Soberania na Internet

Um declaração de importância geoestratégica imensa é notada pelo Wall Street Journal:

Na extensão de uma página na segunda-feira, o jornal porta-voz do Partido Comunista traçou a posição da China sobre como se deveria lidar com a Internet e sua infraestrutura em todo o globo.

A página apresentava entrevistas com cinco experts chineses, incluindo o chamado "pai" do Grande Firewall da China, Fan Binxing. O resultado: Eles acreditam que cada país deveria ter poder definitivo de determinar qual tráfego da Internet flui para dentro e para fora de seu território. É um conceito que a China denominou como "soberania na Internet" e, embora as opiniões de cada expert no artigo variasse, a mensagem central é que cada nação deveria ter o direito de governar a Internet como lhe aprouver.

A única previsão absolutamente segura nesse ponto: Vai ser complicado.

ADICIONADO: Certamente relacionado —

Concebida pelo Pentágono a fim de manter linhas de comunicação abertas depois de um ataque atômico, a Internet se tornou uma ameaça. A humanidade mais uma vez foi mais esperta que si mesma. Agora precisamos de confiança em nossa capacidade de encontrar uma maneira de neutralizar o inimigo.

(Boa sorte com isso.)

ADICIONADO: The Diplomat estranhamente minimiza o caráter defensivo da iniciativa.


Original.

China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial, Parte 2

Eu tenho muitos amigos que são programadores. Os programadores sempre foram tipo "Esses caras [do Bitcoin] são loucos".

E então, quase 100 por cento do tempo, eles sentam, leem o artigo, leem o código — demora umas duas semanas — e eles saem do outro lado. E eles ficam tipo: "Meu deus, é isso. Esse é o grande avanço. Essa é a coisa pela qual estivemos esperando. Ele resolveu todos os problemas. Quem quer que ele seja deveria ganhar o Prêmio Nobel — ele é um gênio. É isso! Essa é a rede de confiança distribuída que a Internet sempre precisou e nunca teve".

Então, um dos desafios é você pegar pessoas que não são programadores profissionais ou matemáticos e então esperar que elas entendam desde o início. E é intimidador. E então uma palavra é anexada a isso, como ‘moeda’ ou do que quer que você queira chamar isso, e aí as pessoas acham que é algo que não é. E você tem uma noção disso, mas é um conceito muito mais profundo do que moeda. É a ideia de confiança distribuída.

—Marc Andreessen (em conversa com Brian Fing)

Fotografia secreta do BTC Guild, o maior pool de mineração de Bitcoin e um dos mais antigos pools restantes de Bitcoin (crédito: Jakub Szypulka CC-BY)

Observou-se, na primeira parte dessa série de ensaios, que a ordem econômica do mundo está sendo radicalmente remoldada por duas transformações aproximadamente coincidentes de consequências estupendas: uma mudança secular da capacidade industrial, do Ocidente para o Oriente, e uma revolução baseada na Internet na natureza do dinheiro. Desses eventos, o primeiro já está profundamente estabelecido, e é reconhecido de maneira geral, ao passo que o último ainda está em um estágio inicial de emergência e, até o momento, é bem menos óbvio em suas implicações. A intersecção entre eles permanece profundamente obscura.

Um tópico que parece, tentadoramente, conectar esses fios históricos é a morte em perspectiva – ou pelo menos o rebaixamento radical – do dólar dos EUA. O Dilema de Triffin argumenta que qualquer moeda que alcance o status de reserva mundial tende, de maneira talvez irresistível, a se destruir.[1] O declínio econômico relativo da América parece pronto para exacerbar o ‘inverno’ desse grande ciclo. Do outro lado, o dólar é ameaçado pela emergência fragmentada de um sistema monetário não estatal totalmente sem precedentes, livre de todas as instituições familiares de gestão monetária. No horizonte histórico do dólar americano globalizado, o yuan chinês e o bitcoin estão obscuramente reunidos.

Abstratamente antecipada, essa ameaça gêmea se integra em um único evento de significância composta, mas previsões concretas podem facilmente se perder em suas novas complexidades. Por cerca de meio milênio, as transições na liderança econômica mundial foram suavizadas por afinidades culturais e colaboração estratégica íntima, dentro de uma tradição comercial protestante que compartilhava de uma língua comum, e de inimigos comuns, desde o final do século XVIII[2]. Nada comparável é concebível hoje, conforme a supremacia global americana é erodida em um contexto de intensa competição estratégica e marcada diferença entre civilizações.

Dentro de um dos armazéns na Islândia estão as plataformas de mineração da Cointerra, da KnCMiner e da recém-chegada spondoolies-tech. Esses equipamentos empilhadas indicam claramente que a mineração de bitcoin agora é um empreendimento profissional e que estudantes minerando bitcoins inteiros em seus dormitórios logo serão coisa do passado. A CloudHashing está pronta para expandir suas operações. Fonte: cryptocoinsnews.com. Todos os direitos reservados.

Em relação à passagem da libra esterlina para o dólar dos EUA, a adoção sistemática do yuan chinês exigiria "cruzar o grande oceano" – uma expedição tão intimidadora que é improvável, em qualquer sentido simples, que ela ocorra. Superficialmente, as criptomoedas digitais estão situadas em um grau ainda mais distante de separação, alheias até aos pontos em comum que abrangem o abismo entre civilizações. E, ainda assim, elas são positivamente promovidas pela proximidade do iminente precipício monetário mundial, porque representam uma solução para a ausência de confiança.

