Jogos Finais

Em algum momento no final de 21 de dezembro de 2012, o Evento Terrestre Ômega 2012 passou rápido, com relativa tranquilidade, em uma trajetória saída do temido reino das premonições sinistras, indo até a abóbada empoeirada dos absurdos extintos. (O fato de que seu golpe de visão reduziu o Urbano Futuro a um emaranhado de detritos fumegantes fracamente radioativos não deve ser motivo de preocupação para ninguém, exceto para nossos cinco leitores regulares.) Um outro não evento foi assim adicionado à longa cadeia de omissões ontológicas que compõem a Tradição Apocalíptica. As coisas continuam, em suas trilhas existentes, como o senso comum previu com confiança.

Para um mundo saturado de ironia modernista, onde mesmo as crenças mais passionais são moduladas por formas de entretenimento de massa, nenhum ‘Grande Desapontamento’ é possível mais, tal como aquele que afligiu os milleritas da metade da década de 1840. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos em 2012 descobriu que 10% da população mundial (e não menos do que 20% dos chineses) haviam ‘sinceramente’ esperado que o Fim chegasse em 21 de dezembro. Quando isso não aconteceu, e daí? Sempre há alguma outra coisa passando – ou, melhor, a mesma coisa, em sabores diferentes.

Saltear entre canais é especialmente fácil porque não é nem sequer necessário mudar de gênero. O colapso da Ordem Mundial Ocidental é como o Model T de Henry Ford: “Você pode tê-lo em qualquer cor que quiser, desde que seja preto”. O que você não consegue fazer é acabar com ele. É grande demais para falhar, mesmo depois que tenha manifestamente falhado.

O não evento de dezembro não foi o Fim, ou sequer o fim do Fim, mas sim o fim do fim do Fim. Dias do Julgamento Datados foram desativados, deixando um Terminar indefinidamente dilatado sem conclusão. Agora que o prospecto de uma finalização foi finalizado, finalizar se tornou interminável. As datas marcham adiante, sem destino, para dentro de horizontes cada vez mais estendidos de colapso. O Apocalipse, despojado do Armagedom, é normalizado. Ele pode agora exigir um reconhecimento sem distrações enquanto ‘o sistema’, o modo do mundo, que se alimenta do espetáculo de uma crise permanente através do Complexo Midiático-Apocalíptico. Conforme a política Liberal Democrática (do Fukuyama final) se ajusta a um estado crônico de emergência, é finalmente possível ‘fazer as coisas‘, em um tempo em que nada pode ser feito. A insanidade desinibida se deleita em sua mania derradeira.

Por ser insanidade, ela não pode realmente durar, mas o Apocalipse durou mais que o Dia do Julgamento, e a realidade perdeu seus últimos sinais. Para propósitos de conversação educada, portanto, é melhor conceder aos keynesianos / pós-modernistas o triunfo absoluto e concordar que as consequências do irrealismo podem ser indefinidamente adiadas. Quando estiver no manicômio, faça como os malucos. Qualquer outra coisa seria irascibilidade sem sentido, fora do espírito da época. Afinal de tudo (exceto de si mesmo), o Apocalipse Para Sempre é a religião final do ocidente.

O Apocalipse Progressista, o Apocalipse Para Sempre, assume a morte do Dia do Julgamento, o que fornece a ocasião para um obituário. Para reacionários da variedade “trono e altar”, o luto se inclinará à escatologia, conforme o momento do julgamento definitivo for enterrado. Aqui, nas ruínas do Urbano Futuro destruídas pelo eschaton, contudo, nossa recordação é mais concisamente aritmética. Relembramos datas perdidas para sempre e, com elas, as inversões temporais que são expressas através de contagens regressivas, escalonamentos intensivos e compressões. Quando o fim tinha uma data, o tempo poderia chegar ao zero nela, em vez de se dissipar em nevoeiros infinitamente estendidos de futuridade arruinada.

21 de dezembro de 2012 foi a última data do Dia do Julgamento e, assim, o Dia do Julgamento morreu. Pode até mesmo ter sido o mais popular, mas estava longe de ser o maior. Extraído predominantemente do calendário dos Maias, ele concluiu com clareza o 13º Baktun, mas, ao fazê-lo, rompeu arbitrariamente com a organização numérica (já desajeitada e comprometida) do sistema de datação, com sua preferência por hierarquias unitárias de módulo 20. Quaisquer que sejam as atrações do exotismo, se voltar para a maianologia pop em busca de um cronograma do Apocalipse planetário também foi radicalmente arbitrário, dada a Hegemonia Abraâmica que havia estruturado a ordem no meio milênio anterior. Ainda assim, os maias haviam conduzido seu próprio experimento preliminar em termos de colapso, permitindo que Mel Gibson escavasse um filme impressionante das ruínas, introduzido por uma citação de Will Durant: “Uma grande civilização não é conquistada de fora até que tenha se destruído por dentro”.

