Tecno-Leviatã

Escrevendo na E-International Relations, Brett Scoot levanta uma crítica de Esquerda à revolução do blockchain, em um nível estimulante de sofisticação teórica. Seu argumento central é importante: Cripto-sistemas de blockchain são a realização tecnológica do impulso "distópico e conservador" — primeiro cristalizado por Thomas Hobbes — de se estabelecer uma soberania politicamente imunizada. Esse modelo social, previamente subvertido pela falível humanidade dos líderes, está finalmente se tornando alcançável na forma de um governo algorítmico, o Tecno-Leviatã de Scott:

Libertários conservadores se mantém firmes na crença de que, se apenas direitos de propriedade fortes e regras claras de contratação fossem postos em prática, sistemas ótimos espontaneamente emergiriam. Na verdade, eles não estão tão longe de Hobbes nesse sentido, mas sua irritação com a visão de Hobbes é que ela depende de políticos que, sendo pessoas reais, não agem como um Soberano contratual desapegado deveria, mas sim tentam intervir, tornar as coisas melhores, ou roubar. Blockchains descentralizados não oferecem o prospecto derradeiro de direitos protegidos de propriedade com regras claras, mas sem a interferência política?

Scott navega o Teste de Turing Ideológico bem o suficiente para se tornar um ponto de referência em discussões futuras. Seus oponentes, sem dúvida, em muitos casos concederão (como esse blog) que a ‘distopia’ que ele descreve, embora retratada em tons agourentos e fúnebres, captura notavelmente bem os apegos — e des-apegos — dos zelosos promotores do blockchain.

Scott claramente pensa que a confiança política é um bem social que pode ser reconstruído ou recuperado (talvez reinicializando-se a democracia). Ainda que assim o seja, o tempo restante para essa operação de salvamento está acabando rápido


Original.

China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial, Parte 2

Eu tenho muitos amigos que são programadores. Os programadores sempre foram tipo "Esses caras [do Bitcoin] são loucos".

E então, quase 100 por cento do tempo, eles sentam, leem o artigo, leem o código — demora umas duas semanas — e eles saem do outro lado. E eles ficam tipo: "Meu deus, é isso. Esse é o grande avanço. Essa é a coisa pela qual estivemos esperando. Ele resolveu todos os problemas. Quem quer que ele seja deveria ganhar o Prêmio Nobel — ele é um gênio. É isso! Essa é a rede de confiança distribuída que a Internet sempre precisou e nunca teve".

Então, um dos desafios é você pegar pessoas que não são programadores profissionais ou matemáticos e então esperar que elas entendam desde o início. E é intimidador. E então uma palavra é anexada a isso, como ‘moeda’ ou do que quer que você queira chamar isso, e aí as pessoas acham que é algo que não é. E você tem uma noção disso, mas é um conceito muito mais profundo do que moeda. É a ideia de confiança distribuída.

—Marc Andreessen (em conversa com Brian Fing)

Fotografia secreta do BTC Guild, o maior pool de mineração de Bitcoin e um dos mais antigos pools restantes de Bitcoin (crédito: Jakub Szypulka CC-BY)

Observou-se, na primeira parte dessa série de ensaios, que a ordem econômica do mundo está sendo radicalmente remoldada por duas transformações aproximadamente coincidentes de consequências estupendas: uma mudança secular da capacidade industrial, do Ocidente para o Oriente, e uma revolução baseada na Internet na natureza do dinheiro. Desses eventos, o primeiro já está profundamente estabelecido, e é reconhecido de maneira geral, ao passo que o último ainda está em um estágio inicial de emergência e, até o momento, é bem menos óbvio em suas implicações. A intersecção entre eles permanece profundamente obscura.

Um tópico que parece, tentadoramente, conectar esses fios históricos é a morte em perspectiva – ou pelo menos o rebaixamento radical – do dólar dos EUA. O Dilema de Triffin argumenta que qualquer moeda que alcance o status de reserva mundial tende, de maneira talvez irresistível, a se destruir.[1] O declínio econômico relativo da América parece pronto para exacerbar o ‘inverno’ desse grande ciclo. Do outro lado, o dólar é ameaçado pela emergência fragmentada de um sistema monetário não estatal totalmente sem precedentes, livre de todas as instituições familiares de gestão monetária. No horizonte histórico do dólar americano globalizado, o yuan chinês e o bitcoin estão obscuramente reunidos.

Abstratamente antecipada, essa ameaça gêmea se integra em um único evento de significância composta, mas previsões concretas podem facilmente se perder em suas novas complexidades. Por cerca de meio milênio, as transições na liderança econômica mundial foram suavizadas por afinidades culturais e colaboração estratégica íntima, dentro de uma tradição comercial protestante que compartilhava de uma língua comum, e de inimigos comuns, desde o final do século XVIII[2]. Nada comparável é concebível hoje, conforme a supremacia global americana é erodida em um contexto de intensa competição estratégica e marcada diferença entre civilizações.

Dentro de um dos armazéns na Islândia estão as plataformas de mineração da Cointerra, da KnCMiner e da recém-chegada spondoolies-tech. Esses equipamentos empilhadas indicam claramente que a mineração de bitcoin agora é um empreendimento profissional e que estudantes minerando bitcoins inteiros em seus dormitórios logo serão coisa do passado. A CloudHashing está pronta para expandir suas operações. Fonte: cryptocoinsnews.com. Todos os direitos reservados.

