Domínio Calêndrico (Parte 3)

Em Busca do Ano Zero

Um Ano Zero significa um recomeço radical que faz reivindicações universais. Nos tempos modernos, especialmente nos tempos modernos recentes, ele está associado sobretudo com visões ultra-modernistas de política total, em seu ponto máximo de extremidade utópica e apocalíptica. A ordem existente do mundo é reduzida a nada, a partir do qual uma nova história é iniciada, fundamentalmente desconexa de qualquer coisa que tenha ocorrido antes e moralmente obrigada apenas a si mesma. Previsivelmente o bastante, entre comentaristas conservadores (no sentido mais amplo), tais visões são largamente indistinguíveis das paisagens com cadáveres espalhados de uma catástrofe social assombrada pelos fantasmas de sonhos irrealizáveis.

O Domínio Calêndrico global do cristianismo é paradoxal – talvez até mesmo ‘dialético’ – neste aspecto. Ele fornece o modelo governante de ruptura histórica e extensão ecumênica ilimitada e, desta forma, de revolução total, enquanto ao mesmo tempo representa a ordem conservadora antagonizada pela ambição modernista. Seu exemplo incita a guinada ao Ano Zero, mesmo ao passo em que não possui nenhum ano zero próprio. Em última análise, sua provocação dialética tende em direção à tentação satânica: a promessa do Apocalipse Anti-Cristão, ou novidades absolutas a uma segunda potência. (“Se os cristão conseguiram fazê-lo, por quê não conseguiríamos?” Uma deixa para contagens de corpos que se escalam em direção ao infinito.)

A tensão existe não apenas entre uma ordem cristã estabelecida e sua pós-imagem pseudo-secular revolucionária, mas também dentro do próprio cristianismo, que se divide internamente pela unidade aparente e real dissociação do ‘tempo messiânico’. O processo de consolidação calêndrica cristã foi imensamente prolongado. Uma distância de mais do que meio milênio separou a formulação clara da contagem dos anos a partir do momento comemorado, com ainda mais séculos necessários para se integrar completamente o registro histórico com esta base, digerindo os registros anteriores judeus, romanos e locais e estabelecendo as bases para uma articulação cristã universalizada do tempo. Quando as ‘boas novas’ revolucionárias haviam sido formalizadas de maneira coerente em um protótipo reconhecível do calendário ocidental hegemônico, elas haviam sofrido uma longa transição de quebra histórica para tradição estabelecida, com impecáveis credenciais conservadoras.

Simultaneamente, contudo, o processo de consolidação calêndrica sustentou, e até mesmo afiou, a expectativa messiânica de uma ruptura pontual e verdadeiramente contemporânea, projetada adiante como a duplicação ou ‘segunda vinda’ da divisão inicial. Mesmo que o momento no qual a história havia sido fendida em duas partes – antes e depois, AC e AD – agora estivesse em uma antiguidade bastante distante, seu exemplo permanecia urgente e promissor. A esperança messiânica foi, assim, rasgada e compactada por uma intrínseca duplicação histórica, que a esticou entre um começo vastamente retrospectivo e gradualmente reconhecido e um prospecto de repentina conclusão, cuja credibilidade era assegurada por seu status enquanto repetição. O que tivera sido seria novamente, transformando a contagem dos AD em uma sequência completa que era confirmada da mesma maneira em que era exterminada (através da intervenção messiânica).

Sem surpresas, a história substancial do establishment calêndrico ocidental é geminada com a ascensão do milenarianismo, através de fases que tendem cada vez mais a formas social-revolucionárias e, eventualmente, abrem caminho para variedades auto-conscientemente anti-religiosas, mas decididamente escatológicas, de política total modernista. Já que o que quer que tenha acontecido tem que – pelo menos – ser possível, a própria existência do calendário apoia antecipações de ruptura história absoluta. Sua conta, simplesmente por começar, prefigura um fim. O que começa pode recomeçar, ou acabar.

O zero, contudo, se introduz diagonalmente. Ele até mesmo introduz um aspecto cômico, uma vez que qualquer que seja a importância da revelação cristã para a salvação de nossas almas, é descaradamente óbvio que ela falhou em entregar uma notação aritmética satisfatória. Para isso, a Europa cristã teve que esperar a chegada dos numerais decimais da Índia, através do Oriente Médio muçulmano, e a subsequente revolução do cálculo e da contabilidade que coincidiu com a Renascença, junto com o nascimento do capitalismo mercantil nas cidades-estado do norte da Itália.

