O Iluminismo Sombrio, Parte 4a

Parte 4a: Uma sub-digressão multiparte ao terror racial

Meu próprio sentimento da coisa é que, por debaixo de toda a conversa feliz, debaixo da adesão obstinada a ideias falhas e teorias mortas, debaixo da gritaria e do anátema contra pessoas como eu, há um desespero profundo e frio. Em nossos mais íntimos corações, não acreditamos que a harmonia racial possa ser alcançada. Daí a tendência à separação. Só queremos continuar com nossas vidas longe um dos outros. Ainda assim, para um povo moralista e otimista como os americanos, esse desespero é insuportável. Ele é empurrado para longe, para algum lugar em que não tenhamos que pensar sobre ele. Quando alguém nos força a pensar sobre ele, reagimos com fúria. Aquele menininho na estória de Andersen sobre as novas roupas do Imperador? O fim seria mais verdadeiro para com a vida se ele tivesse sido linchado por uma multidão uivante de cidadãos ultrajados.
– John Derbyshire, entrevistado na Gawker

Acreditamos na igual dignidade e na presunção de igual decência em relação a toda pessoa – não importa qual raça, não importa o que a ciência nos diga sobre inteligência comparativa e não importa o que possa ser obtido das estatísticas criminais. É importante que a pesquisa seja feita, que as conclusões não sejam fraudadas e que tenhamos liberdade de falar francamente sobre o que ela nos diz. Mas isto não é um argumento a favor de conclusões a priori sobre como pessoas individuais devem ser tratadas em diversas situações – ou a favor de calcular medo ou amizade com base apenas na raça. Manter e ensinar de outra forma é prescrever a desintegração de uma sociedade pluralista, minar a aspiração do E Pluribus Unum.
– Andrew McCarthy, defendendo a expulsão de JD da National Review

“A Conversa”, da forma em que os americanos negros e os liberais a apresentam (a saber: necessitada pela malícia branca), é uma afronta cômica – porque ninguém tem permissão (vide Barro acima) de notar o contexto no qual os americanos negros estão tendo desentendimentos com a lei, uns com os outros e com outros. O contexto apropriado para entender isto, e a mania que é o Travyonicus aliás, é o medo razoável da violência. Este é o fato mais exigente aqui – e, ainda assim, você decreta que ele não pode ser falado.
– Dennis Dale, respondendo ao chamado de Josh Barro pela demissão de JD.

Tremenda experiência viver com medo, não é? É isso que é ser um escravo.
– Bladerunner

Não há nenhuma parte de Singapura, Hong Kong, Taipei, Xangai ou muitas outras cidades no Leste asiático em que seja impossível passear, com segurança, tarde da noite. Mulheres, sejam jovens ou velhas, sozinhas ou com crianças pequenas, podem ficar confortavelmente alheias aos detalhes do espaço e do tempo, pelo menos no que diz respeito à ameaça de agressão. Embora isto possa não ser bem suficiente para definir uma sociedade civilizada, chega extremamente próximo. É certamente necessário a qualquer definição dessas. O caso contrário é o barbarismo.

Essas cidades afortunadas do oeste do Círculo do Pacífico são tipificadas por localizações geográficas e perfis demográficos que ecoam de maneira conspícua as embaraçosamente bem-comportadas ‘minorias modelo’ dos países ocidentais. Elas são dominadas (de maneira não desagradável) por populações que – devido à herança biológica, a profundas tradições culturais ou ao algum emaranhamento inextricável das duas – acham interações sociais educadas, prudentes e pacíficas comparativamente fáceis e dignas de reforço contínuo. Elas são também, importantemente, sociedades abertas e cosmopolitas, notavelmente desprovidas de arrogância chauvinista ou de um sentimento etno-nacionalista paranoico. Seus cidadãos não estão inclinados a enfatizar suas próprias virtudes. Pelo contrário, eles serão tipicamente modestos quanto aos seus atributos e realizações individuais e coletivas, anormalmente sensíveis às suas falhas e deficiências e estarão constantemente alertas para oportunidades de melhoria. A complacência é quase tão rara quanto a delinquência. Nessas cidades, toda uma dimensão de terror social está simplesmente ausente  – com consequências massivas.

Em muito do mundo ocidental, em um contraste gritante, o barbarismo foi normalizado. É considerado simplesmente óbvio que cidades têm ‘áreas ruins’ que não são meramente pobres, mas letalmente ameaçadoras, para estranhos assim como para residentes. Adverte-se os visitantes para que fiquem longe, ao passo que os locais fazem o seu melhor para transformar suas casas em fortalezas, evitam se aventurar nas ruas depois do anoitecer e – especialmente se forem homens jovens – voltam-se para gangues criminosas em busca de proteção, o que degrada ainda mais a segurança de todas as outras pessoas. Predadores controlam o espaço público, parques são armadilhas mortais, a ameaça agressiva é celebrada como ‘atitude’, a aquisição de propriedade é para caretas (ou assaltantes), a aspiração educacional é ridicularizada e a atividade empresarial não-criminosa é desprezada como uma violação das normas culturais. Todo mecanismo significativo de pressão sócio-cultural, desde heranças interpretadas e influências dos pares até a retórica política e incentivos econômicos, está alinhado com o aprofundamento da depravação complacente e da extirpação cruel de todo impulso de auto-melhoria. Bastante claramente, esses são lugares em que a civilização colapsou de maneira fundamental, e uma sociedade que os inclua, em uma medida substancial, falhou.

Dentro dos países mais influentes do mundo de língua inglesa, a desintegração da civilização urbana moldou profundamente a estrutura e o desenvolvimento das cidades. Em muitos casos, o padrão ‘natural’ (agora se poderia dizer ‘asiático’), no qual a urbanização intensiva e os valores imobiliários correspondentes são maiores no centro da cidade, foi destruído ou, pelo menos, profundamente deformado. A desintegração social do centro urbano levou a um êxodo dos (sequer moderadamente) prósperos para refúgios suburbanos e extra-urbanos, produzindo um padrão grotesco e historicamente sem precedentes de desenvolvimento estilo ‘rosquinha’, com cidades que toleram – ou meramente se acomodam a – interiores arruinados e podres, nos quais pessoas sãs temem pisar. ‘Centro da cidade’ veio a significar quase exatamente o oposto do que um curso não distorcido de desenvolvimento urbano produziria. Esta é a expressão geográfica de um problema social ocidental – e especialmente americano – que é, de uma só vez, basicamente imencionável e visível do espaço sideral.

Surpreendentemente, a síndrome da rosquinha com núcleo quebrado tem um nome notavelmente insensível e ainda assim comumente aceito, que a captura em linhas gerais – pelo menos de acordo com suas características secundárias – e em um grau razoável de aproximação estatística: White Flight (Fuga dos Brancos). Este é um termo que prende, por uma variedade de razões. Ele é marcado, primeiro de tudo, pela bipolaridade racial que – como um arcaísmo vital – ressoa com a crise social crônica da América, em uma série de níveis. Embora superficialmente datado, em uma era de questões multiculturais e de imigração de muitos matizes, ele se reverte ao código morto-vivo herdado da escravidão e da segregação, perpetuamente identificada com as palavras de Faulkner: “O passado não está morto. Ele nem mesmo é passado.” Ainda assim, mesmo neste atípico momento de candura racial, a negritude é elidida e implicitamente desconectada da agência. É denotada apenas por alusão, como um resíduo, concentrado passiva e derivadamente pela função peneiradora de um pânico branco altamente adrenalinizado. O que não pode ser dito é indicado mesmo enquanto não é mencionado. Um silêncio distintivo acompanha a meia-expressão quebrantada de uma maré muda de separatismo racial, guiado por terrores e animosidades civilizacionalmente incapacitantes, cujas profundidades e estruturas de reciprocidade permanecem inconfessáveis.

O que o êxodo puritano do Antigo para o Novo Mundo foi para a fundação da modernidade anglófona global, o white flight é para o seu desgaste e dissolução. Assim como com a migração pré-fundadora, o que dá relevância inelutável ao white flight aqui é seu caráter sub-político: tudo saída e nenhuma voz. Ele é o ‘outro’ sutil, não-argumentativo e não-exigente da democracia social e seus sonhos – o impulso espontâneo do iluminismo sombrio, da maneira em que é inicialmente vislumbrado, de uma só vez desilusivo e implacável.

