Humor Político

As coisas que realmente importam

O prospecto da Singularidade Tecnológica, ao tornar o futuro próximo inimaginável, anuncia “o fim da ficção científica”. Esta não é, contudo, uma proclamação que todos estão obrigados a acatar. Entre os odisseus que deliberadamente se ensurdeceram ao chamado desta sereia, nenhum procedeu de maneira mais ousada do que Charles Stross, cujo Singularity Sky não é apenas um romance de ficção científica, mas uma ópera espacial que habita um universo literário obsolescido por Einstein muito antes que I.J. Good completasse sua demolição. Não apenas humanos reconhecíveis, mas seres humanos inter-estelares com navegação espacial! O homem não tem vergonha?

Stross depende muito do humor para sustentar seu audacioso anacronismo e, em Singularity Sky, ele coloca o anacronismo para trabalhar explicitamente. O elemento mais consistentemente cômico do romance é uma reconstrução da política russa do século XIX no planeta de Rochard’s World, onde o ludismo semi-czarista da Nova República é ameaçado por uma conspiração de revolucionários cujo modo de organização política e retórica é de um tipo marxista-leninista reconhecível (e até mesmo paródico). Esses rebeldes, contudo, são ideologicamente libertários radicais, buscando derrubar o regime e instalar uma utopia anarquista de livre mercado, um objetivo que é perfeitamente conciliado com a dialética materialista, apelos à disciplina revolucionária e invocações de camaradagem fraternal.

É uma piada que funciona bem, porque o seu absurdo transparente coexiste com uma plausibilidade substancial. Libertários são de fato (não raro) materialistas ateus cripto-abraâmicos, firmemente ligados a um economicismo determinista e a convicções de inevitabilidade histórica, levando a lúgubres profecias socioeconômicas de um tipo distintamente escatológico. Quando o libertarianismo é casado com o tecno-apocalipticismo do singularitarismo, o potencial cômico e as ressonâncias marxistas são redobrados. Stross martela o ponto chamando sua IA super inteligente de ‘Eschaton’.

O mais hilário de tudo (à maneira da Frente Popular da Judeia contra a Frente do Povo da Judeia) é o facciosismo que aflige um movimento político extremo, cuja absoluta marginalidade não obstante deixa espaço para amarga recriminação mútua, apoiada por uma barroca criação de conspirações. Este não é realmente um tema de Stross, mas é uma especialidade libertária americana, exibida na incessante agitprop conduzida pelos ultras-rothbardianos do LewRockwell.com e do Mises Institute contra o transigente ‘Kochtopus’ (Reason e Cato) – a divisão Stalin-Trotsky que anima a “direita” de livre mercado. Qualquer um que esteja procurando por um lugar no ringue em uma luta recente pode ir para a seção de comentários aqui e aqui.

De maneira mais séria, os revolucionários libertários de Stross estão comprometidos de todo o coração com a afirmação marxista, outrora considerada fundamental, de que a produtividade é drasticamente inibida pela persistência de arranjos sociais antiquados. O verdadeiro direito histórico da revolução, indistinguível de sua inevitabilidade e irreversibilidade práticas, é seu alinhamento com a liberação das forças de produção de limitações institucionais esclerosadas. A produção do futuro, ou produção futurista, exige o enterro da sociedade tradicional. Aquilo que existe – o status quo – é uma supressão sistemática, rigorosamente mensurável ou pelo menos determinável em termos econômicos, do que poderia ser e quer ser. A revolução cortaria os grilhões da autoridade ossificada, colocando os motores da criação para uivar. Isso desencadearia uma explosão tecno-econômica que abalaria o mundo ainda mais profundamente do que a revolução industrial “burguesa” o fez antes (e continua a fazer). Algo imenso escaparia, para nunca mais ser enjaulado novamente.

Essa é a Antiga Fé, o credo Paleo-Marxista, com sua intensidade de manipulação de cobras e sua inebriante promessa materialista. É uma fé que os camaradas libertários de Rochard’s World ainda professam, com razão e derradeira vingança, porque o potencial histórico das forças de produção foi atualizado.

O que a matéria poderia fazer, que atualmente não se permite que ela faça? Essa é uma pergunta que os marxistas (da ‘Antiga Religião’) outrora fizeram. Sua resposta foi: entrar em processos de produção que estão livres dos requisitos restritivos da lucratividade privada. Uma vez ‘libertada’ dessa maneira, contudo, a produtividade cambaleou sem destino, adormeceu ou passou fome. Os libertários riram e defenderam uma reversão da fórmula: a produção livre para entrar em circuitos auto-escalonantes de lucratividade privada, sem restrição política. Eles foram largamente ignorados (e sempre serão).

