Soberania na Internet

Um declaração de importância geoestratégica imensa é notada pelo Wall Street Journal:

Na extensão de uma página na segunda-feira, o jornal porta-voz do Partido Comunista traçou a posição da China sobre como se deveria lidar com a Internet e sua infraestrutura em todo o globo.

A página apresentava entrevistas com cinco experts chineses, incluindo o chamado "pai" do Grande Firewall da China, Fan Binxing. O resultado: Eles acreditam que cada país deveria ter poder definitivo de determinar qual tráfego da Internet flui para dentro e para fora de seu território. É um conceito que a China denominou como "soberania na Internet" e, embora as opiniões de cada expert no artigo variasse, a mensagem central é que cada nação deveria ter o direito de governar a Internet como lhe aprouver.

A única previsão absolutamente segura nesse ponto: Vai ser complicado.

ADICIONADO: Certamente relacionado —

Concebida pelo Pentágono a fim de manter linhas de comunicação abertas depois de um ataque atômico, a Internet se tornou uma ameaça. A humanidade mais uma vez foi mais esperta que si mesma. Agora precisamos de confiança em nossa capacidade de encontrar uma maneira de neutralizar o inimigo.

(Boa sorte com isso.)

ADICIONADO: The Diplomat estranhamente minimiza o caráter defensivo da iniciativa.


Original.

Promovida pela PPC

Ilusões monetárias têm sido algo como uma obsessão aqui recentemente (por exemplo. Como exemplo de quanta diferença elas podem fazer, a ordem econômica do mundo, que é confortavelmente dominada pelos Estados Unidos em taxas de câmbio internacionais, está à beira de sua maior transição em meio milênio se a contabilidade for conduzida de acordo com a PPC.

Do Bloomberg:

A China está pronta para ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo, enquanto a Índia saltou para o terceiro lugar, à frente do Japão, usando cálculos que levam em consideração as taxas de câmbio.

A economia da China era 87 por cento do tamanho da dos E.U.A. em 2011, avaliada de acordo com a chamada paridade do poder de compra, O Programa Internacional de Comparação disse em comunicado ontem em Washington. O programa, que envolve organizações como o Banco Mundial e as Nações Unidas, colocou o número em 43% em 2005.

Original.

Como o Terror Funciona

O motivo primário do terrorismo é atrair a atenção da mídia para as queixas dos perpetradores.

Quando a mídia ocidental cobre um incidente terrorista, ela foca reflexivamente nas queixas dos perpetradores.

Uma cobertura desse tipo não é sobre o terrorismo. Ela é um componente orgânico do terrorismo.

ADICIONADO: Kaiser Kuo faz um argumento importante: "…as pessoas estão, em sua maioria, escrevendo e falando sobre a situação como se ela estivesse ocorrendo em completo isolamento, como se a ascensão do Islã radical no resto do mundo desde a década de 1980 não estivesse presente".

ADICIONADO: O Departamento de Estado dos EUA faz a coisa certa.

ADICIONADO: Gordon Moore: A Jihad Global Alcançou a China?

ADICIONADO: Um pouco de justa indignação do People’s Daily Online: "Há extensa evidência na cena do crime para não deixar dúvidas de que o ataque à estação de trem em Kunming não foi nada além de um crime terrorista violento. Mas, independente dessa evidência, algumas organizações midiáticas ocidentais não estavam dispostas a usar o termo ‘terrorismo’ em sua cobertura. A reportagem da CNN em 3 de março [de 2014] colocava a palavra ‘terroristas’ entre aspas e oferecia a visão de que ‘ataques em massa com facas’ não são ‘sem precedentes’ na China. A intenção aqui era associar esse incidente terrorista a uma série de ataques que ocorreram em 2010 e 2012, o que é ainda mais repugnante porque esses ataques aconteceram em escolas, foram conduzidos por indivíduos que claramente tinha distúrbios mentais e sua vítimas eram crianças. Nenhum dos perpetradores tinha qualquer conexão política ou motivos políticos. A reportagem da Associated Press usava o termo ‘descrito pelas autoridades como’ para qualificar seu uso da palavra ‘terroristas’. O New York Times e o Washington Post chamaram os terroristas de ‘agressores’".
— Lições de decência básica vinda da mídia chinesa (de nada).

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Animação Suspensa (Parte 3)

A mão morta do estado

Eu queria estar dizendo que vai acontecer logo… esta é a crise de maior duração, na qual as pessoas tem dado datas falsas, pessoas aparecendo para cúpulas dizendo que tem que ser resolvido, nada acontece e as pessoas vão embora e o céu não cai… mais cedo ou mais tarde o céu vai cair, eu só não sou inteligente o suficiente para saber quando vai ser.
— Anthony Fry, Presidente no Reino Unido do Espírito Santo Investment Bank (para a CNBC)

A Europa adotará a solução americana. O BCE não permitirá que grandes bancos venham a falir. Ele inflará para comprar os ativos ruins, ou então comprará os títulos dos governos, para que eles consigam fazer pagamentos. Então os banqueiros colocarão esse dinheiro em reservas excedentárias. Novos empréstimos para empresas cessarão. O Ocidente entrará em uma recessão permanente ou estase sem crescimento. Os governos absorverão uma percentagem cada vez maior do capital da região: vendas de títulos. As firmas privadas não serão capazes de emprestar a taxas baixas. O desenvolvimento do capital se enrugará.
— Gary North (aqui)

O novo milênio está nos ensinando vastamente mais sobre zumbis do que qualquer um poderia ter antecipado. Há muito se foram os vampiros viris e predatórios que outrora populavam as estórias de horror sobre o capitalismo, sugando a essência vital do proletariado em fortalezas góticas de ‘trabalho morto’. Em vez disso, destroços destruídos por vermes trituram por aí, sem meta, enquanto aumentam seus números em circuitos canibais obscuros que desafiam a compreensão racional e que são, em todo caso, horríveis demais para se contemplar fixamente. Demônios se degeneraram em canibais, que não caçam e se alimentam para se fortalecer, mas apenas prosseguem prolongando sua decrepitude putrescente.

