China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial

Países emissores de moedas de reserva são constantemente confrontados com o dilema entre alcançar suas metas domésticas de política monetária e atender à demanda por moedas de reserva dos outros países. […] O Dilema de Triffin, isto é, os países emissores de moedas de reserva não conseguirem manter o valor das moedas de reserva enquanto fornecem liquidez para o mundo, ainda existe. —Zhou Xiaochaun

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O que as tecnologias da energia à vapor foram para a época de dominância global britânica, e os desenvolvimentos de mão dupla da eletricidade e do automóvel para a subsequente Era Americana, a eletrônica digital — e, mais especificamente, a Internet — são para a "ascensão da China" e para o mundo remodelado que ela epitoma. É apenas de se esperar, portanto, que a intersecção entre a Nova China da Abertura-e-Reforma pós-1979 e a Internet possibilitada pela World Wide Web pós-1990 seja um objeto de particular fascínio internacional e de preocupações práticas.

Desde a aurora da época moderna, a hegemonia geopolítica tem sido associada cada vez mais intensamente à liderança tecno-econômica, o que, por sua vez, tem se refletido no status de reserva internacional de uma seleta moeda nacional. Uma ordem monetária mundial cada vez mais explicitamente formalizada tem convertido intuições convincentes, mas obscuras, de prestígio nacional relativo em uma sistema inequívoco de relações financeiras, no qual uma posição de supramacia é claramente estabelecida, com um papel definido e singular.

As suspeitas fomentadas pela liderança não são menos inevitáveis do que a liderança em si. Por razões históricas facilmente inteligíveis, o establishment político francês tem sido um crítico especialmente vociferante do status de reserva internacional e de seu "privilégio exorbitante"[1] de senhoragem — o ‘direito’ espontâneo de emitir papéis promissórios em troca de bens e serviços reais, sem qualquer prospecto definido de resgate. Pode haver pouca dúvida de que tal crítica articula preocupações amplamente mantidas para além do mundo anglófono, e sua substância merece uma exame sério.

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Dos blocos construtivos indispensávels para o futuro próximo, a China e a Internet têm uma proeminência especial. Há inúmeros lugares em que a China encontra a Web, começando com o crescimento expansivo, multidimensional e explosivo da Internet chinesa em si. O Bitcoin é um fio recente e ainda relativamente esguio na tapeçaria da mudança global, mas ao se puxar ele, algumas características centrais do mundo emergente podem ser colocadas em foco.

Em meio às características que o yuan chinês e o bitcoin compartilham é que nenhum deles é o dólar dos EUA. Especificamente, ambos são alternativas limitadas e, contudo, práticas, ao dólar, pelo menos no nível de tomada de decisão microeconômica. Quando se levantam questões sobre a durabilidade do papel internacional do dólar, pode-se prever com confiança que um ou ambos desses desafiantes será invocado. O dólar morrer por gelo ou fogo, hoje, é ele sucumbir a uma substituição geopolítica (pelo yuan chinês) ou a uma obsolescência tecno-financeira (por parte de alguma cripto-moeda descentralizada, embasada na Internet).

O status internacional do dólar dos EUA concentra duas tendência multi-seculares. Primeiramente, ele representa a peculiaridade etno-geográfica da modernidade, que – até o final do século XX, pelo menos – tendeu a inclinar o poder global não apenas na direção do Oeste ou Ocidente, mas mais especificamente em direção às nações do Atlântico Anglófono, reúnidas, em última análise, sob a liderança americana. Desde o declínio do dólar espanhol, que monetizou o tesouro do Novo Mundo como a primeira moeda global, as finanças internacionais têm sido principalmente denominadas na moeda de uma nação falante do inglês. Não coincidentemente, elas têm, assim, sido fortemente associada a um conjunto de temas culturais específicos, que incluem o cristianismo protestante (filo-semítico), a mão invisível, o livre comércio e a democracia liberal. A institucionalização das finanças mundiais tem estado intimamente conectada com a promoção de uma orientação cultural distinta – e, para muitos, uma que é distintamente questionável.

Em segundo lugar, a formalização de uma ordem monetária global tem sido acompanhada por uma politização incremental do dinheiro, ou seja, pela consolidação de uma política monetária como uma função central do governo. Com o estabelecimento dos bancos centrais e a desmetalização da moeda, a escassez intrínseca é substituída por uma "promessa de pagar" institucional, o que converte o dinheiro de um ativo tangível para uma responsabilidade contratual. A confiança pública no valor do dinheiro é convertida em uma responsabilidade governamental. Torna-se política, e – no contexto de uma moeda de reserva mundial – geopolítica.

