A Tentação do Vazio (Parte 3a)

Existem duas questões relacionadas apresentadas pela exploração humana. Primeiro, há algo economicamente útil para se fazer lá fora que pague sua viagem? E, segundo, você consegue viver do solo e usar recursos locais para sobreviver, ou estaremos sempre amarrados ao sustento vindo da Terra? Se a resposta a ambas for sim, então você tem colônias espacias, vida auto-sustentável fora do planeta. Se a resposta a ambas for não, então o espaço é como o Monte Everest. Turistas podem ir ao Monte Everest, os sherpas podem ganhar a vida com isso, mas ninguém realmente vive lá. Se a resposta é que você pode viver da terra, mas não é economicamente útil, é como a Antártica. Foram 40 anos entre a última vez que estivémos lá, quando Shackleton alcançou a Antártica e quando a Marinha dos E.U.A. voltou em 1912. Há um lapso similar entre ir à Lua pela primeira vez e, com sorte, quando retornaremos. Nesse caso, você pode formar um posto avançado e viver lá, mas você é sustentado por um financiamento constante, uma vez que a engenharia não se paga. Se a resposta é que existem coisas economicamente úteis para se fazer, tais como minerar hélio-3 na Lua, mas somos sempre dependentes da Terra para as necessidades básicas, então o espaço se torna uma plataforma de petróleo no Mar do Norte. Você pode fazer dinheiro lá, mas será sempre um ambiente hostil. Esses são quatro futuros humanos radicalmente diferentes. E eles são todos parte de uma questão mais ampla: Há um futuro humano para além da Terra? É uma questão que está no mesmo patamar de se existe vida inteligente em outros lugares no universo. Podemos procurar vida com sondas e telescópios, mas para determinar o alcance de vida da humanidade, teremos que mandar seres humanos para o espaço.
Scott Pace

Qual deveria ser a carga útil? Não importa. Esse é o ponto. Não se trata de levar uma carga útil ao espaço: isso é quase irrelevante. Trata-se de garantir um mercado para as empresas que oferecem serviços de lançamento para fazer as coisas funcionarem. Estou falando totalmente sério. Se não pudéssemos pensar em nada melhor para lançar, blocos de concreto estariam de bom tamanho. Minha filosofia é: Lançar qualquer coisa é bom. — Paul Almond

A base material para um futuro espacial não está apenas encalhada no espaço, mas também encalhada no tempo. Não apenas os recursos gravitacionalmente liberados a partir dos quais ele se montaria estão espalhados ao longo de imensidões intimidantes de distância vazia, mas o limiar em que tudo começa a se juntar – em um economia extraterrestre autocatalítica – está separado do mundo de incentivos presentes e práticos por golfos pavorosos de perda incalculável. Em uma variante da antiga piada, se sair do planeta é a meta, um planeta é absolutamente o pior lugar de onde se partir. “Eu posso lhe dizer como chegar lá”, o local prestativamente observou. “Mas você não deveria começar aqui.”

Estar lá fora poderia rapidamente começar a fazer sentido, contanto que já estivéssemos lá. Experimentar com essa mudança de perspectiva torna o impulso animador mais claro. De forma mais reveladora, isso expõe o quão profundamente os planetas sugam, de modo que simplesmente não estar em um vale quase qualquer coisa. Esse é o fim do jogo, a estratégia final, que organiza tudo, em última análise, com a anti-gravidade como chave.

Uma vez que a gravidade seja percebida como o arquétipo natural do aprisionamento, que te mantém em algum lugar, quer você queira estar lá ou não, as motivações econômicas terrestres para a expansão exo-planetária são reveladas em sua falsidade fundamental. A razão para se estar no espaço é estar no espaço, liberado da sucção planetária, e quaisquer benefícios para os habitantes da Terra que possam se acumular no caminho são meros trampolins. Recursos exo-planetários desviados para a superfície da Terra são, no esquema espacial definitivo, despediçados ou, pelo menos, estrategicamente sacrificados (uma vez que tal desperdício quase certamente é necessário no ínterim). Na análise final, o valor de qualquer coisa que seja é degradado em proporção direta às influências gravitacionais exercidas sobre ela, e a descida dos céus é uma queda.

Uma visão mais ampla sobre o desenvolvimento cosmológico aguça a resolução (embora isso exija que as inestimáveis compreensões de Smart sejam deixadas estritamente de lado, e os buracos negros sejam evitados com o máximo de parcialidade). Escale em avanço rápido até que o processo de escapada extraterrestre tenha sido substancialmente realizado, aí congele as telas. Fugir da gravidade agora pode ser visto como não mais que o primeiro passo em uma disputa mais completa e antagonista com a gravidade e suas obras. Asteroides e cometas estão sendo pulverizados, minerados ou furados até virarem esponjas, deixando luas, planetas e o próprio sol como problemas locais de interesse. Tais corpos são ‘problemas’ porque eles deformam o espaço com poços de gravidade, que prendem recursos, mas seu status enquanto obstáculos ao desenvolvimento pode ser ainda mais abstraído. Esses mundos, pelo menos parcialmente isolados do emergente commercium do espaço profundo por sua própria massa, foram moldados pela gravidade em esferas aproximadas, o que seria dizer – da perspectiva do desenvolvimento – nas piores formas que são matematicamente possíveis, uma vez que elas minimizam a razão entre superfície (reativa) e volume e, assim, restringem a acessibilidade aos recursos na maior medida concebível. Bem lá fora, no espaço e no futuro profundos, o impulso de desenvolvimento emergente fica totalmente Vogon e as demole completamente.

