#Acelerar Anotado (#2)

[Continuando daqui]

II. INTERREGNO: Sobre Aceleracionismos

  1. Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social. Em sua forma neoliberal, essa autoapresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração.

A invocação do ‘neoliberalismo’, que machuca o cérebro, à parte, essas observações são todas perfeitamente sãs

  1. O filósofo Nick Land captou isso de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. Nessa visão do capital, o humano pode eventualmente ser descartado como mero obstáculo a uma abstrata inteligência planetária, que se constrói rapidamente a partir da bricolagem de fragmentos das civilizações passadas. Contudo, o neoliberalismo [cada uso dese termo aprofunda sua insensatez] de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

A diferença entre ‘velocidade‘ e ‘aceleração’ é aquela entre a derivativa zero e a primeira. Isso é rigoroso e, em geral, compreendido. A diferença proposta aqui é outra coisa. Eu não tenho nenhuma ideia clara do que ela é. (Parece equivaler, aproximadamente, a uma distinção entre Direita e Esquerda — isto é, a mera asserção de que o ‘capitalismo’ é compreensível como um ‘interior’ — sem qualquer outro conteúdo identificável.)

  1. Ainda pior, como Deleuze e Guattari reconheciam, desde o começo, o que a velocidade capitalista desterritorializa com uma mão, ela reterritorializa com a outra. O progresso se torna restrito a um enquadramento de mais-valor, exército proletário de reserva, e capital de livre flutuação. A modernidade é reduzida a medidas estatísticas de crescimento econômico, e a inovação social fica incrustrada com as sobras kitsch de nosso passado comunal. A desregulação de Tatcher-Reagan senta-se confortavelmente ao lado da família vitoriana “back-to-basics” e valores religiosos.

A Esquerda não é o agente principal da reterritorialização ‘capitalista’?

  1. Uma tensão mais profunda dentro do neoliberalismo ocorre em termos da sua autoimagem como o veículo de modernidade, como sinônimo para modernização, enquanto promete um futuro cuja constituição interna é incapaz de promover. De fato, conforme o neoliberalismo progrediu, ao invés de possibilitar a criatividade individual, tendeu a eliminar a inventividade cognitiva, em favor de uma linha de produção afetiva de interações roteirizadas, junto a cadeias globais de suprimentos e uma zona oriental de produção neo-fordista. Um minúsculo cognitariado de trabalhadores da elite intelectual encolhe com o passar dos anos – e de maneira crescente na medida em que a automação algorítmica adentra as esferas de trabalho afetivo e intelectual. O neoliberalismo, ainda que se postulando como um desenvolvimento histórico necessário, foi de fato um meio meramente contingente para afastar a crise do valor que emergiu nos anos 1970. Era inevitavelmente uma sublimação da crise, ao invés de sua superação final.

— É a política que faz promessas (o capitalismo faz negócios). Se você pensa que o ‘capitalismo’ já te prometeu algo, você pode estar dando ouvidos a um político.
— Qual é o mecanismo através do qual a ‘inventividade cognitiva’ é progressivamente eliminada, dado que a inovação é uma fonte de vantagem competitiva, pela qual o mercado seleciona?
— O ‘cognitariado’ está diminuindo? A resposta para isso parece ser um dado que a ciência social poderia fornecer.
— Por que (ah, por quê) ainda estamos falando sobre o ‘neoliberalismo’? O capitalismo como tal não é o ‘problema’ que define isso como um projeto político-cultural da Esquerda? Essa palavra ridícula é meramente uma profissão de fé, que serve bem mais como sinal de solidariedade tribal do que como ferramenta analítica. (Ironicamente, esse tique de ‘neoliberalismo’, como uma torneira pingando, perturba significantemente o projeto aqui. A renovação aceleracionista da Esquerda, como toda espécie de renovação modernista profunda, visa reativar linhas de desenvolvimento que remontam ao alto-modernismo do começo do século XX, quando — como os autores entendem de maneira plena, ainda que apenas intuitiva — a dinâmica fundamental da modernidade chegou à crista e quebrou. Ou devemos seriamente acreditar que "de volta para o meio dos anos 1970!" é o grito de guerra implícito?)

Eu estou, é claro, fortemente inclinado a aceitar que a paródia aleijada de capitalismo que existe hoje tem um desempenho pequeno comparado ao seu potencial sobre condições de desinibição laissez-faire — isto é, sem ser compensada pela Esquerda. Mas é Keynes e os anos 1930, não o ‘neoliberalismo’ e os anos 1970, que estabelecem os termos da subordinação do capital ao planejamento macroeconômico.

  1. É Marx, junto com Land, que continua a ser o pensador aceleracionista paradigmático. Ao contrário da crítica bastante familiar, e mesmo ao comportamento de alguns marxianos contemporâneos, devemos lembrar que o próprio Marx usou as mais avançadas ferramentas teóricas e dados empíricos disponíveis, na tentativa de entender e transformar completamente seu mundo. Ele não foi um pensador que resistiu à modernidade, mas antes um que procurou analisar e intervir dentro dela, compreendendo que apesar de toda sua exploração e corrupção, o capitalismo permanecia como o mais avançado sistema econômico em sua época. Suas conquistas não deveriam ser revertidas, mas aceleradas para além das restrições da forma valor capitalista.

Um micro-retrato sólido. Que a ‘forma-valor’ capitalista (a quantificação formatada no comércio) possa ser descrita, de maneira realista, como uma ‘restrição’ é a proposta mais básica em jogo aqui.

  1. De fato, como Lênin escreveu no texto de 1918, intitulado “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”: O socialismo é inconcebível sem a engenharia capitalista de larga escala baseada nas últimas descobertas da ciência moderna. É inconcebível sem a organização estatal planificada que mantém dezenas de milhões de pessoas na observância mais estrita de um padrão unificado de produção e distribuição. Nós, marxistas, sempre falamos disso, e não vale a pena perder dois segundos que seja falando com pessoas que não entendem nem mesmo isso (anarquistas e uma boa parte dos revolucionários da esquerda socialista).

Tal adesão ao princípio do planejamento central é esclarecedora

  1. Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração. [Argumento?] Da mesma forma, a avaliação de políticas de esquerda como antitéticas à aceleração tecnossocial também é, pelo menos em parte, uma deturpação grave. [OK, contanto que seja o ‘ideal desconhecido’ da política de Esquerda do qual estejamos falando] De fato, se a esquerda política tiver um futuro, ele deve ser um que abraça ao máximo essa tendência aceleracionista suprimida.

A frase final nessa seção é, de uma só vez, crucial e escorregadia. O que é — de maneira prática — "abraçar" uma tendência? Como e por quê essa tendência foi "suprimida"? "Ter" ou perder um futuro seriam coisas interessantes, então é o futuro que vem a seguir…

Original.

#Acelerar Anotado (#1)

Meus rabiscos marginais foram adicionados em negrito. Por questão de clareza, portanto, eu subtraí os negritos usados no texto de Williams e Srnicek. Em todos os outros aspectos, o texto base foi plenamente respeitado. A maior parte das anotações feitas são espaços reservados para um engajamento futuro. O texto foi quebrado em três posts, em conformidade com a organização do original

#ACELERAR MANIFESTO: por uma Política Aceleracionista Por Alex Williams e Nick Srnicek | Trad. Bruno Stehling • 14 de maio de 2013

O aceleracionismo impulsiona rumo um futuro que é mais moderno, uma modernidade alternativa que o neoliberalismo é incapaz de gerar intrinsecamente.

Uma vez que isso é um slogan, o número bastante incrível de problemas que ele consegue comprimir em dezenove palavras está sendo colocado de lado, como efeitos da compressão

I. INTRODUÇÃO: Sobre a Conjuntura

  1. No começo da segunda década do século 21, a civilização global enfrenta uma nova espécie de cataclismo. Os apocalipses a caminho tornam ridículas normas e estruturas organizacionais da política forjadas com o nascimento do estado-nação, a ascensão do capitalismo e um século 20 de guerras sem precedentes.

De fato

  1. Ainda mais significante, é o colapso do sistema climático do planeta. Com o tempo, se ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo. [Então a análise cascateia a partir da climatologia institucional? Como essa previsão hipotética alcança prestígio tão extraordinário?] Ainda que essa seja a mais crítica das ameaças que a humanidade enfrenta, coexiste e se entrecruza uma série de problemas menores, mas potencialmente tão desestabilizadores. O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia, oferece uma perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes. [Sim, a descoberta de preços politicamente inibida tem esse efeito] A incessante crise financeira levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E, ainda assim, nenhum sinal de diminuição do estado pode ser encontrado em qualquer lugar] A automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.[Se a automação é um sintoma de crise, esta ‘crise’ coincidiu perfeitamente com a produção de capital, desde sua concepção.]

