Guerra de Memes

Começou demais:

A ideia de que o #aceleracionismo = aumentar a velocidade do capitalismo/determinismo vai desvanecer tanto quanto qualquer um que promova essa posição.
— xlrtr (@xlrtr) Abril 20, 2014

Sinto que algumas pessoas estão procurando abandonar o rótulo aceleracionista. Um erro IMO. A proliferação do discurso accel. determinará a definição.
— xlrtr (@xlrtr) Abril 20, 2014

O contra-argumento realista é que o processo cultural aceleracionista é (ou, em última análise, terá demonstravelmente sido) controlado por seu objeto. A única maneira de descobrir é a realidade acontecer — e podemos ter extrema confiança de ela irá.

Original.

Dores de Cabeça Hegemônicas

… há, sem dúvidas, uma série delas. Uma que se destaca por sua clareza conceitual, contudo, é o Dilema de Triffin. Formulado por Robert Triffin e divulgado em testemunho ao Congresso dos EUA em 1960, ele se baseia na simples necessidade aritmética de que qualquer país cuja moeda seja privilegiada com o status de reserva mundial é compelido a incorrer em déficits comerciais crônicos, a fim de fornecer liquidez monetária global. A hegemonia econômica mundial é, portanto, inseparável de uma perda de controle sobre a política monetária doméstica — uma vez que medidas que poderiam ser requeridas para sustentar o valor da moeda comumente seriam inconsistentes com a responsabilidade de se exportar dinheiro (através de um saldo atual em conta negativo).

A ‘Chimérica‘ é o Dilema de Triffon exemplificado em uma forma binária conveniente. Por um lado, a liderança econômica e o ‘privilégio exorbitante’ da senhoriagem (através da qual meros signos financeiros são trocados por produtos e serviços substanciais), por outro, a disfunção na política econômica e a desindustrialização, conforme a atividade empresarial americana é terceirizada para a China em troca de uma dominância monetária simbólica. Neste processo e paradoxo do poder, a atual instanciação da ordem mundial é capturada em suas características essenciais. A maneira em que a modernidade funciona, atual e concretamente, não pode ser tornada inteligível sem referência a Triffin.

A implicação forte do Dilema de Triffin — talvez até mesmo ‘Paradoxo de Triffin’ — é que a hegemonia monetária global é, em última análise, ruinosa para a nação financeiramente soberana. Ele envolve algo similar a um análogo ou variante econômica da ‘endo-colonização’ de Paul Virilio, que "acontece quando um poder político se volta contra seu próprio povo", progredindo suavemente da predação para a auto-canibalização. O ‘privilégio exorbitante’ de acessar recursos reais em troca de mero papel promissório é mantido apenas ao custo de uma terceirização absoluta — uma divisão internacional do trabalho na qual o mestre é compelido a se especializar em signos financeiros, submetendo-se a uma atrofia acelerante da capacidade produtiva. Uma moeda de reserva internacional é, portanto, auto-esvaziadora, em uma ciclo causal vicioso que substitui por pura proeza política — prestígio simbólico — as vantagens industriais que originalmente a promoviam. A cultura que ela impõe acentua o consumismo, a politização financeira e a sensibilidade histérica às vicissitudes dos signos. No final, apenas a mágica do poder permanece.

O caminho para fora dessa estrutura em deterioração foi há muito vislumbrada como uma moeda internacional politicamente administrada, seja o ‘bancor’ keynesiano, ou os DESs (Direitos Especiais de Saque) do FMI. O apelo que tal esquema faz a uma governança internacional coerente excedeu confiavelmente a praticidade diplomática e política. É notável, contudo, que uma certa fantasia globalista seja previsivelmente gerada pelas pressões da hegemonia da moeda, independentemente de todos os compromissos ideológicos anteriores ou posteriores.

