As Últimas Palavras de Jade Rabbit?

As Últimas Palavras de Jade Rabbit?

A sonda lunar chinesa Jade Rabbit (Yutu), a primeira de tais exploradoras em 40 anos, entrou em uma condição crítica durante meu período de deserção pré-Chunjue no Camboja. Os aspectos mitológicos e teatrais da missão prontamente escalaram para um nível totalmente novo. O Xinhua comoventemente comunicou as palavras da sonda avariada:

Muito embora eu devesse ter ido para a cama hoje de manhã, meus mestres descobriram algo anormal com meu sistema de controle mecânico. Meus mestras estão ficando acordados a noite toda trabalhando em uma solução. Eu ouvi dizer que seus olhos estão mais parecidos com meus olhos vermelhos de coelho. Não obstante, estou ciente de que eu posso não sobreviver a essa noite lunar. [A Deusa Lunar Chang’e] não sabe sobre os meus problemas ainda. Se eu não puder ser consertada, todo mundo por favor a conforte.

Antes de partir, eu estudei a história das sondas lunares da humanidade. Cerca de metade das últimas 130 explorações terminaram em sucesso; o resto acabou em falha. Isso é a exploração espacial; o perigo vem com sua beleza. Eu não sou nada além de um minúsculo ponto na vasta pintura da aventura da humanidade no espaço. O sol se pôs, e a temperatura está caindo tão rápido… para lhes contar todos um segredo, eu não me sinto tão triste. Eu só estava na minha própria aventura – e como toda heroína, eu encontrei um pequeno problema…

Boa noite, Terra. Boa noite, humanidade

Original.

Chineses Assustadores

Jeffrey Wassertrom conduz uma turnê aos sonhos e pesadelos ocidentais sobre a China. Embora a amplitude da oscilação seja notável, ele acha a própria síndrome bipolar notavelmente estável ao longo do tempo. A subida — sugere Wasserstrom — está associada às esperanças de que “eles” estão se tornando mais parecidos com “nós”, mas na descida:

… quando a China do Pesadelo Ocidental está dominante, o risco é que os observadores e o público em geral percam de vista o quão variada a população chinesa é e, ao invés disso, fiquem acostumados a imagens demonizadas da China … preenchidas não com indivíduos chineses de carne e osso, mas com uma horda de manequins sem alma. […] Estórias que desumanizam a população da China por completo também são periodicamente publicadas, embora apenas raramente elas o façam tão abertamente como um artigo de 1999 da Weekly Standard, que descrevia o povo chinês como propenso a uma conformidade no pensamento de grupo “parecida com os Borgs”.

Quando dissecados e investigados com calma, estereótipos duráveis normalmente têm algo significativo a dizer, tanto sobre seus sujeitos quanto sobre seus objetos. A sinofobia ocidental é uma área de caça especialmente rica para exploradores culturais, e a importância de se entendê-la vai apenas crescer. O Urbano Futuro trará atenção sustentada a este mesmo tópico nos meses por vir.

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Uma Lição de Detroit

No Project Syndicate, Sanjeev Sanyal argumenta que o colapso de Detroit tem algo a ensinar às economias emergentes — especialmente à China. O “modelo urbano pós-industrial… favorece fortemente cidades generalistas que conseguem aglomerar tipos diferentes de conveniências, serviços essenciais e capital humano”, ele propõe. Isso tem algumas implicações surpreendentes para os prospectos do desenvolvimento urbano.

Conforme ela se transformou na “fábrica do mundo”, a parcela da população urbana da China saltou de 26.4% em 1990 para cerca de 53% hoje. As cidades grandes e cosmopolitas de Pequim e Shanghai cresceram dramaticamente, mas a maior parte da migração urbana foi para cidades industriais de pequeno e médio porte que se multiplicaram na última década. Agrupando infraestrutura industrial e utilizando o sistema hukou de permissões de residência específicas por cidade, as autoridades foram capazes de controlar o processo surpreendentemente bem.

Esse processo de crescimento urbano, no entanto, está prestes a se desfazer. Conforme a China desloca seu modelo econômico para longe do pesado investimento em infraestrutura e da produção em massa, muitas dessas pequenas cidades industriais perderão suas principais indústrias. Isso acontecerá em um momento em que a demografia distorcida do país faz com que a força de trabalho encolha e o fluxo de migração das áreas rurais para as cidades diminua (a população rural agora é desproporcionalmente composta por idosos).

