Links para Ayache

Há uma troca desalinhada de ideias com Elie Ayache ocorrendo nesta seção de comentários (conduzida, do lado de Ayache, com graça impecável). Chegar a um estado de competência mínima nessa conversa não vai ser fácil. Caso outros estejam inspirados a escalar os mesmos intimidadores penhascos intelectuais, eu reuni alguns links preliminares.

O arquivo principal dos seus escritos está aqui.

Sobre a principal obra de Elie Ayache, The Blank Swan ("O Cisne Branco", ainda sem tradução), o próprio EA se refere a duas análises, no NYT e no The Hindu. (O primeiro é sugestivo de completa incompreensão, o último faz uma impressão mais convincente de um entendimento pelo menos tênue.)

‘The Medium of Contingency’ ("O Meio da Contingência"), um ensaio filosófico no qual Ayache esboça sua tese básica, pode ser encontrado aqui.

Duas seções de discussão se engajam na obra de Ayache (aqui e aqui). Ayache participa da primeira como "numbersix".

A obra de Ayache é onde o Realismo Especulativo (especialmente Meillassoux) intercepta a realidade econômica. De uma perspectiva alternativa, ela é uma ‘radicalização’ extrema da crítica de Nassim Nicholas Taleb à modelagem gaussiana do mercado.

Ao descrever The Blank Swan, Ayache resume seu argumento como "… colocar o preço antes da probabilidade e a contingência absoluta antes da possibilidade". Interpretado em termos mais literários-filosóficos, isso equivale a "… uma reconstrução do mercado das reivindicações contingentes no âmbito da escrita e da diferença, em vez da identidade da delimitação de estados".

Este blog mantém que a inferência bayesiana (subjetiva probabilística) aplicada é o esquema insuperável da racionalidade capitalista, ou processamento de risco, em geral, como mais lucidamente evidenciado na especulação financeira. Quando Ayache alega ter excedido tal pensamento, para chegar em uma compreensão prática (e até mesmo algorítmica) da contingência absoluta, a resposta inicial do UF só pode ser altamente cética. Atualmente, tais reservas estão sendo sustentadas apenas como ‘antecedentes’ primitivos. Em outras palavras, esta inovação intelectual se parece, obscuramente, com uma aposta muito ruim.


Original.

Uma República, Se Você Conseguir Mantê-La

As realizações interligadas de Kurt Gödel, que revolucionaram o entendimento rigoroso da lógica, da aritmética e do tempo, não são de uma natureza que prontamente recebem a aclamação do público. Há, não obstante, uma estória amplamente factual sobre ele que alcançou algum nível notável de popularidade, e é uma que se conecta sugestivamente com as preocupações centrais de sua obra. No website do Institute for Advanced Study (onde Gödel esteve estabelecido de 1940 até sua morte em 1978), a recordação de Oskar Morgenstern sobre o episódio em questão está registrada:

[Gödel], de maneira um tanto animada, me contou que, ao examinar a Constituição, para sua angústia, ele havia encontrado algumas contradições internas e que ele poderia demonstrar como, de uma maneira perfeitamente legal, seria possível que alguém se tornasse ditador e estabelecesse um regime fascista, nunca planejado por aqueles que elaboraram a Constituição. Eu lhe disse que era muito improvável que tais eventos jamais ocorressem, mesmo assumindo que ele estivesse certo, algo do que, claro, eu duvidava.

Mas ele era persistente e, então, tivemos muitas conversas sobre esse ponto em particular. Eu tentei lhe persuadir de que ele deveria evitar levantar tais questões no exame perante o tribunal em Trenton, e eu também contei a Einstein sobre isso: ele ficou horrorizado que tal ideia tivesse ocorrido a Gödel, e ele também lhe disse que não deveria se preocupar com essas coisas, nem discutir a questão.

Muitos meses se passaram e finalmente a data do exame em Trenton chegou. Naquele dia em particular, eu busquei Gödel com meu carro. Ele sentou atrás e então fomos buscar Einstein em sua casa na Mercer Street e dali dirigimos até Trenton. Enquanto dirigíamos, Einstein se virou um pouco e disse, “Ora, Gödel, você realmente está preparado para esse exame?”. Claro, esta observação irritou Gödel tremendamente, que era exatamente o que Einstein pretendia, e ele se divertiu muito quando viu a preocupação no rosto de Gödel.

Quando chegamos a Trenton, fomos conduzidos a uma sala grande e, embora normalmente as testemunhas fossem questionadas separadas do candidato, por causa da aparição de Einstein, uma exceção foi feito e todos os três de nós fomos convidados a nos sentarmos juntos, Gödel no centro. O examinador primeiro interrogou Einstein, depois eu, se pensávamos que Gödel seria um bom cidadão. Nós o asseguramos que este certamente seria o caso, que ele era um homem distinto, etc.

E então ele se voltou para Gödel e disse “Ora, Sr. Gödel, de onde você vem?”

Gödel: De onde eu venho? Da Áustria.

O examinador: Que tipo de governo vocês tinham na Áustria?

Gödel: Era uma república, mas a constituição era tal que finalmente ela foi alterada para uma ditadura.

Examinador: Ah! Isso é muito ruim. Isso não poderia acontecer neste país.

Gödel: Ah, sim, eu posso provar.

Para grande vantagem da inteligência na terra, Gödel não acabou se desqualificando para residência noa EUA através de seu entendimento desastrosamente super-preciso de sua constituição. Evidentemente, apesar de tudo que havia acontecido até 1947, um apego detalhado à constituição ainda não havia se tornado uma crimidéia.

Hoje, um apego enfático à Constituição dos EUA está restrito à franja lunática, isto é, decente do Partido Externo e a exceções ainda mais ranzinzas. Libertários extremos tendem a descartá-la como uma distração, se não uma encarnação maligna da degeneração estatista (quando comparado aos Artigos da Confederação, menos compatíveis com o Leviatã). Realistas reacionários da escola de Moldbug (em todas suas vastas multidões) são pelo menos igualmente desdenhosos, vendo nela pouco mais do que um objeto de fetiche e uma evasão da questão prática atemporal: Quis custodiet ipsos custodes? Se constituições são realisticamente indefensáveis, tanto em princípio quanto como uma questão de fato histórico brutalmente demonstrado, que significância elas poderiam ter para qualquer análise desapaixonada sobre o poder?

Uma vez que a esmagadora maioria das atividades atuais do Governo dos EUA é transparentemente inconstitucional, o argumento cético em grande parte se faz sozinho. Presidentes mobilizam apoio congressional para apontar juízes da Suprema Corte cuja principal qualificação para o cargo é a vontade de conspirar na subversão da constituição, para os aplausos ensurdecedores de um eleitorado devorador de favorecimentos e de seus intermediários lobistas. Como plausivelmente se poderia resistir a isso? Talvez esse fosse o ponto de Gödel.

Na verdade, ninguém realmente sabe qual era o ponto de Gödel. Jeffrey Kegler, que examinou o tópico cuidadosamente, o deixa aberto. “Aparentemente, a ‘inconsistência’ observada por Gödel é simplesmente que a Constituição prevê sua própria alteração”, sugere um Mark Dominus “gravemente desapontado”, que “estivera esperando por algo brilhante e sutil que apenas Gödel tivesse notado”. Dominus tira essa conclusão tentativa a partir de Paradox of Self-Amendment (“Paradoxo da Auto-Emenda”) de Peter Suber, onde mais audaciosamente se afirma:

Kurt Gödel, o logicista austríaco, entendeu que uma CE onipotente continha o risco da tirania. Gödel estudou a constituição dos EUA em preparação para seu exame oral de cidadania em 1948. Ele observou que a CE tinha limitações procedurais, mas nenhuma limitação substantiva; consequentemente, ela podia ser usada para derrubar as instituições democráticas descritas no resto da constituição.