Quando vistos de fora, planetas são cemitérios, onde minerais preciosos estão enterrados. Ao cavar pelo manto da Terra, por exemplo, fundo até seu fim interior, 3000 km abaixo da superfície, se chega a um depósito de ferro-níquel de alta pressão com mais de 6500 km de diâmetro – um globo de metal em um cofre planetário com cerca de 160.000.000.000 quilômetro cúbicos de tamanho, envernizado com ouro e platina suficientes para revestir toda a superfície da terra até uma profundidade de meio metro. Para uma civilização exo-planetária moderadamente avançada, ponderar as praticalidades de sua primeira demolição em escala planetária, deixando esse tesouro enterrado de recursos no lugar tem um custo de oportunidade robótico-industrial que pode ser estimado, de maneira conservadora, na região de 1.6 x 10^23 inteligências de nível humano, um estoque mineral suficiente para manufaturar um trilhão de sondas auto-replicantes sencientes para cada estrela na galáxia. (Mesmo ardentes conservacionistas têm que reconhecer o quão delicioso esse bocado vai parecer.)

Decolagens, então, são meramente precursoras do primeiro platô sério de tecnologia antigravidade, que está orientado à tarefa mais profundamente produtiva de desmontar coisas a fim de converter esferas de massa comparativamente inertes em nuvens voláteis de substância cultural. Assumindo uma infraestrutura energética na fase de fusão, esse estágio inicial de desenvolvimento exo-planetário culmina no desmonte do sol, pondo termo ao processo nuclear absurdamente perdulário da sequência principal, recuperando suas reservas de combustíveis e, assim, fazendo a contribuição do sistema solar desperto para o escurecimento tecno-industrial da galáxia. (Pare de desperdiçar hidrogênio, e as luzes se apagam.)

Foque durante alguns segundos na irritabilidade econômica que surge da visão de um poço de petróleo expelindo gás natural por pura incompetência irracional, depois olhe para o sol. ‘Insustentável’ sequer chega perto de descrever isso. Claramente, esse maquinário energético é totalmente demente, equivalendo a uma orgia azathótica de fótons derramados. Todo o aparato precisa ser desmontado, através de uma cirurgia solar extrema. Uma vez que esse projeto ainda está por receber uma consideração sustentada, contudo, os detalhes específicos de engenharia podem ser seguramente colocados entre parênteses por enquanto.

A lógica inexorável da eficiência tecno-industrial, em seu vetor antigravidade, significa que a única motivação consistente para se deixar a terra é desmontar o sol (junto com o resto do sistema solar), mas isso não pega bem no sertão. Sem surpresas, portanto, aqueles sensibilizados pelas realidades políticas, percepções midiáticas e relações públicas estão inclinados a enfatizar outras coisas, retratando a terra como um destino para recompensas cósmicas ou – de maneira inada mais imediata – carne de porco suculenta financiada por impostos, em vez de como um problema de demolição complicado, mas altamente recompensador.

Conspicuamente ausente do debate público sobre o espaço, portanto, está qualquer admissão franca de que “(vamos encarar, pessoal) – os planetas são alocações ruins de matéria que realmente não funcionam. Ninguém quer lhes dizer isso, mas é verdade. Você sabe que respeitamos profundamente o movimento verde, mas quando saímos lá fora na rodovia principal do re-desenvolvimento do sistema solar, e certas atitudes ambientalistas muito rígidas e muito extremas – sobrevivencialismo gaiano, holismo terrestre, preservacionismo planetário, esse tipo de coisa – estão bloqueando o caminho adiante, bem, deixe-me ser bem claro sobre isso, isso significa empregos não sendo criados, empresas não sendo construídas, fábricas fechando no cinturão de asteróides, crescimento perdido. Manter a Terra inteira significa dólares pelo ralo – muitos dólares, seus dólares. Existem pessoas, pessoas sinceras, pessoas boas, que se opõem fortemente aos nossos planos de deliberadamente desintegrar a terra. Eu entendo isso, de verdade, eu entendo, sabe – honestamente – eu costumava me sentir dessa maneira também, há não muito tempo. Eu também queria acreditar que era possível deixar esse mundo inteiro, como ele tem estado por quatro bilhões de anos agora. Eu também pensava que as velhas maneiras provavelmente eram as melhores, que esse planeta era o lugar ao qual pertencíamos, que deveríamos – e poderíamos – ainda encontrar alguma alternativa a desmontá-lo. Eu lembro desses sonhos, de verdade, eu lembro, e eu ainda os mantenho junto do meu coração. Mas, pessoal, eles eram apenas sonhos, sonhos antigos e nobres, mas sonhos, e hoje eu estou aqui para lhes dizer que temos que acordar. Planetas não são nossos amigos. Eles são lombadas na estrada para o futuro, e nós simplesmente não podemos mais pagar por eles. Vamos salvá-los em formato digital, com respeito, sim, até mesmo com amor, e então vamos ao trabalho…” [Aplausos estrondosos]

Uma vez que, durante o atual estágio da ambição extraterrestre, o favorecimento de partidários do desintegracionismo cósmico não pode ser razoavelmente concebido como um vencedor infalível de eleições, é de se esperar que a retórica desse tipo tenha sido silenciada. Ainda assim, na ausência de uma visão dessas ou de um alinhamento consistentemente extrapolado com a antigravidade, o impulso exo-planetário está condenado a arbitrariedade, insubstancialidade e insinceridade de expressão. Ausente um sentido não comprometido de algo além, por que não ater a isso? O resultado tem sido, talvez previsivelmente, um reino de semi-silêncio sobre o tópico de projetos extraterrestres, mesmo em relação às suas variedades mais limitadas, imediatas e praticamente incontestáveis.

