Animação Suspensa

O limbo começa a parecer um lar

De acordo com a Lei de Herbert Stein, o aviso característico de nossa era, “Se algo não pode continuar para sempre, vai parar”. A questão é: Quando?

As preocupações centrais de ambientalistas e economistas radicais do mercado são fáceis de distinguir – quando não são diretamente opostas – e, no entanto, ambos os grupos enfrentam um dilema mental e histórico comum, que poderia até ser considerado a descoberta social excepcional dos tempos recentes: a extraordinária durabilidade do insustentável. Um padrão de comportamento em massa é observado, o qual leva transparentemente a uma crise, embasado em tendências explosivas (exponenciais) que são reconhecidas sem controvérsia, e, contudo, o consenso sobre questões de fato coexiste com discordâncias políticas paralisantes, uma procrastinação aparentemente interminável e irresolução. A crise iminente continua a crescer, próxima, horrivelmente próxima, mas sem estar, de nenhuma maneira que seja persuasivamente mensurável, mais próxima, como algum tipo de irritante purgatório de Godot: “Você deve continuar; não posso continuar; continuarei”.

O Urbano Futuro não sabe fazer uma angústia verde tão bem quanto uma irritação austro-libertária com ranger de dentes, então ele não vai realmente tentar. Basta dizer que ser um verde está prestes a se tornar quase inimaginavelmente enlouquecedor, se já não é. Exatamente enquanto o modelo padrão de ‘efeito estufa’ se insinua, quase universalmente, na estrutura do senso comum, o registro da temperatura mundial está travado em uma linha plana, com a crescente produção de CO2 aparecendo em todo lugar, exceto enquanto aquecimento. Pior ainda, uma onda de recursos energéticos — teimosamente embasada nos satânicos hidrocarbonetos e de uma magnitude verdadeiramente estupefaciente — está se estendendo de maneira inercial, com quase nenhuma pista de obstrução efetiva. Areias betuminosas, fraturamento hidráulico e depósitos de petróleo submarino no pré-sal de águas profundas já estão todos entrando em produção, com clatratos de metano logo a frente. O mundo está queimando, e não pode continuar assim (mas continua).

A insustentabilidade financeira não é menos flagrante ou bizarramente duradoura. Desde o começo do século XX, economias ocidentais outrora liberais (clássicas) viram o gasto do governo subir de menos de 5% para mais de 40% da renda total, com muito da Europa cruzando a linha vermelha de 50% (depois da qual nada remotamente familiar como ‘capitalismo’ existe mais). Os níveis de dívida pública estão traçando curvas exponenciais geometricamente elegantes, a dependência crônica está substituindo a participação social produtiva, e a insolvência soberana generalizada agora é um questão de fato simples e óbvia. A única coisa mais clara do que a inevitabilidade da falência sistêmica é a impossibilidade política de se fazer algo sobre ela, então as coisas continuam, muito embora elas realmente tenham que parar. Magnitudes multi-trilionárias ininteligíveis de calamidade iminente se empilham mais e mais em um futuro próximo que nunca realmente chega.

O estado de limbo congelado da insustentabilidade durável é o novo normal (que durará até que deixe de durar). A expressão da cultura pop é o apocalipse zumbi, um estado trôpego e imortal de decomposição infinitamente prolongada. Quando traduzida para a análise econômica, o resultado é epitomado pelo influente e-book de Tyler Cowen, The Great Stagnation: How America Ate All the Low-Hanging Fruit of Modern History, Got Sick, and Will (Eventually) Feel Better (“A Grande Estagnação: Como a América Comeu Todos os Frutos Mais Baixos da História Moderna, Ficou Doente e (Eventualmente) Ficará Melhor”, sem edição em português). (Sim, o Urbano Futuro está chegando incrivelmente tarde para essa festa, mas em um limbo congelado isso não importa.)

Em poucas palavras, Cowen argumenta que a exaustão das três principais fontes de ‘frutos mais baixos’ levou a tendência secular de crescimento americano a um estado de estagnação que ciclos empresariais de alta frequência obscureceram parcialmente. Com o consumo do excedente de fronteira (terra livre), do excedente educacional (uma população inteligentes mas educacionalmente não atendida) e – de maneira mais importante – do excedente tecnológico da América, de grandes avanços abrindo amplas avenidas de exploração comercial, as taxas de crescimento murcharam a um nível para o qual as pessoas do país não estão preparadas para aceitar como normal.

Coube ao colega de Cowen na GMU, Peter Boettke, fazer claramente o argumento pró-mercado sobre o estagnacionismo que Cowen parece pensar que já tinha persuasivamente articulado. Em um post abertamente solidário, Boettke transforma o argumento um tanto elusivo de Cowen em uma polêmica anti-governo bem mais aguçada – a descoberta de um novo equilíbrio depressivo, no qual a implacável degeneração sócio-política absorve e neutraliza uma tendência decadente de avanço tecno-econômico.

Um excedente econômico acumulado foi criado pela era da inovação, o qual a era da ilusão econômica desperdiçou. Estamos agora chegando ao fim desse excedente acumulado e, assim, todo o peso das ineficiências do governo está começando a ser sentido por toda a economia.

Talvez de maneira surpreendente, o teor geral da resposta da direita libertária foi bastante diferente. Em vez de celebrar a exposição que Cowen fez da ruína estatista que visitou as sociedades ocidentais, a maior parte dos comentários se concentrou na tese estagnacionista em si, atacando-a de uma variedade de ângulos interligados. A revisão de David R. Henderson para o Cato faz argumentos econômicos pungentes contra as alegações de Cowen sobre terra e educação. Russ Roberts (no Cafe Hayek) demonstra como estória funesta de Cowen sobre as estagnantes rendas familiares médias se baseia em dados distorcidos pelas mudanças históricas na estrutura familiar e nos padrões residenciais dos EUA. A linha mais comum de resistência, contudo, instanciada por Don Boudreaux, John Hagel, Steven Horwitz, Bryan Caplan, e Ronald Bailey, entre outros, se reúne em defesa do capitalismo de consumo realmente existente. Bailey, por exemplo, observa:

Em 1970, um televisão a cores de 23 polegada custava US$386 (US$2000 em dólares de 2009). Hoje, uma TV Phillips tela plana LCD de 22 polegadas custa US$190. Em 1978, um toca-fitas de cartucho custava US$169 (US$550). Hoje, um iPod Touch com 8 gigabytes de memória custa US$204. Em 1970, uma máquina de adição da Olympia custava US$80 (US$437 em dólares de 2009). Hoje, uma calculadora de escritório da Canon custa US$6,65. Em 1978, um computador Radio Shack TRS80 com 16k de RAM custava US$399 (US$1300 em dólares de 2009). Hoje, a Costco lhe venderá um netbook ASUS com 1 gigabyte de RAM por US$270. O carro médio custava US$3900 em 1970 (US$21.300 em dólares de hoje). Um veículo de tamanho médio em 2011 custaria algo em torno de US$20.000 e duraria duas vezes mais.