A rosquinha com o núcleo quebrado não é o único modelo de síndrome da cidade doente (o fenômeno da favela marginal enfatizado no Planet of Slums de Mike Davis é muito diferente). Tampouco o urbanismo do desastre-rosquinha é redutível à crise racial, pelo menos em suas origens. Fatores tecnológicos desempenharam um papel crucial (mais proeminentemente, a geografia do automóvel), assim como o fizeram outras tradições culturais de longa data (tais como a construção de subúrbios enquanto idílios burgueses). Ainda assim, todas essas linhagens foram, em medida muito grande, suplantadas ou, pelo menos, subordinadas ao ‘problema racial’ herdado e que ainda emerge.

Então, o que é este ‘problema’? Como ele está se desenvolvendo? Por que alguém fora da América deveria estar preocupado com ele? Por que levantar o tópico agora (ou jamais)? – Se o seu coração está afundando sob a sombria suspeita de que isto vai ser enorme, sinuoso, estressante e torturante, você está certo. Temos semanas pelas quais esperar nesta câmara de horrores.

As duas respostas mais simples, bastante amplamente mantidas e basicamente incompatíveis para a primeira questão merecem ser consideradas como partes importantes do problema.

Questão: Qual é o problema racial americano?

Resposta-1: Pessoas negras.

Resposta-2: Pessoas brancas.

A popularidade combinada destas opções é significantemente expandida, muito provavelmente para englobar a grande maioria de todos os americanos, quando se considera que ela inclui aqueles que assumem que uma destas duas respostas domina o pensamento do outro lado. Entre si, as proposições “O problema estaria acabado se pudéssemos simplesmente nos livrar dos vadios negros / racistas brancos” e / ou “Eles pensam que somos todos vadios / racistas e querem se livrar de nós” consomem uma proporção impressionante do espectro político, estabelecendo uma fundação sólida de terror e aversão recíprocos. Quando projeções defensivas são adicionadas (“Não somos vadios, vocês são racistas” ou “Não somos racistas, você são vadios”), o potencial para uma dialética superaquecida e não-sintetizadora se aproxima do infinito.

Não que estes ‘lados’ sejam raciais (exceto na fantasia tribal-nacionalista negra ou branca). Para estereótipos crus, é bem mais útil se voltar para a dimensão política principal e suas categorias de ‘liberal’ e ‘conservador’ no sentido americano contemporâneo. Identificar o problema racial da América com o racismo branco é a posição liberal estereotípica, ao passo que identificá-lo com a disfunção social negra é o exato complemento conservador. Embora estas posições sejam formalmente simétricas, é sua assimetria política real que investe o problema racial americano com seu extraordinário dinamismo histórico e significância universal.

Que os brancos e negros americanos – considerados grosseiramente como agregados estatísticos – coexistem em uma relação de medo recíproco e vitimização percebida é atestado pelos padrões manifestos de desenvolvimento e navegação urbana, escolha de escolas, propriedade de armas, policiamento e encarceramento, e quase todas as outras expressões de preferência revelada (ao contrário da afirmada) que estejam relacionadas à distribuição social voluntária e à segurança. Um equilíbrio objetivo de terror reina, apagado da visibilidade por perspectivas complementares, mas incompatíveis, de supremacismo e negação vitimológicos. Ainda assim, entre as posições liberal e conservadora sobre raça não há qualquer equilíbrio que seja, mas algo próximo de uma derrota. Os conservadores estão completamente aterrorizados com a questão, ao passo que, para os liberais, ela é um jardim de delícias terrenas, cujos prazeres transcendem os limites da compreensão humana. Quando qualquer discussão política chega firme e claramente ao tópico da raça, o liberalismo vence. Esta é a lei fundamental da efetividade ideológica à sombra fragante meia-luz da Catedral. Em certos aspectos, este desequilíbrio político dinâmico é até mesmo o fenômeno primário sob consideração (e muito mais precisa ser dito sobre isso, mais à frente).

A humilhação regular, excruciante e esmagadora do conservadorismo na questão da raça não deveria ser nenhuma surpresa para ninguém. Afinal, o papel principal do conservadorismo na política moderna é ser humilhado. É para isto que uma perpétua e leal oposição, ou bobo da corte, serve. O caráter essencial do liberalismo, enquanto guardião e proponente da fé espiritual neo-puritana, o investe com domínio supremo sobre a dialética, ou invulnerabilidade à contradição. Aquilo que é impossível de se pensar deve, necessariamente, ser adotado através da fé. Considere apenas a doutrina fundamental ou primeiro artigo do credo liberal, conforme promulgado através de toda discussão pública, articulação acadêmica e iniciativa legislativa relevante ao tópico: Raça não existe, exceto enquanto construto social empregado por uma raça para explorar e oprimir uma outra. Meramente entreter isso é estremecer antes à incrível majestade do absoluto, onde tudo é simultaneamente seu preciso oposto, e a razão evapora de maneira extasiante à beira do sublime.

Se o mundo fosse construído com ideologia, esta estória já estaria acabada ou, pelo menos, previsivelmente programada. Para além do aparente zigue-zague da dialética, há uma tendência dominante, que leva em uma direção única e inequívoca. Ainda assim, a solução liberal-progressista para o problema da raça – um ‘anti-racismo’ abrangentemente sistemático e dinamicamente paradoxal que se escala sem limites – confronta um obstáculo real que é apenas muito parcialmente refletido nas atitudes, retórica e ideologia conservadoras. O verdadeiro inimigo – glacial, incipiente e não-argumentativo – é o ‘white flight‘.

Neste ponto, uma referência explícita ao Caso Derbyshire se torna irresistível. Há uma quantia muito considerável de contexto histórico complexo e recente que clama por introdução – a convulsão cultural que acompanhou ao incidente Trayvon Martin em particular – mas haverá tempo para isso mais tarde (ah sim, eu temo que sim). A intervenção de Derbyshire e a explosão de palavras que ela provocou, embora em alguma medida iluminada por tal contexto, de longe o excede. Isso porque o termo crucial não dito, tanto no agora notório artigo curto de Derbyshire, quanto também – aparentemente – nas respostas que ele gerou, é ‘white flight‘. Ao publicar um conselho paternal para seus filhos (euroasiáticos) que foi – não inteiramente sem razão – resumido como ‘evite pessoas negras’, ele converteu a fuga dos brancos, de um fato muito lamentado, mas aparentemente inexorável, para um imperativo explícito, até mesmo uma causa. Não discuta, fuja.

A palavra que Derbyshire enfatiza, em sua própria penumbra de comentários e em escritos antecedentes, não é ‘fuga’ ou ‘pânico’, mas desespero. Quando perguntado pelo blogueiro Vox Day se ele concordava que a ‘race card’ (‘carta da raça’) havia se tornado menos intimidadora ao longo das últimas duas décadas, Derbyshire responde:

Um [fator], sobre o qual eu já escrevi mais de uma vez, eu acho, nos Estados Unidos, é simplesmente o desespero. Eu tenho uma certa idade e eu estava por aí 50 anos atrás. Eu lia os jornais e seguia o eventos mundiais e lembro do movimento dos direitos civis. Eu estava na Inglaterra, mas nós o acompanhávamos. Eu lembro dele, lembro do que sentíamos sobre ele e do que as pessoas estavam escrevendo sobre ele. Tinha muita esperança. A ideia na mente de todo mundo era que, se derrubássemos essas leis injustas e baníssemos toda essa discriminação, então seríamos curados. Então a América seria restaurada. Depois de um período intermediário de alguns anos, quem sabe, talvez 20 anos, com uma mão de coisas como a ação afirmativa, a América negra simplesmente se fundirá à população geral e a coisa toda simplesmente irá embora. Isso é o que todo mundo acreditava. Todo mundo pensava isso. E não aconteceu.

Aqui estamos, 50 anos mais tarde, e ainda temos essas tremendas disparidades de taxas de crimes, realizações educacionais e assim por diante. E eu acho que, embora eles ainda estejam declamando as banalidades, os americanos, em seus corações, sentem um tipo de desespero frio sobre isso. Eles sentem que Thomas Jefferson provavelmente estava certo e que não podemos viver juntos em harmonia. Acho que é por isso que você vê esse lento desagregamento étnico. Temos um sistema escolar muito segregado agora. Existem escolas a 10 milhas de onde estou sentado que são 98 por cento minorias. Na habitação residencial também é a mesma coisa. Então, eu acho que há um desespero frio e sombrio, à espreita no coração coletivo da América, sobre toda essa coisa.