A palavra "bitcoin" representa duas coisas muito diferentes (embora uma contenha a outra). Em seu uso estrito e exato, ela designa uma moeda específica, abreviada como BTC, que encarna um um sistema monetário radicalmente inovador, cujo projeto foi plenamente especificado no artigo "Bitcoin" de Satoshi Nakamoto em 2008.[3] A moeda se tornou operacional em 2009.

O artigo de 2008 é tanto uma invenção prática quanto uma contribuição substancial para a filosofia do dinheiro. Seu discernimento central é de que o dinheiro funciona como um sistema de racionamento, adquirindo valor ou aplicação a bens e serviços comercializáveis através de uma função de escassez. Se for para o dinheiro digital efetuar essa função, ele tem dois problemas interconectados para resolver. Ele tem que ser intrinsecamente limitado e tem que ser exclusivamente alienável.

O Bitcoin resolve o primeiro desses problemas ao emular um metal precioso. Ele é obtido através de um processo de mineração que requer trabalho criptográfico, a fim de acessar bitcoins de uma ‘reserva’ finita, liberados em estágios e somando, no total, 21 milhões de BTC. Preservar a finitude desse estoque monetário de bitcoins depende da solução para o segundo problema — o de ‘gasto duplo’. Considerado o principal obstáculo para a criação de um dinheiro digital, o problema do gasto duplo surge automaticamente em um meio que efetua transferências através de cópias. A menos que o dinheiro seja deduzido do pagador enquanto é creditado ao beneficiário, despesas que conservem o valor são impossíveis, e, contudo, essa simples operação — que vai na contramão da troca digital de informações — parecia exigir a introdução de um garantidor, ou parte externa confiável, que o sistema em si era incapaz de fornecer integralmente.

Equipamento privado de mineração. Fonte: bitcoinexaminer.org. Todos os direitos reservados.

Este é o avanço mais inconfundível do Bitcoin. Toda transação que ocorre dentro do sistema é incluída em um livro público sequencial, ou blockchain, que tem que ser atualizado como um todo para que qualquer troca seja registrada. O trabalho criptográfico da atividade mineradora do sistema agora adquire uma segunda função automática, a de validar cada iteração do blockchain e de defender o livro da usurpação por parte de agentes fraudulentos. O garantidor de cada transferência – preservadora de valor – ’em dinheiro’ é, portanto, todo o blockchain em si, operando como um mecanismo de confiança espontâneo ou independente de agentes. Através desse registro continuamente atualizado e integrado de todos os eventos comerciais, o blockchain sustenta um relato consistente da escassez sintética comunicável pela Internet, ou racionamento digital auto-regulado — em outras palavras, o primeiro sistema monetário eletrônico totalmente descentralizado do mundo. A escassez do Bitcoin é descentralizada devido a sua independência em relação às promessas de uma autoridade emissora.

Ao descrever esse sistema, passa-se muito rapidamente do singular para o genérico, de uma maneira que é facilmente entendida por analogia e digna de reflexão momentânea. Tivesse "Netscape" sido adotado como o nome de navegadores web em geral, certas confusões teriam certamente surgido. De maneira mais significativa, a questão "o Netscape sobreviverá?" teria sido fatalmente ambígua. Como a história real demonstrou, o Netscape nesse sentido contra-factual era tanto capaz de morrer quanto de florescer para além de qualquer expectativa anterior. Muitas centenas de milhões de pessoas usam um ‘Netscape’ todos os dias, embora sob outros nomes (gerais e específicos), ao passo que apenas uma fração extremamente pequena está ciente de que o Netscape jamais existiu. Não está claro se o Bitcoin, em seu sentido específico, jamais poderia ser inteiramente extinto, mas ele certamente poderia ser marginalizado para a borda da irrelevância: expulso do mercado por criptomoedas competitivas, através das quais o Bitcoin, no sentido geral, avança em direção à ubiquidade.

Em sua evocação mais ampla, o Bitcoin simboliza uma revolução crescente da Internet, de escala e profundidade que são difíceis de exagerar. A capacidade técnica exigida para operar o BTC — software instalado de sustentação para o blockchain — tem potencial para se estender muito além da moeda em si, e apenas uma fração muito pequena disso tem sido explorada até o momento. Isso é mais dramaticamente evidenciado no crescimento de altcoins, uma extensa ecologia de ramificações do bitcoin, ou sistemas de contrato P2P parecidos com o Bitcoin, marcadas pelo sufixo "-coin". Altcoins proeminentes incluem Darkcoin, Dogecoin, Litecoin, Namecoin e Truthcoin, com muitas outras a caminho. Na borda exterior da abstração do blockchain estão aplicações tais como o Ethereum, cuja linguagem de programação Turing-completa pode dar suporte a smart contracts e até mesmo agentes inteligentes autônomos. Neste ponto de sofisticação, a potencialidade últimas do sistema não são meramente subdeterminadas, mas indetermináveis em princípio, e o portal para um cosmos tecno-comercial previamente não visitado está aberto.

