-dependente), cronometricamente preciso, perfeitamente contra-abraâmico e calendricamente criativo (resetando 1900 D.C. para Ano 00). Ele foi organizado a partir da ausência de um sujeito integrado e malevolente, a partir da simples aritmética, visando uma realização consumada e exatamente agendada da expectativa milenar, através de pura coincidência. A ordem mundial deveria ter sido suavemente exterminada, por ‘acaso’. Nada que jamais tenha acontecido na história fazia tanto sentido quanto isso (que não fez). Quanto mais de perto se examina, mais requintado ele parece. Entre outros Dias do Julgamento perdidos, nenhum chega perto. Mas como o Y2K disse, insidiosamente: Deixa Pra Lá.

Até mesmo o mais fuleiro dos Antigos Dias do Julgamento satisfaziam apetites intelectuais que agora passarão fome para sempre. Primeiro de tudo, e de maneira mais básica, eles atendiam o impulso transcendental, entendido como uma busca por estruturas e princípios de organização últimos ou englobantes. Enquanto evento metafísico, promessas conclusivas de Apocalipse prometem uma escapada dos detalhes que distraem e uma compreensão do quadro. Base bíblicas para tal compreensão são encontradas em Isaías 34:4 — “As estrelas dos céus serão todas dissolvidas, e os céus se enrolarão como um pergaminho”. Esta imagem é repetida no Apocalipse 6:14 — “O céu foi se recolhendo como se enrola um pergaminho”. O tempo apocalíptico não adiciona uma nova frase, ou sequer um novo capítulo, à crônica dos eventos. Ele descobre o limite do pergaminho, ao excedê-lo. Para isso, contudo, ele tem que se completar.

Em segundo lugar, um Apocalipse pontual efetua um realismo semiótico (e, em particular, numérico), conforme expresso – muito lucidamente – no ocultismo e na esquizofrenia. O apocalíptico expõe uma encriptação primitiva da cultura, que codifica as operações de uma inteligência super-humana (Deus ou deuses, mestres transcendidos, alienígenas, viajantes do tempo, ordem espontânea social ou bactérias… qualquer um será suficiente). Um verdadeiro calendário é revelado, no qual a exaustão semiótica, ou rolagem, coincide precisamente com o fim de uma época real. O hiper-tradicionalismo, assim, se exotiza na formulação: viaje para dentro longe o suficiente e você chega do lado de fora. Assim, ele fornece o desafio mais radical para o mantra fundamental das ciências humanas contemporâneas – a natureza arbitrária (sausurriana) do signo.

Uma contribuição adicional e essencialmente moderna para o apocalíptico é feita pela aritmética do intrinsecamente insustentável, como definida por Thomas Malthus (1768-1834) em seu An Essay on the Principle of Population (“Um Ensaio sobre o Princípio da População”). Os fundamentos empíricos de uma crise inevitável são encontrados na tendência ao crescimento exponencial e em sua colisão projetada com um limite. Variantes de tal projeção apocalíptica são encontradas no marxismo, no ambientalismo e na Singularidade Tecnológica (Karl Marx, M. King Hubbert e Ray Kurzweil).

Mesmo a partir deste breve exame, torna-se possível delinear certas características centrais de um modelo do apocalipse: abrangente, pontual e climáctico. Em outras palavras, uma transição que não pode ser contida pela natureza pré-existente do tempo, ocorrendo em um momento exato e cripticamente antecipado, que traz o processo histórico central à sua culminação. Tudo isso é reunido no Dia do Julgamento, e o Dia do Julgamento está morto.

Nota: Agradecimentos a Mathieu Borysevicz e Sophie Huang da MAB Society, cujo evento no Minsheng Museum em 10 de dezembro de 2012, Just What is it about the end of the world that makes it so appealing? (“O que exatamente faz com o fim do mundo seja tão atraente?”), forneceu a oportunidade para discutir a esquemática do apocalipse.