Em relação à passagem da libra esterlina para o dólar dos EUA, a adoção sistemática do yuan chinês exigiria "cruzar o grande oceano" – uma expedição tão intimidadora que é improvável, em qualquer sentido simples, que ela ocorra. Superficialmente, as criptomoedas digitais estão situadas em um grau ainda mais distante de separação, alheias até aos pontos em comum que abrangem o abismo entre civilizações. E, ainda assim, elas são positivamente promovidas pela proximidade do iminente precipício monetário mundial, porque representam uma solução para a ausência de confiança.

A palavra "bitcoin" representa duas coisas muito diferentes (embora uma contenha a outra). Em seu uso estrito e exato, ela designa uma moeda específica, abreviada como BTC, que encarna um um sistema monetário radicalmente inovador, cujo projeto foi plenamente especificado no artigo "Bitcoin" de Satoshi Nakamoto em 2008.[3] A moeda se tornou operacional em 2009.

O artigo de 2008 é tanto uma invenção prática quanto uma contribuição substancial para a filosofia do dinheiro. Seu discernimento central é de que o dinheiro funciona como um sistema de racionamento, adquirindo valor ou aplicação a bens e serviços comercializáveis através de uma função de escassez. Se for para o dinheiro digital efetuar essa função, ele tem dois problemas interconectados para resolver. Ele tem que ser intrinsecamente limitado e tem que ser exclusivamente alienável.

O Bitcoin resolve o primeiro desses problemas ao emular um metal precioso. Ele é obtido através de um processo de mineração que requer trabalho criptográfico, a fim de acessar bitcoins de uma ‘reserva’ finita, liberados em estágios e somando, no total, 21 milhões de BTC. Preservar a finitude desse estoque monetário de bitcoins depende da solução para o segundo problema — o de ‘gasto duplo’. Considerado o principal obstáculo para a criação de um dinheiro digital, o problema do gasto duplo surge automaticamente em um meio que efetua transferências através de cópias. A menos que o dinheiro seja deduzido do pagador enquanto é creditado ao beneficiário, despesas que conservem o valor são impossíveis, e, contudo, essa simples operação — que vai na contramão da troca digital de informações — parecia exigir a introdução de um garantidor, ou parte externa confiável, que o sistema em si era incapaz de fornecer integralmente.

Equipamento privado de mineração. Fonte: bitcoinexaminer.org. Todos os direitos reservados.

Este é o avanço mais inconfundível do Bitcoin. Toda transação que ocorre dentro do sistema é incluída em um livro público sequencial, ou blockchain, que tem que ser atualizado como um todo para que qualquer troca seja registrada. O trabalho criptográfico da atividade mineradora do sistema agora adquire uma segunda função automática, a de validar cada iteração do blockchain e de defender o livro da usurpação por parte de agentes fraudulentos. O garantidor de cada transferência – preservadora de valor – ’em dinheiro’ é, portanto, todo o blockchain em si, operando como um mecanismo de confiança espontâneo ou independente de agentes. Através desse registro continuamente atualizado e integrado de todos os eventos comerciais, o blockchain sustenta um relato consistente da escassez sintética comunicável pela Internet, ou racionamento digital auto-regulado — em outras palavras, o primeiro sistema monetário eletrônico totalmente descentralizado do mundo. A escassez do Bitcoin é descentralizada devido a sua independência em relação às promessas de uma autoridade emissora.

Ao descrever esse sistema, passa-se muito rapidamente do singular para o genérico, de uma maneira que é facilmente entendida por analogia e digna de reflexão momentânea. Tivesse "Netscape" sido adotado como o nome de navegadores web em geral, certas confusões teriam certamente surgido. De maneira mais significativa, a questão "o Netscape sobreviverá?" teria sido fatalmente ambígua. Como a história real demonstrou, o Netscape nesse sentido contra-factual era tanto capaz de morrer quanto de florescer para além de qualquer expectativa anterior. Muitas centenas de milhões de pessoas usam um ‘Netscape’ todos os dias, embora sob outros nomes (gerais e específicos), ao passo que apenas uma fração extremamente pequena está ciente de que o Netscape jamais existiu. Não está claro se o Bitcoin, em seu sentido específico, jamais poderia ser inteiramente extinto, mas ele certamente poderia ser marginalizado para a borda da irrelevância: expulso do mercado por criptomoedas competitivas, através das quais o Bitcoin, no sentido geral, avança em direção à ubiquidade.

Em sua evocação mais ampla, o Bitcoin simboliza uma revolução crescente da Internet, de escala e profundidade que são difíceis de exagerar. A capacidade técnica exigida para operar o BTC — software instalado de sustentação para o blockchain — tem potencial para se estender muito além da moeda em si, e apenas uma fração muito pequena disso tem sido explorada até o momento. Isso é mais dramaticamente evidenciado no crescimento de altcoins, uma extensa ecologia de ramificações do bitcoin, ou sistemas de contrato P2P parecidos com o Bitcoin, marcadas pelo sufixo "-coin". Altcoins proeminentes incluem Darkcoin, Dogecoin, Litecoin, Namecoin e Truthcoin, com muitas outras a caminho. Na borda exterior da abstração do blockchain estão aplicações tais como o Ethereum, cuja linguagem de programação Turing-completa pode dar suporte a smart contracts e até mesmo agentes inteligentes autônomos. Neste ponto de sofisticação, a potencialidade últimas do sistema não são meramente subdeterminadas, mas indetermináveis em princípio, e o portal para um cosmos tecno-comercial previamente não visitado está aberto.

