Sobre o #Acelerar (#1)

O #Acelerar se posiciona muito claramente dentro de uma tradição intelectual marxiana. Nesse aspecto, ele se mantém consistente com a corrente principal de pensamento ‘aceleracionista’, da forma em que foi desenvolvida a partir do Manifesto Comunista de Marx, passando pelos escritos posteriores de Marx sobre imperialismo e relações internacionais, e adentrando o semi-marxismo ‘nietzschianizado’ de Deleuze, Guattari e Lyotard. A recomendação política constante que perpassa esse diverso legado é o alinhamento com a revolução social capitalista, a fim de efetuar sua implicação escatológica derradeira. Interromper o desenvolvimento capitalista é retardar a formação da classe revolucionária final — o proletariado internacional radicalmente industrializado (ou qualquer esquizo-enxame decodificado que ele mais tarde se torne). Daí o slogan imperativo definidor de Deleuze & Guatteri: Acelere o processo.

Para além desse ponto, contudo, a obscuridade se acumula rapidamente. Em particular, não está nem um pouco claro qual tendência ampla de teoria marxista está sendo extrapolada. A partir das pistas retóricas disponíveis, não parece que o #Acelerar endossa a quebra deleuzoguatteriana completa com o marxismo clássico — que cruza a catástrofe teórica que inclui o abandono da Lei do Valor (em uma adoção da ‘mais-valia maquínica’, do ‘valor maquínico de código’ e do marginalismo); a diferenciação entre ‘capitalismo’ e economia de mercado (seguindo Braudel); a denúncia do socialismo de estado como um ‘Despotismo Oriental’ regressivo (seguindo Wittfogel); e uma desumanização do sujeito revolucionário sem limites óbvios (recorrendo a fonte que vão de Samuel Butler a Antonin Artaud). Se este fosse o vetor sendo perseguido, isso estaria — por certo — vividamente evidente?

Assumindo, então, que o #Acelerar recue para uma estrutura marxiana mais reconhecível, como essa estrutura teórica deve ser entendida? A questão interna decisiva para a tradição marxista (séria) se refere ao Problema da Transformação, uma vez que é apenas se este for considerado solúvel que qualquer coisa como uma continuidade do marxismo clássico (ou uma ‘Lei do Valor’ crível) pode ser sequer vislumbrada. Vale a pena relembrar que críticos abrangentes de Marx — aqueles que não encontram nada de significância positiva a ser resgatado de sua obra — tomaram, a partir de Böhm-Bawerk, o Problema da Transformação como a conclusão do reductio ad absurdum feito por Marx da Teoria do Valor-Trabalho (conforme herdada de Smith e Ricardo), vendo o significado econômico rigoroso do sistema marxiano como tendo sido inteiramente exaurido nessa demonstração. Permanecer sendo um marxista em qualquer sentido que não seja absurdo depende de algum outro caminho ter sido tomado, mas qual deles? O #Acelerar não oferece nenhuma indicação óbvia. (A literatura sobre isso é vasta, então seria útil saber onde focar.)

Sem uma resolução do Problema da Transformação — e mesmo um esparadrapo bem posicionado seria provisoriamente suficiente — não pode haver nenhum conceito consistente de exploração, ou sequer um sentido teoricamente significativo de tempo de trabalho. Isso é especialmente relevante, porque desempenha um papel crucial na resposta de Antonio Negri ao #Acelerar, que capta um observação tentadora no próprio manifesto:

Todos queremos trabalhar menos. É uma questão intrigante por que o principal economista do mundo da era pós-guerra acreditava que um capitalismo iluminado inevitavelmente progrediria em direção a uma redução radical da jornada de trabalho. Em “Perspectivas Econômicas para Nossos Netos” (escrito em 1930), Keynes previu um futuro capitalista onde indivíduos teriam seu trabalho reduzido a três horas por dia. O que ocorreu, entretanto, foi a progressiva eliminação da distinção entre trabalho e vida, com o trabalho acabando por permear cada aspecto da fábrica social emergente.

O Aceleracionismo de Esquerda está se promovendo como um redentor da promessa vazia de Keynes? A partir da pura descritividade dessa passagem (vagamente pesarosa) é difícil saber. O que podemos saber, com confiança, é que o tempo de trabalho não pode ser nada além de um tópico axial dentro de toda essa discussão.

Se a Lei do Valor deve ser defendida, a produção de valor é medida em tempo (de trabalho). O fator de transformação de Marx é projetado para conservar a equação entre trabalho quantificado – temporalizado — e valores econômicos, conforme expressos nos preços. Se esse remendo falhar, toda a análise do Capital perde aplicação para um fato social determinado. Não haveria mais qualquer economia marxiana que seja (uma conclusão que Negri e os Autonomistas parecem dispostos a aceitar).

É difícil ver como um Aceleracionismo de Esquerda poderia ser mantido sob essas condições. O tempo histórico não teria mais qualquer relação calculável com a mercantilização do trabalho, com a vida trabalhista ou com qualquer identidade de classe proletária que pudesse ser construída. O tempo real da modernidade (capitalista) – ao qual o aceleracionismo se agarra — não poderia mais ser descrito como o tempo do trabalho. No limite, as forças de trabalho humanas são relegadas a "parasitas afídios das máquinas". Uma vez que a luta de classes sobre o tempo de trabalho seja divorciada de um papel plenamente determinante na produção de valor, o proletariado é despojado do potencial de encarnar a história-em-si, consignando o ‘marxismo’ a uma articulação de queixas marginais e, em última análise, à morte térmica na política de identidade. (Isso, claro, é exatamente a tendência que tem sido sociologicamente aparente.)

Um último ponto cru por ora. Enquanto teoria cibernética fundamental, o aceleracionismo está ligado à identificação de um loop de feedback positivo central à sociedade, através do qual a modernidade é impelida. Desta forma, ele requer — no mínimo — variáveis quantitativas gêmeas entrelaçadas em uma relação de estímulo recíproco. O capitalismo industrial, com sua dualidade ‘teconômica’ intrínseca de dinâmica técnica e comercial entrecruzada, torna a aplicação do diagrama cibernético relativamente não problemática. Com ou sem a Lei do Valor, o esquema aceleracionista não pode deixar de se interligar firmemente com os contornos mais proeminentes da modernidade.

Se não um trabalho temporalmente denominado (‘vivo’ e ‘morto’), contudo, qual é a variável sendo acumulada? Essa é a questão para se levar adiante. A pergunta por ora: se o trabalho é o fator cumulativo na análise aceleracionista, como uma crítica prática do tempo de trabalho pode ser algo além de uma política de desaceleração?

(O passo-a-passo anotado inicial do Urbano Futuro ao #Acelerar está aqui: 1, 2, 3.)

ADICIONADO: Às vezes eu me preocupo que a Wikipédia possa estar levando o espírito de neutralidade estrita a extremos (do link já dado): "Mais uma vezes, os teóricos burgueses conseguem nos impressionar com sua erudição, enquanto evitam completamente a substância do debate".

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Como o Terror Funciona

O motivo primário do terrorismo é atrair a atenção da mídia para as queixas dos perpetradores.

Quando a mídia ocidental cobre um incidente terrorista, ela foca reflexivamente nas queixas dos perpetradores.

Uma cobertura desse tipo não é sobre o terrorismo. Ela é um componente orgânico do terrorismo.