Em combinação, essas tendências são inevitavemente provocativas, uma vez que concentram o destino financeiro do mundo em mãos seletas e identificavelmente não-representativas. Por trás da neutralidade estudada das instituições de Bretton Woods (o FMI e o Banco Mundial) está o dólar dos EUA como o símbolo de excepcionalismo americano e da pecualiaridade concreta da ordem mundial moderna.

Embora seja natural — e até mesmo inevitável — que o comando político da moeda de reserva internacional seja entendido como a pedra angular moderna da hegemonia geopolítica, esse não é um privilégio que se pode separar de penosas responsabilidades, ou de profundas ambiguidades. Estas foram claramente reconhecidas desde os anos 1960, quando o economista belga-americano Robert Triffin formulou o paradoxo ou dilema que leva seu nome: que se governos internacionais forem acumular reservas na moeda de uma nação selecionada, essa nação deve necessariamente ser uma exportadora líquida de dinheiro — o que só pode ser alcançado ao se operar com uma balança comercial negativa. Uma nação que emita uma moeda de reserva internacional assume a responsabilidade pela liquidez monetária global. Isso a obriga a consumir mais do que produz, a fim de que a diferença seja disponibilizada como dinheiro mundial. Embora esse requisito seja mera senhoriagem, visto pelo outro lado, a restrição que ele impõe às opções da política econômica doméstica são tão estritas que equivalem quase a um destino.

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Essas restrições são transformadas em um dilema destrutivo pelo fato de que a estrutura política obrigatória exigida para suprir o mundo de liquidez tende a destruir a confiança na moeda ao mesmo tempo, minando, portanto, o seu valor. Déficits crônicos na balança de pagamentos sinalizam fraqueza da moeda, pois normalmente seriam interpratados como um sinal de que a moeda está supervalorizada (ou que necessita de desvalorização). Para o emissor de uma moeda de reserva global, contudo, respostas políticas convencionais a essa situação estão bloqueada em ambas as direções, uma vez que ele não pode nem tomar medidas para fechar o déficit, tampouco tentar fortalecer a moeda através da elevação de taxas de juros. Uma vez que para o emissor de uma moeda de reserva o déficit comercial é uma constante, em vez de uma variável, uma desvalorização meramente incita uma competitiva destruição monetária mundial. Medidas de fortalecimento, por outro lado, trazem dinheiro do exterior (demonominado na moeda internacional) e, assim, expandem ainda mais a demanda por emissão, que só pode ser satisfeita com uma ampliação do déficit comercial.

Em outras palavras, o Dilema de Triffin reconhece que a demanda internacional por uma moeda de reserva é inerentemente paradoxal. O que se busca é a moeda como se ela não fosse suprida através de desequilíbrios comerciais crônicos, e, no entanto, esses mesmos desequilíbrios são o único canal através do qual ela pode de fato ser suprida.

A "Chimérica" exemplifica perfeitamente as características essenciais da situação. Os dois trilhões de dólares americanos de reservas da China correspondem a um excedente cumulativo na balança de pagamento precisamente da mesma soma, uma vez que isso é simplesmente o que são as reservas. Quando percebida de maneira apreciativa — o que era bem mais fácil nas décadas finais do século XX do que nas primeiras décadas do século XXI — a Chimérica tem sido um arranjo econômico complementar, através do quala América alcançou altos níveis de consumo acoplados a uma inflação de preços contida, ao passo em que a China realizou um desenvolvimento econômico orientado a exportações e à modernização revolucionária que a eludiu durante 150 anos. Para olhos mais invejosos, o mesmo arranjo é uma armadilha que casou a desindustrialização americana com a devastação ambiental chinesa, ao passo em que alimentava uma incontinência fiscal insustentável na América e uma bolha de investimentos chinesa. Qualquer das duas imagens que tenha maior realismo, provavelmente pode-se concluir com segurança que a dissimetria imposta por uma moeda de reserva internacional tem consequências extensas e ambíguas.