Suber adiciona: “Um desejo de se limitar o poder de emenda, ou de torná-lo mais difícil — o que não é a mesma coisa — demonstra uma desconfiança para com a democracia, ou uma negação de que, em geral, as pessoas merecem o que recebem”. (Voltaremos a isso mais tarde.)

Isso é conceitualmente persuasivo, porque harmoniza as preocupações constitucionais de Gödel com sua preocupação intelectual central: a emergência de inconsistências dentro de sistemas formais auto-referentes. A Cláusula de Emenda (Artigo V, secção 1) é a ocasião para que a constituição fale sobre si mesma e, assim, encontre problemas rigorosamente comparáveis àqueles familiares dos teoremas de incompletude de Gödel na lógica matemática. Apesar da elegância dessa ‘solução’, contudo, não há nenhuma evidência sólida para sustentá-la. Além disso, estruturas auto-referentes podem ser identificadas em inúmeros outros pontos. Por exemplo, a autoridade da Suprema Corte em relação à interpretação constitucional não é um ponto similar de reflexividade, com potencial ilimitado de circularidade e paradoxo? Esta compreensão, em alta consideração entre os neo-reacionários, reconhece que a constituição permite – em princípio – que uma Suprema Corte suficientemente corrupta ‘interprete’ seu caminho até o poder absoluto (em conformidade com uma constituição que foi sublimada em ‘vida’ pura). Na medida em que a constituição permite seu próprio processamento, ela tem que – em última análise – permitir tudo.

Moldbug nos pede para acelerar por entre essa emaranhado formal, cortando o nó górdio. “A soberania é conservada”, ele repete, insistentemente, então as ocasiões em que o poder se compromete a se atar são essencialmente risíveis. É claro que o guardião final da constituição é um ditador constitucionalmente irrestrito. Isso é simplesmente sanidade schimittiana.

Com todo devido desdenho para com o argumentum ad hominem, provavelmente pode se concordar que Gödel não era um tolo, de modo que sua animada identificação de uma falha localizada na Constituição dos EUA merece consideração como exatamente isso (em vez de uma desculpa para jogar no lixo toda a problemática). As ressonâncias formais entre seus argumentos topicamente díspares fornecem um incentivo adicional para desacelerar.

Seja na teoria dos números ou na cosmologia do espaço-tempo, o método de Gödel era avançar a formalização do sistema sob consideração e então testá-lo até a destruição nos ‘loops estranhos’ que ele gerava (paradoxos de auto-referência e viagem no tempo). Em cada caso, demonstrava-se que o sistema permitia casos que ele não poderia consistentemente absorver, abrindo-o a um processo interminável de revisão, ou melhoria técnica. Desta forma, definia-se uma inteligência dinâmica, ou a lógica da imperfeição evolutiva, com uma adequação que era tanto suficiente quanto necessariamente inconclusiva. O que não se fez foi jogar no lixo a própria possibilidade de uma aritmética, de uma lógica matemática ou de uma história cósmica — exceto na medida em que essas eram falsamente identificadas com ídolos de finalidade ou fechamento.

Com base nas esguias evidências disponíveis, a ‘leitura’ que Gödel fez da Constituição dos EUA foi estritamente análoga. Longe de desculpar o abandono do constitucionalismo, ela identificou o projeto constitucional como a única resposta intelectualmente séria ao problema da política (isto é, ao poder sem travas). É uma necessidade lógica sutil que as constituições, como quaisquer sistemas formais de complexidade comparável, não pode ser aperfeiçoada ou consistentemente completada. Em outras palavras, como Benjamin Franklin reconheceu, qualquer república é precária. Nada necessariamente se segue disso, mas uma série de coisas poderia.

De forma mais abrupta, pode-se contemplar a criança enferma com tristeza, antes de se abandoná-la na encosta aos lobos. Quase todas as vozes interessantes na direita parecem estar indo nessa direção. Constituições são uma piada desagradável.

Alternativamente, o constitucionalismo poderia ser elevado a um novo nível de dignidade cultural, condizente com seu status enquanto único modelo de governo republicano, ou política verdadeiramente lógica. Isto exigiria, primeiro de tudo, que a necessidade de modificação constitucional fosse reconhecida apenas quando tal modificação tornasse a constituição mais forte, em termos puramente formais, ou sistêmicos. No caso dos EUA, a primeira indicação de tal abordagem seria uma emenda ao próprio Artigo Quinto, a fim de especificar que emendas constitucionais são toleradas apenas quando elas satisfazem critérios de melhoria formal, legitimados em termos exatos e matemáticos, de acordo com padrões de prova não diferentes daqueles aplicáveis a argumentos absolutamente incontroversos (teoremas). O projeto constitucional seria subordinado à matemática aplicada, como uma subsecção da teoria do controle não linear.

Sob essas (improváveis) circunstâncias, o propósito da constituição é se sustentar e, assim, à República. Enquanto objeto matemático, a constituição é maximamente simples, consistente, necessariamente incompleta e interpretável como um modelo de lei natural. A autoridade política é alocada unicamente para servir à constituição. Não existem autoridades que não são supervisionadas, dentro de estruturas não lineares. A linguagem constitucional é construída formalmente para eliminar toda ambiguidade e ser processada de maneira algorítmica. Elementos democráticos, junto com a discrição oficial e o julgamento legal, são incorporados de maneira relutante, minimizados em princípio e gradualmente eliminados através de melhorias formais incrementais. O argumento defere à perícia matemática. A política é uma doença que a constituição é projetada para curar.

Um ceticismo extremo deve ser antecipado, não apenas vindo dos monarquistas moldbuggianos, mas de todos aqueles educados pela teoria da Escolha Pública a analisarem ‘a política sem romance‘. Como defender a constituição poderia se tornar um imperativo absoluto, categórico ou incondicional, quando os únicos possíveis defensores são pessoas, guiadas por incentivos múltiplos, poucos dos quais se alinham nitidamente com a ordem constitucional objetiva? Ainda assim, como isto é diferente da questão do progresso matemático ou natural-científico? Matemáticos não são igualmente pessoas, com apetites, egos, motivações por status guiadas pelo sexo e capacidades profundamente defeituosas de introspecção realista? Como a matemática avança? (Ninguém pode negar seriamente que ela o faz.) A resposta certamente jaz em seus critérios autônomos ou impessoais de excelência, combinados com instituições pluralistas que facilitam uma convergência darwiniana. A equivalência gödeliana entre lógica matemática e governo constitucional indica que tais princípios e mecanismos estão ausentes do domínio público apenas devido a um projeto (democrático-burocrático) defeituoso.

Quando se trata de realismo profundo e de armas, há qualquer razão para se pensar que as forças armadas são resistentes, por natureza, à subordinação constitucional? Entre o cargo sublime de Comandante-em-Chefe e o mero homem, não é óbvio que a autoridade deveria tender a gravitar em direção ao primeiro? Pode-se argumentar que a civilização não é nada além disso, ou seja: a tendência da autoridade pessoal de declinar até zero. Homens-macacos rejeitarão isso, é claro. É o que eles fazem.

Entre democracia, monarquia, anarquia ou governo republicano, os argumentos não acabarão em breve. Eles são verdadeiramente antigos, e estão ilustrados na Odisseia, pela estratégia de amarrar contra o chamado das Sereias. Odisseu pode se amarrar? Apenas os republicanos defendem a tentativa, como Gödel o fez. Todos os outros deixam as Sereias ganharem. Talvez elas ganhem.

Original.

