Sobre o #Acelerar (#1)

O #Acelerar se posiciona muito claramente dentro de uma tradição intelectual marxiana. Nesse aspecto, ele se mantém consistente com a corrente principal de pensamento ‘aceleracionista’, da forma em que foi desenvolvida a partir do Manifesto Comunista de Marx, passando pelos escritos posteriores de Marx sobre imperialismo e relações internacionais, e adentrando o semi-marxismo ‘nietzschianizado’ de Deleuze, Guattari e Lyotard. A recomendação política constante que perpassa esse diverso legado é o alinhamento com a revolução social capitalista, a fim de efetuar sua implicação escatológica derradeira. Interromper o desenvolvimento capitalista é retardar a formação da classe revolucionária final — o proletariado internacional radicalmente industrializado (ou qualquer esquizo-enxame decodificado que ele mais tarde se torne). Daí o slogan imperativo definidor de Deleuze & Guatteri: Acelere o processo.

Para além desse ponto, contudo, a obscuridade se acumula rapidamente. Em particular, não está nem um pouco claro qual tendência ampla de teoria marxista está sendo extrapolada. A partir das pistas retóricas disponíveis, não parece que o #Acelerar endossa a quebra deleuzoguatteriana completa com o marxismo clássico — que cruza a catástrofe teórica que inclui o abandono da Lei do Valor (em uma adoção da ‘mais-valia maquínica’, do ‘valor maquínico de código’ e do marginalismo); a diferenciação entre ‘capitalismo’ e economia de mercado (seguindo Braudel); a denúncia do socialismo de estado como um ‘Despotismo Oriental’ regressivo (seguindo Wittfogel); e uma desumanização do sujeito revolucionário sem limites óbvios (recorrendo a fonte que vão de Samuel Butler a Antonin Artaud). Se este fosse o vetor sendo perseguido, isso estaria — por certo — vividamente evidente?

Assumindo, então, que o #Acelerar recue para uma estrutura marxiana mais reconhecível, como essa estrutura teórica deve ser entendida? A questão interna decisiva para a tradição marxista (séria) se refere ao Problema da Transformação, uma vez que é apenas se este for considerado solúvel que qualquer coisa como uma continuidade do marxismo clássico (ou uma ‘Lei do Valor’ crível) pode ser sequer vislumbrada. Vale a pena relembrar que críticos abrangentes de Marx — aqueles que não encontram nada de significância positiva a ser resgatado de sua obra — tomaram, a partir de Böhm-Bawerk, o Problema da Transformação como a conclusão do reductio ad absurdum feito por Marx da Teoria do Valor-Trabalho (conforme herdada de Smith e Ricardo), vendo o significado econômico rigoroso do sistema marxiano como tendo sido inteiramente exaurido nessa demonstração. Permanecer sendo um marxista em qualquer sentido que não seja absurdo depende de algum outro caminho ter sido tomado, mas qual deles? O #Acelerar não oferece nenhuma indicação óbvia. (A literatura sobre isso é vasta, então seria útil saber onde focar.)

Sem uma resolução do Problema da Transformação — e mesmo um esparadrapo bem posicionado seria provisoriamente suficiente — não pode haver nenhum conceito consistente de exploração, ou sequer um sentido teoricamente significativo de tempo de trabalho. Isso é especialmente relevante, porque desempenha um papel crucial na resposta de Antonio Negri ao #Acelerar, que capta um observação tentadora no próprio manifesto:

Todos queremos trabalhar menos. É uma questão intrigante por que o principal economista do mundo da era pós-guerra acreditava que um capitalismo iluminado inevitavelmente progrediria em direção a uma redução radical da jornada de trabalho. Em “Perspectivas Econômicas para Nossos Netos” (escrito em 1930), Keynes previu um futuro capitalista onde indivíduos teriam seu trabalho reduzido a três horas por dia. O que ocorreu, entretanto, foi a progressiva eliminação da distinção entre trabalho e vida, com o trabalho acabando por permear cada aspecto da fábrica social emergente.

O Aceleracionismo de Esquerda está se promovendo como um redentor da promessa vazia de Keynes? A partir da pura descritividade dessa passagem (vagamente pesarosa) é difícil saber. O que podemos saber, com confiança, é que o tempo de trabalho não pode ser nada além de um tópico axial dentro de toda essa discussão.

Se a Lei do Valor deve ser defendida, a produção de valor é medida em tempo (de trabalho). O fator de transformação de Marx é projetado para conservar a equação entre trabalho quantificado – temporalizado — e valores econômicos, conforme expressos nos preços. Se esse remendo falhar, toda a análise do Capital perde aplicação para um fato social determinado. Não haveria mais qualquer economia marxiana que seja (uma conclusão que Negri e os Autonomistas parecem dispostos a aceitar).

É difícil ver como um Aceleracionismo de Esquerda poderia ser mantido sob essas condições. O tempo histórico não teria mais qualquer relação calculável com a mercantilização do trabalho, com a vida trabalhista ou com qualquer identidade de classe proletária que pudesse ser construída. O tempo real da modernidade (capitalista) – ao qual o aceleracionismo se agarra — não poderia mais ser descrito como o tempo do trabalho. No limite, as forças de trabalho humanas são relegadas a "parasitas afídios das máquinas". Uma vez que a luta de classes sobre o tempo de trabalho seja divorciada de um papel plenamente determinante na produção de valor, o proletariado é despojado do potencial de encarnar a história-em-si, consignando o ‘marxismo’ a uma articulação de queixas marginais e, em última análise, à morte térmica na política de identidade. (Isso, claro, é exatamente a tendência que tem sido sociologicamente aparente.)

Um último ponto cru por ora. Enquanto teoria cibernética fundamental, o aceleracionismo está ligado à identificação de um loop de feedback positivo central à sociedade, através do qual a modernidade é impelida. Desta forma, ele requer — no mínimo — variáveis quantitativas gêmeas entrelaçadas em uma relação de estímulo recíproco. O capitalismo industrial, com sua dualidade ‘teconômica’ intrínseca de dinâmica técnica e comercial entrecruzada, torna a aplicação do diagrama cibernético relativamente não problemática. Com ou sem a Lei do Valor, o esquema aceleracionista não pode deixar de se interligar firmemente com os contornos mais proeminentes da modernidade.

Se não um trabalho temporalmente denominado (‘vivo’ e ‘morto’), contudo, qual é a variável sendo acumulada? Essa é a questão para se levar adiante. A pergunta por ora: se o trabalho é o fator cumulativo na análise aceleracionista, como uma crítica prática do tempo de trabalho pode ser algo além de uma política de desaceleração?

(O passo-a-passo anotado inicial do Urbano Futuro ao #Acelerar está aqui: 1, 2, 3.)

ADICIONADO: Às vezes eu me preocupo que a Wikipédia possa estar levando o espírito de neutralidade estrita a extremos (do link já dado): "Mais uma vezes, os teóricos burgueses conseguem nos impressionar com sua erudição, enquanto evitam completamente a substância do debate".

Original.

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