Se a hegemonia do dolar dos EUA é insustentável, e os remédios globalistas estão realisticamente inacessíveis, a ordem econômica mundial tem um horizonte catastrófico. De maneira crucial: com a hegemonia da moeda agora entendida como uma armadilha, não pode-se esperar que nenhum regime nacional são se proponha como a próxima América. O que quer que esteja esperando para além do show de mágica tem que ser algo novo. É sob essas condições que — ‘coincidentemente’ — as primeiras crito-moedas digitais pós-nacionais e radicalmente despolitizadas começaram a aparecer no palco mundial…

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Golpe Duro

Ao escalar a alturas extremas de cinismo gélido, Zachary Keck situa a campanha anti-corrupção de Xi Jinping dentro de um framework de complexidade institucional vertiginosa. Após relatos de que os ex-líderes Jiang Zemin e Hu Jintao expressaram advertência sobre os potenciais excessos da campanha, ele observa:

A intervenção relatada de Jiang e Hu ressalta a natureza delicada das campanhas anti-suborno dentro do Partido Comunista Chinês (PCC). Por um lado, as campanhas anti-corrupção são um tradição consagrada pelo tempo na RPC e são essenciais para que cada novo líder consolide seu poder, eliminando adversários e promovendo aliados. Xi provavelmente vê a campanha anti-corrupção como particularmente útil para superar a resistência intrapartidária ao reequilíbrio econômico da China, que inevitavelmente prejudicará de maneira desproporcional os interesses dos membros do Partido.

Ao mesmo tempo, a corrupção é a força vital que atrai os chineses para o PCC em uma era em que a ideologia não é mais relevante. Se os membros do PCC não puderem se beneficiar pessoalmente de sua filiação ao Partido, não está claro exatamente o que manteria o Partido unido. Levar uma campanha anti-corrupção longe demais também traz o risco de fazer com que as massas chinesas percam a fé no PCC e no atual sistema de governo

(Os links internos, ambos para artigos anteriores de Keck, valem bastante a pena.)

Passou-se, certamente, do ponto em que qualquer um poderia negar a seriedade dessa campanha, sejam quais forem as dúvidas sobre seus motivos e perspectivas derradeiros. Tantos aspectos do desenvolvimento chinês estão emaranhados com seu resultado que mal é possível acompanhá-la de perto o suficiente.

Se o Partido Comunista Chinês está se encaminhando, ainda que lentamente, na direção do PAP de Singapura, as consequências para o país só podem ser positivas. Possibilidades muito mais caóticas são, é claro, muito facilmente imagináveis.

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Sem Opressão

Zachary Keck está estupefato com os achados de uma pesquisa recente da Global Scan, que descobriu uma ampla satisfação chinesa com a mídia e o ambiente de vigilância do país. Entre os achados, 76% dos chineses se sentem "livres de vigilância", comparado com apenas 54% dos americanos. Na medida em que a opressão pode ser avaliada subjetivamente, o ‘comunismo totalitário’ chinês não está fazendo ela muito bem.

Pode haver alguma maneira de minerar essas informações de maneira rigorosa, mas isso está para além do escopo da discussão até o momento. Keck devaneia sobre a possibilidade de que os vazamentos de Edward Snowden azedaram a opinião ocidental, embora "seja difícil saber quanto as visões podem ser atribuídas a expectativas diferentes que o chineses têm sobre liberdade, quando comparados com suas contrapartes em países democráticos, e quanto suas respostas podem ser atribuídas à ignorância geral sobre a vigilância e a censura do governo chinês. Eu suspeito que ambos os fatores provavelmente desempenham um papel, mas que o primeiro provavelmente é mais importante".

Um explicação alternativa é que as culturas ocidentais se desenvolveram de uma maneira que santifica a dissidência, e encontra a exemplificação da liberdade no ato ou na expressão do desafio. A suposição alternativa chinesa, de que a liberdade é principalmente sobre ser deixado em paz, é classicamente capturada pelo provérbio "As montanhas são altas, e o Imperador está bem longe" (山高皇帝远). Sem surpresas, pensa-se que esse ditado tenha se originado na empreendedora Província de Zhejiang (talvez o lugar mais civilizado do mundo).

Por que alguém, além de um idiota, iria procurar o imperador, simplesmente para espetar um dedo em seu olho? Não faça nada desse tipo, e não há muito chance de encontrar opressão. Um pouco de conexões de internet com falhas não se parecem com "uma bota pisando em um rosto humano — para sempre". Parece-se com uma inconveniência menor. Pelo menos, é isso que as evidências da pesquisa sugerem.

