A Tentação do Vazio (Parte 2)

As coisas certas em bruto

… é importante entender o que a Apollo foi, e o que não foi. Ela foi uma vitória na Guerra Fria contra os soviéticos, mas, uma vez que estávamos em guerra, a lutamos com uma empresa socialista de estado. O que ele não foi é o primeiro passo na abertura da fronteira para a humanidade e, na verdade, ela foi um falso começo que criou um modelo para a NASA e um ritmo no qual estamos presos há mais de quatro décadas, com muitos bilhões gastos e pouco progresso útil.
Rand Simberg

A abertura do oeste americano nas primeiras décadas do século XIX e a abertura da fronteira espacial nessas primeiras décadas do século XXI são muito similares.
Mike Snead

O fascismo faz nossas cabeças girarem, o que é lamentável, porque a incapacidade de olhar inabalavelmente para o modelo dominante de “terceira via” da economia política (o nacionalismo corporativo) torna a história do último século ininteligível. Para historiadores amadores, cair rapidamente nos Nazistas Lunares é simplesmente inevitável.

SS Sturmbannführer Wernher von Braun, vice-administrador associado de planejamento na sede da NASA, Washington DC (1970-2), ajuda na introdução. Diretor técnico do programa de foguetes nazi em Peenemünde, que culminou na criação do míssil balísitico A-4 (V-2), von Braun foi trazido à América em 1945 como o prêmio máximo da Operação Paperclip. Sua contribuição para o desenvolvimento de foguetes nos EUA, de Redstone até à Apollo (e à lua), foi central e indispensável. O Socialismo da NASA nasceu no Lado Escuro da Lua. (Este provavelmente não é o momento certo para se aprofundar muito no território de Pynchon mas, grosso modo, é onde estamos.)

Se fascismo soa demasiadamente duro, uma terminologia mais confortável é de fácil alcance. ‘Tecnocracia’ será suficiente. O nome é menos importante do que os fundamentos, que já estavam claramente formulados na obra de um imigrante alemão anterior aos Estados Unidos, Friedrich List, que devotou um livro influente a esboçar The National System of Political Economy (1841) (“O Sistema Nacional de Economia Política”, sem tradução para o português). De acordo com List, o ‘cosmopolitismo’ da economia política mainstream (smithiana) não prestava atenção suficiente ao interesse coletivo nacional. O desenvolvimento industrial era importante demais para ser entregue à interação de agentes econômicos privados, e deveria, ao contrário, ser considerado um imperativo estratégico, dentro do contexto da competição internacional. Somente aproveitando o poder do Estado para regular o comércio, fomentar as indústrias modernas e impulsionar o desenvolvimento de infraestruturas críticas, um país pode esperar avançar seus interesses na arena internacional. O desenvolvimento era guerra por outros meios e, às vezes, pelos mesmos.

Quando ardentemente adotadas por Henry Clay, que conectou as idéias de List com a tradição fundadora de Alexander Hamilton, essas idéias se tornaram a base do Sistema Americano. O nacionalismo econômico deveria ser perseguido ao longo do caminho triplo do comércio administrado (tarifas), finanças controladas pelo estado (banco central) e desenvolvimento de infraestrutura dirigido pelo estado (especialmente sistemas de transporte). Tais políticas já eram ‘progressistas’ ou fascistas, na medida em que subordinavam os interesses econômicos privados-cosmopolitas aos propósitos nacionais, mas isso ocorreu de maneira flexível, sem as incrustações mais recentes da guerra de classes anti-empresarial, dos gastos em larga escala com direitos ou do policiamento cultural catedralista. O capitalismo deveria ser conduzido, e até mesmo promovido, em vez de ordenhado, deliberadamente arruinado ou substituído. Devido a sua direção patriota, seu elitismo e sua afinidade com a militarização, esse progressismo tecnocrata poderia ser facilmente entendido como um fenômeno da ‘direita’ ou, pelo menos (nas palavras de Walter Russell Mead) do “Establishment Bipartidário”.

A Apollo exemplificava perfeitamente o progressismo tecnocrata americano na tradição teutonizada e neo-hamiltoniana. Um pequeno passo para um homem, e um salto substancial para a humanidade, ela foi um salto em altura colossal para o Leviatã dos EUA, marcando um triunfo inequívoco na competição estrutural com sua principal rival geo-estratégica e ideológica. O programa Apollo não era exatamente parte da corrida armamentista de mísseis balísticos com a União Soviética, mas estava próximo o suficiente para contribuir para com seu propósito simbólico e dissuasor sobre a psicologia das massas. Pousar um homem na lua era um tipo de exagero, em relação a pousar uma bomba nuclear em Moscou, e expressava uma capacidade superabundante de entrega de carga que havia ganho uma guerra de mensagens.

Em um artigo originalmente publicado no The American Spectator (10 de novembro de 2010), Iain Murray e Rand Simberg descrevem a corrida lunar como a Fronteira Final do Governo Grande, observando que:

Há algo sobre a política espacial que faz com que os conservadores esqueçam seus princípios. Apenas uma menção da NASA, e os conservadores estão bastante felizes em deixar seus instintos de governos pequenos na porta e votar a favor de programas governamentais massivos e duras regulamentações que sufocam as empresas privadas.

Eles concluem:

É hora dos conservadores reconhecerem que a Apollo acabou. Devemos reconhecer que a Apollo era um programa governamental monopolista centralmente planejado por alguns empregados do governo, a serviço da propaganda da Guerra Fria e que, portanto, era em si uma afronta aos valores americanos. Se queremos explorar seriamente e potencialmente tirar proveito do espaço, precisamos aproveitar as empresas privadas e impulsionar as tecnologias realmente necessárias para se fazer isso.