Esta é uma versão da realidade que poucos querem ouvir. Como Derbyshire reconhece, os americanos são um povo predominantemente cristão, otimista, ‘dá pra fazer’, cujo ‘coração coletivo’ é incomumente mal-adaptado a um abandono da esperança. Esse é um país culturalmente programado para interpretar o desespero não meramente como erro ou fraqueza, mas como um pecado. Ninguém que entenda isto poderia ficar remotamente surpreso de encontrar o fatalismo hereditário desolador sendo rejeitado – tipicamente com hostilidade veemente – não apenas por progressistas, mas também pela esmagadora maioria dos conservadores. Na NRO, Andrew C. McCarthy sem dúvida falou por muitos ao observar:

Há um mundo de diferença, no entanto, entre a necessidade de ser capaz de discutir fatos desconfortáveis sobre QI e encarceramento, por um lado, e, por outro, insistir na raça como um fundamento para se abandonar a caridade cristã básica.

Outros foram muito além. No Examiner, James Gibson aproveitou “a torpe arenga racista de John Derbyshire” como uma oportunidade para ensinar uma lição mais ampla – “o perigo do conservadorismo divorciado do cristianismo”:

…uma vez que Derbyshire não acredita “que Jesus de Nazaré era divino …e que a Ressurreição foi um evento real”, ele não pode compreender o grande mistério da Encarnação, através da qual o Divino verdadeiramente assumiu carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré e sofreu a morte nas mãos de uma humanidade caída, a fim de redimir esta humanidade de seu estado de queda.

Nisto jaz o perigo de uma filosofia sociopolítica conservadora divorciada de uma robusta fé cristã. Ela se torna uma ideologia morta, produzindo uma visão da humanidade que é tóxica, fatalista e (como Derbyshire prova de maneira abundante) pouco caridosa.

Foi, claro, na esquerda que os fogos de artifício realmente acenderam. Elspeth Reeve, no Atlantic Wire afirmou que Derbyshire se agarrara à sua relação com a National Review porque estava oferecendo aos “leitores menos iluminados” da revista o que eles queriam: “estereótipos raciais datados”. Assim como Gibson na direita, ela estava interessada em que as pessoas aprendessem uma lição mais ampla: não pense, nem por um minuto, que isto acaba em Derbyshire. (Vale a pena notar a seção de comentários incrivelmente pouco cooperativa de seu artigo.)

Na Gawker, Louis Peitzman diminui a qualidade (na direção aprovada) ao descrever a “horrível diatribe” de Derbyshire como “o artigo mais racista possível”, um julgamento que denuncia extrema ignorância histórica, uma vida protegida, inocência incomum e uma falta de imaginação, assim como faz o artigo soar bem mais interessante do que realmente é. Os comentadores de Peitzman são impecavelmente liberais e, claro, estão uniformemente, completamente, chocantemente assustados (ao ponto de um orgasmo). Para além do emocionar, Peitzman não oferece muito conteúdo, com exceção apenas de um pouco mais de emocionar – desta vez uma leve satisfação misturada com uma raiva residual – com as notícias de que a punição de Derbyshire havia pelo menos começado (“um passo na direção certa”) com seu “enxotamento” da National Review.

Joanna Schroeder (escrevendo em algo chamado Good Feel Blog) buscou estender o expurgo para além de Derbyshire, para incluir qualquer um que ainda não tenha irrompido em paroxismos suficientemente melodramáticos de indignação, a começar com David Weigel na Slate (que ela não conhece “na vida real, mas, ao ler este artigo, parece que você bem poderia ser um racista, cara”). “Há tantas… referências racistas e desumanizantes a pessoas negras no artigo de Derbyshire que eu tenho que me parar aqui, antes que reconte a coisa toda, ponto a ponto, fumegante de raiva”, ela compartilha. Ao contrário de Peitzman, contudo, pelo menos Schroeder tem um ponto – a dialética do terror racial – “…propagar a ideia de que deveríamos ter medo de homens negros, de pessoas negras em geral, torna este mundo perigoso para americanos inocentes”. Seu medo o torna assustador (embora aparentemente não com reciprocidade legítima).

Quanto a Weigel, ele entende o terror bem e arduamente. Em poucas horas, ele está de volta ao teclado, se desculpando por sua despreocupação anterior e pelo fato de que ele “acabou nunca dizendo o óbvio: Povo, o ensaio era repugnante”.

Então, o que Derbyshire realmente disse, de onde isso veio e o que isso significa para a política americana (e além)? Esta sub-série penteará por entre o espectro, da esquerda à direita, em busca de sugestões, com o pânico / desespero ‘branco’ sócio-geograficamente manifesto como uma linha guia…

A seguir: O Ecstasy Liberal

Original.

Re-Animador (Parte 4)

O que o mundo faz de Shanghai?

Se as tradições mais profundas da Expo Mundial são aquelas assentadas em sua origem, seria imprudente descartar precipitadamente uma característica proeminente de sua instância inaugural. A Grande Exibição dos Trabalhos Industriais de todas as Nações, que aconteceu em Londres em 1851, foi realizada na efetiva capital do mundo. Neste caso, pelo menos, o internacionalismo definidor da Expo é difícil de desenredar do indisputável fato histórico de que todo o mundo rapidamente estava se tornando o negócio de Londres. Em um gesto de reciprocidade tão perfeito que se aproximava de uma simples identidade, Londres convidou o mundo para si, exatamente como – e porque – estava se convidando para o mundo.

A Grande Exibição fazia um sentido irresistível porque ela colocou o futuro do mundo em exposição no único lugar que poderia. Para ver o destino concentrado, realisticamente filtrado e programaticamente arranjado da terra, era necessário visitar Londres, uma vez que era em Londres que tudo se reunia.

Ao longo de suas primeiras duas décadas (e quadro episódios), a Expo Mundial alternou entre Londres (1851, 1962) e Paris (1855, 1867), como se oscilasse entre as potências históricas relativas do poder marítimo e continental. Ainda assim, esta aparente hesitação, na verdade, comprime e oculta duas tendências distintas, complementares e inequívocas. A Grã-Bretanha ascendia inexoravelmente à hegemonia global, ao passo que se desengajava da Expo Mundial, ao passo em que a França administrava um declínio comparativo igualmente inexorável, conforme fazia da Expo Mundial – em uma medida igualmente notável – sua reserva especial.

É tentador propor uma teoria de consolação institucional para explicar esse padrão. Muito depois de a Grã-Bretanha ter abandonado toda reivindicação de liderança da Expo, a França continuou a investir fortemente no evento, alcançando um recorde de hospitalidade da Expo inigualado por qualquer outro país e definindo o curso para a institucionalização da Expo através do Bureau Internacional de Exposições (BIE). O BIE, estabelecido em 1928, sempre teve base em Paris e continua sendo um bastião do bilinguismo anglo-francês.

O entusiasmo francês com a Expo expressa uma relação mais geral e de grande importância com o sistema-mundo. Tendo renunciado a seu papel (napoleônico) enquanto desafiante da ordem mundial no começo do século XIX, a França fez manobras, com capacidade e determinação únicas, para permanecer sendo uma potência secundária indispensável ou – mais precisamente – um equilibrador. Seu relacionamento com as sucessivas fases de hegemonia global anglófona foi guiada por um política profunda e extremamente consistente de acomodação sem aquiescência, caracterizada por uma rivalidade imaginativa e implacável, embora contida. Próxima do núcleo, mas nunca bem uma parte dele, a França tem sido capaz de extrair sustentação da ordem mundial ao passo em que contesta seu significado cultural (anglófono, protestante, individualista e laissez-faire).

Os desafiantes do sistema-mundo, deve-se notar de maneira clara, nunca hospedam Expos Mundiais. As Expos realizadas no Japão (Osaka 1970, Tsukuba 1985, Aichi 2005) e na Alemanha (Hanover 2000) tiveram lugar muito depois de sua resistência armada à ordem mundial anglo-americana ter sido quebrada e de ambos os países terem sido espancados até a docilidade. A Rússia nunca hospedou uma. A Moscou da URSS recebeu a oferta da Expo Mundial de 1967, mas a recusou (presumivelmente julgando-a perigosamente desestabilizante para uma sociedade fechada).