Enquanto isso, as atrações pós-industriais de cidades como Shanghai e Pequim atrairão os filhos mais talentosos e melhor educados dos trabalhadores industriais de hoje. Ao contrário dos migrantes rurais que se dirigem para empregos industriais, será muito mais difícil orientar profissionais educados e criativos usando o sistema hukou. A explosão das cidades bem-sucedidas, portanto, vai esvaziar o capital humano de centros industriais menos atraentes, que então cairão em um ciclo vicioso de decadência e queda de produtividade.

Estórias como a de Detroit aconteceram várias vezes em países desenvolvidos durante o último meio século. E, como sugere o destino das cidades do norte do México, as economias emergentes não estão imunes a esse processo.

É por isso que a China precisa se preparar para esse momento. Em vez de construir cada vez mais pequenas cidades industriais, a China precisa readaptar e atualizar suas cidades existentes. Conforme sua população começar a diminuir, pode até valer a pena fechar as cidades inviáveis e consolidar.

(Via Zero Hedge)

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China Online

A BBC divulgou um resumo das estatísticas da Internet na China, extraídas do banco de dados da CNNIC. De acordo com o resumo da BBC:

A China tem agora 591 milhões de usuário de internet, de acordo com os últimos números oficiais do país. O China Internet Network Information Centre (“Centro de Informações sobre Redes de Internet da China”) adicionou que 464 milhões de cidadãos acessaram a net por meio de smartphones ou outros dispositivos wireless.

Sua população online é de longe a maior do mundo, bem mais do que duas vezes maior do que a da América (a segunda maior do mundo, com 254 milhões, com a Índia em terceiro, com 154 milhões).

O detalhado Relatório Estatístico sobre o Desenvolvimento da Internet na China do CNNIC (de janeiro de 2013), disponível online aqui, mostra que a China adicionou mais de 50 milhões de usuário de Internet no ano com fim em 2012. Ao longo da meia década de 2007 a 2012, o número de chineses acessando a Internet por meio de telefones móveis subiu de apenas cerca de 50 milhões para quase 420 milhões. O último número de 464 milhões representa um crescimento em rápida aceleração e é responsável por uma maior significativa dos usuários de Internet do país.

Nacionalmente, as taxas de penetração da Internet em dezembro de 2012 estavam em média um pouco acima de 42%. Elas eram mais altas em Pequim (72.2%), Shanghai (68.4%), Guangdong (63.1%) e Fujian (61.3%) e acima de 50% em Zhejian, Tianjin, Liaoning e Jiangsu.

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Recuperação

[Pequenos pedaços e peças do UF2.0 foram agrupados aqui]

Captura de Movimento: Doce para os olhos dos urbanófilos.

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Ma Yansong: Siga o link para ver com o que as cidades chinesas vão começar a se parecer, se Ma Yansong for decidir. O Urbano Futuro considera Ma como bastante possivelmente o arquiteto mais empolgante trabalhando no mundo hoje. Quanto mais influência ele conseguir sobre as paisagens urbanas do amanhã, tanto mais deleitados ficaremos.

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Snacktivismo: A Shanghai Studies Society (organizadora do Shanghai Studies Symposium) está procurando potenciais participantes em seu projeto Moveable Feasts (“Banquetes Móveis”), concebido como uma série interligada de eventos e publicações sobre o tópico da comida de rua de Shanghai. Para um gostinho rápido da orientação da SSS, confira o seu (altamente apimentado) Manifesto da Comida de Rua que busca angariar pessoas para a causa. + De bônus, um rastreador de comida de rua (obrigado Josh)

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[b]Mais Uma Vez[/l]: Sean Thomas [l=http://blogs.telegraph.co.uk/news/seanthomas/100223134/americas-supremacy-is-finished-why-dont-we-understand-this/]faz[/l] um ponto simples, mas importante no /Daily Telegraph/ do Reino Unido, sustentado por datas e estatísticas: /A China já é, portanto, de muitas maneiras, o país mais importante do mundo – de longe/. (Leia tudo.)

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Teoria das Franjas: No Gene Expression, Razib Khan sugere que a história é feita nas bordas.