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Recursos sobre Aceleração

Um conjunto de links para escritos aceleracionistas online está em preparação no topo deste blog. Ele vai engrossar lentamente — provavelmente um link novo ou dois a cada dia — mas se há algo digno que você acha que eu vou esquecer, me diga e será incluído eventualmente.

Construir isso é um voto de confiança de minha parte de que esse tópico tem pernas. Se ele vai chegar ao ápice, demorará algum tempo — e mesmo aí ele retornará. Há ainda muito trabalho teórico (e argumentos) adiante.

Original.

Sobre o #Acelerar (#2c)

Uma (rápida) digressão sobre velocidade

A aceleração, da maneira em que o Aceleracionismo a emprega, é um conceito abstraído da física. Neste sentido filosófico (e sócio-histórico), ele preserva sua definição matemática (consolidada pelo cálculo diferencial) enquanto derivadas superiores da velocidade, com uma referência continuada ao tempo (mudança na taxa de mudança), mas com a reaplicação da passagem através do espaço para o crescimento de uma variável determinável. A integridade teórica do aceleracionismo, portanto, repousa sobre uma abstração rigorosa a partir do espaço e relativa a ele, na qual a dimensão da mudança — representada graficamente contra o tempo — é mapeada sobre um objeto alternativo e quantificável. A cumplicidade implícita desse ‘objeto’ com o processo de abstração em si se traduzirá, em última análise, em complicações teóricas explícitas.

A fuga para a abstração é enredada teoricamente por emaranhados reflexivos. Dificuldades comparáveis surgem do lado da fuga ‘para fora’ do espaço, primariamente porque a coincidência da inteligibilidade com a espacialidade tende a se reforçar, ao invés de se dissolver, com cada novo incremento de abstração, propulsionando a inteligência para dentro de espaços de fase, espaços de probabilidade, o Ciberespaço e desterritorialização. O espaço é liberado de sua concretude ‘original’ para a pureza do meio intuitivo, ao passo em que adquire uma inteligibilidade ativa enquanto espaço de exibição, dentro do qual os conceitos se tornam sensíveis. Não há ilustração mais arcaica, ou mais contemporânea, do que a intuição do tempo através do espaço, conforme demonstrado por toda a história da horometria, pela linha do tempo, pela dimensionalização do tempo e pela dinâmica graficamente representada. O espaço se afixa à mensuração em seu caminho até a abstração, e até mesmo a leva lá.

A insistência do espaço também é demonstrada por uma tendência de qualquer abstração da aceleração a sofrer uma reversão, conforme seu índice de mudança é reanexado a diferenciações da velocidade (física). No contexto do debate sobre The Great Stagnation ("A Grande Estagnação") — o hiato mais proeminente dentro da história recente do pensamento aceleracionista — uma noção altamente abstraída de aceleração teconômica (negativa) é restaurado a uma medida exatamente dessa forma.

Em uma entrevista com Francis Fukuyama, Peter Thiel demonstra o processo:

… você tem … dois pontos cegos diferentes, na Esquerda e na Direita, mas tenho estado mais interessado no ponto cego em comum a elas, que estamos menos inclinados a discutir enquanto sociedade: a desaceleração tecnológica e a questão de se sequer ainda estamos vivendo em uma sociedade com avanço tecnológico. Eu acredito que o final dos anos 1960 não foi apenas uma época em que o governo parou de funcionar bem e vários aspectos do nosso contrato social começaram a se desgastar, mas também em que o progresso científico e tecnológico começou a avançar muito mais lentamente. Claro, a era do computador, com os desenvolvimento da internet e da web 2.0 dos últimos 15 anos, é uma exceção. Talvez o setor financeiro, que tem visto bastante inovação no mesmo período (inovação demais, alguns argumentariam), também seja.

Houve uma desaceleração tremenda em todos os outros setores, contudo. Olhe para os transportes, por exemplo: Literalmente, não estamos nos movendo nem um pouco mais rápido.