ADICIONADO: Kaiser Kuo faz um argumento importante: "…as pessoas estão, em sua maioria, escrevendo e falando sobre a situação como se ela estivesse ocorrendo em completo isolamento, como se a ascensão do Islã radical no resto do mundo desde a década de 1980 não estivesse presente".

ADICIONADO: O Departamento de Estado dos EUA faz a coisa certa.

ADICIONADO: Gordon Moore: A Jihad Global Alcançou a China?

ADICIONADO: Um pouco de justa indignação do People’s Daily Online: "Há extensa evidência na cena do crime para não deixar dúvidas de que o ataque à estação de trem em Kunming não foi nada além de um crime terrorista violento. Mas, independente dessa evidência, algumas organizações midiáticas ocidentais não estavam dispostas a usar o termo ‘terrorismo’ em sua cobertura. A reportagem da CNN em 3 de março [de 2014] colocava a palavra ‘terroristas’ entre aspas e oferecia a visão de que ‘ataques em massa com facas’ não são ‘sem precedentes’ na China. A intenção aqui era associar esse incidente terrorista a uma série de ataques que ocorreram em 2010 e 2012, o que é ainda mais repugnante porque esses ataques aconteceram em escolas, foram conduzidos por indivíduos que claramente tinha distúrbios mentais e sua vítimas eram crianças. Nenhum dos perpetradores tinha qualquer conexão política ou motivos políticos. A reportagem da Associated Press usava o termo ‘descrito pelas autoridades como’ para qualificar seu uso da palavra ‘terroristas’. O New York Times e o Washington Post chamaram os terroristas de ‘agressores’".
— Lições de decência básica vinda da mídia chinesa (de nada).

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O Fascismo que Venceu

Chamar alguém de fascista tende a ser uma ótima maneira de acabar com uma conversa. Primeiro na Esquerda e mais recentemente na Direita, o valor abusivo desse termo foi avidamente aproveitado. Na medida em que tal uso merece a atribuição de uma ‘lógica’, ela é aquela do reductio ad absurdum — um argumento ou posição que possa ser identificada como fascista por implicação é, por isso, imediatamente descartado. O fascismo é analisado apenas na medida em que é necessária para colar o rótulo no outro cara.

Entre as razões para se lamentar essa situação está o véu que ela lança sobre o triunfo do fascismo enquanto fato histórico decisivo do século XX. Embora a derrota do eixo ‘fascista’ central na Segunda Guerra Mundial tenha deixado a ideologia desprovida de defensores confiantes, reduzindo-a a seu significado meramente abusivo, ela também fomentou a ilusão de que as potências vitoriosas eram essencialmente ‘anti-fascistas’ — ao ponto de uma exerção militar extrema. A realidade histórica, em contraste, é descrita de maneira bem mais precisa pela convergência dramática acerca de ideias fascistas, tanto pela Esquerda quanto pela Direita, como exemplificado pela ascensão do nacionalismo pragmático sobre o coletivismo radical no mundo comunista e do gerencialismo estatal sócio-democrata sobre o ‘liberalismo clássico’ laissez-faire no Ocidente. Com uma discussão calma sobre essa formação de ‘terceira posição’ tornada quase impossível, a tentativa crucial de entender sua especificidade sócio-histórica é desviada para uma polêmica estéril.

O arque-druida americano John Michael Greer talvez esteja suficientemente distante das previsíveis controvérsias entre esquerda e direita para fazer uma diferença com sua série em três partes de posts sobre a realidade histórica do fascismo. Ao invés de atacar o fascismo (pela Esquerda) por seu capitalismo residual ou (pela Direita) por seu anti-capitalismo inovador, Greer prioriza a tarefa filosófica de uma retificação das palavras:

Quando George Orwell escreveu sua tremenda sátira da política totalitária, 1984, um dos temas centrais que ele explorou foi o aviltamento da língua por vantagens políticas. Esse hábito encontrou seu emblema duradouro na língua inventada de Orwell, a novilíngua, que era deliberadamente projetada para ficar no caminho de um pensamento claro. A novilíngua permanece ficcional — bem, mais ou menos — mas todo o tema do fascismo e, de fato, a própria palavra ficaram emaranhados em uma rede de língua aviltada e pensamentos incoerentes tão extrema quanto qualquer coisa que Orwell tenha colocado em seu romance.

Hoje em dia, para ser mais preciso, a palavra "fascismo" funciona, em sua maior parte, como o que S. I. Hayakawa costumava chamar de palavra-grunhido — um ruído verbal livre de conteúdo que expressa emoções raivosas e nada mais. …Para se superar tais tolices, vai ser necessário tirar o tempo para se erguer para fora do pântano de novilíngua que cerca o tema do fascismo — para reconectar as palavras com seus significados, e os movimentos políticos com seus contextos históricos

A discussão de Greer é tão eloquente e penetrante que seria redundante repeti-la aqui. Ela merece a leitura cuidadosa mais ampla possível e uma reflexão subsequente. (O Urbano Futuro endossa todo o argumento, com apenas as reservas mais marginais sobre pontos comparativamente insignificantes.)

Em vez de repetição sem sentido, uma questão. Dado que a história conspirou para tornar a palavra ‘fascismo’ ilegível e, assim, não apenas obscureceu a tendência dominante na organização social mundial, mas também retirou todos os anticorpos eficazes contra movimentos ressurgentes do tipo fascista clássico, há algum caminho realista até uma restauração da lucidez política? O mundo está condenado à cegueira persistente sobre o que é e sobre o que poderia, de maneira ainda mais desanimadora, se tornar? Se existe qualquer razão para encorajamento nesse aspecto, a evidência é tênue.

A conclusão de Greer parece não menos sombria. Ao se aproximar dela, ele comenta:

Os movimentos fascistas das décadas de 1920 e 1930 estavam… intimamente sintonizados com as esperanças e medos das massas, bem mais do que qualquer um dos partidos principais ou dos grupos radicais estabelecidos de seus respectivos países. Ao contrário do "fascismo" imaginado da retórica radical moderna, eles eram uma alternativa aos negócios como de costume, uma alternativa que se posicionava firmemente no centro abandonado do discurso político de suas eras. …Antissemitismo e militarismo explícito eram socialmente aceitáveis na Alemanha do entre-guerras; eles não são socialmente aceitáveis nos Estados Unidos de hoje e, assim, não desempenharão um papel em um movimento neofascista de qualquer importância no futuro americano. O que desempenhará tais papeis, claro, são os tropos e bordões que apelam aos americanos hoje, e esses podem muito bem incluir os tropos e bordões que mais apelam a você.

[ADICIONADO]: (Para os fregeanos por aí) Sinn diferente, mesmo Bedeutung: ‘estrela da manhã’ e ‘estrela do entardecer’; ‘Neoliberalismo‘ e O Fascismo que Venceu.

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Mediado

As estudantes mulheres nos EUA passam uma média de 12 horas por dia em imersão midiática. Supondo que os alunos normalmente durmam bastante, isso equivale a aproximadamente 75% de todas as horas de vigília, na média. É claro que é hora de recategorizar a sociologia como um sub-campo dentro dos estudos de mídia.

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O Bitcoin Sobreviverá?

Eli Dourado, autor do mais importante artigo inspirado pelo Bitcoin na web, continua publicamente comprometido com o futuro da criptomoeda. Na esteira da crise da Mt Gox, que afetou a maior bolsa de BTC do mundo (baseada no Japão), ele escreveu uma breve defesa do argumento otimista em uma veia nietzschiana: o que não nos mata, nos deixa mais fortes.

