Nossa Causa

"Então, sobre o que, realmente, é o Urbano Futuro?"

Basicamente isso:

Octopus City eating the world

(É isso que o capitalismo de compras pelos correios parecia ameaçar em 1939. A monstruosidade cefalocomercial tem que ter se tornado bem mais tentacular desde então. Imagem via @SlateVault.)


Original.

Artes da Reanimação

Há sempre algo enorme acontecendo em Shanghai — e geralmente várias coisas. Na vanguarda dos últimos dois anos [entre 2011 e 2013] estava o tsunami de desenvolvimento urbano ao longo da orla do Huangpu, ao sul do núcleo metropolitano de Puxi, em uma área que foi chamada de ‘Xuhui Riverside’ ou ‘West Bund’. A escala do que estava a caminho ali era (claro) absolutamente impressionante.

Uma mistura de novos complexos residenciais e torres prestigiosas estava em construção, e a orla imediata já tinha sido re-desenvolvida em uma faixa de parques e calçadões interconectados (que constituem os 8.4 km do ‘Shanghai Corniche’). Ao longo do rio, uma estética neo-moderna predomina, caracterizada por estruturas industriais pesadas elegantemente reaproveitadas: lajes de concreto, trilhos desativados e massivos guindastes de carga. Como em outros lugares na cidade, a Shanghai 1.0 peso-pesado foi divertidamente dobrada sobre si mesma, em uma celebração fina da herança modernista. O futuro é apresentado como um relançamento do passado. Para qualquer um que fique hipnotizado com espirais de tempo, é irresistível.

O papel atribuído às artes neste processo de reanimação urbana é especialmente notável. Mesmo em uma cidade repleta de delírios por conta de um crescimento explosivo do espaço artístico, a proliferação de galerias, teatros, museus e outros centros culturais no West Bund surge como um choque pouco compreensível. O rugido subsônico de sucção dessa nova capacidade cultural, emitida em ondas sobrepostas à medida em que amplia seu apetite devorador por toda a cidade e para muito além, atinge uma magnitude que parece dobrar o espaço e o tempo. Existem culturas nacionais inteiras no mundo que teriam sérios problemas para satisfazê-la.

A festa de inauguração desta infra-estrutura de artes foi realizada em uma escala adequadamente estupenda. A Westbund 2013: A Biennial of Architecture and Contemporary Art (“Westbund 2013: Uma Bienal de Arquitetura e Arte Contemporânea”) incluía um conjunto interligado de exposições, cada uma das quais teria sido deslumbrantemente impressionante por conta própria. A Sound Art China introduzia a vanguarda sônica do país em seu evento Revolutions Per Minute, instalado em quatro tanques de armazenamento de óleo renovados. O adjacente West Bund Exhibition Center — uma estrutura industrial reconstruída de proporções verdadeiramente ciclópicas — hospedava uma mostra de história do som / vídeo / arquitetura / cinema multifacetada dentro e ao redor de uma “Mega-Estrutura Inter-Mídia” central que correspondia totalmente ao seu nome grandioso. Uma exposição mais modesta sobre desenvolvimento urbano em um espaço de armazenamento próximo fazia o seu melhor para explicar as convulsões épicas que a área estava sofrendo. (Eu acho que a palavra apropriada é “impressionante”, ao cubo.)

Há apenas uma única conclusão razoável: Shanghai é o puro esplendor cósmico, compactado para aplicação terrestre e expresso através de uma sobrecarga estética. O cinismo pode aguarda uma outra ocasião.

Original.

Limites da Cidade

Há, sem dúvida, um caráter quixotesco no modo “a China deveria fazer X” de comentários externos, mas o pequeno artigo de Yukon Huang na Bloomberg, que aconselha a revisão das políticas de urbanização do país, representa o gênero em sua melhor forma. Observando os efeitos de aglomeração que produzem retornos desproporcionais de escala urbana, Huang recomenda um afastamento da proliferação de cidades menores e uma aproximação na direção do crescimento de megacidades.