Em um artigo anterior, publicado na National Review, Thiel se refere explicitamente a um "problema de mensuração" — de uma só vez teórico e político — que obstrui estimativas confiáveis de desenvolvimento tecno-científico. Embora seja importante reconhecê-lo, ele aconselha, ele não deveria "deter nossa investigação sobre a modernidade antes que ela sequer tenha começado":

Quando traçado contra as esperanças reconhecidamente elevadas dos anos 1950 e 1960, o progresso tecnológico ficou aquém em muitos domínios. Considere a instância mais literal de não-aceleração: Não estamos mais nos movendo mais rápido. A aceleração secular das velocidades de viagem — desde de veleiros cada vez mais rápidos entre os séculos XVI e XVIII, até o advento de ferrovias cada vez mais rápidas no século XIX, e carros e aviões cada vez mais rápidos no século XX — se reverteu com o descomissionamento do Concorde em 2003, para não se falar nada dos atrasos torturantes causados pelos sistemas de segurança de tecnologia surpreendentemente baixa dos aeroportos após o 11 de Setembro. Os defensores atuais de jatos espaciais, férias lunares e da exploração tripulada do sistema solar parecem vir de outro planeta. Uma matéria de capa desbotada da Popular Science em 1964 — "Who’ll Fly You at 2,000 m.p.h.?" ("Quem Vai Lhe Fazer Voar a 3000km/h?") — mal lembra os sonhos de uma época passada.

A explicação oficial para a desaceleração nas viagens se centra no alto custo do combustível, o que aponta para a falha muito maior na inovação energética….

De maneira notável, em uma avaliação da rapidez anômala da inovação computacional, ele reafirma o "problema de mensuração" em termos familiares (muito mais recentemente) ao #Acelerar: "como se mede a diferença entre progresso e mera mudança? Quanto há de cada um?" Seu procedimento, então, antecipa aquele recomendado ao longo dessa série:

Vamos agora tentar atacar esse problema bastante espinhoso da mensuração a partir de um ângulo bastante diferente. Se o progresso científico e tecnológico significativo ocorre, então esperaríamos, de maneira razoável, uma prosperidade econômica maior (embora isso possa ser compensado por outros fatores). E, igualmente, ao contrário: Se ganhos econômicos, conforme mensurados por certos indicadores chave, tiverem sido limitados ou não existentes, então talvez o progresso científico e tecnológico também o tenha sido. Portanto, na medida em que o crescimento econômico é mais fácil de quantificar do que o progresso científico ou tecnológico, números econômicos irão conter indicações indiretas, mas importantes, para nossa investigação mais ampla.

A necessidade teórica nos guia do espaço físico para uma abstração econômica. É apenas realista, contudo, estar preparado para as maneiras na quais — de acordo com necessidades profundas e obscuras — este caminho será curvado pelo retorno insistente do espaço. De todas aquelas coisas com um excesso de confiança em seus próprios poderes de aceleração ou de alcançar facilmente velocidade de escape, a abstração filosófica não é, de forma alguma, a menos suscetível a uma pressa contra-produtiva — e ilusória.

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Sobre o #Acelerar (#2b)

"Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo", diz o #Acelerar, de maneira incontestável. "O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social."

Como anteriormente observado, das tendência aqui referidas, o "crescimento econômico" é facilmente a mais acessível (devido a sua auto-quantificação comercial). A compreensão tecnocientífica sobre a tecnociência, embora já embriônica no começo da época moderna, ainda está a alguma distância da auto-compreensão matemática enquanto evento natural. Sua quantificação, portanto, apresenta problemas bem mais desafiadores, deixando até mesmo questões bastante básicas sobre suas linhas de tendências abertas a controvérsias significativas. (A auto-quantificação das tendências de desenvolvimento nos setores de eletrônicos e biotecnologia merecem uma atenção focada em um estágio posterior.) Qualquer tentativa de fornecer uma medida precisa e coerente de "mobilidade social" provavelmente enfrentará obstáculos ainda mais formidáveis.

O capitalismo se apresenta como o mega-objeto acelerativo exemplar porque ele é auto-propulsor e auto-abstrator (por excitação cruzada). Em ambos os seus aspectos técnico e comercial, ele tende a potenciais de propósito geral que facilitam realocações de recursos (e, assim, quantificações eficientes). A capacidade produtiva é plastificada, ficando cada vez mais sensível a mudanças nas oportunidades de mercado, ao passo em que a riqueza é fluidizada, permitindo sua rápida mobilização especulativa. O mesmo processo auto-reforçador que liquida as formas sociais tradicionais libera o capital modernizante como quantidade abstrata volátil, flexivelmente equilibrada entre aplicações técnicas e intrinsecamente inclinada a uma compreensão ‘decodificada’ ou econômica.