Animação Suspensa (Parte 5)

Motores da Devastação

O pós-modernismo ainda parece legal para alguém? — Provavelmente não. Tendo vendido qualquer simulacro de alma que poderia ter tido para os instáveis deuses da moda, ele aprendeu mais sobre o reino de Cronos do que poderia ter esperado – as crianças são devoradas e se vai adiante para algo novo. O que foi aceito sem nenhuma boa razão é descartado sem nenhuma boa razão. Na ciência política, se chama democracia (mas isso é uma outra discussão).

Claramente, há algo profundamente justo sobre o desaparecimento do pós-modernismo na lata de lixo da diferença aleatória (o que está ‘in‘ tem que ser novo, de preferência sem significado). É até mesmo ‘poeticamente justo’, o que quer que isso signifique. Mas isso também destrói informação. Embora o pós-modernismo tenha certamente sido um modismo, ela também foi um zeitgeist, ou espírito dos tempos. Ele significou algo, apesar de seus melhores esforços, pelo menos enquanto sintoma. O desaparecimento da realidade que ele anunciava era, ele mesmo, real, assim como o era o domínio da simulação que a substituiu. Pelo menos em sua morte, ele pode ter importado em algo.

Considere seu maior mistagogo, Jacques Derrida, e seu outrora amplamente celebrado ‘conceito’ de differance (sim, em francês), um termo dentro de uma série de palavras mágicas que marcam as indecidíveis, incompreensíveis, inapresentáveis e, em última análise, inconcebíveis não-coisas ontológicas que suplantam os eventos reais, através de uma sucessão infinita de deslocamentos e adiamentos. Não podemos realmente dizer nada sobre isso, então temos que falar sobre ele interminavelmente, e departamentos universitários inteiros são necessários para se fazer isso. É ridículo (e então acabou). Mas é também, bastante exatamente, a cultura globalmente hegemônica do estagnacionismo macroeconômico programático keynesianizado, e isto ainda não acabou, embora sua morbidez já seja altamente conspícua. Ao contrário do pós-modernismo acadêmico passageiro, sua morte vai ser realmente interessante.

Muito antes que os derridóides tivessem começado, Keynes havia ensinado aos governos que a differance era algo que eles poderiam fazer. A procrastinação – a suspensão estratégica da realidade econômica através de uma série popularmente incompreensível de deslocamentos e adiamentos – rapidamente veio a definir a arte da política. Por que sofrer hoje o que pode ser adiado até amanhã, ou sofrer você mesmo algo que poderia ser o problema de outra pessoa? Adie! Desloque! No longo prazo estamos todos mortos. A realidade é para perdedores.

A differance como ela realmente funciona é muito mais crua do que sua reflexão na filosofia pós-moderna (e o que poderia ser filosoficamente mais cru do que um apelo à noção de ‘reflexão’?). Por exemplo, ela é pescada do abgrund ontológico e processada por mecanismos específicos de políticas públicas, sustentada por instituições concretas de maneiras que são, em uma medida considerável, economicamente mensuráveis, com limites geográficos e históricos elásticos, mas muito certamente finitos. Mais cru de tudo e derradeiramente decisivo é a circunscrição da desrealização pelo real e o retorno do apocalíptico, não mais enquanto avatar fantasmagórico da ‘metafísica da presença’ (ou falsa promessa de um evento real), mas enquanto evento real iminente, e um cujo processo de construção histórica é, em grande medida, inteligível. A differance real não ‘desconstruiu’ o apocalipse, ela o construiu. Não é nem mesmo tão difícil ver como.

No EconLog, David Henderson postou suas notas sobre a palestra de John H. Cochrane na conferência sobre ‘Restaurar o Crescimento Econômico Robusto na América’ da Hoover Institution da Universidade de Standford, em 3 de dezembro. Não há nenhuma menção à differance, mas não precisa haver.

Por quase 100 anos, tentamos parar as corridas aos bancos com garantias governamentais — depósito de segurança, um generoso emprestador de último recurso e resgates. Esse caminho leva a um enorme perigo moral. Dar a um banqueiro uma garantia de resgate é como dar a um adolescente as chaves do carro e uma garrafa de uísque. Então, apontamos reguladores que deveriam impedir os bancos de assumirem riscos, em uma corrida armamentística desesperada contra MBAs, advogados e lobistas espertos que tentam contornar a regulamentação e embora permitamos — não, encorajemos e subsidiemos — a expansão de ativos passíveis de corridas aos bancos.

No Dodd-Frank, os EUA simplesmente duplicou nossas apostas nesse regime. ….

Os resgates adiam um evento econômico doloroso (adiamento) ao passo que transferem a responsabilidade financeira (deslocamento). O risco é restaurado à virtualidade, enquanto o desastre é transformado de volta em uma ameaça, mas não é a mesma ameaça. Por qualquer método remotamente são de contabilidade, agora está pior. Uma deterioração virtual significante substitui um desconforto real. Esse é o custo da desrealização.

Como as coisas ficam piores, exatamente? — De muitas maneiras. Comece com o ‘perigo moral’, que é uma maneira educada de dizer ‘insanidade’. Ações são dissociadas de suas consequências, removendo o desincentivo à loucura. O resultado, de maneira absolutamente previsível, é mais loucura. Na verdade, qualquer coisa que sistematicamente aumente o perigo moral simplesmente está fabricando loucura. É jogar LSD no reservatório de água, embora provavelmente pior. Então os resgates nos deixam insanos e destroem a civilização (ninguém realmente contesta isso, embora possam tentar evitar o tópico).

Ah, mas tem mais! — Muito mais, porque todos esses deslocamentos não apenas movimentam as coisas de lugar, eles as movem para cima. O risco é centralizado, concentrado, sistematizado, politicado – e isso no (inteiramente irrealista) melhor caso, quando ele não é também expandido e degradado pela corrupção e pela ineficiência de instituições públicas com incentivos fracos ou cínicos. Essa é a economia da cascata – na verdade, uma enchente – para cima, na qual tudo de ruim que jamais acontece com qualquer um é despojado de qualquer sanidade residual (ou estimativa realista de consequências), agrupado, recodificado, complicado por regulamentações compensatórias e deslocado para altitudes cada vez mais etéreas de irresponsabilidade democrática populista, onde a única coisa que importa é o que as pessoas querem ouvir e que realmente jamais vai ser verdade.

“Faça bastante besteira e você provavelmente sofre ou morre” – essa é a verdade. É uma mensagem que não se traduz na linguagem da política keynesiana de empurrar com a barriga, que é o pós-modernismo popular. O mais próximo que chegamos, conforme as mandíbulas começam a se fechar sobre a a corrente do chapéu de resgate, é “Vamos precisar de um barco maior”. Depois de inúmeros episódios disso, estamos todos amontados no Titanic, e as coisas estão mais ou menos parecendo OK. Pelo menos a banda ainda está tocando…

Quando abstraído de sua esquálida psicose, o padrão é matematicamente bastante preciso. É chamado de sistema de gamarra, melhor conhecido dos americanos como ‘o dobro ou nada’ (e para os britânicos como ‘o dobro ou sai’). Cochrane já tocou nele (“os EUA simplesmente duplicou nossas apostas”). Aposte no vermelho, e vem preto. Sem problema, simplesmente duplique a aposta e repita. Você não pode perder. (Se você gosta desta lógica, Paul Krugman tem uma recuperação econômica para lhe vender.)

O que aparece como desastre adiado é, na realidade virtual, um desastre expandido. A entrada da Wikipédia sobre o sistema de gamarra prestativamente o conecta à Distribuição de Taleb, também conhecida como catar moedas na frente de um rolo compressor. A persistência de pequenos ganhos faz esse modelo de negócio parecer uma coisa certa — até que não.