A Expo Mundial adquiriu, assim, uma tradição secundária, enquanto plataforma deliberadamente excêntrica, a partir da qual contestar o futuro do núcleo do sistema-mundo e propor uma alternativa pluralizada (ou embrionicamente multicultural). Já em 1855 e 1867, e depois em 1878, 1889, 1900 e 1937, a Expo Mundial encenou a visão de Paris, uma que aceitava a realidade global de modernização consolidada e revolucionária, ao passo em que desenfatizava sistematicamente seu determinismo tecno-comercial e sua convergência por sobre traços culturais anglófonos. A globalização industrial era reconfigurada como uma condição a ser criticamente interrogada, em vez de uma oportunidade a ser vigorosamente promovida.

Entre os impulsos primário e secundário da Expo, a colisão era inevitável. De maneira bastante previsível, a ocasião foi fornecida pela reconexão da Expo ao núcleo global.

Mesmo dado esse esquema truncado e radicalmente simplificado da história da Expo, que estava amplamente estabelecido em suas características essenciais por volta de 1870, a significância das duas Expos Mundiais de Nova York, realizadas em 1939-40 e 1964-5, entram claramente em foco. A Nova York do meio do século XX, como toda capital do sistema-mundo, representava a vanguarda da modernização enquanto processo revolucionário global — emergência e consolidação de uma nova ordem mundial e de uma nova era (novus ordo seclorum) — comparada com o qual a autoridade das instituições internacionais estabelecidas não contava de nada.

Ambas as Expos de Nova York violavam flagrantemente as regulamentações do BIE em numerosos aspectos, mas mesmo depois da retirada da sanção oficial, elas foram adiante de qualquer maneira. Essas foram, sem coincidência, as primeiras Expos imprevisíveis. Elas também estavam entre as mais memoráveis e influentes na história da Expo Mundial.

Pela primeira vez desde o meio do século XIX, a Expo encontrou seu caminho de volta à capital do mundo, a fim de fornecer uma amostra intransigente e inequívoca do Mundo de Amanhã no local que a estava orquestrando. A opinião do BIE importava pouco, porque a Expo não estava sendo tanto hospedada em Nova York quanto reinventada, ecoando a originalidade de 1851. Era dali que o futuro viria, e todo mundo sabia. Tudo que era necessário era provocar a cidade a se antecipar, e o resultado foi um Futurama.

Havia uma mensagem adicional, facilmente negligenciada devido à escassez de dados: hospedar uma Expo Mundial é uma das coisas que a capital mundial tem que fazer — como um tipo de responsabilidade ritual ou uma festa de debutante. Shanghai fez isso agora. O precedente sugere que uma Expo adicional seria apropriado (talvez em 2025 ou 2030), embora ela possa ter que não ser sancionada da próxima vez.

Claro, Shanghai ainda não é a capital do mundo, mas está chegando lá. A partir do final dos anos 1970, depois de séculos de exílio e difamação, a China costeira, diaspórica-marítima e capitalista dos tianchao qimin — aqueles ‘abandonados pelo Império Celestial’ — foi reintegrada de forma constante e rápida ao continente e suas estruturas ‘socialistas de mercado’. Comportas de talento e investimento foram abertas e, conforme essa população espalhada e com cheiro de sal se reconectou à pátria-mãe, o ‘milagre chinês’ das décadas recentes teve lugar. Shanghai é o soquete do circuito principal que liga essa outra China — orientada ao comércio oceânico, à oportunidade empresarial, à acumulação de capital, à mobilidade internacional e a uma sociedade de redes flexíveis — às vastas potencialidades do país (e ao flexível estado sino-marxista) que se encontram acima no Yangtse e além. Se o processo de reconexão não for interrompido, a próxima fase da modernidade se concentrará nesta cidade, onde a China encontra o mar.

Apesar de sua auto-identificação como o ‘país central’ (ou ‘reino do meio’ – Zhongguo), a China não esteve no núcleo do processo mundial por séculos. Ao contrário, ela tem sido uma potência legada declinando complacentemente e uma estranha mal-tratada, depois sucessivamente uma afiliada de segundo nível, uma desafiante truculenta e uma cautelosa equilibradora, até que seu status prospectivo enquanto herdeira do núcleo (ou hegemon virtual) começou a se infiltrar na consciência popular global ao longo das décadas finais do século XX. Muito pouco disso é uma questão de motivação ou afirmação estratégica. Suposições semi-marxistas de inevitabilidade econômica e causação direcional base-superestrutura se tornam fortes neste aspecto. A liderança global é nomeada pela realidade industrial, não pela vontade política, e a hegemonia não pode nem ser perpetuada para além da resistência de seus fundamentos econômicos, tampouco desdenhadas por muito tempo uma vez que tais fundamentos estejam estabelecidos. Eventualmente, uma verificação da realidade se torna inevitável, e a política é martelada em conformidade com as demandas do equilíbrio sistêmico mundial. Relações núcleo-periferia são decididas pelos fluxos de comércio e capital, não por declarações políticas. Uma vez que o sucesso e a falha comparativos não demonstram qualquer sinal que seja de desaparecimento, pode-se esperar confiantemente que a geografia hierárquica — como que que seja rearranjada — não definhará em breve. Os realistas seguirão o dinheiro.

Haverá um nova capital mundial (você pode contar com isso), mas ela será Shanghai? Seria imprudente presumir isso. A tradição dos sistemas-mundo, em sua ânsia de ungir Tóquio como a sucessora de Nova York (durando os anos 1980), fornece uma lição cautelar. Não houve nenhuma Expo Mundial em Tóquio, e acabou que não havia nenhuma necessidade urgente ou essencial de uma.

Então, Shanghai é a próxima? Essa deveria ter sido a questão animadora da Expo 2010, e talvez ela terá sido no futuro. Todo o mundo tem algo em jogo nisso, pois nos diz o que está vindo, e é isso que a Expo Mundial foi criada para fazer. Que uma capital mundial emergente se mascare como uma cidade genérica passa além da modéstia, até uma espécie de fraude acidental, mas o tato pode facilmente ser confundido com pretensão — especialmente por aqueles em terreno cultural pouco familiar. Pode ser que Shanghai tenha dito tudo que era necessário em 2010, e que o que ela disse eventualmente seja ouvido e entendido.

A Expo começa de novo em cada nova capital mundial, em 1851, em 1939 e — de maneira bem mais problemática — em 2010(?). No caso de Shanghai, ainda estamos próximos demais do evento e entremeados demais na atual revolução da modernidade para saber ao certo. O que a Expo 2010 terá sido dependo do que o mundo se tornar, de como se centro de gravidade econômica mudar, de como seu novo centro se condensar e do que ele fará de Shanghai.

(guinada final para dentro dessa névoa à seguir (ebaaaa!))

Original.

Re-Animador (Parte 3)

O que faz uma grande cidade?

De longe, o elemento mais interessante da Expo Mundial 2010: Shanghai era Shanghai. Embora tradições profundamente enraizadas de cortesia sustentassem a ficção de que essa Feira Mundial era sobre o mundo, na realidade não era. Quaisquer que sejam os benefícios diplomáticos da pretensão internacionalista quase universalmente conveniente, para a China e para os participantes internacionais da Expo igualmente, a Expo 2010 era sobre Shanghai e para Shanghai. A Expo era global porque Shanghai o é, era sobre a China porque Shanghai é o portal da China para o mundo, era sobre cidades a fim de ser ainda mais sobre Shanghai, ninguém desinteressado em Shanghai prestou a menor atenção, e Shanghai a utilizou para se reestruturar, se intensificar e se promover.

A Expo enquanto instituição estava em declínio antes de 2010 e continua a decair. Shanghai estava em ascendência antes de 2010 e continua a se elevar, mas agora com uma infraestrutura atualizada, completamente renovada e decorada com a medalha de mérito histórica da hospitalidade da Expo. Cidade Melhor, Vida Melhor, um tema tipicamente etéreo e aspirativo da Expo, é uma descrição fria e sóbria do efeito da Expo sobre Shanghai.

As cidades são, em certos aspectos importantes, genéricas. Existe algo como ‘a cidade em geral’, como o trabalho de Geoffrey West, em particular, demonstrou. Sabemos, graças a West, que as cidades são organismos negativos, com características consistentes de escala, que as diferenciam estruturalmente de animais e corporações. Conforme elas crescem, elas se aceleram e se intensificam em uma taxa quantificável e previsível, exibindo retornos cada vez maiores de escala (em nítido contraste com animais e empresas, que ficam mais lentos em proporção ao seu tamanho). Organismos e firmas morrem normalmente e por necessidade, as cidades apenas raramente e por acidente.

