Uma Introdução à Urbanomia

Por mais irritantes que neologismos possam ser, às vezes eles são quase compulsórios. Quando um pensamento compacto e comparativamente simples é forçado a se rotear, repetidamente, através de emaranhados terminológicos grosseiramente costurados, a palavra adequada que falta fomenta o equivalente linguístico de uma fome incômoda. A invenção de palavras se torna o pré-requisito simples de uma função cognitiva regular.

O desenvolvimento urbano da cidade individual, ou o processo típico de maturação urbana, é um conceito bastante básico, mas linguisticamente desassistido, desse exato tipo. A ausência é agravada pela presença de uma outra palavra — uma que soa superficialmente adequada, mas que na verdade designa uma ideia inteiramente separada.

Quando uma cidade cresce, ela não se ‘urbaniza’ (apenas um sistema social mais amplo pode fazer isso). Urbanização se aplica a uma sociedade que se torna proporcionalmente mais urbana, conforme pessoas de zonas rurais se mudam para cidades, mas quando uma cidade individual se desenvolve – e, de fato, se individua – ela sofre uma urbanomia (no modelo de uma ‘teleonomia’). A urbanomia – a auto-organização urbana — é bem mais crítica para esse blog do que a urbanização. Cunhar o termo é uma declaração de comprometimento teórico com a individuação urbana enquanto uma realidade estruturada – e, assim, cognitivamente tratável – social, histórica e, em última análise, cósmica.

As fundações do entendimento urbanômico foram lançados por Jane Jacobs em seu livro A Economia das Cidades. Nesta obra, ela esboça uma teoria simples e poderosa da auto-organização urbana, guiada por um processo econômico espontâneo de substituição de importações. As cidades se desenvolvem através de uma autonomização, ou introversão, que ocorre conforme elas aprendem com o comércio, transformando progressivamente uma proporção cada vez maior de seus fluxos comerciais em circuitos endógenos. Esta tendência (urbanômica) não precisa isolar as cidades do mundo, mas ela necessariamente converte uma dependência estável em uma interação dinâmica, que orienta uma modificação comercial contínua. As vantagens logísticas e informacionais dos produtores urbanos locais – minimizar custos de transporte e maximizar a intensidade do feedback – tendem a encorajar a internalização da atividade produtiva, ensinando à cidade o que ela pode fazer por si mesma e consolidando sua identidade singular (enquanto indivíduo real). O crescimento, a complexificação e a individuação da cidade são integrais para um único processo urbanômico.

É a urbanomia que produz cidades, com a urbanização – tipicamente – ocorrendo como uma fenômeno secundário. Cidades funcionais não são lixões demográficos, mas entidades em maturação endógena que puxam coisas (incluindo pessoas) para dentro de si.

Entre as muitas consequências colaterais vindas da tese de Jacobs, uma em particular é tão historicamente sugestiva que merece uma curta digressão. Como as cidades não são nutricionalmente auto-sustentáveis, tem sido natural supor que elas pressupõem uma agricultura estabelecida, à qual elas se relacionam de uma maneira que é – pelo menos em termos calóricos – parasitária. Jacobs vira essa suposição de ponta cabeça, propondo, em vez disso, que a comercialização da produção de comida que acompanhou a emergência das cidades foi, em si, um motor crucial da agriculturação. Ao fornecer mercados concentrados e de escala comparativamente grande, as cidades pela primeira vez tornaram economicamente racional a produção de excedentes substanciais de comida, apoiando automaticamente seu próprio desenvolvimento futuro em uma interconexão interativa com a revolução neolítica.

A compreensão urbanômica básica de maior relevância aqui, contudo, é mais abstrata. A tese de Jacobs estabelece uma estrutura para se explorar de maneira sistemática a estrutura temporal do processo urbano, concebida não unicamente como um episódio (prolongado) no tempo, ou uma história, mas também como o funcionamento de uma máquina social cronogênica ou criadora de tempo.