Cinicamente, seria possível argumentar que o aspecto tributário de um status de moeda de reserva é coincide perfeitamente com profundas tradições chinesas nas relações internacionais, de modo que uma ascenção ao privilégio exorbitante embasado no yuan seria uma meta geopolítica natural para o Reino do Meio, conforme ele restaurasse sua posição central no mundo. De maneira mais realista, contudo — pelo menos no curto prazo — é um reconhecimento de que a perda do controle sobre a política econômica doméstica é uma consequência inevitável e bem entendida da hegemonia monetária global, e uma que o governo chinês certamente achará inaceitável. Quaisquer que sejam os custos (primariamente ambientais) associados com o papel de "fábrica do mundo", eles são imensamente compensados, da perspectiva chinesa, pelas vantagens. É do lado tributário do resgistro da moeda internacional de reserva, no qual a China esteve por mais de quatro décadas, que todos os vetores cruciais de desenvolvimento são encontrados — absorção tecnológica, aprofundamento da infraestrutura, industrialização, urbanização, emprego e até mesmo capacidade militar.

Se a Chimérica está sendo demolida, isso tem bem menos a ver com qualquer tipo de desafio chinês — mesmo um que seja espontâneo e não intencional — do que com uma estrutura trágica inerente à hegemonia monetária. Assim como a hubris leva à nemesis, igualmente o privilégio monetário exorbitante leva à crise, e até mesmo à ruína. Nos antecedentes tanto espanhol quanto britânico, a supremacia financeira se tornou auto-derrotadora, porque exportar dinheiro (em vez de coisas) dava uma vantagem diferencial para competidores industriais, fixando o declínio social secular. Não há nenhuma razão convincente para se acreditar que a América tenha se isentado do mesmo padrão agourento.

Em 29 de março de 2009, na esteira da crise financeira, Zhou Xiaochaun, governador do Banco Popular da China, fez um importante discurso entitulado "Reform the International Monetary System" ("Reforme o Sistema Monetário Internacional", em tradução livre). Ele se referiu explicitamente ao Dilema de Triffin como a chave para se entender a instabilidade econômica do mundo, ao passo em que sugeria que uma mudança para além da hegemonia do dólar dos EUA seria, em última análise, necessária para remediá-la. A este respeito, sua palavras se conformaram a uma tradição que remonta a mais de meio século, até às negociações do Bretton Woods, quando John Maynard Keynes recomendou a introdução de um meio monetário global neutro — a ser chamado de bancor — que tornasse a oferta de liquidez global independente de moedas nacionais.

Historicamente, moedas de reserva internacional não surgiram de propósito. Seria possível argumentar, portanto, que o bancor keynesiano era um remendo tecnocrático irrealista, cego ao impulso espontâneo que já havia tornado o mundo dolarizado um fato não negociável, mesmo antes que os procedimentos de Bretton Woods tivessem começado. Isso não impediu que a mesma ideia básica reemergisse de formas diferentes, a mais proeminente das quais são os DESs (Direitos Especiais de Saque) do FMI, regularmente propostos como o embrião de uma moeda internacional neutra. Foi ainda para os DESs que Zhou se voltou quando buscava por um candidato para uma moeda mundial neutra.

Talvez alguma solução tecnocrática para o problema da hegemonia monetária venha ser finalmente encontrado, mas em caso positivo, ele marcaria um afastamento sem precedentes da história financeira mundial. Se, como tem sempre sido o caso até o momento, marés econômicas para além do controle político devam determinar tais resultados, é compreensível que a atenção deva flutuar em direção ao yuan chinês como eventual substituto para o dólar dos EUA. No entanto, as lições da história estão disponíveis para os formuladores de políticas, mesmo quando a lição mais insistente diz respeito a limitações à sua própria influência e, nesse caso, a principal delas é de que o prospecto de um yuan com status de reserva internacional apresenta à China um cálice envenenado. É muito improvável que ele seja aceito de bom grado.

Alguma evolução espontânea alternativa na natureza do dinheiro poderia levar esse dilema geopolítico crítico em uma nova direção? Tal evolução parece estar ocorrendo, simbolizada pelo bitcoin, o primeiro exemplo na história de uma cripto-moeda digital descentralizada. Para a China, o bitcoin — ou algo comparável a ele — poderia ser a única maneira de se evadir de uma suposição de privilégio econômico global cuja essência é uma ruinosa hubris.

Como o rei sagrado de James Frazer, que é coroado afim de ser sacrificado, o significado interior da hegemonia monetária é destruição econômica e social. A China estende isso bastente claramente e, conforme a era do dólar chegue a um fim, ela está buscando uma saída. É assim que a estória da China e do bitcoin realmente começa.


