Domínio Calêndrico (Parte 6)

Contagem Regressiva

No começo do século XXI, a hegemonia cultural global está em movimento. Por cerca de 500 anos, as sociedades e agências ocidentais — e, mais tarde, mais especificamente as anglófonas — guiaram de maneira predominante o desenvolvimento do atual sistema mundial. Conforme sua preeminência econômica míngua, pode-se esperar que sua influência cultural e política sofra um declínio comparável. Nos estágios iniciais da transição por vir, contudo, a forma terminal da hegemonia cultural ocidental – o politicamente correto multicultural (PCM) – está bem posicionada para gerir os termos do recuo. Ao reconfigurar os temas religiosos e políticos ocidentais básicos enquanto uma sensibilização ao privilégio imerecido, o PCM é capaz de se distanciar de sua própria herança e continuar a viver, no ressentimento do ‘outro’, como se fosse o juiz neutro de disputas nas quais não tem nenhuma parte.

Quando o PCM volta sua atenção ao calendário gregoriano (ou cristão ocidental), ele fica chocado, é claro. Mas também está preso. O que poderia ser mais insensível à diversidade cultural do que um sistema ecumênico de contagem da data, enraizado nas peculiaridades étnicas da religião abraâmica em sua fase grega, que celebra seu triunfo, sem pedir desculpas, nas intransigentes palavras Anno Domini? E, no entanto, a convergência global exige um padrão, nenhum calendário alternativo tem reivindicações superiores de neutralidade e, em todo caso, o rolo compressor inercial dos sistemas complexos em larga escala – ‘aprisionamento’ ou ‘dependência de caminho’ – apresenta barreiras para a mudança que parecem efetivamente insuperáveis. A solução proposta pelo PCM para esse dilema é tão fraca que equivale à conclusão do Domínio Calêndrico gregoriano, que deve ser simultaneamente reformulado (educadamente) e reconhecido em sua universalidade irresistível como a articulação de uma ‘Era Comum’.

O PCM suplanta problemas de poder cultural com uma etiqueta ofuscante e, em termos absolutos, sua desonestidade presunçosa é difícil de gostar. Enquanto fenômeno relativo, contudo, seu apelo é mais óbvio, uma vez que as ‘soluções’ radicais para o Domínio Calêndrico gregoriano, recomeçando no Ano Zero, em geral se reverteram em assassinato em massa. Carecendo de reivindicações persuasivas de uma quebra histórica nova, fundamental e universalmente reconhecida, elas substituíram por terror uma verdadeira singularidade global, como se o destino pudesse ser apagado com sangue.

Uma vez que o ressentimento não chega a lugar nenhum, seja em suas variantes branda (PCM) ou severa (campos de execução), vale a pena entreter possibilidades alternativas. Estas começam com uma atenção às reais diferenças culturais, ao invés da mera ‘diversidade cultural’ conforme ela se apresenta à mente vazia processada pelo PCM. Logo após Shanghai ter sido selecionada como cidade hóspede da Expo Mundial 2010 (em dezembro de 2002), as contagens regressivas começaram. Para os ocidentais, elas provavelmente tinham associações com a era espacial, despertando memórias das contagens regressivas para a ‘decolagem’ que foram popularizadas pelo Programa Apolo e pelas mídias de ficção científica subsequentes. Está longe de ser impossível que os chineses compartilhassem dessas evocações, embora eles também fossem capazes de acessar um reservatório de referência muito mais profundo – o que seria dizer civilizacionalmente fundamental. Isso é porque o tempo chinês tipicamente conta regressivamente, modelado como é no funcionamento de relógios d’água. A língua chinesa sistematicamente descreve antes como ‘acima’ (shang) e próximo como ‘abaixo’ (xia), conformando-se a uma intuição do tempo enquanto descida. O tempo é contado regressivamente conforme corre para fora, de um corpo hidráulico elevado para dentro do futuro afundado que o recebe.

A duração não apenas flui, ela pinga. Talvez, então, uma ‘orientalização’ da percepção e da organização calêndrica seja algo que excede significativamente uma simples (ou mesmo extremamente difícil) renegociação de começos. Recomeçar poderia ser considerado largamente irrelevante para o problema, pelo menos quando comparado à reorientação de um Ano Zero original para um terminal. Embora não seja exatamente uma transição na direção do tempo, tal mudança envolveria uma transição na direção da intuição do tempo, simultaneamente ultrapassando as mais selvagens ambições de re-originação calêndrica e sutilmente se organizando ‘dentro dos poros’ da ordem temporal estabelecida. Conforme modelada pela Expo 2010 e, antes, pelo Y2K, a mudança para o tempo regressivo não desafia frontalmente, tampouco busca substituir diretamente a ordem calêndrica no ser. Em vez de contar da mesma maneira, a partir de um lugar diferente, ela conta de uma maneira diferente, dentro do enquadramento temporal já existente. É uma revolução com ‘características chineses’, o que seria dizer: uma insurgência furtiva, que muda o que algo já era, em vez de substituí-lo por alguma outra coisa.