O conceito que Jacobs introduz tacitamente, como princípio orientador da tendência urbanômica, é a autoprodução. Conforme ela cresce, se especializa internamente, se auto-organiza, dissipa entropia e se individua, a cidade tende a um limite impossível de completa autonomia produtiva. Ela aparece como uma onda convergente, moldada na direção de uma ordem ou complexidade crescente, como se por uma mão invisível, ou de acordo com um projeto inteligente. O padrão é exatamente o que seria esperado se algo ainda não realizado estivesse orquestrando sua auto-criação. Mesmo depois de 150 anos de teoria evolutiva coerente, tais processos – na ausência de um agente criativo dominante – parecem extraordinários e até mesmo sinistros, pois eles parecem correr para trás, contra a corrente do tempo.

O tempo como ele é vivido e explorado é tensionado. Ele é ocupado a partir do meio, que é sempre agora, e do qual o passado recua (parcialmente relembrado, ou registrado), conforme o futuro se aproxima (parcialmente antecipado, ou previsto). A linha do tempo que cruza o ‘agora’, ou o presente, é assimétrica. Ela tem uma ‘seta’.

As correntes científicas principais que sustentam o entendimento moderno do mundo descrevem essa seta do tempo de duas maneiras bastante diferentes. Ambas são facilmente intuídas e geralmente aceitas, pelo menos em seus contornos mais gerais.

Primeiramente, nos é dito que a seta do tempo corresponde a um aumento da desordem. Coisas quebram, erodem, envelhecem, morrem e apodrecem. Apresentadas duas fotos, uma de um ovo intacto e uma do mesmo ovo esmagado, não dúvida sobre qual veio primeiro. Ovos não desamassam, o tempo não se reverte.

Exceto que (em segundo lugar) geralmente antecipamos progresso ou melhoria. O conhecimento se acumula, invenções são feitas; espera-se, normalmente, que as economias cresçam. Mesmo aqueles mais resistentes às mensagens modernas – tais como as ideias evolutivas — trabalham confiantemente para produzir ordem em suas vidas, quando arrumam, classificam, montam, organizam ou compõem. Ovos podem não desamassar, mas existem ovos, e eles foram feitos de alguma forma (não havia nenhuma há 500 milhões de anos).

Então como nossas intuições sobre o tempo se alinham com a seta do tempo? Qual é o caminho adiante e qual é para trás? Entre uma ordem crescente e uma decrescente, qual parece normal e qual, estranha?

Estas questões são complicadas pelo fato de que nós processamos mentalmente o mundo de duas maneiras muito diferentes, dividindo-o tão nitidamente quanto possível entre pessoas e coisas, agência e inércia, o animado e o inanimado, teleologia e mecanismo. Esse sistema dual bastante básico de classificação perceptual – quase certamente favorecido por estruturas neurológicas profundamente arcaicas — corresponde a um aparato cognitivo geminado de profunda expectativa. Violações categóricas são visceralmente inquietantes.

Quando pessoas – ou mesmo animais ‘inferiores’ — se comportam como coisas, elas primitivamente evocam o pavor da morbidez, da mortalidade e de variedades mais radicais de incorreção cósmica, parcialmente capturadas pela figura do zumbi. A zona intermediária, dos ‘mortos-vivos’, pode ser adentrada de qualquer uma das duas direções, desencadeando uma revulsão arcaica à monstruosidade – a mais fundamental das coisas que não deveriam ser. A ficção de horror habita quase inteiramente este mundo crepuscular de escorregões categóricos.

Quando a ordem emerge espontaneamente em meio às coisas, ela parece mágica (no sentido antigo, de captura da alma) e espectadores em pânico reflexivamente buscam os agentes ocultos da interpretação ‘animística’ ou religiosa, compelidos por intuições categóricas bem mais antigas que a espécie humana. Uma calma apreensão de tais ‘teleonomias’ está fundada, talvez invariavelmente, em uma atenuação ou imprecisão da percepção distinta. Se um biólogo verdadeiramente percebesse o processo evolutivo, seu horror integral e primordial seria inelutável. A urbanomia, igualmente, pertence ao âmbito da monstruosidade real. Esta é uma razão pela qual as cidades não podem prontamente ser vistas pelo que são.

Animação espontânea, horror e reversão temporal estão inextricavelmente amarradas juntos na raiz de sua apreensão. O sistema nervoso humano não consegue registrar um erro mais profundo do que uma inversão do tempo, como demonstrado por uma coisa que vem à vida. As cidades, eventualmente, nos assustarão. Ao fazê-lo, elas nos puxarão para além do que tem sido – até hoje — o horizonte do tempo inteligível.

Original.

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