É essa extrema generalidade que Eli Dourado celebra em seu artigo "Bitcoin isn’t Money — It’s the Internet of Money" ("O Bitcoin não é Dinheiro — Ele é a Internet do Dinheiro", argumentando:

"O Bitcoin não é apenas um substituto para o dinheiro; ele pode ser uma forma de contratação generalizada, programável e descentralizada. […] A maior parte dos críticos do Bitcoin estão cometendo um erro categórico. Eles estão mirando na moeda do Bitcoin, quando, na verdade, o Bitcoin é muito mais que uma moeda, da mesma maneira que a Internet é muito mais do que os serviços de telecomunicação que a precederam. […] O Bitcoin é uma nova camada de transporte para finanças, que permite o desenvolvimento descentralizado, disruptivo e sem permissão[4] de aplicações em uma camada separada. Ele tem a capacidade de fazer pelas finanças o que a Internet fez pela comunicação."

Entre as facilidades embasadas no blockchain que Dourado vislumbra estão contratos de garantia, mercados de previsão e micropagamentos contínuos, além de um notário, identidades vinculadas e serviços de classificação de reputação. É fácil de ver porque ‘sacar’ o Bitcoin desencadeia algo similar a um choque metafísico. Como um depositário digital auto-suficiente de identidades legais, ele exibe — virtualmente — um potencial para absorver a infraestrutura cultural das transações formais sem limites óbvios. Talvez não exista nenhum ‘negócio’ concebível sem compatibilidade com o blockchain e, portanto, nenhum horizonte definitivo para sua utilidade comercial, legal ou mesmo política.

De particular relevância aqui é a inovação do blockchain da confiança artificial, frequentemente referido como ausência de confiança, uma vez que ela substitui a confiança e está, assim, pré-adaptada para um mundo no qual a confiança não está disponível.[5] Sob as condições atualmente iminentes, de uma transição hegemônica que ocorre para além do consenso internacional ou da continuidade civilizacional, essa característica profunda do Bitcoin parece certa de ser colocada em primeiro plano. Por uma coincidência aparentemente notável, uma ordem em colapso de promessas, ou de autoridades globais críveis, é acompanhada pela emergência de um sistema alternativo de credibilidade. Conforme os sustentáculos tradicionais da arquitetura institucional do mundo são sujeitados a uma erosão acelerante[6], o prêmio para uma funcionalidade sem confiança só pode aumentar. O Bitcoin se sugere como um substituto para autoridades garantidoras, ao passo em que abre visões inteiramente novas de criação institucional descentralizada. O contexto de fricção, disfunção e desacordo de um mundo em desordem hegemônica apenas reforça sua atração.

Em comparação com as transições suaves em supremacia econômica, das Províncias Unidas, para o Reino Unido, para os Estados Unidos, a passagem para além da ordem mundial americana só pode ser considerada dura. É essa dureza que molda a tomada, para a qual o Bitcoin — em seu sentido mais expansivo — é o plugue. A instalação de sistemas sem confiança se encaixa em um buraco no mundo.

Como o surgimento de tecnologias sem confiança na Internet modifica a paisagem estratégica das grande potências e dos outros principais atores mundiais? Em que medida suas respostas podem ser antecipadas? Apenas abordando essas questões é que alguma concretude pode ser introduzida em nosso entendimento do caminho adiante. Elas, portanto, fornecem o tópico para a terceira (e última) parte dessa série.


Notas:

[1] O mecanismo, descrito de maneira aproximada, é que os déficits crônicos exigidos para a distribuição internacional de uma moeda de reserva minam os fundamentos econômicos domésticos dos quais a credibilidade dessa mesma moeda inicialmente, e em última análise, depende. Esse mecanismo endógeno é afiado por rivalidades geoestratégicas e é ainda mais desestabilizado por fatores complicadores e parcialmente independentes, tais como as vicissitudes da convenção do petrodólar. Em combinação, seu efeito tem exibido uma direcionalidade clara nos tempos recentes, com a proporção de reservas estrangeiras internacionais mantidas em dólares dos EUA caindo de 55% para 33% desde 2000.

[2] A transição da liderança econômica mundial das Províncias Unidades para o Reino Unido foi institucionalmente facilitada pela integração transnacional de elites, coroada pela Revolução Gloriosa de 1688. A sucessão posterior dos Estados Unidos à preeminência econômica global envolveu um grau menos claramente formalizado, mas não obstante inconfundível de coordenação do regimes, construída em grande parte sobre a cooperação militar, administrativa e de inteligência forjada no crisol da Segunda Guerra Mundial. Inúmeros indicadores podem ser mencionados, incluindo até mesmo o fator dinástico da ancestralidade híbrida anglo-americana de Winston Churchill.