Sob a orientação do capital, a modernização da riqueza tende à efetivação de um potencial produtivo abstrato, o que seria dizer, é claro: ela tende ao próprio capital, no circuito de auto-propulsão que o determina como uma hiper-substância genética (ou até mesmo teleológica). Neste ponto, chega-se a uma bifurcação teórica complexa, a partir da qual os caminhos levam a uma série de direções marxianas e decididamente anti-marxianas. A questão primária é se o corpo abstrato do capital é suscetível a uma conversão matemática consistente que se conforme à Lei do Valor, que a interpreta como uma reificação da força de trabalho organicamente composta (entre variável e fixa, ou ‘viva’ e ‘morta’). A coisa acelerativa pode ser reconhecida, de maneira prática, como a capacidade coletiva alienada de uma futura humanidade sem classes?

O #Acelerar considera que esta questão foi satisfatoriamente resolvida com antecedência e respondida na afirmativa. Uma vez que ele não fornece nenhuma referência que sustente essa posição, ele tem que ser considerado um documento identitário da esquerda. Apenas aqueles que afirmam o fechamento anterior de suas questões fundamentais são capazes de acessá-lo no nível de sua própria retórica. Ele assume a solidariedade ideológica como uma preliminar extrínseca e sem marcas.

Intrometer-se, no entanto, a partir de um problema aberto da ontologia capitalista, é navegar o caos. As passagens relevantes são encontradas na segunda parte do manifesto, que consiste de sete parágrafos numerados. Tudo o que nos é dito sobre a coisa acelerativa tem que ser extraído deles … ou quase tudo.

É notável que o primeiro uso de ‘acelerar’ no manifesto é tanto crítico quanto quase desdenhosamente casual. Ela ocorre no terceiro parágrafo da introdução, onde se resume um conjunto de "catástrofes em contínua aceleração":

… colapso do sistema climático do planeta [que " ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo"] … O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia [elevando "a perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes"] …incessante crise financeira [que] levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E] automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, [que] evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.

Isso, de maneira bastante clara, é seu retrato introdutório lúgubre da coisa acelerativa, como ela é em si mesma, convergindo para uma singularidade histórica terminal, ou uma abrangente crise ecológica, econômica e tecnológica de super desempenho. Ela é tanto a coisa sobre a qual o #Acelerar quer falar, quanto a coisa sobre a qual ele decide explicitamente não falar — introduzida como palco teatral, ou um lembrete de algo antes e fora da discussão, que pode ser posteriormente assumido. A função retórica é completamente inequívoca: essa lista serve como uma enumeração daquilo que não precisa mais ser discutido. É infeliz, portanto, para dizer o mínimo, que essa parece ser a abordagem mais próxima, dentro do #Acelerar, ao objeto real da atenção aceleracionista, "ganha[ndo] força e velocidade, [conforme] a política abranda e recua" até que "o futuro" que nos foi prometido seja "cancelado" (ainda que apenas através de uma falha retificável do "imaginário político"). O inimigo é uma coisa acelerativa, mas o #Acelerar discutirá alguma outra coisa.

Antes que o capitalismo caia inteiramente no pano de fundo nebuloso da narrativa implícita, vale a pena fazer uma breve digressão ao "imaginário político" e sua sugestão. Se há uma única fórmula que cristaliza a apropriação esquerdista do aceleracionismo como puro colapso cognitivo é a afirmação de Frederic Jameson — obsessivamente repetida por toda a Web Esquerdista — de que Agora é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Para compreender a profunda falta de atenção desse pronunciamento, é necessário apenas retornar ao pensamento de abstração real, através do qual a virtualização realizada pelo capitalismo é distinguida de qualquer determinação da abstração enquanto propriedade lógica da representação intelectual. Dentro dos mercados de futuros capitalistas, o não-atual tem circulação efetiva. Ele não é um "imaginário", mas uma parte integral do corpo virtual do capital, uma realização do futuro operacionalizada. É difícil imaginar que a Esquerda esteja disposta a seguir o caminho definido aqui, portanto, a menos que seja através de uma falta de pensamento de proporções simplesmente desconcertantes, uma vez que ele necessariamente leva à conclusão: ao passo em que o capital tem um futuro cada vez mais densamente realizado, seus inimigos esquerdistas têm manifestamente apenas um de faz de conta.