Em apenas quatro curtos parágrafos, Dourado consegue fazer um argumento significativo. A sobrevivência testada sob pressão tem um valor. Quanto mais feroz o ambiente do Bitcoin se mostrar, tanto mais vantajosa sua posição competitiva em relação a criptomoedas alternativas, já que sua resiliência é demonstrada e divulgada. A efetuação de um potencial (catástrofe) resolve o risco, deixando o que quer que sobreviva ampliado por um prêmio de segurança. "Agora aconteceu de que fazer com que um ecossistema de criptomoedas cresça é muito, muito difícil — mais difícil do que talvez tenhamos pensado. Segue-se diretamente que o Bitcoin enfrenta menos concorrência das outras criptomoedas do que pensávamos. …já que é difícil de ser bem sucedido, se o Bitcoin for bem sucedido, então ele pode valer bastante".

Os dois links de Dourado fazem ainda mais trabalho. O primeiro é para um pré-obituário recente de Megan McArdle sobre o BTC, que argumenta que o dano à reputação infligido pelo fisco da Mt Gox o enfraquecerá ainda mais no que sempre foi um desafio quixotesco ao poder estatal:

Eu nunca fui muito otimista sobre o Bitcoin, porque, em última análise, quanto melhor for seu desempenho em evitar a vigilância governamental sobre as transações monetárias (e a capacidade do governo de gerir cargas de dívida através da inflação), tanto mais duramente esses governos vão tentar acabar com ele.

Governos gostam de cobrar um imposto inflacionário invisível e ficam irritados quando as pessoas tentam contorná-lo. (Tudo isso é bem explícito, em ambos os lados). O esquilíbrio de oportunidades dentro desse conflito é intricado demais para se detalhar aqui, mas a absoluta submissão de McArdle à exação governamental claramente representa uma posição extrema entre os comentadores. Que o Bitcoin previsivelmente enfureça as autoridades financeiras estatais é uma funcionalidade, não um defeito.

O segundo link de Dourado se refere a um argumento mais antigo e mais sutil de Tyler Cowen, que faz um argumento pessimista contra o Bitcoin por razões estritamente econômicas. Na medida em que se veja o Bitcoin florescer, criptomoedas concorrentes serão atraídas para o mercado, arbitrando o valor de volta ao custo de oferta:

Assim, há um novo teorema: o valor de [qualquer]Coin deveria, no equilíbrio, ser igual aos custos de marketing de seus concorrentes em potencial …Em suma, ainda estamos em uma situação em que a arbitragem do lado da demanda não alcançou o valor do Bitcoin. E essa é uma razão — entre outras — pela qual eu espero que o valor do Bitcoi caia — muito.

[Vale bastante a pena seguir o link interno Cowen.]

Como já observado, a posição pessimista de Cowen é enfraquecida pelas recentes dores do Bitcoin. Quase independentemente do que acontecer a seguir, uma reputação estabelecida de resistência terá destaque na avaliação de mercado de qualquer criptomoeda a partir de agora.

Uma vez que o Bitcoin não terá sido morto — ele é quase impossível de matar — ele terá se tornado muito mais forte.

ADICIONADO: Hora da YellenCoin? (Não.)

ADICIONADO: "Então a Mt. Gox é a nova versão do Friendster, o antigo líder de redes sociais que se afundou pouco antes de o Facebook surgir? …a próxima geração de fundadores da Bitcoin é mais limpa, tem mais pedigree e está mais adequada aos gostos de Wall Street e Capitol Hill. Eles não são menos libertários ou lupinos.”

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Determinação Tecnológica

Determinismo tecnológico‘ está entre aqueles traços teóricos (‘falácia naturalista’ é um outro) que tendem a provocar imediatamente uma atitude de superioridade intelectual complacente, em vez de engajamento cognitivo. Meramente identificá-lo é tipicamente julgado como suficiente para uma rejeição. Se o DT como tal levanta uma questão, ela é facilmente perdida.

Uma questão sub-examinada poderia ser: Por que o determinismo tecnológico é tão plausível na sociedades modernas e ainda mais conforme elas se modernizam? O equilíbrio da determinação social dentro da sociedade é, em si, uma variável histórica instável, com uma tendência positiva inequívoca?

Dois relatos populares recentes de relevância vagueiam bastante ingenuamente para dentro da mira pré-definida da crítica. No The Atlantic, Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee anunciam o Alvorecer da Segunda Era das Máquinas, ao passo que o Deus-Google dos DTs, Ray Kurzweil, transmite sua previsão (através do Daily Mail britânico) de que "Os robôs serão mais inteligentes que os humanos mais inteligentes dentro dos próximos 15 anos". Os sofisticados zombarão — sem consequências.

Algumas razões rápidas para não se zombar.

(1) A tecnologia avançada segue aproximadamente a Lei de Moore e prevê um impacto comensurável no crescimento. Na ausência de tal crescimento, torna-se cada vez mais difícil evitar notar um mecanismo de compensação, que reequilibra através de um retardamento sistemático o que é perturbado através do desenvolvimento. O DT é de fato parcial, porque ele não tem qualquer explicação sobre o que está lhe segurando. Uma vez que isso seja reconhecido, contudo, ele descreve seu outro de maneira mais realista (como supressão orquestrada) do que o supressor pode explicar a si mesmo.

(2) A combinação de falha sócio-política com realização tecno-econômica — que emerge com definição impressionante da equação de crescimento líquido global — é apenas secundariamente uma questão de clareza conceitual. Primariamente, ela é uma divisão, ou quebra, na qual o determinismo tecnológico representa a instância dinâmica, e a crítica sócio-cultural sofisticada representa — na realidade — a contra-dinâmica, ou entidade retardante. A tentativa de "colocar a tecnologia em seu lugar" que é, de um lado, uma questão de razão abrangente teoricamente auto-evidente é, do outro, a tentativa cada vez mais cômica de um parasita de justificar sua relação com seu hospedeiro. (Esta é uma outra oportunidade de recomendar a visão geral de Andrea Castillo.)

(3) O que quer que a tecnologia possa fazer, ela está fazendo, em um passo acelerado. Conforme ela avança, ideias sobre os ‘limites do tecnológico’ são automaticamente tornadas obsoletas. Ser condescendente com uma máquina a vapor é uma coisa, tentar o mesmo com uma super-inteligência artificial é bem outra. A presunção crítica tem um horizonte externo.

"Queremos que [os computadores] leiam tudo na web e todas as páginas de todos os livros, e então sejam capazes de se engajar em um diálogo inteligente com o usuário para serem capazes de responder suas perguntas", explica Kurzweil. Então, o que você acha desse absurdo de determinismo tecnológico?, em breve seremos capazes de perguntar, arrogantemente.

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‘Neoliberalismo’

É absolutamente óbvio que qualquer engajamento com a versão atual mais proeminente do pensamento aceleracionista — ou, de fato, com qualquer discussão dominada pela esquerda hoje — vai encontrar o termo ‘neoliberalismo‘ como uma referência onipresente. Uma irritabilidade pura não servirá como resposta por muito tempo.

Por que qualquer irritação que seja? De maneira mais imediata, porque a referência desse termo é uma bagunça que se alastra. Ele é empregado de maneira ambígua para descrever uma época e uma ideologia. A evidente duplicidade disso está na suposição tácita de que a ideologia define a época — uma afirmação histórica e política vasta, assim como implausível — que evade uma interrogação sistemática através do desleixo terminológico.