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Benjinx: De Brendan O’Kane, no Rectified:name:

Oficiais do governo estão planejando mover a capital da China para Xinyang, uma cidadezinha em Henan da qual você nunca ouviu falar! Eu sei que isso é verdade porque um cara no Weibo disse isso algumas semanas atrás. O Tea Leaf Nation tem um post sobre essa conversa.

Isso não é particularmente novo. Wang Ping, um professor na Capital University of Economics and Business, sugeriu realocar a capital em 1980 e tem havido agitações periódicas da discussão desde então, geralmente seguindo-se firmes nos calcanhares de tempestades de areia, ar-pocalipses, enchentes, engarrafamentos do tamanho da cidade e outros lembretes de que, com ou sem um bom feng-sui, existem desvantagens reais de se viver em uma bacia de polução na borda do deserto de Gobi, cujos lençóis freáticos caíram cerca de 10 metros ao longo da última década e cujas renovações pós-1949 podem ser usadas para dar aulas em cursos de planejamento urbano no Inferno.

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Nuvens de Tempestade: O Zero Hedge está passando uns alardes de destruição de alta qualidade do comentarista econômico superstar na China, Li Zuojun.

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Drones sobre o Huangpu: Essa história ficou com todo o pacote de biscoitos.

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FredShasta comentou (sobre Ma Yonsong): Existem modelos dessas coisas em exposição no Himalayas Art Museum em Shanghai agora (o Zendai Himalayas Center provavelmente parecia bem legal na sua fase de projeto, também, mas a construção mesmo é um pouco… menos do que excelente).

Resposta do Admin: Essa exibição é fantástica — Estou querendo postar sobre ela, mas ficou bastante complicado. É triste ouvir que a execução é decepcionante, mas acho que é de se esperar.

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A Tentação do Vazio (Parte 3a)

Existem duas questões relacionadas apresentadas pela exploração humana. Primeiro, há algo economicamente útil para se fazer lá fora que pague sua viagem? E, segundo, você consegue viver do solo e usar recursos locais para sobreviver, ou estaremos sempre amarrados ao sustento vindo da Terra? Se a resposta a ambas for sim, então você tem colônias espacias, vida auto-sustentável fora do planeta. Se a resposta a ambas for não, então o espaço é como o Monte Everest. Turistas podem ir ao Monte Everest, os sherpas podem ganhar a vida com isso, mas ninguém realmente vive lá. Se a resposta é que você pode viver da terra, mas não é economicamente útil, é como a Antártica. Foram 40 anos entre a última vez que estivémos lá, quando Shackleton alcançou a Antártica e quando a Marinha dos E.U.A. voltou em 1912. Há um lapso similar entre ir à Lua pela primeira vez e, com sorte, quando retornaremos. Nesse caso, você pode formar um posto avançado e viver lá, mas você é sustentado por um financiamento constante, uma vez que a engenharia não se paga. Se a resposta é que existem coisas economicamente úteis para se fazer, tais como minerar hélio-3 na Lua, mas somos sempre dependentes da Terra para as necessidades básicas, então o espaço se torna uma plataforma de petróleo no Mar do Norte. Você pode fazer dinheiro lá, mas será sempre um ambiente hostil. Esses são quatro futuros humanos radicalmente diferentes. E eles são todos parte de uma questão mais ampla: Há um futuro humano para além da Terra? É uma questão que está no mesmo patamar de se existe vida inteligente em outros lugares no universo. Podemos procurar vida com sondas e telescópios, mas para determinar o alcance de vida da humanidade, teremos que mandar seres humanos para o espaço.
Scott Pace

Qual deveria ser a carga útil? Não importa. Esse é o ponto. Não se trata de levar uma carga útil ao espaço: isso é quase irrelevante. Trata-se de garantir um mercado para as empresas que oferecem serviços de lançamento para fazer as coisas funcionarem. Estou falando totalmente sério. Se não pudéssemos pensar em nada melhor para lançar, blocos de concreto estariam de bom tamanho. Minha filosofia é: Lançar qualquer coisa é bom. — Paul Almond

A base material para um futuro espacial não está apenas encalhada no espaço, mas também encalhada no tempo. Não apenas os recursos gravitacionalmente liberados a partir dos quais ele se montaria estão espalhados ao longo de imensidões intimidantes de distância vazia, mas o limiar em que tudo começa a se juntar – em um economia extraterrestre autocatalítica – está separado do mundo de incentivos presentes e práticos por golfos pavorosos de perda incalculável. Em uma variante da antiga piada, se sair do planeta é a meta, um planeta é absolutamente o pior lugar de onde se partir. “Eu posso lhe dizer como chegar lá”, o local prestativamente observou. “Mas você não deveria começar aqui.”