Nassim Nicholas Taleb e Mark Blyth expandem sobre essa ideia no Foreign Affairs, com aplicação a vários aspectos da atual (ou iminente) crise. Perguntando por quê “a surpresa [é] a condição permanente da elite política e econômica dos E.U.A.”, eles traçam o problema à “supressão artificial da volatilidade — os altos e baixos da vida — em nome da estabilidade”.

Sistema complexos que suprimiram artificialmente a volatilidade tendem a se tornar extremamente frágeis, ao mesmo tempo em que não exibem nenhum risco visível. Na verdade, eles tendem a ser calmos demais e a exibirem uma variabilidade mínima, enquanto os riscos se acumulam sob a superfície. Embora a intenção declarada dos líderes políticos e dos formuladores de políticas econômicas seja estabilizar o sistema, inibindo flutuações, o resultado tende a ser o oposto. Esses sistemas artificialmente restritos se tornam propensos a “Cisnes Negros” – isto é, eles se tornam extremamente vulneráveis a eventos de larga escala que estão longe da norma estatística e que são, em grande parte, imprevisíveis para um dado conjunto de observadores.

Discutindo este artigo no PJMedia, Richard Fernandez comenta e afia sua conclusão:

Parte do problema é a consequência do próprio amortecimento [das elites]. Ao tentar administrar centralmente os sistemas de acordo com algum esquema pré-determinado, elas na verdade armazenam volatilidade em vez de dispersá-la. Ao empurrar com a barriga, elas eventualmente se condenam a dar de cara com uma pilha enorme de coisas quando a barriga acaba. …Mas as elites não podem admitir surpresas; tampouco elas podem admitir que coisas ruins comecem sob sua guarda. Portanto, elas continuam varrendo coisas para debaixo do tapete até que, como em alguns filmes de horror, elas geram um zumbi. Para tornar os sistemas robustos, diz Taleb, você tem que admitir que você pode cometer erros e pagar o preço. Você vai ter que pagar no fim das contas de qualquer jeito.

Não estamos no pós-modernismo mais, Totó. Estamos mais próximos disso:

O movimento ondulatório que afeta o sistema econômico, a recorrência de períodos de explosão que são seguidos por períodos de depressão, é o resultado inevitável das tentativas, repetidas de novo e de novo, de se abaixar a taxa bruta de juros do mercado por meio de expansão de crédito. Não há meio de se evitar o colapso final de uma explosão provocada por uma expensão de crédito. A alternativa é apenas se a crise deveria vir mais cedo, como resultado de um abandono voluntário de mais expansão de crédito, ou mais tarde, como uma catástrofe final e total do sistema monetário envolvido. (Ludwig von Mises, Human Action)

Ou mesmo disso:

Grande é a Falência; o grande insondável golfo no qual todas as Falsidades, públicas e privadas, de fato afundam, desaparecendo; à qual, desde a primeira origem delas, elas estavam todas fadadas. Pois a Natureza é verdadeira e não uma mentira. Nenhuma mentira você pode falar ou agir que não virá, depois uma circulação maior ou menor, como uma Fatura extraída da Realidade da Natureza, e que não será lá apresentada para pagamento, –com a resposta, Sem efeitos. Pena apenas que frequentemente tenha uma circulação tão longa: que o forjador original fosse tão raramente aquele que suportasse a dor final dela! Mentiras, e o fardo do mal que elas trazem, são passadas adiante; transferidas de costas a costas e de classe para classe; e, assim, aterrizam, finalmente, na mais burra baixa classe, que com pá e enxada, com coração ferido e carteira vazia, diariamente entram em contato com a realidade e não podem mais passar o engodo adiante.

Observe, não obstante, como, por uma justa lei compensadora, se a mentira com seu fardo (nesse confuso redemoinho da Sociedade) afunda e é transmitida cada vez mais para baixo, então, em troca, a angústia dela se eleva cada vez mais. Através da qual, depois do longo anseio e semi-inanição daqueles Vinte Milhões, um Duque de Coigny e sua Majestade viessem também a ter sua ‘desavença real’. Tal é a lei da justa Natureza; trazendo, embora em longos intervalos, e fosse apenas pela Falência, as questões de volta novamente à marca.

Mas com uma Bolsa de Fortunato em seu bolso, através de qual período de tempo quase toda Falsidade não poderia durar! Sua Sociedade, seu Lar, Arranjo prático ou espiritual, é inverdadeiro, injusto, ofensivo ao olho de Deus e do homem. Não obstante, sua lareira está cálida, sua despensa bem reabastecida: os inúmeros Suíços do Céu, com um tipo de lealdade Natural, se reúnem ao seu redor; provarão, por panfletagem, mosquetaria, que é uma verdade; ou, se não uma Verdade sem mistura (sobrenatural, impossível), então melhor, uma saudavelmente temperada (como o vento é para o cordeiro tosquiado), e funciona bem. Perspectiva alterada, contudo, quando bolsa e despensa ficam vazias! Se seu Arranjo era tão verdadeiro, tão de acordo com as maneiras da Natureza, então como, em nome do milagre, a Natureza, com sua recompensa infinita, veio a deixá-lo faminto aqui? Para todos os homens, para todas as mulheres e todas as crianças, agora é indubitável que o seu Arranjo era falso. Honra à Falência; sempre direita na grande escala, embora no detalhe seja tão cruel! Sob todas as Falsidades ela trabalha, incansavelmente minerando. Nenhuma Falsidade, mesmo que ela se elevasse ao céu e cobrisse o mundo, ainda assim a Falência, um dia, a varrerá para baixo e nos livrará dela. (Thomas Carlyle, via Mencius Moldbug, mas citado em todo lugar recentemente)

Lá vem ela.

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 2)

César com a alma de Cristo

O politicamente correto legislou tacitamente contra os acrônimos ainda predominantes que definem o calendário internacional hegemônico (AC-AD), e propôs alternativas claras (AEC-EC). Tanto a crítica quanto a sugestão são inteiramente consistentes com seus princípios. De acordo com a doutrina do multiculturalismo (uma hegemonia mais recente e também mais ativa), estende-se a presunção liberal de igualdade formal de indivíduos para ‘culturas’, alocando direitos de grupos e identificando – ao passo em que imediatamente se denuncia – a discriminação e o privilégio. Como poderia se esperar de uma ideologia que se concentra excepcionalmente entre elites intelectuais, o remédio proposto é puramente simbólico, tomando a forma de uma retificação de signos. O ‘problema’ é diagnosticado como uma falha de consciência, ou sensibilidade, exigindo apenas uma elevação de consciência (a ser efetuada, pode-se seguramente assumir, através de profissionais apropriadamente credenciados e compensados).

Mesmo considerada em seus próprios termos, contudo, a retificação que é sugerida não equivale a nada mais do que um gesto de recusa vazio, que acompanha uma conformidade fundamental. Ao passo em que a ‘esquerda’ simbólica tira conforto da insistência em uma mudança sem importância, com sua ofensa intrínseca às suposições conservadoras, reforçada por uma crítica moral implícita da tradição, a indignação compensadora da ‘direita’ fixa toda a disputa dentro das trincheiras imobilizadas da ‘guerra cultural’ anglo-americana. A estrutura profunda dos signos calêndricos persiste sem ser afetada. Entre o domínio cristão (que invoca ‘Nosso Senhor’) e uma ‘era comum’ que é obedientemente enquadrada pela datação da revelação cristã, não há diferença que importe. É o que conta que conta.

O politicamente correto falha aqui da maneira que sempre o faz, devido à sua desconexão do ‘correto’ de qualquer princípio rigoroso de cálculo e à separação da ‘sensibilidade’ de qualquer percepção realista. Um calendário é um edifício cultural profundo, que orquestra a apreensão do tempo histórico. Como tal, ele é invulnerável às mordidas de mosquito da irritabilidade ideológica (e a dominância não é redutível a falta de educação).