Visto pela Direita, o único desastre social abrangente em andamento é a expansão não compensada do estado, em termos tanto absolutos quanto proporcionais. (Este é um prognóstico da teoria dos sistemas, antes de ser qualquer tipo de objeção moral.) É notável que o Aceleracionismo de Esquerda não parece achar esse desenvolvimento mórbido de forma alguma, a despeito do fato de que sua linha de tendência é manifestamente insustentável e, assim, prevê resolutamente uma catástrofe. Pelo contrário, aquelas tentativas mais mínimas de se moderar a tendência em direção a uma administração política total são depreciadas como "espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial". Nesse aspecto, o manifesto ecoa de maneira fiel o processo sócio-cultural mais amplo através do qual a catástrofe se faz necessária. Ele é a voz de um desastre deliberado (supra-investido politicamente).

  1. Em contraste com essas catástrofes em contínua aceleração, a política atual está assolada pela inabilidade de gerar novas ideias e modos de organização, necessários para transformar as nossas sociedades, de modo a enfrentar e solucionar as aniquilações futuras. Enquanto a crise ganha força e velocidade, a política abranda e recua. Nessa paralisia do imaginário político, o futuro foi cancelado.

A "a crise [que] ganha força e velocidade" é a política. Qualquer futuro que não seja um que a política comanda foi cancelado por proclamação. É apenas na medida em que a realidade for politicamente solúvel, contudo, que essa proclamação pode ser decisiva. Sobre essa questão, há muito mais por vir.

  1. Desde 1979, a ideologia política globalmente hegemônica é o neoliberalismo, encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos. Apesar dos desafios profundamente estruturais que os novos problemas globais lhe apresentam, mais imediatamente as crises financeiras, fiscais e de crédito, em curso desde 2007-8, os programas neoliberais só evoluíram no sentido de aprofundá-los. A continuação do projeto neoliberal, ou neoliberalismo 2.0, começou a aplicar outra rodada de ajustes estruturais, em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas. Isso tudo apesar dos efeitos econômicos e sociais imediatamente negativos, e das barreiras de longo prazo impostas pelas novas crises globais.

Dentro das democracias anglófonas, 1979 marcou uma transição limitada do consenso keynesiano dominante, uma transição que nunca foi resolutamente perseguida e que foi rapidamente revertida (dentro de cerca de uma década). O princípio da politização econômica (macroeconomia) nunca foi destronado. O ‘neoliberalismo’ não é um conceito sério. Dentro da China (e, mais tarde, de maneira menos audaciosa, em outros ‘mercados emergentes’) uma transformação bem mais substancial ocorreu, mas em nenhum desses casos a descrição ‘neoliberal’ fornece iluminação — a menos que seu significado seja redutível a um repúdio dos métodos crus de uma economia de comando para a subordinação social ao estado.

  1. Que as forças do poder governamental, não-governamental e corporativo, de direita, tenham sido capazes de fazer pressão com a neoliberalização é, ao menos em parte, um resultado da paralisia contínua e da natureza ineficaz de muito do que resta da esquerda. Trinta anos de neoliberalismo tornaram a maioria dos partidos políticos de esquerda desprovida de pensamento radical, esvaziada e sem um mandato popular. Na melhor das hipóteses, eles responderam a nossa presente crise com chamados a um retorno à economia keynesiana, apesar da evidência de que as condições que possibilitaram a socialdemocracia do pós-guerra não existem mais. Não podemos absolutamente retornar por decreto ao trabalho industrial-fordista de massa. Mesmo os regimes neossocialistas da Revolução Bolivariana da América do Sul, ainda que animadores em sua habilidade de resistir aos dogmas do capitalismo contemporâneo, se mantêm lamentavelmente incapazes de apresentar uma alternativa para além do socialismo de meados do século 20. O trabalho organizado, sistematicamente enfraquecido pelas mudanças introduzidas no projeto neoliberal, está esclerosado em um nível institucional e – quando muito – é capaz apenas de mitigar ligeiramente os novos ajustes estruturais. Mas sem uma abordagem sistemática para construir uma nova economia, ou uma solidariedade estrutural para promover mudanças, por hora o trabalho permanece relativamente impotente. Os novos movimentos sociais que emergiram a partir do fim da guerra fria, experimentando um ressurgimento nos anos após 2008, foram igualmente incapazes de conceber uma nova visão ideológico-política. Ao invés disso, eles consomem uma considerável energia em processos direto-democráticos internos e numa autovalorização afetiva dissociada da eficácia estratégica, e frequentemente propõem alguma variante de um localismo neoprimitivista, como se, para fazer oposição à violência abstrata do capital globalizado, fosse suficiente a frágil e efêmera “autenticidade” do imediatismo comunal.

A direita foi destruída, quase completamente, nos anos 1930. Desde então, ela existiu apenas como uma voz simbólica de dissidência impotente, resmungando distraidamente, conforme o rolo compressor do Leviatã avançou adiante. Nem o New Deal, nem a Great Society foram revogados. Em vez disso, o vetor para a politização total foi perseguido até os redutos finais de uma sociedade civil quebrada. A Esquerda não enfrente nehuma restrição política séria que seja, mas apenas aquelas restrições ‘ontológicas’ impostas por uma realidade intratável e politicamente indiferente — exemplificada pelo ‘Problema do Cálculo Econômico’ de Mises. São essas que estão agora derrubando o Socialismo Bolivariano. O ‘Capital Globalizado’ é primariamente denominado na moeda politizada emitida pelo Banco Central dos EUA. Sua subserviência é radical e explícita.

  1. Na ausência de uma visão social, política, organizacional e econômica radicalmente nova, os poderes hegemônicos da direita continuarão capazes de impor o seu imaginário obtuso, a despeito de toda e qualquer evidência. Quando muito, a esquerda será capaz momentaneamente de resistir parcialmente a algumas das piores incursões. Mas isso será irrisório contra uma maré inexorável em última instância. Gerar uma nova hegemonia global de esquerda implica na recuperação de futuros possíveis que foram perdidos, e, de fato, na recuperação do futuro como tal.

Então está claro, por ora, que a Direita e a Esuqerda pelo menos concordam em uma coisa — os outros caras têm uma hegemonia quase total e estão levando o mundo ao desastre. Uma Esquerda cada vez mais esquerdista consegue acelerar o processo?

Explorar essa ideia requer um exame da ideia de aceleração… [a seguir]

Original.

A Grande Convergência

Todo grande filósofo tem um único pensamento, Martin Heidegger afirmou. Por mais questionável que essa afirmação possa ser, ela se aplica sem qualificação a Mou Zongsan, o maior filósofo moderno da China (e talvez também do mundo).

Embora a amplitude do conhecimento de Mou seja intimidadora, ele foi tornado possível apenas pela conformidade com um cronograma metódico de estudos ao longo da vida, organizado por uma única ideia. Seu um pensamento, que ele traduziu para a linguagem da Filosofia Ocidental como ‘intuição intelectual’ (νοῦς, intellektuelle Anschauung), integra não apenas seu próprio pensamento, mas também — ele mantém de maneira consistente — toda a tradição filosófica chinesa, da qual é a pedra angular ou fio condutor. Cada um dos três ensinamentos chineses (三教), confucionista, taoista e budista, tende a um princípio da intuição intelectual no qual ele encontra consumação enquanto “ensinamento perfeito” e através do qual ele adere, por necessidade intrínseca (ao invés de por acidente cultural e histórico extrínseco) ao cânone chinês integral.

Se qualquer conceito unitário tem a densidade de significância suficiente para definir a essência de uma cultura mundial vasta e altamente ramificada, pode-se esperar que ele resista a uma compreensão casual. Entendê-lo, como Mou demonstra meticulosamente, não é um passo preparatório para se pensar dentro da tradição, mas a tarefa cultural derradeira apresentada pela tradição, em cada uma de suas principais vertentes constitutivas. Se a cultura chinesa compartilha uma compreensão iniciatória, ela não é uma percepção prontamente concluída, mas uma aspiração integrativa, que orienta suas várias partes em direção ao mesmo destino, ou realização final. A resolução cognitiva é subordinada ao desenvolvimento prático, através do auto-cultivo.

No Ocidente, a intuição intelectual é um conceito notoriamente difícil, em tal medida que ele é amplamente descartado como um exemplo de extravagância filosófica, para além de toda possibilidade de formulação rigorosa ou uso teórico. Designando a auto-compreensão direta da inteligência, ela foi associada, desde os tempos mais primordiais, ao processo da mente divina. O Deus de Aristóteles, cujo pensamento auto-contemplativo é a aplicação da ação mais elevada ao objeto mais elevado, é a epítome da noção.

Kant determinou que a intuição intelectual jazia para além de qualquer possível entendimento humano, exilando-a estritamente para a esfera exterior das inteligências divinas. Doravante, apelos ao conceito seriam a marca de empreendimentos filosóficos românticos ou ‘místicos’ (representados primariamente pelos pensadores do ‘Idealismo Objetivo’ alemão e aqueles por eles influenciados). Conforme a racionalidade tecno-científica suplantou, de maneira incremental, a metafísica especulativa, e as divindades murcharam até hipóteses implausíveis, a significância da intuição intelectual se contraiu em direção a um ponto de fuga — seja ele excentricidade desacreditável ou curiosidade histórica. Nos termos de Mou Zongsan, a filosofia ocidental, de acordo com a sua própria fatalidade cultural, tornou-se quase perfeitamente não-chinesa.