Estar lá fora poderia rapidamente começar a fazer sentido, contanto que já estivéssemos lá. Experimentar com essa mudança de perspectiva torna o impulso animador mais claro. De forma mais reveladora, isso expõe o quão profundamente os planetas sugam, de modo que simplesmente não estar em um vale quase qualquer coisa. Esse é o fim do jogo, a estratégia final, que organiza tudo, em última análise, com a anti-gravidade como chave.

Uma vez que a gravidade seja percebida como o arquétipo natural do aprisionamento, que te mantém em algum lugar, quer você queira estar lá ou não, as motivações econômicas terrestres para a expansão exo-planetária são reveladas em sua falsidade fundamental. A razão para se estar no espaço é estar no espaço, liberado da sucção planetária, e quaisquer benefícios para os habitantes da Terra que possam se acumular no caminho são meros trampolins. Recursos exo-planetários desviados para a superfície da Terra são, no esquema espacial definitivo, despediçados ou, pelo menos, estrategicamente sacrificados (uma vez que tal desperdício quase certamente é necessário no ínterim). Na análise final, o valor de qualquer coisa que seja é degradado em proporção direta às influências gravitacionais exercidas sobre ela, e a descida dos céus é uma queda.

Uma visão mais ampla sobre o desenvolvimento cosmológico aguça a resolução (embora isso exija que as inestimáveis compreensões de Smart sejam deixadas estritamente de lado, e os buracos negros sejam evitados com o máximo de parcialidade). Escale em avanço rápido até que o processo de escapada extraterrestre tenha sido substancialmente realizado, aí congele as telas. Fugir da gravidade agora pode ser visto como não mais que o primeiro passo em uma disputa mais completa e antagonista com a gravidade e suas obras. Asteroides e cometas estão sendo pulverizados, minerados ou furados até virarem esponjas, deixando luas, planetas e o próprio sol como problemas locais de interesse. Tais corpos são ‘problemas’ porque eles deformam o espaço com poços de gravidade, que prendem recursos, mas seu status enquanto obstáculos ao desenvolvimento pode ser ainda mais abstraído. Esses mundos, pelo menos parcialmente isolados do emergente commercium do espaço profundo por sua própria massa, foram moldados pela gravidade em esferas aproximadas, o que seria dizer – da perspectiva do desenvolvimento – nas piores formas que são matematicamente possíveis, uma vez que elas minimizam a razão entre superfície (reativa) e volume e, assim, restringem a acessibilidade aos recursos na maior medida concebível. Bem lá fora, no espaço e no futuro profundos, o impulso de desenvolvimento emergente fica totalmente Vogon e as demole completamente.

Quando vistos de fora, planetas são cemitérios, onde minerais preciosos estão enterrados. Ao cavar pelo manto da Terra, por exemplo, fundo até seu fim interior, 3000 km abaixo da superfície, se chega a um depósito de ferro-níquel de alta pressão com mais de 6500 km de diâmetro – um globo de metal em um cofre planetário com cerca de 160.000.000.000 quilômetro cúbicos de tamanho, envernizado com ouro e platina suficientes para revestir toda a superfície da terra até uma profundidade de meio metro. Para uma civilização exo-planetária moderadamente avançada, ponderar as praticalidades de sua primeira demolição em escala planetária, deixando esse tesouro enterrado de recursos no lugar tem um custo de oportunidade robótico-industrial que pode ser estimado, de maneira conservadora, na região de 1.6 x 10^23 inteligências de nível humano, um estoque mineral suficiente para manufaturar um trilhão de sondas auto-replicantes sencientes para cada estrela na galáxia. (Mesmo ardentes conservacionistas têm que reconhecer o quão delicioso esse bocado vai parecer.)