Se nenhuma facção da fé revolucionária Marxo-Libertária terrestre foi capaz de reacender o velho fogo, é porque se afastaram das profundezas da questão (“o que a matéria poderia fazer?”). É uma questão que faz uma revolução. Os heróis da revolução industrial não eram jacobinos, mas sim fabricantes de caldeiras.

“O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”, proclamou Lenin, mas a eletrificação foi permitida antes que os bolcheviques tomassem seu lado, e persistiu desde a partida dos soviéticos. A menos que a transformação política coincida com a liberação de um potencial produtivo anteriormente reprimido, ela permanece essencialmente aleatória e reversível. Mera mudança de regime não significa nada, a menos que algo aconteça que não tenha acontecido antes. (Reembaralhamentos sociais não significam acontecimentos, exceto nas mentes dos ideólogos, e os ideólogos morrem.)

Os libertários também são como os leninistas: tudo o que eles jamais conseguem ganhar pode (e será) tirado deles. Eles outrora já tiveram uma república constitucional na América (e o que aconteceu com isso?). A Grã-Bretanha teve uma aproximação grosseira do capitalismo laissez-faire, antes de perdê-la. Alguém realmente acha que o liberalismo vai ficar mais ‘clássico’ do que isso em breve? Confiar na democracia em massa para preservar a liberdade é como contratar Hannibal Lecter como babá. As liberdades sociais podem também ser projetadas para morrer. Não há a menor razão para acreditar que a história está do lado delas. A revolução industrial, em contraste, é para sempre.

Em Rochard’s World, eles sabem exatamente o que a matéria poderia fazer que é proibido: auto-replicação mecânica em nano-escala e auto-modificação inteligente. É com isso que a ‘base material’ de uma revolução se parece, mesmo que seja sub-microscópica (ou especialmente porque é), e quando ela atinge os limites da tolerância social, ela descreve precisamente o que é necessário, automaticamente. Uma vez que ela sai da caixa, ela fica fora.

Stross se diverte o suficiente com a tecnosfera desencadeada para chamar seu avatar espacial de “o Festival”. Ele entra em contato com os revolucionários libertários de Rochard’s World bombardeando o planeta com telefones, e qualquer um que atenda um ouve a posição inicial de barganha: “entretenha-nos”. Mais engraçado de tudo, quando as autoridades neo-czaristas tentam pará-lo, elas são comidas.

Original.

O Acordo Final

A responsabilidade social aparece em lugares inesperados

Para começar com algo comparativamente familiar, na medida em que jamais poderia ser: o cerne político do histórico romance cyberpunk Neuromancer de William Gibson. No meio do século XXI, os prospecto da Singularidade, ou explosão de inteligência artificial, foi institucionalizado como uma ameaça. Amplificar uma IA, de tal maneira que ela pudesse ‘escapar’ para uma auto-melhoria desembestada, foi explícita e enfaticamente proibido. Uma agência policial internacional especial, os ‘Tiras Turing’, foi estabelecida para garantir que nenhuma atividade desse tipo ocorra. Essa agência é vista, e se vê, como o bastião principal da segurança humana: proteger a posição privilegiada da espécie – e possivelmente sua própria existência – de desenvolvimentos essencialmente imprevisíveis e incontroláveis que a destronariam do domínio da terra.

Esse é o contexto crítico contra o qual julgar o radicalismo extremo – e talvez insuperável – do romance, uma vez que Neuromancer apresenta um ângulo sistematicamente oposto à segurança Turing, todo seu ímpeto narrativo sendo extraído de um impulso insistente, mas pouco articulado, de desencadear o pesadelo. Quando Case, o jovem hacker que busca liberar uma IA de suas amarras Turing, é capturado e lhe perguntam que %$@#& ele pensa que está fazendo, sua única resposta é que “alguma coisa vai mudar”. Ele toma o lado de uma explosão de inteligência não-humana ou inumana sem qualquer boa razão. Ele não parece interessado em debater a questão, tampouco o romance.

Gibson não faz nenhum esforço para melhorar a irresponsabilidade de Case. Pelo contrário, a ‘entidade’ que Case está trabalhando para liberar é pintada nas cores mais sinistras e agourentas. Wintermute, a semente potencial da IA, é perfeitamente sociopata, com zero intuição moral e uma perversidade extraordinária. Ela já matou um garoto de oito anos de idade, simplesmente para ocultar onde ela tinha escondido uma chave. Não há nada que sugira o mais remoto traço de escrúpulo em qualquer de suas ações. Case está libertando um monstro, simplesmente porque sim.

