Queixas contra Moldbug

Ser um reacionário, minimamente falando, não exige mais do que um reconhecimento de que as coisas estão indo para o inferno. Conforme a fonte da decadência é traçada cada vez mais para trás e atribuída a suposições sociopolíticas cada vez mais profundamente enraizadas – e seguramente convencionais – a atitude reacionária se torna cada vez mais extrema. Se elementos inovadores são introduzidos, seja no diagnóstico ou no remédio proposto, uma mentalidade neo-reacionária nasce.

Conforme os Estados Unidos, junto com o mundo que ele construiu, voa para a calamidade, o extremismo neo-reacionário está embaraçosamente próximo de se tornar uma moda. Se evidências forem necessárias, considere o Vacate Movement, uma facção dissidente dentro dos 0.0000001% que cresce rapidamente. Este é um desenvolvimento que dificilmente teria sido imaginável, não fosse pelas provocações meticulosamente elaboradas, mas retoricamente efervescentes de Mencius Moldbug.

Com Moldbug, a neo-reação imoderada aprendeu muitos fatos essenciais e surpreendentes sobre a genealogia e a tendência da aflição central da história, recém batizada de a Catedral. Ela foi liberada do mesmerismo do ‘universalismo democrático’ – ou ultra-puritanismo evangélico – e treinada de volta na direção de livros honestos (e, assim, proibidos). Ela reaprendeu a análise de classes, com um poder explicativo sem precedentes. Muito mais poderia ter sido adicionado, antes de chegarmos ao nosso destino: o esboço esquemático de uma alternativa ‘neocameral’ à manifestamente moribunda ordem política global. (Sobre uma questão trivial de etiqueta: Moldbug educadamente pede para ser tratado como ‘Mencius’ – pedidos semelhantes de Platão Jiggabug e Siddhartha Moldbucket também foram evadidos.)

Moldbug escrupulosamente distancia sua propostas de qualquer indício de agitação revolucionária, ou sequer das variedades mais brandas de desobediência civil. O neocameralismo não é projetado para antagonizar, mas sim para restaurar a ordem a corpos sociais que a desperdiçaram, através da elaboração de um quadro compatível com a arte há muito perdida do governo eficaz. (‘Há muito perdida’, isto é, para o Ocidente – o exemplo de Singapura, entre aqueles de outras cidades-estado e zonas econômicas especiais, nunca está muito distante.) O neocameralismo não derrubaria nada, mas sim surgiria em meio às ruínas. É uma solução que aguarda a configuração terminal de um problema.

O programa neocameral segue aproximadamente os seguinte passos:

Fase-1: Lamentação construtivamente disciplinada

Fase-2: A civilização colapsa

Fase-3: Re-inicialização até uma forma modernizada de monarquia absoluta, na qual os cidadão são abrangentemente despojados de todos os direitos políticos historicamente acumulados

Apesar de suas óbvias atrações para partidários da liberdade, esse programa não carece de suas características dúbias, algumas das quais pode-se abordar aqui enquanto se ensaia o argumento de Moldbug a favor do governo neocameral um pouco mais detalhadamente. Formulado de maneira sucinta e preliminar, nossas reservas entram em foco quando aquele cara no cavalo branco aparece. De onde exatamente ele vem?

Responder ‘Carlyle’ seria fácil e não exatamente impreciso, mas também se desviaria da coerência estrutural da questão. Moldbug se recusa a chamar seu ditador neocameral de ‘CEO nacional’ (o que ele é), preferindo descrevê-lo como um ‘monarca’ (o que – enquanto nomeado executivo não dinástico – ele não é), por razões tanto estilísticas quanto substanciais. Estilisticamente, o monarquismo é uma provocação e uma dramatização da fidelidade reacionária. Substancialmente, isso enfatiza a questão da soberania.

A filosofia política de Moldbug é fundada em uma revisão do conceito de propriedade, suficiente para apoiar a afirmação de que o poder soberano é propriamente entendido como o dono de um país. É apenas nesse nível de organização política que direitos de propriedade reais – isto é, proteções – são sustentados.

Propriedade é qualquer estrutura estável de controle monopolístico. Você é dono de algo se apenas você o controla. Seu controle é estável se ninguém mais pode tirá-lo de você. Esse controle pode ser assegurado pelos seus próprios poderes de violência, ou pode ser delegado por um poder superior. Se o último, ela é propriedade secundária. Se o primeiro, ela é propriedade primária ou soberana.

O poder soberano (a corporação soberana, ou ‘sovcorp’), sozinha, é capaz de assegurar seus próprios direitos de propriedade. Seu poder e seus direitos são absolutamente idênticos e, a partir dessa identidade primária, direitos subordinados (à ‘propriedade secundária’) cascateiam através da hierarquia social. O neocameralismo não é nada além do reconhecimento sistemático e institucional dessa realidade. (Se ela é, de fato, uma ‘realidade’ é uma questão à qual em breve procederemos.)

Talvez surpreendentemente, as conclusões de Moldbug podem ser apresentadas em termos que libertários em recuperação acharam atraente:

O neocameralismo é a ideia de que um estado soberano, ou corporação primária, não é organizacionalmente distinto de uma corporação secundária ou privada. Desta forma, podemos alcançar uma boa administração e, assim, um governo libertário, ao converter as sovcorps ao mesmo modelo administrativo que funciona bem no setor privado atual – a corporação de sociedade anônima.

Uma maneira de se abordar o neocameralismo é vê-lo como o refinamento do monarquismo, um sistema antigo no qual a sovcorp é um tipo de negócio familiar. Sob o neocameralismo, os caprichos biológicos do monarquismo são eliminados e o Estado “abre seu capital”, contratando os melhores executivos, independentemente de sua linhagem ou mesmo nacionalidade.

Ou você pode simplesmente ver o neocameralismo como parte do padrão capitalista comum, no qual os serviços são otimizados ao se alinhar os interesses do prestador de serviços com os do consumidor de serviços. Se isso funciona para mercados, por que não funcionaria para o governo? Eu tenho dificuldade em aceitar a possibilidade de que o constitucionalismo democrático geraria preços mais baixos ou melhores produtos na Safeway…

A fim de dar um passo para trás desta visão, em direção às suas fundações, é útil examinar seus blocos de construção. Quando Moldbug define a propriedade como “qualquer estrutura estável de controle monopolístico”, o que realmente se quer dizer com ‘controle’? Poderia parecer simples o bastante. Controlar algo é usá-lo, ou fazer uso dele – colocá-lo para funcionar, de tal forma que um resultado desejado seja de fato alcançado. A ‘propriedade’ seria representada como direito exclusivo de uso, ou utilização instrumental, concebida com amplitude suficiente para abranger o consumo, e talvez (chegaremos a isso), doação ou troca.

Complicações surgem rapidamente. ‘Controle’, nesse caso, envolveria competência técnica, ou a capacidade de fazer algo funcionar. Se o controle exige que alguém consiga usar algo efetivamente, então ele exige conformidade com um fato natural (através de um entendimento tecno-científico e habilidades práticas). Mesmo o consumo é um tipo de uso. Essa variável histórica – vastamente distante de noções intuitivas de soberania – realmente é apropriada a uma definição de propriedade?

