‘Neoliberalismo’

É absolutamente óbvio que qualquer engajamento com a versão atual mais proeminente do pensamento aceleracionista — ou, de fato, com qualquer discussão dominada pela esquerda hoje — vai encontrar o termo ‘neoliberalismo‘ como uma referência onipresente. Uma irritabilidade pura não servirá como resposta por muito tempo.

Por que qualquer irritação que seja? De maneira mais imediata, porque a referência desse termo é uma bagunça que se alastra. Ele é empregado de maneira ambígua para descrever uma época e uma ideologia. A evidente duplicidade disso está na suposição tácita de que a ideologia define a época — uma afirmação histórica e política vasta, assim como implausível — que evade uma interrogação sistemática através do desleixo terminológico.

Pior ainda, as características da ideologia ‘neoliberal’ são elas mesmas remendadas, primariamente por uma miscelânea de polêmicas anti-capitalistas teoricamente empobrecidas, vindas de todo o mundo, com a consequência de que sua única característica consistente é o mero fato de ter uma oposição esquerdista (em algum lugar). Como a explicação da Wikipédia (linkada acima) deixa claro, qualquer política econômica em qualquer lugar que não seja positivamente hostil ao mercado e que se encontre comentada de maneira antagonista pela esquerda é ‘neoliberal’.

Quando todos esses fatores compostos de imprecisão são levados em consideração, é fácil ver por que o significado de ‘neoliberal’ pode variar — no mínimo — de um keynesianismo marginalmente reformista do mercado (Clinton), passando por um capitalismo autocrático (Pinochet) até um ‘hiper-capitalismo’ libertário extremo (em nossos sonhos). Sua aplicação global, para incluir — por exemplo — o Círculo do Pacífico dominado por chineses étnicos (e o continente chinês após a Reforma-e-Abertura), é ainda mais descuidadamente gestual. Se a Nova Política Econômica de Lenin em 1921 não era ‘neoliberal’, é difícil ver por quê — a menos que a ausência de uma oposição de esquerda seja suficiente como explicação. Uma palavra tão desleixada — tradicionalmente enraizada na demagogia latino-americana anti-mercado, mas desde então adotada de maneira geral como o equivalente linguístico de uma camiseta do Che Guevara — não tem nenhum uso analítico sério.

A moda é imprevisível, mas parece muito improvável que essa palavra esteja indo a qualquer lugar. Seu significado totêmico dentro do esquerdismo tribal é suficiente para garantir sua persistência — o que seria dizer que a sinalização radical chique do SWPL ficaria significativamente incomodada sem ela. Seria possível, então, rigorizá-la?

Isso exigiria delimitação, ou seja: especificidade. Dada a utilidade política da palavra, existem poucas razões para otimismo nesse aspecto. David Harvey, por exemplo, que devotou um livro ao ‘tópico’ (Neoliberalismo: História e Implicações, 2005), não produz nenhuma definição clara além de capitalismo ressurgente, na medida em que isso ocorreu com a recessão parcial do planejamento central a partir do final dos anos 1970. Sem surpresas, portanto, quanto mais classicamente liberais as políticas se tornam, mais ‘neoliberal’ ela também é. O ‘neo-‘, no fim das contas, não significa mais do que um enfurecido "você deveria estar morto, porra". O neoliberalismo, então, é uma orientação capitalista que sobreviveu às expectativas, e uma vez que as expectativas foram aprofundadas até fundações imóveis, é a sobrevivência que requer uma designação explícita.

Qualquer coerência leve (e estritamente polêmica) que possa ser tirada de Harvey é jogada de volta ao caos pelo artigo de Benjamin Noys, "The Grammar of Neoliberalism" ("A Gramática do Neoliberalismo") (2010). Longe de descrever a reversão parcial a arranjos orientados ao mercado na esteira de suposições social-democráticas hegemônicas, Noys identifica o ‘neoliberalismo’ com o capitalismo supervisionado pelo estado, introduzido nas décadas de 1920 e 1930, isto é, exatamente a ordem econômica que o ‘neoliberalismo’ de Harvey derruba.

Tomado em seus próprios termos — ao invés de como uma defesa de uma palavra intrinsecamente enganosa — o argumento de Noys é altamente interessante. Sua direção geral é capturada na seguinte passagem [marcas de citação subtraídas]:

Qual é a natureza precisa, então, do neo-liberalismo? Claro, a óbvia objeção à visão ‘anti-estado’ do neo-liberalismo é que o neo-liberalismo em si é uma forma contínua de intervenção estatal, usualmente resumida na frase ‘socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres’. Foucault observa que o neo-liberalismo concede isso: ‘a intervenção governamental neo-liberal não é menos densa, frequente, ativa e contínua do que em qualquer outro sistema’. A diferença, contudo, é o ponto de aplicação. Ele intervém na sociedade ‘de modo que mecanismos competitivos possam desempenhar um papel regulatório em todo momento e em todo ponto na sociedade e, ao intervir dessa maneira, seu objetivo se tornará possível, isto é, uma regulação geral da sociedade pelo mercado’. Portanto, perdemos o foco de simplesmente deixarmos uma crítica do neo-liberalismo no ponto de dizer ‘o neo-liberalismo é tão estatista quanto outras formas governamentais’. Em vez disso, a necessidade é analisar como o neo-liberalismo cria uma nova forma de governamentalidade na qual o estado desempenha uma função diferente: permear a sociedade para sujeitá-la ao econômico

Deixando de lado a questão do poder de persuasão desse argumento (para outra hora), a coisa essencial a se notar é que ele representa uma disputa pelo termo negligentemente trôpego ‘neoliberalismo’ que Noys tem pouca chance realista de ganhar — ‘ganhar’, isto é, com abrangência suficiente para salvar a palavra. Se ‘neoliberalismo’ significasse em geral uma variante altamente estatista da organização ‘capitalista’, originando-se primeiro na era do alto-modernismo, na qual — em contraste com o estatismo da esquerda — o papel do estado era especificamente dirigido a impor um simulacro administrativo da ordem social cataláctica, ela se tornaria uma palavra valiosa e teoricamente funcional. Isso aconteceria até mesmo se a própria teoria fosse criticada, emendada ou rejeitada — e, na verdade, a própria possibilidade de tal engajamento pressupõe que ‘neoliberalismo’ se torne um conceito localmente inteligível (local, isto é, para o argumento de Noys e qualquer halo que ele tenha conseguido estender para além de si mesmo).

Mesmo aqui na Direita Exterior, quase toda a irritabilidade terminológica retrocederia imediatamente se a expressão repetidamente encontrada fosse — mesmo que implicitamente — Neoliberalismo no sentido Noysiano. Ele então seria um termo com limites relativamente precisos, esclarecendo mais do que obscurece. Consequentemente, ele marcaria um limite na direita assim como na esquerda, distinguindo o capitalismo anti-estatista ou laissez-faire — com seu modelo em Hong Kong — da formação político-econômica dominante de nossa era. Só por essa razão, pode-se antecipar confiantemente que não se permitirá que ‘neoliberalismo’ signifique nada disso.

[ADICIONADO](http://www.sok.bz/web/media/video/ABriefHistoryNeoliberalism.pdf%5D: PDF completo de A Brief History of Neoliberalism de David Harvey.

Original.

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2 thoughts on “‘Neoliberalismo’

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