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A Singularidade de Esquerda

O inverno está chegando

Os esquerdistas não são perturbados pelo medo de que as massas possam se revoltar contra a esquerda, mas sim cada esquerdista teme que ele possa falhar em acompanhar a linha que sempre muda, se encontre alguns anos, ou semanas, ou dias atrás do atual politicamente correto sempre em mudança e se descubra considerado um direitista. // O que historicamente só para em derramamento de sangue. Não há nenhuma singularidade de direita equivalente, já que regimes repressivos de direita proíbem o interesse na política, ao passo em que os regimes repressivos de esquerda ordenam o interesse na política. // A singularidade de esquerda é a mesma toda vez em sua aproximação ao esquerdismo infinito, mas difere de maneira caótica e surpreendente toda vez ao acabar aquém do esquerdismo infinito — James A. Donald

Aquilo com o que mais nos preocupamos é que veremos um ciclo vicioso se desenvolver: uma governança ruim prejudica a economia, o que radicaliza e polariza a opinião pública, o que leva a uma governança pior e resultados econômicos piores… e assim por diante linha abaixo.Walter Russell Mead

A política do século XXI não vê nenhuma necessidade da verdade. Quando o governo se acredita responsável pela economia e convence as pessoas disso, ele tem que se colocar em uma caixa. …Quando uma recessão ocorre …ela faz com o governo busque política que reforçam suas mentiras. São essa política que criaram a atual crise econômica em primeiro lugar. –’Monty Pelerin‘ (via Zero Hedge)

O Iluminismo Sombrio começa com o reconhecimento de que a realidade é impopular, de modo que o curso ‘natural’ do desenvolvimento político, sob condições democráticas, é confiavelmente embasado na promessa de uma alternativa. Favorecer a fantasia é a única plataforma que oferece apoio eleitoral. Quando os sonhos ficam ruins, é politicamente óbvio que eles não foram mantidos com firmeza ou sinceridade suficientes, seu radicalismo foi insuficiente, e uma solução mais abrangente é imperativa. Uma vez que uma sabotagem direitista, seja ela deliberada ou meramente inercial, claramente é a culpada, as surras continuarão até que o moral melhore.

Esta síndrome, essencialmente indistinguível da modernidade política, exige uma teoria cibernética da deterioração social acelerante, ou repressão econômica auto-reforçadora. A tendência da qual o iluminismo sombrio recua exige uma explicação, que é encontrada no diagrama da Singularidade de Esquerda.

Uma singularidade, de qualquer tipo, é o limite de um processo dominado por um feedback positivo e, assim, levado a um extremo. Em sua expressão matemática pura, a tendência não é meramente exponencial, mas parabólica, fechando-se assintoticamente sobre o infinito em tempo finito. A ‘lógica da histórica’ converge sobre um limite absoluto, além do qual um prolongamento adicional é estritamente impossível. Desta barreira derradeira e impassável, o iluminismo sombrio regride na história política, profeticamente inflamado por sua certeza do fim. A menos que a democracia se desintegre antes da parede, ela vai dar de cara com a parede.

“Uma repressão maior traz um esquerdismo maior, um esquerdismo maior traz uma repressão maior, em um círculo cada vez mais cerrado que gira cada vez mais rápido. Esta é a singularidade de esquerda”, escreve Donald. A principal hipótese sombria é evidente: no declive da esquerda, a falha não é auto-corretiva, mas sim o oposto. A disfunção se aprofunda através do circuito do desapontamento:

Conforme a sociedade se move cada vez mais para a esquerda, cada vez mais rápido, os esquerdistas ficam cada vez mais descontentes com o resultado, mas, claro, a única cura para o seu descontentamento que é permissível pensar é um movimento ainda mais rápido, ainda mais à esquerda.

É necessário, então, aceitar a inversão esquerdista de Clausewitz e a proposição de que a política é a guerra por outros meios, precisamente porque ela retém a tendência ao extremo clausewitziana (que a torna ‘propensa a escalada‘). Esta é a razão pela qual a história política moderna tem uma forma característica, que combina uma duração de ‘progresso’ escalonante com uma interrupção terminal e semi-pontual, ou catástrofe – uma restauração ou ‘reinicialização’. Como mofo em uma placa de Petri, organizações políticas progressistas ‘se desenvolvem’ explosivamente até que todos os recursos disponíveis tenham sido consumidos, mas, ao contrário de colônias de lodo, elas exibem um dinamismo que ainda mais exagerado (do exponencial para o hiperbólico) pelo fato de que o esgotamento de recursos acelera a tendência de desenvolvimento.

A decadência econômica erode o potencial produtivo e aumenta a dependência, atando populações de maneira cada vez mais desesperada à promessa de uma solução política. O declive progressista fica mais íngreme na direção do precipício de uma radicalidade suprema, ou total absorção no estado… e, em algum lugar fracionalmente antes disso, seja antes ou depois dele ter roubado tudo que você tem, tomado seus filhos, desencadeado assassinatos em massa e descendido ao canibalismo, ele acaba.