Se escapar da Terra – e do confinamento gravitacional em geral – não é um fim inteligível, mas apenas um meio, o que fornece a motivação? É nessa fenda de aspiração apertada e estranhamente deformada que o NewSpace deve se insinuar. Falar de ‘insinceridade’ pode parecer indevidamente severo – uma vez que não há nenhuma razão para suspeitar de fraude consciente, ou mesmo de ressalvas cuidadosamente calibradas, quando os defensores do NewSpace esboçam seus planos. Uma estrutura envolvente de implausibilidade, não obstante, se anuncia em cada projeto que é promovido, manifestada através da incomensurabilidade entre a escala do empreendimento e as recompensas que supostamente o incentivam. Turismo espacial, mineração de asteróides, experimentação e manufatura em microgravidade… sério? É genuinamente imaginável que essas parcas metas motivam de maneira final ou suficiente uma luta prolongada contra a armadilha gravitacional terrestre, em vez de servir como frágeis pretextos ou racionalizações para a busca de objetivos bem mais convincentes, embora nebulosos, inarticulados ou mesmo completamente insuspeitos?

Quando essa questão é estendida para trás, e para fora, ela ganha força. Estique-a de volta até a Lua, e até Marte, e a inferência se torna cada vez mais irresistível. Nenhuma dessas ‘missões’ fazia, ou fazem, qualquer sentido que seja, exceto na medida em que elas abreviam algum impulso mais amplo e não revelado. A atividade espacial não é o meio para um fim visado, mas o fim a ser promovido por uma sequência de missões, cujo conteúdo específico é, portanto, derivado e vazio de significância intrínseca. Uma vez que o ímpeto para fora decai, não deixando nada além de um destino extraterrestre arbitrário para representá-lo, o absurdo puro que rapidamente é exposto extingue as últimas brasas cintilantes de motivação popular. Quatro décadas de niilismo lunar atestam isso abundantemente.

Embora a privatização parcial da atividade espacial (o ‘NewSpace’) desloque de maneira criativa o problema do propósito, ela não o dissipa de maneira radical. Em certo grau, o NewSpace substitui por motivações econômicas de operadores privados díspares a justificação política de uma burocracia pública concentrada e, ao fazê-lo, alivia a pressão de se manter objetivos coerentes, comunicáveis e consensuais. Ambições espaciais são liberadas para entrar no terreno fragmentado e competitivo da idiossincrasia, da variedade, da experimentação e até mesmo da frivolidade financiada de maneira pessoal. Poderia até se pensar que a seriedade se torna opcional.

Quando examinado de maneira mais obstinada, contudo, é claro que o problema básico persiste. O poço de gravidade terrestre produz uma cisão entre a superfície da terra e a ‘órbita’ (ou além), e o capital privado não é menos severamente divido por esse cisma do que as ferragens ‘públicas’ do Estado-Foguete. Embora conversível temporariamente em formas de valor inerte e armazenado, o capital é um fenômeno essencialmente moderno, nascido na revolução industrial e tipicamente definido pelo desvio do consumo imediato para a produção ‘indireta’, ou seja: maquinário. Ele é reproduzido, ou acumulado, ao circular por entre máquinas, ou aparatos, e é sobre isso que o poço gravitacional compele uma decisão: o capital do NewSpace deve ser investido, inequivocamente, no espaço?

Um programa espacial sério é, de maneira fundamental e irredutível, um processo de evacuação terrestre. Ele requer a realocação (ou des-locação) consistente de empreendimentos, recursos e capacidades produtivas da terra para o espaço, pelo menos até que o limiar de autocatálise extraterrestre seja alcançado, ponto no qual uma quebra é realizada e um economia exo-planetária autônoma é estabelecida. Quaisquer que sejam as oportunidades de ofuscação (que provavelmente são consideráveis), a decisão básica permanece sem ser afetada. O acúmulo de uma fortuna terrestre não é de forma alguma o mesmo que o investimento sustentado em uma infraestrutura industrial exo-planetária e, na verdade, é quase certamente economicamente inconsistente com ele. Ou as coisas estão sendo transferidas para o espaço, de maneira irrevogável, ou não.

[pausa para o bolo lunar]

Original.

A Tentação do Vazio (Parte 2)

As coisas certas em bruto

… é importante entender o que a Apollo foi, e o que não foi. Ela foi uma vitória na Guerra Fria contra os soviéticos, mas, uma vez que estávamos em guerra, a lutamos com uma empresa socialista de estado. O que ele não foi é o primeiro passo na abertura da fronteira para a humanidade e, na verdade, ela foi um falso começo que criou um modelo para a NASA e um ritmo no qual estamos presos há mais de quatro décadas, com muitos bilhões gastos e pouco progresso útil.
Rand Simberg

A abertura do oeste americano nas primeiras décadas do século XIX e a abertura da fronteira espacial nessas primeiras décadas do século XXI são muito similares.
Mike Snead

O fascismo faz nossas cabeças girarem, o que é lamentável, porque a incapacidade de olhar inabalavelmente para o modelo dominante de “terceira via” da economia política (o nacionalismo corporativo) torna a história do último século ininteligível. Para historiadores amadores, cair rapidamente nos Nazistas Lunares é simplesmente inevitável.