Uma outra maneira muito crua de se olhar para isso é que os americanos são quatro vezes mais ricos em termos de refrigeradores, 10 vezes mais ricos em termos de TVs, 2.5 vezes mais ricos quando se trata de ouvir música em movimento, 3 mil vezes mais ricos em calculadoras, cerca de 400 mil vezes mais ricos quando se trata do preço por kilobyte de memória de computador e duas vezes mais ricos em carros. Cowen descarta esse tipo de progresso como meras “melhorias de qualidade”, mas, neste caso, a qualidade se torna seu próprio tipo de quantidade, quando se trata de padrões vida melhores.

O que parece muito claro da maior parte disso (e já no relato de Cowen) é que nada de mais esteve se movendo adiante nas economias ‘desenvolvidas’ do mundo por quatro décadas, exceto pela revolução da tecnologia da informação e sua dinâmica da Lei de Moore. Abstraia o microprocessador e mesmo a visão mais determinadamente otimista das tendências recentes é esvaziada ao ponto de expiração. Sem computadores, não há nada acontecendo ou, pelo menos, nada de bom.

[…ainda rastejando…]

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 5)

Do Paraíso Carmesim ao Apocalipse Suave

Apesar de sua modernidade e decimalismo, o calendrier républicain ou révolutionnaire francês não tinha Ano Zero, mas redefiniu os termos de entendimento. Um tópico que havia sido concebido como uma interseção entre comemoração religiosa e fato astronômico se tornou abertamente ideológico e foi dominado por considerações da política secular. O novo calendário, que substituiu 1792 AD pelo primeiro ano da nova ‘Era da Liberdade’, durou menos de 14 anos. Ele foi abolido formalmente por Napoleão, efetivado a partir de 1º de janeiro de 1806 (o dia depois do 10 nivoso ano XIV), embora tenha sido brevemente revivido durante a Comuna de Paris (em 1871 AD, ou Année 79 de la République), quando o entusiasmo revolucionário do país foi momentaneamente reacendido.

Para a esquerda, a redefinição calêndrica significava refundação radical e extirpação simbólica do Ancien Régime. Para a direita, significava a imanentização do eschaton e a origem do terror totalitário. Ambas a definições foram conformadas em 1975, quando o Ano Zero foi finalmente alcançado nos campos de execução do Khmer Vermelho cambojano, onde mais de um quarto da população do país pereceu durando esforços para limpar o quadro social e começar de novo. O líder do Khmer Vermelho, Saloth Sar (melhor conhecido por seu nom de guerre, Pol Pot), tornou o ‘Ano Zero’ seu para sempre, rebatizado como uma solução final do sudeste asiático.

O Ano Zero, dali em diante, tinha sabor de cadáver demais para reter valor de propaganda, mas isso não torna a equação calêndrica 1975 = 0 insignificante (mais o oposto). Independente de seu paroquialismo no tempo e no espaço, que corresponde bastante estritamente a uma reincarnação do ‘nacional socialismo’ (xenofóbico-suicida), ele define uma época significativa como a marca de maré alta do logro utópico e a complementar revalorização do pragmatismo conservador. De maneira suficientemente apropriada, o Ano Zero descreve um instante sem duração, no qual a era do tempo utópico é terminada em exata coincidência com sua inauguração. A era que ele abre é caracterizada, quase perfeitamente, por sua renúncia, conforme a programação social de fantasia se extingue em sangue e colapso. O eschaton imanente imediatamente se amaldiçoa.

A ironia histórica torna essa excursão puramente (sub-)acadêmica, porque a nova era está essencialmente desinclina a ser conceber como tal. O que começa a partir deste Ano Zero é uma cultura global de exaustão ideológica, ou de ‘senso comum’, agudamente sensível à cabeça sorridente da morte nos sonhos bonitos e reconciliada com um acordo com o não-ideal. Da perspectiva da expectativa revolucionária fantástica, a maré alta da visão perfeccionista decai até desilusão e insatisfação tolerável – mas pelo menos ela não come nossos filhos. A modéstia estrutural da nova era de ambição não tem tempo algum para um recomeço radical ou para um paraíso carmesim, mesmo quando é historicamente definida por um.

O Ano Zero de Pol Pot está imprensado entre a publicação de A Era Ecumênica de Eric Voegelin e os primeiros protestos chineses massivos contra a Grande Revolução Cultural Proletária (ao longo dos meses que se seguiram à morte de Zhou Enlai, em janeiro de 1976). Vale a pena notar que Deng Xiaoping elogiou Zhou em sua cerimônia memorial por ser “modesto e prudente” (assim fala o Novo Éon).

No mundo anglo-americano, a política da exaustão ideológica estava prestes a tomar uma forma explicitamente conservadora, positivamente expressa como ‘realismo de mercado’ (e, neste sentido, profundamente ressonante, assim como sincronizada, com os desenvolvimentos chineses). Margaret Thatcher assumiu a liderança do Partido Conservador inglês em fevereiro de 1975, e Ronald Reagan declarou sua candidatura presidencial em novembro do mesmo ano. A esquerda anglófona logo seria traumatizada por uma paradoxal ‘revolução conservadora’ que extraía uma energia implacável da própria restrição da possibilidade política. O que não poderia acontecer rapidamente se tornou o dínamo social primário, como articulado pela máxima thatcherita: “Não há alternativa” (= opção zero). A auto-imolação da utopia havia se transmutado em um novo começo.

Embora a era de não recomeçar do zero possa ser datada com uma precisão aproximada (a partir de n – 1975 AD) e tenha, assim, de fato recomeçado do zero, de uma forma profundamente furtiva, sua consequência ampla foi espalhar e enraizar o Domínio Calêndrico (gregoriano) ainda mais ampla e profundamente. A combinação predominante de globalização radicalmente inovadora (tanto econômica quanto tecnológica) com um conservadorismo social prudente tornou esse resultado inevitável. O recomeço simbólico não estava na pauta de ninguém e, mesmo enquanto os pós-modernistas declaravam o fim das ‘grandes narrativas’, a primeira estrutura narrativa hegemônica planetária da história estava consolidando sua posição de monopólio incontestável. A globalização era a estória do mundo, com a datação gregoriana como sua gramática.