[3] A identidade de Satoshi Nakamoto permanece um tópico de especulação intensa, que excede os limites da atual discussão.

[4] Dourado cita o artigo de 2012 "Keep the Internet Open" ("Mantenha a Internet Aberta") de Vinton Cerf, onde a noção de "inovação sem permissão" desempenha um papel conceitual crucial.

[5] Pesquise a combinação "sem confiança + bitcoin" no Google para uma confirmação abundante.

[6] As autoridades monetárias são o exemplo mais relevante aqui, mas qualquer instituição dependente de alguma medida de confiança pública está, em princípio, suscetível a uma concorrência implícita com alternativas embasadas no blockchain (ou seja, sem confiança).


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China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial

Países emissores de moedas de reserva são constantemente confrontados com o dilema entre alcançar suas metas domésticas de política monetária e atender à demanda por moedas de reserva dos outros países. […] O Dilema de Triffin, isto é, os países emissores de moedas de reserva não conseguirem manter o valor das moedas de reserva enquanto fornecem liquidez para o mundo, ainda existe. —Zhou Xiaochaun

Chinese woman holding a gold bar

O que as tecnologias da energia à vapor foram para a época de dominância global britânica, e os desenvolvimentos de mão dupla da eletricidade e do automóvel para a subsequente Era Americana, a eletrônica digital — e, mais especificamente, a Internet — são para a "ascensão da China" e para o mundo remodelado que ela epitoma. É apenas de se esperar, portanto, que a intersecção entre a Nova China da Abertura-e-Reforma pós-1979 e a Internet possibilitada pela World Wide Web pós-1990 seja um objeto de particular fascínio internacional e de preocupações práticas.

Desde a aurora da época moderna, a hegemonia geopolítica tem sido associada cada vez mais intensamente à liderança tecno-econômica, o que, por sua vez, tem se refletido no status de reserva internacional de uma seleta moeda nacional. Uma ordem monetária mundial cada vez mais explicitamente formalizada tem convertido intuições convincentes, mas obscuras, de prestígio nacional relativo em uma sistema inequívoco de relações financeiras, no qual uma posição de supramacia é claramente estabelecida, com um papel definido e singular.

As suspeitas fomentadas pela liderança não são menos inevitáveis do que a liderança em si. Por razões históricas facilmente inteligíveis, o establishment político francês tem sido um crítico especialmente vociferante do status de reserva internacional e de seu "privilégio exorbitante"[1] de senhoragem — o ‘direito’ espontâneo de emitir papéis promissórios em troca de bens e serviços reais, sem qualquer prospecto definido de resgate. Pode haver pouca dúvida de que tal crítica articula preocupações amplamente mantidas para além do mundo anglófono, e sua substância merece uma exame sério.

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Dos blocos construtivos indispensávels para o futuro próximo, a China e a Internet têm uma proeminência especial. Há inúmeros lugares em que a China encontra a Web, começando com o crescimento expansivo, multidimensional e explosivo da Internet chinesa em si. O Bitcoin é um fio recente e ainda relativamente esguio na tapeçaria da mudança global, mas ao se puxar ele, algumas características centrais do mundo emergente podem ser colocadas em foco.

Em meio às características que o yuan chinês e o bitcoin compartilham é que nenhum deles é o dólar dos EUA. Especificamente, ambos são alternativas limitadas e, contudo, práticas, ao dólar, pelo menos no nível de tomada de decisão microeconômica. Quando se levantam questões sobre a durabilidade do papel internacional do dólar, pode-se prever com confiança que um ou ambos desses desafiantes será invocado. O dólar morrer por gelo ou fogo, hoje, é ele sucumbir a uma substituição geopolítica (pelo yuan chinês) ou a uma obsolescência tecno-financeira (por parte de alguma cripto-moeda descentralizada, embasada na Internet).

O status internacional do dólar dos EUA concentra duas tendência multi-seculares. Primeiramente, ele representa a peculiaridade etno-geográfica da modernidade, que – até o final do século XX, pelo menos – tendeu a inclinar o poder global não apenas na direção do Oeste ou Ocidente, mas mais especificamente em direção às nações do Atlântico Anglófono, reúnidas, em última análise, sob a liderança americana. Desde o declínio do dólar espanhol, que monetizou o tesouro do Novo Mundo como a primeira moeda global, as finanças internacionais têm sido principalmente denominadas na moeda de uma nação falante do inglês. Não coincidentemente, elas têm, assim, sido fortemente associada a um conjunto de temas culturais específicos, que incluem o cristianismo protestante (filo-semítico), a mão invisível, o livre comércio e a democracia liberal. A institucionalização das finanças mundiais tem estado intimamente conectada com a promoção de uma orientação cultural distinta – e, para muitos, uma que é distintamente questionável.

Em segundo lugar, a formalização de uma ordem monetária global tem sido acompanhada por uma politização incremental do dinheiro, ou seja, pela consolidação de uma política monetária como uma função central do governo. Com o estabelecimento dos bancos centrais e a desmetalização da moeda, a escassez intrínseca é substituída por uma "promessa de pagar" institucional, o que converte o dinheiro de um ativo tangível para uma responsabilidade contratual. A confiança pública no valor do dinheiro é convertida em uma responsabilidade governamental. Torna-se política, e – no contexto de uma moeda de reserva mundial – geopolítica.