As cidades pertencem a um gênero real, mas elas também são singularidades, que sofrem uma individuação espontânea. Na verdade, elas são genericamente singulares – singulares sem exceção – como buracos negros. Não é apenas que nenhuma cidade é como outra, nenhuma cidade pode ser como outra, e isto é uma característica que todas as cidades compartilham, sem dúvida mais do que qualquer outra.

Para além de tal singularidade genérica, há um nível adicional de diferenciação aumentada que emerge da posição que a cidade ocupa dentro de sistemas maiores. Estes sistemas não são apenas internamente especializados, mas também hierárquicos, dividindo o centro da periferia e distribuindo influência de forma desigual entre elas. Em última análise, dentro da encarnação plenamente global do ‘sistema-mundo’, as cidades adquirem características metropolitanas secundárias, em diversos graus, de acordo com sua proximidade geográfica e funcional ao centro do mundo. Elas transcendem suas histórias locais, para se tornarem eixos ou nós em uma rede global que as re-caracteriza como partes de um todo, em vez de todos feitos de partes, como metrópoles-versus-periferias em vez de (ou por sobre) metrópoles-versus-vila.

A estrutura geográfica e a instabilidade histórica da arquitetura núcleo-periferia da modernidade têm sido o foco da ‘teoria de sistemas-mundo’, desenvolvida, a partir da Escola de Annales de Fernand Braudel (1902-85), por Immanuel Wallerstein (1930-) e – de maneira mais impressionante – Giovanni Arrighi (1937-2009). De acordo com os teóricos dos sistemas-mundo, as revoluções que importam mais não são mudanças nacionais de regime, tais como as da França (1789) e da Rússia (1917), mas sim reorganizações globais que balizam as fases básicas da história moderna, jogando o mundo em novas estruturas de núcleo-periferia. A modernidade sofreu quatro desses deslocamentos até o presente, com cada fase durando um ‘longo século’, introduzindo um novo estado núcleo, ou hegemon, com capacidades aumentadas, e um novo centro urbano – sucessivamente, Veneza, Amsterdam, Londres e Nova York – que opera como uma efetiva capital do mundo.

Como o exemplo de Nova York atesta, este status não é primariamente político. Tampouco a proeminência na manufatura parece ser um fator relevante (a ‘capital mundial’ nunca foi o centro industrial dominante de sua respectiva região ou estado). Ao longo da história moderna até hoje, as características cruciais da capital mundial parecem ser que ela é a maior aglomeração urbana na região ou estado dominante (‘hegemônica’); que ela é um centro financeiro bem estabelecido que bastante rapidamente alcança uma posição de preeminência global nesse aspecto; que ela é uma cidade portuária aberta, com uma clara orientação marítima; e que ela tem um perfil demográfico excepcionalmente internacionalizado, com um grande segmento de residentes internacionalmente móveis e oportunistas. Um período significativo de liderança nas artes criativas poderia plausivelmente ser adicionado a esta lista. Funcionalmente, a capital mundial serve como o centro-nervoso supremo da economia global, especializada nacionalmente e então super-especializada internacionalmente como o eixo de serviços financeiros, logísticos e empresariais de um sistema cuja integridade global está refletida na singularidade privilegiada da cidade.

O drama excepcional de nossa era está em sua natureza enquanto um tempo de transição entre fases da modernidade, algo entre o inverno de um longo século, quando uma época de hegemonia se exaure. Mais especificamente, o cerco está se fechando sobre a Era Americana, como comentadores de quase toda estirpe intelectual e ideológica estão cada vez mais cientes. Sobrecarregada, essencialmente falida, politicamente paralisada e desiludida, a América afunda em uma crise auto-consciente, seu humor sombrio e anuviado. Seria um erro limitar a atenção à América, contudo, porque a crise é sistêmica-mundial, proclamando o fim de uma ordem internacional que surgiu em meio ao caos das guerras mundiais e alcançou definição nas instituições pós Segunda Guerra das Nações Unidas e do Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o descendente do GATT, hoje OMC). Afeta não só o papel do dólar americano enquanto moeda de reserva internacional, de uma OTAN centrada no Atlântico e de um aparato da ONU enviesado para o Ocidente, mas também a União Européia, o sistema de estados pós-colonial no Oriente Médio e (muito) mais coisas.

Ao longo das próxima duas décadas, sob o impacto de forças econômicas de extrema profundidade (que de longe excedem a capacidade de resposta das instituições existentes), pode-se esperar que um reordenamento revolucionário do mundo se desenrole. Se a América for bem sucedida em manter sua posição de liderança dentro do sistema global por um período que significantemente exceda o longo século XX (que não começou antes de 1914 e que, assim, pode-se esperar que persista por alguns anos adicionais), terá quebrado um padrão que permaneceu consistente por todo um meio-milênio de história. Embora não seja estritamente impossível, a perpetuação da presente ordem hegemônica seria, bastante literalmente, um exagero.

Uma outra visão de quebra com o precedente histórico, desta vez transparentemente utópica, vislumbra – ao invés da continuação da preeminência dos EUA – a obsolescência da estrutura global núcleo-periferia em sua totalidade, pondo um fim na geografia hierárquica e na hegemonia em geral. Mesmo que tal visão verdadeiramente se eleve ao nível de uma expectativa definitiva (em vez um exercício nebuloso de ilusão), ela continua sem fundamentos históricos e teóricos confiáveis. Intenções políticas altruístas – se jamais fossem críveis – ainda seriam insuficientes para superar a tendência espontânea e dinâmica de se aproximar de um equilíbrio sistêmico mundial, no qual uma zona central e sua capital metropolitana sejam automaticamente nomeadas, por correntes econômicas difusas em busca de uma casa de compensação central.

Embora sem dúvida profundamente decepcionante para a escatologia utópica e para todos os sonhos de conclusão histórica (ou de passagem para a terra prometida), mudanças de fase no sistema-mundo são menos sinistras do que frequentemente descritas. Entre os discernimentos mais importantes de Arrighi está o lembrete de que, quando quer que uma tentativa de reconstrução da ordem mundia tenha sido embasada em um desafio militar e geo-estratégico frontal ao hegemon, ela falhou. Isso é exemplificado, sobretudo, pelas histórias alemã e russa nos séculos XIX e XX, nas quais repetidas confrontações diretas com o sistema internacional predominantemente anglófono estabelecido levou apenas a frustração, colapso do regime e reintegração subalterna.

Talvez ironicamente, uma aversão subjetiva marcada à afirmação firme de poder e à presunção de hegemonia pode bastante confiavelmente ser tomada como um indicador positivo da emergência objetiva de um status hegemônico. Holanda, Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram todos, em certos aspectos cruciais, imperialistas acidentais, cujas ascensões sucessivas à dominância mundial compartilharam uma priorização de motivos comerciais, um envolvimento estatal retardado, correntes culturais ‘isolacionistas’ e ‘anti-imperialistas’ fortes e uma evitação determinada da colisão decisiva ‘clauswitzeana’ (especialmente o hegemon anterior). Os métodos de guerra britânicos e americanos, em particular, são notáveis por sua ênfase comum em cobertura e triangulação, tais como a exploração da posição oceânica e da supremacia marítima para evitar um enredamento prematuro em conflitos ‘continentais’ de alta intensidade, o uso da capacidade financeira e logística para manipular conflitos à distância e a inclusão diplomática dos adversários derrotados em sistemas de poder reconstruídos, policêntricos e ‘equilibrados’. A hegemonia foi, em cada caso, herdada de maneira pacífica, mesmo quando foi cimentada pela guerra (em parceria com o hegemon anterior) e mais tarde deu origem a oportunidades para um aventureirismo imperialista cada vez mais agressivo.

Dado esse padrão histórico largamente incontroverso, é ainda mais surpreendente que o exemplo alemão seja tão amplamente invocado nas discussões sobre a ‘ascensão pacífica’ da China. Na verdade, a ascensão da China tem ficado bem mais perto do modelo de entrega hegemônica do que dos desafios confrontativos, como indicado pela priorização do desenvolvimento comercial, pela relação altamente cooperativa (e até mesmo sinérgica ou ‘chimérica’) com o hegemon predominante, pela acumulação gradual de poder financeiro por meio de uma redistribuição espontânea e sistêmica e pela consolidação igualmente gradual de interesses marítimos, que emergem do sistema de comércio global e trazem o foco da política estratégica governamental – talvez de maneira relutante – das preocupações domésticas para o alto-mar.