Poderia ser realista conceber a propriedade através do controle, e o controle através da competência técnica, mas seria difícil defender isso como um avanço no formalismo. Uma vez que este problema infunde totalmente o tema do ‘poder’, ou soberania operacional, também é difícil isolá-lo, ou colocá-lo entre parênteses. As digressões frequentes e entusiásticas de Moldbug sobre as praticidades de aparatos militares cripto-bloqueados atestam fortemente isso. Começa a emergir a impressão de que a própria possibilidade de uma propriedade soberana está vinculada a uma investigação irredutivelmente nebulosa, historicamente dinâmica e empiricamente intricada da micro-mecânica do poder, que se dissolve em uma névoa ácida de ‘fricção’ clausewitziana (ou imprevisibilidade ineliminável).

Mais promissor, de longe – para os propósitos de argumento tratável – é um uso estritamente formal ou contratual de ‘controle’ para designar o direito exclusivo à livre disposição ou alienação comercial. Definida desta maneira, a propriedade é uma categoria legal, co-original com a ideia de contrato, que se refere àquelas coisas que se tem o direito de trocar (baseado na lei natural). A propriedade é essencialmente comercializável. Ela não pode existir a menos que possa ser alienada através de uma negociação. Um príncipe que não pode negociar seu território não o “possui” em nenhum sentido que importe.

Moldbug parece reconhecer isso, de pelo menos três maneiras. Em primeiro lugar, sua formalização do poder soberano, através de sua conversão em ações soberanas, o comercializa. Dentro do regime neocameral, o poder toma a forma de uma propriedade geradora de receita, disponível para a livre disposição daqueles que a manejam. Esta é a única base para a analogia corporativa. Se as ações soberanas não fossem livremente disponíveis, seus ‘donos’ seriam meros administradores, sujeitos a obrigações, responsabilidade políticas não alienáveis, ou deveres administrativos que demonstram, com absoluta clareza, a subordinação a uma soberania superior. (Esta é, em termos gerais, a atual situação e a teoria política inofensivamente convencional.)

Em segundo lugar, o estado neocameral existe dentro de um patchwork, ou sistema de interações, através do qual eles competem por população e no qual redistribuições pacíficas (ou comerciais) – incluindo aquisições e rompimentos – são facilitadas. A menos que as ações soberanas possam ser comercializadas dentro do patchwork, elas não são propriedade de forma alguma. Isto, por sua vez, indica que a legislação positiva ‘interna’, conforme ditada pelo ‘soberano’ doméstico, está inserida em uma sistema normativo bem mais expansivo, e que definição de ‘propriedade’ não pode ser exaurida por sua determinação local dentro da micro-pólis neocameral. Como Moldbug repetidamente observa, se poderia esperar que um despotismo introvertido que violasse as normas mais amplas do patchwork – tais como aquelas que governam a saída livre – sofresse um colapso no valor das ações soberanas (o que implica que a substância das ações soberanas é determinada de maneira sistêmica, e não local). Se todo o estado neocameral é disciplinado através do patchwork, quão real pode ser sua soberania local? Esta disciplina sistêmica ou subversão da soberania local, deve-se notar, é a única atração do esquema neocameral para os defensores da geografia dinâmica (que não querem nada mais além de que o governo nacional se torne a cadela do sistema do patchwork).

Em terceiro lugar (e de maneira relacionada), o neocameralismo é circulado como um modelo de governo experimental, guiado ciberneticamente até a efetividade pelos mesmos tipos de mecanismos de feedback que controlam corporações ‘secundárias’. Em particular, o tráfego populacional entre estados neocamerais é concebido como um regulador fundamental, medindo continuamente a funcionalidade do governo e corrigindo-o na direção da atratividade. A estrutura de incentivo do regime neocameral – e, assim, sua reivindicação de racionalidade prática – repousa inteiramente sobre isso. Mais uma vez, contudo, é evidentemente a limitação radical da soberania local, em vez de sua expressão irrestrita, que promete fazer tais governos funcionarem. A saída livre – para tomar a instância mais importante – é uma regra imposta em um nível superior àquele da soberania nacional, operando como uma lei natural de todo o patchwork. Sem saída livre, um estado neocameral não é mais do que um despotismo paroquial. O soberano absoluto do estado deve escolher se sujeitar a uma regra que ele não legislou… algo está se soltando aqui (é hora de enviar o cavalo branco para os tanques de biodiesel).

O neocameralismo necessariamente comercializa a soberania e, ao fazê-lo, ele acomoda o poder à lei natural. As ações soberanas (a ‘propriedade primária’) e a ‘propriedade secundária’ se tornam comercialmente intercambiáveis, dissolvendo a distinção original, enquanto a soberania local é tornada compatível com a ordem comercial mais ampla e, assim, se torna uma forma de ‘soberania secundária’, restrita em relação à soberania primária ou absoluta do sistema em si. A autoridade final sangra para o conjunto cataláctico, a agora ou commercium, onde o que pode realmente acontecer é decidido pela lei natural. É a isso que os acionistas soberanos, se quiserem ser eficazes e prosperar, devem se submeter.

O ponto fundamental, e a razão pela qual o pretendente no cavalo branco é tão enganador, é que a soberania não pode, em princípio, ser inerente a qualquer agente social em particular – seja ele indivíduo ou grupo. Isto é melhor demonstrado em referência ao conceito de lei natural (que James Donald esboça com brilhantismo inigualado). Quando propriamente entendida, ou articulada, a lei natural não pode ser violada. Colocar sua mão no fogo e se queimar não desafia a lei natural de que temperaturas para além de uma certa faixa causam dano tecidual e dor. Similarmente, suprimir a propriedade privada e produzir um cataclisma econômico não desafia a lei natural que o comportamento econômico humano é sensível a incentivos.

A lei positiva, como criada por legisladores, toma a forma: faça (ou não faça) isso. Violações serão punidas.

A lei natural, como descoberta por qualquer ser racional, toma a forma: faze o que tu queres e aceita as consequências. Recompensas e punições são intrínsecas a ela. Ela não pode ser desafiada, mas apenas mal compreendida. Ela é, portanto, absolutamente soberana (Deus sive Natura). Como qualquer outro ser, governos, não importa o quão poderosos, podem apenas se submeter a ela, seja através de adaptação inteligente e florescimento, ou através de ignorância, incompetência, degeneração e morte. Para Deus-ou-Natureza, não importa de forma alguma. A lei natural é indistinguível do verdadeiro poder soberano que realmente decide o que pode funcionar, o que não funciona, o que pode então – ‘secundariamente’ – ser aprendido por seres racionais, ou não.

Moldbug sabe disso – de verdade. Ele o demonstra – para tomar apenas um exemplo altamente informativo – através de sua insistência de um estado neocameral tenderia a tributar no ótimo de Laffer. Isto é, tal estado provaria sua efetividade maximizando o retorno sobre a propriedade soberana em conformidade com a realidade. Ele não legisla a curva de Laffer, ou escolhe que ela exista, mas em vez disso reconhece que ela foi descoberta e, com ela, um aspecto da lei natural. Qualquer coisa a menos, ou outra, seria inconsistente com sua legitimidade enquanto protetor competente de propriedade. Para sobreviver, prosperar e sequer pretender soberania, ele não pode fazer nada além disso. Seu poder é delegado pelo commercium.