Um artigo de 2002 no Guardian sobre a “economia zumbi do Japão” prefigura uma série de revelações posteriores e mais gerais. Em particular, ele identifica o apocalipse zumbi que se espalha com o colapso em câmera lenta do keynesianismo, conforme as políticas monetárias e fiscais ‘estimulantes’ (taxas de juros zero combinadas com um gastos deficitários governamentais massivos) perdem seus poderes mágicos de revitalização e, em vez disso, meramente perpetuam um estado interminável de morte-viva. Hiper-estímulos são necessários apenas para se manter na assistolia.

Claro, sendo o Guardian, a solução é óbvia: “o que a economia precisa agora é uma boa dose de inflação”. Para keynesianos mortos-vivos, não há mal-estar profundo demais que uma revigorante onda de destruição monetária não resolva. É aqui que o metabolismo zumbi realmente fica interessante. No fim da década, a América tinha ela mesmo se tornado totalmente zumbi e começou a perceber que isso não era apenas alguma coisa japonesa estranha que ela não entendia, mas um fenômeno completamente mais geral e radicalmente misterioso. O Federal Reserve de Ben Bernanke empurrou as taxas de juros dos EUA para o chão (ZIRP) e começou a monetizar incontinentemente a dívida pública (QE) enquanto nacionalizava a dívida privada (TARP), usando todo instrumento político disponível para direcionar a economia em uma direção inflacionária, em velocidade máxima. Nada demais aconteceu. Zumbis não ficam com febre.

Neste ponto, as questões vêm em inundação. Por exemplo: por que alguém ainda está comprando títulos dos governos japonês ou americano? Não é óbvio que esse papel não representa nada além de uma fatia de dívidas irresgatáveis, que promete um retorno insultante, ‘garantido’ por uma entidade estruturalmente insolvente e associado com políticas mais ou menos explicitamente orientadas à destruição deliberada da moeda? O que a pessoas estão pensando? Para responder isso, é necessário se aventurar um pouco mais fundo no mundo zumbi.

A ideia do dólar americano (ou do iene japonês) como ‘porto seguro’ poderia soar como uma piada, e você provavelmente já a ouviu antes:

Joe Dollar e Jacques Euro estão acampando no mato, quando de repente ouvem o fungar aterrorizante de uma carnívoro faminto se aproximando. Joe apressadamente começa a amarrar seus tênis de corrida. “O que você está fazendo?” pergunta Jacques. “Você não consegue ser mais rápido que um mercado-urso.”

“Eu não preciso ser mais rápido que o mercado”, Joe responde. “Eu só preciso ser mais rápido que você.”

No Asia Times Online, Martin Hutchinson vislumbra um fim de jogo para a crise financeira que “elimin[e] os mercados de dívida governamental que formaram a peça central dos últimos três séculos”, devolvendo o mundo ao dinheiro baseado no mercado e ao regime de bancos livre de 1693, antes da criação do Banco da Inglaterra. Paradoxalmente, contudo, o prospecto de colapso eleva a potência financeira do estado a um nível sem precedentes, conforme a ‘segurança’ que ele promete se desconecta das questões de competência econômica e se reverte a algo bem mais atávico e hobbesiano. Uma vez que tudo começa a se afivelar, a credibilidade se vincula ao maior, mais malvado e mais implacável fornecedor de ‘proteção’ ao estilo da máfia. A política do poder relativista (de soma zero ou negativa) toma o centro do palco.

Um relatório financeiro pedestre, mas informativo, da Bloomberg estabelece claramente:

Jim Chanos, fundador do hedge fund Kynikos Associates Ltd., disse que, embora as chances de uma recessão possam estar aumentando, a economia dos EUA é “a melhor casa em uma vizinhança ruim”

O dólar americano poderia não ser nada mais do que o “cavalo mais bonito na fábrica de cola”, mas, uma vez que a lógica financeira do apocalipse zumbi assume o controle, as implicações podem ser de longo alcance, a Bloomberg continua:

Os tesouros de dez anos apagaram as perdas depois que os EUA vendeu US$29 bilhões en títulos de sete anos a um rendimento em baixa recorde de 1.415 por cento, somando US$99 bilhões em vendas de notas nesta semana. Os rendimentos de dez anos caíram quatro pontos-base, para 1.88 por cento, depois de subir até quatro pontos mais cedo. A taxa está em alta depois de uma baixa recorde de 1.67 em 23 de setembro.

Os tesouros dos EUA que maturam entre sete e 10 anos devolveram 14 por cento este ano, superando um retorno de 9.3 por cento para o mercado de tesouros mais amplo, de acordo com os índices Merrill Lynch do Bank of America, dados de ontem [23 de novembro].

Vale a pena tirar um momento para digerir esses números. Ninguém espera que a inflação média dos EUA ao longo dos próximos sete anos fique abaixo de 1.415% a.a., ou abaixo de 1.88% ao longo dos próximo dez, então o rendimento é pura extorsão. Ainda assim, esse ataque flagrante ao cólon inferior dos poupadores foi compatível com um retorno de 14% (!) em um ano – eles estão implorando por isso. Sério, quem se importa se Bernanke está acendendo um gordo charuto cubano com uma nota alta tirada direto do seu bolso? Isso só faz ele parecer mais foda e é por isso que eles estão pagando. O ouro parece bom em teoria, mas ele não vem junto com sua própria organização gangster, então se agarrar a ele em meio ao interlúdio zumbi pode ser difícil. É bem mais seguro, de longe, investir no estado alfa.

