Neo-Tradicionalismo

Yi Xiang

O paradoxo incita o pensamento. Chegar no impensável após proceder, passo a passo, ao longo do caminho da razão, abala rotinas mentais confortáveis e aponta – obscuramente – na direção de algo novo. Nada torce essa incitação mais intensamente do que um paradoxo temporal, que abre com facadas o pensamento sobre os emaranhados básicos da realidade.

A principal corrente criativa das artes visuais de Shanghai compreende isso instintivamente. Embora previsivelmente multidimensional (e, em outros aspectos, imprevisível), a obra revelada pelos artistas e espaços artísticos de Shanghai gravita distintivamente em direção a temas e técnicas que só podem plausivelmente serem descritas como neo-tradicionalistas. Esta inclinação inerentemente paradoxal é, em si, uma tradição profunda, com relevância muito além das artes visuais e raízes nodosas podem ser traçadas à dinastia Song.

Na Exibição Inaugural do Shanghai Himalayas Museum (agendada para durar até o fim de Setembro de 2013), essa tendência neo-tradicionalista foi representada com escopo e penetração sem precedentes. Intitulada Yi Xiang (意象) em chinês, ela foi (lamentavelmente) traduzida para ‘Insightful Charisma’ (“Carisma Perspicaz”) em inglês, mas este é apenas um ponto menor de tropeço. (‘Significado Manifesto’ teria sido bem superior.) Yi Xiang, ou a tensão entre o essencial e sua expressão, ecoa a resposta neo-tradicionalista histórica da China ao desafio da modernização, como formulada durante os períodos Qing e Republicano: ‘aprendizado chinês como essência, aprendizado ocidental como aplicação’ (Zhongxue wei ti, Xixue wei yong, 中学为体,西学为用). Outro ecos espalhados desse impulso profundo – a uma assimilação cautelosa – podem ser ouvidos, preservados mesmo através de uma inversão superficial, em expressões recentes, tais como ‘socialismo com características chinesas’.

Yi Xiang foi uma exibição complexa, dividida em cinco sessões, cada uma rotulada com um único caractere chinês. Fiado através de cada uma há uma corrente neo-tradicionalista, modulada de maneiras diferentes. Isso pode ser compreendido mais economicamente como uma recusa a se decidir entre passado e futuro, tradição e modernidade, mas sim enfatizar esteticamente ambos juntos, em uma única direção críptica. A consequência inevitável é um solavanco artístico (e curatorial) que embaralha o tempo, simultaneamente progredindo para o passado e regredindo para o futuro.

A mostra foi auto-conscientemente refratada através da tradição paisagística chinesa do shanshui (山水) – literalmente: ‘montanha, água’ – a fusão estética entre o rígido e o fluido, permanência e mudança, estabilidade e fluxo. O shanshui se estende para além da representação cênica até um método de reflexão histórica, que explora uma paisagem temporal intricada de modificações, apropriações, bloqueios, dilúvios, acomodações e adaptações. A amplitude dessa compreensão é mais do que suficiente, por si só, para justificar toda a exibição. (Eu deveria observar, contudo, que um comentador brilhante, mas determinadamente do contra, interpretou esse foco no shanshui como uma evasão do fengshui, possivelmente ignorada devido às suas associações politicamente esquisitas com “superstições feudais”.)

Shen (神) ou ‘espírito’ estava hospedada em uma única galeria suavemente iluminada, preenchida com obras clássicas do shanshui das dinastias Qing, Ming e mesmo Song, junto com um número menor de peças do início da modernidade, diretamente inspiradas pelas primeiras. Essa sub-exibição requintada e compacta ilustrava de maneira elegante a maneira na qual a modernização da tradição é, em si, uma tradição.

Li (理) ou ‘razão’ (um termo com ricas reverberações neo-confucionistas) era devotada ao ‘Cubo Chinês’: uma compreensão filosófica explícita do clássico Yijing em uma variedade de códigos modernos, traduzindo a tradição para uma caixa de quebra-cabeças recursiva e criptográfica.

