Antropoceno

A história humana é geologia em velocidade

Sistemas complexos, caracterizados por uma alta (e localmente crescente) entropia negativa, são essencialmente históricos. As ciências devotadas a eles tendem inevitavelmente a se tornarem evolutivas, como exemplificado pelo curso das ciências da terra e da vida – que haviam se tornado completamente historicizadas por volta do final do século XIX. Talvez a compreensão mais elegante, abstrata ou ‘cósmica’ dessa necessidade seja encontrada na obra de Vladmir Ivanovich Vernadsky (1863-1945), cujos escritos visionários buscavam estabelecer a base pare um entendimento integrado da história terrestre, concebida enquanto processo de aceleração material através de épocas geoquímicas.

Apesar do poder filosófico de suas ideias, o treinamento científico de Vernadsky como químico ancorava seus pensamentos na realidade concrete e literal. A aceleração do processo terrestre foi mais do que uma impressão antropocêntrica, registrando mudanças social e culturalmente significativas (tais como a cefalização da linha primata que levou à humanidade). A evolução geoquímica era fisicamente expressa através da velocidade média das partículas, conforme o metabolismo biológico (biosfera) e, eventualmente, as culturas humanas (noosfera), introduziam e propagavam redes cada vez mais intensas de reações químicas. A vida é a matéria com pressa, e a cultura ainda mais.

Embora Vernadsky tenha sido esporadicamente redescoberto e celebrado, sua importância – embasada na profundidade, rigor e suprema relevância de sua obra – ainda tem que ser plena e universalmente reconhecida. Ainda assim, é possível que seu tempo esteja finalmente chegando.

A edição de 28 de maio – 3 de junho de 2011 da The Economist devota um editorial e uma grande reportagem ao Antropoceno – uma época geológica distintiva proposta por Paul Crutzen em 2000, agora sob consideração da Comissão Internacional sobre Estratigrafia (a “o árbitro final da escala de tempo geológica”). O reconhecimento do Antropoceno seria um reconhecimento de que habitamos uma época geológica cuja assinatura física tem sido fundamentalmente remoldada pelas forças tecnológica da ‘noosfera’ ou ‘etosfera’ – na qual a inteligência humana tem sido introduzida enquanto uma força massiva (e até mesmo dominante) da natureza. Uma metamorfose radical (e uma aceleração) dos ciclos de nitrogênio e carbono da terra são sinais especialmente pronunciados do Antropoceno.

“O termo ‘mudança de paradigma’ é é vendido com facilidade promíscua”, observa a The Economist. “Mas as ciências naturais tornarem a atividade humana central para sua concepção do mundo, em vez de uma distração, marcaria tal mudança a sério.”

O arquiteto mestre do Terceiro Reich, Albert Speer, é notório por sua promoção do ‘valor da ruína’ – a persistente grandeza das construções monumentais, encontradas por arqueólogos no futuro distante. O Antropoceno introduz uma perspectiva similar sobre uma escala ainda mais vasta. Como a The Economist observa:

A maneira mais comum de distinguir períodos de tempo geológico é por meio dos fósseis que eles contém. Nesta base, apontar o Antropoceno nas rochas dos dias por vir será bem fácil. As cidades farão fósseis particularmente distintivos. Uma cidade em um delta de rio que afunda rapidamente (e deltas de rio que afundam rapidamente, minados pelo bombeamento de águas subterrâneas e privados de sedimentos por barragens a montante, são ambientes antropocênicos comuns) poderiam passar milhões de anos enterradas e ainda assim, quando eventualmente descobertas, revelar através de suas estruturas trituradas e misturas estranhas de materiais que é diferente de qualquer outra coisa no registro geológico.

Conforme a história terrestre se acelera, as unidades distintivas de tempo geológico são comprimidas. Os éons Arqueano e Proterozoico são medidos em bilhões de anos, as eras Paleozoica e Mesozoica em centenas de milhões, os períodos Paleogênico e Neogênico em dezenas de milhões. A época do Holoceno dura menos do que 10000 anos, e o Antropoceno (época ou mera fase?) apenas séculos – porque seu reconhecimento já é uma indicação de seu fim.

Para além do Antropoceno está o Tecnoceno, distinguido pela manipulação nanotecnológica da matéria – uma revolução geoquímica de tamanha magnitude que apenas a montagem de moléculas replicadoras (RNA e DNA) é comparável em implicações. Dentro do vindouro Tecnoceno (durando meras décadas?), o ciclo do carbono é retransmitido através de processos de fabricação sub-microscópicos que o utilizam como o recurso industrial derradeiro – matéria-prima para a fabricação de nanomáquinas diamantoides. As conseqüências para a deposição geológica e, portanto, para as descobertas de geólogos no futuro distante, são substanciais, mas opacas. No lado mais distante da era nanofabricada, femtomáquinas aguardam, montadas com precisão a partir de quarks, e decompondo a química em física nuclear.

No momento, contudo, mesmo a origem do Antropoceno – quanto mais sua extinção – continua sendo uma questão de viva controvérsia. Assumindo que ele coincide com a industrialização (o que não é universalmente aceito), geólogos se descobrirão enredados em um debate em meio a historiadores, conforme o carregado termo ‘modernidade’ toma uma definição geoquímica. Qualquer que seja o resultado, Vernadsky está de volta.

Original.