Uma vez que essa zumbinomia hobbesiana é política e relativista, existem estados epsilon no outro lado da troca, assim como um estado beta preso no meio. A Europa não é sequer um estado, claro, que é como a (interminável) fase final da zumbinomia começou. Antes dela mudar, contudo, o ato de conjuração da UE parecia estar indo muito bem. Cada estado membro da zona do Euro emitindo dívida do governo na moeda comum pagava rendimentos que estavam amplamente harmonizados, como se a Europa fosse um entidade financeiramente soberana, estando unida por trás de seus papéis. A percepção de que a soberania econômica permanecia nacional, mesmo depois da alienação da soberana monetária ao Banco Central Europeu, veio meio como um choque, e os diferenciais das obrigações se escancararam de acordo.

A alucinação da ‘Europa’ como um estado alfa unido e honorário rapidamente se degenerou na realidade, recodificando os títulos do governo como títulos de ações no apocalipse zumbi. Repentinamente, os títulos gregos pararam de ter muito a ver com o BCE e começaram a resmungar promessas em grego – em última análise, que o estado grego faria o que fosse necessário para assegurar a redenção, ao mesmo tempo em que mobilizaria seus poderes olímpicos para manter a disciplina social, se necessário. Uma luta pelas saídas imediatamente se seguiu. Idem, com variações de velocidade e intensidade, para todos os epsilons (= PIIGS).

Para onde fugir? Esta é a questão zumbinômica par excellance (procurando o cavalo mais bonito na fábrica de cola). Primeira escolha, para os leitores mais afiados de Hobbes, era ir direto ao Mr. Big, também conhecido como Benny, o Ianque, esperar educadamente enquanto ele terminasse de fumar um nuke fumegante e então implorar por proteção (eis seu salto de 14% em um ano no valor do título de 10 anos do Tesouro dos EUA, bem aqui). A segunda escolha — mais atraente para os tipos antiquados que pensavam que a economia ainda contava de algo – era procurar por uma responsabilidade financeira comparativa mais perto de casa.

De maneira breve, esta rota levava à qualidade genuína, mas a zumbinomia rapidamente retomou seu controle:

A Suíça provocou temores de uma nova guerra cambial na terça-feira [6 de setembro] depois que atrelou o franco suíço ao euro na tentativa de proteger sua economia da crise da dívida europeia.

O Banco Nacional Suíço, com efeito, desvalorizou o franco, comprometendo-se a comprar “quantidades ilimitadas” de moedas estrangeiras para forçar seu valor para baixo. O BNS avisou que não permitiria mais que um franco suíço valesse mais do que €0.83 – equivalente a SFr1.20 por euro – tendo assistido as duas moedas se aproximarem de uma paridade, conforme a Suíça se tornou um “porto seguro” contras as devastações da crise na zona do euro.

…o que nos traz à Alemanha e ao último capítulo na saga zumbi – cômica ou trágica, provavelmente ambos, irônica ao ponto do absurdo em todo caso. Arruinada, encolhida, dividida e traumatizada pela culpa, a Alemanha do pós-guerra buscou sobretudo enterrar suas aspirações nacionalistas na Europa. O que se tornou a UE foi para a Alemanha – como a Argélia foi para os legionários estrangeiros da França – um lugar no qual esquecer. Agora o ‘mercado’ de títulos, em sua busca cada vez mais desesperada por um um estado grande, durão e disciplinador (um beta global seria suficiente), está determinado a desenterrar o Leviatã Teutônico de sua cova.

Com lembranças gêmeas da hiper-inflação de Weimar e da hiper-afirmação estatista ainda vívidas, a Alemanha está teimosamente resistindo à opção zumbi-total de devassidão financeira (monetária e fiscal) contra-balanceada por uma política de segurança hobbesiana. Esta relutância em se atirar no espírito da era, naturalmente o bastante, a expôs a uma vilificação internacional implacável, e a pressão só vai aumentar. Tudo isso poderia ficar desagradavelmente interessante.

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 6)

Contagem Regressiva

No começo do século XXI, a hegemonia cultural global está em movimento. Por cerca de 500 anos, as sociedades e agências ocidentais — e, mais tarde, mais especificamente as anglófonas — guiaram de maneira predominante o desenvolvimento do atual sistema mundial. Conforme sua preeminência econômica míngua, pode-se esperar que sua influência cultural e política sofra um declínio comparável. Nos estágios iniciais da transição por vir, contudo, a forma terminal da hegemonia cultural ocidental – o politicamente correto multicultural (PCM) – está bem posicionada para gerir os termos do recuo. Ao reconfigurar os temas religiosos e políticos ocidentais básicos enquanto uma sensibilização ao privilégio imerecido, o PCM é capaz de se distanciar de sua própria herança e continuar a viver, no ressentimento do ‘outro’, como se fosse o juiz neutro de disputas nas quais não tem nenhuma parte.

Quando o PCM volta sua atenção ao calendário gregoriano (ou cristão ocidental), ele fica chocado, é claro. Mas também está preso. O que poderia ser mais insensível à diversidade cultural do que um sistema ecumênico de contagem da data, enraizado nas peculiaridades étnicas da religião abraâmica em sua fase grega, que celebra seu triunfo, sem pedir desculpas, nas intransigentes palavras Anno Domini? E, no entanto, a convergência global exige um padrão, nenhum calendário alternativo tem reivindicações superiores de neutralidade e, em todo caso, o rolo compressor inercial dos sistemas complexos em larga escala – ‘aprisionamento’ ou ‘dependência de caminho’ – apresenta barreiras para a mudança que parecem efetivamente insuperáveis. A solução proposta pelo PCM para esse dilema é tão fraca que equivale à conclusão do Domínio Calêndrico gregoriano, que deve ser simultaneamente reformulado (educadamente) e reconhecido em sua universalidade irresistível como a articulação de uma ‘Era Comum’.