Em combinação, essas tendências são inevitavemente provocativas, uma vez que concentram o destino financeiro do mundo em mãos seletas e identificavelmente não-representativas. Por trás da neutralidade estudada das instituições de Bretton Woods (o FMI e o Banco Mundial) está o dólar dos EUA como o símbolo de excepcionalismo americano e da pecualiaridade concreta da ordem mundial moderna.

Embora seja natural — e até mesmo inevitável — que o comando político da moeda de reserva internacional seja entendido como a pedra angular moderna da hegemonia geopolítica, esse não é um privilégio que se pode separar de penosas responsabilidades, ou de profundas ambiguidades. Estas foram claramente reconhecidas desde os anos 1960, quando o economista belga-americano Robert Triffin formulou o paradoxo ou dilema que leva seu nome: que se governos internacionais forem acumular reservas na moeda de uma nação selecionada, essa nação deve necessariamente ser uma exportadora líquida de dinheiro — o que só pode ser alcançado ao se operar com uma balança comercial negativa. Uma nação que emita uma moeda de reserva internacional assume a responsabilidade pela liquidez monetária global. Isso a obriga a consumir mais do que produz, a fim de que a diferença seja disponibilizada como dinheiro mundial. Embora esse requisito seja mera senhoriagem, visto pelo outro lado, a restrição que ele impõe às opções da política econômica doméstica são tão estritas que equivalem quase a um destino.

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Essas restrições são transformadas em um dilema destrutivo pelo fato de que a estrutura política obrigatória exigida para suprir o mundo de liquidez tende a destruir a confiança na moeda ao mesmo tempo, minando, portanto, o seu valor. Déficits crônicos na balança de pagamentos sinalizam fraqueza da moeda, pois normalmente seriam interpratados como um sinal de que a moeda está supervalorizada (ou que necessita de desvalorização). Para o emissor de uma moeda de reserva global, contudo, respostas políticas convencionais a essa situação estão bloqueada em ambas as direções, uma vez que ele não pode nem tomar medidas para fechar o déficit, tampouco tentar fortalecer a moeda através da elevação de taxas de juros. Uma vez que para o emissor de uma moeda de reserva o déficit comercial é uma constante, em vez de uma variável, uma desvalorização meramente incita uma competitiva destruição monetária mundial. Medidas de fortalecimento, por outro lado, trazem dinheiro do exterior (demonominado na moeda internacional) e, assim, expandem ainda mais a demanda por emissão, que só pode ser satisfeita com uma ampliação do déficit comercial.

Em outras palavras, o Dilema de Triffin reconhece que a demanda internacional por uma moeda de reserva é inerentemente paradoxal. O que se busca é a moeda como se ela não fosse suprida através de desequilíbrios comerciais crônicos, e, no entanto, esses mesmos desequilíbrios são o único canal através do qual ela pode de fato ser suprida.

A "Chimérica" exemplifica perfeitamente as características essenciais da situação. Os dois trilhões de dólares americanos de reservas da China correspondem a um excedente cumulativo na balança de pagamento precisamente da mesma soma, uma vez que isso é simplesmente o que são as reservas. Quando percebida de maneira apreciativa — o que era bem mais fácil nas décadas finais do século XX do que nas primeiras décadas do século XXI — a Chimérica tem sido um arranjo econômico complementar, através do quala América alcançou altos níveis de consumo acoplados a uma inflação de preços contida, ao passo em que a China realizou um desenvolvimento econômico orientado a exportações e à modernização revolucionária que a eludiu durante 150 anos. Para olhos mais invejosos, o mesmo arranjo é uma armadilha que casou a desindustrialização americana com a devastação ambiental chinesa, ao passo em que alimentava uma incontinência fiscal insustentável na América e uma bolha de investimentos chinesa. Qualquer das duas imagens que tenha maior realismo, provavelmente pode-se concluir com segurança que a dissimetria imposta por uma moeda de reserva internacional tem consequências extensas e ambíguas.

Cinicamente, seria possível argumentar que o aspecto tributário de um status de moeda de reserva é coincide perfeitamente com profundas tradições chinesas nas relações internacionais, de modo que uma ascenção ao privilégio exorbitante embasado no yuan seria uma meta geopolítica natural para o Reino do Meio, conforme ele restaurasse sua posição central no mundo. De maneira mais realista, contudo — pelo menos no curto prazo — é um reconhecimento de que a perda do controle sobre a política econômica doméstica é uma consequência inevitável e bem entendida da hegemonia monetária global, e uma que o governo chinês certamente achará inaceitável. Quaisquer que sejam os custos (primariamente ambientais) associados com o papel de "fábrica do mundo", eles são imensamente compensados, da perspectiva chinesa, pelas vantagens. É do lado tributário do resgistro da moeda internacional de reserva, no qual a China esteve por mais de quatro décadas, que todos os vetores cruciais de desenvolvimento são encontrados — absorção tecnológica, aprofundamento da infraestrutura, industrialização, urbanização, emprego e até mesmo capacidade militar.