A China já está em uma classe própria ao ser responsável por 30 das 50 maiores cidades do leste da Ásia. Ela possui meia dúzia de megacidades com populações de mais de 10 milhões e 25 cidades “grandes”, que excedem 4 milhões. Na verdade, porém, a única maneira pela qual a China alcançará os ganhos de produtividade desejados é se seus líderes permitirem que as cidades evoluam mais organicamente em resposta às forças do mercado. Eles precisam deixar cidades como Pequim ficarem maiores.

A concentração urbana cria problemas reais, mas estes são indistinguíveis dos desafios que qualquer processo genuíno de avanço socioeconômico tem que enfrentar. As soluções para esses problemas serão os mesmos passos que levarão o país adiante em território inexplorado — para além da “recuperação” e até os horizontes abertos do futuro. Tudo que se aprende da história econômica concreta sugere que as oportunidades tecnológicas e de negócios serão aumentadas exatamente pelas forças que promovem a aglomeração das megacidades — e, melhor ainda, a concentração ou intensidade urbana — a níveis historicamente sem precedentes. É assim — e onde — que a inovação social profunda ocorre.

Em vez de tentar ativamente espalhar o crescimento para pequenas cidades novas, os planejadores da China deveriam abraçar as economias de aglomeração, que militam por grandes metrópoles. À medida em que a terra e os custos salariais aumentam, algumas indústrias eventualmente gravitarão para cidades de tamanho médio, mas os serviços continuarão a impulsionar a expansão nas cidades maiores. Pessoas inteligentes gostam de se misturar com outras pessoas inteligentes, e a globalização ampliou seus retornos financeiros. Pequim e Shanghai continuaram a crescer por causa de serviços dinâmicos de alto valor, mesmo quando suas bases de produção encolheram. Tudo isso explica porque, na China, a produtividade nas áreas urbanas é mais de três vezes maior que nas áreas rurais.

Mas as megacidades da China não são grandes demais para serem sustentáveis? Na verdade, alguns especialistas urbanos concluíram que até mesmo as maiores cidades da China podem ser muito pequenas. Eles citam a “lei de Zipf”, uma das grandes curiosidades da pesquisa urbana. A lei, que é surpreendentemente precisa para muitos países, afirma que a maior cidade de um país deve ter o dobro do tamanho da segunda maior, três vezes o tamanho da terceira maior, e assim por diante. Com base nisso, as maiores cidades da China parecem muito pequenas.

Pensar através de leis de potência (como as de Zipf) afasta a ideia de tamanhos “normais” de cidades. A escala urbana ótima é decidida por efeitos de rede e depende de toda a ecologia social — regional, nacional e globalmente. O tamanho “ideal” de Shanghai, por exemplo, não pode ser derivado de algum modelo genérico de cidade, mas deve ser entendido, em vez disso, com referência ao papel singular que esta cidade desempenha como um ponto central em múltiplas redes — especialmente redes comerciais — dentro do qual ela acumula funções especializadas. À medida que essas teias se expandem e engrossam, seus nós críticos tendem a crescer e se intensificar espontaneamente. É natural, portanto, ao longo do processo de modernização global, que os limites da escala urbana fiquem cada vez maiores, de acordo com a sofisticação funcional dos centros cruciais do sistema, e os refinamentos associados de especialização que essas cidades-chave promovem.

Pequim está sujeita a teimosas restrições ambientais, com a limitação dos recursos hídricos sendo proeminente entre esses. Sua distância da costa também é um fator inibidor de crescimento. Shanghai, em contraste, está destinada à vastidão por tamanhas e implacáveis forças históricas que é difícil imaginar mesmo a resistência política mais determinada ficando no caminho por muito tempo. Como a capital comercial do país, qualquer distribuição em lei de potência da escala urbana começa com Shanghai no cume. Seria melhor se dobrar ao inevitável, e deixá-la se tornar o laboratório do mundo para intensidade urbana, traçando o avanço da modernidade até o Século do Pacífico. As recompensas por essa aceitação facilmente submergiriam os custos.

Original.