Órfão da exaustão ideológica, estigmatizado para além de qualquer recuperação por sua associação com o Khmer Vermelho e radicalmente mal ajustado ao espírito reinante de pragmatismo incremental, por volta do final do século XX o Ano Zero estava aparentemente fora de pauta, sem programação e por sua própria conta. Tempo, então, para algo verdadeiramente insidioso.

Em 18 de janeiro de 1985, o usuário da Usenet Spencer L. Bolles chamou atenção para um prospecto perturbador que havia deixado um amigo insone:

Eu tenho um amigo que levantou uma questão interessante, que eu imediatamente tentei provar falsa. Ele é um programador e tem essa noção de que, quando alcançarmos o ano 2000, os computadores não aceitarão a nova data. Os computadores assumirão que é 1900, ou isso sequer vai causar um problema? Eu me opus violentamente a isso porque parece tão insignificante. Os computadores entraram em existência durante este século, e os softwares, especificamente os softwares de contabilidade, foram preparados para essa virada? Se isto realmente vier a ocorrer e meu amigo estiver correto, o que acontecerá? Isso é algo com o que se preocupar?

O amigo anônimo de Bolles estava perdendo o sono com o que viria ser conhecido como o ‘problema do Y2K’. A fim de economizar memória nos computadores primitivos das primeiras gerações, uma convenção amplamente adotada registrava as datas com dois dígitos. O milênio e o século eram ignorados, uma vez que se assumiu que atualizações de software teriam tornado o problema irrelevante quando ele se tornasse iminente, próximo do ‘rollover‘ (do século e do milênio) no ano 2000 AD. Poucos haviam antecipado que o conservadorismo comparativo das heranças de software (em relação ao desenvolvimento de hardware) teria deixado o problema inteiramente sem solução, mesmo ao passo em que a data da crise se aproximava.

No fim, o Y2K foi um não-evento que não contou para nada, embora seus custos de preparação, seus efeitos de estímulo (especialmente na terceirização para a emergente indústria de software indiana) e seu potencial de pânico tenham sido todos consideráveis. Sua importância para a história do calendário – embora ainda quase inteiramente virtual – é extremamente extensa.

O Y2K resultou da emergência acidental — ou ‘espontânea’ — de uma nova ordem calêndrica dentro da tecnosfera globalizada. Seu Ano Zero, 0K (= 1900) estava despido de toda comemoração paroquial ou intenção ideológica, mesmo ao passo em que era propagado através de canais de comunicação cada vez mais computadorizados até um ponto de ubiquidade que convergia, assintoticamente, com aquela alcançada pelo Domínio Calêndrico ocidental sobre o alcance completo da história mundial. O século XX havia sido registrado, automaticamente, como o primeiro século do Contínuo Cibernético. Se o Y2K tivesse completado sua reformatação da tração da esfera planetária da forma em que alguns (poucos histéricos iludidos) haviam esperado, o mundo agora estaria se aproximando do meio do ano 0K+118, instalado seguramente em seu primeiro calendário universal aritmeticamente competente e orientado historicamente pelo mesmo sistema de computação eletrônica que havia inconscientemente decidido sobre a origem do tempo positivo. Ao invés disso, o ‘bug do milênio’ foi consertado e a contagem teológica da data prolongou sua dominância, sem interrupções (após muito barulho por nada). Muito provavelmente, o complexo cultural hegemônico encrustado no Domínio Calêndrico nunca sequer notou a insurreição cibernética que havia esmagado.

Entre 0K e Y2K, o alfa e o ômega do apocalipse suave, há não apenas um século de tempo histórico, mas também uma inversão de atitude. O tempo se afasta do 0K, como de qualquer ponto de origem, acumulando duração decorrida através de sua conta. o Y2K, em contraste, era um destino, do qual o tempo se aproximava, como se de um horizonte apocalíptico. Embora não tenha sido registrado como uma contagem regressiva, muito facilmente poderia ter sido. O término estava precisamente determinado (não menos do que a origem), e a formulação mais estrita do bug do milênio interpretava o ponto de rollover como um limite absolute para o tempo registrável, além do qual nenhum futuro era sequer imaginável. Para qualquer inteligência computacional hipotética restrita pelo Y2K, negada um acesso a procedimentos de datação que transbordem seu registro anual de dois dígitos, o tempo residual se reduzia em direção ao zero conforme o evento do milênio se agigantava. Uma vez que se alcance todos os noves, o tempo está acabado, no limite da eternidade, onde começo e fim são indistinguíveis (no 0).

“0K, é hora de embrulhar esse filhote.” – Apocalipse 6:14

(a seguir, e finalmente, o fim (enfim))

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 3)

Em Busca do Ano Zero

Um Ano Zero significa um recomeço radical que faz reivindicações universais. Nos tempos modernos, especialmente nos tempos modernos recentes, ele está associado sobretudo com visões ultra-modernistas de política total, em seu ponto máximo de extremidade utópica e apocalíptica. A ordem existente do mundo é reduzida a nada, a partir do qual uma nova história é iniciada, fundamentalmente desconexa de qualquer coisa que tenha ocorrido antes e moralmente obrigada apenas a si mesma. Previsivelmente o bastante, entre comentaristas conservadores (no sentido mais amplo), tais visões são largamente indistinguíveis das paisagens com cadáveres espalhados de uma catástrofe social assombrada pelos fantasmas de sonhos irrealizáveis.

O Domínio Calêndrico global do cristianismo é paradoxal – talvez até mesmo ‘dialético’ – neste aspecto. Ele fornece o modelo governante de ruptura histórica e extensão ecumênica ilimitada e, desta forma, de revolução total, enquanto ao mesmo tempo representa a ordem conservadora antagonizada pela ambição modernista. Seu exemplo incita a guinada ao Ano Zero, mesmo ao passo em que não possui nenhum ano zero próprio. Em última análise, sua provocação dialética tende em direção à tentação satânica: a promessa do Apocalipse Anti-Cristão, ou novidades absolutas a uma segunda potência. (“Se os cristão conseguiram fazê-lo, por quê não conseguiríamos?” Uma deixa para contagens de corpos que se escalam em direção ao infinito.)