Certamente não é nenhuma coincidência que Canuto, o Grande tenha sido descrito por Norman Cantor como “o rei mais efetivo da história Anglo-Saxã”. Conforma a Wikipédia relata sua estória:

Sua ascensão ao trono dinamarquês em 1018 reuniu as coroas da Inglaterra e da Dinamarca. Canuto manteve sua base de poder junta ao unir dinamarqueses e ingleses sob vínculos culturais de riqueza e costume, em vez de pura brutalidade.

De maneira mais importante:

Henrique de Huntingdon, o cronista do século XII, conta como Canuto colocou seu trono à beira-mar e ordenou que a maré parasse e não molhasse seus pés e robes. Ainda assim, “continuando a subir como de costume, [a maré] salpicou seus pés e pernas sem respeito por sua pessoa real. Então, o rei pulou para trás, dizendo: ‘Que todos os homens saibam o quão vazio e insignificante é o poder dos reis, pois não há nenhum digno do nome, além d’Ele a quem o céu, a terra e o mar obedecem pelas leis eternas'”.

Original.

A Realidade Rege

Por que o darwinismo social não vai a lugar algum

O nome darwinismo social é um nome moderno dado às várias teorias sobre a sociedade que emergiram na Inglaterra e nos Estados Unidos na década de 1870, que, afirma-se, buscavam aplicar conceitos biológicos à sociologia e à política. O termo darwinismo social ganhou grande aceitação quando usado em 1944 para se opor a esses conceitos anteriores. Hoje, por causa das conotações negativas da teoria do darwinismo social, especialmente após as atrocidades da Segunda Guerra Mundial (incluindo o Holocausto), poucas pessoas se descreveriam como darwinistas sociais, e o termo é geralmente visto como pejorativo. — Wikipédia

…ninguém se chama de darwinista social. Nem agora, nem nunca. Nem Herbert Spencer. O termo sempre foi usado para se rotular os oponentes de alguém. Nesse sentido, ele é claramente um termo mais abusivo que “socialista”, um termo que milhões de pessoas reivindicaram com orgulho. — David Boaz

O Urbano Futuro de alguma forma perdeu a animada discussão colateral que disparou à conclusão: a América votou em novembro de 2012 para se poupar do darwinismo social. Ainda assim, por mais tristemente tardia que seja, nossa réplica permanece imutável: nada se poupa do darwinismo. É isso que o darwinismo é.

O fato de que o termo darwinismo social sobrevive apenas como um insulto é abundantemente revelador e é suficiente por si só para explicar a ‘evolução’ ideológica dos tempos recentes. Em suma, o uso dominante de ‘darwinismo social’ diz “mercados são um tipo de coisa nazista”. Cheque-mate em um só movimento.

Os mercados implementam um processo darwiniano ao eliminar falhas. Schumpeter o chamava de ‘destruição criativa’. A principal unidade de seleção é o empreendimento comercial, que é capaz de inovar, se adaptar, se propagar e evoluir precisamente na medida em que também é exposto ao risco de perecer. Nada disso é especialmente complicado, ou sequer controverso. Em um mundo são, é isso que ‘darwinismo social’ significaria. Certamente era sobre isso que Herbert Spencer de fato falava (embora ele nunca tenha adotado o rótulo).

O princípio fundamental do darwinismo social poderia, então, ser comprimido em um par de palavras: a realidade rege. Há mais, claro, mas nada especialmente desafiador. As adições a mais são, na verdade, subtrações, ou reservas – economias intelectuais, princípios negativos e não comprometimentos. Isso é porque o darwinismo – ‘social’ ou de outro tipo – é construído a partir de subtrações. Deduzir toda a causalidade sobrenatural e agências transcendentes deixa o darwinismo como a maneira em que estruturas complexas são projetadas. (Não construídas, mas projetadas em conformidade com uma teoria naturalista de planos, plantas, receitas ou códigos de montagem, do tipo que naturalmente convidavam explicações sobrenaturais. O darwinismo só se aplica à informação prática.)

Subtrações o montam. Por exemplo, remova a hipótese extravagante de que algo grande e benevolente está cuidando de nós, seja ele Deus, o Estado, ou algum Super-Pai alternativo, e o resíduo realista indica que nossos erros nos matam. Segue-se que qualquer coisa que ainda esteja por aí tem um histórico de evitar erros sérios, com o qual ela pode ou não estar persistindo – e a persistência dirá. Se estamos esquecendo lições importantes, pagaremos (na moeda da sobrevivência).

Se isso é mera tautologia, como não raro se alega, então não há necessidade de controvérsia. Mas, claro, controvérsia há, em abundância e tão profundamente enraizada que as exposições mais banais a capturam melhor. Considere isso, do auto-confiantemente pedestre site United States History:

O darwinismo social foi a aplicação das teorias científicas de Charles Darwin sobre evolução e seleção natural ao desenvolvimento social contemporâneo. Na natureza, apenas os mais aptos sobreviviam — assim também no mercado. Esta forma de justificativa foi entusiasticamente adotada por muitos empresários americanos como prova científica de sua superioridade.

O que esse parágrafo supremamente típico está realmente dizendo? Que algumas empresas americanas sobreviviam, eram assim vistas como as “mais aptas” (= elas haviam sobrevivido), ‘justificadas’ (= elas haviam sobrevivido) e ‘provadas serem superiores’ (= elas haviam sobrevivido), em outras palavras, uma sequência de afirmações idênticas perfeitamente vazias que, de alguma forma, deveriam incorporar uma forma radicalmente desonrosa de extremismo social implacável. Este mesmo erro lógico sistemático, visto com tediosa insistência em toda instância de comentário sobre o ‘darwinismo social’, foi batizado por Schopenhauer como ‘hipóstase do conceito’. Ela se apega a algo, repete-o de maneira exata, mas em termos diferentes, e finge ter acrescentado informações. Uma vez que esse erro seja corrigido, uma discussão substancial sobre o assunto é exposta em sua completa e deslumbrante vacuidade.

Um David Boaz em contorções cita a entrada da Enciclopédia Britannica sobre o darwinismo social, que o descreve como:

…a teoria de que pessoas, grupos e raças estão sujeitas às mesmas leis da seleção natural que Charles Darwin havia percebido em plantas e animais na natureza. De acordo com a teoria, que era popular no final do século XIX e começo do XX, os fracos eram diminuídos e suas culturas delimitadas, ao passo em que os fortes cresciam em poder e em influência cultural sobre os fracos. …Os pobres eram os “inaptos” e não deveriam ser ajudados; na luta pela existência, a riqueza era um sinal de sucesso. No nível social, o darwinismo social era usado como uma racionalização filosófica para políticas imperialistas, colonialistas e racistas, que sustentavam a crença na superioridade cultural e biológica anglo-saxã ou ariana.

Fica imediatamente claro que esta passagem, também, segue o padrão já familiar, colocando a ‘hipóstase do conceito’ na beira da combustão espontânea. Pior ainda, ela tenta colocar sua ‘informação’ hipostasiada para funcionar através da proposição positiva – tacitamente insinuada, em vez de firmemente afirmada – de que “pessoas, grupos e raças” são algo além de “animais na natureza”. A natureza, parece, parou de se aplicar em algum limiar de desenvolvimento social humano, quando as pessoas pararam de ser animais e se tornaram alguma outra coisa. O homem não é apenas duplicado (como um ser natural e algo mais), mas dividido entre reinos incomensuráveis, cuja reintegração é moralmente similar à “racionalização filosófica para políticas imperialistas, colonialistas e racistas” e – por que não admitir? – genocídio fascista.