Notas

[1] Cunhado por Valéry Giscard d’Estaing, durante seu serviço como ministro de finanças francês na década de 1960. Vide: http://www.j-bradford-delong.net/movable_type/2005-3_archives/000397.html (acessado em 29 de abril de 2014).


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Dores de Cabeça Hegemônicas

… há, sem dúvidas, uma série delas. Uma que se destaca por sua clareza conceitual, contudo, é o Dilema de Triffin. Formulado por Robert Triffin e divulgado em testemunho ao Congresso dos EUA em 1960, ele se baseia na simples necessidade aritmética de que qualquer país cuja moeda seja privilegiada com o status de reserva mundial é compelido a incorrer em déficits comerciais crônicos, a fim de fornecer liquidez monetária global. A hegemonia econômica mundial é, portanto, inseparável de uma perda de controle sobre a política monetária doméstica — uma vez que medidas que poderiam ser requeridas para sustentar o valor da moeda comumente seriam inconsistentes com a responsabilidade de se exportar dinheiro (através de um saldo atual em conta negativo).

A ‘Chimérica‘ é o Dilema de Triffon exemplificado em uma forma binária conveniente. Por um lado, a liderança econômica e o ‘privilégio exorbitante’ da senhoriagem (através da qual meros signos financeiros são trocados por produtos e serviços substanciais), por outro, a disfunção na política econômica e a desindustrialização, conforme a atividade empresarial americana é terceirizada para a China em troca de uma dominância monetária simbólica. Neste processo e paradoxo do poder, a atual instanciação da ordem mundial é capturada em suas características essenciais. A maneira em que a modernidade funciona, atual e concretamente, não pode ser tornada inteligível sem referência a Triffin.

A implicação forte do Dilema de Triffin — talvez até mesmo ‘Paradoxo de Triffin’ — é que a hegemonia monetária global é, em última análise, ruinosa para a nação financeiramente soberana. Ele envolve algo similar a um análogo ou variante econômica da ‘endo-colonização’ de Paul Virilio, que "acontece quando um poder político se volta contra seu próprio povo", progredindo suavemente da predação para a auto-canibalização. O ‘privilégio exorbitante’ de acessar recursos reais em troca de mero papel promissório é mantido apenas ao custo de uma terceirização absoluta — uma divisão internacional do trabalho na qual o mestre é compelido a se especializar em signos financeiros, submetendo-se a uma atrofia acelerante da capacidade produtiva. Uma moeda de reserva internacional é, portanto, auto-esvaziadora, em uma ciclo causal vicioso que substitui por pura proeza política — prestígio simbólico — as vantagens industriais que originalmente a promoviam. A cultura que ela impõe acentua o consumismo, a politização financeira e a sensibilidade histérica às vicissitudes dos signos. No final, apenas a mágica do poder permanece.

O caminho para fora dessa estrutura em deterioração foi há muito vislumbrada como uma moeda internacional politicamente administrada, seja o ‘bancor’ keynesiano, ou os DESs (Direitos Especiais de Saque) do FMI. O apelo que tal esquema faz a uma governança internacional coerente excedeu confiavelmente a praticidade diplomática e política. É notável, contudo, que uma certa fantasia globalista seja previsivelmente gerada pelas pressões da hegemonia da moeda, independentemente de todos os compromissos ideológicos anteriores ou posteriores.

Se a hegemonia do dolar dos EUA é insustentável, e os remédios globalistas estão realisticamente inacessíveis, a ordem econômica mundial tem um horizonte catastrófico. De maneira crucial: com a hegemonia da moeda agora entendida como uma armadilha, não pode-se esperar que nenhum regime nacional são se proponha como a próxima América. O que quer que esteja esperando para além do show de mágica tem que ser algo novo. É sob essas condições que — ‘coincidentemente’ — as primeiras crito-moedas digitais pós-nacionais e radicalmente despolitizadas começaram a aparecer no palco mundial…

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A Tentação do Vazio (Parte 3b)