A tensão existe não apenas entre uma ordem cristã estabelecida e sua pós-imagem pseudo-secular revolucionária, mas também dentro do próprio cristianismo, que se divide internamente pela unidade aparente e real dissociação do ‘tempo messiânico’. O processo de consolidação calêndrica cristã foi imensamente prolongado. Uma distância de mais do que meio milênio separou a formulação clara da contagem dos anos a partir do momento comemorado, com ainda mais séculos necessários para se integrar completamente o registro histórico com esta base, digerindo os registros anteriores judeus, romanos e locais e estabelecendo as bases para uma articulação cristã universalizada do tempo. Quando as ‘boas novas’ revolucionárias haviam sido formalizadas de maneira coerente em um protótipo reconhecível do calendário ocidental hegemônico, elas haviam sofrido uma longa transição de quebra histórica para tradição estabelecida, com impecáveis credenciais conservadoras.

Simultaneamente, contudo, o processo de consolidação calêndrica sustentou, e até mesmo afiou, a expectativa messiânica de uma ruptura pontual e verdadeiramente contemporânea, projetada adiante como a duplicação ou ‘segunda vinda’ da divisão inicial. Mesmo que o momento no qual a história havia sido fendida em duas partes – antes e depois, AC e AD – agora estivesse em uma antiguidade bastante distante, seu exemplo permanecia urgente e promissor. A esperança messiânica foi, assim, rasgada e compactada por uma intrínseca duplicação histórica, que a esticou entre um começo vastamente retrospectivo e gradualmente reconhecido e um prospecto de repentina conclusão, cuja credibilidade era assegurada por seu status enquanto repetição. O que tivera sido seria novamente, transformando a contagem dos AD em uma sequência completa que era confirmada da mesma maneira em que era exterminada (através da intervenção messiânica).

Sem surpresas, a história substancial do establishment calêndrico ocidental é geminada com a ascensão do milenarianismo, através de fases que tendem cada vez mais a formas social-revolucionárias e, eventualmente, abrem caminho para variedades auto-conscientemente anti-religiosas, mas decididamente escatológicas, de política total modernista. Já que o que quer que tenha acontecido tem que – pelo menos – ser possível, a própria existência do calendário apoia antecipações de ruptura história absoluta. Sua conta, simplesmente por começar, prefigura um fim. O que começa pode recomeçar, ou acabar.

O zero, contudo, se introduz diagonalmente. Ele até mesmo introduz um aspecto cômico, uma vez que qualquer que seja a importância da revelação cristã para a salvação de nossas almas, é descaradamente óbvio que ela falhou em entregar uma notação aritmética satisfatória. Para isso, a Europa cristã teve que esperar a chegada dos numerais decimais da Índia, através do Oriente Médio muçulmano, e a subsequente revolução do cálculo e da contabilidade que coincidiu com a Renascença, junto com o nascimento do capitalismo mercantil nas cidades-estado do norte da Itália.

De fato, para qualquer um que busque um calendário verdadeiramente moderno, a Chegada do Zero marcaria uma excelente ocasião para um novo ano zero (0 AZ?), por volta de 1500 AD. Embora tal coisa plausivelmente datasse a origem da modernidade, a imprecisão histórica do evento conta contra ela, contudo. Além disso, a assimilação do zero por um capitalismo germinal europeu (e, assim, global) foi evidentemente gradual – mesmo que comparativamente rápida – em vez de uma transição ‘revolucionária’ pontual do tipo ao qual o zero calêndrico comemorativo é otimamente apropriado. (Se o Ano Zero é, desta forma, barrado da designação de sua própria operacionalização histórico-mundial, talvez ele esteja estruturalmente fadado à má aplicação e à produção de desilusão.)

A conspícua ausência do zero d(a conta d)o calendário ocidental, exposta em seu solavanco abrupto de 1 AC para 1 AD, é um estigma intolerável e irreparável que leva sua ironia mundial a um zênite. Na própria operação de integrar a história mundial, em preparação para a modernidade planetária, ele observa sua própria antiguidade e particularidade debilitantes, no sentido moderno mais condescendente do limitado e do primitivo – cru, defeituoso e subdesenvolvido.

Como um momento de incompetência calculista auto-evidente poderia fornecer um ponto de origem convincente para o cálculo histórico subsequente? O Ano Zero escapou de toda possibilidade de apreensão conceitual no momento da contagem do tempo ao qual agora ele é visto pertencer, e o infinito (o recíproco do zero) se prova não menos elusivo. O infinito foi inserido em um tempo quando (e um local onde) ele demonstravelmente não fazia nenhum sentido, e a extraordinária impressão histórico-mundial que ele fez não fez nada – nem mesmo nada – para mudar essa situação. Esse não é um enigma digno para os teólogos? Onipotente, onisciente, onibenevolente e, no entanto, sem esperanças na matemática – essas não são as características de uma revelação projetada para impressionar tecnólogos ou contadores. Tanto mais razão, então, para levar essa comédia a sério, em toda a sua ambivalência – uma vez que o mundo emergente dos tecnólogos e contadores, o mundo tecno-comercial (industrial desembestado, ou capitalista) que globalizaria a terra, foi desmamado dentro do cercadinho deste calendário, e de nenhum outro. A modernidade selecionara para datar a si mesma de uma maneira que seus próprios alunos do jardim de infância desdenhariam.

Mentalidade Estatística

As coisas provavelmente são mais esquisitas do que parecem

Conforme as ciências naturais se desenvolveram até englobar sistemas cada vez mais complexos, a racionalidade científica se tornou cada vez mais estatística, ou probabilística. A mecânica clássica determinística do iluminismo foi revolucionada pela mecânica estatística de semi-equilíbrio dos atomistas do final do século XIX, pela mecânica quântica no começo do século XX e pelos teóricos da complexidade longe do equilíbrio do fim do século XX. O neo-darwinismo matemático, a teoria da informação e as ciências sociais quantitativas compuseram a tendência. Forças, objetos e tipos naturais foram progressivamente dissolvidos em distribuições estatísticas: nuvens heterogêneas, desvios de entropia, funções de onda, frequências genéticas, razões ruído-sinal e redundâncias, estruturas dissipativas e sistemas complexos à beira do caos.

Por volta das décadas finais do século XX, um probabilismo ilimitado se expandia para territórios até então inimagináveis, testando argumentos profundamente desconhecidos e contra-intuitivos da metafísica ou ontologia estatística. Já não bastava ao realismo atender às multiplicidades, porque a própria realidade estava sujeita à multiplicação.

Em sua declaração cogito ergo sum, Descartes concluiu (talvez de maneira otimista) que a existência do eu poderia ser seguramente concluída a partir do fato do pensamento. Os ontologistas estatísticos inverteram esta fórmula, peguntando: dada minha existência (ou seja, uma existência que se parece assim para mim), que tipo de realidade é provável? Que realidade esta tem probabilidade de ser?