De fato, para qualquer um que busque um calendário verdadeiramente moderno, a Chegada do Zero marcaria uma excelente ocasião para um novo ano zero (0 AZ?), por volta de 1500 AD. Embora tal coisa plausivelmente datasse a origem da modernidade, a imprecisão histórica do evento conta contra ela, contudo. Além disso, a assimilação do zero por um capitalismo germinal europeu (e, assim, global) foi evidentemente gradual – mesmo que comparativamente rápida – em vez de uma transição ‘revolucionária’ pontual do tipo ao qual o zero calêndrico comemorativo é otimamente apropriado. (Se o Ano Zero é, desta forma, barrado da designação de sua própria operacionalização histórico-mundial, talvez ele esteja estruturalmente fadado à má aplicação e à produção de desilusão.)

A conspícua ausência do zero d(a conta d)o calendário ocidental, exposta em seu solavanco abrupto de 1 AC para 1 AD, é um estigma intolerável e irreparável que leva sua ironia mundial a um zênite. Na própria operação de integrar a história mundial, em preparação para a modernidade planetária, ele observa sua própria antiguidade e particularidade debilitantes, no sentido moderno mais condescendente do limitado e do primitivo – cru, defeituoso e subdesenvolvido.

Como um momento de incompetência calculista auto-evidente poderia fornecer um ponto de origem convincente para o cálculo histórico subsequente? O Ano Zero escapou de toda possibilidade de apreensão conceitual no momento da contagem do tempo ao qual agora ele é visto pertencer, e o infinito (o recíproco do zero) se prova não menos elusivo. O infinito foi inserido em um tempo quando (e um local onde) ele demonstravelmente não fazia nenhum sentido, e a extraordinária impressão histórico-mundial que ele fez não fez nada – nem mesmo nada – para mudar essa situação. Esse não é um enigma digno para os teólogos? Onipotente, onisciente, onibenevolente e, no entanto, sem esperanças na matemática – essas não são as características de uma revelação projetada para impressionar tecnólogos ou contadores. Tanto mais razão, então, para levar essa comédia a sério, em toda a sua ambivalência – uma vez que o mundo emergente dos tecnólogos e contadores, o mundo tecno-comercial (industrial desembestado, ou capitalista) que globalizaria a terra, foi desmamado dentro do cercadinho deste calendário, e de nenhum outro. A modernidade selecionara para datar a si mesma de uma maneira que seus próprios alunos do jardim de infância desdenhariam.

Domínio Calêndrico (Parte 2)

César com a alma de Cristo

O politicamente correto legislou tacitamente contra os acrônimos ainda predominantes que definem o calendário internacional hegemônico (AC-AD), e propôs alternativas claras (AEC-EC). Tanto a crítica quanto a sugestão são inteiramente consistentes com seus princípios. De acordo com a doutrina do multiculturalismo (uma hegemonia mais recente e também mais ativa), estende-se a presunção liberal de igualdade formal de indivíduos para ‘culturas’, alocando direitos de grupos e identificando – ao passo em que imediatamente se denuncia – a discriminação e o privilégio. Como poderia se esperar de uma ideologia que se concentra excepcionalmente entre elites intelectuais, o remédio proposto é puramente simbólico, tomando a forma de uma retificação de signos. O ‘problema’ é diagnosticado como uma falha de consciência, ou sensibilidade, exigindo apenas uma elevação de consciência (a ser efetuada, pode-se seguramente assumir, através de profissionais apropriadamente credenciados e compensados).

Mesmo considerada em seus próprios termos, contudo, a retificação que é sugerida não equivale a nada mais do que um gesto de recusa vazio, que acompanha uma conformidade fundamental. Ao passo em que a ‘esquerda’ simbólica tira conforto da insistência em uma mudança sem importância, com sua ofensa intrínseca às suposições conservadoras, reforçada por uma crítica moral implícita da tradição, a indignação compensadora da ‘direita’ fixa toda a disputa dentro das trincheiras imobilizadas da ‘guerra cultural’ anglo-americana. A estrutura profunda dos signos calêndricos persiste sem ser afetada. Entre o domínio cristão (que invoca ‘Nosso Senhor’) e uma ‘era comum’ que é obedientemente enquadrada pela datação da revelação cristã, não há diferença que importe. É o que conta que conta.

