A Grande Convergência

Todo grande filósofo tem um único pensamento, Martin Heidegger afirmou. Por mais questionável que essa afirmação possa ser, ela se aplica sem qualificação a Mou Zongsan, o maior filósofo moderno da China (e talvez também do mundo).

Embora a amplitude do conhecimento de Mou seja intimidadora, ele foi tornado possível apenas pela conformidade com um cronograma metódico de estudos ao longo da vida, organizado por uma única ideia. Seu um pensamento, que ele traduziu para a linguagem da Filosofia Ocidental como ‘intuição intelectual’ (νοῦς, intellektuelle Anschauung), integra não apenas seu próprio pensamento, mas também — ele mantém de maneira consistente — toda a tradição filosófica chinesa, da qual é a pedra angular ou fio condutor. Cada um dos três ensinamentos chineses (三教), confucionista, taoista e budista, tende a um princípio da intuição intelectual no qual ele encontra consumação enquanto “ensinamento perfeito” e através do qual ele adere, por necessidade intrínseca (ao invés de por acidente cultural e histórico extrínseco) ao cânone chinês integral.

Se qualquer conceito unitário tem a densidade de significância suficiente para definir a essência de uma cultura mundial vasta e altamente ramificada, pode-se esperar que ele resista a uma compreensão casual. Entendê-lo, como Mou demonstra meticulosamente, não é um passo preparatório para se pensar dentro da tradição, mas a tarefa cultural derradeira apresentada pela tradição, em cada uma de suas principais vertentes constitutivas. Se a cultura chinesa compartilha uma compreensão iniciatória, ela não é uma percepção prontamente concluída, mas uma aspiração integrativa, que orienta suas várias partes em direção ao mesmo destino, ou realização final. A resolução cognitiva é subordinada ao desenvolvimento prático, através do auto-cultivo.

No Ocidente, a intuição intelectual é um conceito notoriamente difícil, em tal medida que ele é amplamente descartado como um exemplo de extravagância filosófica, para além de toda possibilidade de formulação rigorosa ou uso teórico. Designando a auto-compreensão direta da inteligência, ela foi associada, desde os tempos mais primordiais, ao processo da mente divina. O Deus de Aristóteles, cujo pensamento auto-contemplativo é a aplicação da ação mais elevada ao objeto mais elevado, é a epítome da noção.

Kant determinou que a intuição intelectual jazia para além de qualquer possível entendimento humano, exilando-a estritamente para a esfera exterior das inteligências divinas. Doravante, apelos ao conceito seriam a marca de empreendimentos filosóficos românticos ou ‘místicos’ (representados primariamente pelos pensadores do ‘Idealismo Objetivo’ alemão e aqueles por eles influenciados). Conforme a racionalidade tecno-científica suplantou, de maneira incremental, a metafísica especulativa, e as divindades murcharam até hipóteses implausíveis, a significância da intuição intelectual se contraiu em direção a um ponto de fuga — seja ele excentricidade desacreditável ou curiosidade histórica. Nos termos de Mou Zongsan, a filosofia ocidental, de acordo com a sua própria fatalidade cultural, tornou-se quase perfeitamente não-chinesa.

A ‘Grande Divergência‘, familiar em discussões da história econômica mundial, portanto, teve uma contraparte rigorosamente determinável na alta cultura, o que explica porque, quando Oriente e Ocidente experimentaram seu duro encontro com a modernidade, eles estiveram unidos por um profundo estranhamento mútuo. A ideia identificada por Mou Zongsan como o princípio básico da Inteligência Oriental, através da qual — apenas — a cultura chinesa faz sentido, havia sido arquivada pelo Ocidente séculos antes, como uma esquisitice da teologia especulativa, e agora jazia enterrada no pó, mal lembrada, muito menos sequer tentativamente entendida.

Se a ideia de inteligência diretamente auto-apreensiva permanecesse como uma reserva da metafísica alemã do século XIX, dificilmente se poderia imaginar que o abismo entre o Oriente e o Ocidente — como Mou Zongsan o entende — pudesse ser mais do que tenuemente superado. Ou o Oriente permaneceria inteiramente inescrutável para todo o Ocidente, excetuando-se apenas uma franja cultural de orientalistas, devotada à busca de um exotismo radical, ou o Oriente fugiria de maneira fundamental de seu próprio caminho cultural, ocidentalizando-se até que um pensamento comensurável fosse alcançado. Ambos esses prospectos foram explicitamente lamentados no influente texto “A Manifesto for a Re-appraisal of Sinology and Reconstruction of Chinese Culture” (“Um Manifesto por uma Reavaliação da Sinologia e Reconstrução da Cultura Chinesa”, em chinês 为中国文化敬告世界人士宣言), assinado por Mou Zongsan e três outros estudantes “novos confucionistas” de Xiong Shili (Zhang Junmai, Tang Junyi, e Xu Fuguan), originalmente publicado em 1958.

