Propriedades Emergentes

A economia é complicada, mas, pelo menos em certos aspectos, ela não é tão complicada. Faça um gráfico de quase qualquer variável sensível ao mercado e o que emerge é um padrão de onda, que varia em amplitude, frequência e tendência, mas que claramente se conforma a um padrão geral, misturando um ritmo irregular com um passeio aleatório.

A irregularidade e a aleatoriedade são predicadas pela teoria econômica elementar, uma vez que o determinismo e a regularidade são estritamente equivalentes a notas bancárias jogadas na rua, apanhadas assim que vislumbradas. Oportunidades especulativas de risco zero – do tipo que qualquer padrão inteligível apresenta – são rapidamente arbitradas de volta ao ruído, o estado de equilíbrio, no qual toda informação significativa é absorvida no preço.

O ritmo residual é mais inesperado e atesta um fator irracional, que estimula controvérsias intelectuais e práticas. Independente de tais disputas, é possível estar confiante sobre dois pontos indefinidos. Primeiramente, os ritmos do mercado (quase) nunca são fáceis de se prever com precisão e, assim, de se explorá-los. Em segundo lugar, desvios para fora da tendência eventualmente serão corrigidos, a menos que – muito raramente – a tendência em si mude de forma. A qualificação do segundo ponto merece um exame especial, porque expectativas irrealistas a respeito de transformações na linha de tendência estão na raiz do erro mais notório no raciocínio econômico prático – a crença (que tipicamente se enraíza em proporção direta à inflação de uma bolha) de que “dessa vez é diferente”. Este slogan, que encapsula a teimosa e desastrosamente cara síndrome da negação da correção para baixo, deveria estar escrita nas camisas daqueles que logo as perderão.

Qualquer onda de mercado com uma amplitude suficiente chega à sua crista em uma bolha, que ‘estoura’ em uma quebra. A menos que desta vez seja diferente – e não vai ser – a China inevitavelmente experimentará um evento desse tipo. Comentários especulativos sobre a natureza e o momento desse evento aumentaram acentuadamente em volume à medida que o ambiente econômico global se deteriorou. Ainda assim, uma previsão é especialmente difícil nesse caso. A economia de mercado da China tem pouco mais de três décadas de idade, com apenas alguns períodos difíceis ocasionais interrompendo um crescimento rápido e semi-contínuo. Desembaraçar o componente insustentável, ou a ascensão rítmica, da trajetória de desenvolvimento subjacente envolve uma estimativa excepcionalmente obscura, dada a incompletude do padrão percebido.

Em um artigo publicado no Caixin e no Marketwatch (via), Andy Xie faz uma contribuição substantiva para essa discussão. Ele identifica a vulnerabilidade financeira da China com uma enorme bolha de ativos no mercado imobiliário, mas continua otimista sobre suas consequências finais. Ele argumenta convincentemente que uma redução substancial dos valores imobiliários, embora inevitavelmente perturbadora, teria um efeito tônico na economia chinesa quase imediatamente, com rápida recuperação a seguir.

Uma vez que a economia de mercado da China ainda não tem uma tendência identificável de longo prazo, Xie estima a escala da bolha imobiliária do país ao comparar a valorização dos preços dos imóveis com o crescimento dos salários:

A China tem experimentado um crescimento rápido nos preços da terra na última década. Um pouco dele pode ser justificado pelo crescimento de renda e produtividade, devido ao ingresso do país na Organização Mundial do Comércio. A maior parte do aumento é um fenômeno de bolha.

Embora a renda domiciliar possa ter triplicado em uma década, o preço médio da terra subiu mais de trinta vezes. Qualquer que seja o crescimento de renda por vir, ele não pode justificar o atual preço da terra. Tampouco uma escassez de oferta poderia.

A China não tem nenhuma escassez de terra. A urbanização com arranha-céus torna a demanda por terra bastante baixa em relação à população. O valor sustentável da terra provavelmente está de 70% a 80% abaixo dos níveis atuais

O papel do mercado imobiliário na vida social chinesa contemporânea é um tema de amplo interesse, tanto dentro como fora do país. Uma vez que os prospectos de casamento (para os homens) estão estritamente ligados à sua capacidade de fornecer um lar, alguma forças darwinianas profundamente arraigadas são aproveitadas para a apreciação dos valores imobiliários, tornando-os um fator esmagadoramente dominante na vida econômica. Por essa razão, entre outras, uma quebra do mercado imobiliário que trouxesse os preços para baixo, para algo entre um terço e um quinto de seu nível atual, promete ser traumatizante e liberadora em igual medida.

Xie recomenda que a China passe pela dor, tão rápido quanto realisticamente possível:

Alguns argumentam que a bolha imobiliária é essencial para a prosperidade econômica da China. Isso é um total absurdo. Embora a indústria imobiliária tenha se tornado maior em relação à economia ao longo da última década, ela em sua maior parte consome recursos e não melhora a produtividade geral.

Ela é o principal impulsionador da inflação na China. Se ela diminuir, a economia pode sofrer temporariamente. Contudo, a produtividade geral crescerá. O resultante crescimento de renda trará de volta uma prosperidade econômica mais sustentável.

Igualmente, uma bolha estoura mais cedo ou mais tarde. A ajuda governamental meramente a prolonga, como o governo chinês fez em 2008. E quanto mais a bolha dura, mais dano ela inflige quando ela estoura. A economia está sofrendo por causa do que aconteceu em 2008.

O país tem capacidade suficiente para absorver quaisquer empréstimos não produtivos que possam sair do estouro dessa bolha. Pode ser de 20 a 30 trilhões de yuans (US$3,26 trilhões – US$4,89 trilhões). Mas o desperdício na economia da bolha poderia ter sido 5 trilhões de yuans.

A China poderia superar o legado da bolha dentro de quatro a cinco anos. Além disso, uma melhor produtividade das reformas pós-bolha poderia acrescentar mais cerca de 2 a 3 trilhões de yuans por ano. A recuperação pós-bolha pode acontecer em três anos.

O Japão não conseguiu que sua economia crescesse após o estouro de sua bolha imobiliária. A principal razão é que sua renda per capita já estava entre as mais altas do mundo.

A China ainda é uma economia de renda média. Melhorar a produtividade não é tão difícil. Atingir uma renda per capita de US$20.000 até 2030, excluindo a inflação, é bem possível, o que tornaria a China a maior economia do mundo.

Original.
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