O politicamente correto falha aqui da maneira que sempre o faz, devido à sua desconexão do ‘correto’ de qualquer princípio rigoroso de cálculo e à separação da ‘sensibilidade’ de qualquer percepção realista. Um calendário é um edifício cultural profundo, que orquestra a apreensão do tempo histórico. Como tal, ele é invulnerável às mordidas de mosquito da irritabilidade ideológica (e a dominância não é redutível a falta de educação).

O problema do Domínio Calêndrico Ocidental não é de supremacismo (etiqueta), mas de supremacia (fatalidade histórica). Poderia ser colocado assim: Como a globalização modernista veio a ser expressa como um Oecúmeno Cristão? Em grande medida, esta é a questão de Max Weber e de Walter Russell Mead, mas ela transborda as investigações de ambos, na direção da antiguidade européia e do oriente médio. O estímulo inicial para essa investigação é fornecida por uma estranha – e mesmo fantástica – coincidência.

Em seus cadernos, Friedrich Nietzsche imaginava o super-homem (Übermensch) como um “César com a alma de Cristo”, um ser quimérico cujas tensões ecoam aquelas da Igreja de Roma, da liturgia cristã latinizada e do calendário ocidental. Este hibridismo é expressado por uma multidão de características calêndricas, que seguem uma divisão geral de trabalho entre uma estruturação romana do ano (dentro do qual os festivais pagãos superficialmente cristianizados estão espalhados de maneira não sistemática), e uma contagem de anos cristã, mas também aponta em direção a um plano de fusão críptico – até mesmo radicalmente ininteligível.

No Ano Zero, que nunca aconteceu, uma misteriosa sincronização ocorreu, imperceptivelmente e despercebida, fundando a nova ordem calêndrica teopolítica. Para os cristãos, que não assimilariam o Império até o reino de Constantino no começo do século IV AD, Deus encarnou como homem, no embrião de Jesus Cristo. Simultaneamente, em uma Roma que estava perfeitamente desatenta à concepção do Messias, o calendário juliano se tornou operacional. A reforma calêndrica de Júlio César começara 45 anos antes, após os Anos de Confusão, mas uma execução incompetente nas décadas subsequentes havia sistematicamente calculado errado o ano bissexto , intercalando um dia a cada três anos, em vez de um a cada quatro. O anômalo ciclo trienal foi abandonado e “o calendário romano finalmente foi alinhado ao calendário juliano em 1 AC (com 1 AD o primeiro ano completo de alinhamento)”, embora nenhuma significância especial fosse ser atribuída a esses anos até que Dionísio Exíguo integrasse a história cristã em 525 AD.

Dada a espantosa negligência desse evento gêmeo, alguma ênfase adicional é apropriada: O calendário juliano, que persistiria, sem modificação, por quase 1600 anos e que ainda domina o entendimento coloquial da duração do ano (em 365.25 dias), nasceu – por um ‘acaso’ puro e escandaloso – na origem precisa da Era Cristã, conforme registrado pela numeração ocidental, e agora internacional, do tempo histórico. A contagem dos anos, assim, simula de maneira exata uma comemoração do próprio calendário – ou, pelo menos, de seu protótipo – muito embora o nascimento deste calendário, seja ele entendido em termos de razão secular ou providência divina, não tenha absolutamente nenhuma conexão com o começo contado. Isto é uma coincidência – ou seja, um destino percebido sem compreensão – que nem a autoridade romana, nem a revelação cristã foram capazes de explicar, mesmo ao passo em que ela sorrateiramente molda a história ocidental (e, depois, global). Conforme o calendário dominante mundial conta os anos sob o que parece ser uma inspiração religiosa particular, ele se refere secretamente ao seu próprio início, aludindo a mistérios do tempo que são alienígenas para qualquer fé. Esse tanto é simples fato.