Que a maré da Grande Divergência econômica e geoestratégica tenha virado nas décadas finais do último século é uma questão de fato indisputável, confirmado por um dilúvio de indicadores quantitativos de desempenho. O aspecto cultural dessa reversão é necessariamente mais complicado e contencioso. No Ocidente, não há dúvida de que muitos explicariam a transição em termos da ocidentalização chinesa, começando com a adoção do “socialismo científico” europeu no final da década de 1940, e amadurecendo através da liberalização — ou globalização econômico-tecnológica — até alcançar a lua.

Uma narrativa muito diferente, e uma em que o status emergente de Mou Zongsan poderia ser bem mais positivamente retratado — aderiria firmemente ao problema da intuição intelectual, ou inteligência auto-apreensiva. A referência mais significante seria I J Good e seu pioneiro ensaio ‘Speculations Concerning the First Ultraintelligent Machine’ (“Especulações a Respeito da Primeira Máquina Ultrainteligente”), composto no começo dos anos 1960 e primeiro publicado em 1965. Nesse artigo, Good escreve:

Seja uma máquina ultrainteligente definida como uma máquina que pode superar de longe todas as atividades intelectuais de qualquer homem, não importa o quão inteligente. Uma vez que projetar máquinas é uma dessas atividades intelectuais, uma máquina ultra-inteligente poderia projetar máquinas ainda melhores; haveria, então, inquestionavelmente, uma “explosão de inteligência”, e a inteligência seria deixada bem para trás… Assim, a primeira máquina ultrainteligente é a última invenção que o homem jamais precisa fazer, contanto que a máquina seja dócil o suficiente para nos dizer como mantê-la sob controle. É curioso que esse argumento seja feito tão raramente fora da ficção científica. Às vezes vale a pena levar a ficção científica a sério.

O horizonte tecno-científico é descrito por uma inteligência reflexiva, que apreende a si mesma de maneira prática e, ao fazê-lo, marca o propósito humano final. Isso é, bastante evidentemente, a ‘intuição intelectual’, conforme ela emerge na borda exterior da modernidade, em vez de entre as curiosidades confusas de sua ancestralidade filosófica. Se ela corresponde ao cerne cultural chinês — como Mou Zongsan obstinadamente mantém — é como um destino antecipado, em vez de um legado abandonado. O modernização avançada vai em direção a ela.

Embora, superficialmente, o conto da modernidade chinesa possa ser interpretado como a substituição de Confúcio pela robótica, uma atenção cuidadosa ao problema da intuição intelectual sugere algo bastante diferente. Auto-cultivo ou inteligência auto-aperfeiçoadora — que tipo de escolha é essa?

Ludibriadas

As cidades foram mantidas no solo, observa Robin Hanson em um post pé-no-chão sobre o assunto. Dadas as fortes evidências de retornos crescentes para o desenvolvimento vertical, até 20 andares em Shanghai (e 40 em Hong Kong), é imediatamente óbvio que as principais metrópoles do mundo estão muito mais estreitamente presas à terra do que um cálculo econômico poderia prever. Construções super-altas são desafiadoras, mas a construção de arranha-céus a altitudes moderadas não está sendo inibida por quaisquer fatores econômicos ou técnicos facilmente identificáveis.

Depois de percorrer uma gama impressionante de possíveis explicações para o nanismo urbano, Hanson chega à conclusão:

A densidade urbana e, consequentemente, o tamanho das cidades são limitados principalmente pelas capacidades dos elementos conflitantes que influenciam os governos locais a se coordenarem para permitir construções mais altas. […] Lembra daquelas imagens futuristas de cidades densas e altas que arranhavam os céus? Os engenheiros fizeram seu trabalho para torná-las possíveis. É a política que ainda não está à altura da tarefa.

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O Futuro Oriental do Bitcoin

A comparação entre as atitudes (oficial) dos EUA e as do leste asiático em relação ao Bitcoin, feita por Simon Black, fala por si mesma:

Lugares como Hong Kong e Singapura entendem que eles têm um papel a desempenhar, enquanto centros financeiros internacionais proeminentes, tornando-se centros financeiros para moedas digitais.

Se os EUA quiser atirar no próprio pé (de novo) e se trancar para fora do mercado, que assim seja. Mas a Ásia está abraçando seu papel potencial completo no mercado, com todos os riscos e recompensas.

Não foi há mais do que algumas semanas que uma bolsa de bitcoins baseada em Hong Kong fugiu com alguns milhões de dólares em dinheiro de clientes. Mas isso não arrefeceu a demanda na região … nem desencadeou uma onda de regulamentações debilitantes para reprimir as moedas digitais.

Em última análise, isso significa que todos os novos negócios e o capital intelectual associados às moedas digitais migrarão para a Ásia … exatamente da mesma forma que todas as empresas de metais preciosos de ponta estão agora se estabelecendo em Singapura.

ADICIONADO: “O governo dos EUA acredita que algumas pessoas assustadoras estão usando bitcoins. Mas eis aqui um outro prospecto assustador: Se o governo se exceder com uma abordagem linha dura ao Bitcoin e a outras moedas digitais emergentes, ele pode meramente empurrá-las para o exterior, onde elas certamente florescerão fora de seu controle.”