O problema do Domínio Calêndrico Ocidental não é de supremacismo (etiqueta), mas de supremacia (fatalidade histórica). Poderia ser colocado assim: Como a globalização modernista veio a ser expressa como um Oecúmeno Cristão? Em grande medida, esta é a questão de Max Weber e de Walter Russell Mead, mas ela transborda as investigações de ambos, na direção da antiguidade européia e do oriente médio. O estímulo inicial para essa investigação é fornecida por uma estranha – e mesmo fantástica – coincidência.

Em seus cadernos, Friedrich Nietzsche imaginava o super-homem (Übermensch) como um “César com a alma de Cristo”, um ser quimérico cujas tensões ecoam aquelas da Igreja de Roma, da liturgia cristã latinizada e do calendário ocidental. Este hibridismo é expressado por uma multidão de características calêndricas, que seguem uma divisão geral de trabalho entre uma estruturação romana do ano (dentro do qual os festivais pagãos superficialmente cristianizados estão espalhados de maneira não sistemática), e uma contagem de anos cristã, mas também aponta em direção a um plano de fusão críptico – até mesmo radicalmente ininteligível.

No Ano Zero, que nunca aconteceu, uma misteriosa sincronização ocorreu, imperceptivelmente e despercebida, fundando a nova ordem calêndrica teopolítica. Para os cristãos, que não assimilariam o Império até o reino de Constantino no começo do século IV AD, Deus encarnou como homem, no embrião de Jesus Cristo. Simultaneamente, em uma Roma que estava perfeitamente desatenta à concepção do Messias, o calendário juliano se tornou operacional. A reforma calêndrica de Júlio César começara 45 anos antes, após os Anos de Confusão, mas uma execução incompetente nas décadas subsequentes havia sistematicamente calculado errado o ano bissexto , intercalando um dia a cada três anos, em vez de um a cada quatro. O anômalo ciclo trienal foi abandonado e “o calendário romano finalmente foi alinhado ao calendário juliano em 1 AC (com 1 AD o primeiro ano completo de alinhamento)”, embora nenhuma significância especial fosse ser atribuída a esses anos até que Dionísio Exíguo integrasse a história cristã em 525 AD.

Dada a espantosa negligência desse evento gêmeo, alguma ênfase adicional é apropriada: O calendário juliano, que persistiria, sem modificação, por quase 1600 anos e que ainda domina o entendimento coloquial da duração do ano (em 365.25 dias), nasceu – por um ‘acaso’ puro e escandaloso – na origem precisa da Era Cristã, conforme registrado pela numeração ocidental, e agora internacional, do tempo histórico. A contagem dos anos, assim, simula de maneira exata uma comemoração do próprio calendário – ou, pelo menos, de seu protótipo – muito embora o nascimento deste calendário, seja ele entendido em termos de razão secular ou providência divina, não tenha absolutamente nenhuma conexão com o começo contado. Isto é uma coincidência – ou seja, um destino percebido sem compreensão – que nem a autoridade romana, nem a revelação cristã foram capazes de explicar, mesmo ao passo em que ela sorrateiramente molda a história ocidental (e, depois, global). Conforme o calendário dominante mundial conta os anos sob o que parece ser uma inspiração religiosa particular, ele se refere secretamente ao seu próprio início, aludindo a mistérios do tempo que são alienígenas para qualquer fé. Esse tanto é simples fato.

Ao contrário do calendário juliano, o calendário gregoriano foi determinado sob os auspícios cristãos, ou pelo menos sob a autoridade cristã formal (aquela do Papa Gregório XIII), e foi promulgado por bula papal em 1582. Ainda assim, um olhar basta para revelar a continuação do domínio calêndrico juliano, uma vez que a reforma gregoriana efetua transformações que permanecem estritamente compatíveis com o padrão juliano, modificado apenas por operações elementares de re-escalonamento e inversão decimal. Onde o calendário juliano tomava quatro anos como sua unidade cíclica basal, o gregoriano toma quatro séculos, e onde o juliano adiciona um dia bissexto em quatro anos, o gregoriano deixa um e subtrai três em 400. O resultado foi uma aproximação melhorada do ano tropical (em média ~365,24219 dias), do ano juliano de 365,25 dias para o gregoriano de 365,2425 dias, uma redução de mais de 20 vezes na discrepância, de uma média de ~0,00781 dias por ano (desviando das estações a um dia a cada 128 anos) para ~0,00031 (desviando um dia a cada 3226 anos).

A combinação de fidelidade arquitetônica com ajustes técnicos define a reforma conservadora. Ela é claramente evidente neste caso. Um calendário neo-juliano, estruturado em seus fundamentos na sua origem em 1 AD menos 1, mas tecnicamente modificado na margem no interesse de uma precisão melhorada, armou o Ocidente com o mais eficiente sistema de marcação de tempo em larga escala do mundo, por volta do início do período moderno. Na China, onde os letrados confucionistas organizavam competições para testar vários calendário de todo o mundo contra a previsão de eclipses, jesuítas equipados com o calendário gregoriano prevaleceram contra todas as alternativas, garantindo a inexorável tendência em direção às convenções calêndricas ocidentais ou, pelo menos, a firme identificação dos métodos ocidentais com a eficiência modernista. Dada apenas uma margem, na China e em outros lugares, a dinâmica de sistemas complexos assumiu o controle, pois os ‘efeitos de rede’ prenderam o padrão predominante, ao mesmo tempo em que sistematicamente marginalizavam seus concorrentes. Muito embora o Ano Zero ainda estivesse faltando, ele estava, cada vez mais, faltando ao mesmo tempo para todo mundo. “César com a alma de Cristo” – o mestre do quadriênio e do eclipse – havia se instalado como o significado implícito da história.

(Ainda por vir – na Parte 4? – Contra-Calendários, mas provavelmente precisamos de uma excursão por entre o zero primeiro).

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Tipos de Matança

Quão ruim é um genocídio, de verdade?

Assim como ‘fascismo’ — com o qual está intimamente conectado na imaginação popular — ‘genocídio’ é um palavra que carrega uma carga emocional tão exorbitante que tende a queimar os fusíveis de qualquer tentativa de análise desapaixonada. Podemos agradecer à magia negra política de Adolf Hitler e seus comparsas nazistas por isso.

Antes do Terceiro Reich e de suas tentativas sistemáticas e industrializadas de erradicar populações etno-raciais inteiras (judeus, ciganos e talvez eslavos) junto com numerosos outros grupos (‘defectivos’ mentais e físicos ou ‘comedores inúteis’, homossexuais, comunistas, testemunhas de jeová…), a lei internacional restringia sua atenção às ações e queixas de estados e de indivíduos, os últimos subdivididos entre combatentes e não combatentes. O trauma Nacional-Socialista mudou isso de maneira fundamental.

Em 9 de dezembro de 1948, as Nações Unidas adotaram a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio (como Resolução 260), definindo uma nova categoria de crimes reconhecidos internacionalmente como “atos cometidos com a intenção de destruir, em todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”.

Desde 1948, defender o genocídio tem sido a maneira mais certa de arruinar um jantar. Isso não significa, contudo, que o tópico mereça ser imunizado contra controvérsias. Há um questão em particular que merece um escrutínio intenso e prolongado: O genocídio realmente é pior do que matar um monte de gente?

Colocada de uma maneira ligeiramente mais técnica: Existe um crime de genocídio que fica acima e além do assassinato em massa (de escala equivalente)? Ou (um equivalente aproximado): Grupos podem ser as vítimas específicas de um crime? Isso é perguntar se grupos existem — e têm valor — enquanto algo mais do que um conjunto nominal ou estritamente formal, cuja realidade é exaurida pelos seus membros constituintes individuais. A existência do genocídio enquanto categoria legal presume uma resposta (positiva) à essa questão e, ao fazê-lo, se fecha sobre um problema de importância grande e bastante geral.

