Bitcoin na Rota da Seda

Uma série de obrigações de escrita profissional me levaram a Xinjiang três vezes esse ano, e a impressão mais forte dessas viagens foi a centralidade da herança da Rota da Seda. Independentemente de fronteiras, etnias e controvérsias, a Rota da Seda é a razão pela qual todo mundo está lá, e a coisa que sempre veio primeiro. Derivativamente, uma infraestrutura de transporte conecta os assentamentos, mas primariamente é a grande estrada antiga que depositou áreas de habitação ao longo de seus vastos — e severos — trechos intermediários, como se estivesse se provisionando com o equivalente arcaico de postos de gasolina e de polícia rodoviária, distribuídos em qualquer frequência necessária para manter a estrada aberta.

A China não é muito adepta das RPs internacionais, e a cobertura de Xinjiang na mídia mundial tende a ser crítica. Isso resultou em uma irritabilidade previsível e, muito embora o exame histórico mais superficial já demonstre que os chineses Han têm uma presença profunda e antiga na área, não se perde nenhuma oportunidade de sublinhar esse ponto ainda mais. Esses esforços variam do genuinamente iluminador ao comicamente incompetente. Uma espécie especialmente interessante de evidência, que cai em algum lugar entre esses extremos — e passa por entre eles em um ângulo estranho — é a cunhagem. Repetidamente me foi dito por curadores de museu e especialistas históricos, sempre com a maior seriedade, que a abundância de moedas imperiais chinesas encontradas na área era um indicador inequívoco de integridade demográfica e do assentamento Han. Certamente, Xinjiang é um paraíso dos numismatas, mesmo que esses sinais comerciais tangíveis sejam arrastados para dentro de histórias que eles não podem contar de maneira confiante.

Moedas têm pouca afinidade com assentamentos. Conta-se sempre a ‘portabilidade’ entre as características essenciais exigidas do dinheiro, porque sua função é circular, ou viajar. Como gotículas arrastadas pelas correntes do comércio, as moedas de Xinjiang pertencem à estrada antes de pertencerem ao lugar, eloquentes sobre transações, mas mudas sobre territórios. Elas contam sobre fluxos e passagens, mas quando o tópico se volta para a geografia política, elas se calam. De que importam, para o tráfego comercial, fronteiras e pátrias? — Apenas para aquilo com o que ele é coagido a se importar, seja por pedágios ou bandidos fora de controle.

A China foi puxada para o seu Far West, há bem mais de dois milênios, como guardiã da Rota da Seda. Ela foi legitimada como hegemon regional por sua capacidade administrativa e coesão cultural. Aparentemente, na atual era de brigas etno-nacionalistas sobre fronteiras e de irritabilidade territorial, reconhecer esse fato indiscutível ou é demais ou é insuficiente.

Até recentemente, o Bitcoin estava associado com uma Silk Road diferente — embora, sem dúvidas, uma não muito diferente. Como uma criptomoeda parcialmente anonimizada, imunizada de maneira fundamental contra a interferência política de qualquer tipo, ela estava naturalmente afiliada aos mercados anarco-capitalistas da ‘dark web’. O fechamento dessa Rota da Seda da Internet, no começo de outubro de 2013, impeliu o Bitcoin a uma nova fase de existência, como o Tech Crunch explica:

O recente aumento de preço do Bitcoin também vem após uma queda de 15% no mês passado [setembro de 2013], depois a invasão do ‘mercado negro’ subterrâneo da Silk Road — onde bilhões em bitcoins foram usados para comprar vários bens e serviços ilegais desde que a Silk Road foi montada. O fechamento do serviço abriu um buraco na valorização do Bitcoin — mas claramente apenas temporário. O Bitcoin recuperou rapidamente o valor perdido e, desde então, entrou nessa última onda.

A remoção de um dos mais notórios dutos que ligavam o Bitcoin à compra e venda de narcóticos e outros bens e serviços ilegais pode, na verdade, ter ajudado a criptomoeda — melhorando sua reputação e, assim, impulsionando seu apelo popular.

O Bitcoin suporta transações quase anônimas, o que encorajou seu uso na Silk Road. Mas a criptomoeda tem muitas outras características que potencialmente a tornam interessante para uma base de usuários muito mais mainstream — como o fato das transações serem irreversíveis, algo de interesse potencial para os varejistas online que querem evitar o incômodo de estornos.

Com a Silk Road artificial fechada, o Bitcoin foi rapidamente plugado à original. Menos de duas semanas depois da operação do FBI, o gigante da Internet chinesa, Baidu, anunciou que ele começaria a aceitar bitcoins. Embora seja uma óbvio evento limítrofe, essa decisão também foi a confirmação de poderosas tendências pré-existentes, que haviam elevado o nível de interesse chinês na moeda ao segundo maior no mundo (depois apenas dos Estados Unidos). Para poupadores chineses, presos entre as contas bancárias em RMB, de retorno negativo, e mercados imobiliários irracionalmente exuberantes, os prospectos do Bitcoin enquanto reserva especulativa de valor facilmente parecem atraentes. (Um crescimento paralelo na posse, tanto pública quanto privada, de ouro reforça essa impressão.)

A interpretação mais radical desses desenvolvimentos, contudo, os conectaria às intimações a um “mundo des-americanizado”. Para usuários americanos do Bitcoin, em particular, a moeda já é adotada como uma maneira de vender o dólar americano e expressar de maneira prática um desgosto para com o regime monetário fiduciário global. Meros dias antes da decisão do Baidu, um comentário no Xinhuanet sugeria:

O que também pode ser incluído como parte fundamental de uma reforma [financeira global] efetiva é a introdução de uma nova moeda de reserva internacional, a ser criada para substituir o dólar norte-americano dominante, de modo que a comunidade internacional permaneça afastada dos efeitos colaterais da intensificação da turbulência política interna nos Estados Unidos.

Soa como se a história estivesse sendo feita.

Original.
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