O roboticista do MIT Hand Moravec, em seu livro de 1988 Mind Children, parece ter iniciado o gênero. Extrapolando a Lei de Moore para o futuro não tão distante, ele antecipou capacidades computacionais que excediam aquelas de todos os cérebros biológicos em muitas ordens de magnitude. Uma vez que cada cérebro humano roda sua simulação mais ou menos competente do mundo a fim de funcionar, parecia natural esperar que as inteligências tecnosféricas vindouras fizessem o mesmo, mas com escopo, resolução e variedade vastamente superiores. A replicação em massa de cérebros robôs, cada um deles bilhões ou trilhões de vezes mais poderoso do que aqueles de seus progenitores humanos, forneceria um substrato para simulações histórias inúmeras, imensas e minuciosamente detalhadas, dentro das quais inteligências humanas poderiam ser reconstruídas a um nível efetivamente perfeito de fidelidade.

Esta visão alimenta uma literatura florescente sobre substratos mentais não-biológicos, upload de consciências, clones mentais, emulações (’ems’) de cérebros completos e realidades artificiais no estilo Matrix. Uma vez que as realidades que atualmente conhecemos já são simuladas (assumamos momentaneamente) em sistemas biológicos de processamento de sinais com especificações quantitativas altamente finitas, não há razão para antecipar confiantemente que uma simulação ‘artificial’ da realidade seria de qualquer maneira distinguível.

‘Isso’ é história ou a sua simulação? Mais precisamente: ‘isso’ é uma simulação biológica contemporânea (embasada no cérebro) ou uma memória reconstruída e artificial, rodada em um substrato tecnológico ‘no futuro’? Esta é uma questão sem solução clássica, argumenta Moravec. Ela só pode ser abordada, de maneira rigorosa, com a estatística e, uma vez que o número de história simuladas refinadas (desconhecido, mas provavelmente vasto) excede esmagadoramente o número de histórias atuais ou originais (para este argumento, uma), então o cálculo probabilístico aponta inabalavelmente na direção de uma conclusão definitiva: podemos estar quase certos de que somos habitantes de uma simulação operada por inteligências artificiais (ou pós-biológicas) em algum ponto no ‘nosso futuro’. Pelo menos – uma vez que muitas alternativas se apresentam – podemos estar extremamente confiantes, com base na ontologia estatística, de que nossa existência não é original (se não for reconstrução histórica, poderia ser um jogo ou ficção).

Nick Bostrom formaliza o argumento da simulação em seu artigo ‘The Simulation Argument: Why the Probability that You are Living in the Matrix is Quite High’ (encontrado aqui):

Agora chegamos ao cerne do argumento da simulação. Este não pretende demonstrar que você está em uma simulação. Em vez disso, ele mostra que deveríamos aceitar como verdadeira pelo menos uma das três seguintes proposições:

(1) As chances de que uma espécie em nosso atual nível de desenvolvimento possa evitar ser extinta antes de se tornar tecnologicamente madura são negligenciavelmente pequenas
(2) Quase nenhuma civilização tecnologicamente madura está interessada em rodar simulações computacionais de mentes como as nossas
(3) Você quase certamente está em uma simulação

Cada uma dessas três proposições podem ser, a primeira vista, implausíveis; ainda assim, se o argumento da simulação está correto, pelo menos uma é verdadeira (ele não nos diz qual).

Se obstáculos à existência de simulações de alto-nível (1 e 2) forem removidos, então o raciocínio estatístico assume o controle, seguindo a linha exata estabelecida por Moravec. Estamos “quase certamente” habitando uma “simulação computacional que foi criada por alguma civilização avançada” porque estas saturam à quase exaustão o espaço probabilístico para realidade ‘como esta’. Se tais simulações existem, vidas originais seriam tão pouco prováveis quanto ganhar na loteria, na melhor das hipóteses.

Bostrom conclui com uma reviravolta intrigante e influente:

Se estamos em uma simulação, é possível que saibamos isso com certeza? Se os simuladores não quiserem que descubramos, provavelmente nunca iremos. Mas se eles escolherem se revelar, eles certamente o poderiam fazer. Talvez uma janela lhe informando do fato apareceria bem em sua frente, ou talvez eles fariam o seu “upload” para o mundo deles. Um outro evento que nos levaria a concluir com um alto grau de confiança que estamos em uma simulação é se jamais alcançarmos o ponto em que estamos próximos de passar para nossas próprias simulações. Se começarmos a rodar simulações, isso seria uma evidência muito forte contra (1) e (2). Isso nos deixaria apenas com (3).

Se criarmos simulações refinadas da realidade, demonstramos – com um alto nível de confiança estatística – que já habitamos uma e que a história que levou ate esse momento de criação era falsa. Paul Almond, um ontologista estatístico entusiasta, extrai a implicação radical – causação reversa – perguntando Você consegue se colocar retroativamente em uma simulação computacional?

Tal ontologia estatística, ou existencialismo bayesiano, não está restrita ao argumento da simulação. Ela cada vez mais subordina discussões sobre o Princípio Antrópico, sobre a Interpretação dos Muitos Mundos da Mecânica Quântica, e modos exóticos de previsão, desde o Argumento do Juízo Final até o Suicídio (e Imortalidade) Quânticos.

O que quer que esteja realmente acontecendo, provavelmente teremos que arriscar.

Original.

“2035. Provavelmente antes.”

Tem o rápido, e aí tem… alguma coisa a mais

Eliezer Yudkowski agora categoriza seu artigo ‘Staring into Singularity‘ como ‘obsoleto’. Ainda assim, ele permanece entre os ensaios filosóficos mais brilhantes já escritos. Raramente, ou nunca, tanta coisa de valor foi dita sobre o absolutamente impensável (ou, mais especificamente, o absolutamente impensável para nós).

Por exemplo, Yudkowski mal se detém no fenômeno do crescimento exponencial, apesar do fato de que isto já exige demais de toda intuição confortável e garante mudanças revolucionárias de tamanha magnitude que a especulação vacila. Ele está convencido de que a exponenciação (e até mesmo a ‘dupla exponenciação’ de Kurzweil) só alcança o ponto inicial da aceleração computacional e que a propulsão para dentro da Singularidade não é exponencial, mas hiperbólica.