Tanto a Expo 2010 quanto o Y2K também revelam a extrema dificuldade de qualquer transição dessas, uma vez que um Ano Zero futural, um calendário regressivo, tem que navegar a seta do tempo e sua assimetria cognitiva (entre o conhecimento do passado e do futuro), pressupondo uma previsão exata, confiante e consensual.

É por isso que ela se aproxima tanto de uma aceitação conservadora. Se a contagem regressiva tem que estar certa de chegar no término agendado, o ‘evento’ de destino deve já ser uma data (em vez de um ‘acontecimento’ empírico). Nada será suficiente além de uma inevitabilidade aritmética e rigorosamente certa, tão inescapavelmente predestinada quanto o ano 2000, ou 2010, que não podem deixar de chegar. Da perspectiva do calendário regressivo, é para isso que o Domínio Calêndrico (gregoriano) terá servido. É uma oportunidade para se programar uma chegada inevitável.

Mas quando? A pura passagem (queda) do tempo garantiu que a oportunidade para a revolução calêndrica apresentada pelo ‘bug do milênio’ no Y2K tenha sido irrecuperavelmente perdida (de modo que 1900 AD ≠ 0). O mesmo é verdadeiro sobre a Expo Mundial de 2010, um evento sem a pretensão de ser qualquer coisa além de um modelo ‘prático’ em miniatura da singularidade global-temporal. Quanto à verdadeira Singularidade (tecno-comercial) – esta é uma previsão histórica imprecisa, de uma só vez controversa e incapaz de suportar uma previsão exata.

Um prospecto mais apropriado é sugerido pelo escrito de ficção científica Greg Bear, em seu romance Queen of Angels, situado na expectativa do ‘milênio binário’ (2048 = 2¹¹) no meio do século XXI. Este é um ‘evento’ formalmente apropriado, puramente calêndrico, que deriva sua significância da aritmética, em vez da ideologia ou de uma profecia incerta. Ele até mesmo o vislumbra como um momento de revolução insurgente, quando a inteligência artificial surge furtivamente e sem ser notada. Ainda assim, a arbitrariedade prejudica essa data (por quê a 11ª potência de 2?) e nenhuma tentativa séria é feita para se explicar sua elevação à uma preeminência cultural excepcional.

Se uma cultura global ajustada convergir em uma data de contagem regressiva, ela deve ser óbvia, intrinsecamente persuasiva e ideologicamente incontroversa, em outras palavras, espontaneamente plausível. O alvo que a Expo Mundial de 2010 sugere (anagramaticamente) é 2100 AD, uma data que desempenha os estágios finais de uma contagem regressiva (2, 1, 0…). Reforçando esta indicação, o ‘bug do milênio’ do Y2K ameaçava redefinir a data de 2000 AD para 1900 AD, o que teria tacitamente se reiterado no fim exato do século XXI. Se ele continuar a tagarelar sobre o calendário, talvez seja assim a maneira.

O iminente Apocalipse Maia, agendado para 21 / 12/ 2012, ofereceu uma chance preliminar para se saciar de um festival de números de contagem regressiva – assim como 2010, ele se parece muito como mais uma simulação da singularidade digital. Se a manhã de 22 de dezembro de 2012 não deixou para o mundo nada pior do que uma ressaca, ele pode gradualmente se resolver por um novo sentido dos Anos Restantes (no fim de todo o tempo que conta, ou o século XXI).

2100 AD = 0 AR

2099 AD = 1 AR

2098 AD = 2 AR

2096 AD = 4 AR

2092 AD = 8 AR

2084 AD = 16 AR

2068 AD = 32 AR

2036 AD = 64 AR

1972 AD = 128 AR

1844 AD = 256 AR

1588 AD = 512 AR

1076 AD = 1024 AR

52 AD = 2048 AR

É difícil antecipar com o que isso se parece do outro lado.

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 4)

Uma Digressão ao Princípio de Realidade

Entre o mundo que gostaríamos de habitar e o mundo que existe, há uma lacuna que nos testa. Mesmo a descrição mais simples dessa lacuna já clama por uma decisão. ‘Ideologias’, no sentido mais amplo e quase culturalmente esgotante, servem primariamente para amenizá-la. Sentido e mesmo compaixão são atribuídos ao lado da realidade, prometendo uma reconciliação última entre esperanças e desejos humanos e a natureza ‘objetiva’ das coisas. A ciência, uma disciplina tipicamente desprezada e misantrópica, tende à suposição oposta, enfatizando a severa indiferença da realidade para com os interesses e expectativas humanas, com a implicações de que as lições que ela nos ensina podem ser administradas com uma brutalidade ilimitada. Podemos nos arremessar contra a realidade, se insistirmos, mas não podemos antecipar de maneira realista alguma moderação misericordiosa das consequências. A natureza não repreende ou pune, ela meramente nos quebra, friamente, sobre a cremalheira de nossas inverdades.

Como outras instituições culturais, os calendários estão saturados de ideologias e são testados até a destruição contra uma realidade implacável. A suas colisões com a natureza são especialmente informativas, porque expressam desejos humanos obstinados como números favorecidos (selecionados entre inteiros positivos pequenos) e registram o golfo do real de uma forma estritamente quantitativa. Qualquer calendário sobrevivente relata a estória de uma adaptação à realidade, ou a deferência cultural à natureza (e sua deformação por ela), conforme preferências numéricas foram comprometidas através de seu encontro com fatos quantitativos.