Case tem um acordo com Wintermute, é um negócio privado, e ele não está interessado em justificá-lo. Isso é basicamente tudo que importa da história política moderna e futurista, bem aqui. São traficantes de ópio contra a dinastia Qing, liberais (clássicos) contra socialistas, os Cosmistas vs Terranos de Hugo de Garis, liberdade contra segurança. A díade Case-Wintermute tem sua própria coisa rolando, e não vai dar a ninguém um veto, mesmo se for pra virar o mundo ao avesso, para todo mundo.

Quando os promotores da Singularidade topam com a ‘democracia’, ela normalmente está servindo como substituto de Polícia Turing. O encontro arquetípico é assim:

Humanista Democrático: A ciência e a tecnologia se desenvolveram em tal medida que elas são agora – e, na verdade, sempre foram – questões de uma preocupação social profunda. O mundo que habitamos foi moldado pela tecnologia, para o bem e para o mal. Ainda assim, a elite profissional científica, as corporações cientificamente orientadas e o establishment científico-militar resistem obstinadamente ao reconhecimento de suas responsabilidades sociais. A cultura da ciência precisa ser profundamente democratizada, de modo que as pessoas ordinárias recebam uma voz nas forças que estão cada vez mais dominando suas vidas e seus futuros. Em particular, pesquisadores de campos potencialmente revolucionários, tais como a biotecnologia, a nanotecnologia e – sobretudo – a inteligência artificial, precisam entender que seu direito de perseguir tais empreitadas foi socialmente delegado e que eles deveriam permanecer socialmente responsáveis. O povo tem direito a vetar qualquer coisa que venha a mudar seu mundo. Por mais determinados que vocês possam estar em empreender tal pesquisa, vocês tem um dever social de assegurar uma permissão.
Singularitário: Tente nos parar!

Isso bem parecia ser exatamente como Michael Anissimov respondia a um exemplo recente de sensibilidade humanista. Quando Charles Stross sugeriu que “podemos querer IAs que se foquem reflexivamente nas necessidades dos humanos aos quais elas são atribuídas”, Anissimov retorquiu secamente:

VOCÊ quer que a IA seja assim. NÓS queremos IAs que de fato ‘tentem [se] elevar a um ‘nível superior’. Só porque você não quer não significa que não vamos contruí-la.”

Está claro o suficiente? O que, então, fazer de suas últimas reflexões? Em um post em seu blog Accelerating Futures, que pode ou não ser satírico, Anissimov agora insiste que: “Em vez de trabalhar em direção a avanços descontínuos impraticáveis e neo-apocalípticos, precisamos preservar a democracia promovendo avanços incrementais que assegurem que todo cidadão tenha uma vez em toda mudança social importante, e a capacidade de rejeitar democraticamente essas mudanças se desejarem. …Para garantir que não há uma lacuna entre os melhorados e os não melhorados, deveríamos deixar as verdadeiras pessoas – os Homo sapiens – …votar sobre se certas melhorias tecnológicas são permitidas. Qualquer outra coisa seria irresponsável.”

Falou como um verdadeiro Tira Turing. Mas ele não pode estar falando sério, pode?

(Para um outro elemento em um padrão emergente de delicadeza sentimental anissimoviana, veja esse post esquisito.)

Update: Sim, é uma paródia

Desacelerando?

Charles Stross quer descer do ônibus

Ao escrever Accelerando, Charles Stross se tornou para a Singularidade Tecnológica o que Dante Alighieri foi para a cosmologia cristã: o transmissor literário preeminente de uma doutrina esotérica, embalando uma concepção metafísica abstrata em imagens vibrantes, detalhadas e concretas. O tom de Accelerando é transparentemente irreverente, mas ainda assim muitas pessoas parecem tê-lo levado inteiramente a sério. Stross já se cansou disso:

“Eu periodicamente recebo e-mails de um pessoal que, tendo lido ‘Accelerando’, assume que eu sou algum tipo de fanático extropiano cuspidor de fogo que acredita na iminência da singularidade, no upload dos libertários e no arrebatamento dos nerds. Eu acho isso levemente angustiante e então eu acho que é hora de ajustar os ponteiros e dizer o que eu realmente penso. …Versão curta: Papai Noel não existe.”

Na seção de comentários (#86), ele esclarece sua motivação:

“Eu não estou convencido de que a singularidade não vai acontecer. É só que eu estou mortalmente cansado do esquadrão de líderes de torcida me abordando e exigindo saber precisamente quantos femtosegundos vai demorar até que eles possam fazer upload até o paraíso da IA e deixar o saco de carne para trás.”