Defina a natureza de tal maneira que nós não sejamos parte dela, ou você está engajado em apologética nazista, diz a Enciclopédia Britannica. Obviamente há algo sobre o darwinismo social que deixa as pessoas excitadas — várias coisas, na verdade. Conectar a teoria espontânea do capitalismo laissez faire a uma associação traumática com o Terceiro Reich é emocionante o bastante, especialmente porque essa é a plataforma básica para a época do fascismo realmente existente (na qual ainda habitamos), mas há mais.

A pista mais óbvia, a partir da qual a passagem da Enciclopédia Britannica se desdobra como uma peça de costura incompetente, é a aparição mágica do ‘deveria’ – “Os pobres eram os “inaptos” e não deveriam ser ajudados”. Esta é mais uma hipóstase absurda, naturalmente (e inaturalmente), mas igualmente típica. No site sobre evolução talkorigins, John S. Wilkins nos conta: “O ‘darwinismo social’… mantém que a política social deveria permitir que os fracos e inaptos falhem e morram, e que isso não é apenas uma boa política, mas é moralmente correto”. A perversidade intelectual aqui é verdadeiramente fascinante.

Qualquer teoria social naturalista subtrai, ou pelo menos suspende, a avaliação moral. Ela diz: essa é o jeito que as coisas são (como quer que pudéssemos querer que elas fossem). Ainda assim, aqui, através da duplicação hipostática ou redundância, esse realismo neutro é convertido em uma posição bizarra e moralmente carregada: a natureza deveria acontecer. O darwinismo social não está tentando explicar, mas sim tomando o lado da realidade (aqueles nazistas!).

Isso é, bastante simples e literalmente, loucura. Deixada insatisfeita com a mera negação da modesta proposição de que a realidade rege, a condenação do darwinismo social procede suavemente para a acusação de que os realistas estão ajudando e incitando o inimigo. O crime imperdoável é aceitar que existem consequências, ou resultados, além daqueles que concordamos em permitir.

A realidade é que decisões práticas têm consequências reais. Se essas consequências forem anuladas por uma entidade social mais abrangente ou absorvidas por ela, então essa entidade as herda. O que ela incentiva, ela se torna. As falhas que ela seleciona se tornam suas. Quando decisões mal adaptadas são deslocadas ou agregadas, elas não são dissipadas, mas reforçadas, generalizadas e exacerbadas. Qualquer que seja a escala de ser social sob consideração, ou ele encontra uma maneira de funcionar, e de recompensar o que funciona, ou ele perece, seja como um todo, ou em pedaços. Esse é o ‘darwinismo social’ que retornará, eventualmente, porque a realidade rege e, em vez de se juntar ao clamor da condenação, Boaz teria sido presciente em reclamá-lo.

Original.

Adiante!

Aberração máxima até a Singularidade da Esquerda

Isso foi completamente inequívoco. Obama realmente se provou ser o FDR dessa volta do giro. Nate Silver e Paul Krugman foram vingados. O New York Times é o evangelho da era. O conservadorismo foi esmagado e humilhado. O pedal do freio foi jogado pela janela. Agora não dá mais para parar.

No dia antes da eleição, o Der Spiegel descreveu “os Estados Unidos como um país que não entende os sinais dos tempos e que tem quase deliberadamente — indo na contramão de todo o conhecimento científico — escolhido ser retrógrado”. Para os autores da redação da revista, o problema era inteiramente simples. “O ódio de um governo grande alcançou um nível nos Estados Unidos que ameaça a própria existência do país”. Forças regressivas estavam impedindo o progresso do país ao recusar entender a óbvia identidade entre o Leviatã e o avanço social. Agora deveria ser óbvio para todo mundo – mesmo para os partidários carbonizados do Tea Party, resmungando em estado de choque nas ruínas – que a democracia americana contemporânea fornece todo o ímpeto necessário para afastar tal obstrucionismo. O Estado é Deus, e todos devem ser curvar à sua vontade. Adiante!

Com a ascensão do Governo dos EUA, uma nova pureza é alcançada, e um experimento fantástico (e Titânico) progride a um novo estágio. Não é mais necessário entrar em controvérsias com o detrito despedaçado da direita, daqui em diante tudo que importa é o teste de força entre a motivação política concentrada e a obstinação da própria realidade. O que seria dizer: a resistência final a ser superada é a ideia insolente de um princípio de realidade, ou exterior. Assim que não mais existir qualquer forma das coisas que exista independentemente do desejo soberano do Estado, a Singularidade da Esquerda será alcançada. Esta é a promessa escatológica que canta seus aleluias em todo peito progressista. Ela se traduz perfeitamente para o canto coloquial: sim, podemos!

Claro, é preciso entender claramente que “nós” – agora e daqui para frente – significa o Estado. Através do Estado, nós fazemos qualquer coisa e tudo, que podemos, se não realmente, então pelo menos verdadeiramente, como prometido. O Estado é ‘nós’ como Deus. Hegel já tinha visto tudo isso, mas foi necessário sistemas educacionais progressistas para generalizar a compreensão. Agora nossa época chegou, ou está chegando. Todos juntos agora: sim, podemos! Nada além de um frágil realismo reacionário está em nosso caminho, e isso é algo para fora do qual podemos ser educados (sim, podemos). Fomos! Veja nossos destruídos inimigos espalhados em completa devastação diante de nós.

O mundo deve ser como queremos que ele seja. Certamente.

Original.

Sinais de Progresso

Como o mundo moderno perdeu seus sentidos

Quanto mais sofisticados os animais se tornam, pior eles ficam em se conectar com a realidade. Conforme eles se cefalizam e socializam, estórias substituem os reflexos, e o valor de sobrevivência de uma estória não deve quase nada à sua factualidade. Acreditar no que todo mundo acredita, ou no que faz você se sentir bem, conta muito mais. Aonde quer que a discussão conduza, é apenas muito rara e acidentalmente na direção da realidade.

A ciência começa com a percepção de que estórias não são confiáveis, mesmo – ou especialmente – se soarem confiáveis, se conformarem intuições anteriores e prontamente obtiverem aprovação social. Como a satisfação narrativa é a grande enganadora, a ciência vai além da linguagem até os vastos e frígidos tratos dos signos matemáticos, despojada de todo significado moral e emocional. Endurecendo-se contra a tentação de ver rostos nas nuvens, ou de ouvir vozes dos céus, ela mergulha decididamente na bancada de testes de números e sinais quantitativos, onde palavras sedutoras são levadas para morrer.

A economia nunca foi uma ciência, mas o comportamento econômico, e até mesmo a teoria, foi capaz de se valer de um pouco de alavancagem contra a narração de estórias. Seu grande recurso nesse sentido tem sido o sistema de preços, expresso em quantidades “sem significado” (sem significância narrativa imediata) que permitem que o cálculo econômico sustente uma postura de indiferença ideológica. Um contador que conta uma estória é um mau contador e, muito provavelmente, um criminoso, ao passo em que um empreendedor fixado em uma estória de como as coisas ‘devem estar’ está sujeito à nêmesis mercantil-darwinista. Isso, pelo menos, é a maneira aproximada como o capitalismo laissez-faire com um dinheiro sólido outrora trabalhou, como atestado, por exemplo, pela indignação de Charles Dickens, que insistia no direito de contar estórias morais, políticas e religiosas em meio a um processo que sistematicamente desdenhava dele.