A pura ideologia na esfera calêndrica é representada em sua perfeição pelo ano fantasioso dos antigos mesopotâmios, com 360 dias de duração e harmonizado com a aritmética sexagesimal (módulo 60) dos sumérios. Sua influência persistiu nos 360 graus do círculo geométrico e na relacionada divisão sexagesimal em minutos e segundos (de tempo e arco). Os arcaicos calendários da Meso-América e do leste asiático, assim como aqueles do Oriente Médio, parecem ter sido atraídos pelo ano de 360 dias como se por um modelo ideal. Se o Grande Arquiteto do Universo tivesse sido um geômetra antropomórfico, esse seria o calendário que funcionaria.

Claro, ele não funciona (com todo o devido respeito ao cativante contra-argumento bíblico esboçado aqui). Em vez disso, na principal tradição calêndrica mundial – conforme determinado pelo eventual resultado global – um primeiro nível de adaptação sistematizou o ano em 365 dias – o ano egípcio. Ao contrário do ano arquetípico de 360 dias, que tem todos os três primeiros primos como fatores e, assim, se divide convenientemente em ‘meses’ ou outros períodos componentes, o ano de 365 dias representa uma relutante concessão ao fato quantitativo. O número 365 tem apenas dois fatores (ambos primos, 5 e 73), mas nenhum parece ter adquirido qualquer valência calêndrica discernível, talvez por conta de sua óbvia inadequação a uma descrição sequer aproximada dos períodos lunares. Os egípcios se voltaram, em vez disso, a uma estranha, mas influente, inovação: a intercalação. Um apêndice de cinco dias foi adicionado ao ano, como uma pura correção ou comensuração suplementar e um lembrete anual da lacuna entre a elegância numérica e a realidade astronômica. Embora as intercalações tivessem sido investidas com significância mítico-religiosa, isso era essencialmente compensatório – um testamento cruamente obscurecido à fraqueza da idealidade (e, assim, do sacerdócio sistemático como um modo de apreensão da realidade, ou propósito social eficiente). Se as intercalações eram necessárias, então a natureza não estava enfeitiçada e os sacerdotes-mestres do tempo calêndrico tinham sido expostos, tacitamente, como fornecedores de mistificações, cujos limites eram traçados pelo horizonte de credulidade social. O tempo astronômico zombava dos significados dos homens.

Ao longo do tempo, o ano real (‘tropical’) desacredita suas idealizações calêndricas ao desamarrar as datas das estações, em um processo de deriva temporal que expõe a discrepância e impele a reforma do calendário. Calendários imprecisos são gradualmente desprovidos de sentido, conforme as associações sazonais de seus termos temporais são erodidas até a aleatoriedade absoluta – por meses ‘de verão’ congelantes e meses ‘de inverno’ escaldantes. Claramente, nenhum sacerdócio pode sobreviver em um clima que ridiculariza a ordem estabelecida do ano e no qual os fazendeiros que ouvem as palavras sagradas (do tempo) asseguram uma fome inevitável. A menos que seja rastreado, dentro de uma margem tolerável, por um calendário que ‘mantenha’ o tempo, o ano se reverte a um a coisa alienígena e ininteligível, inteiramente exterior à compreensão cultural, enquanto os símbolos dominantes da sociedade aparecem como balbuciações risíveis e sem sentido, abafadas pelo caos uivante do real.

Com a introdução do calendário juliano, que coincidiu com o (não evento do) ano zero, vem o reconhecimento de que o ano tropical é incomensurável com qualquer inteiro e que um ciclo mais amplo de intercalação é necessário para rastreá-lo. Um tipo de modernidade, ou desmistificação estrutural, nasce com a renúncia do ano ideal e de tudo que simboliza em termos de desígnio cósmico ou harmonia celestial. O apêndice do demônio está apenso, irremediavelmente.

A numeracia e a medição do tempo se divorciam na origem do Domínio Calêndrico cesário, mas é fácil confundir os acidentes neste caminho com concessões essenciais à realidade. Mesmo que se admita a função inescapável das intercalações, não havia nada inevitável – pelo menos absoluta ou cosmicamente inevitável – sobre a ruína total da coerência numérica que o calendário juliano encarnou e passou adiante.

Para explorar mais esse tópico (admitidamente arcano), é necessária uma digressão à segunda potência, às relações entre números e desejo antropomórfico. O ponto de partida óbvio é o calendário de 360 dias da antiga Suméria, e a questão: O que tornou esse número atraente? Seja ao examinar o 360 ou sua raiz sexagesimal (60), uma atenção aritmeticamente convencional aos fatores primos (2, 3 e 5) é, inicialmente, enganadora – embora, em última análise, seja indispensável. Uma introdução mais iluminadora começa com os fatores compostos 10 e 12, o último relevante primariamente para o ciclo lunar (e o sonho arcaico de um ano de 12 meses astronomicamente – ou, melhor, astrologicamente – consistente) e o primeiro refletindo o antropomorfismo primordial em questões numéricas: o decimalismo. O calendário de 360 dias é um objeto do desejo humano porque é um híbrido antropo-lunar (ou menstrual-licantrópico?), que fala intrinsecamente com os ciclos da fertilidade humana e com os padrões ‘digitais’ instanciados nos planos corporais mamíferos. Um ano de 360 dias seria nosso (mesmo se coisas alienígenas estivessem escondidas nele).