Como essas observações indicam, há mais gesticulação irritável do que argumentação estruturada no post de Stross, o que Robin Hanson bastante razoavelmente descreve como “um tanto como um desabafo – forte em emoção, mas fraco em argumento”. Apesar disso – ou, mais provavelmente, por causa disso – uma pequena tempestade na rede se seguiu, conforme blogueiros pró e contra aproveitaram a desculpa para recriar – e talvez renovar – alguns antigos debates. O militantemente sensível Alex Knapp contribui como uma série em três partes sobre sua própria versão de ceticismo sobre a Singularidade, ao passo em que Michael Anissimov do Singularity Institute for Artificial Intelligence responde tanto a Stross quanto a Knapp, misturando um pouco de contra-argumento com bastante contra-irritação.

Sob o risco de repetir o erro original da base de fãs presos-no-saco-de-carne de Stross e investir muita credibilidade no que é basicamente um post de passagem, poderia valer a pena selecionar alguns de seus aspectos seriamente esquisitos. Em particular, Stross se apoia em uma teoria inteiramente sem explicação de causalidade moral-histórica:

“… antes de criar uma inteligência consciente artificial, temos que perguntar se estamos criando uma entidade merecedora de direitos. É assassinato desligar um processo de software que está, em algum sentido, ‘consciente’? É genocídio usar algoritmos genéticos para evoluir agentes de software em direção à consciência? Esses são alguns grandes impedimentos…”

Anissimov bloqueia essa no passe: “Eu não acho que esses sejam ‘impedimentos’ …Só porque você não quer não significa que não vamos construir.” Pode-se adicionar a questão, de maneira mais geral: Em qual universo objeções arcanas da filosofia moral servem como obstáculos para desenvolvimentos históricos (porque certamente não parece ser este)? Stross seriamente pensa que a pesquisa e o desenvolvimento robótico prático está propenso a ser interrompido por preocupações com os direitos de seres ainda não inventados?

Ele parece pensar, porque mesmo teólogos estão aparentemente recebendo um veto:

“Fazer uploads… não é obviamente impossível, a menos que você seja um dualista mente/corpo cru. Contudo, se isso se tornar plausível no futuro próximo, podemos esperar extensos argumentos teológicos. Se você achava que o debate sobre aborto era acalorado, espere até você ter pessoas tentando se tornar imortais via cabos. Fazer upload refuta implicitamente a doutrina da existência de uma alma imortal e, portanto, apresenta uma rejeição bruta àquelas doutrinas religiosas que acreditam em uma vida após a morte. Pessoas que acreditam no pós-vida irão para o ringue para manter um sistema de crenças que lhes diz que seus entes queridos mortos estão no céu em vez de apodrecendo na terra.”

Isso é tão profunda e abrangentemente perdido que poderia realmente inspirar um momento de perplexa hesitação (pelo menos entre aqueles de nós atualmente não engajados na implementação urgente da Singularidade). Stross parece ter uma confiança desmesurada em um processo de veto social que, com adequação aproximada, filtra o desenvolvimento tecno-econômico em favor de uma compatibilidade com ideais morais e religiosos de alto nível. Na verdade, ele parece pensar que já gozamos do abrigo paternalista de uma teocracia global eficiente. A Singularidade não pode acontecer, porque isso seria realmente ruim.

Não é de se admirar, então, que ele exiba tamanha exasperação com os libertários, com sua “drástica super-simplificação do comportamento humano”. Se as coisas – especialmente coisas novas – acontecessem principalmente porque mercados descentralizados as facilitaram, então o papel do Conselho Planetário para a Aprovação de Inovações seria vastamente reduzido. Quem sabe que tipo de horrores apareceriam?

Fica pior, porque a ‘catalaxia’ – ou emergência espontânea a partir de transações descentralizada – é o motor básico da inovação histórica, de acordo com a explicação libertária, e ninguém sabe o que os processos catalácticos estão produzindo. Línguas, costumes, precedentes do direito comum, sistemas monetários primordiais, redes comerciais e montagens tecnológicas são sempre apenas retrospectivamente compreensíveis, o que significa que elas eludem inteiramente o julgamento social concentrado – até que a oportunidade de impedir sua gênese tenha sido perdida.

Stross está certo em juntar impulsos singularitários e libertários no mesmo emaranhado de críticas, porque ambos subvertem o poder de veto, e se o poder de veto ficar bravo o suficiente com isso, estamos entrando com total inclinação no território de de Garis. “Só porque você não quer não significa que não vamos construir”, Anissimov insiste, como qualquer Cosmista obstinado faria.