Ao contrário do calendário juliano, o calendário gregoriano foi determinado sob os auspícios cristãos, ou pelo menos sob a autoridade cristã formal (aquela do Papa Gregório XIII), e foi promulgado por bula papal em 1582. Ainda assim, um olhar basta para revelar a continuação do domínio calêndrico juliano, uma vez que a reforma gregoriana efetua transformações que permanecem estritamente compatíveis com o padrão juliano, modificado apenas por operações elementares de re-escalonamento e inversão decimal. Onde o calendário juliano tomava quatro anos como sua unidade cíclica basal, o gregoriano toma quatro séculos, e onde o juliano adiciona um dia bissexto em quatro anos, o gregoriano deixa um e subtrai três em 400. O resultado foi uma aproximação melhorada do ano tropical (em média ~365,24219 dias), do ano juliano de 365,25 dias para o gregoriano de 365,2425 dias, uma redução de mais de 20 vezes na discrepância, de uma média de ~0,00781 dias por ano (desviando das estações a um dia a cada 128 anos) para ~0,00031 (desviando um dia a cada 3226 anos).

A combinação de fidelidade arquitetônica com ajustes técnicos define a reforma conservadora. Ela é claramente evidente neste caso. Um calendário neo-juliano, estruturado em seus fundamentos na sua origem em 1 AD menos 1, mas tecnicamente modificado na margem no interesse de uma precisão melhorada, armou o Ocidente com o mais eficiente sistema de marcação de tempo em larga escala do mundo, por volta do início do período moderno. Na China, onde os letrados confucionistas organizavam competições para testar vários calendário de todo o mundo contra a previsão de eclipses, jesuítas equipados com o calendário gregoriano prevaleceram contra todas as alternativas, garantindo a inexorável tendência em direção às convenções calêndricas ocidentais ou, pelo menos, a firme identificação dos métodos ocidentais com a eficiência modernista. Dada apenas uma margem, na China e em outros lugares, a dinâmica de sistemas complexos assumiu o controle, pois os ‘efeitos de rede’ prenderam o padrão predominante, ao mesmo tempo em que sistematicamente marginalizavam seus concorrentes. Muito embora o Ano Zero ainda estivesse faltando, ele estava, cada vez mais, faltando ao mesmo tempo para todo mundo. “César com a alma de Cristo” – o mestre do quadriênio e do eclipse – havia se instalado como o significado implícito da história.

(Ainda por vir – na Parte 4? – Contra-Calendários, mas provavelmente precisamos de uma excursão por entre o zero primeiro).

Original.

Neomodernidade

Alegações de se ter descoberto ou inventado o neomoderno, a neomodernidade ou o neomodernismo têm sido anunciadas em campos tão variados quanto as belas artes, a filosofia política e moral, a teologia, a economia, a memética, o xadrez e, aparentemente, o design de banheiros. Na sociologia, a “segunda modernidade” de Ulrich Beck é um equivalente próximo.

Assim como com o modernismo e o pós-modernismo, é a arquitetura que é central para a definição pública duradoura da neomodernidade. Os filósofos sempre apenas interpretaram o mundo, mas os arquitetos conseguem construi-lo. Embora ainda incoerente, uma paisagem arquitetônica neomoderna está bastante inequivocamente em construção. Isto é especialmente evidente em Shanghai.

Quando guiado pela construção arquitetônica real, o fio que leva até a neomodernidade de Shanghai começa em Turim, com a ‘restauração’ da Fábrica da Fiat em Lingotto feita por Renzo Piano em 1989. Esta obra foi exemplar em uma série de aspectos. Ela equilibrava criação com renovação, atualizando radicalmente e reaproveitando uma estrutura existente e de larga escala, ao passo em que venerava a original. A fábrica já era um icônico edifício modernista, imortalizado no Vers une Architecture (1923) de Le Corbusier. O design multi-uso de Piano misturava revolução funcional com conservação estrutural. Características hiper-contemporâneas (incluindo uma bolha no telhado e um novo sistema de janelas) empregavam materiais leves e transparentes, a fim de minimizar o impacto estrutural (ao passo em que maximizava o impacto funcional). Desta maneira, uma planta industrial foi transformada em um hotel e um espaço de lazer, exibição e conferência, através da recapitulação da herança industrial. O padrão neomoderno havia sido estabelecido.