A presunção liberal clássica é bastante diferente, como resumida (um tanto abruptamente) pela observação provocativa feita pela primeira ministra inglesa Margaret Thatcher em 1987 “…não existe essa coisa de sociedade. Existem indivíduos homens e mulheres, e existem famílias”. Extrapolando-se bruscamente a partir dessa posição, uma certa ironia poderia ser encontrada no fato de que um resposta horrorizada aos crimes Nacional-Socialistas tomaram a forma de uma codificação legal do coletivismo racial. No mínimo, é intrigante que suspeitas dirigidas contra referências legais a ‘direitos de grupos’ e ‘crimes de ódio’ entre aqueles de uma inclinação libertária não tenham sido estendidas à categoria de genocídio.

No campo oposto, a defesa mais plenamente articulada de coletivos enquanto entidades reais é encontrada, como poderia se esperar, na fundação da sociologia enquanto disciplina acadêmica e, mais particularmente, no argumento de Émile Durkheim a favor de ‘fatos sociais’. Larry May olha mais para trás, para o Leviatã, ou ser social, de Thomas Hobbes, no qual os indivíduos humanos são absorvidos enquanto partes orgânicas.

Embora a distinção entre ‘sociedade’ e ‘indivíduo’ tenha um significado coloquial (e político), aqueles inclinados à análise de sistemas complexos têm maior probabilidade de se perguntar quais grupos ou sociedades são indivíduos reais, que exibem integridade funcional ou comportamental enquanto todos auto-reprodutores. Ao perseguir essa linha de investigação, é bem mais relevante discriminar entre tipos de grupos do que entre grupos e indivíduos, ou mesmo entre todos e partes. É especialmente útil distinguir entre grupos característicos e grupos unitários.

Um grupo característico é determinado por uma classificação lógica. Isso pode ser expresso como uma auto-identificação ou um senso de ‘pertencimento’, como uma categorização externa política ou acadêmica, ou como alguma combinação desses, mas as características essenciais permanecem as mesmas em cada caso. Certas características do indivíduo são isoladas e enfatizadas (tais como genitália, orientação sexual, cor da pele, renda ou crença religiosa) e então empregadas como o principal guia em um processo de agrupamento formal que se conforma teoricamente com a matemática dos conjuntos.

Um grupo unitário, em contraste, é definido como uma montagem, ou todo funcional. Seus membros pertencem ao grupo na medida em que trabalham juntos, mesmo que sejam completamente desprovidos de características identitárias comuns. A associação é decidida por papel, em vez de por traços, uma vez que se torna parte de um grupo através do envolvimento funcional, em vez de por uma classificação de características. Instâncias sociais de tais grupos incluem tribos primitivas (determinadas por unidades funcionais, em vez das pelas categorias modernas da ‘política identitária’), cidades, estados e companhias. A instância mais óbvia na teoria socialista é a unidade de trabalho ‘soviete’ ou ‘danwei’ (ao passo em que classes sociais são grupos característicos).

Para tomarmos um exemplo não antropomórfico, considere uma célula da pele. Seu grupo característico é aquele das células de pele em geral, distinguidas das células nervosas, hepáticas, musculares ou outras. Quaisquer duas células de pele compartilham o mesmo grupo característico, mesmo que pertençam a diferentes organismos ou mesmo espécies, existam em diferentes continentes e nunca interajam funcionalmente. O grupo unitário natural da mesma célula de pele, em contraste, seria o organismo a que ela pertence. Ela compartilha esse grupo unitário com todas as outras células envolvidas na reprodução desse organismo ao longo do tempo, incluindo aquelas (tais como as bactérias intestinais) de linhagens genéticas bastante separadas. Considerada como um membro de um grupo unitário, uma célula de pele tem uma conexão integral maior com as ferramentes não biológicas e com os outros elementos ‘ambientais’ envolvidos na vida do organismo do que ela tem com outras células de pele — mesmo clones perfeitos — com as quais ela não está funcionalmente enredada.

Claramente, tanto grupos característicos quanto grupos unitários são ‘grupos difusos’, e a próprio distinção — embora teoricamente precisa — é empiricamente nebulosa. Uma gangue urbana de rua americana, for exemplo, na maioria dos casos será vaga em suas características e unidade, talvez ‘étnica’ em algum grau de definição, com uma faixa etária determinável e com conexões funcionais ambíguas com agrupamentos em uma escala maior, ou com membros cujo status de ‘pertencimento’ não é estritamente decidível. Tatuagens e outras marcas de associação provavelmente envolverão aspectos tanto de identidade quanto de integridade — traços e papéis. Rituais de pertencimento (provações, juramentos, ritos de passagem) são desenhados para desambiguar a associação.

Apesar dessa nebulosidade, a distinção entre esses dois tipos de grupos acerta diretamente na problemática central do genocídio (enquanto categoria legal). Quando um grupo unitário é destruído, um indivíduo real é ‘morto’, acima e além de quaisquer perdas humanas nas quais se incorra. A destruição de um grupo característico, qualquer que seja a perda cultural, não é nenhum tipo de matança para além do assassinato em massa de indivíduos humanos. Se isso é pior do que o assassinato, deveríamos saber por quê.

Esta conclusão parece relevante quando se pesa, por exemplo, o Massacre de Nanquim de 1937 na escala das atrocidades históricas. Ela sugere, pelo menos, que um ato de violência dirigido contra uma cidade — ou uma unidade populacional integrada — não é menos digno de atenção legal específica do que o delito quantitativamente equivalente contra uma etnia ou um tipo populacional determinado. Não parece ser mais do que um acidente da história que, a fim de se apropriar da categoria de genocídio, crimes massivos da primeira variedade precisem ser re-codificados como se pertencesse mais propriamente à última.

Deixando de lado a ontologia dos sistemas complexos, essas questões se resolvem, em última análise, em valores sociais obscuros. Concepções ortodoxas de ‘genocídio’ assumem que a identidade étnica significa simples e inquestionavelmente mais do que a cidadania ativa ou a participação na vida de uma cidade. Talvez até se possa argumentar por essa suposição. Mas já se argumentou?

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Tempo em Transição

Tem que haver um hexagrama para isso

O Philosophae Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton abstraiu o tempo dos eventos, estabelecendo sua tratabilidade para o cálculo científico. Concebido enquanto duração pura e absoluta, sem qualidades, ele se conforma perfeitamente à sua idealização matemática (enquanto linha numérica real). Uma vez vez que o tempo já é puro, sua realidade indistinguível de sua formalização, uma matemática pura da mudança – o cálculo – pode ser aplicada à realidade física sem obstrução. O cálculo pode descrever de maneira exata as coisas enquanto elas ocorrem em si mesmas, sem se desviar, sequer infinitesimalmente, dos rigorosos ditames da inteligência formal. Desta maneira, a filosofia natural se torna ciência moderna.

(Talvez seja irônico que a formulação newtoniana do tempo não-qualitativo coincida com uma ruptura revolucionária – ou transição qualitativa – talvez inigualada na história. Isso, contudo, é uma questão para um outro momento.)

A ciência moderna não acabou com Newton. O tempo foi, desde então, relativizado à velocidade (Einsten) e perfurado com catástrofes (Thom). Ainda assim, as qualidades do tempo, uma vez evacuadas, não podem ser prontamente restauradas.

A tecnologia do relógio é suficiente para contar esta estória, por si só. Dispositivos de crono-“metragem” produzem uma medida de duração, de acordo com os princípios gerais da produção mecânica padronizada, de modo que um minuto marcado no relógio é despojado de distinção qualitativa automaticamente. Cronometricamente, qualquer diferença entre um minuto e outro é uma discrepância mecânica, estritamente análoga à um mau funcionamento da linha de produção.