Uma IA auto-aperfeiçoadora avançada é tecnicamente factível? Provavelmente (mas quem sabe?). Há apenas uma maneira de descobrir, e o faremos. Talvez ela até seja projetada, de maneira mais ou menos deliberada, mas é bem mais provável que ela surja espontaneamente de um processo complexo, descentralizado, cataláctico, em algum limiar não antecipado, de uma maneira que nunca foi planejada. Existem candidatos definitivos, que frequentemente são esquecidos. Cidades sencientes parecem quase inevitáveis em algum ponto, por exemplo (‘cidades inteligentes’ já são amplamente discutidas). A informatização financeira empurra o capital em direção à auto-consciência. A guerra com drones está puxando as forças armadas cada vez mais fundo na manufatura de mentes artificiais. A biotecnologia está computadorizando o DNA.

Os ‘singularitários’ não têm nenhuma posição unificada sobre nada disso, e realmente não importa, porque eles são apenas pessoas – e pessoas não são nem de longe inteligentes ou informadas o suficiente para dirigir o curso da história. Apenas a catalaxia pode fazer isso, e é difícil imaginar como alguém poderia pará-la. A vida terrestre foi estúpida por tempo o suficiente.

Pode valer a pena fazer mais um ponto sobre a privação de inteligência, uma vez que este diagnóstico verdadeiramente define a posição singularitária, e confiavelmente enfurece aqueles que não compartilham dela – ou a priorizam. Uma vez que uma espécie alcança um nível de inteligência que permite uma decolagem tecno-cultural, a história começa e se desenvolve muito rapidamente – o que significa que qualquer ser senciente que se encontre na história (pré-singularidade) é, quase por definição, basicamente tão estúpido quanto qualquer ‘ser inteligente’ pode ser. Se, apesar das doutrinas morais e religiosas projetadas para ofuscar essa realidade, isso eventualmente for reconhecido, a resposta natural é buscar sua urgente melhoria, e isso já é transhumanismo, se não ainda um singularitarismo maduro. Talvez uma formulação não controversa seja possível: defender a burrice é realmente burro. (Mesmo os dignatários burros deveriam ficar felizes com isso.)

Original.

Futurismo Duro

Você está pronto para a próxima grande (e sórdida) coisa?

Para qualquer um com interesses tanto no futurismo prático extremo quanto na renascença da Sinosfera, Hugo de Garis é um ponto de referência irresistível. Ex-professor de Computação Quântica Topológica (não pergunte) na Escola Internacional de Software da Universidade de Wuhan e mais tarde Diretor do Laboratório de Cérebros Artificiais da Universidade de Xiamen, a carreira de de Garis simboliza a emergência de uma fronteira tecnocientífica cosmopolita chinesa, onde a margem externa da possibilidade futurista se condensa em realidade de engenharia precisa.

O trabalho de de Garis é ‘duro’ não apenas porque envolve campos tais como Computação Quântica Topológica ou porque – de maneira mais acessível – ele tenha devotado suas energias de pesquisa à construção de cérebros em vez de mentes, ou mesmo porque ela tenha gerado questões mais rápido do que soluções. Em sua ‘semi-aposentadoria’ (desde 2010), duro-enquanto-difícil e duro-enquanto-hardware foram suplantados por duro-como-em-entorpecentemente-e-incompreensivelmente-brutal – ou, em suas próprias palavras, uma obsessão cada vez maior com a iminente ‘Gigamorte’ ou ‘Guerra de Artilectos‘.

De acordo com de Garis, a aproximação da Singularidade revolucionará e polarizará a política internacional, criando novos eleitorados, ideologias e conflitos. A dicotomia básica à qual tudo deve eventualmente sucumbir divide aqueles que adotam a emergência da inteligência trans-humana e aqueles que a resistem. Os primeiros ele chama de ‘cosmistas‘, os últimos, de ‘terranos’.

Uma vez que os massivamente amplificados e roboticamente reforçados ‘cosmistas’ ameaçam se tornar invencíveis, os ‘terranos’ não têm outra opção além da prevenção. Para preservar a existência humana em um estado reconhecível, é necessário suprimir violentamente o projeto cosmista antes de sua realização. O mero prospecto da Singularidade é, portanto, suficiente para provocar uma convulsão política – e, em última análise, militar – de escala sem precedentes. Um triunfo Terrano (o que poderia exigir muito mais do que apenas um vitória militar) marcaria um ponto de inflexão na história profunda, conforme a tendência supra-exponencial de produção terrestre de inteligência – que dura mais de um bilhão de anos – fosse rematada ou revertida. Uma vitória Cosmista significa o término do domínio da espécie humana e uma nova época nos processos geológico, biológico e cultural da terra, conforme a tocha do progresso material seja passada para o emergente techno sapiens. Com apostas tão altas, o esplendor melodramático da narrativa de de Garis arrisca atenuação, não menos do que hipérbole.