É essa extrema generalidade que Eli Dourado celebra em seu artigo "Bitcoin isn’t Money — It’s the Internet of Money" ("O Bitcoin não é Dinheiro — Ele é a Internet do Dinheiro", argumentando:

"O Bitcoin não é apenas um substituto para o dinheiro; ele pode ser uma forma de contratação generalizada, programável e descentralizada. […] A maior parte dos críticos do Bitcoin estão cometendo um erro categórico. Eles estão mirando na moeda do Bitcoin, quando, na verdade, o Bitcoin é muito mais que uma moeda, da mesma maneira que a Internet é muito mais do que os serviços de telecomunicação que a precederam. […] O Bitcoin é uma nova camada de transporte para finanças, que permite o desenvolvimento descentralizado, disruptivo e sem permissão[4] de aplicações em uma camada separada. Ele tem a capacidade de fazer pelas finanças o que a Internet fez pela comunicação."

Entre as facilidades embasadas no blockchain que Dourado vislumbra estão contratos de garantia, mercados de previsão e micropagamentos contínuos, além de um notário, identidades vinculadas e serviços de classificação de reputação. É fácil de ver porque ‘sacar’ o Bitcoin desencadeia algo similar a um choque metafísico. Como um depositário digital auto-suficiente de identidades legais, ele exibe — virtualmente — um potencial para absorver a infraestrutura cultural das transações formais sem limites óbvios. Talvez não exista nenhum ‘negócio’ concebível sem compatibilidade com o blockchain e, portanto, nenhum horizonte definitivo para sua utilidade comercial, legal ou mesmo política.

De particular relevância aqui é a inovação do blockchain da confiança artificial, frequentemente referido como ausência de confiança, uma vez que ela substitui a confiança e está, assim, pré-adaptada para um mundo no qual a confiança não está disponível.[5] Sob as condições atualmente iminentes, de uma transição hegemônica que ocorre para além do consenso internacional ou da continuidade civilizacional, essa característica profunda do Bitcoin parece certa de ser colocada em primeiro plano. Por uma coincidência aparentemente notável, uma ordem em colapso de promessas, ou de autoridades globais críveis, é acompanhada pela emergência de um sistema alternativo de credibilidade. Conforme os sustentáculos tradicionais da arquitetura institucional do mundo são sujeitados a uma erosão acelerante[6], o prêmio para uma funcionalidade sem confiança só pode aumentar. O Bitcoin se sugere como um substituto para autoridades garantidoras, ao passo em que abre visões inteiramente novas de criação institucional descentralizada. O contexto de fricção, disfunção e desacordo de um mundo em desordem hegemônica apenas reforça sua atração.

Em comparação com as transições suaves em supremacia econômica, das Províncias Unidas, para o Reino Unido, para os Estados Unidos, a passagem para além da ordem mundial americana só pode ser considerada dura. É essa dureza que molda a tomada, para a qual o Bitcoin — em seu sentido mais expansivo — é o plugue. A instalação de sistemas sem confiança se encaixa em um buraco no mundo.

Como o surgimento de tecnologias sem confiança na Internet modifica a paisagem estratégica das grande potências e dos outros principais atores mundiais? Em que medida suas respostas podem ser antecipadas? Apenas abordando essas questões é que alguma concretude pode ser introduzida em nosso entendimento do caminho adiante. Elas, portanto, fornecem o tópico para a terceira (e última) parte dessa série.


Notas:

[1] O mecanismo, descrito de maneira aproximada, é que os déficits crônicos exigidos para a distribuição internacional de uma moeda de reserva minam os fundamentos econômicos domésticos dos quais a credibilidade dessa mesma moeda inicialmente, e em última análise, depende. Esse mecanismo endógeno é afiado por rivalidades geoestratégicas e é ainda mais desestabilizado por fatores complicadores e parcialmente independentes, tais como as vicissitudes da convenção do petrodólar. Em combinação, seu efeito tem exibido uma direcionalidade clara nos tempos recentes, com a proporção de reservas estrangeiras internacionais mantidas em dólares dos EUA caindo de 55% para 33% desde 2000.

[2] A transição da liderança econômica mundial das Províncias Unidades para o Reino Unido foi institucionalmente facilitada pela integração transnacional de elites, coroada pela Revolução Gloriosa de 1688. A sucessão posterior dos Estados Unidos à preeminência econômica global envolveu um grau menos claramente formalizado, mas não obstante inconfundível de coordenação do regimes, construída em grande parte sobre a cooperação militar, administrativa e de inteligência forjada no crisol da Segunda Guerra Mundial. Inúmeros indicadores podem ser mencionados, incluindo até mesmo o fator dinástico da ancestralidade híbrida anglo-americana de Winston Churchill.

[3] A identidade de Satoshi Nakamoto permanece um tópico de especulação intensa, que excede os limites da atual discussão.

[4] Dourado cita o artigo de 2012 "Keep the Internet Open" ("Mantenha a Internet Aberta") de Vinton Cerf, onde a noção de "inovação sem permissão" desempenha um papel conceitual crucial.

[5] Pesquise a combinação "sem confiança + bitcoin" no Google para uma confirmação abundante.

[6] As autoridades monetárias são o exemplo mais relevante aqui, mas qualquer instituição dependente de alguma medida de confiança pública está, em princípio, suscetível a uma concorrência implícita com alternativas embasadas no blockchain (ou seja, sem confiança).


Original.

Observe esse espaço

shanzhai 0

Hacked Matter sobre a próxima onda de eletrônicos shanzhai:

O Ciberespaço, tanto como palavra quanto como visão, entrou no léxico popular através do romance cyberpunk Neuromancer de William Gibson em 1984. Mas, como se vê, Gibson não estava interessado na Internet até que começou a comprar relógios no Ebay. Em um artigo de 1999 na Wired, ele detalha seu vício compulsivo em fazer ofertas por relógios mecânicos antigos — o que Gibson chama de "finos fósseis de uma era pré-digital". Mal sabia Gibson que, trinta anos depois de Neuromancer, relógios e o ciberespaço se fundiriam — não apenas porque agora é comum comprar relógios online, mas também graças aos "smart watches" que devem se tornar o mais recente portal para o ciberespaço.


