Sobre o #Acelerar (#2a)

Assuma — pelo menos provisoriamente — que o Aceleracionismo é sério. Embora abstraído da física, o conceito de aceleração não é reduzido a mera retórica (ou metáfora), mesmo que não esteja mais sendo aplicado a mudanças na velocidade de objetos no espaço. Ele se refere estritamente à mudança da primeira derivada (ou superior) em uma quantidade mensurável ao longo do tempo, formalmente compatível com o cálculo diferencial. A taxa de aceleração — ou desempenho do sistema — pode ser estimada em princípio, ainda que considerações práticas compliquem esta tarefa. Em outras palavras, o objeto da atenção (e promoção) aceleracionista tem uma realidade demonstrável.

A história intelectual do capitalismo industrial promove duas correntes de informação (quantitativa), ambas de grande relevância aparente. Em seu lado técnico, ela produz um aparato de medição rigorosa, orientado ao comportamento de sistemas físicos complexos, ou máquinas — diferenças de temperatura, energia livre, eficiência termodinâmica, dissipação de entropia, complexidade, informação e (de maneira emergente) inteligência. Em seu lado comercial, ela estabelece instituições de contabilidade e econometria, denominadas em unidades de moeda e aplicadas à produção econômica, renda, tributos, fluxos comerciais, crédito, valores de ativos e instrumentos financeiros cada vez mais exóticos. Embora possa se argumentar que a confluência dessas duas correntes está implícita dentro da — e seja até mesmo essencial à — natureza (ou cultura) do capitalismo, com a inteligência/descoberta de preços como sua diretiva epistemológica imanente, nenhum resultado desse tipo está pronta ou publicamente disponível. Poderiam até existir razões para se suspeitar que a pergunta crua quanto vale a inteligência? não pode ser explicitamente articulada dentro de qualquer ordem social imaginável. Isso é, em todo caso, uma distração nesse estágio.

Apesar de um progresso notável no estudo técnico de objetos complexos cada vez maiores, e da óbvia relevância desse trabalho para as preocupações aceleracionistas, é o modo de quantificação sócio-econômico, em vez do tecno-mecânico, que tem vantagem na análise de sistemas de escala muito grande, especialmente em relação àquelas entidades — até o nível da economia global — que monetizaram seus próprios processos e, assim, se quantificaram antes de sua objetificação teórica. O enorme alívio teórico fornecido desta forma é tamanho que mesmo a mais severa das dificuldades conceituais (com as quais em breve colidiremos) são incapazes de anulá-lo. (As ciências da informação oferecem um alívio comparável do lado técnico, mas ele está restrito unicamente ao domínio das máquinas digitais artificiais.)

A atração irresistível de uma compreensão abrangente, rigorosa e não antropomórfica da modernidade terrestre como um sistema complexo, máquina ou indivíduo emergente, a ser descrito através de suas propriedades termodinâmicas, dissipativas ou inteligênicas, é tamanha que é improvável que essa aspiração seja totalmente extirpada do programa intelectual aceleracionista (da maneira em que ele existe, e como ele necessariamente existirá, devido a impulsos modernistas sistemicamente gerados). Apesar disso, provavelmente é incontroverso esperar que a consolidação da teoria aceleracionista inicialmente tome forma por referência a recursos culturais de descrição, análise, explicação e proposição práticas no âmbito econômico. A primeira versão intelectualmente crível do aceleracionismo não pode realisticamente ser outra coisa senão uma teoria econômica global da modernidade.

"Uma teoria global da modernidade? Você dizer algo como o marxismo?" Sim, de uma certa forma, algo muito parecido com o marxismo. Os trilhos já estão fixados em uma direção que permite apenas dois destinos: O aceleracionismo pode ou ser o marxismo, ou seu substituto — uma atualização ou um concorrente.

Os trilhos passam pela mesma região em ambos os casos, pelo menos inicialmente. Vale a pena esboçar algumas pressuposições compartilhadas, a serem herdadas pelo que quer que o aceleracionismo se torne.

(1) A globalidade tendencial do Capitalismo é um assinatura de sua singularidade virtual (enquanto indivíduo real) e não meramente um efeito de uma generalização através do espaço. ‘Capitalismo Terrestre’ (ou qualquer outra coisa que se queira chamá-lo) é o nome próprio de uma coisa, ao invés de um rótulo genérico. Ele é uma ocorrência, ou uma máquina, antes de ser qualquer espécie de tipo social.

(2) O capitalismo é integral ao menos para a modernidade atual, se não (em sua própria atualidade) inequivocamente coincidente com ela. Uma teoria completa do capitalismo — por mais hipotética que essa ideia tenha que ser — explicaria a modernidade, passando por todas suas características distintivas, incluindo a gênese e o destino do anti-capitalismo (moderno).

(3) O capitalismo é essencialmente cumulativo. Ele não é algo ao qual o crescimento possa ser atribuído como uma propriedade extrínseca. Mesmo ocasiões de redução ou contração capitalista estão restritos a dimensões específicas e são inteligíveis apenas através de uma tendência expansionista envolvente.

(4) O crescimento auto-impelido que — quando adequadamente entendido — define o capitalismo é necessariamente expresso como um índice econômico. Uma meta-teoria econômica capaz de descriptografar esse índice, através de algum conjunto de transformações matemáticas consistentes das informações sobre preços do próprio sistema, é capaz de acessar dados suficientes para sustentar o corpo de conclusões empíricas e projeções que compõem a descrição aceleracionista do capitalismo. Esta teoria, portanto, será denominada em unidades de valor econômico estritamente isomórficas com aquelas que compõem o agregado planetário de riqueza efetivamente monetizável (cuja virtualidade especulativa extrema descreve o horizonte de possibilidade econômico-teórica).

É digno de nota que, em algum estágio do ponto (4), essa enumeração de pressuposições compartilhadas passa para alguma outra coisa. [Então esse poderia ser um bom momento para uma pausa]

Original.

1 thought on “Sobre o #Acelerar (#2a)

  1. Pingback: Sobre o #Acelerar (#2b) | Urbano Futuro

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