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Leninismo de Mercado

Ocidentais confusos, perguntando-se como as iniciativas políticas semi-maoistas da liderança Xi-Li se alinham com seu comprometimento com a reforma econômica, encontrarão seus dilemas resolvidos pela excelente análise de Zachary Keck no The Diplomat. Independentemente de pressupostos liberais em contrário, impor a disciplina do Partido Central sobre os feudos regionais da China está estreitamente alinhado com a agenda de reformas. (O realismo nesse aspecto é avançado pelo reconhecimento que a liberalização autoritária é o único tipo que jamais existiu, em qualquer lugar.)

Xi e a autoridade do Partido central sobre líderes locais percorrerão um longo caminho em determinar o escopo e a extensão das reformas econômicas que a China empreenderá nos anos futuros. Xi e Li ambos deixaram claro que eles entendem a natureza das reformas que a China precisa para sustentar o crescimento. Sua capacidade de agir sobre esse entendimento é uma questão inteiramente diferente. Muito embora enfrentem uma forte resistência de muitos segmentos da sociedade, os líderes locais não notáveis por estarem evolvidos em quase todas as principais áreas da reforma. […] Assim, superar a resistência do governo local será uma parte crucial da capacidade de Xi de empreender as reformas econômicas necessárias. Xi e a liderança central parecem entender isso, dado seu esforço de um ano para consolidar seu controle sobre líderes provinciais e outros líderes locais.

(Todo o artigo é excelente — leia-o todo.)

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383

No Project Syndicate, Andrew Sheng e Xiao Geng fornecem um breve comentário sobre as perspectivas da política econômica da China:

No Terceiro Plenário do 18º Comitê Central do Partido Comunista Chinês, atualmente em curso em Pequim, o presidente Xi Jinping está divulgando o plano de reforma da China para a próxima década. Antes da sua divulgação, o Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho de Estado, centro de estudos oficial da China, apresentou sua própria proposta de reforma – o chamado “plano 383” – que oferece um vislumbre da direção que as reformas tomarão.

Apesar de um senso aguçado dos obstáculos à frente, os autores estão claramente impressionados:

Mas o tipo de reformas profundas e abrangentes que a China precisa é sempre difícil de implementar, uma vez que elas necessariamente afetam interesses pessoais. A fim de obter apoio público para reformas, maximizando as chances de sucesso, o governo deve oferecer explicações claras e acessíveis sobre seus objetivos. … O Centro de Pesquisa adota uma abordagem holística ao processo de reforma, considerando-o como uma mudança sistêmica e como uma mudança de mentalidade. Traduzir suas propostas – que são tão profundas quanto as reformas de Deng Xiaoping em 1978 – em termos simples e diretos não é uma tarefa fácil, mas o plano 383 lida com ela com relativa destreza.

É quase impossível não ler a comparação com as reformas de 1978 como hipérbole, especialmente quando rapidamente se concede que uma “transformação rápida e abrangente não é realista em um país de 1,3 bilhão de pessoas”. Não obstante, a direção proposta da mudança é claramente encorajadora, mais obviamente porque ela busca de maneira tão inequívoca aprofundar a abordagem política orientada ao mercado da Era da Reforma, ao expandir a esfera de tomada de decisão descentralizada e sensível a preços (ao passo em que contrai o escopo da discrição política).

“O ‘383’” — eles explicam:

…é uma abreviação para o conteúdo do plano. Primeiro, a proposta descreve as relações entre os três principais atores da economia chinesa: governo, empresas e mercado. Em segundo lugar, identifica oito áreas-chave de reforma: governança, política de concorrência, terra, finanças, finanças públicas, ativos do Estado, inovação e liberalização do comércio e finanças internacionais. Terceiro, destaca três objetivos correlacionados: aliviar a pressão externa por mudanças na política interna, construir a inclusão social por meio de um esquema básico de previdência social e reduzir a ineficiência, a desigualdade e a corrupção por meio de uma importante reforma agrária no campo.

A nova Zona de Livre Comércio de Shanghai também recebe uma menção rápida, mas incandescente.

Dada a semi-inevitabilidade de pertubações sérias na economia mundial ao longo dos próximos anos, assim como de um estouro tardio de bolhas na China (em sua maior parte, no setor imobiliário), mesmo um rastejamento cauteloso na direção certa parece atrativo. Entre as razões para não se apressar a lugar nenhum está o estado degenerado da teoria monetário em todo o mundo, o que levou à adoção de políticas desastrosamente mal concebidas em quase toda grande economia. Uma cobertura de risco faz muito sentido agora.

Assim que o castelo de cartas macroeconômico entre em colapso, haverá espaço para que ideias mais sadias ressurjam. A julgar pela acumulação chinesa de ativos de metais preciosos (públicos e privados), juntamente com sua abordagem flexível a moedas digitais novas (e “hard”), os germes intelectuais de um regime monetário pós-fiduciário no futuro próximo já poderiam estar em vigor. Isso realmente seria algo sólido sobre o qual se construir.

ADICIONADO: “A China aprofundará sua reforma econômica para garantir que o mercado desempenhe um papel ‘decisivo’ na alocação de recursos, de acordo com um comunicado emitido após a terceira sessão plenária do 18º Comitê Central do PCC…” (Xinhua)