A ‘Grande Divergência‘, familiar em discussões da história econômica mundial, portanto, teve uma contraparte rigorosamente determinável na alta cultura, o que explica porque, quando Oriente e Ocidente experimentaram seu duro encontro com a modernidade, eles estiveram unidos por um profundo estranhamento mútuo. A ideia identificada por Mou Zongsan como o princípio básico da Inteligência Oriental, através da qual — apenas — a cultura chinesa faz sentido, havia sido arquivada pelo Ocidente séculos antes, como uma esquisitice da teologia especulativa, e agora jazia enterrada no pó, mal lembrada, muito menos sequer tentativamente entendida.

Se a ideia de inteligência diretamente auto-apreensiva permanecesse como uma reserva da metafísica alemã do século XIX, dificilmente se poderia imaginar que o abismo entre o Oriente e o Ocidente — como Mou Zongsan o entende — pudesse ser mais do que tenuemente superado. Ou o Oriente permaneceria inteiramente inescrutável para todo o Ocidente, excetuando-se apenas uma franja cultural de orientalistas, devotada à busca de um exotismo radical, ou o Oriente fugiria de maneira fundamental de seu próprio caminho cultural, ocidentalizando-se até que um pensamento comensurável fosse alcançado. Ambos esses prospectos foram explicitamente lamentados no influente texto “A Manifesto for a Re-appraisal of Sinology and Reconstruction of Chinese Culture” (“Um Manifesto por uma Reavaliação da Sinologia e Reconstrução da Cultura Chinesa”, em chinês 为中国文化敬告世界人士宣言), assinado por Mou Zongsan e três outros estudantes “novos confucionistas” de Xiong Shili (Zhang Junmai, Tang Junyi, e Xu Fuguan), originalmente publicado em 1958.

Que a maré da Grande Divergência econômica e geoestratégica tenha virado nas décadas finais do último século é uma questão de fato indisputável, confirmado por um dilúvio de indicadores quantitativos de desempenho. O aspecto cultural dessa reversão é necessariamente mais complicado e contencioso. No Ocidente, não há dúvida de que muitos explicariam a transição em termos da ocidentalização chinesa, começando com a adoção do “socialismo científico” europeu no final da década de 1940, e amadurecendo através da liberalização — ou globalização econômico-tecnológica — até alcançar a lua.

Uma narrativa muito diferente, e uma em que o status emergente de Mou Zongsan poderia ser bem mais positivamente retratado — aderiria firmemente ao problema da intuição intelectual, ou inteligência auto-apreensiva. A referência mais significante seria I J Good e seu pioneiro ensaio ‘Speculations Concerning the First Ultraintelligent Machine’ (“Especulações a Respeito da Primeira Máquina Ultrainteligente”), composto no começo dos anos 1960 e primeiro publicado em 1965. Nesse artigo, Good escreve:

Seja uma máquina ultrainteligente definida como uma máquina que pode superar de longe todas as atividades intelectuais de qualquer homem, não importa o quão inteligente. Uma vez que projetar máquinas é uma dessas atividades intelectuais, uma máquina ultra-inteligente poderia projetar máquinas ainda melhores; haveria, então, inquestionavelmente, uma “explosão de inteligência”, e a inteligência seria deixada bem para trás… Assim, a primeira máquina ultrainteligente é a última invenção que o homem jamais precisa fazer, contanto que a máquina seja dócil o suficiente para nos dizer como mantê-la sob controle. É curioso que esse argumento seja feito tão raramente fora da ficção científica. Às vezes vale a pena levar a ficção científica a sério.

O horizonte tecno-científico é descrito por uma inteligência reflexiva, que apreende a si mesma de maneira prática e, ao fazê-lo, marca o propósito humano final. Isso é, bastante evidentemente, a ‘intuição intelectual’, conforme ela emerge na borda exterior da modernidade, em vez de entre as curiosidades confusas de sua ancestralidade filosófica. Se ela corresponde ao cerne cultural chinês — como Mou Zongsan obstinadamente mantém — é como um destino antecipado, em vez de um legado abandonado. O modernização avançada vai em direção a ela.

Embora, superficialmente, o conto da modernidade chinesa possa ser interpretado como a substituição de Confúcio pela robótica, uma atenção cuidadosa ao problema da intuição intelectual sugere algo bastante diferente. Auto-cultivo ou inteligência auto-aperfeiçoadora — que tipo de escolha é essa?

O Iluminismo Sombrio, Parte 4e

Parte 4e: História transcodificada

Democracia é o oposto de liberdade, quase inerente ao processo democrático é que ele tende na direção de menos liberdade, em vez de mais, e a democracia não é algo que pode ser consertado. A democracia está inerentemente quebrada, assim como o socialismo. A única maneira de consertá-la é romper com ela.
Frank Karsten

O historiador (principalmente da ciência) Doug Fosnow pediu que os condados “vermelhos” dos EUA se separassem dos “azuis”, formando uma nova federação. Isso foi recebido com muito ceticismo pela audiência, que notou que a federação “vermelha” não ficaria com praticamente nenhum litoral. Doug realmente pensou que uma secessão dessas tinha alguma probabilidade de ocorrer? Não, ele admitiu alegremente, mas qualquer coisa seria melhor do que a guerra racial que ele acha provável que ocorra, e é dever dos intelectuais propor possibilidade menos horríveis.
John Derbyshire

Assim, em vez de por meio de uma reforma de cima para baixo, sob as atuais condições, sua estratégia deve ser a de uma revolução de baixo para cima. A princípio, a compreensão dessa visão pareceria tornar a tarefa de uma revolução social liberal-libertária impossível, pois isso não implica que ter-se-ia que persuadir uma maioria do público a votar pela abolição da democracia e pôr um fim a todos os impostos e legislações? E isso não é pura fantasia, dado que as massas são sempre estúpidas e indolentes, ainda mais dado que a democracia, como explicado acima, promove a degeneração moral e intelectual? Como alguém pode esperar que uma maioria de pessoas cada vez mais degeneradas, acostumadas com o “direito” de votar, jamais renunciasse voluntariamente à oportunidade de saquear a propriedade alheia? Colocado desta maneira, tem-se que admitir que o prospecto de uma revolução social deve, de fato, ser considerado como virtualmente nulo. Em vez disso, é apenas com base em uma reconsideração, ao considerar a secessão como uma parte integral de qualquer estratégia de baixo para cima, que a tarefa de uma revolução liberal-libertária parece menos do que impossível, mesmo que ainda continue sendo intimidadora.
Hans-Herman Hoppe

Concebida de maneira genérica, a modernidade é uma condição social definida por uma tendência integral, resumida como taxas de crescimento econômico sustentadas que excedem os aumentos de população e, assim, marcam uma escapada da história normal, aprisionada dentro da armadilha malthusiana. Quando, no interesse da apreciação desapaixonada, a análise é restrita aos termos deste padrão quantitativo básico, ela suporta uma subdivisão nos componentes positivo (crescimento) e negativo da tendência: contribuições tecno-industriais (científicas e comerciais) à aceleração do desenvolvimento, por um lado, e as contra-tendências sócio-políticas à captura do produto econômico por parte de interesses especiais de rent-seeking democraticamente empoderados (demosclerose), por outro. O que o liberalismo clássico dá (a revolução industrial), o liberalismo maduro leva embora (por meio do cancerígeno estado de intitulações). Na geometria abstrata, isso descreve uma curva em S de fuga auto-limitante. Assim como um drama de liberação, é uma promessa quebrada.

Concebida de maneira particular, como uma singularidade ou coisa real, a modernidade tem características etno-geográficas que complicam e qualificam sua pureza matemática. Ela veio de algum lugar, se impôs de maneira mais ampla e levou os vários povos do mundo a uma extraordinária gama de novas relações. Estas relações eram caracteristicamente ‘modernas’ se envolviam um transbordamento dos limites malthusianos anteriores, permitiam a acumulação de capital e iniciavam novas tendências demográficas, mas elas reuniam grupos concretos em vez de funções econômicas abstratas. Pelo menos em aparência, portanto, a modernidade foi algo feito por pessoas de um certo tipo com – e não incomumente a (ou mesmo contra) – outras pessoas, que eram conspicuamente diferentes delas. No momento em que hesitava no declive de desvanecimento da curva em S, no começo do século XX, a resistência às suas características genéricas (‘alienação capitalista’) havia se tornado quase inteiramente indistinguível da oposição à sua particularidade (‘imperialismo europeu’ e ‘supremacia branca’). Como consequência inevitável, a auto-consciência modernista do núcleo etno-geográfico do sistema deslizou em direção ao pânico racial, em um processo que só foi reprimido pelo surgimento e imolação do Terceiro Reich.

Dada a tendência inerente da modernidade à degeneração ou auto-cancelamento, três prospectos amplos se abrem. Estes não são estritamente exclusivos e não são, portanto, verdadeiras alternativas, mas, para propósitos esquemáticos, é útil apresentá-los como tal.

