Sub-K

Com a teoria do capital repentinamente transformada em um tópico quente pelo best-seller de Thomas Piketty, Robert P. Murphy lucidamente reafirma a concepção austríaca, atenta aos problemas de comensurabilidade entre o aparato produtivo e sua sumarização financeira. Como ele observa: "A distinção entre capital financeiro e bens físicos de capital é crucial e sublinha todas as questões que se seguem".

A hipóstase macroeconômica da equivalência transacional (‘preço’) em substância homogênea (‘riqueza’) é coloca em questão em nome de um substrato de capital intrínseca e irredutivelmente diverso. O ‘valor de troca’ do capital – em vez de ser derivado de algum tipo de essência econômica estável – emerge continuamente do processo de mercado como uma consequência volátil dos vários projetos empresariais que o atravessam. (Como qualquer outro bem, o ‘valor’ do capital é exatamente o que ele consegue alcançar, sem qualquer suporte subjacente de valor objetivo último.)

Como Murphy enfatiza, essa qualificação é de especial relevância para a teoria dos ciclos empresariais, uma vez que esses são episódios de destruição drástica do (valor do) capital, de um tipo de que foge à compreensão macroeconômica. Uma vez que o capital ’em si mesmo’ é variado e está preso a um caminho, suas quantidades ‘mal-investidas’ – quando expostas pelo colapso de projetos econômicos insustentáveis – são esmagadas a valores brutalmente descontados de recuperação ou sucata.

Se usarmos um modelo que representa o estoque de capital com um único número (chame-o de "K"), então é difícil de ver por que um período de explosão deveria levar a um período recessivo "de ressaca". Contudo, se adotarmos um modelo mais rico que inclua as complexidades da estrutura heterogênea do capital, podemos ver que os excessos de um período de explosão realmente podem ter efeitos negativos no longo prazo. Nesse quadro, faz sentido que depois que uma bolha de ativos estoure, possamos ver um desemprego anormalmente alto e outros recursos "ociosos", enquanto a economia "recalcula", para usar a metáfora de Arnold Kling. (Link de Kling.)

‘K’ – o agregado neoclássico do capital, denominado em unidades monetárias – é, assim, problematizado por uma matéria opaca, heterogênea e viscosa, não apenas em teoria, mas também efetivamente — através de crises financeiras. A quebra econômica é um evento epistemológico-semiótico complexo, situado entre os aspectos gêmeos do capital, na forma de uma catástrofe de comensuração.

O ‘recálculo’ necessitado pela quebra pode, portanto, ser avaliado como uma ‘teoria do capital’ imanente à economia, intrinsecamente propensa a uma alucinação macroeconômica consensual. Em vez de um erro arbitrário, alojado em uma perspectiva superior, a tradução do sub-K (capital técnico heterogêneo) em K (capital financeiro homogêneo) é um processo de cálculo inerente ao – e definitivo do – capitalismo em si, antes de ele ser isolado como um tópico teórico de análise político-econômica. O capitalismo, em si, é a tendência à compreensão aritmética de si mesmo. A operação do sistema de preços não pode deixar de implicar em uma avaliação agregada (financeira) do ser produtivo total.

O austrianismo abre uma questão tanto quanto resolve uma, porque o capitalismo não pode se abster de um engajamento criptográfico com o sub-K. O austro-ceticismo em relação à macroeconomia é consumado na compreensão de que apenas a economia pode pensar a economia (sem transcendência social-científica), mas, ao atingir este pico, ele simultaneamente reconhece a economia como uma entidade auto-decriptadora, que não pode ser liberada do problema que é para si mesma.

Murphy argumenta:

Uma apreciação apropriada da estrutura heterogênea do capital demonstra a fraqueza das abordagens teóricas padrão, que empregam "simplificações por conveniência analítica" que, na verdade obscurecem a realidade econômica.

Seria conveniente demais, neste ponto, reduzir a "realidade econômica" (ou o sub-K) à heterogeneidade em geral – o simplesmente incognoscível. Desta forma, estaríamos buscando – sem dúvidas em vão – nos dispensar do problema criptográfico em que o próprio capitalismo está trabalhando.

Original.

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