Uma vez que a Seção Dois do #Acelerar é um matagal densamente emaranhado de ultrajes conceituais, vale a pena relembrar mais uma vez suas duas primeiras frases, que são excepcionais (neste contexto) por sua sanidade:

Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social.

O objeto primário do Aceleracionismo é o crescimento econômico, conforme demonstrado, de maneira capitalista, em um processo inextricavelmente vinculado ao desenvolvimento tecnológico orientado para a competição, e também à desorganização social. Se o #Acelerar concluísse aqui, não haveria nenhum argumento a ser feito contra ele. Infelizmente, ele continua por entre uma sequência de frases tão radicalmente desordenadas que nenhuma busca elegante de seu argumento é possível. Em vez disso, ele demanda uma série fragmentária de correções, objeções e reanimações de problemas obscurecidos, parcialmente enterrados e arbitrariamente suprimidos.

A descida começa imediatamente: "Em sua forma neoliberal, essa auto-apresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração".

Por que o termo ‘destruição criativa’ (cunhado por Joseph Schumpeter em 1942) está sendo associado ao ‘neoliberalismo‘ aqui? Schumpeter o considerava aplicável ao capitalismo em geral, com abundante razão, e o #Acelerar não articula nenhuma objeção a esse uso padrão. Se o ‘neoliberalismo’ é a ideologia da destruição criativa, ele é a ideologia do capitalismo em geral.

Na introdução, nos é dito que, "desde 1979", o neoliberalismo tem sido "a ideologia política globalmente hegemônica … encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos". Ele é caracterizado, aparentemente, por "ajustes estruturais … em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas". Isso, também, soa como simples capitalismo (como também o faz "neoliberalismo landiano"). A vacuidade do termo apenas ressoa sonoramente com cada uso sucessivo. O ‘neoliberalismo’ é criticado porque ele não é nada além do capitalismo (pós-1979), e não é criticado por nenhuma outra razão. No #Acelerar, se não em outros lugares, ele não tem nenhum conteúdo ideológico distinguível do liberalismo clássico, tornando-a uma palavra perfeitamente inútil. A opacidade serve apenas para contrabeandear duas sugestões prepósteras: (1) A cacofonia das críticas esquerdistas ao ‘neoliberalismo’ compartilha algum cerne coerente de análise política e econômica. (2) As ideias sócio-econômicas liberais clássicas gozam de uma hegemonia essencialmente imperturbável sobre a atual ordem mundial. (Você não sabia que Keynes está morto, e que os Libertários governam a terra?)

(Então, por que não começar a chamar os marxistas fundamentalistas de hoje de ‘neo-coletivistas’, enquanto se implica que o planejamento central industrial estalinista é o arranjo econômico dominante do mundo? — Porque isso seria patentemente ridículo e insensatamente irritante, mas, na verdade, não mais do que a alternativa ‘neoliberal’.)

O tique ‘neoliberal’, embora enfurecedor em sua idiotice presunçosa, na verdade é tão vazio que importa pouco para o argumento do #Acelerar. Seu efeito é meramente servir como um truque de mãos, que apresenta um oponente cartunesco para distrair da ausência de uma atenção concentrada no alvo de uma análise e crítica realistas: a coisa acelerativa. O segundo desvio teórico a aparecer é pouco menos evasivo, o qual se trata de deslizar o problema ontológico central para um ‘esclarecimento conceitual’ de um desleixo surpreendente.