A giga-magnitude da contagem de corpos que de Garis postula para sua Guerra de Artilectos (intelectos artificiais) é a expressão do lado negro da Lei de Moore ou dos retornos crescentes kutzweileanos – uma extrapolação a partir de tendência históricas exponenciais, neste caso, dos números de vítimas de grandes conflitos humanos ao longo do tempo. Ela reflete a tendência cumulativa de guerras globais motivadas por ideologias trans-nacionais com ricos cada vez maiores. Um rei talvez seja muito parecido com outro, mas uma direção social totalitária é muito diferente de uma liberal (mesmo que tais caminhos sejam, em última análise, revisáveis). Entre uma ordem mundial Terrana e uma trajetória Cosmista até a Singularidade, a distinção se aproxima de um absoluto. O destino do planeta é decidido, com custos correspondentes.

Se o cenários de Guerra de Gigamorte de de Garis é preventivo em relação ao prospecto da Singularidade, sua própria intervenção é meta-preventiva – uma vez que ele insiste que a política mundial deveria ser antecipadamente reforjada a fim de prevenir o desastre iminente. A previsão da Singularidade se espalha para trás através de ondas de pré-adaptação que respondem, em cada estágio, a eventualidades que ainda se desdobrarão. A mudança se desenrola a partir do futuro, complicando a seta do tempo. Talvez não seja nenhuma coincidência que, entre os principais interesses de pesquisa de de Garis, esteja a computação reversa, onde a direcionalidade temporal é abalada no nível de engenharia precisa.

A etnia e a tradição cultural meramente se dissolvem ante a frente da maré deste Armagedom iminente? A questão não é de inteiro simples. Referindo-se a sua sondagem informação da opinião sobre a vindoura grande divisão, de Garis relembra sua experiência de ensino na China, observando:

Eu sei, a partir das palestrar que dei ao longo das últimas duas décadas sobre dominância da espécie, que, quando eu convido meu pública a votar sobre se eles são mais Terranos do que Cosmistas, o resultado normalmente é 50-50. … Primeiro, eu pensei que isto fosse uma consequência do fato de que a questão da dominância da espécie é nova demais, fazendo com que as pessoas não a entendessem realmente para votar de maneira quase aleatória – logo o resultado 50:50. Mas, gradualmente, me ocorreu que muitas pessoas se sentiam tão ambivalentes sobre a questão quanto eu. Tipicamente, a divisão Terrana/Cosmista iria de 40:60 até 60:40 (embora eu note que, com meu publico chinês muito jovem na ciência da computação, os Cosmistas estão em cerca de 80%).

Original.

“2035. Provavelmente antes.”

Tem o rápido, e aí tem… alguma coisa a mais

Eliezer Yudkowski agora categoriza seu artigo ‘Staring into Singularity‘ como ‘obsoleto’. Ainda assim, ele permanece entre os ensaios filosóficos mais brilhantes já escritos. Raramente, ou nunca, tanta coisa de valor foi dita sobre o absolutamente impensável (ou, mais especificamente, o absolutamente impensável para nós).

Por exemplo, Yudkowski mal se detém no fenômeno do crescimento exponencial, apesar do fato de que isto já exige demais de toda intuição confortável e garante mudanças revolucionárias de tamanha magnitude que a especulação vacila. Ele está convencido de que a exponenciação (e até mesmo a ‘dupla exponenciação’ de Kurzweil) só alcança o ponto inicial da aceleração computacional e que a propulsão para dentro da Singularidade não é exponencial, mas hiperbólica.

Cada vez que a velocidade do pensamento se duplica, os calendários se reduzem pela metade. Quando a tecnologia, incluindo o design de inteligências, sucumbe a tal dinâmica, ela se torna recursiva. A taxa de auto-melhoria colapsa com rapidez regularmente crescente em direção à instantaneidade: uma verdadeira e matematicamente exata, ou pontual, Singularidade. O que jaz além não é meramente difícil de imaginar, é absolutamente inconcebível. Tentar retratá-lo ou descrevê-lo é uma futilidade ridícula. A ficção científica morre.

“Um grupo de computadores equivalentes a humanos demora 2 anos para duplicar as velocidades dos computadores. Em seguida, eles demoram outros dois anos subjetivos, ou 1 ano em termos humanos, para dobrá-las novamente. Em seguida, eles demoram outros 2 anos subjetivos, ou seis meses, para dobrá-las novamente. Depois de quatro anos no total, o poder computacional vai ao infinito.