SS Sturmbannführer Wernher von Braun, vice-administrador associado de planejamento na sede da NASA, Washington DC (1970-2), ajuda na introdução. Diretor técnico do programa de foguetes nazi em Peenemünde, que culminou na criação do míssil balísitico A-4 (V-2), von Braun foi trazido à América em 1945 como o prêmio máximo da Operação Paperclip. Sua contribuição para o desenvolvimento de foguetes nos EUA, de Redstone até à Apollo (e à lua), foi central e indispensável. O Socialismo da NASA nasceu no Lado Escuro da Lua. (Este provavelmente não é o momento certo para se aprofundar muito no território de Pynchon mas, grosso modo, é onde estamos.)

Se fascismo soa demasiadamente duro, uma terminologia mais confortável é de fácil alcance. ‘Tecnocracia’ será suficiente. O nome é menos importante do que os fundamentos, que já estavam claramente formulados na obra de um imigrante alemão anterior aos Estados Unidos, Friedrich List, que devotou um livro influente a esboçar The National System of Political Economy (1841) (“O Sistema Nacional de Economia Política”, sem tradução para o português). De acordo com List, o ‘cosmopolitismo’ da economia política mainstream (smithiana) não prestava atenção suficiente ao interesse coletivo nacional. O desenvolvimento industrial era importante demais para ser entregue à interação de agentes econômicos privados, e deveria, ao contrário, ser considerado um imperativo estratégico, dentro do contexto da competição internacional. Somente aproveitando o poder do Estado para regular o comércio, fomentar as indústrias modernas e impulsionar o desenvolvimento de infraestruturas críticas, um país pode esperar avançar seus interesses na arena internacional. O desenvolvimento era guerra por outros meios e, às vezes, pelos mesmos.

Quando ardentemente adotadas por Henry Clay, que conectou as idéias de List com a tradição fundadora de Alexander Hamilton, essas idéias se tornaram a base do Sistema Americano. O nacionalismo econômico deveria ser perseguido ao longo do caminho triplo do comércio administrado (tarifas), finanças controladas pelo estado (banco central) e desenvolvimento de infraestrutura dirigido pelo estado (especialmente sistemas de transporte). Tais políticas já eram ‘progressistas’ ou fascistas, na medida em que subordinavam os interesses econômicos privados-cosmopolitas aos propósitos nacionais, mas isso ocorreu de maneira flexível, sem as incrustações mais recentes da guerra de classes anti-empresarial, dos gastos em larga escala com direitos ou do policiamento cultural catedralista. O capitalismo deveria ser conduzido, e até mesmo promovido, em vez de ordenhado, deliberadamente arruinado ou substituído. Devido a sua direção patriota, seu elitismo e sua afinidade com a militarização, esse progressismo tecnocrata poderia ser facilmente entendido como um fenômeno da ‘direita’ ou, pelo menos (nas palavras de Walter Russell Mead) do “Establishment Bipartidário”.

A Apollo exemplificava perfeitamente o progressismo tecnocrata americano na tradição teutonizada e neo-hamiltoniana. Um pequeno passo para um homem, e um salto substancial para a humanidade, ela foi um salto em altura colossal para o Leviatã dos EUA, marcando um triunfo inequívoco na competição estrutural com sua principal rival geo-estratégica e ideológica. O programa Apollo não era exatamente parte da corrida armamentista de mísseis balísticos com a União Soviética, mas estava próximo o suficiente para contribuir para com seu propósito simbólico e dissuasor sobre a psicologia das massas. Pousar um homem na lua era um tipo de exagero, em relação a pousar uma bomba nuclear em Moscou, e expressava uma capacidade superabundante de entrega de carga que havia ganho uma guerra de mensagens.

Em um artigo originalmente publicado no The American Spectator (10 de novembro de 2010), Iain Murray e Rand Simberg descrevem a corrida lunar como a Fronteira Final do Governo Grande, observando que:

Há algo sobre a política espacial que faz com que os conservadores esqueçam seus princípios. Apenas uma menção da NASA, e os conservadores estão bastante felizes em deixar seus instintos de governos pequenos na porta e votar a favor de programas governamentais massivos e duras regulamentações que sufocam as empresas privadas.

Eles concluem:

É hora dos conservadores reconhecerem que a Apollo acabou. Devemos reconhecer que a Apollo era um programa governamental monopolista centralmente planejado por alguns empregados do governo, a serviço da propaganda da Guerra Fria e que, portanto, era em si uma afronta aos valores americanos. Se queremos explorar seriamente e potencialmente tirar proveito do espaço, precisamos aproveitar as empresas privadas e impulsionar as tecnologias realmente necessárias para se fazer isso.

Ao passo em que seria inutilmente perturbador traduzir isso como um chamado pela desnazificação do espaço sideral, seria igualmente enganoso não lê-lo como nada do tipo. A tecnocracia progressista, em uma gama de sabores nacionais, é a única política espacial efetiva que o mundo jamais viu e é bem mais provável — no curto prazo — que ela seja modernizada do que radicalmente suplantada. O desenvolvimento espacial apresenta um desafio coletivo tão imenso que suga até conservadores orientado à liberdade, como Simberg, a uma acomodação com o estado ativista, catalítico e neo-hamiltoniano. Pelo menos inicialmente, não há simplesmente nenhum outro lugar onde o maquinário barulhento do Leviatã esteja mais em casa.