Ele não pode comer a placa de Petri ou abolir a realidade (na realidade). Há um limite. Mas a humanidade ganha uma chance de demonstrar do que é capaz, no lado inferior. Como Whiskey comentou (nessa thread do Sailer): “Este Iluminismo é ‘Sombrio’ porque ele nos diz coisas verdadeira que preferiríamos não saber ou ler ou ouvir, porque elas pintam uma imagem não tão amável da natureza humana em sua face mais crua”. O progresso nos leva ao cru.

Gregory Bateson se referia à escalada cibernética como ‘esquismogenese’, que ele identificava em uma série de fenômenos sociais. Entre esses estava o abuso de substâncias (especificamente o alcoolismo), cuja dinâmica abstrata, no nível do indivíduo, é difícil de distinguir da radicalização política coletiva. O alcoólatra é capturado por um circuito esquismogenico e, uma vez que esteja dentro dele, a única solução atraente é ir mais fundo nele. A cada passo de desintegração de sua vida, ele precisa de um drinque mais do que nunca. Lá se vai o emprego, a poupança, a esposa e as crianças, e não há nenhum lugar onde se procurar esperança exceto o bar, a garrafa de vodka e, eventualmente, aquela lata irresistível de cera para piso. O escape vem – se vier antes do necrotério – ao ‘chegar ao fundo do poço’. A escalada ao extremo chega ao fim da estrada, ou da estória, onde uma outra poderia – possivelmente – começar. A esquismogenese prevê uma catástrofe.

Chegar ao fundo do poço tem que ser horrível. Uma longa história lhe trouxe a isso e, se isso não é óbvia e indisputavelmente um estado intolerável de degradação derradeira, ela vai continuar. Não acabou até que realmente não possa continuar, e isso tem que ser diversos graus pior do que se poderia antecipar. A Singularidade de Esquerda está afundada nas borras de cera para piso, com tudo perdido. É pior do que qualquer coisa que você possa imaginar, e não há nenhum sentido que seja em tentar persuadir as pessoas de que elas chegaram lá antes de elas saberem que chegaram. ‘As coisas poderiam ser melhores do que isso’ não vai dar conta. É para isso que serve o progresso, e o progresso é o problema.

Aquilo que não pode continuar, irá parar. As árvores não crescem até o céu. Isso não significa necessariamente, contudo, que a liberdade será restaurada e tudo será adorável. Da última vez tivemos teocracia, tivemos estagnação por quatrocentos anos.

A expansão explosiva de gastos e regulamentação representa um colapso da disciplina dentro da elite governante. A maneira em que o sistema deveria funcionar, e a maneira em que funcionou na maior parte do tempo há várias décadas atrás, é que o Governo Federal americano só pode gastar dinheiro em algo se a Câmara dos Deputados, o Senado e o Presidente concordarem em gastar dinheiro nessa coisa, então nenhum empregado do governo pode ser empregado, exceto se todos os três concordarem que ele deva ser empregado, então o governo não pode fazer nada ao menos que os três concordem que seja feito. Um funcionário público e, na verdade, todo o seu departamento estava apto a ser demitido se irritasse alguém. Reciprocamente, o indivíduo estava livre para fazer qualquer coisa, a menos que todos os três concordassem que ele deveria ser impedido de fazer aquela coisa. Estamos agora nos aproximando da situação reversa, onde para um indivíduo fazer qualquer coisa é necessário uma pilha de permissões de diversas autoridades governamentais, mas qualquer autoridade governamental pode gastar dinheiro em qualquer coisa a menos que exista uma oposição quase unânime a ela gastar dinheiro.

Obviamente isso não pode continuar. Eventualmente, o dinheiro acaba, onde teremos uma crise hiperinflacionária e reverteremos para alguma outra forma de dinheiro, como o padrão ouro. Enquanto isso acontece, o comportamento cada vez mais sem lei dos governantes contra os governados se tornará um comportamento cada vez mais sem lei dos governantes uns contra os outros. Guerra civil, ou algum próximo de uma guerra civil, ou uma terrível e imediata ameaça de guerra civil se seguirá. Nesse ponto, teremos a singularidade política, provavelmente por volta de 2025 ou algo assim. Para além da singularidade, nenhuma previsão pode ser feita, além de que os resultados serão surpreendentes…

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