O decimalismo antropomórfico sugere como certas oportunidades numéricas ficaram faltando, junto como zero. ‘Apreensão’ e ‘compreensão’ referem o entendimento aos órgãos preênseis de um organismo específico, cuja simetria bilateral combina mãos com cinco dedos para produzir uma conta que chega a dez, através de um intervalo que pertence a um terceiro, alienígena e intratável. Seres triádicos são monstros e decimalmente incompreensíveis. A estrutura bino-decimal do Yi Jing exibe isto com total clareza, através de seu ciclo temporal com seis estágios que conta na sequência recorrente 1, 2, 4, 8, 7, 5… Cada potência de três (dentro dos numerais decimais) é expelida, junto com o zero, para fora da ordem do tempo apreensível. Não há nenhuma maneira em que uma numeracia calêndrica ternária jamais pudesse ter sido antropomorficamente aceitável – o próprio pensamento é (quase por definição) abominável.

Ainda assim, a astronomia parece ser horrivelmente cúmplice da abominação, pelo menos se os anos forem geminados. A sexta potência de três (3^6) se aproxima da duração de dois anos tropicais com uma discrepância de apenas ~1.48438 dias, ou menos de um dia por ano. Uma intercalação de três dias a cada quatro anos (ou dois ciclos de anos-gêmeos) o traz à precisão do calendário juliano, e uma redução desta intercalação em um dia a cada 128 anos (ou 64 (2^6) ciclos de anos-gêmeos) excede a precisão do calendário gregoriano.

Poderia ser necessário ser ligeiramente desequilibrado para apreciar plenamente essa extraordinária conjunção de elegância numérica e fato astronômico. Um sistema de computação calêndrica que conte apenas em dois e três e que mantenha uma ordem perfeitamente triádica da divisão temporal até à duração de um período de dois anos, é capaz de, bem facilmente, exceder a performance do calendário internacional dominante (chegando a um nível de precisão que desaparece na instabilidade inerente do ano tropical e, assim, estritamente falando, é inaperfeiçoável).

Quantos dias existem em um ano? ((3 x 3 x 3 x 3 x 3 x 3) / 2) + ~0.74219

O horror, o horror…

Original.

Domínio Calêndrico (Parte 3)

Em Busca do Ano Zero

Um Ano Zero significa um recomeço radical que faz reivindicações universais. Nos tempos modernos, especialmente nos tempos modernos recentes, ele está associado sobretudo com visões ultra-modernistas de política total, em seu ponto máximo de extremidade utópica e apocalíptica. A ordem existente do mundo é reduzida a nada, a partir do qual uma nova história é iniciada, fundamentalmente desconexa de qualquer coisa que tenha ocorrido antes e moralmente obrigada apenas a si mesma. Previsivelmente o bastante, entre comentaristas conservadores (no sentido mais amplo), tais visões são largamente indistinguíveis das paisagens com cadáveres espalhados de uma catástrofe social assombrada pelos fantasmas de sonhos irrealizáveis.

O Domínio Calêndrico global do cristianismo é paradoxal – talvez até mesmo ‘dialético’ – neste aspecto. Ele fornece o modelo governante de ruptura histórica e extensão ecumênica ilimitada e, desta forma, de revolução total, enquanto ao mesmo tempo representa a ordem conservadora antagonizada pela ambição modernista. Seu exemplo incita a guinada ao Ano Zero, mesmo ao passo em que não possui nenhum ano zero próprio. Em última análise, sua provocação dialética tende em direção à tentação satânica: a promessa do Apocalipse Anti-Cristão, ou novidades absolutas a uma segunda potência. (“Se os cristão conseguiram fazê-lo, por quê não conseguiríamos?” Uma deixa para contagens de corpos que se escalam em direção ao infinito.)

A tensão existe não apenas entre uma ordem cristã estabelecida e sua pós-imagem pseudo-secular revolucionária, mas também dentro do próprio cristianismo, que se divide internamente pela unidade aparente e real dissociação do ‘tempo messiânico’. O processo de consolidação calêndrica cristã foi imensamente prolongado. Uma distância de mais do que meio milênio separou a formulação clara da contagem dos anos a partir do momento comemorado, com ainda mais séculos necessários para se integrar completamente o registro histórico com esta base, digerindo os registros anteriores judeus, romanos e locais e estabelecendo as bases para uma articulação cristã universalizada do tempo. Quando as ‘boas novas’ revolucionárias haviam sido formalizadas de maneira coerente em um protótipo reconhecível do calendário ocidental hegemônico, elas haviam sofrido uma longa transição de quebra histórica para tradição estabelecida, com impecáveis credenciais conservadoras.