(1) Modernidade 2.0. A modernização global é revigorada a partir de um novo núcleo etno-geográfico, liberado das estruturas degeneradas de seu predecessor eurocêntrico, mas sem dúvida confrontando tendências de longo prazo de um caráter igualmente mortuário. Este é de longe o cenário mais encorajante e plausível (de uma perspectiva pró-modernista) e, se a China permanecer, mesmo que aproximadamente, em seu curso atual, será certamente realizado. (A Índia, infelizmente, parece ter ido muito longe em sua versão nativa da demosclerose para competir à sério.)

(2) Pós-Modernidade. Equivalendo essencialmente a uma nova idade das trevas, na qual os limites malthusianos se reimpõem brutalmente, este cenário assume que a Modernidade 1.0 globalizou tão radicalmente sua própria morbidez que todo o futuro do mundo colapsa ao seu redor. Se a Catedral ‘vencer’, estas são as consequências.

(3) Renascença Ocidental. Para renascer é primeiro necessário morrer, então, quanto mais forte a ‘reinicialização forçada’, tanto melhor. Crise abrangente e desintegração oferecem as melhores chances (mais realisticamente como um subtema da opção #1).

Visto que a concorrência é boa, uma pitada de Renascença Ocidental apimentaria as coisas, mesmo que – como é extremamente provável – a Modernidade 2.0 seja a principal rodovia do mundo para o futuro. Isso depende do Ocidente parar e reverter basicamente tudo que vem fazendo há mais de um século, com exceção apenas de inovações científicas, tecnológicas e empresariais. É aconselhável manter a disciplina retórica dentro de um modo estritamente hipotético, porque a possibilidade de qualquer uma dessas coisas é profundamente colorida pela incredulidade:

(1) Substituição da democracia representativa pelo republicanismo constitucional (ou por mecanismos governamentais anti-políticos ainda mais extremos).

(2) Redução massiva do governo e seu confinamento rigoroso a funções centrais (no máximo).

(3) Restauração da moeda lastreada (moedas de metais preciosos e notas de depósito desses metais) e abolição do banco central.

(4) Desmantelamento da discrição monetária e fiscal do estado, abolindo assim a macroeconomia prática e liberando a economia autônoma (ou ‘catalática’). (Este ponto é redundante, uma vez que ele se segue rigorosamente de 2 & 3 acima, mas é o verdadeiro prêmio e, logo, digno de enfatização.)

Há mais – isto é, menos política – mas já está absolutamente claro que nada disso vai acontecer aquém de um cataclisma existencial da civilização. Pedir que os políticos limitem seus próprios poderes é um não-começo, mas nada a menos nem remotamente leva na direção certa. Este, contudo, não é sequer o problema mais amplo ou profundo.

A democracia poderia começar como um mecanismo procedural defensável para se limitar o poder do governo, mas ela rápida e inexoravelmente se desenvolve em algo bastante diferente: uma cultura de roubo sistemático. Tão logo os políticos tenham aprendido a comprar apoio político com o ‘dinheiro público’ e tenham condicionado os eleitorados a abraçar a pilhagem e o suborno, o processo democrático se reduz à formação das ‘coalizões distributivas’ (de Mancur Olson) – maiorias eleitorais cimentadas juntas pelo interesse comum em um padrão coletivamente vantajoso de roubo. Pior ainda, uma vez que as pessoas não são, na média, muito brilhantes, a escala de depredação disponível para o establishment político de longe excede até mesmo o saqueamento insano que está aberto ao escrutínio público. Pilhar o futuro, através de degradação monetária, acúmulo de dívidas, destruição do crescimento e retardamento tecno-industrial, é especialmente fácil de ocultar e, assim, confiavelmente popular. A democracia é essencialmente trágica porque fornece à população uma arma para se destruir, uma que sempre é avidamente aproveitada e usada. Ninguém jamais diz ‘não’ para coisas de graça. Quase ninguém sequer vê que não existem coisas de graça. A ruína cultural total é a conclusão necessária.

Dentro da fase final da Modernidade 1.0, a história americana se torna a narrativa mestra do mundo. É ali que o grande transmissor cultural abraâmico culmina no neo-puritanismo secularizado da Catedral, conforme estabelece sua Nova Jerusalém em Washington DC. O aparato do propósito messiânico-revolucionário é consolidado no estado evangélico, que está autorizado, por quaisquer meios necessários, a instalar uma nova ordem mundial de fraternidade universal, em nome da igualdade, dos direitos humanos, da justiça social e – sobretudo – da democracia. A confiança moral absoluta da Catedral garante a busca entusiasta de um poder centralizado irrestrito, otimamente ilimitado em sua penetração intensiva e em seu escopo extensivo.

Com uma ironia completamente escondida da própria prole dos queimadores de bruxas, a ascensão dessa corte de sombrios fanáticos morais a alturas previamente inescaláveis de poder global coincide com a decadência da democracia de massas a profundidades previamente inimagináveis de corrupção gulosa. A cada cinco anos, a América rouba-se de si mesma novamente e se revende em troca de apoio político. Essa coisa de democracia é fácil – você simplesmente vota no cara que lhe promete mais coisas. Um idiota conseguiria fazê-lo. Na verdade, ela gosta de idiotas, os trata com aparente gentileza e faz tudo o que pode para fabricar mais deles.

A tendência implacável da democracia à degeneração apresenta um caso implícito a favor da reação. Uma vez que cada um dos principais limiares de ‘progresso’ sócio-político levou a civilização ocidental em direção a uma ruína abrangente, um retraçamento de seus passos sugere uma reversão da sociedade de pilhagem a uma ordem mais antiga de auto-suficiência, indústria e comércio honestos, aprendizado pré-propagandístico e auto-organização cívica. As atrações desta visão reacionária são evidenciadas pela voga de vestuário, símbolos e documentos constitucionais do século XVII entre a minoria substancial (Tea Party) que claramente vê o curso desastroso da história política americana.

O alarme de ‘raça’ já soou na sua cabeça? Seria surpreendente se não tivesse. Cambaleie de volta, em imaginação, até antes de 2008, e o sussurro tenso da consciência já está questionando seus preconceitos contra revolucionários quenianos e professores marxistas negros. Continue em reverso até a era da Grande Sociedade / Direitos Civis e os avisos alcançam um tom histérico. É perfeitamente óbvio, neste ponto, que a história política americana progrediu ao longo de trajetórias gêmeas e entrelaçadas, que correspondem à capacidade e à legitimação do estado. Lançar dúvidas sobre sua escala e escopo é, simultaneamente, disputar a santidade de seu propósito e a necessidade moral-espiritual de que ele comande quaisquer recursos e imponha quaisquer restrições legais que possam ser requeridas para cumpri-lo. Mais especificamente, recuar da magnitude do Leviatã é demonstrar insensibilidade à imensidão – de fato, quase infinitude – de culpa racial herdada e ao único imperativo categórico sobrevivente da modernidade senescente – o governo precisa fazer mais. A possibilidade, de fato quase certeza, de que as consequências patológicas do ativismo governamental crônico tenham há muito suplantado os problemas que ele originalmente visava é uma contenção tão completamente mal-adaptada à época da religião democrática que sua insignificância prática é garantida.

Mesmo na esquerda, seria extraordinário encontrar muitos que genuinamente acreditam, após continuada reflexão, que o motor primário da expansão e centralização do governo tenha sido o desejo ardente de fazer o bem (não que intenções importem). Ainda assim, conforme as trajetórias gêmeas se cruzam, tamanho é o choque elétrico do drama moral, saltando o fosso entre o Gólgota racial e o Leviatã intrusivo, que o ceticismo é suspenso, e o grande mito progressista, instalado. A alternativa a mais governo, fazendo cada vez mais, era ficar lá, negligentemente, enquanto eles linchavam outro negro. Esta proposição contém todo o conteúdo essencial da educação progressista americana.

As trajetórias históricas gêmeas de capacidade e propósito estatal podem ser concebidas como um protocolo de tradução, que permite que qualquer restrição recomendada ao poder do governo seja ‘decodificada’ como obstrução maligna da justiça racial. Este sistema de substituições funciona tão suavemente que fornece todo um vocabulário de ‘code-words‘ ou ‘dog-whistles‘ (bipartidários) – ‘welfare’, ‘liberdade de associação’, ‘direitos dos estados’ – garantindo que qualquer elocução inteligível na Dimensão Política Principal (esquerda-direita) ocupe um registro duplo, semi-saturado de evocações raciais. A regressão reacionária cheira a frutos estranhos.