Criaturas Escalosas

Cidades são aceleradores e existem números sólidos para demonstrar isso

Entre as características mais memoráveis da World Expo 2010 de Shanghai estava o quinteto de ‘Pavilhões Temáticos’ projetados para facilitar a exploração da cidade em geral (condizentes com o tema orientado ao urbano do evento: ‘Cidade Melhor, Vida Melhor’). Ao passo em que muitos participantes internacionais sucumbiram ao populismo fácil em seus pavilhões nacionais, estes Pavilhões Temáticos mantiveram um tom impressionantemente elevado.

O mais notável de todos para a penetração filosófica era o Pavilhão do Ser Urbano, com sua exibição devotada à questão: que tipo de coisa é uma cidade? Redes de infraestrutura receberam um escrutínio especialmente focado. Canos, cabos, conduites e artérias de transporte compõem sistemas intuitivamente identificáveis – totalidades de nível mais elevado – que indicam fortemente a existência de um ser individualizado e complexo. A conclusão era resolutamente inescapável: uma cidade é mais do que uma massa agregada. Ela é um entidade singular e coerente, merecedora de seu nome próprio – até mesmo pessoal – e, não sem razão, concebida como uma ‘forma de vida’ composta (ainda que não exatamente um ‘organismo’).

Tais intuições, não importa o quão plausíveis, não são suficientes, em si mesmas, para estabelecer a cidade enquanto um objeto científico rigorosamente definido. “[A]pesar de muita evidência histórica de que as cidades são os motores principais da inovação e do crescimento econômico, um teoria quantitativa e preditiva para o entendimento de sua dinâmica e organização e para estimar sua trajetória futura e sua estabilidade permanece sendo elusiva”, observam Luís M. A. Bettencourt, José Lobo, Dirk Helbing, Christian Kühnert e Geoffrey B. West, em seu prelúdio a um artigo de 2007 que fez mais do que qualquer outro para remediar o déficit: ‘Growth, innovation, scaling, and the pace of life in cities‘.

Neste artigo, os autores identificam padrões matemáticos que são, de uma só vez, distintivos do fenômeno urbano e aplicáveis de maneira geral a ele. Eles, assim, isolam o objeto de um uma ciência urbana emergente e esboçam suas características iniciais, alegando que: “a organização e a dinâmica social que relacionam a urbanização ao desenvolvimento econômico e à criação de conhecimento, entre outras atividades sociais, são muito gerais e aparecem como regularidades quantitativas não triviais, comuns a todas as cidades, através de sistemas urbanos”.

Observando que as cidades frequentemente foram analogizadas a sistemas biológicos, o artigo extrai o princípio que suporta a comparação. “Notavelmente, quase todas as características fisiológicas de organismos biológicos variam em escala junto à massa corporal… como uma lei de potência cujo expoente é tipicamente um múltiplo de 1/4 (que se generaliza para 1/(d+1) em d dimensões)”. Estas relações escalares relativamente estáveis permitem que características biológicas, tais como taxas metabólicas, expectativas de vida e períodos de maturação sejam antecipadas com um alto nível de confiança, dada apenas a massa corporal. Além disso, elas se conformam a uma elegante série de expectativas teóricas que não se baseiam em nada além das restrições organizacionais abstratas em uma espaço n-dimensional:

“Estruturas altamente complexas e auto-sustentadoras, sejam células, organismos ou cidades, exigem uma integração estreita de enormes números de unidades constituintes que precisam de manutenção eficiente. Para realizar esta integração, a vida em todas as escalas é sustentada por redes ramificadas otimizadas, preenchedoras de espaço e hierárquicas, que crescem com o tamanho do organismo enquanto estruturas exclusivamente especificadas e aproximadamente auto-similares. Uma vez que estas redes, por exemplo, os sistemas vasculares de animais e plantas, determinam as taxas nas quais a energia é entregue às unidades funcionais terminais (células), elas estabelecem o ritmo dos processos fisiológicos enquanto funções escalares do tamanho do organismo. Desta forma, a natureza auto-similar das redes de distribuição de recursos, comuns a todos os organismos, fornece a base para uma teoria quantitativa e preditiva da estrutura e dinâmica biológica, apesar de muita variação externa em aparência e forma.”