Historicamente, a China tem sido uma potência bem mais continental do que marítima, e este fato fornece a mais persuasiva objeção à suposição de um (Longo) Século Chinês. A emergência de um sistema-mundo continental seria um afastamento tão decisivo do precedente quanto qualquer um dos já discutidos, e, se tal possibilidade for entretida, a previsão disciplinada falha. Se invertido, contudo, esse problema se torna um previsão em si mesmo: a trajetória da ascensão da China necessariamente implica em sua transformação em uma potência marítima (uma compreensão já tácita na controversa série de TV chinesa de 1988 River Elegy).

Uma vaga intuição, parcial mas elusivamente cristalizada pela Expo 2010, agora se precipita, pelo puro reconhecimento de padrões históricos, na forma de uma questão explícita:

Shanghai está destinada a se tornar a capital do mundo?

(Parte 4 por vir)

Original

Um Guia de Shanghai para o Viajante no Tempo (Parte 2)

Insinuações sombrias da fenda do tempo

A paisagem urbana eclética de Shanghai explora uma variedade de modernidades simultaneamente. A própria escala da cidade, exponenciada pelo seu implacável dinamismo, transborda a linha do tempo.

Durante a época do alto modernismo de Shanghai, do começo ao meio do século XX, por exemplo, a cultura haipai em consolidação na cidade era distinguida pela ausência de um único cerne. Ela emergiu, em vez disso, como o resultado de desenvolvimentos plurais ou paralelos frouxamente inter-articulados, incluindo (mas de forma alguma limitada a)os costumes urbanos de uma crescente ‘burguesia’ nativa, cujos tributários aspirativos chegavam ao fundo dos buracos de coelho dos lilongs; o firme aceleracionismo da cultura empresarial da Concessão Internacional, dominada pela quase ilimitada confiança dos shangailanders na significância global e no potencial da cidade; e as tendências literárias e políticas de esquerda desenvolvidas nos salões de café da Concessão Francesa, onde ideias de vanguarda se polinizavam de maneira promíscua. Este caos heterogêneo e fértil encontrou seus ecos arquitetônicos na justaposição de estilos construtivos, dominada quantitativamente pelo experimento nativo de Shanghai com a construção urbana (o quarteirão lilong), mas intimidado em trechos pelos edifícios coloniais ocidentais neoclássicos; arranha-céus cosmopolitas manhattanitas e estruturas Art Déco; aventuras audazes em designs chineses modernos (de maneira mais proeminente, em Jiangwan); exemplos de funcionalismo industrial e residencial proto-brutalistas; e vilas em uma variedade de estilos internacionais, híbridos e avançados.

Desde a reabertura, no começo dos anos 1990, Shanghai adicionou novos ingredientes à mistura, incluindo seus primeiros grandes exemplos de construções que devem muito aos princípios austeros do Estilo Internacional (embora grandes estruturas retilineares ainda sejam, felizmente, uma raridade); um pouco de kitsch neo-tradicional e etno-exótico (especialmente na Cidade Velha e nas ‘nove aldeias’ periféricas, respectivamente); reanimações neomodernistas de estruturas abandonadas; e evocações ‘Googie’ de futuros imaginados.

Enquanto a modernização da cidade alcançou uma velocidade sem precedentes, contudo, seu modernismo nativo permanece comparativamente retardado. Enquanto centro urbano na China, a distinção de Shanghai é bem menos marcada do que era no começo do século XX. Outrora ocupando uma posição cultural esmagadoramente dominante enquanto sala das máquinas e ícone da modernidade chinesa, hoje ela participa de um processo bem mais generalizado de desenvolvimento chinês. Seu internacionalismo, suas proezas comerciais e sua absorção tecnológica não são mais obviamente ímpares dentro da China, sua dominância nas indústrias editorial e cinematográfica passou, seus gigantes do varejo e sua publicidade inovadora entregaram sua unicidade, e sua boemia intelectual é rivalizada ou superada em uma série de outros centros urbanos. Embora o haipai persista de maneira tênue, seu dinamismo se difundiu e sua confiança se atenuou.

Se Shanghai tem um identidade cultural urbana coerente hoje, emergindo de sua ampla multiplicidade e contrabalançando o sentimento de identidade nacional vastamente fortalecido que se consolidou desde a fundação da RPC, ela não pode – como o haipai antes dela – ser derivada da continuidade da tendência de desenvolvimento da cidade ou de um excepcionalismo urbano que se alimenta do contraste com um interior conservador, estagnante ou regressivo. Uma cultura shanghaiense inteiramente renovada, ou xin haipai, está inextricavelmente enredada com a descontinuidade – ou interrupção – histórica da cidade e com uma modernização nacional (ou mesmo civilizacional) chinesa mais ampla, que foi antecipada pela ‘Velha Shanghai’ e revive hoje como uma memória futurista.

O futuro que parecera inevitável para a Shanghai em globalização, tecnofilíaca, pirática e capitalista dos anos 1920 e 30 desapareceu, conforme o impulso acumulado ao longo de um século de modernização acelerante foi tirado dos trilhos por destruição aérea, invasão, revolução e uma integração nacional orientada ao agrário. Conforme a cidade cruzou as águas durante a era da economia de comando, o futuro virtual inerente à sua ‘Era de Ouro’ continuou a assombrá-la, sobrevivendo de maneira espectral como uma intuição obscura de um destino urbano. Quando da sua reabertura, no começo dos anos 1990, essa sorte alternativa voltou como inundação. Sob estas circunstâncias, o futurismo é imediatamente retro-futurismo, uma vez que a inovação urbana é o que estava acontecendo antes, e a invenção está ligada a um processo de redescoberta. ‘Renascença’ sempre significa algo deste tipo (e não pode, claro, ser reduzida à restauração).

Esta tendência retro-futurista, intrínseca ao renascimento da auto-consciência urbana de Shanghai no novo milênio, cria um loop temporal permanente entre duas épocas de avanço modernista altamente acelerado. Conforme ele continuamente se ajusta em fase, herança e desenvolvimento se referenciam densamente entre si, liberando fluxos de murmúrios em códigos anacrônicos e cibergóticos, tais como a ‘linguagem’ profundamente encriptada da Art Déco. Tradições proféticas se enredam com inovações comemorativas, automaticamente visando o ponto de fusão no qual se tornam intercambiáveis, fechando o circuito do tempo. O passado foi algo diferente do que outrora parecera, como o presente demonstra, e o presente é algo diferente do que poderia parecer, como o passado atesta.

Os exemplos mais acessíveis dos loops temporais próprios de Shanghai estão espacialmente concentrados. No limite, os projetos de renovação neo-modernos conectam as grandes ondas de modernização da cidade dentro de uma única estrutura, fazendo de um tema retro-futurista algo intrínseco a um desenvolvimento atual, tal como aqueles no M50, no Redtown, no Bridge8, no 1933, ou no Hotel Waterhouse (entre inúmeros casos). Loops ligeiramente mais amplos e mais tematicamente elaborados conectam construções novas a exibições manifestas da história modernista. Entre os mais conspícuos desses estão o pareamento da Torre de TV Pérola Oriental com o Museu de História de Shanghai (em seu pedestal), e o diorama da vida de rua na Velha Shanghai, a ser encontrado sob a Sala de Exposições de Planejamento Urbano.

Tais exemplos podem ser enganosos, contudo, se distraírem do fato de que o princípio retro-futurista da nova cultura de Shanghai é ambiente. De projetos comuns de restauração residencial, à sinalização comercial, a temas de restaurantes, decoração de hotéis e mobiliários domiciliares, a mensagem insistente é reemergência, um avanço através do passado. A coisa mais recente e mais elegante é tipicamente aquela que se reata à herança moderna da cidade com a máxima intensidade. Estender-se para além da cidade não quebra em nada o padrão, porque é precisamente isso que a ‘Velha Shanghai’ costumava fazer. A mudança cosmopolita é sua tradição nativa.