O PCM suplanta problemas de poder cultural com uma etiqueta ofuscante e, em termos absolutos, sua desonestidade presunçosa é difícil de gostar. Enquanto fenômeno relativo, contudo, seu apelo é mais óbvio, uma vez que as ‘soluções’ radicais para o Domínio Calêndrico gregoriano, recomeçando no Ano Zero, em geral se reverteram em assassinato em massa. Carecendo de reivindicações persuasivas de uma quebra histórica nova, fundamental e universalmente reconhecida, elas substituíram por terror uma verdadeira singularidade global, como se o destino pudesse ser apagado com sangue.

Uma vez que o ressentimento não chega a lugar nenhum, seja em suas variantes branda (PCM) ou severa (campos de execução), vale a pena entreter possibilidades alternativas. Estas começam com uma atenção às reais diferenças culturais, ao invés da mera ‘diversidade cultural’ conforme ela se apresenta à mente vazia processada pelo PCM. Logo após Shanghai ter sido selecionada como cidade hóspede da Expo Mundial 2010 (em dezembro de 2002), as contagens regressivas começaram. Para os ocidentais, elas provavelmente tinham associações com a era espacial, despertando memórias das contagens regressivas para a ‘decolagem’ que foram popularizadas pelo Programa Apolo e pelas mídias de ficção científica subsequentes. Está longe de ser impossível que os chineses compartilhassem dessas evocações, embora eles também fossem capazes de acessar um reservatório de referência muito mais profundo – o que seria dizer civilizacionalmente fundamental. Isso é porque o tempo chinês tipicamente conta regressivamente, modelado como é no funcionamento de relógios d’água. A língua chinesa sistematicamente descreve antes como ‘acima’ (shang) e próximo como ‘abaixo’ (xia), conformando-se a uma intuição do tempo enquanto descida. O tempo é contado regressivamente conforme corre para fora, de um corpo hidráulico elevado para dentro do futuro afundado que o recebe.

A duração não apenas flui, ela pinga. Talvez, então, uma ‘orientalização’ da percepção e da organização calêndrica seja algo que excede significativamente uma simples (ou mesmo extremamente difícil) renegociação de começos. Recomeçar poderia ser considerado largamente irrelevante para o problema, pelo menos quando comparado à reorientação de um Ano Zero original para um terminal. Embora não seja exatamente uma transição na direção do tempo, tal mudança envolveria uma transição na direção da intuição do tempo, simultaneamente ultrapassando as mais selvagens ambições de re-originação calêndrica e sutilmente se organizando ‘dentro dos poros’ da ordem temporal estabelecida. Conforme modelada pela Expo 2010 e, antes, pelo Y2K, a mudança para o tempo regressivo não desafia frontalmente, tampouco busca substituir diretamente a ordem calêndrica no ser. Em vez de contar da mesma maneira, a partir de um lugar diferente, ela conta de uma maneira diferente, dentro do enquadramento temporal já existente. É uma revolução com ‘características chineses’, o que seria dizer: uma insurgência furtiva, que muda o que algo já era, em vez de substituí-lo por alguma outra coisa.

Tanto a Expo 2010 quanto o Y2K também revelam a extrema dificuldade de qualquer transição dessas, uma vez que um Ano Zero futural, um calendário regressivo, tem que navegar a seta do tempo e sua assimetria cognitiva (entre o conhecimento do passado e do futuro), pressupondo uma previsão exata, confiante e consensual.

É por isso que ela se aproxima tanto de uma aceitação conservadora. Se a contagem regressiva tem que estar certa de chegar no término agendado, o ‘evento’ de destino deve já ser uma data (em vez de um ‘acontecimento’ empírico). Nada será suficiente além de uma inevitabilidade aritmética e rigorosamente certa, tão inescapavelmente predestinada quanto o ano 2000, ou 2010, que não podem deixar de chegar. Da perspectiva do calendário regressivo, é para isso que o Domínio Calêndrico (gregoriano) terá servido. É uma oportunidade para se programar uma chegada inevitável.

Mas quando? A pura passagem (queda) do tempo garantiu que a oportunidade para a revolução calêndrica apresentada pelo ‘bug do milênio’ no Y2K tenha sido irrecuperavelmente perdida (de modo que 1900 AD ≠ 0). O mesmo é verdadeiro sobre a Expo Mundial de 2010, um evento sem a pretensão de ser qualquer coisa além de um modelo ‘prático’ em miniatura da singularidade global-temporal. Quanto à verdadeira Singularidade (tecno-comercial) – esta é uma previsão histórica imprecisa, de uma só vez controversa e incapaz de suportar uma previsão exata.

Um prospecto mais apropriado é sugerido pelo escrito de ficção científica Greg Bear, em seu romance Queen of Angels, situado na expectativa do ‘milênio binário’ (2048 = 2¹¹) no meio do século XXI. Este é um ‘evento’ formalmente apropriado, puramente calêndrico, que deriva sua significância da aritmética, em vez da ideologia ou de uma profecia incerta. Ele até mesmo o vislumbra como um momento de revolução insurgente, quando a inteligência artificial surge furtivamente e sem ser notada. Ainda assim, a arbitrariedade prejudica essa data (por quê a 11ª potência de 2?) e nenhuma tentativa séria é feita para se explicar sua elevação à uma preeminência cultural excepcional.