Se as cidades são, em certos aspectos, meta- ou super-organismos, contudo, elas também são o inverso. Metabolicamente, cidades são anti-organismos. Conforme os sistemas biológicos aumentam em escala, eles ficam mais lentos, em uma taxa matematicamente previsível. As cidades, em contraste, se aceleram conforme crescem. Algo que se aproxima da lei fundamental da realidade urbana é, assim, exposto: maior é mais rápido.

O artigo quantifica suas descobertas, embasadas em uma base substancial de dados urbanos (com as cidades dos EUA sobre-representadas), ao especificar um ‘expoente escalar’ (ou ‘ß’, beta), que define a correlação regular entre escala urbana e o fato sob consideração.

Um beta de 1 corresponde a uma correlação linear (entre uma variável e o tamanho da cidade). Por exemplo, descobriu-se que a oferta de habitação, que permanece constantemente proporcional à população ao longo de todas as escalas urbanas, tem – sem surpresas – um ß = 1.00.

Um beta menor que 1 indica um economia de escala consistente. Tais economias são encontradas sistematicamente entre redes urbanas de recursos, exemplificadas por postos de gasolina (ß = 0.77), vendas de gasolina (ß = 0.79), comprimento de cabos elétricos (ß = 0.87) e superfície de estradas (ß = 0.83). A correlação sub-linear entre os custos dos recursos e a escala urbana torna a vida citadina cada vez mais eficiente, conforme a intensidade metropolitana se eleva.

Um beta maior que 1 indica retornos crescentes de escala. Fatores que exibem este padrão incluem inventividade (por exemplo, ‘novas patentes’ ß = 1.27, ‘inventores’ ß = 1.25), criação de riqueza (por exemplo, ‘PIB’ ß = 1.15, salários ß = 1.12), mas também doenças (‘novos casos de AIDS’ ß = 1.23) e crimes sérios (ß = 1.16). O crescimento urbano é acompanhado por um aumento supra-linear em oportunidades de interação social, sejam elas produtivas, infecciosas ou maliciosas. Mais não é apenas melhor, é muito melhor (e, em alguns aspectos, pior).

“Nossa análise sugere dinâmicas sociais humanas únicas, que transcendem a biologia e redefinem as metáforas do ‘metabolismo’ urbano. A criação em aberto de riqueza e conhecimento exige que o ritmo da vida aumente com o tamanho organizacional e que os indivíduos e instituições se adaptem em uma taxa continuamente acelerante para evitar estagnação e potenciais crises. Estas conclusões muito provavelmente se generalizam para outras organizações sociais, tais como corporações e empresas, potencialmente explicando por que o crescimento contínuo necessita de uma esteira acelerante de ciclos dinâmicos de inovação.”

Cidade maior, vida mais rápida.

Original.

Implosão

Poderíamos estar à beira de uma implosão catastrófica – mas isso é OK

A ficção científica tem tendido à extroversão. Na América especialmente, onde ela encontrou um lar natural entre um povo incomumente orientado ao futuro, o objeto icônico da FC foi indisputavelmente a nave espacial, que parte dos confins da Terra para fronteiras sem entraves. O futuro era medido pelo enfraquecimento do fosso de gravidade terrestre.

O cyberpunk, chegando na metade dos anos 1980, causou um choque cultural. O Neuromancer de William Gibson ainda incluía alguma atividade espacial (na órbita da Terra) – e até mesmo uma comunicação de Alpha Centauri – mas suas jornadas agora se curvavam para dentro do espaço interior de sistemas computacionais, projetadas através dos tratos desprovidos de estrelas do Ciberespaço. A comunicação interestelar contornava espécies biológicas e ocorria entre inteligências artificiais planetárias. Os Estados Unidos da América pareciam ter desaparecido.

Espaço e tempo haviam colapsado na ‘matriz do ciberespaço’ e no futuro próximo. Mesmo as distâncias abstratas do utopismo social haviam sido incineradas nos núcleos de processamento de micro-eletrônicos. Julgado pelos critérios da ficção científica mainstream, tudo em que o cyberpunk tocava estava passando raspando e ficando ainda mais perto. O futuro havia se tornado iminente e colado.