A modernização do tempo culmina em uma inversão de definição, eventualmente padronizando a partir um bloco construtivo precisamente reprodutível (o segundo atômico), em vez de se acomodar a um ciclo natural de larga escala – qualificado por variações de luminosidade – que gera sub-unidades através de divisões. Uma vez que o segundo tenha se tornado inteiramente sintético, toda referência a um ‘quando’ qualitativo foi apagada. Tudo o que resta é comparação quantitativa, cronometragem e sincronização, como se o relógio tivesse sido modelado sobre o cronômetro. Calendários se tornaram um anacronismo.

As intuições modernas do tempo encontrariam bastante apoio, mesmo na ausência de uma cronometria mecânica. Toda tendência quantificável, desde o movimento de ações ou um problema de desemprego até um padrão demográfico ou um desastre ecológico, pode ser comunicado através de gráficos que assumem uma facilidade popular com a intuição gráfica e, assim, implicitamente, com a geometria algébrica e mesmo com o cálculo. O tempo é tão ampla e facilmente identificado com o eixo x de tais gráficos que o princípio de representação pode ser deixado sem explicação, por mais estranho que isto pudesse ter parecido aos pré-modernos. Claramente, se o tempo pode ser lido a partir de um eixo – de maneira rápida e intuitiva – ele está sendo concebido, de maneira geral, como se fosse uma linha numérica (‘newtoniana’).

O tempo qualitativo, por agora, é um exotismo pouco acessível. Em nenhum lugar isto é mais óbvio do que no caso do antigo Clássico da Mudança chinês, o Yijing, uma obra que hoje não é menos hermética para os chineses do que é para os estrangeiros.

O Yijing é um livro de números tanto quanto um livro sobre o tempo, mas seu números são combinatórios em vez de métricos, exaurindo um espaço de possibilidades e construindo uma tipologia de tempos. O Yijing fala frequentemente de quantidades, mas não as mede. Em vez disso, ele as tipologiza enquanto processos de aumento e diminuição, ascensão e queda, lassitude e aceleração, típicos de fases qualitativas de ciclos recorrentes, com um caráter identificável e uma implicação prática confiável.

O ponto de tudo isto (caso você estivesse se perguntando)?

O tempo atual é um período de transição, com uma qualidade distintiva, que caracteriza o fim de uma época. Algo – alguma era – está chegando bem rapidamente a um fim.

Esta não é uma situação a que a mentalidade moderna esteja bem adaptada, uma vez que viola certas estruturas essenciais de nossa consciência temporal. Ela elude nossas intuições e nossos relógios. Nossos gráficos a registram apenas como uma quebra, à medida em que terminam com o eixo x em um ponto de infinitude sem sentido (hiperinflação, índices p/l de ações em bolhas, exposição global de derivativos, intensidade urbana, explosão de inteligência tecnológica) ou em um colapso até zero (produtividade marginal da dívida, credibilidade da moeda fiduciária, custos unitários de bens de capital auto-replicantes). A barriga explode de tanto empurrar. As coisas não podem continuar como estiveram, e não vão.

Dado o clima político aquecido em torno da iminente transição do sistema econômico global, um diagnóstico não controverso é quase certamente inalcançável. Niall Ferguson descreve uma Era de Indignação Global, ou Ataque de Raiva Global, na qual a natureza objetivamente insustentável da ordem estabelecida, embora seja percebida de maneira ampla, mesmo que vaga, ainda elude o reconhecimento sóbrio. Revoltas, coquetéis molotov e fabulosas teorias da conspiração são o resultado.

“O que todos os Indignados têm em comum é a recusa de abordar diretamente o problema que quase todos os países ocidentais enfrentam. Esse problema é que os sistemas de bem-estar social que se desenvolveram na metade do século XX são impagáveis sob as circunstâncias demográficas e econômicas do século XXI. A crise financeira meramente exacerbou o que já era um crise estrutural severa das finanças públicas, impulsionando os déficits enquanto desacelera o crescimento.”

Com toda a probabilidade, a análise contundente de Ferguson provocará novos paroxismos de indignação. Ainda assim, conforme as sociedades mais mimadas do mundo deslizam cada vez mais para dentro da insolvência, tais avaliações pouco diplomáticas ficarão cada vez mais comuns, e a raiva que inspiram ficará cada vez mais desequilibrada.

John B. Taylor enfatiza a senescência e morte da macroeconomia keynesiana (com base no trabalho anterior de Robert E. Lucas e Thomas J. Sargent). Sua pesquisa conclui que “o multiplicador keynesiano para pagamentos de transferência ou descontos de impostos temporários não foi significativamente diferente de zero para o tipo de programas de estímulo promulgados na década de 2000”. Em outras palavras, os estímulos estão deixando de estimular, e dívidas públicas gigantescas foram acumuladas sem qualquer propósito racional. Esta é a ‘saturação de dívida’ que Joe Weisenthal descreve como “uma transição de fase em nossa relação de dívida”, retratada graficamente no “[gráfico] mais assustador de todos os tempos”.

Entre o estímulo financeiro e o estímulo químico, não há qualquer distinção de significância prática. Keynesianismo e cocaína são ambos inicialmente revigorantes, antes de se estabilizarem em hábitos caros que continuamente perdem efetividade conforme o vício se aprofunda. No momento em que a falência e a mortalidade acenam, sair do estímulo parece ser quase impossível. Melhor bater e queimar – ou esperar que alguma coisa ‘apareça’ – do que sofrer as agonias da abstinência, que será o inferno e não promete nada mais sedutor do que uma normalidade mínima no final de uma estrada sombria. O caráter decai até fraude crônica, raiva intermitente e auto-piedade sentimental. Ninguém gosta de um viciado, muito menos de uma civilização viciada.

O keynesianismo nasceu em engano – a exploração deliberada da ‘ilusão do dinheiro’ para propósitos de gestão econômica. Seu efeito sobre uma cultura política é profundamente corrosivo. O ilusionismo se espalha por todo o corpo social, até que as próprias ideias de moeda forte (dinheiro honesto) ou orçamentos equilibrados (gasto honesto) sejam marginalizadas a uma franja ‘excêntrica’ e ser ‘politicamente realista’ tenha se tornado sinônimo de uma negação mais ou menos total da realidade. Esperar que um establishment econômico keynesiano confronte honestamente suas próprias falhas é compreender risivelmente mal a síndrome em discussão. Um reino de mentiras é estruturalmente incapaz de ‘ficar limpo’ antes de pular do penhasco (alguém precisa fazer outra paródia de A Queda, sobre a macroeconomia no bunker do Führer).

A longa farra de coca keynesiana foi o que o Ocidente fez com o seu lado da globalização, e, conforme tudo se desfaz – em meio a procrastinação política e furiosos protestos de rua – uma restauração planetária de algum tipo é inevitável. O motor ‘Chimérico‘ de globalização pós-colonial requer uma revisão fundamental, se não uma substituição completa. O imenso dinamismo da Era Chimericana, assim como suas duradouras realizações, dependeram de desequilíbrios sistemáticos que se tornaram patentemente insustentáveis, e é altamente improvável que todas as consequência negativas venham a se confinar a apenas um lado do registro mundial.