Ao passo em que seria inutilmente perturbador traduzir isso como um chamado pela desnazificação do espaço sideral, seria igualmente enganoso não lê-lo como nada do tipo. A tecnocracia progressista, em uma gama de sabores nacionais, é a única política espacial efetiva que o mundo jamais viu e é bem mais provável — no curto prazo — que ela seja modernizada do que radicalmente suplantada. O desenvolvimento espacial apresenta um desafio coletivo tão imenso que suga até conservadores orientado à liberdade, como Simberg, a uma acomodação com o estado ativista, catalítico e neo-hamiltoniano. Pelo menos inicialmente, não há simplesmente nenhum outro lugar onde o maquinário barulhento do Leviatã esteja mais em casa.

A cultura popular pegou bem isso. Entre as muitas razões para a recepção extática do Alien (1979) de Ridley Scott estava a apreciação por seu retrato tonal ‘realista’ da atividade espacial prática. Ciência e comércio desempenhavam suas partes, mas a vanguarda era dominada por metal pesado semi-militar, financiado por orçamentos massivos, embasados em objetivos estratégicos solenemente obscuros, dirigidos e operados por tipos duros, obedientes e com cortes militares, que faziam o que fosse necessário para conseguir realizar tudo. Invadir a fronteira profunda exigia um seriedade rígida e blindada que os civis nunca entenderiam direito.

Quando repentinamente despojado de seu contexto na Guerra Fria, a guerra indireta do estado-foguete perdeu motivações coerentes e imediatamente se desviou do curso em direção a pseudo-objetivos cada vez mais ridículos. Nos anos finais do século 20, toda a pretensão de um grande impulso para fora tinha sido dissipada entre manutenção de satélites mercantis na OBT, projetos científicos pouco convincentes em gravidade zero, diplomacia ritualística sobre a estação espacial, RPs sobre astronautas multiculturais e mesmo esquemas cínicos de trabalho inútil para técnicos ex-soviéticos perigosamente competentes. A ciência inteligente continuou, embasada em sondas robóticas e telescópios espaciais, mas nada que sequer sugerisse um ímpeto em direção à colonização espacial, ou sequer uma nave tripulada, e ela tipicamente aconselhava contra isso de maneira explícita. Apesar do bem real heroísmo das ‘coisas certas‘, colocar pessoas no espaço era um ato circense e talvez sempre tivesse sido.

O que quer mais que o espaço sideral possa ser, ele é um lugar onde a direita fica esquizóide, e quanto mais se pensa sobre isso, mais irregular a divisão. A ‘imagem’ aparentemente simples, dinâmica-tradicional e extremamente estimulante da fronteira ilumina esse ponto. A fronteira é um espaço de autoridade formal atenuada, onde processos empreendedores ‘de cima para baixo’ de formação social e esforço econômico são cultivados em meio a ‘individualistas grosseiros’ arquetípicos, sua afinidade com impulsos libertários tão estreita que ela estabelece o modelo (‘homesteading‘) de direitos naturais de propriedade e, ainda assim, de maneira igualmente inegável, ela é uma zona de guerra selvagem e informal, aberta como uma decisão política, pacificada através da incessante aplicação da força e desenvolvida como um imperativo estratégico, no interesse da integração territorial-política. Ao fugir do estado, na direção da fronteira, o colonizador ou colono estende o alcance do estado em direção à fronteira, trazendo-o para fora e elevando sua ferocidade, ou encrespando-o. O caminho da fuga anti-governamental se confunde com uma correspondente expansão, endurecimento e re-feralização do estado, conforme a cavalaria aprende com os índios, em um lugar sem regras. Aí chega a ferrovia. The Moon Is a Harsh Mistress encontra Starship Troopers.

“Uma estratégia para se alcançar benefícios econômicos a partir do espaço deve envolver tanto o governo quanto a indústria, como o fez o desenvolvimento do oeste americano”, argumenta Martin Elvis, e ninguém discorda de maneira séria. Quando quer que o realismo seja priorizado no horizonte extraterrestre, alguma variante do progressismo tecnocrata duro-e-sujo sempre está esperando na plataforma de lançamento, pronta para colocar negócios exo-planetários nos ombros de impulsionadores patriotas de primeiro estágio financiados pelo estado. A desnazificação precipitada é estritamente para molengas presos à terra Os cabos de arranque neo-hamiltonianos funcionam bem demais para se abandonar. Como de costume, Simberg [expressa isso da melhor forma:

Os Estados Unidos deveriam se tornar uma nação espacial, e líderes de uma civilização espacial.

Isso significa que o acesso ao espaço deveria ser quase tanto uma rotina (se não exatamente tão barato) quanto o acesso aos oceanos, e com leis e regulamentações similares. Isso significa milhares, ou milhões, de pessoas no espaço — e não apenas empregados do governo escolhidos a dedo, mas cidadãos privados que gastam seu próprio dinheiro com seus próprios propósitos. Isso significa que deveríamos ter a capacidade de detectar um asteróide ou cometa vindo na direção da Terra e desviá-lo em tempo hábil. Similarmente, significa que deveríamos ser capazes de minerar asteróides ou cometas por seus recursos, para uso no espaço ou na Terra, potencialmente abrindo novas riquezas para o planeta. Significa que deveríamos explorar o sistema solar da maneira que o fizemos no Oeste: não enviando pequenos times de exploradores do governo — Lewis e Clark eram a exceção extrema, não a regra — mas por ter muitas pessoas vagando e observando o próximo riacho em busca de aventura ou lucro.

Deveríamos ter uma exploração massivamente paralela — e não apenas exploração, mas desenvolvimento, da maneira em que isso funcionou em toda fronteira anterior.

O que nos traz ao ‘NewSpace’…

[A seguir]

Original.