Sobre o #Acelerar (#2b)

"Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo", diz o #Acelerar, de maneira incontestável. "O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social."

Como anteriormente observado, das tendência aqui referidas, o "crescimento econômico" é facilmente a mais acessível (devido a sua auto-quantificação comercial). A compreensão tecnocientífica sobre a tecnociência, embora já embriônica no começo da época moderna, ainda está a alguma distância da auto-compreensão matemática enquanto evento natural. Sua quantificação, portanto, apresenta problemas bem mais desafiadores, deixando até mesmo questões bastante básicas sobre suas linhas de tendências abertas a controvérsias significativas. (A auto-quantificação das tendências de desenvolvimento nos setores de eletrônicos e biotecnologia merecem uma atenção focada em um estágio posterior.) Qualquer tentativa de fornecer uma medida precisa e coerente de "mobilidade social" provavelmente enfrentará obstáculos ainda mais formidáveis.

O capitalismo se apresenta como o mega-objeto acelerativo exemplar porque ele é auto-propulsor e auto-abstrator (por excitação cruzada). Em ambos os seus aspectos técnico e comercial, ele tende a potenciais de propósito geral que facilitam realocações de recursos (e, assim, quantificações eficientes). A capacidade produtiva é plastificada, ficando cada vez mais sensível a mudanças nas oportunidades de mercado, ao passo em que a riqueza é fluidizada, permitindo sua rápida mobilização especulativa. O mesmo processo auto-reforçador que liquida as formas sociais tradicionais libera o capital modernizante como quantidade abstrata volátil, flexivelmente equilibrada entre aplicações técnicas e intrinsecamente inclinada a uma compreensão ‘decodificada’ ou econômica.

Sob a orientação do capital, a modernização da riqueza tende à efetivação de um potencial produtivo abstrato, o que seria dizer, é claro: ela tende ao próprio capital, no circuito de auto-propulsão que o determina como uma hiper-substância genética (ou até mesmo teleológica). Neste ponto, chega-se a uma bifurcação teórica complexa, a partir da qual os caminhos levam a uma série de direções marxianas e decididamente anti-marxianas. A questão primária é se o corpo abstrato do capital é suscetível a uma conversão matemática consistente que se conforme à Lei do Valor, que a interpreta como uma reificação da força de trabalho organicamente composta (entre variável e fixa, ou ‘viva’ e ‘morta’). A coisa acelerativa pode ser reconhecida, de maneira prática, como a capacidade coletiva alienada de uma futura humanidade sem classes?

O #Acelerar considera que esta questão foi satisfatoriamente resolvida com antecedência e respondida na afirmativa. Uma vez que ele não fornece nenhuma referência que sustente essa posição, ele tem que ser considerado um documento identitário da esquerda. Apenas aqueles que afirmam o fechamento anterior de suas questões fundamentais são capazes de acessá-lo no nível de sua própria retórica. Ele assume a solidariedade ideológica como uma preliminar extrínseca e sem marcas.

Intrometer-se, no entanto, a partir de um problema aberto da ontologia capitalista, é navegar o caos. As passagens relevantes são encontradas na segunda parte do manifesto, que consiste de sete parágrafos numerados. Tudo o que nos é dito sobre a coisa acelerativa tem que ser extraído deles … ou quase tudo.

É notável que o primeiro uso de ‘acelerar’ no manifesto é tanto crítico quanto quase desdenhosamente casual. Ela ocorre no terceiro parágrafo da introdução, onde se resume um conjunto de "catástrofes em contínua aceleração":

… colapso do sistema climático do planeta [que " ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo"] … O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia [elevando "a perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes"] …incessante crise financeira [que] levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E] automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, [que] evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.

Isso, de maneira bastante clara, é seu retrato introdutório lúgubre da coisa acelerativa, como ela é em si mesma, convergindo para uma singularidade histórica terminal, ou uma abrangente crise ecológica, econômica e tecnológica de super desempenho. Ela é tanto a coisa sobre a qual o #Acelerar quer falar, quanto a coisa sobre a qual ele decide explicitamente não falar — introduzida como palco teatral, ou um lembrete de algo antes e fora da discussão, que pode ser posteriormente assumido. A função retórica é completamente inequívoca: essa lista serve como uma enumeração daquilo que não precisa mais ser discutido. É infeliz, portanto, para dizer o mínimo, que essa parece ser a abordagem mais próxima, dentro do #Acelerar, ao objeto real da atenção aceleracionista, "ganha[ndo] força e velocidade, [conforme] a política abranda e recua" até que "o futuro" que nos foi prometido seja "cancelado" (ainda que apenas através de uma falha retificável do "imaginário político"). O inimigo é uma coisa acelerativa, mas o #Acelerar discutirá alguma outra coisa.