Simultaneamente, contudo, o processo de consolidação calêndrica sustentou, e até mesmo afiou, a expectativa messiânica de uma ruptura pontual e verdadeiramente contemporânea, projetada adiante como a duplicação ou ‘segunda vinda’ da divisão inicial. Mesmo que o momento no qual a história havia sido fendida em duas partes – antes e depois, AC e AD – agora estivesse em uma antiguidade bastante distante, seu exemplo permanecia urgente e promissor. A esperança messiânica foi, assim, rasgada e compactada por uma intrínseca duplicação histórica, que a esticou entre um começo vastamente retrospectivo e gradualmente reconhecido e um prospecto de repentina conclusão, cuja credibilidade era assegurada por seu status enquanto repetição. O que tivera sido seria novamente, transformando a contagem dos AD em uma sequência completa que era confirmada da mesma maneira em que era exterminada (através da intervenção messiânica).

Sem surpresas, a história substancial do establishment calêndrico ocidental é geminada com a ascensão do milenarianismo, através de fases que tendem cada vez mais a formas social-revolucionárias e, eventualmente, abrem caminho para variedades auto-conscientemente anti-religiosas, mas decididamente escatológicas, de política total modernista. Já que o que quer que tenha acontecido tem que – pelo menos – ser possível, a própria existência do calendário apoia antecipações de ruptura história absoluta. Sua conta, simplesmente por começar, prefigura um fim. O que começa pode recomeçar, ou acabar.

O zero, contudo, se introduz diagonalmente. Ele até mesmo introduz um aspecto cômico, uma vez que qualquer que seja a importância da revelação cristã para a salvação de nossas almas, é descaradamente óbvio que ela falhou em entregar uma notação aritmética satisfatória. Para isso, a Europa cristã teve que esperar a chegada dos numerais decimais da Índia, através do Oriente Médio muçulmano, e a subsequente revolução do cálculo e da contabilidade que coincidiu com a Renascença, junto com o nascimento do capitalismo mercantil nas cidades-estado do norte da Itália.

De fato, para qualquer um que busque um calendário verdadeiramente moderno, a Chegada do Zero marcaria uma excelente ocasião para um novo ano zero (0 AZ?), por volta de 1500 AD. Embora tal coisa plausivelmente datasse a origem da modernidade, a imprecisão histórica do evento conta contra ela, contudo. Além disso, a assimilação do zero por um capitalismo germinal europeu (e, assim, global) foi evidentemente gradual – mesmo que comparativamente rápida – em vez de uma transição ‘revolucionária’ pontual do tipo ao qual o zero calêndrico comemorativo é otimamente apropriado. (Se o Ano Zero é, desta forma, barrado da designação de sua própria operacionalização histórico-mundial, talvez ele esteja estruturalmente fadado à má aplicação e à produção de desilusão.)

A conspícua ausência do zero d(a conta d)o calendário ocidental, exposta em seu solavanco abrupto de 1 AC para 1 AD, é um estigma intolerável e irreparável que leva sua ironia mundial a um zênite. Na própria operação de integrar a história mundial, em preparação para a modernidade planetária, ele observa sua própria antiguidade e particularidade debilitantes, no sentido moderno mais condescendente do limitado e do primitivo – cru, defeituoso e subdesenvolvido.

Como um momento de incompetência calculista auto-evidente poderia fornecer um ponto de origem convincente para o cálculo histórico subsequente? O Ano Zero escapou de toda possibilidade de apreensão conceitual no momento da contagem do tempo ao qual agora ele é visto pertencer, e o infinito (o recíproco do zero) se prova não menos elusivo. O infinito foi inserido em um tempo quando (e um local onde) ele demonstravelmente não fazia nenhum sentido, e a extraordinária impressão histórico-mundial que ele fez não fez nada – nem mesmo nada – para mudar essa situação. Esse não é um enigma digno para os teólogos? Onipotente, onisciente, onibenevolente e, no entanto, sem esperanças na matemática – essas não são as características de uma revelação projetada para impressionar tecnólogos ou contadores. Tanto mais razão, então, para levar essa comédia a sério, em toda a sua ambivalência – uma vez que o mundo emergente dos tecnólogos e contadores, o mundo tecno-comercial (industrial desembestado, ou capitalista) que globalizaria a terra, foi desmamado dentro do cercadinho deste calendário, e de nenhum outro. A modernidade selecionara para datar a si mesma de uma maneira que seus próprios alunos do jardim de infância desdenhariam.

Reino do Tripé

A ascensão da China e o futuro da trêstandade

De acordo com Arvind Subramanian, até mesmo projeções conservadoras das tendências comparativas de crescimento colocam a China em uma posição global, por volta de 2030, que é surpreendentemente similar àquela da Grã-Bretanha e da América em seus respectivos momentos de predominância econômica, sendo responsável por uma parcela da economia mundial de cerca de 150% do tamanho de seu rival mais próximo. Se isso viesse a acontecer, tal liderança invocaria uma ‘hegemonia’ como questão de puro fato quantitativo – bastante independentemente de intenções explícitas. O ‘modelo chinês’ promoveria a si mesmo, mesmo na completa ausência de reforço político e diplomático, e o poder magnético da cultura chinesa continuaria a se fortalecer em proporção aproximada à sua influência comercial. A China se tornaria o objeto de uma atração irresistível – contrabalanceada, sem dúvida, por ressentimentos – e seu exemplo queimaria incandescente, mesmo nos olhos ofendidos de seus detratores. Então, qual é esse ‘exemplo’?