…e isso é antes de se sair do calamitoso século XX. Não foi a Era dos Direitos Civis, mas a ‘Guerra Civil Americana’ (nos termos dos vencedores) ou ‘Guerra entre os Estados’ (naqueles dos vencidos) que primeiro transcodificou indissoluvelmente a questão prática do Leviatã com a dialética racial (negro/branco), estabelecendo o centro de junção do antagonismo político e retórico subsequente. O passo primário indispensável em compreender esta fatalidade serpenteia ao longo de uma estranha diagonal entre o relato estatista mainstream e o revisionista, porque a conflagração que consumou a nação americana no início dos anos 1860 foi inteiramente, mas não exclusivamente, sobre a emancipação da escravidão e sobre direitos dos estados, sem nenhuma ‘causa’ sendo redutível a outra ou suficiente para suprimir as duradouras ambiguidades da guerra. Embora exista algum número de ‘liberais’ felizes em celebrar a consolidação de um poder governamental centralizado na triunfante União, e, simetricamente, um número (bem menor) de neo-confederados apologistas da instituição da escravidão nos estados do sul, nenhuma dessas posições não conflituosas capturam o legado cultural dinâmico de uma guerra através dos códigos.

A guerra é um nó. Ao dissociar, na prática, a liberdade em emancipação e independência e então arremessar uma contra a outra em meia década de carnificina, azul contra cinza, estabeleceu-se que a liberdade seria quebrada no campo de batalha, qualquer que fosse o resultado do conflito. A vitória da União determinou que o sentido emancipatório da liberdade prevaleceria, não apenas na América, mas ao redor do mundo, e o eventual reino da Catedral foi garantido. Não obstante, o esmagamento da segunda guerra de secessão da América fez piada da primeira. Se a instituição da escravidão deslegitimava uma guerra de independência, o que sobrevivia de 1776? A coerência moral da causa da União exigia que os fundadores fossem reconcebidos como proprietários de escravos brancos patriarcais politicamente ilegítimos e a história americana comburida na educação progressista e nas guerras culturais.

Se a independência é a ideologia dos donos de escravos, a emancipação requer a destruição programática da independência. Dentro de uma história transcodificada, a efetuação da liberdade é indistinguível de sua abolição.

Original.

Neomodernidade

Alegações de se ter descoberto ou inventado o neomoderno, a neomodernidade ou o neomodernismo têm sido anunciadas em campos tão variados quanto as belas artes, a filosofia política e moral, a teologia, a economia, a memética, o xadrez e, aparentemente, o design de banheiros. Na sociologia, a “segunda modernidade” de Ulrich Beck é um equivalente próximo.

Assim como com o modernismo e o pós-modernismo, é a arquitetura que é central para a definição pública duradoura da neomodernidade. Os filósofos sempre apenas interpretaram o mundo, mas os arquitetos conseguem construi-lo. Embora ainda incoerente, uma paisagem arquitetônica neomoderna está bastante inequivocamente em construção. Isto é especialmente evidente em Shanghai.

Quando guiado pela construção arquitetônica real, o fio que leva até a neomodernidade de Shanghai começa em Turim, com a ‘restauração’ da Fábrica da Fiat em Lingotto feita por Renzo Piano em 1989. Esta obra foi exemplar em uma série de aspectos. Ela equilibrava criação com renovação, atualizando radicalmente e reaproveitando uma estrutura existente e de larga escala, ao passo em que venerava a original. A fábrica já era um icônico edifício modernista, imortalizado no Vers une Architecture (1923) de Le Corbusier. O design multi-uso de Piano misturava revolução funcional com conservação estrutural. Características hiper-contemporâneas (incluindo uma bolha no telhado e um novo sistema de janelas) empregavam materiais leves e transparentes, a fim de minimizar o impacto estrutural (ao passo em que maximizava o impacto funcional). Desta maneira, uma planta industrial foi transformada em um hotel e um espaço de lazer, exibição e conferência, através da recapitulação da herança industrial. O padrão neomoderno havia sido estabelecido.

Seria possível se argumentar, de maneira razoável, que o moderno é sempre já e inerentemente neomoderno, que atualizações implacáveis e auto-superadoras estão embutidas nele desde o princípio. Ainda assim, o prefixo complicador é importante e informativo, como Piano demonstra. Em vez de expressar uma melhoria regular e contínua, a construção neomoderna manifesta e celebra a descontinuidade. A modernidade é dividida e se torna, em parte, passado. A noção semi-paradoxal de ‘herança modernista’ se torna uma inspiração animadora, ou re-animadora.

A modernidade fica datada de maneira estranha e intrigante, porque se posiciona na vanguarda do tempo, expressando uma infusão do futuro. Em seu sentido vital e coloquial, o ‘moderno’ é um termo indexical que descreve o que está acontecendo agora ou recentemente. É neste sentido que a modernização permanece irrepreensivelmente atualizada, ancorada, indexicalmente, ao contemporâneo. Deslizar-se, desancorado, do ‘agora’ para as águas mortas da história é, assim, abandonar a reivindicação de modernidade. O que é distintivamente passado não pode ser moderno, e o moderno não pode ser simplesmente passado.

Embora ‘vulgar’ pelos padrões do uso intelectual e técnico, é esse sentido popular do ‘moderno’ que gera sua força intensa e agitacional. Mesmo entre a intelligentsia, o pós-modernismo extraiu seus poderes de incitação da reivindicação implícita e incompreensível de habitar um momento além de agora. Embora não seja um exagero tornar a dilatação ou a contração do ‘agora’ compatível com a intuição, propor um estado contemporâneo no lado distante do agora convida uma perplexidade estimulante. (O ‘agora’ chinês é revelador neste aspecto, com xianzai indicando literalmente o ‘lugar em’ que ‘primeiro’ estamos, onde sempre começamos, iniciando aritmeticamente.)

Nas belas artes, a distinção consensual entre o ‘moderno’ e o ‘contemporâneo’ resolve essa tensão, mas apenas ao drenar da palavra ‘moderno’ o seu sentido coloquial e provocador, deixando apenas uma casca de referência histórica. Importar-se com essas palavras e movimentos, contudo, é insistir que a modernidade, mesmo a modernidade primordial, resiste a uma absorção na história realizada, porque ela se relaciona com um futuro absoluto. O agora dinamizado da modernidade é irredutível a um período ou a um momento no tempo. O que a modernidade descobriu e perpetuamente se relembra não é apenas a próxima coisa na estrada, mas a estrada adiante em geral, e talvez mesmo a estrada.

Shanghai alcançou a velocidade escape até a neomodernidade de maneira comparativamente recente. O desenvolvimento de Xintiandi na virada do século, por exemplo, foi um marco na restauração urbana, mas foi apenas embrionicamente, e talvez também retrospectivamente, neomoderno. Um exemplo bem mais claro das tendências arquitetônicas representadas por Piano é encontrada no desenvolvimento da Red Town, que data de 2004.

O projeto neomoderno arquetípico é um ‘aglomerado criativo’, e a Red Town não é nenhuma exceção. Ela consiste de um local industrial radicalmente renovado, reanimado como um eixo de artes e lazer. Em sua borda geográfica, e centro conceitual, está a gigantesca casca da antiga Usina de Aço N. 10 da Shanghai Steel Company, agora lar do Shanghai Sculpture Space (SSS). Em estilo neomoderno definitivo, as relíquias monumentais da indústria pesada foram abraçadas e revitalizadas: não meramente restauradas, mas esteticamente transfiguradas.

No primeiro ano do SSS, enormes peças de maquinário enferrujado, extraídas das construções reaproveitadas, jaziam espalhadas em meio e ao lado das esculturas externas, como se embaralhassem deliberadamente as fronteiras entre arte e sucata. Alguns desses detritos, de maneira mais notável, uma mistura de calhas massivas que outrora serviam como conduítes para metal derretido, renasceram como obras de arte pós-industriais.

No coração do neomoderno está algo similar a um campo de ruínas e, no entanto, não há nada remotamente ozymandiano sobre esses restos mortais. Eles atestam mais fortemente a uma sobrevivência resiliente (mesmo que interrompida), do que a desaparecimento e esquecimento. Sua mensagem é renascença.

Sobretudo, talvez, o neomoderno é manifestado de maneira indireta, através de espaços de exposição. Ele aponta para longe de si, em direção ao que ele revive, na maneira do design de museus contemporâneos, com seu ideal de mediação invisível. Seu orgulho está adaptado a uma era de informação, na qual a sutilidade triunfa sobre a afirmação, a percepção inventiva suplanta a auto-expressão, e a antecipação flexível supera o propósito obstinado.

“Queremos demolir museus e bibliotecas”, Marinetti declarou em seu manifesto futurista, enfurecendo-se contra a mão morta do passado. No entanto, fazer uma exposição de museu da modernidade não é mortificar, mas sim o oposto. A vitalidade tenaz do moderno é conspicuamente demonstrada pelo fato de que ele não permaneceu o que era. A morte da casca é a vida do filhote.

O estilo neomoderno de Shanghai é, de uma só vez, chocantemente cru e hiper-refinado, orquestrando uma justaposição forte (ou forte/suave) de restos de metal pesado e design intangível. Ele se exulta nas estruturas mais ciclópicas, tensionadas e temporalmente torturadas: vigas queimadas e enferrujadas, correntes massivas, vastas placas de paredes semi-desintegradas de tijolos, concreto esburacado, alvenaria estilhaçada, as cascas cavernosas e erodidas de armazéns e oficinas. Seus componentes preferidos da herança são caracterizados por um funcionalismo industrial implacavelmente prosaico e brutal, expresso em uma escala que esmaga a mente.