A cultura popular pegou bem isso. Entre as muitas razões para a recepção extática do Alien (1979) de Ridley Scott estava a apreciação por seu retrato tonal ‘realista’ da atividade espacial prática. Ciência e comércio desempenhavam suas partes, mas a vanguarda era dominada por metal pesado semi-militar, financiado por orçamentos massivos, embasados em objetivos estratégicos solenemente obscuros, dirigidos e operados por tipos duros, obedientes e com cortes militares, que faziam o que fosse necessário para conseguir realizar tudo. Invadir a fronteira profunda exigia um seriedade rígida e blindada que os civis nunca entenderiam direito.

Quando repentinamente despojado de seu contexto na Guerra Fria, a guerra indireta do estado-foguete perdeu motivações coerentes e imediatamente se desviou do curso em direção a pseudo-objetivos cada vez mais ridículos. Nos anos finais do século 20, toda a pretensão de um grande impulso para fora tinha sido dissipada entre manutenção de satélites mercantis na OBT, projetos científicos pouco convincentes em gravidade zero, diplomacia ritualística sobre a estação espacial, RPs sobre astronautas multiculturais e mesmo esquemas cínicos de trabalho inútil para técnicos ex-soviéticos perigosamente competentes. A ciência inteligente continuou, embasada em sondas robóticas e telescópios espaciais, mas nada que sequer sugerisse um ímpeto em direção à colonização espacial, ou sequer uma nave tripulada, e ela tipicamente aconselhava contra isso de maneira explícita. Apesar do bem real heroísmo das ‘coisas certas‘, colocar pessoas no espaço era um ato circense e talvez sempre tivesse sido.

O que quer mais que o espaço sideral possa ser, ele é um lugar onde a direita fica esquizóide, e quanto mais se pensa sobre isso, mais irregular a divisão. A ‘imagem’ aparentemente simples, dinâmica-tradicional e extremamente estimulante da fronteira ilumina esse ponto. A fronteira é um espaço de autoridade formal atenuada, onde processos empreendedores ‘de cima para baixo’ de formação social e esforço econômico são cultivados em meio a ‘individualistas grosseiros’ arquetípicos, sua afinidade com impulsos libertários tão estreita que ela estabelece o modelo (‘homesteading‘) de direitos naturais de propriedade e, ainda assim, de maneira igualmente inegável, ela é uma zona de guerra selvagem e informal, aberta como uma decisão política, pacificada através da incessante aplicação da força e desenvolvida como um imperativo estratégico, no interesse da integração territorial-política. Ao fugir do estado, na direção da fronteira, o colonizador ou colono estende o alcance do estado em direção à fronteira, trazendo-o para fora e elevando sua ferocidade, ou encrespando-o. O caminho da fuga anti-governamental se confunde com uma correspondente expansão, endurecimento e re-feralização do estado, conforme a cavalaria aprende com os índios, em um lugar sem regras. Aí chega a ferrovia. The Moon Is a Harsh Mistress encontra Starship Troopers.

“Uma estratégia para se alcançar benefícios econômicos a partir do espaço deve envolver tanto o governo quanto a indústria, como o fez o desenvolvimento do oeste americano”, argumenta Martin Elvis, e ninguém discorda de maneira séria. Quando quer que o realismo seja priorizado no horizonte extraterrestre, alguma variante do progressismo tecnocrata duro-e-sujo sempre está esperando na plataforma de lançamento, pronta para colocar negócios exo-planetários nos ombros de impulsionadores patriotas de primeiro estágio financiados pelo estado. A desnazificação precipitada é estritamente para molengas presos à terra Os cabos de arranque neo-hamiltonianos funcionam bem demais para se abandonar. Como de costume, Simberg [expressa isso da melhor forma:

Os Estados Unidos deveriam se tornar uma nação espacial, e líderes de uma civilização espacial.

Isso significa que o acesso ao espaço deveria ser quase tanto uma rotina (se não exatamente tão barato) quanto o acesso aos oceanos, e com leis e regulamentações similares. Isso significa milhares, ou milhões, de pessoas no espaço — e não apenas empregados do governo escolhidos a dedo, mas cidadãos privados que gastam seu próprio dinheiro com seus próprios propósitos. Isso significa que deveríamos ter a capacidade de detectar um asteróide ou cometa vindo na direção da Terra e desviá-lo em tempo hábil. Similarmente, significa que deveríamos ser capazes de minerar asteróides ou cometas por seus recursos, para uso no espaço ou na Terra, potencialmente abrindo novas riquezas para o planeta. Significa que deveríamos explorar o sistema solar da maneira que o fizemos no Oeste: não enviando pequenos times de exploradores do governo — Lewis e Clark eram a exceção extrema, não a regra — mas por ter muitas pessoas vagando e observando o próximo riacho em busca de aventura ou lucro.

Deveríamos ter uma exploração massivamente paralela — e não apenas exploração, mas desenvolvimento, da maneira em que isso funcionou em toda fronteira anterior.

O que nos traz ao ‘NewSpace’…

[A seguir]

Original.