Original.

Alibaba

O Wall Street Journal produziu uma introdução excelente e cheia de gráficos à gigante chinesa do e-commerce, que conduziu US$240 bilhões em negócios online em 2013 (mais do que a Amazon e o E-Bay combinados). A definição informal no início explica porque você deveria se importar:

A Alibaba é maior empresa de comércio online da China – e, por algumas métricas, do mundo. Seus três principais sites – Taobao, Tmall e Alibaba.com – têm centenas de milhões de usuários e hospedam milhões de comerciantes e negócios. A Alibaba lida com mais negócios do que qualquer outra empresa de comércio eletrônico.

Espera-se que o IPO da Alibaba o valorize entre US$150 e 250 bilhões (colocando-a entre as dez empresas de tecnologia mais valiosas do mundo). A rapidez da mudança neste setor é difícil de compreender. Espera-se que o mercado de e-commerce chinês, hoje em US$300 bilhões, exceda US$700 bilhões em 2017.

ADICIONADO: Alguns antecedentes sobre o relacionamento Alibaba-Yahoo.

Original.

Promovida pela PPC

Ilusões monetárias têm sido algo como uma obsessão aqui recentemente (por exemplo. Como exemplo de quanta diferença elas podem fazer, a ordem econômica do mundo, que é confortavelmente dominada pelos Estados Unidos em taxas de câmbio internacionais, está à beira de sua maior transição em meio milênio se a contabilidade for conduzida de acordo com a PPC.

Do Bloomberg:

A China está pronta para ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo, enquanto a Índia saltou para o terceiro lugar, à frente do Japão, usando cálculos que levam em consideração as taxas de câmbio.

A economia da China era 87 por cento do tamanho da dos E.U.A. em 2011, avaliada de acordo com a chamada paridade do poder de compra, O Programa Internacional de Comparação disse em comunicado ontem em Washington. O programa, que envolve organizações como o Banco Mundial e as Nações Unidas, colocou o número em 43% em 2005.

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 6)

Contagem Regressiva

No começo do século XXI, a hegemonia cultural global está em movimento. Por cerca de 500 anos, as sociedades e agências ocidentais — e, mais tarde, mais especificamente as anglófonas — guiaram de maneira predominante o desenvolvimento do atual sistema mundial. Conforme sua preeminência econômica míngua, pode-se esperar que sua influência cultural e política sofra um declínio comparável. Nos estágios iniciais da transição por vir, contudo, a forma terminal da hegemonia cultural ocidental – o politicamente correto multicultural (PCM) – está bem posicionada para gerir os termos do recuo. Ao reconfigurar os temas religiosos e políticos ocidentais básicos enquanto uma sensibilização ao privilégio imerecido, o PCM é capaz de se distanciar de sua própria herança e continuar a viver, no ressentimento do ‘outro’, como se fosse o juiz neutro de disputas nas quais não tem nenhuma parte.

Quando o PCM volta sua atenção ao calendário gregoriano (ou cristão ocidental), ele fica chocado, é claro. Mas também está preso. O que poderia ser mais insensível à diversidade cultural do que um sistema ecumênico de contagem da data, enraizado nas peculiaridades étnicas da religião abraâmica em sua fase grega, que celebra seu triunfo, sem pedir desculpas, nas intransigentes palavras Anno Domini? E, no entanto, a convergência global exige um padrão, nenhum calendário alternativo tem reivindicações superiores de neutralidade e, em todo caso, o rolo compressor inercial dos sistemas complexos em larga escala – ‘aprisionamento’ ou ‘dependência de caminho’ – apresenta barreiras para a mudança que parecem efetivamente insuperáveis. A solução proposta pelo PCM para esse dilema é tão fraca que equivale à conclusão do Domínio Calêndrico gregoriano, que deve ser simultaneamente reformulado (educadamente) e reconhecido em sua universalidade irresistível como a articulação de uma ‘Era Comum’.

O PCM suplanta problemas de poder cultural com uma etiqueta ofuscante e, em termos absolutos, sua desonestidade presunçosa é difícil de gostar. Enquanto fenômeno relativo, contudo, seu apelo é mais óbvio, uma vez que as ‘soluções’ radicais para o Domínio Calêndrico gregoriano, recomeçando no Ano Zero, em geral se reverteram em assassinato em massa. Carecendo de reivindicações persuasivas de uma quebra histórica nova, fundamental e universalmente reconhecida, elas substituíram por terror uma verdadeira singularidade global, como se o destino pudesse ser apagado com sangue.