Seria possível se argumentar, de maneira razoável, que o moderno é sempre já e inerentemente neomoderno, que atualizações implacáveis e auto-superadoras estão embutidas nele desde o princípio. Ainda assim, o prefixo complicador é importante e informativo, como Piano demonstra. Em vez de expressar uma melhoria regular e contínua, a construção neomoderna manifesta e celebra a descontinuidade. A modernidade é dividida e se torna, em parte, passado. A noção semi-paradoxal de ‘herança modernista’ se torna uma inspiração animadora, ou re-animadora.

A modernidade fica datada de maneira estranha e intrigante, porque se posiciona na vanguarda do tempo, expressando uma infusão do futuro. Em seu sentido vital e coloquial, o ‘moderno’ é um termo indexical que descreve o que está acontecendo agora ou recentemente. É neste sentido que a modernização permanece irrepreensivelmente atualizada, ancorada, indexicalmente, ao contemporâneo. Deslizar-se, desancorado, do ‘agora’ para as águas mortas da história é, assim, abandonar a reivindicação de modernidade. O que é distintivamente passado não pode ser moderno, e o moderno não pode ser simplesmente passado.

Embora ‘vulgar’ pelos padrões do uso intelectual e técnico, é esse sentido popular do ‘moderno’ que gera sua força intensa e agitacional. Mesmo entre a intelligentsia, o pós-modernismo extraiu seus poderes de incitação da reivindicação implícita e incompreensível de habitar um momento além de agora. Embora não seja um exagero tornar a dilatação ou a contração do ‘agora’ compatível com a intuição, propor um estado contemporâneo no lado distante do agora convida uma perplexidade estimulante. (O ‘agora’ chinês é revelador neste aspecto, com xianzai indicando literalmente o ‘lugar em’ que ‘primeiro’ estamos, onde sempre começamos, iniciando aritmeticamente.)

Nas belas artes, a distinção consensual entre o ‘moderno’ e o ‘contemporâneo’ resolve essa tensão, mas apenas ao drenar da palavra ‘moderno’ o seu sentido coloquial e provocador, deixando apenas uma casca de referência histórica. Importar-se com essas palavras e movimentos, contudo, é insistir que a modernidade, mesmo a modernidade primordial, resiste a uma absorção na história realizada, porque ela se relaciona com um futuro absoluto. O agora dinamizado da modernidade é irredutível a um período ou a um momento no tempo. O que a modernidade descobriu e perpetuamente se relembra não é apenas a próxima coisa na estrada, mas a estrada adiante em geral, e talvez mesmo a estrada.

Shanghai alcançou a velocidade escape até a neomodernidade de maneira comparativamente recente. O desenvolvimento de Xintiandi na virada do século, por exemplo, foi um marco na restauração urbana, mas foi apenas embrionicamente, e talvez também retrospectivamente, neomoderno. Um exemplo bem mais claro das tendências arquitetônicas representadas por Piano é encontrada no desenvolvimento da Red Town, que data de 2004.

O projeto neomoderno arquetípico é um ‘aglomerado criativo’, e a Red Town não é nenhuma exceção. Ela consiste de um local industrial radicalmente renovado, reanimado como um eixo de artes e lazer. Em sua borda geográfica, e centro conceitual, está a gigantesca casca da antiga Usina de Aço N. 10 da Shanghai Steel Company, agora lar do Shanghai Sculpture Space (SSS). Em estilo neomoderno definitivo, as relíquias monumentais da indústria pesada foram abraçadas e revitalizadas: não meramente restauradas, mas esteticamente transfiguradas.

No primeiro ano do SSS, enormes peças de maquinário enferrujado, extraídas das construções reaproveitadas, jaziam espalhadas em meio e ao lado das esculturas externas, como se embaralhassem deliberadamente as fronteiras entre arte e sucata. Alguns desses detritos, de maneira mais notável, uma mistura de calhas massivas que outrora serviam como conduítes para metal derretido, renasceram como obras de arte pós-industriais.

No coração do neomoderno está algo similar a um campo de ruínas e, no entanto, não há nada remotamente ozymandiano sobre esses restos mortais. Eles atestam mais fortemente a uma sobrevivência resiliente (mesmo que interrompida), do que a desaparecimento e esquecimento. Sua mensagem é renascença.