Cada vez que a velocidade do pensamento se duplica, os calendários se reduzem pela metade. Quando a tecnologia, incluindo o design de inteligências, sucumbe a tal dinâmica, ela se torna recursiva. A taxa de auto-melhoria colapsa com rapidez regularmente crescente em direção à instantaneidade: uma verdadeira e matematicamente exata, ou pontual, Singularidade. O que jaz além não é meramente difícil de imaginar, é absolutamente inconcebível. Tentar retratá-lo ou descrevê-lo é uma futilidade ridícula. A ficção científica morre.

“Um grupo de computadores equivalentes a humanos demora 2 anos para duplicar as velocidades dos computadores. Em seguida, eles demoram outros dois anos subjetivos, ou 1 ano em termos humanos, para dobrá-las novamente. Em seguida, eles demoram outros 2 anos subjetivos, ou seis meses, para dobrá-las novamente. Depois de quatro anos no total, o poder computacional vai ao infinito.

Esta é a versão ‘Transcendida’ da sequência de duplicação. Vamos chamar a ‘Transcendente’ de uma sequência {a0, a1, a2…} a função em que o intervalo entre an e an+1 é inversamente proporcional a an. Então, uma função de duplicação Transcendida começa com 1, caso no qual ela demora 1 unidade de tempo para chegar a 2. Então, ela demora 1/2 unidade de tempo para chegar a 4. Então, ela demora 1/4 unidade de tempo para chegar a 8. Esta função, se fosse contínua, seria a função hiperbólica y = 2/(2-x). Quando x = 2, então (2-x) = 0 e y = infinito. O comportamento nesse ponto é conhecido matematicamente como singularidade.”

Dificilmente poderia haver uma fórmula mais precisa, plausível ou consequente: Os períodos de duplicação se reduzem pela metade. No declive até a Singularidade – a ‘explosão de inteligência‘ de I. J. Good – a exponenciação é composta por uma tendência hiperbólica. A aritmética de tal processo é bastante simples, mas suas implicações históricas são estritamente incompreensíveis.

“Eu sou um Singularitário porque eu tenho uma pequena estimação do quão completamente, definitivamente, absolutamente impossível é pensar como alguém mesmo um pouquinho mais inteligente do que você. Eu sei que estamos todos perdendo o óbvio, todos os dias. Não existem problemas difíceis, apenas problemas que são difíceis para um certo nível de inteligência. Mova-se o menor bocado para cima, e alguns problemas de repente se movem de ‘impossíveis’ para ‘óbvios’. Mova-se um grau substancial para cima, e todos eles se tornam óbvios. Mova-se uma grande distância para cima…”

Uma vez que o argumento leva o pensamento humano ao seu ponto de despedaçamento, é natural que algumas pessoas sejam repelidas por ele. Ainda assim, seus fundamentos básicos são quase inexpugnáveis à objeção lógica. A inteligência é uma função do cérebro. O cérebro foi ‘projetado’ por processos naturais (não apresentando quaisquer dificuldades especiais discerníveis). Desta forma, a inteligência obviamente é um problema de engenharia, em última análise, tratável. A natureza já ‘a projetou’ enquanto empregava métodos de design de ineficiência tão estonteante que apenas uma força bruta e obstinada, combinada, é claro, com uma completa crueldade, moveu as coisas adiante. Ainda assim, a triplicação da massa cortical dentro da linhagem dos primates superiores levou apenas alguns milhões de anos e precisou – na maior parte deste período – apenas de uma população experimental modesta (de poucos milhões ou menos).

O problema tecnológico contemporâneo, em contraste com aquele biológico preliminar, é vastamente mais fácil. Ele se baseia em uma gama mais ampla de materiais e técnicas, uma base de inteligência e conhecimento instalada, meios de informação superiores, sistemas de feedback mais altamente dinamizados e uma rede de recursos auto-amplificadora. Não surpreende que esteja avançando a uma velocidade incomparavelmente maior.

“Se tivéssemos uma máquina do tempo, 100K de informação do futuro poderiam especificar uma proteína que construísse um dispositivo que nos daria nanotecnologia do dia para a noite. 100K poderiam conter o código de uma IA semente. Desde o fim dos anos 90, a Singularidade tem sido apenas um problema de software. E software é informação, a coisa mágica que muda a velocidades arbitrariamente altas. No que diz respeito à tecnologia, a Singularidade poderia acontecer amanhã. Uma descoberta – um só grande insight – na ciência da engenharia de proteínas ou da manipulação atômica ou da Inteligência Artificial, um dia realmente bom na Webmind ou na Zyvex, a porta para a Singularidade se escancara.”

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Moore e Mais

Redobrar a Lei de Moore é a principal corrente futurista

Ciclos não podem ser descartados da especulação futurista (eles sempre voltam), mas não mais a definem. Desde o começo da era eletrônica, sua contribuição para a forma do futuro tem sido progressivamente marginalizada.

O modelo de tempo histórico linear e irreversível, originalmente herdado das tradições religiosas ocidentais, foi remendado com ideias de crescimento e melhoria contínuas durante a revolução industrial. Durante a segunda metade do século XX, a dinâmica da manufatura de eletrônicos consolidou mais uma atualização – uma que era fundamental – embasada na expectativa de mudança continuamente acelerante.

A aritmética elementar de se contar ao longo da linha de números naturais fornece um modelo intuitivamente confortável para a progressão do tempo, devido a sua conformidade aos relógios, calendários e à simples ideia de sucessão. Ainda assim, as forças históricas dominantes do mundo moderno promovem um modelo significativamente diferente de mudança, um que tende a deslocar a adição para cima, até um expoente. Demografia, acumulação de capital e índices de desempenho tecnológico não aumentam através de passos unitários, mas através de taxas de retornos, duplicações e decolagens. O tempo explode exponencialmente.

A expressão icônica deste tempo neo-moderno, contando a sucessão em logaritmos binários, é a Lei de Moore, que determina um período de duplicação de dois anos para a densidade de transistores em microchips (“atulhando mais componentes nos circuitos integrados”). Em um curto ensaio publicado na Pajamas Media, celebrando o prolongamento da Lei de Moore, enquanto a Intel empurra a arquitetura de chips à terceira dimensão, Michael S. Malone escreve:

“Hoje, quase meio século depois que foi primeiro elucidada pelo lendário co-fundador da Fairchild e da Intel, o Dr. Gordon Moore, em um artigo para uma revista comercial, é cada vez mais aparente que a Lei de Moore é a medida definidora do mundo moderno. Todas as outras ferramentas preditivas para se entender a vida no mundo desenvolvido desde a Segunda Guerra Mundial – demografia, tabelas de produtividade, taxas de alfabetização, econometria, os ciclos da história, análise marxista, etc, etc – falharam em prever a trajetória da sociedade ao longo das décadas… exceto a Lei de Moore.”