Uma vez que o ressentimento não chega a lugar nenhum, seja em suas variantes branda (PCM) ou severa (campos de execução), vale a pena entreter possibilidades alternativas. Estas começam com uma atenção às reais diferenças culturais, ao invés da mera ‘diversidade cultural’ conforme ela se apresenta à mente vazia processada pelo PCM. Logo após Shanghai ter sido selecionada como cidade hóspede da Expo Mundial 2010 (em dezembro de 2002), as contagens regressivas começaram. Para os ocidentais, elas provavelmente tinham associações com a era espacial, despertando memórias das contagens regressivas para a ‘decolagem’ que foram popularizadas pelo Programa Apolo e pelas mídias de ficção científica subsequentes. Está longe de ser impossível que os chineses compartilhassem dessas evocações, embora eles também fossem capazes de acessar um reservatório de referência muito mais profundo – o que seria dizer civilizacionalmente fundamental. Isso é porque o tempo chinês tipicamente conta regressivamente, modelado como é no funcionamento de relógios d’água. A língua chinesa sistematicamente descreve antes como ‘acima’ (shang) e próximo como ‘abaixo’ (xia), conformando-se a uma intuição do tempo enquanto descida. O tempo é contado regressivamente conforme corre para fora, de um corpo hidráulico elevado para dentro do futuro afundado que o recebe.

A duração não apenas flui, ela pinga. Talvez, então, uma ‘orientalização’ da percepção e da organização calêndrica seja algo que excede significativamente uma simples (ou mesmo extremamente difícil) renegociação de começos. Recomeçar poderia ser considerado largamente irrelevante para o problema, pelo menos quando comparado à reorientação de um Ano Zero original para um terminal. Embora não seja exatamente uma transição na direção do tempo, tal mudança envolveria uma transição na direção da intuição do tempo, simultaneamente ultrapassando as mais selvagens ambições de re-originação calêndrica e sutilmente se organizando ‘dentro dos poros’ da ordem temporal estabelecida. Conforme modelada pela Expo 2010 e, antes, pelo Y2K, a mudança para o tempo regressivo não desafia frontalmente, tampouco busca substituir diretamente a ordem calêndrica no ser. Em vez de contar da mesma maneira, a partir de um lugar diferente, ela conta de uma maneira diferente, dentro do enquadramento temporal já existente. É uma revolução com ‘características chineses’, o que seria dizer: uma insurgência furtiva, que muda o que algo já era, em vez de substituí-lo por alguma outra coisa.

Tanto a Expo 2010 quanto o Y2K também revelam a extrema dificuldade de qualquer transição dessas, uma vez que um Ano Zero futural, um calendário regressivo, tem que navegar a seta do tempo e sua assimetria cognitiva (entre o conhecimento do passado e do futuro), pressupondo uma previsão exata, confiante e consensual.

É por isso que ela se aproxima tanto de uma aceitação conservadora. Se a contagem regressiva tem que estar certa de chegar no término agendado, o ‘evento’ de destino deve já ser uma data (em vez de um ‘acontecimento’ empírico). Nada será suficiente além de uma inevitabilidade aritmética e rigorosamente certa, tão inescapavelmente predestinada quanto o ano 2000, ou 2010, que não podem deixar de chegar. Da perspectiva do calendário regressivo, é para isso que o Domínio Calêndrico (gregoriano) terá servido. É uma oportunidade para se programar uma chegada inevitável.

Mas quando? A pura passagem (queda) do tempo garantiu que a oportunidade para a revolução calêndrica apresentada pelo ‘bug do milênio’ no Y2K tenha sido irrecuperavelmente perdida (de modo que 1900 AD ≠ 0). O mesmo é verdadeiro sobre a Expo Mundial de 2010, um evento sem a pretensão de ser qualquer coisa além de um modelo ‘prático’ em miniatura da singularidade global-temporal. Quanto à verdadeira Singularidade (tecno-comercial) – esta é uma previsão histórica imprecisa, de uma só vez controversa e incapaz de suportar uma previsão exata.

Um prospecto mais apropriado é sugerido pelo escrito de ficção científica Greg Bear, em seu romance Queen of Angels, situado na expectativa do ‘milênio binário’ (2048 = 2¹¹) no meio do século XXI. Este é um ‘evento’ formalmente apropriado, puramente calêndrico, que deriva sua significância da aritmética, em vez da ideologia ou de uma profecia incerta. Ele até mesmo o vislumbra como um momento de revolução insurgente, quando a inteligência artificial surge furtivamente e sem ser notada. Ainda assim, a arbitrariedade prejudica essa data (por quê a 11ª potência de 2?) e nenhuma tentativa séria é feita para se explicar sua elevação à uma preeminência cultural excepcional.

Se uma cultura global ajustada convergir em uma data de contagem regressiva, ela deve ser óbvia, intrinsecamente persuasiva e ideologicamente incontroversa, em outras palavras, espontaneamente plausível. O alvo que a Expo Mundial de 2010 sugere (anagramaticamente) é 2100 AD, uma data que desempenha os estágios finais de uma contagem regressiva (2, 1, 0…). Reforçando esta indicação, o ‘bug do milênio’ do Y2K ameaçava redefinir a data de 2000 AD para 1900 AD, o que teria tacitamente se reiterado no fim exato do século XXI. Se ele continuar a tagarelar sobre o calendário, talvez seja assim a maneira.

O iminente Apocalipse Maia, agendado para 21 / 12/ 2012, ofereceu uma chance preliminar para se saciar de um festival de números de contagem regressiva – assim como 2010, ele se parece muito como mais uma simulação da singularidade digital. Se a manhã de 22 de dezembro de 2012 não deixou para o mundo nada pior do que uma ressaca, ele pode gradualmente se resolver por um novo sentido dos Anos Restantes (no fim de todo o tempo que conta, ou o século XXI).