Em volta e em meio a esses esqueletos de dinossauros paleo-modernistas, ele tece uma teia requintada de estruturas maximamente desmaterializadas e semi-transparentes, enfatizando leveza, sutilidade, abertura e inovação. Comunicações digitais de banda larga, sistemas inteligentes de controle ambiental, trepadeiras nutridas de forma hidropônica, mobiliário hiper-projetado, uma decoração interior minimizadas com bom gosto e obras de arte sofisticadas completam a metamorfose.

A neomodernidade é, de uma só vez, mais modernidade e modernidade de novo. Ao sintetizar a mudança progressiva (acelerante) com uma recorrência cíclica, ela produz um esquema ou figura distintivo: a espiral do tempo. Mas isso é ficar um pouco além de nós mesmos…

Postscript
Com peculiar sincronia, meia hora após postar isso, uma cópia do ensaio ‘Reflections on Time and Related Ideas in the Yijing’ (“Reflexões sobre o Tempo e Ideias Relacionadas no Yijing”) de Wonsuk Chang chegou em minha caixa de entrada. O artigo termina:

“O tempo no Yijing pode servir a um propósito conservador – a saber, restaurar o passado. Mas ele também serve ao propósito criativo de produzir novidade. Esses dois aspectos do tempo não se contradizem um ao outro. Muitas passagens no Yijing, se não todas, expressam que aquilo que restaura o passado simultaneamente envolve algum elemento de criação nova. O processo começa a partir de seu movimento incipiente e finalmente alcança o ponto onde a novidade criativa emerge. Este processo evolutivo é aquele de uma espiral que avança, que sempre produz novidade, ao passo em que simultaneamente retorna de novo e de novo às fontes nascentes.”

Original.

Re-Animador (Parte 3)

O que faz uma grande cidade?

De longe, o elemento mais interessante da Expo Mundial 2010: Shanghai era Shanghai. Embora tradições profundamente enraizadas de cortesia sustentassem a ficção de que essa Feira Mundial era sobre o mundo, na realidade não era. Quaisquer que sejam os benefícios diplomáticos da pretensão internacionalista quase universalmente conveniente, para a China e para os participantes internacionais da Expo igualmente, a Expo 2010 era sobre Shanghai e para Shanghai. A Expo era global porque Shanghai o é, era sobre a China porque Shanghai é o portal da China para o mundo, era sobre cidades a fim de ser ainda mais sobre Shanghai, ninguém desinteressado em Shanghai prestou a menor atenção, e Shanghai a utilizou para se reestruturar, se intensificar e se promover.

A Expo enquanto instituição estava em declínio antes de 2010 e continua a decair. Shanghai estava em ascendência antes de 2010 e continua a se elevar, mas agora com uma infraestrutura atualizada, completamente renovada e decorada com a medalha de mérito histórica da hospitalidade da Expo. Cidade Melhor, Vida Melhor, um tema tipicamente etéreo e aspirativo da Expo, é uma descrição fria e sóbria do efeito da Expo sobre Shanghai.

As cidades são, em certos aspectos importantes, genéricas. Existe algo como ‘a cidade em geral’, como o trabalho de Geoffrey West, em particular, demonstrou. Sabemos, graças a West, que as cidades são organismos negativos, com características consistentes de escala, que as diferenciam estruturalmente de animais e corporações. Conforme elas crescem, elas se aceleram e se intensificam em uma taxa quantificável e previsível, exibindo retornos cada vez maiores de escala (em nítido contraste com animais e empresas, que ficam mais lentos em proporção ao seu tamanho). Organismos e firmas morrem normalmente e por necessidade, as cidades apenas raramente e por acidente.

As cidades pertencem a um gênero real, mas elas também são singularidades, que sofrem uma individuação espontânea. Na verdade, elas são genericamente singulares – singulares sem exceção – como buracos negros. Não é apenas que nenhuma cidade é como outra, nenhuma cidade pode ser como outra, e isto é uma característica que todas as cidades compartilham, sem dúvida mais do que qualquer outra.

Para além de tal singularidade genérica, há um nível adicional de diferenciação aumentada que emerge da posição que a cidade ocupa dentro de sistemas maiores. Estes sistemas não são apenas internamente especializados, mas também hierárquicos, dividindo o centro da periferia e distribuindo influência de forma desigual entre elas. Em última análise, dentro da encarnação plenamente global do ‘sistema-mundo’, as cidades adquirem características metropolitanas secundárias, em diversos graus, de acordo com sua proximidade geográfica e funcional ao centro do mundo. Elas transcendem suas histórias locais, para se tornarem eixos ou nós em uma rede global que as re-caracteriza como partes de um todo, em vez de todos feitos de partes, como metrópoles-versus-periferias em vez de (ou por sobre) metrópoles-versus-vila.

A estrutura geográfica e a instabilidade histórica da arquitetura núcleo-periferia da modernidade têm sido o foco da ‘teoria de sistemas-mundo’, desenvolvida, a partir da Escola de Annales de Fernand Braudel (1902-85), por Immanuel Wallerstein (1930-) e – de maneira mais impressionante – Giovanni Arrighi (1937-2009). De acordo com os teóricos dos sistemas-mundo, as revoluções que importam mais não são mudanças nacionais de regime, tais como as da França (1789) e da Rússia (1917), mas sim reorganizações globais que balizam as fases básicas da história moderna, jogando o mundo em novas estruturas de núcleo-periferia. A modernidade sofreu quatro desses deslocamentos até o presente, com cada fase durando um ‘longo século’, introduzindo um novo estado núcleo, ou hegemon, com capacidades aumentadas, e um novo centro urbano – sucessivamente, Veneza, Amsterdam, Londres e Nova York – que opera como uma efetiva capital do mundo.

Como o exemplo de Nova York atesta, este status não é primariamente político. Tampouco a proeminência na manufatura parece ser um fator relevante (a ‘capital mundial’ nunca foi o centro industrial dominante de sua respectiva região ou estado). Ao longo da história moderna até hoje, as características cruciais da capital mundial parecem ser que ela é a maior aglomeração urbana na região ou estado dominante (‘hegemônica’); que ela é um centro financeiro bem estabelecido que bastante rapidamente alcança uma posição de preeminência global nesse aspecto; que ela é uma cidade portuária aberta, com uma clara orientação marítima; e que ela tem um perfil demográfico excepcionalmente internacionalizado, com um grande segmento de residentes internacionalmente móveis e oportunistas. Um período significativo de liderança nas artes criativas poderia plausivelmente ser adicionado a esta lista. Funcionalmente, a capital mundial serve como o centro-nervoso supremo da economia global, especializada nacionalmente e então super-especializada internacionalmente como o eixo de serviços financeiros, logísticos e empresariais de um sistema cuja integridade global está refletida na singularidade privilegiada da cidade.

O drama excepcional de nossa era está em sua natureza enquanto um tempo de transição entre fases da modernidade, algo entre o inverno de um longo século, quando uma época de hegemonia se exaure. Mais especificamente, o cerco está se fechando sobre a Era Americana, como comentadores de quase toda estirpe intelectual e ideológica estão cada vez mais cientes. Sobrecarregada, essencialmente falida, politicamente paralisada e desiludida, a América afunda em uma crise auto-consciente, seu humor sombrio e anuviado. Seria um erro limitar a atenção à América, contudo, porque a crise é sistêmica-mundial, proclamando o fim de uma ordem internacional que surgiu em meio ao caos das guerras mundiais e alcançou definição nas instituições pós Segunda Guerra das Nações Unidas e do Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o descendente do GATT, hoje OMC). Afeta não só o papel do dólar americano enquanto moeda de reserva internacional, de uma OTAN centrada no Atlântico e de um aparato da ONU enviesado para o Ocidente, mas também a União Européia, o sistema de estados pós-colonial no Oriente Médio e (muito) mais coisas.

Ao longo das próxima duas décadas, sob o impacto de forças econômicas de extrema profundidade (que de longe excedem a capacidade de resposta das instituições existentes), pode-se esperar que um reordenamento revolucionário do mundo se desenrole. Se a América for bem sucedida em manter sua posição de liderança dentro do sistema global por um período que significantemente exceda o longo século XX (que não começou antes de 1914 e que, assim, pode-se esperar que persista por alguns anos adicionais), terá quebrado um padrão que permaneceu consistente por todo um meio-milênio de história. Embora não seja estritamente impossível, a perpetuação da presente ordem hegemônica seria, bastante literalmente, um exagero.

Uma outra visão de quebra com o precedente histórico, desta vez transparentemente utópica, vislumbra – ao invés da continuação da preeminência dos EUA – a obsolescência da estrutura global núcleo-periferia em sua totalidade, pondo um fim na geografia hierárquica e na hegemonia em geral. Mesmo que tal visão verdadeiramente se eleve ao nível de uma expectativa definitiva (em vez um exercício nebuloso de ilusão), ela continua sem fundamentos históricos e teóricos confiáveis. Intenções políticas altruístas – se jamais fossem críveis – ainda seriam insuficientes para superar a tendência espontânea e dinâmica de se aproximar de um equilíbrio sistêmico mundial, no qual uma zona central e sua capital metropolitana sejam automaticamente nomeadas, por correntes econômicas difusas em busca de uma casa de compensação central.