Se a Chimérica está sendo demolida, isso tem bem menos a ver com qualquer tipo de desafio chinês — mesmo um que seja espontâneo e não intencional — do que com uma estrutura trágica inerente à hegemonia monetária. Assim como a hubris leva à nemesis, igualmente o privilégio monetário exorbitante leva à crise, e até mesmo à ruína. Nos antecedentes tanto espanhol quanto britânico, a supremacia financeira se tornou auto-derrotadora, porque exportar dinheiro (em vez de coisas) dava uma vantagem diferencial para competidores industriais, fixando o declínio social secular. Não há nenhuma razão convincente para se acreditar que a América tenha se isentado do mesmo padrão agourento.

Em 29 de março de 2009, na esteira da crise financeira, Zhou Xiaochaun, governador do Banco Popular da China, fez um importante discurso entitulado "Reform the International Monetary System" ("Reforme o Sistema Monetário Internacional", em tradução livre). Ele se referiu explicitamente ao Dilema de Triffin como a chave para se entender a instabilidade econômica do mundo, ao passo em que sugeria que uma mudança para além da hegemonia do dólar dos EUA seria, em última análise, necessária para remediá-la. A este respeito, sua palavras se conformaram a uma tradição que remonta a mais de meio século, até às negociações do Bretton Woods, quando John Maynard Keynes recomendou a introdução de um meio monetário global neutro — a ser chamado de bancor — que tornasse a oferta de liquidez global independente de moedas nacionais.

Historicamente, moedas de reserva internacional não surgiram de propósito. Seria possível argumentar, portanto, que o bancor keynesiano era um remendo tecnocrático irrealista, cego ao impulso espontâneo que já havia tornado o mundo dolarizado um fato não negociável, mesmo antes que os procedimentos de Bretton Woods tivessem começado. Isso não impediu que a mesma ideia básica reemergisse de formas diferentes, a mais proeminente das quais são os DESs (Direitos Especiais de Saque) do FMI, regularmente propostos como o embrião de uma moeda internacional neutra. Foi ainda para os DESs que Zhou se voltou quando buscava por um candidato para uma moeda mundial neutra.

Talvez alguma solução tecnocrática para o problema da hegemonia monetária venha ser finalmente encontrado, mas em caso positivo, ele marcaria um afastamento sem precedentes da história financeira mundial. Se, como tem sempre sido o caso até o momento, marés econômicas para além do controle político devam determinar tais resultados, é compreensível que a atenção deva flutuar em direção ao yuan chinês como eventual substituto para o dólar dos EUA. No entanto, as lições da história estão disponíveis para os formuladores de políticas, mesmo quando a lição mais insistente diz respeito a limitações à sua própria influência e, nesse caso, a principal delas é de que o prospecto de um yuan com status de reserva internacional apresenta à China um cálice envenenado. É muito improvável que ele seja aceito de bom grado.

Alguma evolução espontânea alternativa na natureza do dinheiro poderia levar esse dilema geopolítico crítico em uma nova direção? Tal evolução parece estar ocorrendo, simbolizada pelo bitcoin, o primeiro exemplo na história de uma cripto-moeda digital descentralizada. Para a China, o bitcoin — ou algo comparável a ele — poderia ser a única maneira de se evadir de uma suposição de privilégio econômico global cuja essência é uma ruinosa hubris.

Como o rei sagrado de James Frazer, que é coroado afim de ser sacrificado, o significado interior da hegemonia monetária é destruição econômica e social. A China estende isso bastente claramente e, conforme a era do dólar chegue a um fim, ela está buscando uma saída. É assim que a estória da China e do bitcoin realmente começa.


Notas

[1] Cunhado por Valéry Giscard d’Estaing, durante seu serviço como ministro de finanças francês na década de 1960. Vide: http://www.j-bradford-delong.net/movable_type/2005-3_archives/000397.html (acessado em 29 de abril de 2014).


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Bitcoin e Correntes

Doug Henwood, escrevendo no The Nation, explica as atrações do Bitcoin para a Direita:

Houve muitos outros relatos de roubos, fraudes e invasões, que os partidários do Bitcoin descartam como meras dores de crescimento. Mas sem nenhum regulador, sem nenhum depósito segurador e sem nenhum banco central, esse tipo de coisa é inevitável – é apenas sua má sorte. Introduza reguladores e esquemas de seguro, no entanto, e o Bitcoin perderá todo o seu anarco-charme.

Keynes certa vez chamou o ouro de "parte do aparato do conservadorismo" por seu apelo aos rentistas que amavam a austeridade porque ela preservava o valor de seus ativos. O Bitcoin serve a um objetivo igualmente totêmico para os cyber-libertários de hoje, que amam não apenas a ausência de estado dele enquanto dinheiro, mas também seu poder de sujeitar o sistema bancário institucional a "ruptura" (uma das palavras favoritas desse conjunto). E, como ouro, o Bitcoin é deflacionário. Há um limite de quantas bitcoins podem ser produzidas e fica mais difícil produzi-las ao longo do tempo até que esse limite seja atingido. Obviamente, novas criptomoedas podem surgir. Mas a existência do limite reflete as simpatias deflacionárias da mente libertária – em uma economia do Bitcoin, seria impossível criar dinheiro para aliviar uma depressão econômica. O que não seria dizer que apenas os libertários amam o Bitcoin.