Ameaça no oeste

Reconhecendo a vantagem inicial obtida pelos soviéticos com seus grandes motores de foguetes, o que lhes dá muitos meses de tempo de dianteira, e reconhecendo a probabilidade de que eles explorarão essa dianteira durante algum tempo por vir em sucessos ainda mais impressionantes, não obstante é necessário que façamos novos esforços próprios. Pois, embora não possamos garantir que um dia seremos os primeiros, podemos garantir que qualquer falha em fazer esse esforço nos fará sermos os últimos. Assumimos um risco adicional, ao fazê-lo à vista de todo o mundo, mas, como demonstrado pelo feito do astronauta Shepard, esse risco aumenta nossa estatura quando somos bem-sucedidos. Mas isso não é meramente uma corrida. O espaço está aberto para nós agora; e nossa ânsia de compartilhar de seu significado não é governada pelos esforços de outrem. Nós vamos para o espaço porque o que quer que a humanidade deva empreender, os homens livres devem compartilhar plenamente. (…) Acredito que esta nação deve comprometer-se a atingir o objetivo, antes que esta década termine, de pousar um homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra em segurança.
John F Kennedy

“The Bow of Ulysses” [de James Anthony Froude]… endossa o velho colonialismo, relembrando nostalgicamente dos dias em que a Grã-Bretanha não era um império, mas sim em que os colonialistas britânicos eram piratas e bandoleiros, que roubavam, conquistavam e eventualmente governavam, gradualmente fazendo a transição de uma bandidagem móvel para uma bandidagem estacionária, sem que o governo britânico prestasse muita atenção. Em “The Bow of Ulysses”, Froude condena o imperialismo do século XIX como impraticavelmente de esquerda, e inevitavelmente levando à destruição do império britânico e, assim, à ruína dos súditos do império britânico, tudo que se seguiu como ele imaginou… Os imperialistas, aqueles que defendiam o Império Britânico, eram a esquerda, e os colonialistas eram a direita. E os colonialistas corretamente previram que se isso continuasse, teríamos a esquerda que temos agora – um dos muitos fatos estranhos que se encontra quase se lê livros antigos.
James A Donald

As peculiaridades da ‘corrida espacial’ ainda estão por se desenrolar totalmente. Através de sua extraordinária formalidade, que reduz as ambições extraterrestres a um binário, a concorrência internacional colocou o primeiro homem na Lua, ela parece – restrospectivamente – dever mais à cultural e à história dos esportes organizados do que a realizações tecnológicas e econômicas. Haveria, por definição, um vencedor e um perdedor, ou seja, uma decisão booleana, convencional e indiscutível. E então ela acabaria. Talvez ela fosse vista como se apontasse para algo além, mas, na verdade, a Lua era uma linha de chegada.

Dentro de um contexto geo-estratégico amplo, a corrida espacial era um sintoma de um impasse. Uma história moderna da guerra que havia descendido de maneira inexorável de um jogo restrito de príncipes até uma guerra total desencadeada, em meio a povos ideologicamente motivados, tendo como alvo suas instituições básicas, suas infraestruturas industriais e até mesmo raízes demográficas, havia se consumado – virtualmente – no potencial MAD para um extermínio rápido e recíproco. Sob essas circunstâncias, uma sublimação regressiva era exigida, transmitindo conflitos através de representantes cavalheirescos – até mesmo heróis homéricos – que competiam em nome das populações super-letais que eles aplacavam. O vôo de um astronauta simbolizava um antagonismo, substituindo um ataque nuclear. Neste sentido, a vitória na corrida espacial era um pagamento adiantado mal disfarçado da conclusão da Guerra Fria.

Essa sublimação é apenas metade da estória, contudo, porque um duplo deslocamento ocorreu. Ao passo em que a corrida espacial substituição um resultado militar por um desenlace formal (cavalheiresco), ela também marginalizou o prospecto há muito vislumbrado da colonização espacial informal, substituindo-o por um objetivo predominantemente convencional (ou sócio-político). O preço de um triunfo inequívoco foi um ‘triunfo’ que recaiu na real ambiguidade de um (mero) simbolismo, com tentações de negação da realidade, pós-modernismo e ‘fraude lunar’ já surgindo. Quando não se ganha nada além da vitória, dificilmente poderia ser de outra forma. Um campeão não é um colono, ou qualquer coisa próxima de um.

Qual é essa ambiguidade real? Ela começa na fronteira, com uma série de questões que vão além do significado da corrida espacial e para dentro da identidade da América. Como um país estabelecido dentro da época moderna e, assim, exaustivamente determinado pelas dinâmicas do colonialismo, a América foi condensada a partir de uma fronteira.