Sobretudo, talvez, o neomoderno é manifestado de maneira indireta, através de espaços de exposição. Ele aponta para longe de si, em direção ao que ele revive, na maneira do design de museus contemporâneos, com seu ideal de mediação invisível. Seu orgulho está adaptado a uma era de informação, na qual a sutilidade triunfa sobre a afirmação, a percepção inventiva suplanta a auto-expressão, e a antecipação flexível supera o propósito obstinado.

“Queremos demolir museus e bibliotecas”, Marinetti declarou em seu manifesto futurista, enfurecendo-se contra a mão morta do passado. No entanto, fazer uma exposição de museu da modernidade não é mortificar, mas sim o oposto. A vitalidade tenaz do moderno é conspicuamente demonstrada pelo fato de que ele não permaneceu o que era. A morte da casca é a vida do filhote.

O estilo neomoderno de Shanghai é, de uma só vez, chocantemente cru e hiper-refinado, orquestrando uma justaposição forte (ou forte/suave) de restos de metal pesado e design intangível. Ele se exulta nas estruturas mais ciclópicas, tensionadas e temporalmente torturadas: vigas queimadas e enferrujadas, correntes massivas, vastas placas de paredes semi-desintegradas de tijolos, concreto esburacado, alvenaria estilhaçada, as cascas cavernosas e erodidas de armazéns e oficinas. Seus componentes preferidos da herança são caracterizados por um funcionalismo industrial implacavelmente prosaico e brutal, expresso em uma escala que esmaga a mente.

Em volta e em meio a esses esqueletos de dinossauros paleo-modernistas, ele tece uma teia requintada de estruturas maximamente desmaterializadas e semi-transparentes, enfatizando leveza, sutilidade, abertura e inovação. Comunicações digitais de banda larga, sistemas inteligentes de controle ambiental, trepadeiras nutridas de forma hidropônica, mobiliário hiper-projetado, uma decoração interior minimizadas com bom gosto e obras de arte sofisticadas completam a metamorfose.

A neomodernidade é, de uma só vez, mais modernidade e modernidade de novo. Ao sintetizar a mudança progressiva (acelerante) com uma recorrência cíclica, ela produz um esquema ou figura distintivo: a espiral do tempo. Mas isso é ficar um pouco além de nós mesmos…

Postscript
Com peculiar sincronia, meia hora após postar isso, uma cópia do ensaio ‘Reflections on Time and Related Ideas in the Yijing’ (“Reflexões sobre o Tempo e Ideias Relacionadas no Yijing”) de Wonsuk Chang chegou em minha caixa de entrada. O artigo termina:

“O tempo no Yijing pode servir a um propósito conservador – a saber, restaurar o passado. Mas ele também serve ao propósito criativo de produzir novidade. Esses dois aspectos do tempo não se contradizem um ao outro. Muitas passagens no Yijing, se não todas, expressam que aquilo que restaura o passado simultaneamente envolve algum elemento de criação nova. O processo começa a partir de seu movimento incipiente e finalmente alcança o ponto onde a novidade criativa emerge. Este processo evolutivo é aquele de uma espiral que avança, que sempre produz novidade, ao passo em que simultaneamente retorna de novo e de novo às fontes nascentes.”

Original.

Futurismo Duro

Você está pronto para a próxima grande (e sórdida) coisa?

Para qualquer um com interesses tanto no futurismo prático extremo quanto na renascença da Sinosfera, Hugo de Garis é um ponto de referência irresistível. Ex-professor de Computação Quântica Topológica (não pergunte) na Escola Internacional de Software da Universidade de Wuhan e mais tarde Diretor do Laboratório de Cérebros Artificiais da Universidade de Xiamen, a carreira de de Garis simboliza a emergência de uma fronteira tecnocientífica cosmopolita chinesa, onde a margem externa da possibilidade futurista se condensa em realidade de engenharia precisa.

O trabalho de de Garis é ‘duro’ não apenas porque envolve campos tais como Computação Quântica Topológica ou porque – de maneira mais acessível – ele tenha devotado suas energias de pesquisa à construção de cérebros em vez de mentes, ou mesmo porque ela tenha gerado questões mais rápido do que soluções. Em sua ‘semi-aposentadoria’ (desde 2010), duro-enquanto-difícil e duro-enquanto-hardware foram suplantados por duro-como-em-entorpecentemente-e-incompreensivelmente-brutal – ou, em suas próprias palavras, uma obsessão cada vez maior com a iminente ‘Gigamorte’ ou ‘Guerra de Artilectos‘.