Embora cristalize – in silico – a aceleração inerente do tempo linear neo-moderno, a Lei de Moore é intrinsecamente não-linear, por pelo menos duas razões. Primeiro e mais diretamente ao ponto, ela expressa a dinâmica de feedback positivo do industrialismo tecnológico, no qual máquinas eletrônicas que avançam rapidamente continuamente revolucionam sua própria infraestrutura de produção. Chips melhores fazem robôs melhores que fazem chips melhores, em uma aceleração espiralante. Segundo, a Lei de Moore é, de uma só vez, uma observação e um programa. Como a Wikipédia observa:

“A artigo [original de Moore] observava que o número de componentes em circuitos integrados havia dobrado a cada ano desde a invenção do circuito integrado, em 1958, até 1965 e previa que a tendência continuaria ‘por pelo menos dez anos’. Sua previsão se provou ser inquietantemente precisa, em parte por que a lei agora é usada na indústria de semicondutores para guiar o planejamento de longo prazo e para estabelecer metas para a pesquisa e o desenvolvimento…. Embora a Lei de Moore tenha sido inicialmente feita na forma de observação e previsão, quanto mais amplamente ela se tornou aceita, mais ela serviu enquanto meta para toda uma indústria. Isto levou os departamentos de marketing e engenharia de produtores de semicondutores a focar uma enorme energia, visando o aumento especificado em poder de processamento que se presumia que um ou mais de seus concorrentes logo atingiria de fato. Neste aspecto, ela pode ser vista como uma profecia auto-realizadora.”

Malone comenta:

“…companhia de semicondutores ao redor do mundo, grandes e pequenas, e não menos por causa de seu respeito por Gordon Moore, se puseram a defender a Lei – e tem o feito desde então, apesar de obstáculos técnicos e científicos aparentemente impossíveis. Gordon Moore não apenas descobriu a Lei de Moore, ele a tornou real. Como seu sucessor na Intel, Paul Otellini, me disse uma vez, ‘Eu não vou ser o cara cujo legado é que a Lei de Moore morreu em seu turno’.”

Se a Singularidade Tecnológica é o ‘arrebatamento dos nerds’, Gordon Moore é seu Moisés. O capitalismo eletro-industrial é instruído a ir adiante se multiplicar e a fazê-lo com um expoente binário especificado no tempo de maneira bastante precisa. Em sua adesão à Lei, a indústria de circuitos integrados é singularmente escolhida (e uma luz para os povos). Como Malone conclui:

“Hoje, cada segmento da sociedade ou abraça a Lei de Moore ou está correndo para chegar lá. Isto é porque eles sabem que se apenas eles conseguirem embarcar no foguete – isto é, se eles conseguirem adicionar um componente digital ao seu negócio – eles também podem acelerar para longe da concorrência. É por isso que nenhuma das invenções que nós Baby Boomers, quando crianças, esperávamos desfrutar quando fôssemos adultos – carros atômicos! helicópteros pessoais! armas de raios! – se tornaram realidade; e também por isso temos ferramentas e brinquedos cada vez mais poderosos – como alternativa. O que quer que possa se tornar digital, se não no todo, pelo menos em parte – marketing, comunicação, entretenimento, engenharia genética, robótica, guerra, manufatura, serviços, finanças, esportes – irá, porque virar digital significa pular na Lei de Moore. Perca esse trem e, enquanto negócio, instituição ou fenômeno cultural, você morre.”

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Implosão

Poderíamos estar à beira de uma implosão catastrófica – mas isso é OK

A ficção científica tem tendido à extroversão. Na América especialmente, onde ela encontrou um lar natural entre um povo incomumente orientado ao futuro, o objeto icônico da FC foi indisputavelmente a nave espacial, que parte dos confins da Terra para fronteiras sem entraves. O futuro era medido pelo enfraquecimento do fosso de gravidade terrestre.

O cyberpunk, chegando na metade dos anos 1980, causou um choque cultural. O Neuromancer de William Gibson ainda incluía alguma atividade espacial (na órbita da Terra) – e até mesmo uma comunicação de Alpha Centauri – mas suas jornadas agora se curvavam para dentro do espaço interior de sistemas computacionais, projetadas através dos tratos desprovidos de estrelas do Ciberespaço. A comunicação interestelar contornava espécies biológicas e ocorria entre inteligências artificiais planetárias. Os Estados Unidos da América pareciam ter desaparecido.

Espaço e tempo haviam colapsado na ‘matriz do ciberespaço’ e no futuro próximo. Mesmo as distâncias abstratas do utopismo social haviam sido incineradas nos núcleos de processamento de micro-eletrônicos. Julgado pelos critérios da ficção científica mainstream, tudo em que o cyberpunk tocava estava passando raspando e ficando ainda mais perto. O futuro havia se tornado iminente e colado.

As cidades de Gibson não haviam acompanhado sua visão mais ampla – ou estreita. Os espaços urbanos de sua Costa Leste da América do Norte ainda eram descritos como ‘The Sprawl’, como se encalhados em um estado de extensão que rapidamente ficava obsoleto. As forças esmagadoras da compressão tecnológica haviam pulado para além da geografia social, sugando toda a animação histórica das cascas decadentes do ‘espaço de carne’. Construções eram relíquias, contornadas pela vanguarda da mudança.

(As referências de Gibson a cidades asiáticas, contudo, são bem mais intensas, inspiradas por inovações em compressão urbana tais como a Kowloon Walled City, e os ‘hotéis caixão’ japoneses. Além disso, os urbanistas desapontados pela primeira onda do cyberpunk têm toda razão para prosseguir até Spook Country, onde a influência da tecnologia de GPS sobre a reanimação do espaço urbano nutre especulações altamente férteis.)

Cruzeiros estelares e civilizações alienígenas pertencem à mesma constelação da ficção científica, reunidas pela suposição do expansionismo. Assim como, no âmbito da ficção, esse futuro de ‘ópera espacial’ colapsou no cyberpunk, na ciência (mais ou menos) mainstream – representada pelos programas do SETI – ele pereceu no deserto do Paradoxo de Fermi. (OK, é verdade, o Urbano Futuro tem uma obsessão bizarramente nerd com este tópico.)