Se uma cultura global ajustada convergir em uma data de contagem regressiva, ela deve ser óbvia, intrinsecamente persuasiva e ideologicamente incontroversa, em outras palavras, espontaneamente plausível. O alvo que a Expo Mundial de 2010 sugere (anagramaticamente) é 2100 AD, uma data que desempenha os estágios finais de uma contagem regressiva (2, 1, 0…). Reforçando esta indicação, o ‘bug do milênio’ do Y2K ameaçava redefinir a data de 2000 AD para 1900 AD, o que teria tacitamente se reiterado no fim exato do século XXI. Se ele continuar a tagarelar sobre o calendário, talvez seja assim a maneira.

O iminente Apocalipse Maia, agendado para 21 / 12/ 2012, ofereceu uma chance preliminar para se saciar de um festival de números de contagem regressiva – assim como 2010, ele se parece muito como mais uma simulação da singularidade digital. Se a manhã de 22 de dezembro de 2012 não deixou para o mundo nada pior do que uma ressaca, ele pode gradualmente se resolver por um novo sentido dos Anos Restantes (no fim de todo o tempo que conta, ou o século XXI).

2100 AD = 0 AR

2099 AD = 1 AR

2098 AD = 2 AR

2096 AD = 4 AR

2092 AD = 8 AR

2084 AD = 16 AR

2068 AD = 32 AR

2036 AD = 64 AR

1972 AD = 128 AR

1844 AD = 256 AR

1588 AD = 512 AR

1076 AD = 1024 AR

52 AD = 2048 AR

É difícil antecipar com o que isso se parece do outro lado.

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 5)

Do Paraíso Carmesim ao Apocalipse Suave

Apesar de sua modernidade e decimalismo, o calendrier républicain ou révolutionnaire francês não tinha Ano Zero, mas redefiniu os termos de entendimento. Um tópico que havia sido concebido como uma interseção entre comemoração religiosa e fato astronômico se tornou abertamente ideológico e foi dominado por considerações da política secular. O novo calendário, que substituiu 1792 AD pelo primeiro ano da nova ‘Era da Liberdade’, durou menos de 14 anos. Ele foi abolido formalmente por Napoleão, efetivado a partir de 1º de janeiro de 1806 (o dia depois do 10 nivoso ano XIV), embora tenha sido brevemente revivido durante a Comuna de Paris (em 1871 AD, ou Année 79 de la République), quando o entusiasmo revolucionário do país foi momentaneamente reacendido.

Para a esquerda, a redefinição calêndrica significava refundação radical e extirpação simbólica do Ancien Régime. Para a direita, significava a imanentização do eschaton e a origem do terror totalitário. Ambas a definições foram conformadas em 1975, quando o Ano Zero foi finalmente alcançado nos campos de execução do Khmer Vermelho cambojano, onde mais de um quarto da população do país pereceu durando esforços para limpar o quadro social e começar de novo. O líder do Khmer Vermelho, Saloth Sar (melhor conhecido por seu nom de guerre, Pol Pot), tornou o ‘Ano Zero’ seu para sempre, rebatizado como uma solução final do sudeste asiático.

O Ano Zero, dali em diante, tinha sabor de cadáver demais para reter valor de propaganda, mas isso não torna a equação calêndrica 1975 = 0 insignificante (mais o oposto). Independente de seu paroquialismo no tempo e no espaço, que corresponde bastante estritamente a uma reincarnação do ‘nacional socialismo’ (xenofóbico-suicida), ele define uma época significativa como a marca de maré alta do logro utópico e a complementar revalorização do pragmatismo conservador. De maneira suficientemente apropriada, o Ano Zero descreve um instante sem duração, no qual a era do tempo utópico é terminada em exata coincidência com sua inauguração. A era que ele abre é caracterizada, quase perfeitamente, por sua renúncia, conforme a programação social de fantasia se extingue em sangue e colapso. O eschaton imanente imediatamente se amaldiçoa.

A ironia histórica torna essa excursão puramente (sub-)acadêmica, porque a nova era está essencialmente desinclina a ser conceber como tal. O que começa a partir deste Ano Zero é uma cultura global de exaustão ideológica, ou de ‘senso comum’, agudamente sensível à cabeça sorridente da morte nos sonhos bonitos e reconciliada com um acordo com o não-ideal. Da perspectiva da expectativa revolucionária fantástica, a maré alta da visão perfeccionista decai até desilusão e insatisfação tolerável – mas pelo menos ela não come nossos filhos. A modéstia estrutural da nova era de ambição não tem tempo algum para um recomeço radical ou para um paraíso carmesim, mesmo quando é historicamente definida por um.

O Ano Zero de Pol Pot está imprensado entre a publicação de A Era Ecumênica de Eric Voegelin e os primeiros protestos chineses massivos contra a Grande Revolução Cultural Proletária (ao longo dos meses que se seguiram à morte de Zhou Enlai, em janeiro de 1976). Vale a pena notar que Deng Xiaoping elogiou Zhou em sua cerimônia memorial por ser “modesto e prudente” (assim fala o Novo Éon).

No mundo anglo-americano, a política da exaustão ideológica estava prestes a tomar uma forma explicitamente conservadora, positivamente expressa como ‘realismo de mercado’ (e, neste sentido, profundamente ressonante, assim como sincronizada, com os desenvolvimentos chineses). Margaret Thatcher assumiu a liderança do Partido Conservador inglês em fevereiro de 1975, e Ronald Reagan declarou sua candidatura presidencial em novembro do mesmo ano. A esquerda anglófona logo seria traumatizada por uma paradoxal ‘revolução conservadora’ que extraía uma energia implacável da própria restrição da possibilidade política. O que não poderia acontecer rapidamente se tornou o dínamo social primário, como articulado pela máxima thatcherita: “Não há alternativa” (= opção zero). A auto-imolação da utopia havia se transmutado em um novo começo.