Sabemos pelo dicionário infantil que a aceleração é uma mudança de velocidade ao longo do tempo, o que não impede o #Acelerar de alegar (sem qualquer evidência óbvia):

O filósofo Nick Land captou isso [a dinâmica do capital ou a ideologia neoliberal?] de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. … o neoliberalismo de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

(1) Velocidade não é aceleração.
(2) Uma singularidade que se aproxima é marcada pela aceleração, não pela velocidade constante.
(3) Quem jamais falou sobre "se mover rapidamente" nesse contexto? Isso carece até mesmo da dignidade de um espantalho. O que ‘rápido’ significa? A aceleração não precisa sequer ser ‘rápida’ (apenas ‘ficando mais rápido’).
(4) O apelo para algo para além de "um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas" é mero aceno de mãos. A funcionalidade econômica é um ‘parâmetro’ confinador (para a aceleração)? Há claramente um tentativa de algum tipo de argumento transcendental aqui, marcado pelo apelo aos "parâmetros capitalistas que jamais oscilam". O próprio ‘parâmetro’ oscila entre um uso lógico e um empírico, um conceitualmente definidor e o outro materialmente constrangedor. Se o #Acelerar pensa que pode produzir um conceito significativo de aceleração sem parâmetros, seria algo emocionante de se ver (tempo, massa terrestre, leis físicas, herança biogeológica … são todos ‘parâmetros’). ‘Parâmetros’ capitalistas (indefinidos) devem ser, por alguma razão, aceitáveis como especialmente constrangedores, contudo. Argumento? Claro que não, este é um artigo de fé indisputável.
(5) Se alguém sabe o que "a crescente velocidade de um horizonte local" significa, por favor me conte. Pelo menos é algum tipo de "velocidade crescente", no entanto, ou seja, uma aceleração. Este é um sinal de que o #Acelerar pensa que a diferença entre velocidade e aceleração é trivial demais para se reconhecer, de modo que sua discussão sobre a aceleração não é, na verdade, sequer sobre aceleração, mas sobre algum muito mais profundo e ‘pós-paramétrico’? Talvez, porque…
(6) Para além da "uma simples arremetida descerebrada" (algo certamente está ‘descerebrado’) …
(7) Há "uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades". …e isso está, de alguma forma, conectado ao, é mensurável como, ou pode ser explicado em termos de algum processo rigorosamente determinável de aceleração (ainda que apenas aproximadamente) como?
(8) Independente disso: "É este último modo de aceleração que tomamos por essencial".

Esse tipo de coisa é a destruição direta e radical da inteligência. Começamos com um conceito definido (‘aceleração’) e um tópico de investigação ou crítica (a coisa acelerativa). Agora, a menos da metade do caminho do #Acelerar, não tem nenhum dos dois. Em vez disso, somos deixados com algum tipo de "modo de aceleração" supra-paramétrico trans-horizonal imaginário que foi deliberadamente destituído tanto de sentido, quanto de referência. A única realização teórica foi cinzelar de maneira brutal essa ideia política ontologicamente inefável para fora do único processo historicamente evidenciado de navegação, experimentação e descoberta acelerantes conhecido na história humana, a fim de lançá-la em um além miticamente inspirador. Começando com uma máquina sócio-técnica auto-propulsora ciberneticamente inteligível, não acabamos com nada além da declaração inflexível de que, o que quer que ‘ela’ (a aceleração histórica) seja, ela não é isso, ou qualquer coisa que possamos entender, apesar do fato de que o que sabemos sobre ‘ela’ é inteiramente extraído da realidade cumulativa sendo abandonada.

Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração.

Pelo contrário. O único "agente da verdadeira aceleração" reconhecido por Marx é a burguesia revolucionária — seu representante humanístico para a agência do capital. O proletariado não acelera nada, exceto em sua função enquanto força de trabalho sob os imperativos do capital. Ele herda uma pré-história acelerativa concluída, no momento de sua própria auto-dissolução revolucionária em uma humanidade universal.

Ao contrário do #Acelerar, Marx não trabalhava sob nenhuma ilusão de que a coisa acelerativa não era o capital, cujo mecanismo ele se devotou a entender, até a quase perfeita exclusão de todos os outros tópicos. Ao nos voltarmos para o entendimento de Marx sobre essa coisa [semana que vem], parcialmente nos retiramos dos erros caóticos do atual Aceleracionismo de Esquerda, embora talvez permaneçamos próximos o suficiente para irritá-lo.

Original.