As coisas progrediram incalculavelmente desde então, numa direção que poderia ser confiantemente descrita como ‘dickensiana’ se esse adjetivo ainda não tivesse sido estabelecido em seu propósito polêmico altamente eficaz. Que a ‘Big Story’ (BS) triunfaria sobre o realismo calculista de scroogeano era talvez inteiramente previsível, mas a abrangência quase metafísica de sua vitória – e de sua vingança – era menos fácil de antecipar. Ao tentar avaliar esse progresso, o dinheiro é o melhor indicador, ou melhor, a destruição do dinheiro como indicador é o sinal mais revelador.

Sob as condições do capitalismo industrial com um dinheiro sólido, o progresso segue duas pistas, rigorosamente contabilizadas. Mais notoriamente, ele é medido como um processo de acumulação ou agregamento de fortunas por meio da atividade comercial lucrativa. A inteligência econômica é socialmente dispersa junto com a infinidade de fortunas, com cada unidade de capital acompanhada de sua própria função contábil, pesando as receitas contra os gastos e estimando a viabilidade da operação contínua. Essa inteligência não se presta à agregação pública conveniente ou confiável.

Acompanhando a multiplicidade de progressões (e regressões) privadas, há um segundo caminho que mede o avanço social em termos estritamente quantitativos, sem significado e inequívocos. Nessa trilha, melhorias técnicas e organizacionais na atividade comercial transbordam as contas particulares e assumem a forma de ‘externalidades’ públicas. Em qualquer sistema monetário competente para registrar a realidade, tais avanços sociais gerais são expressos como queda de preços, redução de custos ou deflação. (Um post de Zero Hedge tipicamente perspicaz sobre o tópico pode ser encontrado aqui.)

A importância desse ponto é difícil de enfatizar demais, especialmente porque contradiz diretamente nosso senso comum neo-dickensiano cuidadosamente fabricado: Deflação! Isso não é tipo um fascismo ou algo assim?

A deflação pode certamente representar um tipo de infortúnio socioeconômico, sob condições específicas. Durante os períodos do ciclo de declínio de negócios, por exemplo, ele pode refletir reduções e queimas de ativos ou de estoques, impulsionadas por crises de crédito e as agravando. A seriedade e tipicidade de tais casos é fortemente afirmada na estória (neo-dickensiana) dominante da Grande Depressão. Vale notar, contudo, que mesmo nessas circunstâncias – na pior das hipóteses – o efeito de primeira ordem da deflação é gerar um aumento espontâneo da riqueza ou poder aquisitivo. Quando a vida está mais difícil, fica mais barato viver.

No mundo do dinheiro sólido, uma deflação leve crônica simplesmente é progresso social. Os dois conceitos são efetivamente indistinguíveis. Uma deflação suave é a boca-livre invisível, dando a todos um pouco mais de quase tudo, ano a ano, distribuindo espontaneamente uma fração do ‘excedente social’, ou dividendo público sobre a produtividade crescente. Mesmo no mundo radicalmente progredido de dinheiro arruinado de hoje, a produção da indústria de eletrônicos de consumo ainda consegue exibir as tendências deflacionárias que foram obliteradas em outros lugares (então, da próxima vez que comprar uma engenhoca, não se esqueça de se sentir adequadamente oprimido).

O que diabos céus aconteceu? Como os sentidos metalo-monetários da modernidade foram desligados, arrebatando Scrooge em uma canção natalina e eclipsando a realidade industrial? Um óbvio cara neo-dickensiano para isso é William Jennings Bryan (1860-1925), um político cuja guerra multi-dimensional contra a realidade – verdadeiramente surpreendente em sua consistência – representa o entusiasmo pela Big Story (ou ‘evangelho social’) na sua forma mais intransigente. O anti-darwinismo de Bryan (o julgamento de Scopes) ou seu ardente proibicionismo (fazendo campanha pela 18ª emenda) teriam bastado para lhe render um lugar no registro histórico como um herói do Estado BS (‘evangélico’ ou ‘progressista’), mas seu legado mais duradouro repousa sobre o discurso que ele proferiu em 9 de julho de 1896, à Convenção Nacional Democrata em Chicago, na qual ele declarou – como se ao próprio Scrooge – que “Você não pressionará contra a testa do trabalho esta coroa de espinhos; você não crucificará a humanidade sobre uma cruz de ouro”.

Esta é uma declaração que é sublimada à universalidade progressista através da eliminação do contexto. Inserido nos debates do final do século XIX sobre o bimetalismo (fixação de preços das taxas de câmbio entre ouro e prata), suas implicações atuais são significativamente diluídas, ou pelo menos complicadas, por questões sobre a responsabilidade financeira das autoridades centrais, a guerra entre credores e devedores, integração econômica, tensões agrário-urbanas e política regional (leste-oeste) nos EUA. Ainda assim, fundamentalmente, pode-se reconhecê-la como “dickensiana”: a denúncia apaixonada de um critério neutro para a realidade econômica, precisamente por sua neutralidade ou indiferença à Big Story da narrativa histórico-moral. O ouro é frio. Mede sem julgamento. Entre condenação e salvação, ele não demonstra preferência ou inclinação.

De maneira concreta, o ouro registrava, em termos econômicos, a agitação social da urbanização industrial americana. A mecanização da agricultura implicava na queda dos preços dos alimentos, na ruína dos pequenos agricultores e no despovoamento rural, durante um processo contínuo de desordem maciça, cujas misérias só foram superadas pela revitalização socioeconômica em seu rastro. Em sua distribuição e em sua função contábil, o ouro facilitou a desvalorização do trabalho rural, a falência de empresas mal alocadas e o fortalecimento do capital industrial concentrado nos centros urbanos em ascensão do país. Bryan articulou os pontos de vista daqueles que estavam no limite mais agudo dessa mudança, que acharam o mensageiro culpado pela mensagem, os sentidos culpados pela cena: “Se teu olho te ofender, arranca-o” (Mateus 18:9). (Mesmo que Bryan tenha perdido todas as três candidaturas para as eleições presidenciais, estamos todos totalmente empenhados.)

Fazer do dinheiro um veículo de propósito moral, ao invés de um registro neutro de fato, é fazer a travessia do liberalismo e do progresso como eles eram compreendidos (industrialismo dinâmico), para o liberalismo progressista de hoje (evangelismo político). Se o dinheiro pode nos salvar (através da ‘gestão da demanda’), como insistem os keynesianos, então sua politização é um imperativo moral, cuja negligência é um pecado de omissão. Os sentidos são transformados em contadores de estórias. Feche as janelas e ouça a canção natalina. É o progresso (honestamente).

Original.

Animação Suspensa (Parte 5)

Motores da Devastação

O pós-modernismo ainda parece legal para alguém? — Provavelmente não. Tendo vendido qualquer simulacro de alma que poderia ter tido para os instáveis deuses da moda, ele aprendeu mais sobre o reino de Cronos do que poderia ter esperado – as crianças são devoradas e se vai adiante para algo novo. O que foi aceito sem nenhuma boa razão é descartado sem nenhuma boa razão. Na ciência política, se chama democracia (mas isso é uma outra discussão).