Qi (气) ou ‘força interna’ (‘familiar’ através do Dao e da medicina tradicional chinesa), era a maior parte da mostra, consistindo de obras de vanguarda, apresentadas dentro de um contexto curatorial coerente e neo-tradicionalista. A qualidade das obras exibidas era excepcional, incluindo peças de Li Hongto, Shao Yan, Wang Jieyin, Wang Tiande, Yang Yongliang (e Ma Haiping), e muitos outros. (Espero retornar a esses artistas em posts futuros.)

Jing (境) ou ‘imagens’ era devotada à arquitetura, com o tema neo-tradicionalista parcialmente deslocado a uma negociação entre a natureza e a construção urbana. O trabalho visionário de Ma Yansong dominava essa parte da mostra.

Yun (韵) ou ‘ritmo’, com seu sub-tema musical, perseguia os envolvimentos entre montanhas e água de maneira mais determinada do que qualquer outra parte da mostra. Uma obra complexa de Ding Yi talvez tenha sido a peça central dessa seção.

O neo-tradicionalismo é o principal impulsionador do renascimento cultural da China e o significado manifesto de seus maiores prazeres estéticos. O Urbano Futuro retornará a ele com a maior frequência possível.

***

Neo-Tradicionalismo em Hong Kong

O ímpeto da modernização é diretamente proporcional à restauração da tradição (discutam)

Evidências abundantes, relevantes para essa tese, estiveram à mostra em Hong Kong, em duas exposições de arte de excepcional interesse.

No Hong Kong Museum of Art, The Origin of Dao: New Dimensions in Chinese Contemporary Art (“A Origem do Dao: Novas Dimensões da Arte Chinesa Contemporânea”, curada por Pi Daojian, aberta até 18 de agosto de 2013) exemplificava a invaginação de uma experimentação audaciosa em comprometimentos estéticos profundamente conservadores. A mostra era dividida em duas partes. Uma incluía obras em uma variedade de mídias e era moderadamente estimulante. A outra, devotada inteiramente às recentes obra de tinta (com vídeos de apoio), era verdadeiramente excepcional.

Obras de Yang Jiechang, Gu Wenda, Zhang Quan, Shao Yan, Kan Tai-Keung, Qiu Zhijie, entre outros, escavavam as potencialidades criativas de mídias e formas tradicionais chinesas, propelindo-as a uma variedade deslumbrante de novos horizontes. Um tema especialmente conspícuo era a fronteira fluida entre texto e image, herdada da escrita chinesa, que evoca linhas serpenteantes de exploração, elaboradas no golfo críptico entre representação pictórica e signo inteligível. A modernização da tradição estética nativa progressivamente libera essas linhas — sejam elas ininterruptas ou não — tanto da semelhança quanto da significância, em um caminho de escapada para a forma pura.

Shao Yan demonstra essa tendência com particular vivacidade, através da criação de abstratos de tinta que pairam entre caligrafia e paisagem. Um vídeo de acompanhamento mostra Shao trabalhando, como um Pollock gongfu, realizando um tipo de pintura-em-ação chinesa que se baseia na raiz oculta do cultivo (antecipada pela equação entre caligrafia e luta com espadas descrita no Hero de Zhang Yimou).

No Hong Kong Asia Society, Light before Dawn: Unofficial Chinese Art 1974-1985 (“Luz antes do Amanhecer: Arte Chinesa Não Oficial 1974-1985”, até 1 de setembro de 2013) se ocupa da liberação da arte chinesa das restrições do Realismo Socialista, como demonstrado através da obra de artistas de Caocao, Wuming e Xingxing. De uma perspectiva tanto neo-tradicionalista quanto vinda de Shanghai, as obras da Caocao Society são especialmente significativas, consistindo de pinturas com tinta que revivem de maneira explícita (e provocadora) impulsos artísticos que haviam sido ideologicamente proscritos devido às suas associações com os literati confucionistas. A obra-prima de Qiu Deshu, 3-5 Times Shouting (1980) rouba a cena.

Original.

1 thought on “Neo-Tradicionalismo

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