A Tentação do Vazio (Parte 1)

A Fronteira da Desilusão

…a ideia que não somos mais capazes de realizar feitos que outrora conseguíamos (como viajar para a Lua) se choca com a narrativa dominante de que marchamos sempre adiante. Não apenas não conseguimos chegar na Lua no presente, mas os E.U.A. não tem mais um programa de ônibus espaciais – originalmente planejado para tornar as viagens espaciais tão rotineiras quanto as viagens aéreas. E, por falar nisso, eu não tenho mais a opção de comprar um bilhete para voar transatlântico em velocidades supersônicas no Concorde. As narrativas podem quebrar.
Tom Murphy (negritos no original)

A Expo Mundial 2010 em Shanghai incluía todo um pavilhão dedicado aos futuros urbanos. Entre as exibições estava um vídeo que se repetia em uma tela grande, retratando variedades de tipos de cidades futuristas como animações especulativas, alegres e com orientação óbvia para os jovens. Uma vez que as crianças são os cidadãos do futuro, faz sentido tratá-las como público alvo para uma visão do mundo de amanhã, mas o efeito também era desconcertante, como se colocasse entre parênteses o que era mostrado em forma de uma ironia negável e não abrasiva. É com isso que o futuro costumava se parecer. Ainda é? Neste ponto, uma sutil reserva se oculta como uma concessão à credibilidade infantil ou mesmo a uma fantasia inconsequente.

Uma das quatro cidades futuras em exibição havia sido construída fora do planeta, na órbita da terra. Ela era populada por humanos felizes (ou, pelo menos, humanoides). Nenhuma data era prevista. Livre de um firme compromisso futurista, ele cruzava a percepção adulta como um fragmento de memória transcultural.

Imagine uma cidade no espaço, como uma criança poderia. Dada a obscuridade estratégica desta afirmação, quando encontrada em uma evento internacional cuidadosamente elaborado, em uma cidade chinesa sofisticada, cosmopolita e global, em 2010, é tentador abordá-la através de uma analogia. Meio século atrás, quando as crianças ocidentais eram encorajadas a imaginar tais coisas, durante as décadas do crepúsculo da modernidade (1.0), fazia-se uma promessa sincera a elas de que elas herdariam o sistema solar? Se sim, tal promessa está agora sendo humoristicamente referenciada, ou ela está sendo redirecionada e refeita?

A Expo 2010 tinha uma Pavilhão Espacial, também, que apenas aprofundava a perplexidade. Dada a oportunidade de reativar as tradições da Expo de grandiosidade tecno-industrial, foi um erro espetacular de lançamento, não contendo quase nada em termos de hardware monumental. O conteúdo caía em duas categorias amplas: efeitos especiais baseados em vídeo (altamente apreciados pelas crianças) e aplicações domésticas ordinárias da tecnologia espacial, no modelo aproximado da lamentável campanha publicitária “somos os caras que lhe trouxeram a frigideira que não gruda” da NASA. Qualquer um que esperasse análogos militares de veículos de lançamento ciclópicos esmagadores de alma e o fedor acre do combustível de foguete tinha claramente entrado no século errado. A etiqueta internacional contemporânea prevalecia e, de acordo com ela, esse negócio de resplandecer em órbita é cru demais – até mesmo primitivo – para ser vigorosamente divulgado.

Então, mesmo na China, pelo menos na sua janela para o mundo em 2010, aspirações exoplanetárias eram indissoluvelmente misturadas com fantasias de infância. A insinuação inconfundível, harmonizada com os altos comandos da opinião pública, era de que esses sonhos de ficção científica haviam sido superados. Em vez de olhar através de uma janela para a ressonante oficina do emergente programa espacial da China, os visitantes ocidentais viram seus olhares refletidos em vidro espelhado, em um vácuo ‘pós-moderno’ de expectativas desmoronadas, entre as ruínas erodidas da Apollo. Quatro décadas de falha espacial ocidental educadamente sorriam de volta. Vocês perderam, não é mesmo? (Uma viagem rápida através do Huangpu, até ao tristemente mundano Pavilhão dos EUA era suficiente para uma confirmação inequívoca.)

A rejeição de um futuro humano exoplanetário como um sonho infantil tem muito em que se basear. As editoras e as livrarias há muito acomodaram seus sistemas de classificação à desprezível ambiguidade do ‘gênero ficção científica / fantasia’, no qual o futurismo se desmancha em onirismo, e os vestígios dos programas da FC séria (satélites de telecomunicação, bases lunares, elevadores espaciais) estão espalhados em meio a mitologias fantásticas de elfos no espaço (de Star Wars a Avatar). Profecias competitivas se degeneram em alegorias polêmicas, fazendo afirmações sobre tudo e qualquer coisa exceto a forma do futuro.

De todas as ondulações culturais vindas do truncamento da trajetória espacial da era da Apollo, nenhuma é mais reveladora do que a crescente popularidade da teoria da conspiração da ‘Fraude da Lua’. Não satisfeitos com a evacuação prospectiva dos céus, os conspiradores sobre a Lua começaram a editar sistematicamente os viajantes espaciais para fora do passado, começando com os pousos lunares. Embora claramente enlouquecedores para os tecnólogos espaciais, patriotas americanos, defensores da NASA e tipos sensatos em geral, essa forma de ‘negacionismo’ não é apenas historicamente compreensível, mas até mesmo inevitável. Se ninguém contesta seriamente o fato de que Colombo chegou ao Novo Mundo, é pelo menos em parte porque o que se iniciou ali continuou acontecendo. Algo começou e continuou. Nada comparável pode ser dito sobre o processo de colonização lunar e isso, em si mesmo, é uma extravagância provocadora. Quando previsões são lembradas, pode-se esperar que resultados abandonados baguncem as memórias.