Pior ainda, as características da ideologia ‘neoliberal’ são elas mesmas remendadas, primariamente por uma miscelânea de polêmicas anti-capitalistas teoricamente empobrecidas, vindas de todo o mundo, com a consequência de que sua única característica consistente é o mero fato de ter uma oposição esquerdista (em algum lugar). Como a explicação da Wikipédia (linkada acima) deixa claro, qualquer política econômica em qualquer lugar que não seja positivamente hostil ao mercado e que se encontre comentada de maneira antagonista pela esquerda é ‘neoliberal’.

Quando todos esses fatores compostos de imprecisão são levados em consideração, é fácil ver por que o significado de ‘neoliberal’ pode variar — no mínimo — de um keynesianismo marginalmente reformista do mercado (Clinton), passando por um capitalismo autocrático (Pinochet) até um ‘hiper-capitalismo’ libertário extremo (em nossos sonhos). Sua aplicação global, para incluir — por exemplo — o Círculo do Pacífico dominado por chineses étnicos (e o continente chinês após a Reforma-e-Abertura), é ainda mais descuidadamente gestual. Se a Nova Política Econômica de Lenin em 1921 não era ‘neoliberal’, é difícil ver por quê — a menos que a ausência de uma oposição de esquerda seja suficiente como explicação. Uma palavra tão desleixada — tradicionalmente enraizada na demagogia latino-americana anti-mercado, mas desde então adotada de maneira geral como o equivalente linguístico de uma camiseta do Che Guevara — não tem nenhum uso analítico sério.

A moda é imprevisível, mas parece muito improvável que essa palavra esteja indo a qualquer lugar. Seu significado totêmico dentro do esquerdismo tribal é suficiente para garantir sua persistência — o que seria dizer que a sinalização radical chique do SWPL ficaria significativamente incomodada sem ela. Seria possível, então, rigorizá-la?

Isso exigiria delimitação, ou seja: especificidade. Dada a utilidade política da palavra, existem poucas razões para otimismo nesse aspecto. David Harvey, por exemplo, que devotou um livro ao ‘tópico’ (Neoliberalismo: História e Implicações, 2005), não produz nenhuma definição clara além de capitalismo ressurgente, na medida em que isso ocorreu com a recessão parcial do planejamento central a partir do final dos anos 1970. Sem surpresas, portanto, quanto mais classicamente liberais as políticas se tornam, mais ‘neoliberal’ ela também é. O ‘neo-‘, no fim das contas, não significa mais do que um enfurecido "você deveria estar morto, porra". O neoliberalismo, então, é uma orientação capitalista que sobreviveu às expectativas, e uma vez que as expectativas foram aprofundadas até fundações imóveis, é a sobrevivência que requer uma designação explícita.

Qualquer coerência leve (e estritamente polêmica) que possa ser tirada de Harvey é jogada de volta ao caos pelo artigo de Benjamin Noys, "The Grammar of Neoliberalism" ("A Gramática do Neoliberalismo") (2010). Longe de descrever a reversão parcial a arranjos orientados ao mercado na esteira de suposições social-democráticas hegemônicas, Noys identifica o ‘neoliberalismo’ com o capitalismo supervisionado pelo estado, introduzido nas décadas de 1920 e 1930, isto é, exatamente a ordem econômica que o ‘neoliberalismo’ de Harvey derruba.

Tomado em seus próprios termos — ao invés de como uma defesa de uma palavra intrinsecamente enganosa — o argumento de Noys é altamente interessante. Sua direção geral é capturada na seguinte passagem [marcas de citação subtraídas]:

Qual é a natureza precisa, então, do neo-liberalismo? Claro, a óbvia objeção à visão ‘anti-estado’ do neo-liberalismo é que o neo-liberalismo em si é uma forma contínua de intervenção estatal, usualmente resumida na frase ‘socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres’. Foucault observa que o neo-liberalismo concede isso: ‘a intervenção governamental neo-liberal não é menos densa, frequente, ativa e contínua do que em qualquer outro sistema’. A diferença, contudo, é o ponto de aplicação. Ele intervém na sociedade ‘de modo que mecanismos competitivos possam desempenhar um papel regulatório em todo momento e em todo ponto na sociedade e, ao intervir dessa maneira, seu objetivo se tornará possível, isto é, uma regulação geral da sociedade pelo mercado’. Portanto, perdemos o foco de simplesmente deixarmos uma crítica do neo-liberalismo no ponto de dizer ‘o neo-liberalismo é tão estatista quanto outras formas governamentais’. Em vez disso, a necessidade é analisar como o neo-liberalismo cria uma nova forma de governamentalidade na qual o estado desempenha uma função diferente: permear a sociedade para sujeitá-la ao econômico

Deixando de lado a questão do poder de persuasão desse argumento (para outra hora), a coisa essencial a se notar é que ele representa uma disputa pelo termo negligentemente trôpego ‘neoliberalismo’ que Noys tem pouca chance realista de ganhar — ‘ganhar’, isto é, com abrangência suficiente para salvar a palavra. Se ‘neoliberalismo’ significasse em geral uma variante altamente estatista da organização ‘capitalista’, originando-se primeiro na era do alto-modernismo, na qual — em contraste com o estatismo da esquerda — o papel do estado era especificamente dirigido a impor um simulacro administrativo da ordem social cataláctica, ela se tornaria uma palavra valiosa e teoricamente funcional. Isso aconteceria até mesmo se a própria teoria fosse criticada, emendada ou rejeitada — e, na verdade, a própria possibilidade de tal engajamento pressupõe que ‘neoliberalismo’ se torne um conceito localmente inteligível (local, isto é, para o argumento de Noys e qualquer halo que ele tenha conseguido estender para além de si mesmo).

Mesmo aqui na Direita Exterior, quase toda a irritabilidade terminológica retrocederia imediatamente se a expressão repetidamente encontrada fosse — mesmo que implicitamente — Neoliberalismo no sentido Noysiano. Ele então seria um termo com limites relativamente precisos, esclarecendo mais do que obscurece. Consequentemente, ele marcaria um limite na direita assim como na esquerda, distinguindo o capitalismo anti-estatista ou laissez-faire — com seu modelo em Hong Kong — da formação político-econômica dominante de nossa era. Só por essa razão, pode-se antecipar confiantemente que não se permitirá que ‘neoliberalismo’ signifique nada disso.

[ADICIONADO](http://www.sok.bz/web/media/video/ABriefHistoryNeoliberalism.pdf%5D: PDF completo de A Brief History of Neoliberalism de David Harvey.

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Mente de Twitter

“O quê o Twitter nos diz sobre a aceleração tecnossocial? (Você muito provavelmente já esqueceu)

Conforme novos sistemas de mídia se tornam partes (intimamente anexadas) dos cérebros das pessoas, o pensar sobre eles é conduzido através deles. Em medida considerável, eles são retorcidos por entre as pessoas, a fim de pensar sobre si mesmos. A espiral de envolvimento já está funcionando. Fica cada vez mais forçoso pensar (sobre) como eles pensam.