Antes que o capitalismo caia inteiramente no pano de fundo nebuloso da narrativa implícita, vale a pena fazer uma breve digressão ao "imaginário político" e sua sugestão. Se há uma única fórmula que cristaliza a apropriação esquerdista do aceleracionismo como puro colapso cognitivo é a afirmação de Frederic Jameson — obsessivamente repetida por toda a Web Esquerdista — de que Agora é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Para compreender a profunda falta de atenção desse pronunciamento, é necessário apenas retornar ao pensamento de abstração real, através do qual a virtualização realizada pelo capitalismo é distinguida de qualquer determinação da abstração enquanto propriedade lógica da representação intelectual. Dentro dos mercados de futuros capitalistas, o não-atual tem circulação efetiva. Ele não é um "imaginário", mas uma parte integral do corpo virtual do capital, uma realização do futuro operacionalizada. É difícil imaginar que a Esquerda esteja disposta a seguir o caminho definido aqui, portanto, a menos que seja através de uma falta de pensamento de proporções simplesmente desconcertantes, uma vez que ele necessariamente leva à conclusão: ao passo em que o capital tem um futuro cada vez mais densamente realizado, seus inimigos esquerdistas têm manifestamente apenas um de faz de conta.

Uma vez que a Seção Dois do #Acelerar é um matagal densamente emaranhado de ultrajes conceituais, vale a pena relembrar mais uma vez suas duas primeiras frases, que são excepcionais (neste contexto) por sua sanidade:

Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social.

O objeto primário do Aceleracionismo é o crescimento econômico, conforme demonstrado, de maneira capitalista, em um processo inextricavelmente vinculado ao desenvolvimento tecnológico orientado para a competição, e também à desorganização social. Se o #Acelerar concluísse aqui, não haveria nenhum argumento a ser feito contra ele. Infelizmente, ele continua por entre uma sequência de frases tão radicalmente desordenadas que nenhuma busca elegante de seu argumento é possível. Em vez disso, ele demanda uma série fragmentária de correções, objeções e reanimações de problemas obscurecidos, parcialmente enterrados e arbitrariamente suprimidos.

A descida começa imediatamente: "Em sua forma neoliberal, essa auto-apresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração".

Por que o termo ‘destruição criativa’ (cunhado por Joseph Schumpeter em 1942) está sendo associado ao ‘neoliberalismo‘ aqui? Schumpeter o considerava aplicável ao capitalismo em geral, com abundante razão, e o #Acelerar não articula nenhuma objeção a esse uso padrão. Se o ‘neoliberalismo’ é a ideologia da destruição criativa, ele é a ideologia do capitalismo em geral.

Na introdução, nos é dito que, "desde 1979", o neoliberalismo tem sido "a ideologia política globalmente hegemônica … encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos". Ele é caracterizado, aparentemente, por "ajustes estruturais … em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas". Isso, também, soa como simples capitalismo (como também o faz "neoliberalismo landiano"). A vacuidade do termo apenas ressoa sonoramente com cada uso sucessivo. O ‘neoliberalismo’ é criticado porque ele não é nada além do capitalismo (pós-1979), e não é criticado por nenhuma outra razão. No #Acelerar, se não em outros lugares, ele não tem nenhum conteúdo ideológico distinguível do liberalismo clássico, tornando-a uma palavra perfeitamente inútil. A opacidade serve apenas para contrabeandear duas sugestões prepósteras: (1) A cacofonia das críticas esquerdistas ao ‘neoliberalismo’ compartilha algum cerne coerente de análise política e econômica. (2) As ideias sócio-econômicas liberais clássicas gozam de uma hegemonia essencialmente imperturbável sobre a atual ordem mundial. (Você não sabia que Keynes está morto, e que os Libertários governam a terra?)

(Então, por que não começar a chamar os marxistas fundamentalistas de hoje de ‘neo-coletivistas’, enquanto se implica que o planejamento central industrial estalinista é o arranjo econômico dominante do mundo? — Porque isso seria patentemente ridículo e insensatamente irritante, mas, na verdade, não mais do que a alternativa ‘neoliberal’.)

O tique ‘neoliberal’, embora enfurecedor em sua idiotice presunçosa, na verdade é tão vazio que importa pouco para o argumento do #Acelerar. Seu efeito é meramente servir como um truque de mãos, que apresenta um oponente cartunesco para distrair da ausência de uma atenção concentrada no alvo de uma análise e crítica realistas: a coisa acelerativa. O segundo desvio teórico a aparecer é pouco menos evasivo, o qual se trata de deslizar o problema ontológico central para um ‘esclarecimento conceitual’ de um desleixo surpreendente.