Claramente, há algo profundamente justo sobre o desaparecimento do pós-modernismo na lata de lixo da diferença aleatória (o que está ‘in‘ tem que ser novo, de preferência sem significado). É até mesmo ‘poeticamente justo’, o que quer que isso signifique. Mas isso também destrói informação. Embora o pós-modernismo tenha certamente sido um modismo, ela também foi um zeitgeist, ou espírito dos tempos. Ele significou algo, apesar de seus melhores esforços, pelo menos enquanto sintoma. O desaparecimento da realidade que ele anunciava era, ele mesmo, real, assim como o era o domínio da simulação que a substituiu. Pelo menos em sua morte, ele pode ter importado em algo.

Considere seu maior mistagogo, Jacques Derrida, e seu outrora amplamente celebrado ‘conceito’ de differance (sim, em francês), um termo dentro de uma série de palavras mágicas que marcam as indecidíveis, incompreensíveis, inapresentáveis e, em última análise, inconcebíveis não-coisas ontológicas que suplantam os eventos reais, através de uma sucessão infinita de deslocamentos e adiamentos. Não podemos realmente dizer nada sobre isso, então temos que falar sobre ele interminavelmente, e departamentos universitários inteiros são necessários para se fazer isso. É ridículo (e então acabou). Mas é também, bastante exatamente, a cultura globalmente hegemônica do estagnacionismo macroeconômico programático keynesianizado, e isto ainda não acabou, embora sua morbidez já seja altamente conspícua. Ao contrário do pós-modernismo acadêmico passageiro, sua morte vai ser realmente interessante.

Muito antes que os derridóides tivessem começado, Keynes havia ensinado aos governos que a differance era algo que eles poderiam fazer. A procrastinação – a suspensão estratégica da realidade econômica através de uma série popularmente incompreensível de deslocamentos e adiamentos – rapidamente veio a definir a arte da política. Por que sofrer hoje o que pode ser adiado até amanhã, ou sofrer você mesmo algo que poderia ser o problema de outra pessoa? Adie! Desloque! No longo prazo estamos todos mortos. A realidade é para perdedores.

A differance como ela realmente funciona é muito mais crua do que sua reflexão na filosofia pós-moderna (e o que poderia ser filosoficamente mais cru do que um apelo à noção de ‘reflexão’?). Por exemplo, ela é pescada do abgrund ontológico e processada por mecanismos específicos de políticas públicas, sustentada por instituições concretas de maneiras que são, em uma medida considerável, economicamente mensuráveis, com limites geográficos e históricos elásticos, mas muito certamente finitos. Mais cru de tudo e derradeiramente decisivo é a circunscrição da desrealização pelo real e o retorno do apocalíptico, não mais enquanto avatar fantasmagórico da ‘metafísica da presença’ (ou falsa promessa de um evento real), mas enquanto evento real iminente, e um cujo processo de construção histórica é, em grande medida, inteligível. A differance real não ‘desconstruiu’ o apocalipse, ela o construiu. Não é nem mesmo tão difícil ver como.

No EconLog, David Henderson postou suas notas sobre a palestra de John H. Cochrane na conferência sobre ‘Restaurar o Crescimento Econômico Robusto na América’ da Hoover Institution da Universidade de Standford, em 3 de dezembro. Não há nenhuma menção à differance, mas não precisa haver.

Por quase 100 anos, tentamos parar as corridas aos bancos com garantias governamentais — depósito de segurança, um generoso emprestador de último recurso e resgates. Esse caminho leva a um enorme perigo moral. Dar a um banqueiro uma garantia de resgate é como dar a um adolescente as chaves do carro e uma garrafa de uísque. Então, apontamos reguladores que deveriam impedir os bancos de assumirem riscos, em uma corrida armamentística desesperada contra MBAs, advogados e lobistas espertos que tentam contornar a regulamentação e embora permitamos — não, encorajemos e subsidiemos — a expansão de ativos passíveis de corridas aos bancos.

No Dodd-Frank, os EUA simplesmente duplicou nossas apostas nesse regime. ….

Os resgates adiam um evento econômico doloroso (adiamento) ao passo que transferem a responsabilidade financeira (deslocamento). O risco é restaurado à virtualidade, enquanto o desastre é transformado de volta em uma ameaça, mas não é a mesma ameaça. Por qualquer método remotamente são de contabilidade, agora está pior. Uma deterioração virtual significante substitui um desconforto real. Esse é o custo da desrealização.

Como as coisas ficam piores, exatamente? — De muitas maneiras. Comece com o ‘perigo moral’, que é uma maneira educada de dizer ‘insanidade’. Ações são dissociadas de suas consequências, removendo o desincentivo à loucura. O resultado, de maneira absolutamente previsível, é mais loucura. Na verdade, qualquer coisa que sistematicamente aumente o perigo moral simplesmente está fabricando loucura. É jogar LSD no reservatório de água, embora provavelmente pior. Então os resgates nos deixam insanos e destroem a civilização (ninguém realmente contesta isso, embora possam tentar evitar o tópico).

Ah, mas tem mais! — Muito mais, porque todos esses deslocamentos não apenas movimentam as coisas de lugar, eles as movem para cima. O risco é centralizado, concentrado, sistematizado, politicado – e isso no (inteiramente irrealista) melhor caso, quando ele não é também expandido e degradado pela corrupção e pela ineficiência de instituições públicas com incentivos fracos ou cínicos. Essa é a economia da cascata – na verdade, uma enchente – para cima, na qual tudo de ruim que jamais acontece com qualquer um é despojado de qualquer sanidade residual (ou estimativa realista de consequências), agrupado, recodificado, complicado por regulamentações compensatórias e deslocado para altitudes cada vez mais etéreas de irresponsabilidade democrática populista, onde a única coisa que importa é o que as pessoas querem ouvir e que realmente jamais vai ser verdade.

“Faça bastante besteira e você provavelmente sofre ou morre” – essa é a verdade. É uma mensagem que não se traduz na linguagem da política keynesiana de empurrar com a barriga, que é o pós-modernismo popular. O mais próximo que chegamos, conforme as mandíbulas começam a se fechar sobre a a corrente do chapéu de resgate, é “Vamos precisar de um barco maior”. Depois de inúmeros episódios disso, estamos todos amontados no Titanic, e as coisas estão mais ou menos parecendo OK. Pelo menos a banda ainda está tocando…

Quando abstraído de sua esquálida psicose, o padrão é matematicamente bastante preciso. É chamado de sistema de gamarra, melhor conhecido dos americanos como ‘o dobro ou nada’ (e para os britânicos como ‘o dobro ou sai’). Cochrane já tocou nele (“os EUA simplesmente duplicou nossas apostas”). Aposte no vermelho, e vem preto. Sem problema, simplesmente duplique a aposta e repita. Você não pode perder. (Se você gosta desta lógica, Paul Krugman tem uma recuperação econômica para lhe vender.)

O que aparece como desastre adiado é, na realidade virtual, um desastre expandido. A entrada da Wikipédia sobre o sistema de gamarra prestativamente o conecta à Distribuição de Taleb, também conhecida como catar moedas na frente de um rolo compressor. A persistência de pequenos ganhos faz esse modelo de negócio parecer uma coisa certa — até que não.