Os blogs aceleraram os circuitos midiáticos de composição, publicação, interatividade de comentários e revisão. A escrita tornou-se "conversacional" de uma forma sem precedentes e rapidamente ficou sensível aos seus próprios efeitos, o que significa dizer: não-linear. Conforme a cultura se adaptou ao Ciberespaço, ela for moldada por uma torsão, suscetível como nunca antes à captura por turbilhões auto-sustentadores ou ‘singularidades’ com seus próprios vetores errantes imprevistos. Perseguir uma linha de pensamento, embora sempre experimental, agora estava intricadamente entrelaçado com o estranhamento como nunca antes. As linhas ‘interiores’ de memória — que ligam a cognição a uma experiência de integridade subjetiva — foram esticadas para além de suas tolerâncias naturais e sucumbiram à substituição técnica.

O Twitter acelera ainda mais esse processo — muito mais. Cada tweet é uma micro-conclusão e, assim, uma oportunidade para o término da memória. Em vez de seguir a cadeia interna de seus próprios pensamentos, ou de lembrar sobre o que se está pensando, a mente do twitter se imerge no fluxo de informação, onde a interação toma o controle. Estímulo e resposta frenéticos vindos de mensagens recebidas pulverizam a atenção, devolvendo a continuidade por meio da exterioridade, como uma sucessão em staccato de sinais de feedback — respostas, favoritamentos, e retweets. A linha de pensamento foi liberada da mente auto-contida e orgânica (ou de sua ilusão persuasiva de longa duração).

A ‘crítica cultural’ dessa inteligência amnésica, distraída, obsessiva e instável quase escreve a si mesma. O Twitter indubtavelmente é porcaria. O fato de ser viciante, contudo, de forma alguma é a menor de suas lições. Circuitos de feedback estreitos (ou intensidade cibernética) são inerentemente fascinantes, independentemente de quaisquer "recompensas" externas. O cérebro tende automaticamente a uma interconexão dinâmica, mesmo quando o custo é uma rendição abrangente da identidade. O que quer que esteja a caminho terá nos sugado para dentro, antes que consigamos decidir o que queremos pensar sobre ela. A tendência seria resolutamente óbvia, se apenas conseguíssemos lembrar de onde estivémos.

ADICIONADO: Twitter e polarização (via @benedict)

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#Acelerar Anotado (#3)

[Partes um, e dois]

III: MANIFESTO: Sobre o Futuro

  1. Acreditamos que a cisão mais importante na esquerda de hoje está entre aqueles que sustentam uma política popular de localismo, ação direta e incansável horizontalismo, e aqueles que esboçam o que deve passar a ser chamado livremente de uma política aceleracionista com uma modernidade de abstração, complexidade, globalidade e tecnologia. Os primeiros se mantêm satisfeitos em estabelecer espaços pequenos e temporários de relações sociais não-capitalistas, esquivando-se dos problemas reais envolvidos no enfrentamento de adversários intrinsecamente não-locais, abstratos e profundamente enraizados em nossa infraestrutura diária. O fracasso de tais políticas está embutido desde o começo. Em contraste, uma política aceleracionista procura preservar as conquistas do capitalismo tardio enquanto vai além do que seu sistema de valor, estruturas de governança, e patologias de massa permitem.

(Sem querer me inserir em uma querela de família, vista de fora, a distinção delineada aqui entre sabores de anti-capitalismo faz sentido.)

  1. Todos queremos trabalhar menos. [Empreendedores de todos os tipos excetuados] É uma questão intrigante por que o principal economista do mundo da era pós-guerra acreditava que um capitalismo iluminado inevitavelmente progrediria em direção a uma redução radical da jornada de trabalho. Em “Perspectivas Econômicas para Nossos Netos” (escrito em 1930), Keynes previu um futuro capitalista onde indivíduos teriam seu trabalho reduzido a três horas por dia. O que ocorreu, entretanto, foi a progressiva eliminação da distinção entre trabalho e vida, com o trabalho acabando por permear cada aspecto da fábrica social emergente.

Chegar a Keynes tem que ser uma coisa boa, no que diz respeito à substância teórica e histórica, e essa crítica parece sólida.

  1. O capitalismo começou a restringir as forças produtivas da tecnologia [A tese crucial, mas meramente afirmada], ou ao menos, direcioná-las a fins desnecessariamente estreitos. [Um obscurecimento deliberado da diferença entre ‘estreiteza’ política e técnica é a principal façanha aqui] Guerras de patentes e monopolização de ideias são fenômenos contemporâneos [Sim, PI é complicado] que apontam tanto para a necessidade do capital de mover-se além da competição [impossível por definição], quanto para sua abordagem crescentemente retrógrada da tecnologia [afirmação sem sustentação]. As conquistas apropriadamente aceleracionistas do neoliberalismo [= capitalismo remanescente] não levaram a menos trabalho ou menos estresse [é claro, porque o trabalho e o estresse são os registros sócio-biológicos da aceleração]. E ao invés de um mundo de viagens espaciais, choque futurista e potencial tecnológico revolucionário, existimos em um tempo onde a única coisa que se desenvolve é uma parafernália marginalmente melhor para consumidores [Desde 1979? A revolução da informação não aconteceu?]. Incontáveis iterações dos mesmos produtos básicos sustentam a demanda marginal de consumidores às custas da aceleração humana. [Containerização, comunicação por satélite, computação pessoal, telefonia móvel, Internet, TV a cabo, World Wide Web, mídia social, genômica, robótica de drones, filmes 3D, NewSpace, Bitcoin… o que exatamente é "o mesmo produto básico"?]

  2. Não queremos retornar ao modelo fordista. [OK] Nenhum retorno ao fordismo é possível. [Certo] A “era de ouro” capitalista tinha como premissa o paradigma de produção no ambiente ordenado da fábrica, onde trabalhadores (homens) recebiam segurança e um padrão de vida básico em troca de uma vida inteira de tédio embrutecedor e repressão social. Tal sistema se sustentava sobre uma hierarquia internacional de colônias, impérios e uma periferia subdesenvolvida, sobre uma hierarquia nacional de racismo e sexismo, e sobre uma rígida hierarquia familiar de subjugação feminina. Apesar de toda a nostalgia que muitos podem sentir, esse regime é tão indesejável quanto impossível de retornar na prática. [O Fordismo está sendo identificado com a ‘era de ouro’ (final) do capitalismo aqui? Com o ‘neoliberalismo’ como alguma outra coisa? Então um sistema de acumulação de capital computadorizado, empreendedor e de alta intensidade, embasado fundamentalmente em competição e incentivos econômicos, de alguma maneira não contaria como propriamente ‘capitalista’? Uma afirmação teórica tão extraordinária por certo merece um argumento?]

  3. Aceleracionistas querem libertar as forças produtivas latentes. [De fato — uma definição excelente e impressionantemente ideo-neutra do Aceleracionismo normativo] Nesse projeto, a plataforma material do neoliberalismo não precisa ser destruída. Precisa ser reaproveitada para fins comuns. A infraestrutura existente não é um estágio capitalista a ser esmagado, mas um trampolim para lançar o pós-capitalismo. [Não há nenhuma continuidade conceitual que seja entre esse grito de guerra a primeira frase]

  4. Dada a escravidão da tecnociência aos objetivos capitalistas (especialmente desde o fim dos anos 1970) certamente ainda não sabemos o que um corpo tecnossocial moderno pode fazer. Quem entre nós reconhece completamente quais potenciais inexplorados aguardam na tecnologia que já foi desenvolvida? A nossa aposta é que os potenciais verdadeiramente transformadores de grande parte de nossa pesquisa tecnológica e científica permanecem inexplorados, repletos de características (ou pré-adaptações) atualmente redundantes que, após uma mudança além do míope “socius” capitalista, pode se tornar decisiva.