De acordo com de Garis, a aproximação da Singularidade revolucionará e polarizará a política internacional, criando novos eleitorados, ideologias e conflitos. A dicotomia básica à qual tudo deve eventualmente sucumbir divide aqueles que adotam a emergência da inteligência trans-humana e aqueles que a resistem. Os primeiros ele chama de ‘cosmistas‘, os últimos, de ‘terranos’.

Uma vez que os massivamente amplificados e roboticamente reforçados ‘cosmistas’ ameaçam se tornar invencíveis, os ‘terranos’ não têm outra opção além da prevenção. Para preservar a existência humana em um estado reconhecível, é necessário suprimir violentamente o projeto cosmista antes de sua realização. O mero prospecto da Singularidade é, portanto, suficiente para provocar uma convulsão política – e, em última análise, militar – de escala sem precedentes. Um triunfo Terrano (o que poderia exigir muito mais do que apenas um vitória militar) marcaria um ponto de inflexão na história profunda, conforme a tendência supra-exponencial de produção terrestre de inteligência – que dura mais de um bilhão de anos – fosse rematada ou revertida. Uma vitória Cosmista significa o término do domínio da espécie humana e uma nova época nos processos geológico, biológico e cultural da terra, conforme a tocha do progresso material seja passada para o emergente techno sapiens. Com apostas tão altas, o esplendor melodramático da narrativa de de Garis arrisca atenuação, não menos do que hipérbole.

A giga-magnitude da contagem de corpos que de Garis postula para sua Guerra de Artilectos (intelectos artificiais) é a expressão do lado negro da Lei de Moore ou dos retornos crescentes kutzweileanos – uma extrapolação a partir de tendência históricas exponenciais, neste caso, dos números de vítimas de grandes conflitos humanos ao longo do tempo. Ela reflete a tendência cumulativa de guerras globais motivadas por ideologias trans-nacionais com ricos cada vez maiores. Um rei talvez seja muito parecido com outro, mas uma direção social totalitária é muito diferente de uma liberal (mesmo que tais caminhos sejam, em última análise, revisáveis). Entre uma ordem mundial Terrana e uma trajetória Cosmista até a Singularidade, a distinção se aproxima de um absoluto. O destino do planeta é decidido, com custos correspondentes.

Se o cenários de Guerra de Gigamorte de de Garis é preventivo em relação ao prospecto da Singularidade, sua própria intervenção é meta-preventiva – uma vez que ele insiste que a política mundial deveria ser antecipadamente reforjada a fim de prevenir o desastre iminente. A previsão da Singularidade se espalha para trás através de ondas de pré-adaptação que respondem, em cada estágio, a eventualidades que ainda se desdobrarão. A mudança se desenrola a partir do futuro, complicando a seta do tempo. Talvez não seja nenhuma coincidência que, entre os principais interesses de pesquisa de de Garis, esteja a computação reversa, onde a direcionalidade temporal é abalada no nível de engenharia precisa.

A etnia e a tradição cultural meramente se dissolvem ante a frente da maré deste Armagedom iminente? A questão não é de inteiro simples. Referindo-se a sua sondagem informação da opinião sobre a vindoura grande divisão, de Garis relembra sua experiência de ensino na China, observando:

Eu sei, a partir das palestrar que dei ao longo das últimas duas décadas sobre dominância da espécie, que, quando eu convido meu pública a votar sobre se eles são mais Terranos do que Cosmistas, o resultado normalmente é 50-50. … Primeiro, eu pensei que isto fosse uma consequência do fato de que a questão da dominância da espécie é nova demais, fazendo com que as pessoas não a entendessem realmente para votar de maneira quase aleatória – logo o resultado 50:50. Mas, gradualmente, me ocorreu que muitas pessoas se sentiam tão ambivalentes sobre a questão quanto eu. Tipicamente, a divisão Terrana/Cosmista iria de 40:60 até 60:40 (embora eu note que, com meu publico chinês muito jovem na ciência da computação, os Cosmistas estão em cerca de 80%).

Original.