Acoplamentos retro-futuristas podem estar espacialmente dispersos. Um loop temporal especialmente proeminente amarra dois dos arranha-céus mais celebrados da cidade – o Park Hotel e a Jon Mao Tower – ligando o Puxi da Velha Shanghai à Nova Área de Pudung. Cada um deles foi a construção mais alta de Shanghai de sua era (a julgar pelo piso ocupado mais alto), o Park Hotel por cinco décadas, a Jin Mao Tower por apenas nove anos. Esta discrepância mascara uma simetria temporal mais profunda, nas datas de conclusão das duas construções: o Park Hotel sete anos antes do fechamento da cidade (com a ocupação japonesa da Concessão Internacional em 1941), a Jin Mao Tower sete anos depois da reabertura formal da cidade (como culminação da Viagem ao Sul de Deng Xiaoping, em 1992).

É preciso apenas um olhar (ou dois) para reconhecer esses edifícios como gêmeos temporais não-idênticos, ou clone mutantes, comunicando-se um com o outro sombriamente através da fenda, em Art Decódigo. Atraídos reciprocamente por suas ressonâncias estruturais e tonais, a duas construções extraem uma à outra de suas respectivas identidades periódicas e se apressam juntas para dentro de um tempo alternativo e oculto, definido obscuramente através do contato com um futuro absoluto, agora apenas parcialmente relembrado.

Ambos esses edifícios lindamente sinistros estão em casa no Mundo Yin, confortáveis com segredos e com a noite. Entre os primeiros desses segredos, compartilhado em sua comunhão estilística, está a própria escuridão. Nada poderia estar mais afastado do espírito da Cidade Radiante de Le Corbusier do que a opulência chocante dessas torres, cintilando à beira de um golfo noturno insondável, como se intoxicadas pelo abismo. Elas nos lembram de que ‘Art Déco’ é um rótulo (retrospectivo) remendado cruamente por sobre o mistério, que nunca teve um manifesto ou um plano mestre e que – devido a sua auto-organização inarticulada – eludiu a compreensão histórica.

Este é o sentido, pelo menos em parte, do pacto da Art Déco com a noite e a escuridão. Por debaixo e para além de todas as ideologias e esquemas centralizados, a cultura espontânea do alto-modernismo que teve seu clímax no período entre guerras permanece profundamente encriptada. Conforme a nova Shanghai escava a antiga, é um enigma que se torna cada vez mais premente. (A seguir Guia de Shanghai para o Viajante no Tempo: O Platô Dieselpunk).

Original.

Um Guia de Shanghai para o Viajante no Tempo (Parte 1)

Quando tudo mudou?

Há um momento estranho, fraturado no tempo, no biográfico Deng Xiaoping (2002, dirigido por Yinnan Ding). Durante sua maior parte, o filme é sóbrio, cauteloso e respeitoso, exemplificando um realismo didático. Ele está em estrita conformidade com a estória oficial sobre a liderança de Deng e seu significado (exatamente como se encontra hoje nos livros-texto escolares do país). Começando com a ascensão de Deng ao poder na China arruinada do final dos anos 1970, na esteira da Revolução Cultural, ele segue o caminho de suas tomadas de decisão, passando pela restauração (des-coletivização) da economia rural, a reabilitação dos especialistas e intelectuais perseguidos, e o começo da política de portas abertas, em Shenzhen, até a extensão da reforma de mercado por todo o país, como simbolizado pela abertura de Shanghai.

Embora claramente uma espécie de lenda cuidadosamente editada e fabricada com precisão, essa narrativa básica de regeneração nacional, emancipação e crescimento – resgatado das cinzas de um fanatismo sem futuro e da regressão civilizacional – é honesta o suficiente para informar e até mesmo inspirar. Ela não deixa dúvidas de que o ‘significado’ de Deng Xiaoping é abertura e renascença (pelo menos ’70/30′), um julgamento que é tanto popularmente endossado na China, quanto historicamente atestado de maneira universal.

Conforme o filme se aproxima de sua conclusão, contudo, o realismo pedestre repentinamente é suplantado por algo inteiramente diferente, seja devido ao realismo ‘mais profundo’ das restrições orçamentárias, ou ao realismo ‘mais elevado’ do acaso artístico. Deng Xiaoping, do ponto de vista de uma ponte ‘ainda’ (em 1992) inexistente, gesticula em direção a Pudong e anuncia o farol verde para a liberação de seu desenvolvimento. No entanto, no plano de fundo da cena, o delirantemente desenvolvido Lujiazui, de 2002, já se ergue, como se o horizonte tivesse sido condensado a partir de uma visão preventiva, extraindo sua substância da implicação histórica de suas palavras. O futuro não pôde esperar.

Talvez a velocidade do desenvolvimento urbano da Shanghai da era da Reforma tenha trazido tudo adiante de si, desordenando a estrutura do tempo. A Torre de TV Pérola Oriental – primeira afirmação arquitetônica da nova Shanghai e ainda a mais icônica – certamente sugere isso. Retro-depositada na Pudong de 1992 pelo filme Deng Xiaoping, historicamente concluída em 1994, simbolicamente proclamando a prometida Shanghai do terceiro milênio, arquitetonicamente caminhando para uma ficção científica dos anos 1950, aludindo ao imaginário poético da Dinastia Tang e contendo um museu devotado à história moderna da cidade em seu pedestal: a quando, exatamente, essa estrutura pertence? É difícil saber onde começar.

O perfil da Emporis sobre a Torre de TV Pérola Oriental descreve seu estilo arquitetônico simplesmente como ‘modernismo’, o que é irrepreensível, mas extraordinariamente sub-determinante. Se o moderno se define através do presente, concebido como uma quebra com o passado e uma projeção ao futuro, a Torre de TV Pérola Oriental inquestionavelmente se instala na modernidade, mas apenas por meio de um caminho elaborado. Ele se reverte ao presente, vinda de um futuro descartado, enquanto escava, do passado, um futuro não utilizado.

Construções que chegam ao presente dessa maneira são, estritamente falando, ‘fabulosas’ e, por esta razão, elas são consideradas desonrosas pelas tradições dominantes da arquitetura internacional. As fábulas de que elas se alimentam pertencem à cultura popular da ficção científica, o que as torna excessivamente caras, vulgarmente comunicativas e rapidamente datadas. Na medida em que seu estilo é reconhecido de maneira genérica, ele é rotulado por nomes feios e desdenhosos, tais como Googie, Populuxe e Doo-Wop. Ao tentar se esticar muito ansiosamente para o futuro, sugere-se tacitamente, rapidamente você começa a parecer ridículo (embora, hoje, neomodernistas, tais como Zaha Hadid e Rem Koolhaas, estejam recuperando certos elementos desse estilo de maneira mais simpática).

O Radisson Hotel de Shanghai, recuado ao norte da Praça do Povo, é uma estrutura quintessencialmente ‘Googie’. Seu topo em forma de espaçonave participa exuberantemente de uma tradição de Shanghai de elaborações esquisitas de telhados e ecoa uma estrutura moderna clássica formalmente comparável – embora bem menor – ao leste, em Nanjing Lu. A ideia de telhados de arranha-céus como locais de pouso para veículos voadores, dentro de um sistema dinâmico de tráfego tridimensional, é um elemento básico da especulação ultramodernista, enquanto uma chegada alienígena de um futuro distante é uma fantasia transparente em Shanghai.

Em seu pioneiro conto The Gernsback Continuum, William Gibson apelida esse estilo de ‘Raio Laser Gótico’, marcando explicitamente sua complexidade temporal. Desta forma, ele o coloca cuidadosamente dentro do gênero cultural mais amplo do retro-futurismo, que se aplica a tudo que evoca um futuro antiquado e, assim, transforma a modernidade em um comentário contrafactual sobre o presente. Esse gênero encontra um terreno especialmente fértil em Shanghai.

(Este é o primeiro post em uma série conectada sobre o retro-futuro de Shanghai, partindo da Torre de TV Pérola Oriental. Um exame detalhado do retro-futurismo em si vem a seguir…)

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Edward Glaeser sobre o Triunfo da Cidade

Entrevistamos o urbanista mais atual do mundo

Shanghai não é uma das cidades que aparecem seu livro. Ela é massiva e massivamente feita de arranha-céus. Você já considerou escrever sobre ela?

Shanghai é uma das maiores cidades do mundo, mas eu não conheço a cidade bem o suficiente para escrever sobre ela. Espero conhecer a cidade melhor e colocar os sucessos de Shanghai em alguma obra posterior.

A China é um lugar onde as cidades cresceram de maneira incrivelmente rápida e houve um êxodo em massa do campo para a vida urbana. No que você acha que as cidades da China deveriam se focar conforme crescem?