Nassim Nicholas Taleb e Mark Blyth expandem sobre essa ideia no Foreign Affairs, com aplicação a vários aspectos da atual (ou iminente) crise. Perguntando por quê “a surpresa [é] a condição permanente da elite política e econômica dos E.U.A.”, eles traçam o problema à “supressão artificial da volatilidade — os altos e baixos da vida — em nome da estabilidade”.

Sistema complexos que suprimiram artificialmente a volatilidade tendem a se tornar extremamente frágeis, ao mesmo tempo em que não exibem nenhum risco visível. Na verdade, eles tendem a ser calmos demais e a exibirem uma variabilidade mínima, enquanto os riscos se acumulam sob a superfície. Embora a intenção declarada dos líderes políticos e dos formuladores de políticas econômicas seja estabilizar o sistema, inibindo flutuações, o resultado tende a ser o oposto. Esses sistemas artificialmente restritos se tornam propensos a “Cisnes Negros” – isto é, eles se tornam extremamente vulneráveis a eventos de larga escala que estão longe da norma estatística e que são, em grande parte, imprevisíveis para um dado conjunto de observadores.

Discutindo este artigo no PJMedia, Richard Fernandez comenta e afia sua conclusão:

Parte do problema é a consequência do próprio amortecimento [das elites]. Ao tentar administrar centralmente os sistemas de acordo com algum esquema pré-determinado, elas na verdade armazenam volatilidade em vez de dispersá-la. Ao empurrar com a barriga, elas eventualmente se condenam a dar de cara com uma pilha enorme de coisas quando a barriga acaba. …Mas as elites não podem admitir surpresas; tampouco elas podem admitir que coisas ruins comecem sob sua guarda. Portanto, elas continuam varrendo coisas para debaixo do tapete até que, como em alguns filmes de horror, elas geram um zumbi. Para tornar os sistemas robustos, diz Taleb, você tem que admitir que você pode cometer erros e pagar o preço. Você vai ter que pagar no fim das contas de qualquer jeito.

Não estamos no pós-modernismo mais, Totó. Estamos mais próximos disso:

O movimento ondulatório que afeta o sistema econômico, a recorrência de períodos de explosão que são seguidos por períodos de depressão, é o resultado inevitável das tentativas, repetidas de novo e de novo, de se abaixar a taxa bruta de juros do mercado por meio de expansão de crédito. Não há meio de se evitar o colapso final de uma explosão provocada por uma expensão de crédito. A alternativa é apenas se a crise deveria vir mais cedo, como resultado de um abandono voluntário de mais expansão de crédito, ou mais tarde, como uma catástrofe final e total do sistema monetário envolvido. (Ludwig von Mises, Human Action)

Ou mesmo disso:

Grande é a Falência; o grande insondável golfo no qual todas as Falsidades, públicas e privadas, de fato afundam, desaparecendo; à qual, desde a primeira origem delas, elas estavam todas fadadas. Pois a Natureza é verdadeira e não uma mentira. Nenhuma mentira você pode falar ou agir que não virá, depois uma circulação maior ou menor, como uma Fatura extraída da Realidade da Natureza, e que não será lá apresentada para pagamento, –com a resposta, Sem efeitos. Pena apenas que frequentemente tenha uma circulação tão longa: que o forjador original fosse tão raramente aquele que suportasse a dor final dela! Mentiras, e o fardo do mal que elas trazem, são passadas adiante; transferidas de costas a costas e de classe para classe; e, assim, aterrizam, finalmente, na mais burra baixa classe, que com pá e enxada, com coração ferido e carteira vazia, diariamente entram em contato com a realidade e não podem mais passar o engodo adiante.

Observe, não obstante, como, por uma justa lei compensadora, se a mentira com seu fardo (nesse confuso redemoinho da Sociedade) afunda e é transmitida cada vez mais para baixo, então, em troca, a angústia dela se eleva cada vez mais. Através da qual, depois do longo anseio e semi-inanição daqueles Vinte Milhões, um Duque de Coigny e sua Majestade viessem também a ter sua ‘desavença real’. Tal é a lei da justa Natureza; trazendo, embora em longos intervalos, e fosse apenas pela Falência, as questões de volta novamente à marca.

Mas com uma Bolsa de Fortunato em seu bolso, através de qual período de tempo quase toda Falsidade não poderia durar! Sua Sociedade, seu Lar, Arranjo prático ou espiritual, é inverdadeiro, injusto, ofensivo ao olho de Deus e do homem. Não obstante, sua lareira está cálida, sua despensa bem reabastecida: os inúmeros Suíços do Céu, com um tipo de lealdade Natural, se reúnem ao seu redor; provarão, por panfletagem, mosquetaria, que é uma verdade; ou, se não uma Verdade sem mistura (sobrenatural, impossível), então melhor, uma saudavelmente temperada (como o vento é para o cordeiro tosquiado), e funciona bem. Perspectiva alterada, contudo, quando bolsa e despensa ficam vazias! Se seu Arranjo era tão verdadeiro, tão de acordo com as maneiras da Natureza, então como, em nome do milagre, a Natureza, com sua recompensa infinita, veio a deixá-lo faminto aqui? Para todos os homens, para todas as mulheres e todas as crianças, agora é indubitável que o seu Arranjo era falso. Honra à Falência; sempre direita na grande escala, embora no detalhe seja tão cruel! Sob todas as Falsidades ela trabalha, incansavelmente minerando. Nenhuma Falsidade, mesmo que ela se elevasse ao céu e cobrisse o mundo, ainda assim a Falência, um dia, a varrerá para baixo e nos livrará dela. (Thomas Carlyle, via Mencius Moldbug, mas citado em todo lugar recentemente)

Lá vem ela.

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Domínio Calêndrico (Parte 4)

Uma Digressão ao Princípio de Realidade

Entre o mundo que gostaríamos de habitar e o mundo que existe, há uma lacuna que nos testa. Mesmo a descrição mais simples dessa lacuna já clama por uma decisão. ‘Ideologias’, no sentido mais amplo e quase culturalmente esgotante, servem primariamente para amenizá-la. Sentido e mesmo compaixão são atribuídos ao lado da realidade, prometendo uma reconciliação última entre esperanças e desejos humanos e a natureza ‘objetiva’ das coisas. A ciência, uma disciplina tipicamente desprezada e misantrópica, tende à suposição oposta, enfatizando a severa indiferença da realidade para com os interesses e expectativas humanas, com a implicações de que as lições que ela nos ensina podem ser administradas com uma brutalidade ilimitada. Podemos nos arremessar contra a realidade, se insistirmos, mas não podemos antecipar de maneira realista alguma moderação misericordiosa das consequências. A natureza não repreende ou pune, ela meramente nos quebra, friamente, sobre a cremalheira de nossas inverdades.

Como outras instituições culturais, os calendários estão saturados de ideologias e são testados até a destruição contra uma realidade implacável. A suas colisões com a natureza são especialmente informativas, porque expressam desejos humanos obstinados como números favorecidos (selecionados entre inteiros positivos pequenos) e registram o golfo do real de uma forma estritamente quantitativa. Qualquer calendário sobrevivente relata a estória de uma adaptação à realidade, ou a deferência cultural à natureza (e sua deformação por ela), conforme preferências numéricas foram comprometidas através de seu encontro com fatos quantitativos.