Ao explorar essa questão, um lugar para se começar é a história da hegemonia econômica e, em particular, aquela instanciada pelas potências anglo-americanas ao longo de seus dois ‘longos séculos’ de supremacia global. Este é um tópico perseguido com excepcional discernimento por Walter Russell Mead, mais notavelmente em sua obra God and Gold: Britain, America, and the Making of the Modern World.

Mead localiza a chave da hegemonia da ‘anglosfera’ no ‘meme dourado’ da mão invisível, que se origina na ideia religiosa da providência e foi modernizado na mecânica celestial newtoniana, na economia política smithiana e na biologia evolutiva darwiniana. Em sua forma mais abstrata, essa ideia é tanto uma afirmação quanto uma renúncia, com sua potência e maleabilidade derivando de ambas. Reconhecer a mão invisível é fomentar um tipo especial de fatalismo positivo, confiando na tendência espontânea da história, que é abraçada como um pacto e uma eleição (no sentido teológico) explícita ou implícita. Tais temas são, sem disfarces, religiosos, e Mead não faz nada para obscurecer suas raízes na tradição, ou meta-tradição, abraâmica, que estabelece uma visão providencial da histórica enquanto finita, progressiva e inevitável, tendendo inexoravelmente à conclusão escatológica, estruturada por uma lei sobre-humana e (através de sua predestinação divina) facilitando a função da profecia.

A cultura profunda da anglosfera não é apenas genericamente abraâmica, contudo, ela é também especificamente pluralista. A mão invisível toma o centro do palco porque o centro é, de outra forma, desocupado ou distribuído. A providência esotérica suplanta a soberania exotérica porque uma incapacidade de se chegar a um acordo é eventualmente institucionalizada – ou pelo menos estabilizada de maneira informal – em um equilíbrio triangular de poder.

O que os britânicos fizeram, em última análise, foi confiar no que Burke chamou de “convenção”. Escritura, tradição e razão – cada uma tinha seu lugar e cada uma tinha seus devotos. Mas todas elas devam errado se você as pressionasse demais. Você deveria respeitar as escrituras e se submeter a elas, mas não interpretar as escrituras de uma maneira que lhe levasse a algum secto milenar esquisito ou até um comportamento social absurdo. Você honrava a tradição, mas não a pressionava tanto que lhe levasse aos braços do absolutismo real ou ao poder papal. Você pode e deve empregar a crítica da razão contra os excessos tanto da escritura quanto da tradição, mas não pressionar a razão ao ponto onde você se queixasse de todas as instituições existentes, comesse raízes e latisse por sua saúde ou, pior, minasse os direitos de propriedade e a igreja estabelecida. Pode-se imaginar John Bull coçando sua cabeça e lentamente concluindo que se deve aceitar que, na sociedade, haverão loucos da bíblia, loucos da tradição e loucos da razão – fundamentalistas, papistas e radicais. Isso não é necessariamente o fim do mundo. Em algum grau, eles se cancelam uns aos outros – os fanáticos fundamentalistas reprimirão os papistas e vice-versa, e os religiosos manterão os radicais em seu lugar – mas a concorrência entre sectos também impedirá que a igreja estabelecida pressione sua vantagem longe demais e que ela forme uma ideia por demais exaltada sobre a estatura, prestígio e emolumentos apropriados ao clero. [p. 223]

A hegemonia cultural se segue de uma fatalização semi-deliberada, conforme o centro soberano é deslocado por um processo social substancialmente automatizado que nenhum agente social é capaz de dominar ou impedir inteiramente. Cada facção principal recua para sua posição no triângulo, a partir da qual ela pode se engajar estrategicamente com as outras, mas nunca dominá-las completamente ou erradicá-las. O triângulo como um todo constitui um motor social e histórico, sem representação adequada em qualquer ponto identificável.

O pluralismo, mesmo ao custo da consistência racional, é necessário em um mundo de mudança. Forças e valores compensatórios devem competir. Razão, escritura, tradição: todas elas tem seus usos, mas nenhuma delas, sem controle, irá longe demais. Além disso, sem disputas constantes, controvérsia constante, concorrência constante entre ideias rivais sobre qual aparência a sociedade deveria ter e o que ela deveria fazer, o passo da inovação e da mudança provavelmente se desaceleraria, conforme as forças da inércia conservadora ficassem presunçosas e incontestas. [p. 212-2]

Este blog já tocou anteriormente na Singlosfera, onde aspectos das culturas anglófona e chinesa convergem na aceitação liberal manchesteriana / taoista da ordem espontânea, ou laissez-faire. Essa convergência se estende ao pluralismo triádico e se aplica ao núcleo sinosférico da China continental? A análise de Mead é altamente sugestiva em ambos os aspectos.