Quando estimado em termos de elegância numérica de profundidade metafísica, o Dia do Julgamento realmente grande foi o Y2K, a mais bela arma da história (apesar de sua falha em detonar). O Y2k era automnático e tecno-compatível (na verdade, tecno-dependente), cronometricamente preciso, perfeitamente contra-abraâmico e calendricamente criativo (resetando 1900 D.C. para Ano 00). Ele foi organizado a partir da ausência de um sujeito integrado e malevolente, a partir da simples aritmética, visando uma realização consumada e exatamente agendada da expectativa milenar, através de pura coincidência. A ordem mundial deveria ter sido suavemente exterminada, por ‘acaso’. Nada que jamais tenha acontecido na história fazia tanto sentido quanto isso (que não fez). Quanto mais de perto se examina, mais requintado ele parece. Entre outros Dias do Julgamento perdidos, nenhum chega perto. Mas como o Y2K disse, insidiosamente: Deixa Pra Lá.

Até mesmo o mais fuleiro dos Antigos Dias do Julgamento satisfaziam apetites intelectuais que agora passarão fome para sempre. Primeiro de tudo, e de maneira mais básica, eles atendiam o impulso transcendental, entendido como uma busca por estruturas e princípios de organização últimos ou englobantes. Enquanto evento metafísico, promessas conclusivas de Apocalipse prometem uma escapada dos detalhes que distraem e uma compreensão do quadro. Base bíblicas para tal compreensão são encontradas em Isaías 34:4 — “As estrelas dos céus serão todas dissolvidas, e os céus se enrolarão como um pergaminho”. Esta imagem é repetida no Apocalipse 6:14 — “O céu foi se recolhendo como se enrola um pergaminho”. O tempo apocalíptico não adiciona uma nova frase, ou sequer um novo capítulo, à crônica dos eventos. Ele descobre o limite do pergaminho, ao excedê-lo. Para isso, contudo, ele tem que se completar.

Em segundo lugar, um Apocalipse pontual efetua um realismo semiótico (e, em particular, numérico), conforme expresso – muito lucidamente – no ocultismo e na esquizofrenia. O apocalíptico expõe uma encriptação primitiva da cultura, que codifica as operações de uma inteligência super-humana (Deus ou deuses, mestres transcendidos, alienígenas, viajantes do tempo, ordem espontânea social ou bactérias… qualquer um será suficiente). Um verdadeiro calendário é revelado, no qual a exaustão semiótica, ou rolagem, coincide precisamente com o fim de uma época real. O hiper-tradicionalismo, assim, se exotiza na formulação: viaje para dentro longe o suficiente e você chega do lado de fora. Assim, ele fornece o desafio mais radical para o mantra fundamental das ciências humanas contemporâneas – a natureza arbitrária (sausurriana) do signo.

Uma contribuição adicional e essencialmente moderna para o apocalíptico é feita pela aritmética do intrinsecamente insustentável, como definida por Thomas Malthus (1768-1834) em seu An Essay on the Principle of Population (“Um Ensaio sobre o Princípio da População”). Os fundamentos empíricos de uma crise inevitável são encontrados na tendência ao crescimento exponencial e em sua colisão projetada com um limite. Variantes de tal projeção apocalíptica são encontradas no marxismo, no ambientalismo e na Singularidade Tecnológica (Karl Marx, M. King Hubbert e Ray Kurzweil).

Mesmo a partir deste breve exame, torna-se possível delinear certas características centrais de um modelo do apocalipse: abrangente, pontual e climáctico. Em outras palavras, uma transição que não pode ser contida pela natureza pré-existente do tempo, ocorrendo em um momento exato e cripticamente antecipado, que traz o processo histórico central à sua culminação. Tudo isso é reunido no Dia do Julgamento, e o Dia do Julgamento está morto.