Apesar dos cuidadosos sinais da distância política, não há nada de fora do normal na substância. Nos parágrafos subsequentes, Henwood escava um pouco mais fundo, preservando a mesma abertura equilibrada à informação. Ele até – momentaneamente – passa no derradeiro teste direitista de ideias, ao colapsar a epistemologia no mercado: “O Bitcoin não deixa de ter amigos em Wall Street. Gil Luria, da Wedbush Securities, o está acompanhando; ele descreve a volatilidade recente como "descoberta de preço estendida", que é uma maneira de dizer que ninguém sabe o que ele é, o que ele será ou o que ele vale. Sua empresa está vendendo sua pesquisa sobre o Bitcoin com pagamento em bitcoins”.

Sua descoberta inesperada, contudo, é um eleitorado esquerdista do Bitcoin, atraído pelas mesmas prioridades que podem tornar o ‘libertarianismo’ tão ideologicamente escorregadio enquanto categoria, mais obviamente: o potencial de “evasão à vigilância e policiamento estatais – que, na era pós-Snowden, não é nada a se desprezar”. Enquanto vasculhava em busca de trechos de histórias em uma ‘festa’ do Bitcoin em Nova York, ele se encanta ao encontrar a ‘Mistress Magpie’:

Uma marxista-feminista, dominatrix profissional com exercício na Grã-Bretanha … [e] uma defensora entusiasta do Bitcoin. Ela explica seu entusiasmo como tendo origem com sua profunda tecno-nerdisse, e acrescenta que o Bitcoin também é prático para alguém em sua linha de trabalho – o anonimato é importante, seja na vida real ou online. Ao contrário dos libertários, que vêem as criptomoedas como um possível portal para uma nova sociedade, a socialista na Mistress Magpie as vê como uma maneira de operar furtivamente sob o capitalismo, de uma maneira que poderia não ser necessária em uma sociedade socialista mais aberta.

Embora seja superficialmente tentador tirar sarro desse socialismo com características anarco-capitalistas, ele brilha em comparação com a funesta defesa da autoridade monetária fiduciária estatal com a qual Henwood – obedientemente – conclui o artigo.

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Bits e Peças

P2P ou não 2P, eis a questão

Conforme o dólar americano alcança profundezas de depreciação que teriam violentado a imaginação de Calígula, as pessoas têm buscado candidatas alternativas para uma moeda de reserva global. O problema é formidável. O Euro e o Yen japonês enfrentam calamidades próprias comparáveis (que misturam crises de débito e colapso demográfico), o Yuan chinês não é conversível, e os híbridos Direitos Especiais de Saque (DESs) do FMI meramente juntam um grupo de moedas fiduciárias com problemas sob um acrônimo tecnocrático.

Entusiastas dos metais preciosos têm uma opção óbvia, uma que já está sendo espontaneamente exercida. Ainda assim, embora números crescentes sem dúvida se agarrarão ao ouro e à prata enquanto botes salva-vidas financeiros, seu uso mais amplo enquanto moeda (em oposição a reservas de valor) é obstruído por uma gama intimidadora de problemas técnicos e políticos. Eles não são digitalmente transferíveis sem complicados instrumentos de mediação e permanecem expostos a um risco político extremo – crises financeiras foram regularmente acompanhadas por confiscos e controles direcionados a participações e transações privadas de metais preciosos.

Para superar tais problemas, um moeda precisaria ser estruturalmente imunizada contra as depredações de bancos centrais, compartilhar do viés deflacionário dos metais preciosos e participar plenamente da tendência técnica em direção à abstração matemática e à comunicabilidade eletrônica, ao passo em que também goze de forte proteção criptográfica contra fiscalização, expropriação e fraude. Surpreendentemente, tal moeda parece já existir. Seu nome é ‘Bitcoin’.

Os motores gêmeos e interativos da modernidade – comércio e tecnologia – se reúnem no Bitcoin com uma intensidade fusional sem precedentes. Essa é uma moeda que é simultaneamente um programa de computador de código aberto, inteiramente nativa do cyberespaço e uma inovação financeira, conduzindo um experimento em tempo real que é de uma só vez social, técnico e econômico. Construída sobre os fundamentos da criptografia de chave pública (PKE), ela cria uma rede aberta peer-to-peer – sem qualquer nó controlador ou gerenciamento discricionário humano – para sustentar um sistema monetário radicalmente descentralizado.

Originalmente inventada por Satoshi Nakamoto (cujo artigo de esboço pode ser encontrado aqui), o Bitcoin desconecta a confiança da autoridade. Em particular, ele é projetado para superar o problema do gasto duplo.

Uma vez que ‘bens’ digitais podem ser replicados a um custo próximo de zero, eles são economicamente definidos como ‘não-rivais’. Se você me vende um computador, ele agora é minha propriedade e não sua. Assim como com todos os bens rivais, a propriedade implica exclusão. Se você me vende um programa de computador, por outro lado, não há qualquer razão para assumir que você não manteve uma cópia para si, ou que o ‘mesmo’ programa não possa ser vendido a múltiplos compradores. Tais bens não-rivais apresentam diversas questões econômicas intrigantes, mas uma coisa está inteiramente clara: um dinheiro não-rival é uma impossibilidade. Sem escassez, ou troca exclusiva, a própria ideia de quantidade monetária perde qualquer sentido, assim como o valor monetário, gasto e investimento, e a escolha do consumidor.