Em primeiro lugar, ela encoraja uma considerável equanimidade em relação à esperada transição global, mesmo quando a atenção se foca no coração político e ideológico da China contemporânea. Poderia parece, superficialmente, que a passagem de uma cultural mundial dominante dominada por atitudes cristãs tácitas para uma em que ideias sino-marxistas pouco familiares se elevam a uma proeminência internacional sem precedentes deve ser caracterizada por uma descontinuidade imensa – mesmo semi-absoluta. Um salto desse pode ocorrer sem se sucumbir a um choque cultural catastrófico e a uma fricção intratável? Quando examinado de uma perspectiva mais ampla, contudo, tal alarmismo é bem menos do que totalmente garantido.

Para melhor ou para pior, a abrangente continuidade cultural da mudança vindoura é garantida pelo profundo parentesco que liga o marxismo à ampla família de sistemas de crença abraâmicos. Teologicamente enraizado no engajamento dialético com a espiritualidade judaico-cristã, iniciado por Hegel e Feuerbach, o quadro básico do pensamento marxista perturba apenas trivialmente a estrutura da histórica profética, escatológica, redentora e providencial. Suas expectativas milenares não são mais aterrorizantes, suas certeza proféticas não mais irracionais, sua submissão às leis de ferro da história não mais restritivas e seu entusiamo moral não mais zeloso ou impraticável do que aquelas dos apocalipticismos judaico ou cristão antes dele.

O espectro de um ressurgimento totalitário marxista na China é tão realista quanto o medo de um golpe teocrático nos Estados Unidos da América, o que seria dizer, não tem qualquer realidade que seja. Em ambos os casos, maturidade, pluralismo e tradições estabelecidas protegem contra o domínio da sociedade por parte de qualquer facção intolerante em particular. É desnecessário ser cristão ou marxista para reconhecer o contínuo ímpeto histórico-mundial de uma meta-narrativa abraâmica ampla, ou para aceitar a consistência de tal narrativização social em larga escala com a regeneração perpétua do ímpeto prático, ou para ver uma solução social estabelecida e espontaneamente improvisada – e encarnação do conservadorismo dinâmico – no duradouro impasse triangular entre as escrituras marxistas, as tradições institucionais do Partido Comunista e o radicalismo de mercado na China de hoje. Assim como com o pluralismo anglosférico de Mead, as limitações recíprocas que cada uma dessa facções impõe às outras inevitavelmente desapontarão muitos, mas não há razão para que elas horrorizem ninguém.

Na medida em que Mead estiver correto em identificar a hegemonia anglosférica com o reino do tripé, ou seja, com a realização sócio-cultural do pluralismo (enquanto estabilidade dinâmica triangular), o potencial disruptivo da liderança chinesa emergente deveria ser considerado massivamente descontado, porque o tripé é um nativo chinês. Todo templo no país está equipado com um queimador de incenso com três pés, toda coleção de bronze em museus é dominada por caldeirões de três pernas, e cada um desses tripés tem um significado cultural definido e explicitamente conceitual. Isso não é apenas embasado na óbvia verdade intuitiva e prática de que o modelo mais simples de estabilidade vêm do tripé, mas também de um reconhecimento de que o impasse triangular exemplifica o dinamismo sustentável em sua forma elementar, desintegrando o universo em possibilidade estratégica.

Para a elaboração literária desse tema, é necessário apenas se voltar ao Romance dos Três Reinos, talvez o mais amplamente lido dos quatro grandes romances clássicos da China. Sua instanciação mais conspícua enquanto entretenimento popular é visto no jogo de pedra, papel e tesoura, que remonta (pelo menos) à dinastia chinesa Han (206A.C. – 220 D.C.), quando era conhecido como shoushiling.

A expressão última da estabilidade dinâmica triangular, não apenas na China, mas mundialmente, sem dúvidas é apresentada pelo Clássico das Mutações, o Yi Jing ou Zhouyi. É sobre esta obra de gênio singular e inumano, no qual a pura aritmética fala mais puramente do que jamais o fez antes ou depois, que todos os bronzes cerimoniais, lutais literárias e jogos infantis da China convergem.

No sistema numérico do Yi Jing, o tripé encontra uma fonte mais básica do que a meta-tradição abraâmica pode fornecer, independente de quão trinitária esta última tenha se tornado. Isto é porque, neste ur-estrato cultural chinês, a unidade não figura como uma unidade original, subsequentemente desintegrada em um triângulo teológico, dialético ou sociopolítico, mas é, ao contrário, derivada. Como o comentário confucionista explica: “O número 3 foi atribuído ao céu, 2 à terra, e desses vieram os (outros) números”. No princípio eram os números – dispersão primordial.

A ‘língua’ do tripé encontra sua expressão mais conveniente no trigrama, cujas três linhas constituem uma unidade elementar. Para se compreender o Yi Jing enquanto modelo aritmético completo de tríade dinâmica, contudo, é necessário proceder imediatamente para a estrutura do hexagrama.