Nota: Agradecimentos a Mathieu Borysevicz e Sophie Huang da MAB Society, cujo evento no Minsheng Museum em 10 de dezembro de 2012, Just What is it about the end of the world that makes it so appealing? (“O que exatamente faz com o fim do mundo seja tão atraente?”), forneceu a oportunidade para discutir a esquemática do apocalipse.

Original.

Domínio Calêndrico

Como a hegemonia ainda conta

Modernidade e hegemonia são obsessões do Urbano Futuro, o que poderia (pelo menos em parte) desculpar um link para este artigo no Daily Mail britânico, sobre o tópico do cristianismo, do calendário e do politicamente correto. Ele se dirige ao domínio internacional do calendário cristão gregoriano e ocidental, e às sensibilidades daqueles que, embora talvez reconciliados com a inevitabilidade de se contar em anos de Jesus, permanecem determinados e desevangelizar a acronímia que o acompanha. Mais particularmente, ele se foca na BBC e em sua tentativa de sensibilizar em nome de outras pessoas (passa a pipoca).

O departamento de religião e ética da BBC diz que as mudanças são necessárias para evitar ofender não-cristãos.

Ele afirma: ‘Uma vez que a BBC está comprometida com a imparcialidade, é apropriado que usemos termos que não ofendam ou alienem não-cristãos.’

‘De acordo com a prática moderna, AEC/EC (Antes da Era Comum/Era Comum) são usados como uma alternativa religiosamente neutra a AC/AD).’

Mas o movimento irritou os cristãos…

Ann Widdecombe, a ex-ministra católica Tory, disse: ‘Eu acho que o que a BBC está fazendo é ofensivo aos cristãos. Eles estão descartando termos que existem há séculos e são bem entendidos por todos’

‘O que eles vão fazer a seguir? Se livrar de todo o calendário com base em que ele tem raízes no cristianismo?’

É uma questão interessante, e a tentativa de mantê-la aberta, tão provocadoramente quanto possível, poderia ser a melhor razão para se evitar remédios simplistas e politicamente corretos ao ‘problema’, como quer que ele seja entendido. Anno Domini nos lembra de domínio, que é um guia bem melhor para a realidade histórica do que os gestos kumbaya em relação a uma ‘Era Comum’, como se a hegemonia não tivesse conteúdo para além da união. Uma vez que o domínio não foi alcançado primariamente através da falta de educação ou da insensibilidade, o multiculturalismo politicamente correto é uma resposta irrelevante (e desonesta) a ele.

Independentemente de se Jesus é seu Senhor ou não, o calendário cristão domina, ou pelo menos predomina, e os acrônimos tradicionais registram este fato de maneira acurada. AD caralho!, como os comentadores do Zerohedge poderiam dizer.

É um paradoxo intrigante e inelutável da modernidade globalizada de que sua aproximação de universalidade permanece fundamentalmente estruturada por peculiaridades etno-geográficas de um tipo distintivamente pré-moderno. O mundo não foi integrado através de união, mas por uma sucessão de potências particulares, com seus traços, legados e paroquialismos característicos. Para melhor ou para pior, essas características peculiares foram instaladas profundamente na ordem governante do mundo. Seus signos foram meticulosamente conservados e estudados, ao invés de desajeitadamente apagados, porque eles são pistas críticas para a real natureza do destino.

Sem exceção, os calendários são tesouros de informação etno-histórica intricadamente sedimentada. Eles tentam resolver um problema em última análise insolúvel, ao racionalizar aritmeticamente quantidades astronômicas irracionais, mais obviamente os ciclos incomensuráveis da órbita terrestre (ano solar), da órbita lunar (mês) e da rotação terrestre (dia). Nenhum construto aritmético coerente pode jamais reconciliar esses períodos, e mesmo um calendário repulsivamente deselegante só pode fazê-lo até uma margem tolerável de erro. O consequente compromisso periclitante, tipicamente deformado por uma série tortuosa de ajustes, reembaralhamentos e intercalações, conta uma estória elaborada de prioridades culturais fixas e variáveis, mudanças de regime, restrições herdadas, influência alienígenas, capacidades conceituais e refinamentos observacionais, complicados ainda mais por processos de deriva, adoção e inovação que ondulam por através de signos numéricos e linguísticos.