Decolagens, então, são meramente precursoras do primeiro platô sério de tecnologia antigravidade, que está orientado à tarefa mais profundamente produtiva de desmontar coisas a fim de converter esferas de massa comparativamente inertes em nuvens voláteis de substância cultural. Assumindo uma infraestrutura energética na fase de fusão, esse estágio inicial de desenvolvimento exo-planetário culmina no desmonte do sol, pondo termo ao processo nuclear absurdamente perdulário da sequência principal, recuperando suas reservas de combustíveis e, assim, fazendo a contribuição do sistema solar desperto para o escurecimento tecno-industrial da galáxia. (Pare de desperdiçar hidrogênio, e as luzes se apagam.)

Foque durante alguns segundos na irritabilidade econômica que surge da visão de um poço de petróleo expelindo gás natural por pura incompetência irracional, depois olhe para o sol. ‘Insustentável’ sequer chega perto de descrever isso. Claramente, esse maquinário energético é totalmente demente, equivalendo a uma orgia azathótica de fótons derramados. Todo o aparato precisa ser desmontado, através de uma cirurgia solar extrema. Uma vez que esse projeto ainda está por receber uma consideração sustentada, contudo, os detalhes específicos de engenharia podem ser seguramente colocados entre parênteses por enquanto.

A lógica inexorável da eficiência tecno-industrial, em seu vetor antigravidade, significa que a única motivação consistente para se deixar a terra é desmontar o sol (junto com o resto do sistema solar), mas isso não pega bem no sertão. Sem surpresas, portanto, aqueles sensibilizados pelas realidades políticas, percepções midiáticas e relações públicas estão inclinados a enfatizar outras coisas, retratando a terra como um destino para recompensas cósmicas ou – de maneira inada mais imediata – carne de porco suculenta financiada por impostos, em vez de como um problema de demolição complicado, mas altamente recompensador.

Conspicuamente ausente do debate público sobre o espaço, portanto, está qualquer admissão franca de que “(vamos encarar, pessoal) – os planetas são alocações ruins de matéria que realmente não funcionam. Ninguém quer lhes dizer isso, mas é verdade. Você sabe que respeitamos profundamente o movimento verde, mas quando saímos lá fora na rodovia principal do re-desenvolvimento do sistema solar, e certas atitudes ambientalistas muito rígidas e muito extremas – sobrevivencialismo gaiano, holismo terrestre, preservacionismo planetário, esse tipo de coisa – estão bloqueando o caminho adiante, bem, deixe-me ser bem claro sobre isso, isso significa empregos não sendo criados, empresas não sendo construídas, fábricas fechando no cinturão de asteróides, crescimento perdido. Manter a Terra inteira significa dólares pelo ralo – muitos dólares, seus dólares. Existem pessoas, pessoas sinceras, pessoas boas, que se opõem fortemente aos nossos planos de deliberadamente desintegrar a terra. Eu entendo isso, de verdade, eu entendo, sabe – honestamente – eu costumava me sentir dessa maneira também, há não muito tempo. Eu também queria acreditar que era possível deixar esse mundo inteiro, como ele tem estado por quatro bilhões de anos agora. Eu também pensava que as velhas maneiras provavelmente eram as melhores, que esse planeta era o lugar ao qual pertencíamos, que deveríamos – e poderíamos – ainda encontrar alguma alternativa a desmontá-lo. Eu lembro desses sonhos, de verdade, eu lembro, e eu ainda os mantenho junto do meu coração. Mas, pessoal, eles eram apenas sonhos, sonhos antigos e nobres, mas sonhos, e hoje eu estou aqui para lhes dizer que temos que acordar. Planetas não são nossos amigos. Eles são lombadas na estrada para o futuro, e nós simplesmente não podemos mais pagar por eles. Vamos salvá-los em formato digital, com respeito, sim, até mesmo com amor, e então vamos ao trabalho…” [Aplausos estrondosos]

Uma vez que, durante o atual estágio da ambição extraterrestre, o favorecimento de partidários do desintegracionismo cósmico não pode ser razoavelmente concebido como um vencedor infalível de eleições, é de se esperar que a retórica desse tipo tenha sido silenciada. Ainda assim, na ausência de uma visão dessas ou de um alinhamento consistentemente extrapolado com a antigravidade, o impulso exo-planetário está condenado a arbitrariedade, insubstancialidade e insinceridade de expressão. Ausente um sentido não comprometido de algo além, por que não ater a isso? O resultado tem sido, talvez previsivelmente, um reino de semi-silêncio sobre o tópico de projetos extraterrestres, mesmo em relação às suas variedades mais limitadas, imediatas e praticamente incontestáveis.