Embora a era de não recomeçar do zero possa ser datada com uma precisão aproximada (a partir de n – 1975 AD) e tenha, assim, de fato recomeçado do zero, de uma forma profundamente furtiva, sua consequência ampla foi espalhar e enraizar o Domínio Calêndrico (gregoriano) ainda mais ampla e profundamente. A combinação predominante de globalização radicalmente inovadora (tanto econômica quanto tecnológica) com um conservadorismo social prudente tornou esse resultado inevitável. O recomeço simbólico não estava na pauta de ninguém e, mesmo enquanto os pós-modernistas declaravam o fim das ‘grandes narrativas’, a primeira estrutura narrativa hegemônica planetária da história estava consolidando sua posição de monopólio incontestável. A globalização era a estória do mundo, com a datação gregoriana como sua gramática.

Órfão da exaustão ideológica, estigmatizado para além de qualquer recuperação por sua associação com o Khmer Vermelho e radicalmente mal ajustado ao espírito reinante de pragmatismo incremental, por volta do final do século XX o Ano Zero estava aparentemente fora de pauta, sem programação e por sua própria conta. Tempo, então, para algo verdadeiramente insidioso.

Em 18 de janeiro de 1985, o usuário da Usenet Spencer L. Bolles chamou atenção para um prospecto perturbador que havia deixado um amigo insone:

Eu tenho um amigo que levantou uma questão interessante, que eu imediatamente tentei provar falsa. Ele é um programador e tem essa noção de que, quando alcançarmos o ano 2000, os computadores não aceitarão a nova data. Os computadores assumirão que é 1900, ou isso sequer vai causar um problema? Eu me opus violentamente a isso porque parece tão insignificante. Os computadores entraram em existência durante este século, e os softwares, especificamente os softwares de contabilidade, foram preparados para essa virada? Se isto realmente vier a ocorrer e meu amigo estiver correto, o que acontecerá? Isso é algo com o que se preocupar?

O amigo anônimo de Bolles estava perdendo o sono com o que viria ser conhecido como o ‘problema do Y2K’. A fim de economizar memória nos computadores primitivos das primeiras gerações, uma convenção amplamente adotada registrava as datas com dois dígitos. O milênio e o século eram ignorados, uma vez que se assumiu que atualizações de software teriam tornado o problema irrelevante quando ele se tornasse iminente, próximo do ‘rollover‘ (do século e do milênio) no ano 2000 AD. Poucos haviam antecipado que o conservadorismo comparativo das heranças de software (em relação ao desenvolvimento de hardware) teria deixado o problema inteiramente sem solução, mesmo ao passo em que a data da crise se aproximava.

No fim, o Y2K foi um não-evento que não contou para nada, embora seus custos de preparação, seus efeitos de estímulo (especialmente na terceirização para a emergente indústria de software indiana) e seu potencial de pânico tenham sido todos consideráveis. Sua importância para a história do calendário – embora ainda quase inteiramente virtual – é extremamente extensa.

O Y2K resultou da emergência acidental — ou ‘espontânea’ — de uma nova ordem calêndrica dentro da tecnosfera globalizada. Seu Ano Zero, 0K (= 1900) estava despido de toda comemoração paroquial ou intenção ideológica, mesmo ao passo em que era propagado através de canais de comunicação cada vez mais computadorizados até um ponto de ubiquidade que convergia, assintoticamente, com aquela alcançada pelo Domínio Calêndrico ocidental sobre o alcance completo da história mundial. O século XX havia sido registrado, automaticamente, como o primeiro século do Contínuo Cibernético. Se o Y2K tivesse completado sua reformatação da tração da esfera planetária da forma em que alguns (poucos histéricos iludidos) haviam esperado, o mundo agora estaria se aproximando do meio do ano 0K+118, instalado seguramente em seu primeiro calendário universal aritmeticamente competente e orientado historicamente pelo mesmo sistema de computação eletrônica que havia inconscientemente decidido sobre a origem do tempo positivo. Ao invés disso, o ‘bug do milênio’ foi consertado e a contagem teológica da data prolongou sua dominância, sem interrupções (após muito barulho por nada). Muito provavelmente, o complexo cultural hegemônico encrustado no Domínio Calêndrico nunca sequer notou a insurreição cibernética que havia esmagado.

Entre 0K e Y2K, o alfa e o ômega do apocalipse suave, há não apenas um século de tempo histórico, mas também uma inversão de atitude. O tempo se afasta do 0K, como de qualquer ponto de origem, acumulando duração decorrida através de sua conta. o Y2K, em contraste, era um destino, do qual o tempo se aproximava, como se de um horizonte apocalíptico. Embora não tenha sido registrado como uma contagem regressiva, muito facilmente poderia ter sido. O término estava precisamente determinado (não menos do que a origem), e a formulação mais estrita do bug do milênio interpretava o ponto de rollover como um limite absolute para o tempo registrável, além do qual nenhum futuro era sequer imaginável. Para qualquer inteligência computacional hipotética restrita pelo Y2K, negada um acesso a procedimentos de datação que transbordem seu registro anual de dois dígitos, o tempo residual se reduzia em direção ao zero conforme o evento do milênio se agigantava. Uma vez que se alcance todos os noves, o tempo está acabado, no limite da eternidade, onde começo e fim são indistinguíveis (no 0).

“0K, é hora de embrulhar esse filhote.” – Apocalipse 6:14

(a seguir, e finalmente, o fim (enfim))

Original.