O calendário hegemônico (gregoriano), por exemplo, é uma irregular colisão temporal de períodos incomensuráveis, em que múltiplas variedades de desunião se atropelam conjuntamente. As semanas não se encaixam nos meses ou nos anos solares e lunares, mas os atravessam de maneira quase aleatória, de modo que dias e datas deslizam ébrios uns pelos outros. O duração da semana é bíblica, mas os nomes dos dias combinam astrologia antiga (de “Saturday” [sábado] até “Monday” [segunda-feira]) com os deuses da mitologia nórdica (de “Tuesday” [terça-feira] até “Friday” [sexta-feira]). Embora o aspecto linguístico nórdico da semana não tenha sido fortemente globalizado, seu aspecto judaico-numérico foi. Os meses são uma bagunça medonha, desajeitadamente incompatíveis uns com os outros, com o ciclo lunar e com a sucessão das semanas e atestam a astro-política confusa e errática do Império Romano em sua mistura linguística de divindades (Janeiro, Março, Abril?, Maio, Junho), festivais (Fevereiro), imperadores (Julho, Agosto) e números (de Setembro até Dezembro). Não há necessidade se escavar esse exuberante monte de esterco aqui, exceto para se observar que o ‘cristianismo’ do calendário ocidental repousa sobre fundações pagãs e poli-numéricas apodrecidas pelo caos.

O que importa para o debate de AD-AC (vs EC-AEC) não é a desordem interna multitudinariamente murmurante do calendário ocidental, mas sua estimativa dos anos, ou ‘era’. Neste aspecto, ele tem claros competidores e, assim, desperta ressentimentos definidos, uma vez que seus primos mais próximos afirmam suas próprias eras. A era do calendário hebreu remonta ao tohu (caos) do ano antes da criação e registra os anos do mundo (latinizado como Anno Mundi) até o atual 5778 AM. O calendário islâmico, que começa a partir da Héjira de Maomé, de Meca até Medina, chegou a 1439 AH em 2018 AD.

O calendário cristão, primeiro sistematizado em 525 AD por Dionísio Exíguo (Denis, o Menor), conta o primeiro Anno Domini Nostri Iesu Christi como o ano de nascimento de Jesus filho de José, um falso messias para os judeus, o Cristo e Redentor para os cristãos, um profeta para os muçulmanos, o nazareno opressor para os satanistas, e alguma outra coisa, ou nada demais, para todo o resto. Independentemente da precisão de sua cronologia ou teologia tácita, contudo, essa é a contagem de anos que foi herdada globalmente a partir do processo real da modernidade e reconhecida como um padrão mundial pelas Nações Unidas, entre outras organizações internacionais.

Comparado aos calendários abraâmicos, aqueles dos gigantes democráticos da Ásia em geral careciam de um foco doutrinário e didático firme. Normalmente pode-se confiar na Índia para inundar qualquer tópico que seja em multiplicidade delirante, e o calendário não é nenhuma exceção. Os calendários bengali, malaiala e tâmil são todos amplamente usados em suas respectivas regiões, o Calendário Nacional Indiano conta a partir de 78AD = 0, o que, de agourento acordo com os atuais eventos, nos coloca em 1940, e o calendário religioso hindu mais amplamente aceito soma os anos desde o nascimento de Krishna, chegando a 5119 em 2018 AD.

A fabulosa complexidade do calendário tradicional da China o torna um paraíso para os nerds. Mais comumente, ele conta os anos de cada reino imperial e é, desta forma, integrado por uma narrativa literária de história dinástica, em vez de um contínuo aritmético. (O obstáculo que isso apresentou para a universalização modernista é brutalmente óbvio.) Alternativamente, contudo, ele agrupa o tempo histórico em ciclos de sessenta anos, começando a partir de 2637 AC (o que nos coloca no 35º ano do ciclo 78). A maioria dos chineses hoje parece ter uma conexão extremamente tênue com esta dimensão de sua herança calêndrica, que mal sobrevive fora dos departamentos acadêmicos de história antiga e nos templos taoistas. Embora a estrutura interna do ano tradicional sobreviva sem danos, como atestado pelo ciclo anual de festividades, a rendição chinesa à contagem de anos gregoriana parece absoluta.

Os conservadores cristãos certamente estão corretos em argumentar que é a contagem dos anos – o número e a era – que importa. Os acrônimos são meramente explicativos e até mesmo essencialmente tautológicos. Uma vez que se tenha decidido que a história é medida pelo nascimento de Jesus e dividida por ele, é tarde demais para se tergiversar sobre a atribuição de dominância. AD caralho. Esse argumento acabou.
(A seguir, na Parte 2 – Contra-calendários)

Original.