As cidades de Gibson não haviam acompanhado sua visão mais ampla – ou estreita. Os espaços urbanos de sua Costa Leste da América do Norte ainda eram descritos como ‘The Sprawl’, como se encalhados em um estado de extensão que rapidamente ficava obsoleto. As forças esmagadoras da compressão tecnológica haviam pulado para além da geografia social, sugando toda a animação histórica das cascas decadentes do ‘espaço de carne’. Construções eram relíquias, contornadas pela vanguarda da mudança.

(As referências de Gibson a cidades asiáticas, contudo, são bem mais intensas, inspiradas por inovações em compressão urbana tais como a Kowloon Walled City, e os ‘hotéis caixão’ japoneses. Além disso, os urbanistas desapontados pela primeira onda do cyberpunk têm toda razão para prosseguir até Spook Country, onde a influência da tecnologia de GPS sobre a reanimação do espaço urbano nutre especulações altamente férteis.)

Cruzeiros estelares e civilizações alienígenas pertencem à mesma constelação da ficção científica, reunidas pela suposição do expansionismo. Assim como, no âmbito da ficção, esse futuro de ‘ópera espacial’ colapsou no cyberpunk, na ciência (mais ou menos) mainstream – representada pelos programas do SETI – ele pereceu no deserto do Paradoxo de Fermi. (OK, é verdade, o Urbano Futuro tem uma obsessão bizarramente nerd com este tópico.)

A solução de John M. Smart para o Paradoxo de Fermi é integral às suas mais amplas ‘Especulações sobre a Cultura Cósmica’ e emerge naturalmente do desenvolvimento compressivo. Inteligências avançadas não se expandem espaço adentro, colonizando vastos tratos galáticos ou dispersando sondas-robô auto-replicantes em um programa de exploração. Em vez disso, elas implodem, em um processo de ‘transcensão’ – provendo seus próprios recursos primariamente através dos ganhos hiper-exponenciais de eficiência da miniaturização extrema (através da engenharia de escala micro, nano e até femto, de componentes funcionais subatômicos). Tais culturas ou civilizações, nucleadas por sobre uma inteligência tecnológica auto-aumentadora, emigram do universo extensivo na direção da intensidade abismal, esmagando a si mesmas até densidades de buracos negros, na borda da possibilidade física. Através da transcensão, elas se retiram da comunicação extensiva (embora, talvez, deixem ‘fósseis radiofônicos’ para trás, antes que eles parem de piscar, indo para o silêncio da fuga cósmica).

Se as especulações de Smart capturam os contornos básicos de um sistema de desenvolvimento atraído pela densidade, então se deveria esperar que as cidades seguissem um caminho comparável, caracterizado por uma fuga para dentro da interioridade, uma viagem interior, involução ou implosão. Aproximando-se da singularidade em uma trajetória acelerante, cada cidade se torna cada vez mais voltada para dentro, conforme se torna presa da irresistível atração de sua própria intensificação hiperbólica, ao passo que o mundo exterior desvanece em estática irrelevante. Coisas desaparecem em cidades, em um caminho de partida do mundo. Sua destinação não pode ser descrita dentro das dimensões do universo conhecido – e, com efeito, tediosamente familiar demais. Apenas no interior exploratório profundo é que a inovação ainda está ocorrendo, mas ali ela tem lugar a uma taxa infernal e que derrete o tempo.

O que um desenvolvimento urbano de tipo Smart poderia sugerir?

(a) Devo Previsibilidade. Se o desenvolvimento urbano não é nem aleatoriamente gerado por processos internos, nem arbitrariamente determinado por decisões externas, mas sim guiado predominantemente por um atrator de desenvolvimento (definido primariamente pela intensificação), se segue que o futuro das cidades é, pelo menos parcialmente, autônomo em relação às influências política nacional, econômica global e arquitetônica cultural que são frequentemente invocadas como fundamentalmente explicativas. O urbanismo pode ser facilitado ou frustrado, mas suas principais ‘metas’ e caminhos práticos de desenvolvimento são, em cada caso individual, interna e automaticamente gerados. Quando uma cidade ‘funciona’, não é porque ela se conforma a um ideal externo e discutível, mas sim porque ela encontrou uma rota para a intensificação cumulativa que projeta fortemente seu ‘próprio’ caráter urbano, singular e intrínseco. O que uma cidade quer é se torna ela mesma, mas mais – levando a si mesma mais adiante e mais rápido. Apenas isto é o florescimento urbano, e entendê-lo é a chave que destranca a forma do futuro de qualquer cidade.