Embora sem dúvida profundamente decepcionante para a escatologia utópica e para todos os sonhos de conclusão histórica (ou de passagem para a terra prometida), mudanças de fase no sistema-mundo são menos sinistras do que frequentemente descritas. Entre os discernimentos mais importantes de Arrighi está o lembrete de que, quando quer que uma tentativa de reconstrução da ordem mundia tenha sido embasada em um desafio militar e geo-estratégico frontal ao hegemon, ela falhou. Isso é exemplificado, sobretudo, pelas histórias alemã e russa nos séculos XIX e XX, nas quais repetidas confrontações diretas com o sistema internacional predominantemente anglófono estabelecido levou apenas a frustração, colapso do regime e reintegração subalterna.

Talvez ironicamente, uma aversão subjetiva marcada à afirmação firme de poder e à presunção de hegemonia pode bastante confiavelmente ser tomada como um indicador positivo da emergência objetiva de um status hegemônico. Holanda, Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram todos, em certos aspectos cruciais, imperialistas acidentais, cujas ascensões sucessivas à dominância mundial compartilharam uma priorização de motivos comerciais, um envolvimento estatal retardado, correntes culturais ‘isolacionistas’ e ‘anti-imperialistas’ fortes e uma evitação determinada da colisão decisiva ‘clauswitzeana’ (especialmente o hegemon anterior). Os métodos de guerra britânicos e americanos, em particular, são notáveis por sua ênfase comum em cobertura e triangulação, tais como a exploração da posição oceânica e da supremacia marítima para evitar um enredamento prematuro em conflitos ‘continentais’ de alta intensidade, o uso da capacidade financeira e logística para manipular conflitos à distância e a inclusão diplomática dos adversários derrotados em sistemas de poder reconstruídos, policêntricos e ‘equilibrados’. A hegemonia foi, em cada caso, herdada de maneira pacífica, mesmo quando foi cimentada pela guerra (em parceria com o hegemon anterior) e mais tarde deu origem a oportunidades para um aventureirismo imperialista cada vez mais agressivo.

Dado esse padrão histórico largamente incontroverso, é ainda mais surpreendente que o exemplo alemão seja tão amplamente invocado nas discussões sobre a ‘ascensão pacífica’ da China. Na verdade, a ascensão da China tem ficado bem mais perto do modelo de entrega hegemônica do que dos desafios confrontativos, como indicado pela priorização do desenvolvimento comercial, pela relação altamente cooperativa (e até mesmo sinérgica ou ‘chimérica’) com o hegemon predominante, pela acumulação gradual de poder financeiro por meio de uma redistribuição espontânea e sistêmica e pela consolidação igualmente gradual de interesses marítimos, que emergem do sistema de comércio global e trazem o foco da política estratégica governamental – talvez de maneira relutante – das preocupações domésticas para o alto-mar.

Historicamente, a China tem sido uma potência bem mais continental do que marítima, e este fato fornece a mais persuasiva objeção à suposição de um (Longo) Século Chinês. A emergência de um sistema-mundo continental seria um afastamento tão decisivo do precedente quanto qualquer um dos já discutidos, e, se tal possibilidade for entretida, a previsão disciplinada falha. Se invertido, contudo, esse problema se torna um previsão em si mesmo: a trajetória da ascensão da China necessariamente implica em sua transformação em uma potência marítima (uma compreensão já tácita na controversa série de TV chinesa de 1988 River Elegy).

Uma vaga intuição, parcial mas elusivamente cristalizada pela Expo 2010, agora se precipita, pelo puro reconhecimento de padrões históricos, na forma de uma questão explícita:

Shanghai está destinada a se tornar a capital do mundo?

(Parte 4 por vir)

Original

Re-Animador (Parte 2)

Transformadores da Expo – o visitantes indesejados

O que estava dentro do pavilhão nacional do Reino Unido na Expo 2010? Alguém entrou lá? Talvez possam passar o rolê lá de dentro? Porque uma coisa é certa, se as ressonâncias culturais da ‘Anglosfera’ significam alguma coisa, as expectativas podem ser jogadas em níveis subterrâneos. Assim como o RU, a Austrália fez um bom – talvez até excelente trabalho – com o lado de fora de seu pavilhão, mas sua exposição foi, para ser brutalmente franco, uma desgraça. Vazia, paternalista, revoltantemente sentimental e desprezivelmente covarde – detalhes seriam legais, claro, mas na verdade não havia nenhum – ele serviu para ilustrar perfeitamente o colapso da Expo, de um festival de modernização dinâmica para uma indulgência lamuriante nas patologias culturais mais destrutivas da modernidade. Onde outrora uma exposição, seja corporativa ou nacional, audaciosamente declarava: “É isto que estamos fazendo (não é magnífico?)”, agora elas exaurem suas atenuadas energias explorando novas, embora consistentemente pouco imaginativas, maneiras de dizer “perdão”. Culpa narcisista se agita sem sentido no espaço de exibições como um cardume de peixes encalhados, morrendo na praia.

Incrivelmente, o pavilhão dos EUA era ainda pior. Não apenas o próprio pavilhão era um insulto em forma de shopping pré-fabricado, indigno de comparação com um Wallmart de segunda categoria, mas a exposição dentro levou a apelação obsequiosa dos australianos a um nível completamente novo. Queríamos uma nave espacial ou um drone predador e nos deram Hillary Clinton dizendo “ni hao” mais alguns disparates sobre plantar canteiros de flores no gueto. Qualquer um que tenha deixado esse pavilhão sem uma profunda e duradoura repulsa por tudo que a América representa em si enquanto ser provavelmente acha que o Barney é um cara bem legal. Essa era a sociedade outrora capaz de organizar a Expo de Chicago em 1893, as Expos de Nova York em 1939-40 e 1964-5, de fazer coisas incríveis e exibi-las, de descrever uma visão convincente do futuro e agora… mórbidas reflexões spenglerianas eram inescapáveis.

Vagando entre esses monumentos de direções erradas, suave falta de sentido, relações públicas adocicadas e lamentáveis concessões ‘por-favor-não-me-odeie’ ao estridente moralismo anti-modernista da era – o que seria dizer, à pura e ruinosa decadência – a consciência pixelada em um padrão de pontos semi-aleatório, rodopiado caleidoscopicamente por uma tempestade de frustração que só poderia ser aliviada ao latir para as autoridades locais da Expo e, além delas, para a cidade, o país e a região que estava recebendo o evento: “Você poderia, por favor, para de ser tão educado, poxa!”

O Ocidente está obviamente descendo pelo ralo e o que ele precisa, acima de tudo, é de alguma concorrência inspiradora. Em particular, e em 2010, ele precisava de uma Expo no oeste do Círculo do Pacífico, com desenvolvimento em aceleração máxima, um-caminho-para-o-futuro-marcado-em-chamas que – puramente por implicação inevitável – maximizasse a humilhação do senescente mundo ‘desenvolvido’ e o sacudisse, com o tipo mais rude imaginável de amor difícil, de seu caminho de declínio. (Claro, as sociedades que mais precisam dessa terapia de choque estão perdidas demais nas cativantes minúcias de sua própria degeneração para terem notado, mas ainda assim…) Em vez disso, a Expo 2010 se manteve escrupulosamente cortês, deferente às profundamente apodrecidas tradições da Expo e respeitosa à devoção multicultural de que mesmo os exemplos mais miseráveis de falha social sistemática têm uma dignidade própria. O que faltou foi uma injeção massiva de arrogância etno-cultural pura e inconsciente, embasada numa confiança imoderada no que estava sendo realizado.

Talvez isso possa ser exposto de maneira ainda mais ofensiva: a modernização deveria fazer as pessoas se sentirem mal. Sua função mais altruísta ou epidêmica é ridicularizar e humilhar tão completamente todos aqueles que estão falhando em se modernizar que, eventualmente, depois que todas as desculpas e projeções tenham sido tentadas e exauridas, o comportamento se modifique. O atraso é tornado vergonhoso e, assim, corrigido. É assim que a história funciona. Começou dessa maneira em meio ao quebra-cabeça de principados da Europa renascentista, funcionou dessa maneira no Japão (trazendo a modernização com a restauração Meiji), na China, há muito difamada por seu ‘confucionismo estagnante’, agora grande mamãe das economias tigresas, na Índia, finalmente vituperada psicologicamente a sair de sua absurda ‘taxa de crescimento hindu’ pelo modelo chinês, e em todos os outros lugares que jamais escalaram para fora da preguiça complacente até a via expressa do desenvolvimento. Já não é sem tempo de começar a acontecer no Ocidente, porque o que tem acontecido lá — pela maior parte de um século agora — simplesmente não está funcionando, e esta falha social crônica não está nem perto de clara, dolorosa ou embaraçosa o suficiente para as populações envolvidas.