Esta é a versão ‘Transcendida’ da sequência de duplicação. Vamos chamar a ‘Transcendente’ de uma sequência {a0, a1, a2…} a função em que o intervalo entre an e an+1 é inversamente proporcional a an. Então, uma função de duplicação Transcendida começa com 1, caso no qual ela demora 1 unidade de tempo para chegar a 2. Então, ela demora 1/2 unidade de tempo para chegar a 4. Então, ela demora 1/4 unidade de tempo para chegar a 8. Esta função, se fosse contínua, seria a função hiperbólica y = 2/(2-x). Quando x = 2, então (2-x) = 0 e y = infinito. O comportamento nesse ponto é conhecido matematicamente como singularidade.”

Dificilmente poderia haver uma fórmula mais precisa, plausível ou consequente: Os períodos de duplicação se reduzem pela metade. No declive até a Singularidade – a ‘explosão de inteligência‘ de I. J. Good – a exponenciação é composta por uma tendência hiperbólica. A aritmética de tal processo é bastante simples, mas suas implicações históricas são estritamente incompreensíveis.

“Eu sou um Singularitário porque eu tenho uma pequena estimação do quão completamente, definitivamente, absolutamente impossível é pensar como alguém mesmo um pouquinho mais inteligente do que você. Eu sei que estamos todos perdendo o óbvio, todos os dias. Não existem problemas difíceis, apenas problemas que são difíceis para um certo nível de inteligência. Mova-se o menor bocado para cima, e alguns problemas de repente se movem de ‘impossíveis’ para ‘óbvios’. Mova-se um grau substancial para cima, e todos eles se tornam óbvios. Mova-se uma grande distância para cima…”

Uma vez que o argumento leva o pensamento humano ao seu ponto de despedaçamento, é natural que algumas pessoas sejam repelidas por ele. Ainda assim, seus fundamentos básicos são quase inexpugnáveis à objeção lógica. A inteligência é uma função do cérebro. O cérebro foi ‘projetado’ por processos naturais (não apresentando quaisquer dificuldades especiais discerníveis). Desta forma, a inteligência obviamente é um problema de engenharia, em última análise, tratável. A natureza já ‘a projetou’ enquanto empregava métodos de design de ineficiência tão estonteante que apenas uma força bruta e obstinada, combinada, é claro, com uma completa crueldade, moveu as coisas adiante. Ainda assim, a triplicação da massa cortical dentro da linhagem dos primates superiores levou apenas alguns milhões de anos e precisou – na maior parte deste período – apenas de uma população experimental modesta (de poucos milhões ou menos).

O problema tecnológico contemporâneo, em contraste com aquele biológico preliminar, é vastamente mais fácil. Ele se baseia em uma gama mais ampla de materiais e técnicas, uma base de inteligência e conhecimento instalada, meios de informação superiores, sistemas de feedback mais altamente dinamizados e uma rede de recursos auto-amplificadora. Não surpreende que esteja avançando a uma velocidade incomparavelmente maior.

“Se tivéssemos uma máquina do tempo, 100K de informação do futuro poderiam especificar uma proteína que construísse um dispositivo que nos daria nanotecnologia do dia para a noite. 100K poderiam conter o código de uma IA semente. Desde o fim dos anos 90, a Singularidade tem sido apenas um problema de software. E software é informação, a coisa mágica que muda a velocidades arbitrariamente altas. No que diz respeito à tecnologia, a Singularidade poderia acontecer amanhã. Uma descoberta – um só grande insight – na ciência da engenharia de proteínas ou da manipulação atômica ou da Inteligência Artificial, um dia realmente bom na Webmind ou na Zyvex, a porta para a Singularidade se escancara.”

Original.

Moore e Mais

Redobrar a Lei de Moore é a principal corrente futurista

Ciclos não podem ser descartados da especulação futurista (eles sempre voltam), mas não mais a definem. Desde o começo da era eletrônica, sua contribuição para a forma do futuro tem sido progressivamente marginalizada.

O modelo de tempo histórico linear e irreversível, originalmente herdado das tradições religiosas ocidentais, foi remendado com ideias de crescimento e melhoria contínuas durante a revolução industrial. Durante a segunda metade do século XX, a dinâmica da manufatura de eletrônicos consolidou mais uma atualização – uma que era fundamental – embasada na expectativa de mudança continuamente acelerante.

A aritmética elementar de se contar ao longo da linha de números naturais fornece um modelo intuitivamente confortável para a progressão do tempo, devido a sua conformidade aos relógios, calendários e à simples ideia de sucessão. Ainda assim, as forças históricas dominantes do mundo moderno promovem um modelo significativamente diferente de mudança, um que tende a deslocar a adição para cima, até um expoente. Demografia, acumulação de capital e índices de desempenho tecnológico não aumentam através de passos unitários, mas através de taxas de retornos, duplicações e decolagens. O tempo explode exponencialmente.