Em um parêntese estendido, vale a pena notar explicitamente que a população aborígene do continente ainda não era a América, mas algo anterior e outro, encontrado na fronteira. A ideia de um ‘Nativo Americano’ é um exercício de desorientação histórica, quando não é meramente um oxímoro impensado. Isso não é sugerir que essas populações eram incapazes de se tornar americanas, como muitas fizeram, uma vez que a América tivesse se iniciado no período moderno. Ao inovar modos distintivos de secessão, elas eram até mesmo – em certos casos – capazes de se tornarem radicalmente americanas. Um cassino numa reserva em fuga institucional da Receita Federal é vastamente mais americano do que o Federal Reserve, em um sentido que (com sorte) se tornará evidente.

A fundação da América foi uma fuga para a fronteira, estendendo uma trajetória de escapada para dentro de um espaço que perpetuamente recua, ou um horizonte aberto – o futuro tornado geografia e apenas subsequentemente um território político. Esse projeto espacial original, informal e inerentemente obscuro é tão antigo quanto a própria América – exatamente tão antigo. Como Frederick Jackson Turner já havia observado em 1893, para a América, uma fronteira aberta é uma necessidade existencial, ou seja: a condição básica da existência americana. Uma vez que a fronteira fecha, os limites assumem, a excepcionalidade se transforma em retórica insubstancial (ou pior, em seu fac-símile neoconservador) e começa a necrose.

Nesse aspecto, a América não pode ser mantida como um estado com um programa espacial. Ela requer um horizonte aberto, estendido para além da terra se necessário, suficiente para sustentar um prolongamento de seu processo colonial constitutivo. Apenas sobre e a partir dessa fronteira é que a América tem um futuro, embora ‘os EUA’ possa persistir (mais) confortavelmente sem ela. É por isso que, por baixo, ao lado e além da corrida espacial, o ‘mito’ da fronteira se estendeu espontaneamente para panoramas extraterrestres considerados como um prospecto essencialmente americano. (A NASA e suas obras são bastante incidentais a isso, na melhor das hipóteses.)

Uma vez que esta alegação convida acusações de controvérsia gratuita, vale a pena revisitá-la, em um passo mais lânguido. Mesmo depois de reenfatizar que a América não é o mesmo que – e, com efeito, é quase o exato oposto de – os EUA, objeções óbvias se apresentam. O programa espacial russo não é o mais economicamente plausível do mundo? A curva ascendente da atividade espacial chinesa recente não é vastamente mais exuberante? As Nações Unidas não reivindicaram os céus em nome de uma humanidade comum? O que, além de um acidente cultural-histórico e da arrogância injustificada que dele decorre, poderia imaginavelmente fazer ‘um prospecto essencialmente americano’ do espaço sideral?

O contraponto a todas essas objeções é o colonialismo, entendido através de sua linhagem radical, excepcional e americana. O colonialismo desta variedade derradeira se consolida a partir da fronteira e passa por limiares revolucionários de um tipo muito específico: guerras de independência, ou secessão (em vez de mudanças abrangentes de regime) que são pró-coloniais (em vez de anti-coloniais) em natureza. A colônia, enquanto colônia, se separa e, ao fazê-lo, cria uma nova sociedade. Exemplos bem sucedidos de tais eventos são extremamente raros – até mesmo singulares, ou excepcionais. Há a América e aí existem ‘causas perdidas’, com uma sobreposição considerável (e cada vez maior) entre elas.

O que tudo isso tem a ver com o espaço sideral, para além de um analogia impressionista? A gravidade consolida a conexão. Dividindo a superfície da terra e o espaço extraterrestre há uma diferença efetiva, ou problema prático, que pode bastante precisamente ser quantificada em termos tecnológicos (razões entre combustível e carga útil entregável) e resumida economicamente. Para fins de comparação, o transporte de mercadorias pelo Pacífico custa US$4/kg (por via aérea) ou US$0,16/kg em navios oceânicos porta-contêineres (US$3.500 por TEU, ou 21.600 kg). Alçar 1 kg de carga até a Órbita Baixa da Terra (OBT), em forte contraste, custa mais de US$4.000 (era mais de US$10.000 nos ônibus espaciais). Chame-a de a Fenda: um imenso problema estrutural de reabastecimento, que incentiva a auto-suficiência econômica com uma força esmagadora. Cada quilograma de produção extraterrestre economizou US$4.000 antes que mais cálculos sejam iniciados. Lá fora no espaço, a Fenda é o ponto de partida: uma realidade fria e anti-umbilical.