Se escapar da Terra – e do confinamento gravitacional em geral – não é um fim inteligível, mas apenas um meio, o que fornece a motivação? É nessa fenda de aspiração apertada e estranhamente deformada que o NewSpace deve se insinuar. Falar de ‘insinceridade’ pode parecer indevidamente severo – uma vez que não há nenhuma razão para suspeitar de fraude consciente, ou mesmo de ressalvas cuidadosamente calibradas, quando os defensores do NewSpace esboçam seus planos. Uma estrutura envolvente de implausibilidade, não obstante, se anuncia em cada projeto que é promovido, manifestada através da incomensurabilidade entre a escala do empreendimento e as recompensas que supostamente o incentivam. Turismo espacial, mineração de asteróides, experimentação e manufatura em microgravidade… sério? É genuinamente imaginável que essas parcas metas motivam de maneira final ou suficiente uma luta prolongada contra a armadilha gravitacional terrestre, em vez de servir como frágeis pretextos ou racionalizações para a busca de objetivos bem mais convincentes, embora nebulosos, inarticulados ou mesmo completamente insuspeitos?

Quando essa questão é estendida para trás, e para fora, ela ganha força. Estique-a de volta até a Lua, e até Marte, e a inferência se torna cada vez mais irresistível. Nenhuma dessas ‘missões’ fazia, ou fazem, qualquer sentido que seja, exceto na medida em que elas abreviam algum impulso mais amplo e não revelado. A atividade espacial não é o meio para um fim visado, mas o fim a ser promovido por uma sequência de missões, cujo conteúdo específico é, portanto, derivado e vazio de significância intrínseca. Uma vez que o ímpeto para fora decai, não deixando nada além de um destino extraterrestre arbitrário para representá-lo, o absurdo puro que rapidamente é exposto extingue as últimas brasas cintilantes de motivação popular. Quatro décadas de niilismo lunar atestam isso abundantemente.

Embora a privatização parcial da atividade espacial (o ‘NewSpace’) desloque de maneira criativa o problema do propósito, ela não o dissipa de maneira radical. Em certo grau, o NewSpace substitui por motivações econômicas de operadores privados díspares a justificação política de uma burocracia pública concentrada e, ao fazê-lo, alivia a pressão de se manter objetivos coerentes, comunicáveis e consensuais. Ambições espaciais são liberadas para entrar no terreno fragmentado e competitivo da idiossincrasia, da variedade, da experimentação e até mesmo da frivolidade financiada de maneira pessoal. Poderia até se pensar que a seriedade se torna opcional.

Quando examinado de maneira mais obstinada, contudo, é claro que o problema básico persiste. O poço de gravidade terrestre produz uma cisão entre a superfície da terra e a ‘órbita’ (ou além), e o capital privado não é menos severamente divido por esse cisma do que as ferragens ‘públicas’ do Estado-Foguete. Embora conversível temporariamente em formas de valor inerte e armazenado, o capital é um fenômeno essencialmente moderno, nascido na revolução industrial e tipicamente definido pelo desvio do consumo imediato para a produção ‘indireta’, ou seja: maquinário. Ele é reproduzido, ou acumulado, ao circular por entre máquinas, ou aparatos, e é sobre isso que o poço gravitacional compele uma decisão: o capital do NewSpace deve ser investido, inequivocamente, no espaço?

Um programa espacial sério é, de maneira fundamental e irredutível, um processo de evacuação terrestre. Ele requer a realocação (ou des-locação) consistente de empreendimentos, recursos e capacidades produtivas da terra para o espaço, pelo menos até que o limiar de autocatálise extraterrestre seja alcançado, ponto no qual uma quebra é realizada e um economia exo-planetária autônoma é estabelecida. Quaisquer que sejam as oportunidades de ofuscação (que provavelmente são consideráveis), a decisão básica permanece sem ser afetada. O acúmulo de uma fortuna terrestre não é de forma alguma o mesmo que o investimento sustentado em uma infraestrutura industrial exo-planetária e, na verdade, é quase certamente economicamente inconsistente com ele. Ou as coisas estão sendo transferidas para o espaço, de maneira irrevogável, ou não.

[pausa para o bolo lunar]

Original.