Não foi dada nenhuma razão para se pensar que a ‘tecnociência’ é, de qualquer maneira real, independente de ‘objetivos capitalistas’, então a retórica de ‘escravidão’ é perfeitamente vazia. Um (outro) experimento em aceleração tecnossocial ‘pós-capitalista’ conduzido ao lado do capitalismo, e em concorrência com ele, seria uma coisa fascinante de se ver. (Eu duvido que esse arranjo seja considerado aceitável pela Esquerda. No que diz respeito à Direita, isso já foi realizado em numerosas ocasiões, com resultados consistentes.)

  1. Queremos acelerar o processo de evolução tecnológica. [Ótimo] Mas o que estamos defendendo não é tecnutopismo. Nunca acredite que a tecnologia será suficiente para nos salvar. [Como a soteriologia se tornou uma questão?] Necessária, sim, mas nunca suficiente sem ação sociopolítica. A tecnologia e o social estão intimamente ligados um ao outro, e mudanças em qualquer um deles potencializam e reforçam mudanças no outro. Enquanto os tecnutópicos [quem?] defendem que a aceleração, por si só, seja capaz de automaticamente superar o conflito social (numa nova era utópica, quando ele não mais tiver sentido); a nossa posição consiste em que a tecnologia deva ser acelerada exatamente porque necessária para tensionar e vencer esses conflitos.

Como essas três metas se interconectam e se hierarquizam?
(a) Aceleração da evolução tecnológica (b) Superação do conflito social
(c) Predominar no conflito social
Se, como parece ser o caso, (c) domina, então a aceleração é meramente um sub-objetivo instrumental. Então, podemos chamar o Aceleracionismo de Esquerda de ‘aceleracionismo condicional‘ (em contraste com um Aceleracionismo de Direita incondicional)?

  1. Acreditamos que qualquer pós-capitalismo exigirá planejamento pós-capitalista. A fé depositada na ideia de que, após uma revolução, as pessoas irão espontaneamente constituir um novo sistema socioeconômico que não seja simplesmente um retorno ao capitalismo é ingênuo na melhor das hipóteses, e ignorante na pior delas. Para aprofundar isso, precisamos desenvolver tanto um mapa cognitivo do sistema existente quanto uma imagem especulativa do futuro sistema econômico.

Aham

  1. Para fazê-lo, a esquerda deve aproveitar cada avanço tecnológico e científico possibilitado pela sociedade capitalista. Declaramos que a quantificação não é um mal a ser eliminado, mas uma ferramenta a ser usada da maneira mais eficaz possível. A modelagem econômica é – colocando de forma simples – uma necessidade para tornar inteligível um mundo complexo. A crise financeira de 2008 revelou os riscos de se aceitarem cegamente modelos matemáticos, ainda que isso seja um problema de autoridade ilegítima e não de matemática propriamente. As ferramentas a ser encontradas na análise de redes sociais, em modelagem baseada em agentes [agente-based modelling], em análise de big data e de modelos econômicos de não-equilíbrio são mediadores cognitivos necessários para entender sistemas complexos como a economia moderna. A esquerda aceleracionista deve se alfabetizar em cada uma dessas áreas técnicas.

Aceleracionismo condicional de novo. (Está começando a parecer que a tecnociência acelerada é um gigantesco pote de biscoitos ideológicos).

  1. Qualquer transformação da sociedade deve envolver experimentação econômica e social. [OK, mas eu suspeito que ‘transformação’ esteja pré-contaminada com aspirações totalitárias] O projeto de gestão participativa da economia Cybersyn, do governo chileno de Salvador Allende (1971-73), é emblemático dessa atitude experimental – fazendo a fusão de tecnologias cibernéticas com modelagem econômica sofisticada e uma plataforma democrática instanciada na própria infraestrutura tecnológica. Experimentos similares foram conduzidos na economia soviética dos anos 1950 e 1960, empregando cibernética e programação linear, numa tentativa de superar os novos problemas enfrentados pela primeira economia comunista. Que ambos tenham fracassado pode-se atribuir, em última análise, às restrições políticas e tecnológicas sob as quais operavam esses pioneiros cibernéticos. [Eu sei que isso não era pra ser cômico…]

  2. A esquerda deve desenvolver a hegemonia sociotécnica: tanto na esfera das ideias, quanto na esfera das plataformas materiais. Plataformas são a infraestrutura da sociedade global. Elas estabelecem os parâmetros básicos do que é possível, tanto em termos de comportamento quanto em termos ideológicos. Neste sentido, elas incorporam o transcendental material da sociedade: elas são o que tornam possíveis conjuntos particulares de ações, relações e poderes. Ainda que boa parte da plataforma global existente esteja direcionada para as relações sociais capitalistas, essa não é uma necessidade inevitável. Essas plataformas materiais de produção, finanças, logística e consumo podem e serão reprogramadas e reformatadas para fins pós-capitalistas. [Há acenos de mão suficientes aqui para comunicar um discurso do Obama aos cegos]

  3. Não acreditamos que ação direta seja suficiente para alcançar nada disso. As táticas habituais de marchar, erguer cartazes, e estabelecer zonas autônomas temporárias correm o risco de se tornarem substitutos confortáveis ao êxito efetivo. “Ao menos fizemos alguma coisa” é o grito de guerra daqueles que privilegiam a autoestima ao invés da ação efetiva. O único critério de uma boa tática é se ela permite êxito significativo ou não. Devemos acabar com a fetichização de modos particulares de ação. A política deve ser tratada como um conjunto de sistemas dinâmicos, dilacerados por conflito, adaptações e contra-adaptações e corridas armamentistas estratégicas. Isso significa que cada tipo individual de ação política se torna embotado e ineficaz com o tempo, à medida que o outro lado se adapta. Nenhum modo de ação política é historicamente inviolável. De fato, com o tempo, há uma crescente necessidade de se descartarem táticas familiares, em função das forças e entidades contra o que se pretenda aprender a lutar de forma eficaz. Em parte, é a inabilidade da esquerda contemporânea em fazer isso que está próximo ao cerne do mal-estar contemporâneo.

(Querelas de família, vou ficar quieto até que pare.)

  1. O avassalador privilegiamento da democracia-enquanto-processo precisa ser deixado para trás. A fetichização da abertura, horizontalidade, e inclusão de boa parte da atual esquerda “radical” faz a cama da ineficácia. Sigilo, verticalidade e exclusão têm todos o seu lugar também na ação política efetiva (embora, obviamente, não um lugar exclusivo).

  2. A democracia não pode ser definida simplesmente por seus meios – seja via votação, discussão ou assembleias gerais. A democracia real deve ser definida por seu objetivo – autodeterminação coletiva. Este é um projeto que deve alinhar a política com o legado do iluminismo, na medida em que é apenas através da mobilização de nossa habilidade de entender melhor a nós mesmos e a nosso mundo (social, técnico, econômico, psicológico) que podemos governar a nós mesmos. Precisamos postular uma legítima autoridade vertical, controlada coletivamente, além das formas de socialidade distribuídas horizontalmente, para evitar nos tornarmos escravos tanto de um centralismo totalitário tirânico, quanto de uma caprichosa ordem emergente que esteja além de nosso controle. O comando do Plano deve ser casado com a ordem improvisada da Rede.