Qualquer que seja o ímpeto colonial histórico para o jeito americano – separação e refundação social – ele é reforçado em ordens de magnitude na OBT e além. Este é um ambiente que poderia ter sido projetado com precisão para o colonialismo revolucionário, como os autores de ficção científica há muito reconheceram. No outro lado da moeda jaz uma conclusão mais obviamente explicativa: Uma vez que desenvolvimentos para além da Fenda são inerentemente incontroláveis, não há nenhuma motivação prontamente discernível para que agências político-econômicas terrestres financiem a emergência de sociedades exo-planetárias que estão em uma correia transportadora irresistível até a independência, enquanto consomem recursos de maneira voraz, abrindo uma via de escape e, em última análise, lançando as fundações vazias para uma civilização concorrente de um tipo radicalmente sem precedentes e, portanto, ameaçadoramente imprevisível.

Segue-se, claramente, que a política do status quo sobre a colonização espacial é quase completamente expressada pela colonização espacial não acontecendo. Quando entendida em relação à subcorrente eclipsada da analogia da fronteira – fissão social através do colonialismo revolucionário ou guerras de independência – o ‘fracasso’ em emergir dos projetos de colonização espacial em grande escala começa a parecer algo completamente diferente: uma determinação eminentemente racional por parte dos estados territoriais mais poderosos do mundo para inibir o desenvolvimento de potenciais sócio-tecnológicos caracterizados por uma tendência ‘americana’ (colonial revolucionária).

Claro, em um mundo que se familiarizou com declarações anticolonialistas e antiimperialistas intercambiáveis, os termos dessa análise (de Froude / Moldbug / Donald) são inicialmente desconcertantes. Quando separado das confusões e fusões de uma periferia perturbada, no entanto, o padrão é convincente. Colonos estão, por sua própria natureza, em fuga da metrópole. É menos do que um único passo entre essa admissão e o reconhecimento de que eles tendem à independência de ação, fissão social e desintegração política, seguindo tendências que os imperialistas – com igual inevitabilidade – buscam cercear. Uma vez que a colonização, entendida de maneira estrita, é uma transplantação cultural e demográfica, ela só adquire seu sentido de expansão quando é restringida sob auspícios imperiais. Embora colonial e rebelde não estejam nem perto de serem expressões sinônimas, elas são, não obstante, mutuamente atraídas uma pela outra, em uma proporção quase direta à divisão que separa a colônia da metrópole. Um empreendimento colonial é uma rebelião do tipo mais prático e produtivo, seja redirecionando uma rebelião do tempo para o espaço ou se completando em uma rebelião que transforma uma expedição em uma escapada. Desde o triunfo do imperialismo sobre o colonialismo na segunda metade do século XIX, é apenas na (e enquanto) América que esse sistema de relações persistiu, tenuemente, e em grande medida ocultado pelo surgimento de um estado imperial.

É útil, então, diferenciar em princípio (com uma excitabilidade moral mínima) entre um projeto espacial colonial, orientado a assentamentos extraterrestres, e um programa espacial imperial, projetado para garantir o controle terrestre sobre o desenvolvimento exo-planetário, manter a integridade política e, assim, assegurar retornos sobre os investimento através da Fenda. Da perspectiva do estado territorial, um programa espacial (imperial) que extraísse valor econômico de além do poço de gravidade da terra seria ideal, mas esta é uma ambição sem o apoio dos mais vagos lampejos de precedente histórico (e obstruída por pelo menos quatro ordens de magnitude de golfo econômico abismal). O segundo melhor e bastante satisfatório é a simples prevenção de projetos espaciais coloniais, substituindo o teatro espacial político como uma alternativa cara (mas de baixo risco e acessível). O ocasional homem na lua não apresenta nenhuma grande ameaça para a ordem do mundo, contando que tratemos de “trazê-lo de volta à Terra em segurança”.

A América foi uma escapada do Velho Mundo, e esta definição é suficiente para descrever o que ela ainda é – na medida em que ela ainda o for – tanto quanto o que ela pode ser, tudo que ela pode ser e o que qualquer escapada do novo velho mundo – se precisamente denominada – também seria. Quando esboçada pelas sombras do iluminismo sombrio, a América é o problema que os EUA foi projetado para resolver, a porta que os EUA fecha, o nome próprio de uma sociedade nascida da fuga.

Como Nietzsche nunca disse exatamente: Sou entendido? A América contra as estrelas e listras…

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