Entusiasta espacial da velha-guarda, Sylvia Engdahl acha toda a situação patológica e a sujeita a um tipo de psicanálise feita às pressas. Com um otimismo desafiador, ela atribui “o atual hiato nas viagens espaciais” ao trauma xenofóbico:

Muito é dito sobre o efeito positivo das fotos da Terra obtidas pela Apollo 8, que pela primeira vez mostraram nosso planeta como um globo, um frágil refúgio em meio a um entorno árido e, assim, lançou o movimento ambientalista. O impacto negativo concomitante — a disseminação de conhecimento visceral de que o espaço é um lugar real que contém pouco do que é familiar para nós e talvez muito que preferimos não conhecer — não é comentado. Mas pode não ser menos significante. Poderia ser essa uma das razões pelas quais o interesse no espaço morreu tão rápido depois do primeiro pouso na Lua, resultando no cancelamento das últimas poucas missões planejadas da Apollo?

Ela elabora:

A maior parte das pessoas não quer contemplar a significância de um universo aberto. Elas não deixam o desconforto sobre isso entrar em suas mentes, mas por baixo, conforme o inconsciente coletivo da humanidade absorve o conhecimento, elas o compreendem e reagem com desalento disfarçado de apatia. Não lhes ocorre que elas poderiam ser perturbadas pelo prospecto da exploração espacial. Antes, elas acreditam que, embora na teoria elas queiram que a humanidade alcance novos mundos, é de baixa prioridade comparado aos problemas de aqui e agora. …[A] convicção muito difundida de que o público não se importa mais com o espaço pode também ser uma racionalização.

Engdahl insinua uma variante moderna do mito de Orfeu e capta algo de impressionante significância. Foi-nos dito que não olhássemos para trás da órbita, mas é claro que o fizemos, e o que vimos nos puxou de volta para baixo. A danação do nosso salto extraterrestre deu origem a uma visão ambientalista lúcida – a terra vista do espaço. É por isso que Tom Murphy se volta para o Grande Arquedruida da Antiga Ordem dos Druidas na América, John Michael Greer, para transmutar desilusão elegíaca em aceitação:

Os orbitadores estão silenciosos agora, esperando pela última estranha jornada que os levará para os museus que armazenarão o maior dos sonhos falidos de nossa civilização. Não haverá contagem regressiva, nenhum pilar de chamas para empurrá-los pela atmosfera e mandá-los chicoteando em torno do planeta em velocidades orbitais. Tudo isso acabou. …Na análise final, viagens espaciais eram simplesmente o desdobramento mais distante e mais característico da civilização industrial e dependiam — como tudo da civilização industrial depende — de vastas quantias de energia barata, altamente concentrada e prontamente acessível. Essa condição básica está chegando a um fim ao nosso redor agora mesmo.

Desilusão é simplesmente acordar de coisas infantis, os druidas nos dizem. Este é um ponto que Murphy faz questão de endossar: “fantasias espaciais podem nos impedir de abordar problemas mundanos”. Intrigantemente, seu passo inicial em direção à aceitação envolve uma retificação de uma falsa memória, através de um análogo (são) da negação da ‘Fraude da Lua’. Pesquisando seus alunos sobre sua compreensão da história recente do espaço (“desde 1980 mais ou menos”), ele descobriu que nada menos que 52% pensavam que os humanos haviam partido da Terra até a Lua (a 385.000 km de distância) nessa época. Apenas 11% entendiam, corretamente, que nenhuma expedição tripulada havia escapado da Órbita Baixa da Terra (OBT, a 600km) desde o fim do programa Apollo. A atividade espacial humana recente, pelo menos da maneira em que era imaginada, não havia ocorrido. Ela era predominantemente uma alucinação coletiva.

O estilo altamente desenvolvimento de druidismo numerato de Murphy representa a hipótese nula no debate sobre colonização espacial: talvez não estejamos lá fora porque não há nenhuma razão convincente para se esperar qualquer outra coisa. O espaço extraterrestre não é uma fronteira, nem mesmo uma que é árdua, mas sim uma desolação implacavelmente hostil que não promete nada além de pesar e desperdício. Há alguns dados científicos a serem compilados e também (embora Murphy não enfatize isso) oportunidades para a teatralidade política. Fora isso, contudo, não há nada para além da OBT que se valha alcançar.

O ponto de partida neo-druídico tem, sem remorsos, os pés no chão. Ele começa com a física energética, e o fato impiedoso que de fazer basicamente qualquer coisa esquenta as coisas. De acordo com os cálculos de Murphy, uma taxa de crescimento econômico global de modestos 2.3% é suficiente para colocar a superfície da terra no ponto de ebulição da água dentro de quatro séculos, mesmo na completa ausência de efeitos estufa (positivos). O crescimento econômico é essencialmente exponencial, e isso garante que estamos fritos, devido a princípios termodinâmicos elementares, limites de eficiência e a geofísica da dissipação de calor. Dentro deste quadro geral, as preocupações convencionais com a “crise de energia” não passam de detalhes complicadores, embora Murphy se ocupe minuciosamente delas. (Ele fornece um hábil resumo de seu argumento, com links internos, aqui.)

Da perspectiva neo-druídica, a ‘fronteira’ espacial é um horizonte de puro escapismo, que atrai aqueles que teimosamente negam a necessidade de limitação (pestilentos viciados em crescimento):

…confiar no espaço para fornecer uma base infinita de recursos adentro dos quais podemos crescer/nos expandir para sempre é equivocado. Não apenas é muito mais difícil do que muitas pessoas apreciam, mas representa uma distração da mensagem que o crescimento não pode continuar na Terra e deveríamos nos ocupar de planejar uma transição para uma existência não embasada em crescimento e verdadeiramente sustentável.