2100 AD = 0 AR

2099 AD = 1 AR

2098 AD = 2 AR

2096 AD = 4 AR

2092 AD = 8 AR

2084 AD = 16 AR

2068 AD = 32 AR

2036 AD = 64 AR

1972 AD = 128 AR

1844 AD = 256 AR

1588 AD = 512 AR

1076 AD = 1024 AR

52 AD = 2048 AR

É difícil antecipar com o que isso se parece do outro lado.

Original.

Reino do Tripé

A ascensão da China e o futuro da trêstandade

De acordo com Arvind Subramanian, até mesmo projeções conservadoras das tendências comparativas de crescimento colocam a China em uma posição global, por volta de 2030, que é surpreendentemente similar àquela da Grã-Bretanha e da América em seus respectivos momentos de predominância econômica, sendo responsável por uma parcela da economia mundial de cerca de 150% do tamanho de seu rival mais próximo. Se isso viesse a acontecer, tal liderança invocaria uma ‘hegemonia’ como questão de puro fato quantitativo – bastante independentemente de intenções explícitas. O ‘modelo chinês’ promoveria a si mesmo, mesmo na completa ausência de reforço político e diplomático, e o poder magnético da cultura chinesa continuaria a se fortalecer em proporção aproximada à sua influência comercial. A China se tornaria o objeto de uma atração irresistível – contrabalanceada, sem dúvida, por ressentimentos – e seu exemplo queimaria incandescente, mesmo nos olhos ofendidos de seus detratores. Então, qual é esse ‘exemplo’?

Ao explorar essa questão, um lugar para se começar é a história da hegemonia econômica e, em particular, aquela instanciada pelas potências anglo-americanas ao longo de seus dois ‘longos séculos’ de supremacia global. Este é um tópico perseguido com excepcional discernimento por Walter Russell Mead, mais notavelmente em sua obra God and Gold: Britain, America, and the Making of the Modern World.

Mead localiza a chave da hegemonia da ‘anglosfera’ no ‘meme dourado’ da mão invisível, que se origina na ideia religiosa da providência e foi modernizado na mecânica celestial newtoniana, na economia política smithiana e na biologia evolutiva darwiniana. Em sua forma mais abstrata, essa ideia é tanto uma afirmação quanto uma renúncia, com sua potência e maleabilidade derivando de ambas. Reconhecer a mão invisível é fomentar um tipo especial de fatalismo positivo, confiando na tendência espontânea da história, que é abraçada como um pacto e uma eleição (no sentido teológico) explícita ou implícita. Tais temas são, sem disfarces, religiosos, e Mead não faz nada para obscurecer suas raízes na tradição, ou meta-tradição, abraâmica, que estabelece uma visão providencial da histórica enquanto finita, progressiva e inevitável, tendendo inexoravelmente à conclusão escatológica, estruturada por uma lei sobre-humana e (através de sua predestinação divina) facilitando a função da profecia.

A cultura profunda da anglosfera não é apenas genericamente abraâmica, contudo, ela é também especificamente pluralista. A mão invisível toma o centro do palco porque o centro é, de outra forma, desocupado ou distribuído. A providência esotérica suplanta a soberania exotérica porque uma incapacidade de se chegar a um acordo é eventualmente institucionalizada – ou pelo menos estabilizada de maneira informal – em um equilíbrio triangular de poder.

O que os britânicos fizeram, em última análise, foi confiar no que Burke chamou de “convenção”. Escritura, tradição e razão – cada uma tinha seu lugar e cada uma tinha seus devotos. Mas todas elas devam errado se você as pressionasse demais. Você deveria respeitar as escrituras e se submeter a elas, mas não interpretar as escrituras de uma maneira que lhe levasse a algum secto milenar esquisito ou até um comportamento social absurdo. Você honrava a tradição, mas não a pressionava tanto que lhe levasse aos braços do absolutismo real ou ao poder papal. Você pode e deve empregar a crítica da razão contra os excessos tanto da escritura quanto da tradição, mas não pressionar a razão ao ponto onde você se queixasse de todas as instituições existentes, comesse raízes e latisse por sua saúde ou, pior, minasse os direitos de propriedade e a igreja estabelecida. Pode-se imaginar John Bull coçando sua cabeça e lentamente concluindo que se deve aceitar que, na sociedade, haverão loucos da bíblia, loucos da tradição e loucos da razão – fundamentalistas, papistas e radicais. Isso não é necessariamente o fim do mundo. Em algum grau, eles se cancelam uns aos outros – os fanáticos fundamentalistas reprimirão os papistas e vice-versa, e os religiosos manterão os radicais em seu lugar – mas a concorrência entre sectos também impedirá que a igreja estabelecida pressione sua vantagem longe demais e que ela forme uma ideia por demais exaltada sobre a estatura, prestígio e emolumentos apropriados ao clero. [p. 223]

A hegemonia cultural se segue de uma fatalização semi-deliberada, conforme o centro soberano é deslocado por um processo social substancialmente automatizado que nenhum agente social é capaz de dominar ou impedir inteiramente. Cada facção principal recua para sua posição no triângulo, a partir da qual ela pode se engajar estrategicamente com as outras, mas nunca dominá-las completamente ou erradicá-las. O triângulo como um todo constitui um motor social e histórico, sem representação adequada em qualquer ponto identificável.