  3. Não apresentamos nenhuma organização particular como os meios ideais para incorporar esses vetores. O que é preciso – o que sempre foi preciso – é uma ecologia de organizações, um pluralismo de forças, ressoando e retroalimentando suas forças comparativas. Sectarismo é a sentença de morte da esquerda tanto quanto é a centralização, e nesse sentido, continuamos a acolher experimentações com diferentes táticas, (mesmo aquelas das quais discordamos).

  4. Temos três objetivos concretos de médio prazo. Primeiro, precisamos construir uma infraestrutura intelectual. Imitando a Sociedade Mont Pelerin, defensora das benesses da “revolução” do neoliberalismo, a essa infraestrutura deve ser demandada a tarefa de criar uma nova ideologia, um novo modelo econômico e social, e uma visão do bem a substituir e superar os magros ideais que regem nosso mundo hoje. Essa é uma infraestrutura no sentido de requerer a construção não apenas de ideias, mas de instituições e caminhos materiais para incuti-las, encarná-las e espalhá-las.

  5. Precisamos construir uma reforma da mídia em larga escala. Apesar da aparente democratização oferecida pela internet e pelas mídias sociais, os meios de comunicação tradicionais continuam cruciais na seleção e enquadramento de narrativas, além de possuir os recursos para processar o jornalismo investigativo. Trazer esses corpos tão próximo quanto possível do controle popular é crucial para desfazer o atual estado de coisas.

  6. Finalmente, precisamos reconstituir várias formas de poder de classe. Tal reconstituição deve ir além da noção de que um proletariado global gerado organicamente já exista. Ao invés disso, deve-se procurar tecer junto um conjunto heterogêneo de identidades proletárias parciais, muitas vezes incorporadas em formas pós-fordistas de trabalho precário.

  7. Grupos e indivíduos já estão trabalhando em cada um desses objetivos, mas, por si só, cada um deles é insuficiente. É necessário que todos os três retroalimentem uns aos outros, cada um modificando a articulação contemporânea de tal forma que os demais se tornem mais e mais eficazes. Uma retroalimentação circular de transformação ideológica, social, econômica e de infraestrutura, gerando uma nova hegemonia complexa, uma nova plataforma tecnossocial pós-capitalista. A história demonstra que é sempre um amplo agenciamento de táticas e organizações que acarreta mudanças sistemáticas; essas lições devem ser aprendidas.

"Uma retroalimentação circular [positiva]" — finalmente, uma conexão teórica com o tópico da aceleração. Tendo evitado qualquer análise séria do ciclo de retroalimentação positiva capitalista atual — sobre o qual todo o tópico histórico da aceleração repousa — ele agora é introduzido de maneira puramente especulativa, em relação a um programa Aceleracionista de Esquerda ainda não existente. A estrutura parasitária desse argumento (capturando realizações reais a fim de gastá-las em sonhos) diz muito mais do que pretende

  1. Para alcançar cada um desses objetivos, no nível mais prático, sustentamos que a esquerda aceleracionista deva pensar mais seriamente sobre os fluxos de recursos e dinheiro necessários para construir uma nova infraestrutura política eficaz. Para além do ‘poder popular’ de corpos na rua, precisamos de financiamento, seja de governos, instituições, “think tanks”, sindicatos ou patronos individuais. Consideramos a demarcação e condução de tais fluxos de financiamentos essenciais para começar a reconstruir uma ecologia de efetivas organizações de esquerda aceleracionista.

"Queremos dinheiro — mas sem incentivos capitalistas, por favor."

  1. Declaramos que somente uma política prometeica de domínio máximo sobre a sociedade e seu ambiente é capaz de lidar com problemas globais ou obter vitória sobre o capital. Esse domínio deve ser distinto daquele amado por pensadores do Iluminismo original. O universo mecânico de Laplace, tão facilmente controlado ao receber informação suficiente, há muito desapareceu da agenda da compreensão científica séria. Mas não é para nos alinharmos com o cansado resíduo da pós-modernidade, condenando todo domínio como protofascista ou toda autoridade como intrinsecamente ilegítima. Ao invés disso, propomos que os problemas que afligem nosso planeta e nossa espécie nos obrigam a renovar o domínio em uma nova e complexa roupagem; ainda que não possamos prever o resultado de nossas ações, podemos determinar probabilisticamente escalas médias de resultados. O que deve ser acoplado a tal análise complexa de sistemas é uma nova forma de ação: improvisadora e capaz de executar um desenho através de uma prática que trabalhe com a contingência que ela descobre apenas no curso de sua ação, em uma política de arte geo-social e astuta racionalidade. Uma forma de experimentação abdutiva que procura os melhores meios para agir em um mundo complexo.

"Queremos dinheiro, e depois dominância"

  1. Precisamos reviver o argumento que foi tradicionalmente feito para o pós-capitalismo: não apenas é o capitalismo um sistema injusto e pervertido, mas também um sistema que impede o progresso. [Ainda totalmente sem substância] Nosso desenvolvimento tecnológico está sendo suprimido pelo capitalismo, na mesma medida em que foi desencadeado por ele. [Idem.] O aceleracionismo é a crença básica de que essas capacidades podem e devem ser liberadas ao moverem-se para além das limitações impostas pela sociedade capitalista. [Idem.] O movimento em direção a uma superação de nossas restrições atuais deve incluir mais do que simplesmente uma luta por uma sociedade global mais racional. Acreditamos que ele deva incluir a recuperação dos sonhos que fascinaram a muitos, de meados do século 19 até o alovorecer da era neoliberal, sonhando na missão do Homo sapiens em direção a uma expansão além dos limites da Terra e nossas formas corpóreas imediatas. Essas visões são encaradas hoje como relíquias de um momento mais inocente. Ainda assim, elas tanto diagnosticam a impressionante falta de imaginação em nosso próprio tempo, quanto oferecem a promessa de um futuro que é afetivamente revigorante, bem como intelectualmente energizante. Afinal de contas, apenas uma sociedade pós-capitalista, possibilitada por uma política aceleracionista, é que será capaz de executar a nota promissória dos programas espaciais de meados do século 20, para ir além de um mundo de atualizações técnicas mínimas, em direção a uma mudança abrangente. Rumo a um tempo de autodomínio coletivo, e ao futuro propriamente alienígena que isso envolve e possibilita. Rumo a uma conclusão do projeto iluminista da autocrítica e autodomínio, ao invés de sua eliminação.

Escravizar a aceleração tecnossocial ao "autodomínio coletivo"? Esse parece ser o sonho. Já podemos nos fixar no rótulo do ‘aceleracionismo condicional’?

  1. A escolha que enfrentamos é séria: um pós-capitalismo globalizado ou uma lenta fragmentação rumo ao primitivismo, à crise perpétua e ao colapso ecológico planetário. [Nenhum desses resultados soa remotamente plausível, mas estamos fundo na religião nesse estágio, então provavelmente não importa.]