Uma vez que muitos irreprimíveis promotores de crescimento seriamente querem ir até lá, Murphy espalha desencorajamento em camadas grossas e viscosas. A maior parte dos fatores de dissuasão são relativamente familiares, mas nenhum deles são frívolos ou facilmente descartados. O principal problema é o mais qualitativo (e druídico): a adaptação humana às condições terrestres. Isto é notavelmente iluminado por uma consideração dos ambientes terrestres de fronteira que permanecem quase inteiramente inexplorados, apesar de características ambientais que são esmagadoramente mais benignas do que qualquer coisa que possa ser encontrada fora do planeta. Quando comparados com qualquer estação espacial, campo de mineração de asteróides, base lunar ou colônia em Marte, mesmo os lugares mais ‘difíceis’ na terra – o solo oceânico, por exemplo, ou a Antártica – são caracterizados por uma extrema hospitalidade, com acesso imediato a ar respirável, nutrientes, combustíveis e outros recursos essenciais, uma gama moderada de temperaturas, proteção contra a radiação cósmica e a proximidade de assentamentos humanos existentes. Isso deve ser contrastado com as condições extraterrestres típicas de vácuo intenso, exposição total, completa ausência de química biocompatível e distâncias incompreensíveis.

Murphy tocou nessas distâncias em sua pesquisa sobre a ignorância espacial dos estudantes. Se a terra for representada por um globo “padrão” de 30 centímetros, a OBT está a 1.5 centímetros da superfície, e a lua a 9 metros completos mais longe. Para uma compreensão intuitiva de visões espaciais mais expansivas, contudo, uma recalibração é necessária.

Faz sentido modelar a terra como uma pequena maçã (8.5cm em diâmetro), porque então a unidade astronômica (AU, a distância média entre o sol e a terra, de aproximadamente 150 milhões de quilômetros, 93 milhões de milhas, ou 500 segundos-luz) diminui para um quilômetro, com o sol representado por uma esfera de pouco mais de 10 metros de diâmetro. A lua agora está a menos de 2.7 metros de distância de nossa terra de brinquedo, mas Marte nunca está a menos de 400 metros de distância, o asteróides mais próximos a um quilômetro. A distância até a borda do sistema planetário solar (Netuno) está a pelo menos 29 quilômetros e, dentro desse volume espacial (uma esfera de aproximadamente 113.400 AU³), menos de uma parte em 27 bilhões é algo além de vácuo desolado, com quase todo o resto sendo a fornalha solar. Na escala de brinquedo, a borda exterior do sistema solar, e a nuvem de Oort, está 50.000 quilômetros da terra. A distância de nossa murcha maçã até a estrela mais próxima, Proxima Centauri, é 277.600 quilômetros de brinquedo (ou 41.5 trilhões dos de verdade).

Se a colonização espacial estiver sendo interpretada como uma escapada das restrições de recursos terrestres, então um padrão de atividade precisa ser costurado ao longo dessas distâncias, produzindo – no mínimo – um excedente energético. Em um sistema cinético sem fricção, governado quase puramente pela conservação (macroscópica) do momento, a moeda básica da atividade especial é o ‘delta-v’, ou a transformação da velocidade. O delta-v é amplamente proporcional ao gasto de energia em “pequenas queimas”, quando o consumo de combustível faz uma diferença negligenciável no total de massa propelida, mas quando vôos completos ou “grandes queimas”são calculadas, a matemática se torna não linear, uma vez que a redução da carga útil de combustível se torna um fator crítico na equação (subtraindo a resistência inercial na medida em que ela adiciona força motora). Em termos práticos, a economia de energia exoplanetária (‘espacial’) consiste do consumo de propelente para mover o propelente, com a massa não combustível do veículo contribuindo pouco mais do que um erro de arredondamento nos cálculos.

Um pouco contra-intuitivamente, é possível fazer com que o foguete se mova mais rápido que a velocidade de escape, uma vez que a massa de combustível exceda 63% da massa inicial total. Para obter valores de delta-v na faixa de 20 km/s, quando a velocidade de escape for inferior a 5 km/s, não é preciso quase nada além de combustível. …Os grandes delta-v necessários para contornar o sistema solar exigem muito combustível…

Esse registro duplo do combustível dentro da equações não lineares da “matemática de foguetes” – como carga útil e propelente – é a chave para o profundo ceticismo de Murphy sobre a viabilidade de uma economia energética exoplanetária. Os recursos combustíveis espalhados dentro do sistema solar interior – mesmo assumindo sua absoluta abundância – não podem ser movido de maneira útil por menos energia do que fornecem. Júpiter oferece o exemplo mais atormentador. Esse gigante gasoso rico em metano pode ser superficialmente apreendido como um imenso depósito de combustível cósmico, mas até mesmo os cálculos mais generosos dos requisitos delta-v para uma “corrida de petroleiros” até Júpiter implicam gastos de energia pelo menos uma ordem de magnitude maior do que a energia obtida da operação de escavação sozinha. O sistema solar interior é abundante em “recursos encalhados” que não podem concebivelmente ser extraídos a um custo menor do que seu valor. Esta, pelo menos, é a perspectiva neo-druídica coerente.

…e, ainda assim, no vácuo que se escancara, onde as colônias especiais eram para ter estado, os movimentos não cessaram. Parece até mesmo haver, inconfundivelmente, uma aceleração do passo. ‘Taikonautas‘ chineses, empresas privadas (americanas) do ‘NewSpace‘ e robôs cada vez mais avançados estão se aventurando para além dos destroços de sonhos mortos. Eles estão indo para qualquer lugar que funcione, ou que sequer faça sentido?

[A seguir…]

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