Apreendido em operação, o Yi Jing não é apenas um sistema aritmético binário (como Leibniz o interpretou), mas uma conjunção bino-decimal. Isto é demonstrado pelo fato de que ele sistematicamente recompensa a aplicação da redução digital decimal, e revela seu padrão dinâmico apenas sob estas condições. (Isto poderia, bastante razoavelmente, ser considerado uma sugestão altamente surpreendente, uma vez que a redução digital – conforme surgiu dentro da história do Qabalismo Ocidental – parece ter sido gerada, automaticamente, a partir da interferência dos numerais decimais hindus com os sistemas numéricos alfabéticos mais antigos, ou ‘gematrias’, que vinculavam valores cardinais a letras específicas, sem o uso da notação posicional. É imediatamente óbvio que este relato histórico não pode ser traduzido para um contexto chinês, onde alfabetos não têm qualquer raiz tradicional.)

A redução digital é uma técnica numérica extremamente simples, que não envolve nada além de adições de dígitos únicos e negligencia a magnitude decimal. Um número com múltiplos dígitos é tratado como uma sequência de adições de dígitos únicos, e o processo é reiterado no caso de um resultado com múltiplos dígitos.

Expressar a série das potências binárias em notação decimal produz a sequência familiar 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, 1024, 2048, 4096, 8192… Quando esta série é comprimida a uma sequência de dígitos únicos através da redução, ela prossegue: 1, 2, 4, 8, (1 + 6 =) 7, (3 + 2 =) 5, (6 + 4 =) 1, (1 + 2 + 8 = 11 = 1 + 1 =) 2, (2 + 5 + 6 = 13 = 1 + 3 =) 4, (5 + 1 + 2 =) 8, (1 + 0 + 2 + 4 =) 7, (2 + 0 + 4 + 8 = 14 = 1 + 4 =) 5, e assim repetidamente, através do ciclo de 6 passos 1, 2, 4, 8, 7, 5. Este processo expõem a necessidade aritmética do hexagrama do Yi Jing, enquanto exaustão arquetípica das fases do tempo.

Para se escavar o triádico ou tripódico, é útil se voltar ao clássico (e agora integral) comentário confucionista, as ‘Dez Asas’ (Shi Yi), que explora a estrutura dos trigramas e dos hexagramas de várias maneiras. Estas incluem uma fórmula explícita para se dobrar as seis linhas do hexagrama de volta em uma tríade, ao se combinar as linhas: primeira e quarta; segunda e quinta; terceira e sexta. Estas díades têm uma ordem aritmética consistente, quando calculadas de acordo com os valores bino-decimais reduzidos gerados acima: 1 + 8 = 9; 2 + 7 = 9; 4 + 5 = 9. “O que estas seis linhas demonstram é simplesmente isto, a maneira dos três Poderes”.

A soma até nove regularmente serve como confirmação dentro do Shi Yi. Por exemplo, na seção traduzida por Legge como ‘O Grande Apêndice’:

52. Os número (exigidos) para Khien (ou linha não dividida) equivalem a 216; aqueles para Khwan (ou a linha dividida), a 144. Juntos eles são 360, correspondendo aos dias do ano.
53. O número produzido pelas linhas nas duas partes (do Yî) equivalem a 11.520, correspondendo ao número de todas as coisas.
54. Portanto, por meio das quatro operações, o Yî está completo. São necessárias 18 mutações para se formar um hexagrama.

44 = 1 + 4 + 4 = 9

216 = 2 + 1 + 6 = 9

360 = 3 + 6 + 0 = 9

11,520 = 1 + 1 + 5 + 2 + 0 = 9

18 = 1 + 8 = 9

Há muito mais a dizer sobre a importância do número nove na cultura tradicional chinesa, e além, mas este não é o momento. Por ora, é suficiente notar que o nove, ou ‘Antigo Yang’, representa o ponto extremo de maturidade ou acúmulo positivo no Yi Jing e, assim, uma transição incipiente. Desta forma, ele ecoa a função do mesmo numeral dentro de um sistema decimal de notação posicional com zero, reforçando fortemente a impressão de que o Yi Jing assume uma familiaridade cultural com tal numeracia e, assim, indica sua extrema antiguidade dentro da China.

O ciclo de seis fases se colapsa em uma dinâmica triádica, cujos estágios são as díades 1&8, 2&7, 4&5. Ele é, desta forma, exatamente isomórfico ao circuito de pedra, papel e tesoura, ou melhor, este último pode ser visto como uma simplificação do tripé dinâmico do Yi Jing, tratando cada estágio como simples, em vez de geminado. Onde o bagua, ou conjunto de trigramas, meramente enumera o conjunto de variantes de 3 bits de maneira estática, o sistema de hexagramas rigorosamente constrói uma dinâmica triangular, que é apresentada como um modelo do tempo.

Se esse é o ‘exemplo chinês’ em sua forma mais essencial, então é exatamente o exemplo anglosférico, como determinado por Mead, exceto levado a um nível de abstração bem mais exaltado, ou seja, a uma pureza proto-conceitual. O pluralismo dinâmico não está sob nenhuma ameaça vinda de um futuro chinês, na medida em que a evidência cultural profunda conte para algo. O reino do tripé mal começou.

Original.