O pluralismo, mesmo ao custo da consistência racional, é necessário em um mundo de mudança. Forças e valores compensatórios devem competir. Razão, escritura, tradição: todas elas tem seus usos, mas nenhuma delas, sem controle, irá longe demais. Além disso, sem disputas constantes, controvérsia constante, concorrência constante entre ideias rivais sobre qual aparência a sociedade deveria ter e o que ela deveria fazer, o passo da inovação e da mudança provavelmente se desaceleraria, conforme as forças da inércia conservadora ficassem presunçosas e incontestas. [p. 212-2]

Este blog já tocou anteriormente na Singlosfera, onde aspectos das culturas anglófona e chinesa convergem na aceitação liberal manchesteriana / taoista da ordem espontânea, ou laissez-faire. Essa convergência se estende ao pluralismo triádico e se aplica ao núcleo sinosférico da China continental? A análise de Mead é altamente sugestiva em ambos os aspectos.

Em primeiro lugar, ela encoraja uma considerável equanimidade em relação à esperada transição global, mesmo quando a atenção se foca no coração político e ideológico da China contemporânea. Poderia parece, superficialmente, que a passagem de uma cultural mundial dominante dominada por atitudes cristãs tácitas para uma em que ideias sino-marxistas pouco familiares se elevam a uma proeminência internacional sem precedentes deve ser caracterizada por uma descontinuidade imensa – mesmo semi-absoluta. Um salto desse pode ocorrer sem se sucumbir a um choque cultural catastrófico e a uma fricção intratável? Quando examinado de uma perspectiva mais ampla, contudo, tal alarmismo é bem menos do que totalmente garantido.

Para melhor ou para pior, a abrangente continuidade cultural da mudança vindoura é garantida pelo profundo parentesco que liga o marxismo à ampla família de sistemas de crença abraâmicos. Teologicamente enraizado no engajamento dialético com a espiritualidade judaico-cristã, iniciado por Hegel e Feuerbach, o quadro básico do pensamento marxista perturba apenas trivialmente a estrutura da histórica profética, escatológica, redentora e providencial. Suas expectativas milenares não são mais aterrorizantes, suas certeza proféticas não mais irracionais, sua submissão às leis de ferro da história não mais restritivas e seu entusiamo moral não mais zeloso ou impraticável do que aquelas dos apocalipticismos judaico ou cristão antes dele.

O espectro de um ressurgimento totalitário marxista na China é tão realista quanto o medo de um golpe teocrático nos Estados Unidos da América, o que seria dizer, não tem qualquer realidade que seja. Em ambos os casos, maturidade, pluralismo e tradições estabelecidas protegem contra o domínio da sociedade por parte de qualquer facção intolerante em particular. É desnecessário ser cristão ou marxista para reconhecer o contínuo ímpeto histórico-mundial de uma meta-narrativa abraâmica ampla, ou para aceitar a consistência de tal narrativização social em larga escala com a regeneração perpétua do ímpeto prático, ou para ver uma solução social estabelecida e espontaneamente improvisada – e encarnação do conservadorismo dinâmico – no duradouro impasse triangular entre as escrituras marxistas, as tradições institucionais do Partido Comunista e o radicalismo de mercado na China de hoje. Assim como com o pluralismo anglosférico de Mead, as limitações recíprocas que cada uma dessa facções impõe às outras inevitavelmente desapontarão muitos, mas não há razão para que elas horrorizem ninguém.

Na medida em que Mead estiver correto em identificar a hegemonia anglosférica com o reino do tripé, ou seja, com a realização sócio-cultural do pluralismo (enquanto estabilidade dinâmica triangular), o potencial disruptivo da liderança chinesa emergente deveria ser considerado massivamente descontado, porque o tripé é um nativo chinês. Todo templo no país está equipado com um queimador de incenso com três pés, toda coleção de bronze em museus é dominada por caldeirões de três pernas, e cada um desses tripés tem um significado cultural definido e explicitamente conceitual. Isso não é apenas embasado na óbvia verdade intuitiva e prática de que o modelo mais simples de estabilidade vêm do tripé, mas também de um reconhecimento de que o impasse triangular exemplifica o dinamismo sustentável em sua forma elementar, desintegrando o universo em possibilidade estratégica.

Para a elaboração literária desse tema, é necessário apenas se voltar ao Romance dos Três Reinos, talvez o mais amplamente lido dos quatro grandes romances clássicos da China. Sua instanciação mais conspícua enquanto entretenimento popular é visto no jogo de pedra, papel e tesoura, que remonta (pelo menos) à dinastia chinesa Han (206A.C. – 220 D.C.), quando era conhecido como shoushiling.

A expressão última da estabilidade dinâmica triangular, não apenas na China, mas mundialmente, sem dúvidas é apresentada pelo Clássico das Mutações, o Yi Jing ou Zhouyi. É sobre esta obra de gênio singular e inumano, no qual a pura aritmética fala mais puramente do que jamais o fez antes ou depois, que todos os bronzes cerimoniais, lutais literárias e jogos infantis da China convergem.

No sistema numérico do Yi Jing, o tripé encontra uma fonte mais básica do que a meta-tradição abraâmica pode fornecer, independente de quão trinitária esta última tenha se tornado. Isto é porque, neste ur-estrato cultural chinês, a unidade não figura como uma unidade original, subsequentemente desintegrada em um triângulo teológico, dialético ou sociopolítico, mas é, ao contrário, derivada. Como o comentário confucionista explica: “O número 3 foi atribuído ao céu, 2 à terra, e desses vieram os (outros) números”. No princípio eram os números – dispersão primordial.