Re-Animador (Parte 3)

O que faz uma grande cidade?

De longe, o elemento mais interessante da Expo Mundial 2010: Shanghai era Shanghai. Embora tradições profundamente enraizadas de cortesia sustentassem a ficção de que essa Feira Mundial era sobre o mundo, na realidade não era. Quaisquer que sejam os benefícios diplomáticos da pretensão internacionalista quase universalmente conveniente, para a China e para os participantes internacionais da Expo igualmente, a Expo 2010 era sobre Shanghai e para Shanghai. A Expo era global porque Shanghai o é, era sobre a China porque Shanghai é o portal da China para o mundo, era sobre cidades a fim de ser ainda mais sobre Shanghai, ninguém desinteressado em Shanghai prestou a menor atenção, e Shanghai a utilizou para se reestruturar, se intensificar e se promover.

A Expo enquanto instituição estava em declínio antes de 2010 e continua a decair. Shanghai estava em ascendência antes de 2010 e continua a se elevar, mas agora com uma infraestrutura atualizada, completamente renovada e decorada com a medalha de mérito histórica da hospitalidade da Expo. Cidade Melhor, Vida Melhor, um tema tipicamente etéreo e aspirativo da Expo, é uma descrição fria e sóbria do efeito da Expo sobre Shanghai.

As cidades são, em certos aspectos importantes, genéricas. Existe algo como ‘a cidade em geral’, como o trabalho de Geoffrey West, em particular, demonstrou. Sabemos, graças a West, que as cidades são organismos negativos, com características consistentes de escala, que as diferenciam estruturalmente de animais e corporações. Conforme elas crescem, elas se aceleram e se intensificam em uma taxa quantificável e previsível, exibindo retornos cada vez maiores de escala (em nítido contraste com animais e empresas, que ficam mais lentos em proporção ao seu tamanho). Organismos e firmas morrem normalmente e por necessidade, as cidades apenas raramente e por acidente.

As cidades pertencem a um gênero real, mas elas também são singularidades, que sofrem uma individuação espontânea. Na verdade, elas são genericamente singulares – singulares sem exceção – como buracos negros. Não é apenas que nenhuma cidade é como outra, nenhuma cidade pode ser como outra, e isto é uma característica que todas as cidades compartilham, sem dúvida mais do que qualquer outra.

Para além de tal singularidade genérica, há um nível adicional de diferenciação aumentada que emerge da posição que a cidade ocupa dentro de sistemas maiores. Estes sistemas não são apenas internamente especializados, mas também hierárquicos, dividindo o centro da periferia e distribuindo influência de forma desigual entre elas. Em última análise, dentro da encarnação plenamente global do ‘sistema-mundo’, as cidades adquirem características metropolitanas secundárias, em diversos graus, de acordo com sua proximidade geográfica e funcional ao centro do mundo. Elas transcendem suas histórias locais, para se tornarem eixos ou nós em uma rede global que as re-caracteriza como partes de um todo, em vez de todos feitos de partes, como metrópoles-versus-periferias em vez de (ou por sobre) metrópoles-versus-vila.

A estrutura geográfica e a instabilidade histórica da arquitetura núcleo-periferia da modernidade têm sido o foco da ‘teoria de sistemas-mundo’, desenvolvida, a partir da Escola de Annales de Fernand Braudel (1902-85), por Immanuel Wallerstein (1930-) e – de maneira mais impressionante – Giovanni Arrighi (1937-2009). De acordo com os teóricos dos sistemas-mundo, as revoluções que importam mais não são mudanças nacionais de regime, tais como as da França (1789) e da Rússia (1917), mas sim reorganizações globais que balizam as fases básicas da história moderna, jogando o mundo em novas estruturas de núcleo-periferia. A modernidade sofreu quatro desses deslocamentos até o presente, com cada fase durando um ‘longo século’, introduzindo um novo estado núcleo, ou hegemon, com capacidades aumentadas, e um novo centro urbano – sucessivamente, Veneza, Amsterdam, Londres e Nova York – que opera como uma efetiva capital do mundo.

Como o exemplo de Nova York atesta, este status não é primariamente político. Tampouco a proeminência na manufatura parece ser um fator relevante (a ‘capital mundial’ nunca foi o centro industrial dominante de sua respectiva região ou estado). Ao longo da história moderna até hoje, as características cruciais da capital mundial parecem ser que ela é a maior aglomeração urbana na região ou estado dominante (‘hegemônica’); que ela é um centro financeiro bem estabelecido que bastante rapidamente alcança uma posição de preeminência global nesse aspecto; que ela é uma cidade portuária aberta, com uma clara orientação marítima; e que ela tem um perfil demográfico excepcionalmente internacionalizado, com um grande segmento de residentes internacionalmente móveis e oportunistas. Um período significativo de liderança nas artes criativas poderia plausivelmente ser adicionado a esta lista. Funcionalmente, a capital mundial serve como o centro-nervoso supremo da economia global, especializada nacionalmente e então super-especializada internacionalmente como o eixo de serviços financeiros, logísticos e empresariais de um sistema cuja integridade global está refletida na singularidade privilegiada da cidade.