A pura ideologia na esfera calêndrica é representada em sua perfeição pelo ano fantasioso dos antigos mesopotâmios, com 360 dias de duração e harmonizado com a aritmética sexagesimal (módulo 60) dos sumérios. Sua influência persistiu nos 360 graus do círculo geométrico e na relacionada divisão sexagesimal em minutos e segundos (de tempo e arco). Os arcaicos calendários da Meso-América e do leste asiático, assim como aqueles do Oriente Médio, parecem ter sido atraídos pelo ano de 360 dias como se por um modelo ideal. Se o Grande Arquiteto do Universo tivesse sido um geômetra antropomórfico, esse seria o calendário que funcionaria.

Claro, ele não funciona (com todo o devido respeito ao cativante contra-argumento bíblico esboçado aqui). Em vez disso, na principal tradição calêndrica mundial – conforme determinado pelo eventual resultado global – um primeiro nível de adaptação sistematizou o ano em 365 dias – o ano egípcio. Ao contrário do ano arquetípico de 360 dias, que tem todos os três primeiros primos como fatores e, assim, se divide convenientemente em ‘meses’ ou outros períodos componentes, o ano de 365 dias representa uma relutante concessão ao fato quantitativo. O número 365 tem apenas dois fatores (ambos primos, 5 e 73), mas nenhum parece ter adquirido qualquer valência calêndrica discernível, talvez por conta de sua óbvia inadequação a uma descrição sequer aproximada dos períodos lunares. Os egípcios se voltaram, em vez disso, a uma estranha, mas influente, inovação: a intercalação. Um apêndice de cinco dias foi adicionado ao ano, como uma pura correção ou comensuração suplementar e um lembrete anual da lacuna entre a elegância numérica e a realidade astronômica. Embora as intercalações tivessem sido investidas com significância mítico-religiosa, isso era essencialmente compensatório – um testamento cruamente obscurecido à fraqueza da idealidade (e, assim, do sacerdócio sistemático como um modo de apreensão da realidade, ou propósito social eficiente). Se as intercalações eram necessárias, então a natureza não estava enfeitiçada e os sacerdotes-mestres do tempo calêndrico tinham sido expostos, tacitamente, como fornecedores de mistificações, cujos limites eram traçados pelo horizonte de credulidade social. O tempo astronômico zombava dos significados dos homens.

Ao longo do tempo, o ano real (‘tropical’) desacredita suas idealizações calêndricas ao desamarrar as datas das estações, em um processo de deriva temporal que expõe a discrepância e impele a reforma do calendário. Calendários imprecisos são gradualmente desprovidos de sentido, conforme as associações sazonais de seus termos temporais são erodidas até a aleatoriedade absoluta – por meses ‘de verão’ congelantes e meses ‘de inverno’ escaldantes. Claramente, nenhum sacerdócio pode sobreviver em um clima que ridiculariza a ordem estabelecida do ano e no qual os fazendeiros que ouvem as palavras sagradas (do tempo) asseguram uma fome inevitável. A menos que seja rastreado, dentro de uma margem tolerável, por um calendário que ‘mantenha’ o tempo, o ano se reverte a um a coisa alienígena e ininteligível, inteiramente exterior à compreensão cultural, enquanto os símbolos dominantes da sociedade aparecem como balbuciações risíveis e sem sentido, abafadas pelo caos uivante do real.

Com a introdução do calendário juliano, que coincidiu com o (não evento do) ano zero, vem o reconhecimento de que o ano tropical é incomensurável com qualquer inteiro e que um ciclo mais amplo de intercalação é necessário para rastreá-lo. Um tipo de modernidade, ou desmistificação estrutural, nasce com a renúncia do ano ideal e de tudo que simboliza em termos de desígnio cósmico ou harmonia celestial. O apêndice do demônio está apenso, irremediavelmente.

A numeracia e a medição do tempo se divorciam na origem do Domínio Calêndrico cesário, mas é fácil confundir os acidentes neste caminho com concessões essenciais à realidade. Mesmo que se admita a função inescapável das intercalações, não havia nada inevitável – pelo menos absoluta ou cosmicamente inevitável – sobre a ruína total da coerência numérica que o calendário juliano encarnou e passou adiante.

Para explorar mais esse tópico (admitidamente arcano), é necessária uma digressão à segunda potência, às relações entre números e desejo antropomórfico. O ponto de partida óbvio é o calendário de 360 dias da antiga Suméria, e a questão: O que tornou esse número atraente? Seja ao examinar o 360 ou sua raiz sexagesimal (60), uma atenção aritmeticamente convencional aos fatores primos (2, 3 e 5) é, inicialmente, enganadora – embora, em última análise, seja indispensável. Uma introdução mais iluminadora começa com os fatores compostos 10 e 12, o último relevante primariamente para o ciclo lunar (e o sonho arcaico de um ano de 12 meses astronomicamente – ou, melhor, astrologicamente – consistente) e o primeiro refletindo o antropomorfismo primordial em questões numéricas: o decimalismo. O calendário de 360 dias é um objeto do desejo humano porque é um híbrido antropo-lunar (ou menstrual-licantrópico?), que fala intrinsecamente com os ciclos da fertilidade humana e com os padrões ‘digitais’ instanciados nos planos corporais mamíferos. Um ano de 360 dias seria nosso (mesmo se coisas alienígenas estivessem escondidas nele).

O decimalismo antropomórfico sugere como certas oportunidades numéricas ficaram faltando, junto como zero. ‘Apreensão’ e ‘compreensão’ referem o entendimento aos órgãos preênseis de um organismo específico, cuja simetria bilateral combina mãos com cinco dedos para produzir uma conta que chega a dez, através de um intervalo que pertence a um terceiro, alienígena e intratável. Seres triádicos são monstros e decimalmente incompreensíveis. A estrutura bino-decimal do Yi Jing exibe isto com total clareza, através de seu ciclo temporal com seis estágios que conta na sequência recorrente 1, 2, 4, 8, 7, 5… Cada potência de três (dentro dos numerais decimais) é expelida, junto com o zero, para fora da ordem do tempo apreensível. Não há nenhuma maneira em que uma numeracia calêndrica ternária jamais pudesse ter sido antropomorficamente aceitável – o próprio pensamento é (quase por definição) abominável.

Ainda assim, a astronomia parece ser horrivelmente cúmplice da abominação, pelo menos se os anos forem geminados. A sexta potência de três (3^6) se aproxima da duração de dois anos tropicais com uma discrepância de apenas ~1.48438 dias, ou menos de um dia por ano. Uma intercalação de três dias a cada quatro anos (ou dois ciclos de anos-gêmeos) o traz à precisão do calendário juliano, e uma redução desta intercalação em um dia a cada 128 anos (ou 64 (2^6) ciclos de anos-gêmeos) excede a precisão do calendário gregoriano.

Poderia ser necessário ser ligeiramente desequilibrado para apreciar plenamente essa extraordinária conjunção de elegância numérica e fato astronômico. Um sistema de computação calêndrica que conte apenas em dois e três e que mantenha uma ordem perfeitamente triádica da divisão temporal até à duração de um período de dois anos, é capaz de, bem facilmente, exceder a performance do calendário internacional dominante (chegando a um nível de precisão que desaparece na instabilidade inerente do ano tropical e, assim, estritamente falando, é inaperfeiçoável).

Quantos dias existem em um ano? ((3 x 3 x 3 x 3 x 3 x 3) / 2) + ~0.74219

O horror, o horror…

Original.