Sabemos pelo dicionário infantil que a aceleração é uma mudança de velocidade ao longo do tempo, o que não impede o #Acelerar de alegar (sem qualquer evidência óbvia):

O filósofo Nick Land captou isso [a dinâmica do capital ou a ideologia neoliberal?] de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. … o neoliberalismo de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

(1) Velocidade não é aceleração.
(2) Uma singularidade que se aproxima é marcada pela aceleração, não pela velocidade constante.
(3) Quem jamais falou sobre "se mover rapidamente" nesse contexto? Isso carece até mesmo da dignidade de um espantalho. O que ‘rápido’ significa? A aceleração não precisa sequer ser ‘rápida’ (apenas ‘ficando mais rápido’).
(4) O apelo para algo para além de "um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas" é mero aceno de mãos. A funcionalidade econômica é um ‘parâmetro’ confinador (para a aceleração)? Há claramente um tentativa de algum tipo de argumento transcendental aqui, marcado pelo apelo aos "parâmetros capitalistas que jamais oscilam". O próprio ‘parâmetro’ oscila entre um uso lógico e um empírico, um conceitualmente definidor e o outro materialmente constrangedor. Se o #Acelerar pensa que pode produzir um conceito significativo de aceleração sem parâmetros, seria algo emocionante de se ver (tempo, massa terrestre, leis físicas, herança biogeológica … são todos ‘parâmetros’). ‘Parâmetros’ capitalistas (indefinidos) devem ser, por alguma razão, aceitáveis como especialmente constrangedores, contudo. Argumento? Claro que não, este é um artigo de fé indisputável.
(5) Se alguém sabe o que "a crescente velocidade de um horizonte local" significa, por favor me conte. Pelo menos é algum tipo de "velocidade crescente", no entanto, ou seja, uma aceleração. Este é um sinal de que o #Acelerar pensa que a diferença entre velocidade e aceleração é trivial demais para se reconhecer, de modo que sua discussão sobre a aceleração não é, na verdade, sequer sobre aceleração, mas sobre algum muito mais profundo e ‘pós-paramétrico’? Talvez, porque…
(6) Para além da "uma simples arremetida descerebrada" (algo certamente está ‘descerebrado’) …
(7) Há "uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades". …e isso está, de alguma forma, conectado ao, é mensurável como, ou pode ser explicado em termos de algum processo rigorosamente determinável de aceleração (ainda que apenas aproximadamente) como?
(8) Independente disso: "É este último modo de aceleração que tomamos por essencial".

Esse tipo de coisa é a destruição direta e radical da inteligência. Começamos com um conceito definido (‘aceleração’) e um tópico de investigação ou crítica (a coisa acelerativa). Agora, a menos da metade do caminho do #Acelerar, não tem nenhum dos dois. Em vez disso, somos deixados com algum tipo de "modo de aceleração" supra-paramétrico trans-horizonal imaginário que foi deliberadamente destituído tanto de sentido, quanto de referência. A única realização teórica foi cinzelar de maneira brutal essa ideia política ontologicamente inefável para fora do único processo historicamente evidenciado de navegação, experimentação e descoberta acelerantes conhecido na história humana, a fim de lançá-la em um além miticamente inspirador. Começando com uma máquina sócio-técnica auto-propulsora ciberneticamente inteligível, não acabamos com nada além da declaração inflexível de que, o que quer que ‘ela’ (a aceleração histórica) seja, ela não é isso, ou qualquer coisa que possamos entender, apesar do fato de que o que sabemos sobre ‘ela’ é inteiramente extraído da realidade cumulativa sendo abandonada.

Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração.

Pelo contrário. O único "agente da verdadeira aceleração" reconhecido por Marx é a burguesia revolucionária — seu representante humanístico para a agência do capital. O proletariado não acelera nada, exceto em sua função enquanto força de trabalho sob os imperativos do capital. Ele herda uma pré-história acelerativa concluída, no momento de sua própria auto-dissolução revolucionária em uma humanidade universal.

Ao contrário do #Acelerar, Marx não trabalhava sob nenhuma ilusão de que a coisa acelerativa não era o capital, cujo mecanismo ele se devotou a entender, até a quase perfeita exclusão de todos os outros tópicos. Ao nos voltarmos para o entendimento de Marx sobre essa coisa [semana que vem], parcialmente nos retiramos dos erros caóticos do atual Aceleracionismo de Esquerda, embora talvez permaneçamos próximos o suficiente para irritá-lo.

Original.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.