A ‘língua’ do tripé encontra sua expressão mais conveniente no trigrama, cujas três linhas constituem uma unidade elementar. Para se compreender o Yi Jing enquanto modelo aritmético completo de tríade dinâmica, contudo, é necessário proceder imediatamente para a estrutura do hexagrama.

Apreendido em operação, o Yi Jing não é apenas um sistema aritmético binário (como Leibniz o interpretou), mas uma conjunção bino-decimal. Isto é demonstrado pelo fato de que ele sistematicamente recompensa a aplicação da redução digital decimal, e revela seu padrão dinâmico apenas sob estas condições. (Isto poderia, bastante razoavelmente, ser considerado uma sugestão altamente surpreendente, uma vez que a redução digital – conforme surgiu dentro da história do Qabalismo Ocidental – parece ter sido gerada, automaticamente, a partir da interferência dos numerais decimais hindus com os sistemas numéricos alfabéticos mais antigos, ou ‘gematrias’, que vinculavam valores cardinais a letras específicas, sem o uso da notação posicional. É imediatamente óbvio que este relato histórico não pode ser traduzido para um contexto chinês, onde alfabetos não têm qualquer raiz tradicional.)

A redução digital é uma técnica numérica extremamente simples, que não envolve nada além de adições de dígitos únicos e negligencia a magnitude decimal. Um número com múltiplos dígitos é tratado como uma sequência de adições de dígitos únicos, e o processo é reiterado no caso de um resultado com múltiplos dígitos.

Expressar a série das potências binárias em notação decimal produz a sequência familiar 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, 1024, 2048, 4096, 8192… Quando esta série é comprimida a uma sequência de dígitos únicos através da redução, ela prossegue: 1, 2, 4, 8, (1 + 6 =) 7, (3 + 2 =) 5, (6 + 4 =) 1, (1 + 2 + 8 = 11 = 1 + 1 =) 2, (2 + 5 + 6 = 13 = 1 + 3 =) 4, (5 + 1 + 2 =) 8, (1 + 0 + 2 + 4 =) 7, (2 + 0 + 4 + 8 = 14 = 1 + 4 =) 5, e assim repetidamente, através do ciclo de 6 passos 1, 2, 4, 8, 7, 5. Este processo expõem a necessidade aritmética do hexagrama do Yi Jing, enquanto exaustão arquetípica das fases do tempo.

Para se escavar o triádico ou tripódico, é útil se voltar ao clássico (e agora integral) comentário confucionista, as ‘Dez Asas’ (Shi Yi), que explora a estrutura dos trigramas e dos hexagramas de várias maneiras. Estas incluem uma fórmula explícita para se dobrar as seis linhas do hexagrama de volta em uma tríade, ao se combinar as linhas: primeira e quarta; segunda e quinta; terceira e sexta. Estas díades têm uma ordem aritmética consistente, quando calculadas de acordo com os valores bino-decimais reduzidos gerados acima: 1 + 8 = 9; 2 + 7 = 9; 4 + 5 = 9. “O que estas seis linhas demonstram é simplesmente isto, a maneira dos três Poderes”.

A soma até nove regularmente serve como confirmação dentro do Shi Yi. Por exemplo, na seção traduzida por Legge como ‘O Grande Apêndice’:

52. Os número (exigidos) para Khien (ou linha não dividida) equivalem a 216; aqueles para Khwan (ou a linha dividida), a 144. Juntos eles são 360, correspondendo aos dias do ano.
53. O número produzido pelas linhas nas duas partes (do Yî) equivalem a 11.520, correspondendo ao número de todas as coisas.
54. Portanto, por meio das quatro operações, o Yî está completo. São necessárias 18 mutações para se formar um hexagrama.

44 = 1 + 4 + 4 = 9

216 = 2 + 1 + 6 = 9

360 = 3 + 6 + 0 = 9

11,520 = 1 + 1 + 5 + 2 + 0 = 9

18 = 1 + 8 = 9

Há muito mais a dizer sobre a importância do número nove na cultura tradicional chinesa, e além, mas este não é o momento. Por ora, é suficiente notar que o nove, ou ‘Antigo Yang’, representa o ponto extremo de maturidade ou acúmulo positivo no Yi Jing e, assim, uma transição incipiente. Desta forma, ele ecoa a função do mesmo numeral dentro de um sistema decimal de notação posicional com zero, reforçando fortemente a impressão de que o Yi Jing assume uma familiaridade cultural com tal numeracia e, assim, indica sua extrema antiguidade dentro da China.

O ciclo de seis fases se colapsa em uma dinâmica triádica, cujos estágios são as díades 1&8, 2&7, 4&5. Ele é, desta forma, exatamente isomórfico ao circuito de pedra, papel e tesoura, ou melhor, este último pode ser visto como uma simplificação do tripé dinâmico do Yi Jing, tratando cada estágio como simples, em vez de geminado. Onde o bagua, ou conjunto de trigramas, meramente enumera o conjunto de variantes de 3 bits de maneira estática, o sistema de hexagramas rigorosamente constrói uma dinâmica triangular, que é apresentada como um modelo do tempo.

Se esse é o ‘exemplo chinês’ em sua forma mais essencial, então é exatamente o exemplo anglosférico, como determinado por Mead, exceto levado a um nível de abstração bem mais exaltado, ou seja, a uma pureza proto-conceitual. O pluralismo dinâmico não está sob nenhuma ameaça vinda de um futuro chinês, na medida em que a evidência cultural profunda conte para algo. O reino do tripé mal começou.

Original.