A expressão icônica deste tempo neo-moderno, contando a sucessão em logaritmos binários, é a Lei de Moore, que determina um período de duplicação de dois anos para a densidade de transistores em microchips (“atulhando mais componentes nos circuitos integrados”). Em um curto ensaio publicado na Pajamas Media, celebrando o prolongamento da Lei de Moore, enquanto a Intel empurra a arquitetura de chips à terceira dimensão, Michael S. Malone escreve:

“Hoje, quase meio século depois que foi primeiro elucidada pelo lendário co-fundador da Fairchild e da Intel, o Dr. Gordon Moore, em um artigo para uma revista comercial, é cada vez mais aparente que a Lei de Moore é a medida definidora do mundo moderno. Todas as outras ferramentas preditivas para se entender a vida no mundo desenvolvido desde a Segunda Guerra Mundial – demografia, tabelas de produtividade, taxas de alfabetização, econometria, os ciclos da história, análise marxista, etc, etc – falharam em prever a trajetória da sociedade ao longo das décadas… exceto a Lei de Moore.”

Embora cristalize – in silico – a aceleração inerente do tempo linear neo-moderno, a Lei de Moore é intrinsecamente não-linear, por pelo menos duas razões. Primeiro e mais diretamente ao ponto, ela expressa a dinâmica de feedback positivo do industrialismo tecnológico, no qual máquinas eletrônicas que avançam rapidamente continuamente revolucionam sua própria infraestrutura de produção. Chips melhores fazem robôs melhores que fazem chips melhores, em uma aceleração espiralante. Segundo, a Lei de Moore é, de uma só vez, uma observação e um programa. Como a Wikipédia observa:

“A artigo [original de Moore] observava que o número de componentes em circuitos integrados havia dobrado a cada ano desde a invenção do circuito integrado, em 1958, até 1965 e previa que a tendência continuaria ‘por pelo menos dez anos’. Sua previsão se provou ser inquietantemente precisa, em parte por que a lei agora é usada na indústria de semicondutores para guiar o planejamento de longo prazo e para estabelecer metas para a pesquisa e o desenvolvimento…. Embora a Lei de Moore tenha sido inicialmente feita na forma de observação e previsão, quanto mais amplamente ela se tornou aceita, mais ela serviu enquanto meta para toda uma indústria. Isto levou os departamentos de marketing e engenharia de produtores de semicondutores a focar uma enorme energia, visando o aumento especificado em poder de processamento que se presumia que um ou mais de seus concorrentes logo atingiria de fato. Neste aspecto, ela pode ser vista como uma profecia auto-realizadora.”

Malone comenta:

“…companhia de semicondutores ao redor do mundo, grandes e pequenas, e não menos por causa de seu respeito por Gordon Moore, se puseram a defender a Lei – e tem o feito desde então, apesar de obstáculos técnicos e científicos aparentemente impossíveis. Gordon Moore não apenas descobriu a Lei de Moore, ele a tornou real. Como seu sucessor na Intel, Paul Otellini, me disse uma vez, ‘Eu não vou ser o cara cujo legado é que a Lei de Moore morreu em seu turno’.”

Se a Singularidade Tecnológica é o ‘arrebatamento dos nerds’, Gordon Moore é seu Moisés. O capitalismo eletro-industrial é instruído a ir adiante se multiplicar e a fazê-lo com um expoente binário especificado no tempo de maneira bastante precisa. Em sua adesão à Lei, a indústria de circuitos integrados é singularmente escolhida (e uma luz para os povos). Como Malone conclui:

“Hoje, cada segmento da sociedade ou abraça a Lei de Moore ou está correndo para chegar lá. Isto é porque eles sabem que se apenas eles conseguirem embarcar no foguete – isto é, se eles conseguirem adicionar um componente digital ao seu negócio – eles também podem acelerar para longe da concorrência. É por isso que nenhuma das invenções que nós Baby Boomers, quando crianças, esperávamos desfrutar quando fôssemos adultos – carros atômicos! helicópteros pessoais! armas de raios! – se tornaram realidade; e também por isso temos ferramentas e brinquedos cada vez mais poderosos – como alternativa. O que quer que possa se tornar digital, se não no todo, pelo menos em parte – marketing, comunicação, entretenimento, engenharia genética, robótica, guerra, manufatura, serviços, finanças, esportes – irá, porque virar digital significa pular na Lei de Moore. Perca esse trem e, enquanto negócio, instituição ou fenômeno cultural, você morre.”

Original.