A solução de John M. Smart para o Paradoxo de Fermi é integral às suas mais amplas ‘Especulações sobre a Cultura Cósmica’ e emerge naturalmente do desenvolvimento compressivo. Inteligências avançadas não se expandem espaço adentro, colonizando vastos tratos galáticos ou dispersando sondas-robô auto-replicantes em um programa de exploração. Em vez disso, elas implodem, em um processo de ‘transcensão’ – provendo seus próprios recursos primariamente através dos ganhos hiper-exponenciais de eficiência da miniaturização extrema (através da engenharia de escala micro, nano e até femto, de componentes funcionais subatômicos). Tais culturas ou civilizações, nucleadas por sobre uma inteligência tecnológica auto-aumentadora, emigram do universo extensivo na direção da intensidade abismal, esmagando a si mesmas até densidades de buracos negros, na borda da possibilidade física. Através da transcensão, elas se retiram da comunicação extensiva (embora, talvez, deixem ‘fósseis radiofônicos’ para trás, antes que eles parem de piscar, indo para o silêncio da fuga cósmica).

Se as especulações de Smart capturam os contornos básicos de um sistema de desenvolvimento atraído pela densidade, então se deveria esperar que as cidades seguissem um caminho comparável, caracterizado por uma fuga para dentro da interioridade, uma viagem interior, involução ou implosão. Aproximando-se da singularidade em uma trajetória acelerante, cada cidade se torna cada vez mais voltada para dentro, conforme se torna presa da irresistível atração de sua própria intensificação hiperbólica, ao passo que o mundo exterior desvanece em estática irrelevante. Coisas desaparecem em cidades, em um caminho de partida do mundo. Sua destinação não pode ser descrita dentro das dimensões do universo conhecido – e, com efeito, tediosamente familiar demais. Apenas no interior exploratório profundo é que a inovação ainda está ocorrendo, mas ali ela tem lugar a uma taxa infernal e que derrete o tempo.

O que um desenvolvimento urbano de tipo Smart poderia sugerir?

(a) Devo Previsibilidade. Se o desenvolvimento urbano não é nem aleatoriamente gerado por processos internos, nem arbitrariamente determinado por decisões externas, mas sim guiado predominantemente por um atrator de desenvolvimento (definido primariamente pela intensificação), se segue que o futuro das cidades é, pelo menos parcialmente, autônomo em relação às influências política nacional, econômica global e arquitetônica cultural que são frequentemente invocadas como fundamentalmente explicativas. O urbanismo pode ser facilitado ou frustrado, mas suas principais ‘metas’ e caminhos práticos de desenvolvimento são, em cada caso individual, interna e automaticamente gerados. Quando uma cidade ‘funciona’, não é porque ela se conforma a um ideal externo e discutível, mas sim porque ela encontrou uma rota para a intensificação cumulativa que projeta fortemente seu ‘próprio’ caráter urbano, singular e intrínseco. O que uma cidade quer é se torna ela mesma, mas mais – levando a si mesma mais adiante e mais rápido. Apenas isto é o florescimento urbano, e entendê-lo é a chave que destranca a forma do futuro de qualquer cidade.

(b) Metropolitanismo. O nacionalismo metodológico tem sido sistematicamente sobre-enfatizado nas ciência sociais (e não apenas às custas do individualismo metodológico). Uma variedade de pensadores urbanos influentes, de Jane Jacobs a Peter Hill, buscaram corrigir este viés, ao focar na significância e parcial autonomia de economias urbanas, culturas urbanas e da política municipal para a prosperidade, a civilização e as eras douradas. Eles estavam certos em fazê-lo. O crescimento das cidades é o fenômeno sócio-histórico básico.

(c) Introversão Cultural. John Smart argumenta que uma inteligência que sofre um desenvolvimento relativista avançado acha a paisagem externa cada vez menos informativa e absorvente. A busca por estímulo cognitivo a atrai para dentro. Conforme as culturas urbanas evoluem, através de uma complexidade social acelerante, pode-se esperar que elas manifestem exatamente este padrão. Seus processos internos de implosão desembestada de inteligência se tornam cada vez mais emocionantes, cativantes, surpreendentes, produtivos e educacionais, ao passo que a paisagem cultural mais ampla fica para trás no tédio previsível, de relevância meramente etnográfica e histórica. A singularidade cultural se torna cada vez mais urbana-futural (em vez de etno-histórica), para o previsível descontentamento dos estados-nação tradicionais. Como o Ciberespaço Terrestre de Gibson, que encontra outro de seu tipo em uma órbita ao redor de Alpha Centauri, a conectividade cosmopolita é criada através da viagem interior, ao invés da extensão expansiva.

(d) Ressonância de Escala. No nível mais abstrato, a relação entre urbanismo e microeletrônicos é escalar (fractal). Os computadores por vir estão mais próximos de cidades em miniatura do que de cérebros artificiais, dominados por problemas de tráfego (congestionamento), migração / comunicação, questões de zoneamento (uso misto), o potencial de engenharia de novos materiais, questões de dimensionalidade (soluções 3D para restrições de densidade), dissipação de entropia ou calor / desperdício (reciclagem / computação reversível) e controle de doenças (novos vírus). Uma vez que as cidades, assim como computadores, exibem um desenvolvimento (filogenético acelerante) dentro de um tempo histórico observável, elas fornecem um modelo realista de melhoria para máquinas compactas de processamento de informação, sedimentado como uma série de soluções práticas para o problema da intensificação implacável. A emulação do cérebro poderia ser considerada uma meta computacional importante, mas ela é quase inútil enquanto modelo de desenvolvimento. Tecnologias microeletrônicas inteligentes contribuem para o processo em aberto da solução de problemas urbanos, mas elas também a recapitulam em um novo nível.

(e) Matriz Urbana. O desenvolvimento urbano exibe a real embriogênese da inteligência artificial? Em vez da Internet global, da Skynet militar, ou de um programa de IA com origem em um laboratório, seria o caminho da cidade, embasado em intensificação acelerante (compressão STEM), que melhor fornece as condições para a computação sobre-humana emergente? Talvez a principal razão para pensar assim seja que o problema da cidade – administração e acentuação de densidade – já a compromete à engenharia computacional, antes de qualquer pesquisa deliberadamente guiada. A cidade, por sua própria natureza, se comprime, ou intensifica, em direção ao computrônio. Quando a primeira IA falar, poderia ser em nome da cidade que ela identifica como seu corpo, embora mesmo isso fosse pouco mais do que um ‘fóssil radiofônico’ – um sinal anunciando a beira do silêncio – conforme o caminho da implosão se aprofunda e desaparece dentro do interior alienígena.

Original.