Nada seria melhor para o Ocidente do que ter seu nariz esfregado em sua própria decadência, quanto mais abusiva e intensamente melhor. A fim de acelerar o processo, todo o baú do tesouro da condescendência colonial deveria ser reaberto e vasculhado, na busca pelo que quer que melhor agrave, provoque e catalize uma transformação, talvez com fortes insinuações de inferioridade racial e cultural jogadas no meio para temperar. A lição da história é que a espécie humana está confortável com a inércia e geralmente mais do que contente em gradualmente se degenerar. Uma das poucas coisas que jamais faz as pessoas pararem e se virarem é o desprezo transparente que escorre de outras sociedades mais dinâmicas. Se a Expo precisa de uma ‘dimensão social’, essa é ela.

Sem dúvidas, 2010 ainda é muito recente para uma história alternativa ou contra-factual, para um gênero Expo-punk (ou X-punk), que procurasse tudo que poderia ter sido reanimado através do evento — mas a empreitada é irresistível. Chame-a de Asia Unleashed 2010, uma afirmação absolutamente indelicada das novas realidades sócio-geográfica que expressa, em um estilo cru e esmagador, a verdade central da era: a simultânea des-ocidentalização e o radical revigoramento da modernidade.

A Asia Unleashed poderia ter emprestado bastante da real Expo 2010, adotando quase tudo que foi criado pela anfitriã, na verdade, e muito mais além disso. O Pavilhão da China, os Pavilhões Temáticos, a Área de Melhores Práticas Urbanas, o Centro Cultural da Expo, o Centro da Expo, o Boulevard da Expo, o Museu da Expo, e as paisagens do local, assim como o Pavilhão de Transportes, o Pavilhão da GM/SAIC e sua exibição, o Pavilhão das Telecoms, o Pavilhão do Petróleo, o Pavilhão Corporativo de Shanghai com todas as suas coisas, o Pavilhão da Coca-Cola, muitos dos projetos dos pavilhões internacionais e mesmo algumas das exibições internas… todas coisas a serem mantidas. O alvo das gargalhadas são os vídeos sentimentaloides de relações públicas, os atos de perdão, perdão, perdão de verdade mesmo com música e dança, a performance de éramos terríveis, o Pavilhão Kumbaiá, o Pavilhão da Hiperssensibilidade Ambiental, o Pavilhão dos Agravos Vitimológicos, o Pavilhão Além do Crescimento, o Pavilhão do Tem Que Haver Um Meio Mais Gentil, qualquer pavilhão nacional ou corporativo sem objetos de exposição (cerca de metade), quase tudo que carregava a marca dos conselhos de turismo, pós-graduandos em estudos de mídia ou serviços diplomáticos, e todas as utilizações de painéis solares que não estivessem estritamente adaptadas à exploração comercial em escala massiva. Além disso, qualquer pavilhão nacional embasado inteiramente em kitsch étnico seria agrupado com outros de seu tipo em uma área de turismo exótico, porque está admitindo uma completa ausência de capacidade criativa e precisa ser zombado. Sem robôs, sem plataforma: essa é a regra.

A Asia Unleashed precisa trazer várias coisas, sobretudo máquinas, A Expo é toda sobre máquinas, muito embora todas as Expos do último meio século tenham sido lamentavelmente deficientes nesse aspecto. Dificilmente se precisa mencionar que todo o local da Expo deveria estar pulsando, formigando e se contorcendo com robôs de todos os tipos e escalas, desde gigantes industriais, submarinos automatizados e veículos espaciais, passando por androides carismáticos, até aparelhos domésticos, jogadores de Go, robô-pets e mecanismos insectiformes. Para dar um empurrão no processo, os países e corporações com as exibições mais preguiçosas de robôs podem ser publicamente ridicularizados no sistema de som.

A Expo é uma exposição, e sua enfermidade histórica é perfeitamente traçada pela degeneração dessa concepção elementar em RP. Organizadores em todos os níveis, do pináculo da burocracia internacional da Expo (BIE) para baixo, claramente precisam ser forçosamente lembrados da diferença. Por exemplo, tecnologias de vídeo são um objeto inteiramente apropriado para exibição na Expo, e os próprios vídeos podem, bastante apropriadamente, desempenhar um papel informativo de apoio. Centrar uma ‘exposição’ em vídeos, contudo, especialmente quando eles foram reunidos, usando técnicas de publicidade avançadas, com o único propósito de vender uma marca nacional ou corporativa através de associações e giros de imagens, é uma completa abnegação de responsabilidade e deveria ser banida de forma direta, ou pelo menos boicotada, ridicularizada e tornada inefetiva através de um desprezo inundante. O único centro aceitável de uma exibição da Expo é um objeto, de preferência espantoso, trazido da borda exterior da capacidade industrial, a fim de representar de maneira concreta a trajetória do progresso material. Exibir tais objetos – e, assim, respeitar a audiência o suficiente para avaliá-los por si mesma – é a função básica e não-negociável da Expo enquanto instituição. Se ela não pode mais aceitar essa tarefa, ela deveria ser exterminada (por um robô gigante, se possível).

A Asia Unleashed é dedicada às últimas e iminentes fases da civilização industrial global, o que deveria estar mais ou menos implícito no fato de que é uma Expo Mundial, embora infelizmente não esteja. Existe bastante espaço para obras de arte e outras criações culturais singulares, mas a ênfase é claramente modernista. A tecnologia verde entra porque é tecnologia, e a indústria do turismo entra porque é uma indústria, mas em ambos os casos os mestres-das-voltas foram duramente refreados, e a questão preliminar insistentemente levantada: “O que, de verdade, você está exibindo aqui?”. Os únicos organizadores que conseguem evitar tais interrogações de suspeita são os que supervisionam a construção de alguma estrutura fabulosa que parece vinda de algum cenário de filme de ficção científica, ou os que estão descarregando montagens parcialmente animadas de metal reluzente de pilhas montanhosas de containers de transporte, porque – claramente – eles entendem do que a Expo se trata. A estação de ancoragem do ciclópico elevador espacial que toma forma na Zona de Exploração de Recursos Espaciais serve como modelo para o espírito orientador do festival. O maquinário no pavilhão de impressão 3D imprimiu o pavilhão.

A indústria de mineração emprega caminhões monstruosos que pesam 203 toneladas, com capacidade para carregar 360 toneladas, eles custam US$3 milhões cada um, suas rodas têm quatro metros de diâmetro e dirigir um é como “dirigir uma casa” – por que cargas d’água a Expo 2010 não tinha um? A Asia Unleashed muito certamente teria. Para países desenvolvidos com recursos para fazer um espetáculo na Expo, precisa haver algo como um preço de admissão, e um fragmento impressionante de maquinário industrial se encaixa perfeitamente. As areias betuminosas canadenses estão sendo atravessadas por esses caminhões monstruosos, e o pavilhão nacional do Canadá deveria ter sido fortemente aconselhado a trazer um para cá. Em vez disso, eles trouxeram… (levante a mão se alguém lembrar).

Toda a imaginação que foi desperdiçada ao longo de décadas de especulações utópicas de como “um outro mundo é possível” tem sido bem mais produtivamente empregada na Asia Unleashed, contrabalançando a tendência das capacidades industriais avançadas de fugir da arena do espetáculo. As realizações monumentais e as consequências de tecnologias intensamente miniaturizadas e amolecidas exigem exposição, desde a fabricação de chips de silicone, o sequenciamento genético e a nanotecnologia rudimentar, até cripto-sistemas, redes sociais, micro-finanças digitais e arquiteturas virtuais, mesmo ao passo em que elas escorregam, por sua própria lógica inexorável, à invisibilidade. Apresentar essas fronteiras da capacidade industrial de maneira rápida, dramática e memorável para a audiência altamente diversa e transiente da Expo exige a aplicação de uma inteligência criativa em escala massiva. Os crescentes desafios dessa tarefa são dignos dos emergentes talentos aumentados por computador que são exercidos sobre ela.

A Asia Unleashed nunca aconteceu, claro, parcialmente porque o aparato institucional internacional da Expo está preso na tirolesa da morte Ocidental, mas principalmente porque teria sido indelicado. Em última análise, o politicamente correto multicultural pós-modernista – a ideologia globalista hegemônica de hoje – é uma etiqueta elaborada, projetada para impedir a identificação e o diagnóstico ‘insensível’ da falha e evadir indefinidamente a franca afirmação: “O que você está fazendo não funciona”. Nenhuma Expo que se mantivesse verdadeira às suas profundas tradições institucionais poderia evitar que tal afirmação surgisse, implicitamente, através do contraste. Consequentemente, a Expo foi condenada a morrer, por forças inerciais profundas demais para que a Expo 2010 impedisse totalmente, muito menos revertesse: Melhor degenerado do que rude.

Dos destroços da instituição da Expo, contudo, a Expo 2010 foi capaz de extrair, polir e ressuscitar um tópico modernista crucial: a cidade enquanto motor do progresso. Mais sobre isso na Parte 3.

Original.