  2. O futuro precisa ser construído. Ele foi demolido pelo capitalismo neoliberal e reduzido a uma promessa barata de grande iniquidade, conflito e caos. [Por que ‘o futuro’ exlui ‘iniquidade, conflito e caos’? Pelo contrário…] Esse colapso na ideia de futuro é sintomático do status histórico retrógrado de nossa época, mais do que, como os cínicos do espectro político nos querem fazer crer, um sinal de maturidade cética. O que o aceleracionismo estimula é um futuro que é mais moderno – uma modernidade alternativa que o neoliberalismo é inerentemente incapaz de gerar. [Um último espasmo de acenos de mão.] O futuro deve ser aberto mais uma vez, ampliando nossos horizontes para as possibilidades universais do Lado de Fora. [‘Deve’ não significa nada, e ‘universal’ não adiciona nada, mas de outra forma uma grande frase — culminação em uma onde de excitação ideo-neutra.]

http://​syn​theti​cedi​fice​.files​.word​press​.com/​2​0​1​3​/​0​6​/​a​c​c​e​l​e​r​a​t​e​.​pdf http://uninomade.net/tenda/manifesto-aceleracionista/

Naturalmente, a pergunta realmente grande: O que vem a seguir…?

Original.

#Acelerar Anotado (#2)

[Continuando daqui]

II. INTERREGNO: Sobre Aceleracionismos

  1. Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social. Em sua forma neoliberal, essa autoapresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração.

A invocação do ‘neoliberalismo’, que machuca o cérebro, à parte, essas observações são todas perfeitamente sãs

  1. O filósofo Nick Land captou isso de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. Nessa visão do capital, o humano pode eventualmente ser descartado como mero obstáculo a uma abstrata inteligência planetária, que se constrói rapidamente a partir da bricolagem de fragmentos das civilizações passadas. Contudo, o neoliberalismo [cada uso dese termo aprofunda sua insensatez] de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

A diferença entre ‘velocidade‘ e ‘aceleração’ é aquela entre a derivativa zero e a primeira. Isso é rigoroso e, em geral, compreendido. A diferença proposta aqui é outra coisa. Eu não tenho nenhuma ideia clara do que ela é. (Parece equivaler, aproximadamente, a uma distinção entre Direita e Esquerda — isto é, a mera asserção de que o ‘capitalismo’ é compreensível como um ‘interior’ — sem qualquer outro conteúdo identificável.)

  1. Ainda pior, como Deleuze e Guattari reconheciam, desde o começo, o que a velocidade capitalista desterritorializa com uma mão, ela reterritorializa com a outra. O progresso se torna restrito a um enquadramento de mais-valor, exército proletário de reserva, e capital de livre flutuação. A modernidade é reduzida a medidas estatísticas de crescimento econômico, e a inovação social fica incrustrada com as sobras kitsch de nosso passado comunal. A desregulação de Tatcher-Reagan senta-se confortavelmente ao lado da família vitoriana “back-to-basics” e valores religiosos.

A Esquerda não é o agente principal da reterritorialização ‘capitalista’?

  1. Uma tensão mais profunda dentro do neoliberalismo ocorre em termos da sua autoimagem como o veículo de modernidade, como sinônimo para modernização, enquanto promete um futuro cuja constituição interna é incapaz de promover. De fato, conforme o neoliberalismo progrediu, ao invés de possibilitar a criatividade individual, tendeu a eliminar a inventividade cognitiva, em favor de uma linha de produção afetiva de interações roteirizadas, junto a cadeias globais de suprimentos e uma zona oriental de produção neo-fordista. Um minúsculo cognitariado de trabalhadores da elite intelectual encolhe com o passar dos anos – e de maneira crescente na medida em que a automação algorítmica adentra as esferas de trabalho afetivo e intelectual. O neoliberalismo, ainda que se postulando como um desenvolvimento histórico necessário, foi de fato um meio meramente contingente para afastar a crise do valor que emergiu nos anos 1970. Era inevitavelmente uma sublimação da crise, ao invés de sua superação final.

— É a política que faz promessas (o capitalismo faz negócios). Se você pensa que o ‘capitalismo’ já te prometeu algo, você pode estar dando ouvidos a um político.
— Qual é o mecanismo através do qual a ‘inventividade cognitiva’ é progressivamente eliminada, dado que a inovação é uma fonte de vantagem competitiva, pela qual o mercado seleciona?
— O ‘cognitariado’ está diminuindo? A resposta para isso parece ser um dado que a ciência social poderia fornecer.
— Por que (ah, por quê) ainda estamos falando sobre o ‘neoliberalismo’? O capitalismo como tal não é o ‘problema’ que define isso como um projeto político-cultural da Esquerda? Essa palavra ridícula é meramente uma profissão de fé, que serve bem mais como sinal de solidariedade tribal do que como ferramenta analítica. (Ironicamente, esse tique de ‘neoliberalismo’, como uma torneira pingando, perturba significantemente o projeto aqui. A renovação aceleracionista da Esquerda, como toda espécie de renovação modernista profunda, visa reativar linhas de desenvolvimento que remontam ao alto-modernismo do começo do século XX, quando — como os autores entendem de maneira plena, ainda que apenas intuitiva — a dinâmica fundamental da modernidade chegou à crista e quebrou. Ou devemos seriamente acreditar que "de volta para o meio dos anos 1970!" é o grito de guerra implícito?)

Eu estou, é claro, fortemente inclinado a aceitar que a paródia aleijada de capitalismo que existe hoje tem um desempenho pequeno comparado ao seu potencial sobre condições de desinibição laissez-faire — isto é, sem ser compensada pela Esquerda. Mas é Keynes e os anos 1930, não o ‘neoliberalismo’ e os anos 1970, que estabelecem os termos da subordinação do capital ao planejamento macroeconômico.

  1. É Marx, junto com Land, que continua a ser o pensador aceleracionista paradigmático. Ao contrário da crítica bastante familiar, e mesmo ao comportamento de alguns marxianos contemporâneos, devemos lembrar que o próprio Marx usou as mais avançadas ferramentas teóricas e dados empíricos disponíveis, na tentativa de entender e transformar completamente seu mundo. Ele não foi um pensador que resistiu à modernidade, mas antes um que procurou analisar e intervir dentro dela, compreendendo que apesar de toda sua exploração e corrupção, o capitalismo permanecia como o mais avançado sistema econômico em sua época. Suas conquistas não deveriam ser revertidas, mas aceleradas para além das restrições da forma valor capitalista.

Um micro-retrato sólido. Que a ‘forma-valor’ capitalista (a quantificação formatada no comércio) possa ser descrita, de maneira realista, como uma ‘restrição’ é a proposta mais básica em jogo aqui.

  1. De fato, como Lênin escreveu no texto de 1918, intitulado “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”: O socialismo é inconcebível sem a engenharia capitalista de larga escala baseada nas últimas descobertas da ciência moderna. É inconcebível sem a organização estatal planificada que mantém dezenas de milhões de pessoas na observância mais estrita de um padrão unificado de produção e distribuição. Nós, marxistas, sempre falamos disso, e não vale a pena perder dois segundos que seja falando com pessoas que não entendem nem mesmo isso (anarquistas e uma boa parte dos revolucionários da esquerda socialista).

Tal adesão ao princípio do planejamento central é esclarecedora

  1. Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração. [Argumento?] Da mesma forma, a avaliação de políticas de esquerda como antitéticas à aceleração tecnossocial também é, pelo menos em parte, uma deturpação grave. [OK, contanto que seja o ‘ideal desconhecido’ da política de Esquerda do qual estejamos falando] De fato, se a esquerda política tiver um futuro, ele deve ser um que abraça ao máximo essa tendência aceleracionista suprimida.

A frase final nessa seção é, de uma só vez, crucial e escorregadia. O que é — de maneira prática — "abraçar" uma tendência? Como e por quê essa tendência foi "suprimida"? "Ter" ou perder um futuro seriam coisas interessantes, então é o futuro que vem a seguir…

Original.