(b) Metropolitanismo. O nacionalismo metodológico tem sido sistematicamente sobre-enfatizado nas ciência sociais (e não apenas às custas do individualismo metodológico). Uma variedade de pensadores urbanos influentes, de Jane Jacobs a Peter Hill, buscaram corrigir este viés, ao focar na significância e parcial autonomia de economias urbanas, culturas urbanas e da política municipal para a prosperidade, a civilização e as eras douradas. Eles estavam certos em fazê-lo. O crescimento das cidades é o fenômeno sócio-histórico básico.

(c) Introversão Cultural. John Smart argumenta que uma inteligência que sofre um desenvolvimento relativista avançado acha a paisagem externa cada vez menos informativa e absorvente. A busca por estímulo cognitivo a atrai para dentro. Conforme as culturas urbanas evoluem, através de uma complexidade social acelerante, pode-se esperar que elas manifestem exatamente este padrão. Seus processos internos de implosão desembestada de inteligência se tornam cada vez mais emocionantes, cativantes, surpreendentes, produtivos e educacionais, ao passo que a paisagem cultural mais ampla fica para trás no tédio previsível, de relevância meramente etnográfica e histórica. A singularidade cultural se torna cada vez mais urbana-futural (em vez de etno-histórica), para o previsível descontentamento dos estados-nação tradicionais. Como o Ciberespaço Terrestre de Gibson, que encontra outro de seu tipo em uma órbita ao redor de Alpha Centauri, a conectividade cosmopolita é criada através da viagem interior, ao invés da extensão expansiva.

(d) Ressonância de Escala. No nível mais abstrato, a relação entre urbanismo e microeletrônicos é escalar (fractal). Os computadores por vir estão mais próximos de cidades em miniatura do que de cérebros artificiais, dominados por problemas de tráfego (congestionamento), migração / comunicação, questões de zoneamento (uso misto), o potencial de engenharia de novos materiais, questões de dimensionalidade (soluções 3D para restrições de densidade), dissipação de entropia ou calor / desperdício (reciclagem / computação reversível) e controle de doenças (novos vírus). Uma vez que as cidades, assim como computadores, exibem um desenvolvimento (filogenético acelerante) dentro de um tempo histórico observável, elas fornecem um modelo realista de melhoria para máquinas compactas de processamento de informação, sedimentado como uma série de soluções práticas para o problema da intensificação implacável. A emulação do cérebro poderia ser considerada uma meta computacional importante, mas ela é quase inútil enquanto modelo de desenvolvimento. Tecnologias microeletrônicas inteligentes contribuem para o processo em aberto da solução de problemas urbanos, mas elas também a recapitulam em um novo nível.

(e) Matriz Urbana. O desenvolvimento urbano exibe a real embriogênese da inteligência artificial? Em vez da Internet global, da Skynet militar, ou de um programa de IA com origem em um laboratório, seria o caminho da cidade, embasado em intensificação acelerante (compressão STEM), que melhor fornece as condições para a computação sobre-humana emergente? Talvez a principal razão para pensar assim seja que o problema da cidade – administração e acentuação de densidade – já a compromete à engenharia computacional, antes de qualquer pesquisa deliberadamente guiada. A cidade, por sua própria natureza, se comprime, ou intensifica, em direção ao computrônio. Quando a primeira IA falar, poderia ser em nome da cidade que ela identifica como seu corpo, embora mesmo isso fosse pouco mais do que um ‘fóssil radiofônico’ – um sinal anunciando a beira do silêncio – conforme o caminho da implosão se aprofunda e desaparece dentro do interior alienígena.

Original.