Por exemplo, a crescente taxa de investimento chinesa, que se estima ter chegado a 70% do PIB, parece ter se desconectado de qualquer prospecto de retornos econômicos razoáveis. A Pivot Capital Management conclui: “o crescimento do crédito na China atingiu níveis críticos e sua efetividade em impulsionar o crescimento está caindo”. Para a quinta geração da liderança da RPC, programada para assumir a responsabilidade pela gestão política da China a partir de 2012, a inércia não será uma opção. Nesse momento, meia década de saturação global de estímulos, mau funcionamento econômico em cascata e ‘cisnes negros’ em série (o ‘clusterflock‘ do novo milênio) terão remodelado a arquitetura financeira, os padrões comerciais e os debates políticos do mundo. O que quer que venha a seguir tem que ser algo novo, acompanhado – pelo menos momentaneamente – de uma apreensão genuína da realidade econômica.

Para a Shanghai pós-Expo, uma cidade reconstruída de maneira inacreditável na era da Chimérica, o tempo de transição é uma questão de preocupação especialmente aguda. Esta é uma metrópole que ascende e cai junto com o pulso do mundo, rigidamente presa às grandes marés de picos e recessões da globalização. A próxima fase da história mundial a tratará tão bem quanto a última?

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Mentalidade Estatística

As coisas provavelmente são mais esquisitas do que parecem

Conforme as ciências naturais se desenvolveram até englobar sistemas cada vez mais complexos, a racionalidade científica se tornou cada vez mais estatística, ou probabilística. A mecânica clássica determinística do iluminismo foi revolucionada pela mecânica estatística de semi-equilíbrio dos atomistas do final do século XIX, pela mecânica quântica no começo do século XX e pelos teóricos da complexidade longe do equilíbrio do fim do século XX. O neo-darwinismo matemático, a teoria da informação e as ciências sociais quantitativas compuseram a tendência. Forças, objetos e tipos naturais foram progressivamente dissolvidos em distribuições estatísticas: nuvens heterogêneas, desvios de entropia, funções de onda, frequências genéticas, razões ruído-sinal e redundâncias, estruturas dissipativas e sistemas complexos à beira do caos.

Por volta das décadas finais do século XX, um probabilismo ilimitado se expandia para territórios até então inimagináveis, testando argumentos profundamente desconhecidos e contra-intuitivos da metafísica ou ontologia estatística. Já não bastava ao realismo atender às multiplicidades, porque a própria realidade estava sujeita à multiplicação.

Em sua declaração cogito ergo sum, Descartes concluiu (talvez de maneira otimista) que a existência do eu poderia ser seguramente concluída a partir do fato do pensamento. Os ontologistas estatísticos inverteram esta fórmula, peguntando: dada minha existência (ou seja, uma existência que se parece assim para mim), que tipo de realidade é provável? Que realidade esta tem probabilidade de ser?

O roboticista do MIT Hand Moravec, em seu livro de 1988 Mind Children, parece ter iniciado o gênero. Extrapolando a Lei de Moore para o futuro não tão distante, ele antecipou capacidades computacionais que excediam aquelas de todos os cérebros biológicos em muitas ordens de magnitude. Uma vez que cada cérebro humano roda sua simulação mais ou menos competente do mundo a fim de funcionar, parecia natural esperar que as inteligências tecnosféricas vindouras fizessem o mesmo, mas com escopo, resolução e variedade vastamente superiores. A replicação em massa de cérebros robôs, cada um deles bilhões ou trilhões de vezes mais poderoso do que aqueles de seus progenitores humanos, forneceria um substrato para simulações histórias inúmeras, imensas e minuciosamente detalhadas, dentro das quais inteligências humanas poderiam ser reconstruídas a um nível efetivamente perfeito de fidelidade.

Esta visão alimenta uma literatura florescente sobre substratos mentais não-biológicos, upload de consciências, clones mentais, emulações (’ems’) de cérebros completos e realidades artificiais no estilo Matrix. Uma vez que as realidades que atualmente conhecemos já são simuladas (assumamos momentaneamente) em sistemas biológicos de processamento de sinais com especificações quantitativas altamente finitas, não há razão para antecipar confiantemente que uma simulação ‘artificial’ da realidade seria de qualquer maneira distinguível.

‘Isso’ é história ou a sua simulação? Mais precisamente: ‘isso’ é uma simulação biológica contemporânea (embasada no cérebro) ou uma memória reconstruída e artificial, rodada em um substrato tecnológico ‘no futuro’? Esta é uma questão sem solução clássica, argumenta Moravec. Ela só pode ser abordada, de maneira rigorosa, com a estatística e, uma vez que o número de história simuladas refinadas (desconhecido, mas provavelmente vasto) excede esmagadoramente o número de histórias atuais ou originais (para este argumento, uma), então o cálculo probabilístico aponta inabalavelmente na direção de uma conclusão definitiva: podemos estar quase certos de que somos habitantes de uma simulação operada por inteligências artificiais (ou pós-biológicas) em algum ponto no ‘nosso futuro’. Pelo menos – uma vez que muitas alternativas se apresentam – podemos estar extremamente confiantes, com base na ontologia estatística, de que nossa existência não é original (se não for reconstrução histórica, poderia ser um jogo ou ficção).

Nick Bostrom formaliza o argumento da simulação em seu artigo ‘The Simulation Argument: Why the Probability that You are Living in the Matrix is Quite High’ (encontrado aqui):

Agora chegamos ao cerne do argumento da simulação. Este não pretende demonstrar que você está em uma simulação. Em vez disso, ele mostra que deveríamos aceitar como verdadeira pelo menos uma das três seguintes proposições:

(1) As chances de que uma espécie em nosso atual nível de desenvolvimento possa evitar ser extinta antes de se tornar tecnologicamente madura são negligenciavelmente pequenas
(2) Quase nenhuma civilização tecnologicamente madura está interessada em rodar simulações computacionais de mentes como as nossas
(3) Você quase certamente está em uma simulação

Cada uma dessas três proposições podem ser, a primeira vista, implausíveis; ainda assim, se o argumento da simulação está correto, pelo menos uma é verdadeira (ele não nos diz qual).

Se obstáculos à existência de simulações de alto-nível (1 e 2) forem removidos, então o raciocínio estatístico assume o controle, seguindo a linha exata estabelecida por Moravec. Estamos “quase certamente” habitando uma “simulação computacional que foi criada por alguma civilização avançada” porque estas saturam à quase exaustão o espaço probabilístico para realidade ‘como esta’. Se tais simulações existem, vidas originais seriam tão pouco prováveis quanto ganhar na loteria, na melhor das hipóteses.

Bostrom conclui com uma reviravolta intrigante e influente:

Se estamos em uma simulação, é possível que saibamos isso com certeza? Se os simuladores não quiserem que descubramos, provavelmente nunca iremos. Mas se eles escolherem se revelar, eles certamente o poderiam fazer. Talvez uma janela lhe informando do fato apareceria bem em sua frente, ou talvez eles fariam o seu “upload” para o mundo deles. Um outro evento que nos levaria a concluir com um alto grau de confiança que estamos em uma simulação é se jamais alcançarmos o ponto em que estamos próximos de passar para nossas próprias simulações. Se começarmos a rodar simulações, isso seria uma evidência muito forte contra (1) e (2). Isso nos deixaria apenas com (3).

Se criarmos simulações refinadas da realidade, demonstramos – com um alto nível de confiança estatística – que já habitamos uma e que a história que levou ate esse momento de criação era falsa. Paul Almond, um ontologista estatístico entusiasta, extrai a implicação radical – causação reversa – perguntando Você consegue se colocar retroativamente em uma simulação computacional?

Tal ontologia estatística, ou existencialismo bayesiano, não está restrita ao argumento da simulação. Ela cada vez mais subordina discussões sobre o Princípio Antrópico, sobre a Interpretação dos Muitos Mundos da Mecânica Quântica, e modos exóticos de previsão, desde o Argumento do Juízo Final até o Suicídio (e Imortalidade) Quânticos.

O que quer que esteja realmente acontecendo, provavelmente teremos que arriscar.

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