A cidades, hoje, prosperam enquanto forjas de capital humano e motores de inovação. A China claramente reconhece isto e está investimento maciçamente em educação. Isso deveria continuar. De maneira igualmente importante, a China precisa focar em fomentar mais empreendedorismo eliminando quaisquer barreiras que restem a pequenas start-ups.

Você fala sobre como as cidades deveria ser vistas como “massas de humanidade conectada”, em vez de aglomerações de construções. Você acha que isto é bem entendido neste momento, ou muitos lugares ainda estão tentando “construir seu caminho de volta ao sucesso”?

Infelizmente, muito frequentemente líderes político tentam angariar manchetes com uma nova estrutura chamativa. A chave é focar naqueles investimento em infraestrutura que realmente beneficiarão as pessoas na cidade.

Você é otimista quanto à possibilidade dos planejadores urbanos ao redor do mundo encontrarem o equilíbrio entre Paris e Mumbai, isto é, entre o planejamento central no estilo Haussman, que corre o risco de esterilidade, e um cada-um-por-si caótico?

Essa é a pergunta de um trilhão de dólares. Eu gostaria de poder ser mais otimista, mas o planejamento urbano é difícil e muitos governos são ou incapazes de gerenciar o caos, ou demasiado inclinados ao controle central. Isto reque não apenas conhecimento, mas força política, e essa é uma combinação rara.

Quais cidades ao redor do mundo estão acertando? Quais não estão?

Eu acredito que Singapura é a cidade mais bem gerida do mundo – boas escolas, uma excelente política de transportes e um abordagem sensata à regulamentação. Mas Hong Kong também é bastante impressionante, e eu pessoalmente prefiro seu estilo um pouco mais caótico.

O ocidente tem muitas potência urbanas, mas poucas delas são realmente modelos de gestão perfeita. Por exemplo, eu sou um grande fã do Prefeito Menino em Boston, mas apesar de mais de 15 anos de trabalho duro, as escolas de Boston ainda estão tendo dificuldades.

Obviamente, Barcelona, Paris e Milão são todas cidades encantadoras e maravilhosas, mas elas não são necessariamente modelos de boa gestão.

Você é cautelosamente otimista em seu livro, mas o que lhe preocupa mais quanto ao futuro da cidade?

Os maiores desafios estão nas mega-cidades do mundo em desenvolvimento, especialmente na África. Estamos muito longe de fornecer sequer os essenciais básicos como água potável em muitos lugares.

Nos EUA, temos problemas enormes de má gestão fiscal que precisão ser abordados. Além disso, há sempre a possibilidade de desastres físicos realmente grandes – sejam naturais ou humanos.

Há alguma maneira de se contornar o fato de que as cidades mais vibrantes também se tornam as mais caras – ou, como você diz no livro, isto é simplesmente o preço da boa saúde urbana?

As leis da oferta e da demanda não podem ser revogadas. Se uma cidade é atraente e produtiva, a demanda pelos seus imóveis será alta. O melhor antídoto para isso é uma oferta abundante, mas é um erro subsidiar a habitação urbana. O melhor caminho em direção a uma maior acessibilidade vem de uma construção privada de habitação que seja regulamentada apenas tanto quanto for absolutamente necessário. Ainda assim, construir pode ser caro e isso sempre tornará os preços nas cidades bem-sucedidas mais caros.

Ao funcionarem como motores de oportunidade econômica e como refúgios, as cidades tendem a concentrar disparidades econômicas. Você acha que se pode argumentar que tais desigualdades poderiam ser interpretadas como um sintoma do sucesso urbano? Você poderia estar sutilmente sugerindo isso em sua própria obra?

Eu estou sugerindo exatamente isso. A desigualdade nacional pode ser um problema real, mas a desigualdade local pode ser um sinal de saúde. As cidades tipicamente não tornam as pessoas pobres, elas atraem pessoas pobres. A desigualdade de uma cidade reflete o fato de que ela atrai pessoas ricas e pobres igualmente, e isso é algo a se admirar.

Como as cidades podem se esforçar para controlar a desigualdade e evitar guetos de ricos e pobres? Elas sequer deveriam estar tentando?

A educação é a melhor arma contra a desigualdade. As cidades deveriam estar se esforçando para garantir que as crianças de cada pai e mãe tenham uma chance de serem bem-sucedidas.

Algum grau de estratificação por renda é inevitável, mas a segregação pode ser bastante custosa porque tais separações significam que pessoas isoladas perdem as vantagens urbanas da conexão. Não existem grandes ferramentas para a redução da segregação, mas os governos deveriam garantir que suas políticas não exacerbem a segregação.

Geoffrey West, no Santa Fe Institute, tem estudado as cidades como ‘sistemas complexos’ e identificou uma série de padrões confiáveis e quantificáveis sobre este fundamento. Você acha este tipo de análise informativa ou relevante para sua obra?

Cidades são, de fato, sistemas complexos.

Mesmo no mundo moderno, com o nacionalismo ascendente, cidades-estado parecem ser incomumente bem-sucedidas. As cidades fornecem um desafio às concepções dominantes sobre organização política em larga escala? Como você avalia os prospectos das políticas de devolução, com uma ênfase municipal?

Eu não acho que os estados-nação estarão propensos a ceder tanto poder assim, e as cidades podem continuar economicamente dominantes, mas politicamente fracas. O caminho nos EUA continua a ser em direção a mais, não menos, poder nacional, e eu acho que isso provavelmente é um erro. Em muitos casos – tais como Mumbai – escolhas locais certamente seriam melhores do que as escolhas impostas às cidades vindas de cima.

Além do seu próprio trabalho, quem você considera serem os autores mais importantes sobre cidades hoje?

Eu admiro profundamente o historiador de Columbia, Kenneth Jackson.

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Pico de Pessoas

Poderíamos estar enfrentando a derradeira crise de recursos

No Zero Hedge, Sean Corrigan desencadeou uma polêmica efervescente contra a escola de previsores de catástrofes de recursos de M. King Hubbert (aprecie o artigo se você estiver inclinado ao laissez-faire, ou os comentários se não).

De particular relevância ao promotores da densidade é o “exercício de contextualização” de Corrigan (um tipo de Stand on Zanzibar des-enfatizado), desenhado para fornecer um imagem do ‘fardo demográfico’ do planeta:

Por exemplo, apenas enquanto exercício de contextualização, considere o seguinte:-

População de Hong Kong: 7 milhões. Sua área de superfície: 1,100 km2

A população do Mundo: perto de 7 bilhões, isto é, HK x 1000

1000 x a área de HK = 110,000 km2 = a área de Cuba ou da Islândia

Área aproximada da massa terrestre da Terra = 150 milhões de km2

Área aproximada de superfície total = 520 milhões de km2

Então, se fossemos construir uma única vasta cidade com a mesma densidade populacional de Hong Kong para cobrir a totalidade de [Cuba], isto acomodaria toda a humanidade e ocuparia apenas 0,07% da área terrestre do planeta e 0,02% da superfície da Terra.

Qualquer um que esteja ansiosamente antecipando hipercidades, arcologias e outros experimentos prospectivos em amontoamentos sociais de larga escala provavelmente achará este cálculo bastante desconcertante, ainda que apenas porque – tomada como um todo – Hong Kong, na verdade, não é tão densa. Por certo, a ‘sinapse’ central que conecta a Ilha de HK a Kowloon é impressionantemente intensa, mas a maior parte da RAE (Região Administrativa Especial) de Hong Kong é verdejante, acidentada e basicamente deserta. Sua densidade média de 6364 hab/km2 não chega nem perto daquela das primeiras 100 cidades (os 43000 hab/km2 de Manila é quase sete vezes maior). Corrigan não está vislumbrando uma megalópole, mas um subúrbio do tamanho de Cuba.

Se os densitários estão mais ou menos propensos do que a média a se preocuparem com o Pico do Petróleo ou questões relacionadas poderia ser uma questão interessante (os Novos Urbanistas tendem a ser bastante verdes). Se eles realmente querem ver as cidades escalarem às alturas da possibilidade social, contudo, eles precisam se preocupar com a escassez de população. Com a população humana projetada para se nivelar em torno de 10 bilhões, poderia nunca haver pessoas o suficiente para fazer das cidades os monstros ultra-densos que a imaginação futurista há muito anseia.

Bryan Caplan está soando o alarme. Pelo menos, temos as hordas fervilhantes de robôs Malthusianos pelas quais esperar.

Original.