O algoritmo do Bitcoin torna uma moeda digital rival e, assim, efetiva enquanto dinheiro, sem recurso a nenhuma autoridade administrativa. Ela o faz iniciando um ecologia automática ou espontânea, na qual os computadores na rede autenticam as trocas de Bitcoin como efeito colateral da ‘mineração’ de novas moedas. Nós ganham novas moedas, em uma taxa decrescente, ao resolver um enigma digital – acessível apenas a uma abordagem de força bruta computacionalmente intensiva – e, assim, exibir uma prova de trabalho. Este teste filtra o sistema contra intervenções maliciosas, ao estabelecer uma barreira praticamente intransponível para qualquer usuário que busque falsificar o registro de trocas. Discussões competentes podem ser encontradas aqui, aqui e (de maneira mais diversa) aqui.

Esse problema e essa solução estão muito longe de serem arbitrários. É precisamente porque as moedas fiduciárias existentes assumiram características não-rivais perturbadores que a preocupação com a depreciação da moeda alcançou tamanho tom de exasperação. Quando um banco central, no curso de operar uma política monetária tipicamente relaxada, pode simplesmente acelerar as impressoras ou (ainda pior) seu equivalente eletrônico, a integridade da oferta de dinheiro é devastada na raiz. O Bitcoin rigorosamente extirpa tal ruinosa discrição de seu sistema, ao instanciar uma teoria de dinheiro saudável enquanto experimento eletrônico precisa e publicamente definido.

Sem surpresa, o agregado monetário do Bitcoin é modelado sobre os metais preciosos, gerados por mineradores a partir de uma reserva global finita, com custos crescentes de extração. A recompensa pela mineração de moedas cai ao longo do tempo em uma taxa logarítmica (zenônica), em direção a um limite fracionariamente abaixo de 21000000 BTC. Cada Bitcoin pode ser subdividido até oito casas decimais, até um total de mais de dois quadrilhões (2100000000000000) de fragmentos, equivalente a 210000 ‘quanta’ de Bitcoin para cada uma das 10 bilhões de pessoas que compõem a população humana máxima antecipada da Terra. Um quantum de Bitcoin (0,00000001 BTC) é chamado de um ‘Satoshi’ (de Satoshi Nakamoto), embora emendas ao sistema, que permitam mais subdivisões em algum estágio futuro, não estejam excluídas. (Para o tamanho total da economia do Bitcoin olhe aqui.)

O Bitcoin é programado para a deflação ([de um tipo). Isto é uma fonte de deleite para os tipos do dinheiro forte, e de ultraje para aquelas no campo do dinheiro relaxado (inflacionário). Enquanto experimento, o grande mérito do Bitcoin é elevar esse antagonismo para além do nível da polêmica recíproca, até aquele de potencial evidência histórica – e escolha real. Austrolibertários há muito alegam que sistemas de dinheiro livre tendem à deflação e que o banco central encoraja a inflação como um mecanismo sorrateiro de expropriação econômica, com um efeito em última análise desastroso. Os keynesianos, em contraste, deploram a deflação como uma doença econômica que suprime o investimento produtivo e o emprego. Um teste empírico logo poderia ser possível.

Diversas outras questões, teóricas e práticas, se apresentam. No nível prático, tais questões se realizam através de volatilidade especulativa, adaptação institucional e desafios técnicos. Uma vez que toda a economia do Bitcoin continua muito pequena, mudanças relativamente modestas no comportamento econômico produzem oscilações selvagens no valor do BTC, incluindo picos como de bolhas, colapsos precipitados, hypes incontinentes e acusações extravagantes. Apesar da resiliência do algoritmo central, as instituições periféricas que sustentam a economia do Bitcoin permanecem vulneráveis a roubo, fraude e intervenções maliciosas. Como com qualquer experimento revolucionário, a trajetória de desenvolvimento do Bitcoin provavelmente será tumultuosa e altamente imprevisível.

As questões teóricas podem ser entretidas de maneira mais calma. A mais importante destas se relaciona à natureza essencial do dinheiro e seu futuro. O Bitcoin simula de maneira bem-sucedida as características significantes dos metais preciosos, de tal modo que sua substância pode ser descartada da equação monetária como escória irrelevante? Quão poderosas são as forças que levam à convergência monetária? As vantagens de primeiro movimento ‘prenderão’ o Bitcoin, às custas de alternativas posteriores? Ou sistemas monetários múltiplos – talvez cada vez mais heterogêneos – continuarão a co-existir? O Bitcoin é meramente um estágio em uma sequência aberta de sistemas monetários inovadores, ou ele captura as características essenciais do dinheiro de maneira bastante definitiva (deixando espaço apenas para melhorias incrementais ou ajustes)?

Defensores do status quo monetário poderiam insistir em mais uma linha de questionamento, mais escarnecedora: o Bitcoin é um beco sem saída, uma irrelevância ou uma fantasia libertária cipherpunk ilusória, a ser julgada eventualmente como algo similar a um boato? O que seria notar que, em última análise, as maiores questões serão políticas, e as discussões mais aquecidas já o são.

Os governos podem se dar ao luxo de tolerar moedas não geridas e autônomas? Veremos.

Original.