O drama excepcional de nossa era está em sua natureza enquanto um tempo de transição entre fases da modernidade, algo entre o inverno de um longo século, quando uma época de hegemonia se exaure. Mais especificamente, o cerco está se fechando sobre a Era Americana, como comentadores de quase toda estirpe intelectual e ideológica estão cada vez mais cientes. Sobrecarregada, essencialmente falida, politicamente paralisada e desiludida, a América afunda em uma crise auto-consciente, seu humor sombrio e anuviado. Seria um erro limitar a atenção à América, contudo, porque a crise é sistêmica-mundial, proclamando o fim de uma ordem internacional que surgiu em meio ao caos das guerras mundiais e alcançou definição nas instituições pós Segunda Guerra das Nações Unidas e do Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o descendente do GATT, hoje OMC). Afeta não só o papel do dólar americano enquanto moeda de reserva internacional, de uma OTAN centrada no Atlântico e de um aparato da ONU enviesado para o Ocidente, mas também a União Européia, o sistema de estados pós-colonial no Oriente Médio e (muito) mais coisas.

Ao longo das próxima duas décadas, sob o impacto de forças econômicas de extrema profundidade (que de longe excedem a capacidade de resposta das instituições existentes), pode-se esperar que um reordenamento revolucionário do mundo se desenrole. Se a América for bem sucedida em manter sua posição de liderança dentro do sistema global por um período que significantemente exceda o longo século XX (que não começou antes de 1914 e que, assim, pode-se esperar que persista por alguns anos adicionais), terá quebrado um padrão que permaneceu consistente por todo um meio-milênio de história. Embora não seja estritamente impossível, a perpetuação da presente ordem hegemônica seria, bastante literalmente, um exagero.

Uma outra visão de quebra com o precedente histórico, desta vez transparentemente utópica, vislumbra – ao invés da continuação da preeminência dos EUA – a obsolescência da estrutura global núcleo-periferia em sua totalidade, pondo um fim na geografia hierárquica e na hegemonia em geral. Mesmo que tal visão verdadeiramente se eleve ao nível de uma expectativa definitiva (em vez um exercício nebuloso de ilusão), ela continua sem fundamentos históricos e teóricos confiáveis. Intenções políticas altruístas – se jamais fossem críveis – ainda seriam insuficientes para superar a tendência espontânea e dinâmica de se aproximar de um equilíbrio sistêmico mundial, no qual uma zona central e sua capital metropolitana sejam automaticamente nomeadas, por correntes econômicas difusas em busca de uma casa de compensação central.

Embora sem dúvida profundamente decepcionante para a escatologia utópica e para todos os sonhos de conclusão histórica (ou de passagem para a terra prometida), mudanças de fase no sistema-mundo são menos sinistras do que frequentemente descritas. Entre os discernimentos mais importantes de Arrighi está o lembrete de que, quando quer que uma tentativa de reconstrução da ordem mundia tenha sido embasada em um desafio militar e geo-estratégico frontal ao hegemon, ela falhou. Isso é exemplificado, sobretudo, pelas histórias alemã e russa nos séculos XIX e XX, nas quais repetidas confrontações diretas com o sistema internacional predominantemente anglófono estabelecido levou apenas a frustração, colapso do regime e reintegração subalterna.

Talvez ironicamente, uma aversão subjetiva marcada à afirmação firme de poder e à presunção de hegemonia pode bastante confiavelmente ser tomada como um indicador positivo da emergência objetiva de um status hegemônico. Holanda, Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram todos, em certos aspectos cruciais, imperialistas acidentais, cujas ascensões sucessivas à dominância mundial compartilharam uma priorização de motivos comerciais, um envolvimento estatal retardado, correntes culturais ‘isolacionistas’ e ‘anti-imperialistas’ fortes e uma evitação determinada da colisão decisiva ‘clauswitzeana’ (especialmente o hegemon anterior). Os métodos de guerra britânicos e americanos, em particular, são notáveis por sua ênfase comum em cobertura e triangulação, tais como a exploração da posição oceânica e da supremacia marítima para evitar um enredamento prematuro em conflitos ‘continentais’ de alta intensidade, o uso da capacidade financeira e logística para manipular conflitos à distância e a inclusão diplomática dos adversários derrotados em sistemas de poder reconstruídos, policêntricos e ‘equilibrados’. A hegemonia foi, em cada caso, herdada de maneira pacífica, mesmo quando foi cimentada pela guerra (em parceria com o hegemon anterior) e mais tarde deu origem a oportunidades para um aventureirismo imperialista cada vez mais agressivo.

Dado esse padrão histórico largamente incontroverso, é ainda mais surpreendente que o exemplo alemão seja tão amplamente invocado nas discussões sobre a ‘ascensão pacífica’ da China. Na verdade, a ascensão da China tem ficado bem mais perto do modelo de entrega hegemônica do que dos desafios confrontativos, como indicado pela priorização do desenvolvimento comercial, pela relação altamente cooperativa (e até mesmo sinérgica ou ‘chimérica’) com o hegemon predominante, pela acumulação gradual de poder financeiro por meio de uma redistribuição espontânea e sistêmica e pela consolidação igualmente gradual de interesses marítimos, que emergem do sistema de comércio global e trazem o foco da política estratégica governamental – talvez de maneira relutante – das preocupações domésticas para o alto-mar.

Historicamente, a China tem sido uma potência bem mais continental do que marítima, e este fato fornece a mais persuasiva objeção à suposição de um (Longo) Século Chinês. A emergência de um sistema-mundo continental seria um afastamento tão decisivo do precedente quanto qualquer um dos já discutidos, e, se tal possibilidade for entretida, a previsão disciplinada falha. Se invertido, contudo, esse problema se torna um previsão em si mesmo: a trajetória da ascensão da China necessariamente implica em sua transformação em uma potência marítima (uma compreensão já tácita na controversa série de TV chinesa de 1988 River Elegy).

Uma vaga intuição, parcial mas elusivamente cristalizada pela Expo 2010, agora se precipita, pelo puro reconhecimento de padrões históricos, na forma de uma questão explícita:

Shanghai está destinada a se tornar a capital do mundo?

(Parte 4 por vir)

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