Leitura Rápida

No Dark Alien Social Ecologies, Craig Hickman embarca em uma recapitulação do Aceleracionismo em múltiplas partes. Sua decisão de enquadrá-lo como ‘Prometeico’ gera uma abundância de material para discussão, mesmo antes de se deixar o título. Com a primeira parte pairando à beira do Manifesto por uma Política Aceleracionista de Williams e Srnicek, ela está pronta para fornecer a visão geral mais abrangente da corrente até o momento. (Vide a contribuição de Hickman aos seus próprios comentários para um senso da estrutura geral).

Um tema emergente — a partir do texto de Hickman e de seu halo — é a significância irredutível do Aceleracionismo enquanto sintoma, o que seria dizer: enquanto registro do estímulo capitalista. Questões relacionadas ao seu potencial de resistência cultural se retorcem, quase imediatamente, em estimativas da provocação teconômica. A crítica arquetípica do aceleracionismo toma a forma de: O Capital não tem nenhum direito de nos excitar. Há um escorregão para dentro de uma controvérsia ético-estética altamente carregada (como Hickman observa). Ele não deveria ser fascinante.

HK3

(Em lugar nenhum no Reino Unido)

"… o capitalismo é qualquer coisa menos excitante. Ele é mundano, chato" diz Edmund Berger, nos comentários. Por mais vazia que uma afirmação dessas possa soar, ela transmite uma tese complexa, de pertinência, insistência e significância notáveis e de importância prática bem maior do que qualquer objeção meramente técnica poderia ter. Será necessário dizer muito mais sobre ela, em algum ponto futuro. Por ora, a resposta mais premente é superficialmente trivial: Quanta tristeza geo-histórica se encontra refletida em tal posição?

ADICIONADO: Accelerationism: The New Prometheans por Craig Hickman Parte Dois: Seção Um Parte Dois: Seção Dois Cyberlude Red Stack Attack! Automate Architecture

Também:
Accelerationism: Ray Brassier as Promethean Philosopher
no boredom – Arran James on Mark Fisher and Accelerationism beyond Boredom
Accelerationism, Boredom and the Trauma of Futurity
Nick Land and Teleoplexy – The Schizoanalysis of Acceleration
Science Fiction, Technology, and Accelerationist Politics: Final Thoughts on an Williams and Srnicek’s Manifesto


Original.

Quebrado

zizek!

Slavoj Žižek traça algumas linhas de batalha intrigantes em uma discussão sobre Thomas Piketty:

Então, o que estou dizendo é que acho que ele é utópico porque ele simplesmente diz que o modo de produção tem que permanecer o mesmo; vamos apenas mudar a distribuição através de, nada muito original, impostos radicalmente maiores.

Ora, aqui os problemas começam, aqui entra a utopia. Não estou dizendo que não deveríamos fazer isso, só estou dizendo que fazer isso e nada mais não é possível. Esta é a utopia dele. Que basicamente podemos ter o capitalismo de hoje, que basicamente – como um maquinário – permanece o mesmo: ó ó ó, quando você ganhar seus bilhões, ó ó, aqui vou taxar, me dá 80 por cento. Eu não acho que isso é factível. Eu acho que, imagine um governo fazendo isso, Piketty está ciente de que isso precisa ser feito globalmente. Porque se você o fizer em [um] país, então o capital se move para outro lugar. Esse é outro aspecto do utopismo dele, minha afirmação é de que, se você imaginar uma organização mundial em que a medida proposta por Piketty possa efetivamente ser promulgada, então os problemas já estão resolvidos. Neste caso, você já tem uma reorganização política total, você tem um poder global que pode efetivamente controlar o capital, nós já ganhamos.

A perversidade da ‘utopia’ é previsivelmente zizekiana – parte de alguma manobra tática meio louca que não leva a lugar nenhum – mas o argumento a favor de uma autoridade global soberana como único telos coerente da política de Esquerda é decididamente perspicaz. Dada esta convincente tese, a insignificância de iniciativas internacionalistas sérias na discussão predominante na política de esquerda é impressionante. A aparência é de que qualquer coisa abaixo do nível da governança global é evidentemente irrelevante – ou até contraproducente – para fins socialistas.

Notícias recentes, estou certo, não ajudam

ADICIONADO: Mais de Žižek sobre o tópico da governança global (através do mesmo link) —

Definitivamente é hora de ensinar às superpotências, velhas e novas, algumas maneiras, mas quem o fará? Obviamente, apenas uma entidade transnacional pode conseguir isso — mais de 200 anos atrás, Immanuel Kant viu a necessidade de uma ordem legal transnacional fundamentada no surgimento da sociedade global. Em seu projeto para a paz perpétua, ele escreveu: "Uma vez que comunidade mais estreita ou mais ampla dos povos da terra se desenvolveu tanto que uma violação dos direitos em um lugar é sentida por todo o mundo, a ideia de uma lei da cidadania mundial não é nenhum voo alto ou noção exagerada".

Isso, contudo, nos leva ao que é, sem dúvidas, a "contradição principal" da nova ordem mundial (se pudermos usar esse antigo termo maoista): a impossibilidade de se criar uma ordem política global que corresponda à economia capitalista global.

E, para um leve alívio:

Zizek sempre expressou seu desprezo geral pelos estudantes e pela humanidade. Certa vez, ele admitiu em 2008 que ver pessoas estúpidas felizes o deixa deprimido, antes de descrever o ensino como o pior trabalho que ele já teve.

"Eu odeio estudantes", ele disse, "eles são (como todas as pessoas) em sua maioria estúpidos e tediosos."

[…]

"Eu não consigo [sic] imaginar uma experiência pior do que algum idiota vir e começar a fazer perguntas, o que ainda é tolerável. O problema é que aqui nos Estados Unidos, os estudantes tendem a ser tão abertos que, mais cedo ou mais tarde, se você for gentil com eles, eles começam até mesmo a lhe fazer perguntas pessoais [sobre] problemas privados… O que eu deveria lhes dizer?"*

"Eu não ligo", ele continua. "Se mate. Não é problema meu."

(Esse tipo de coisa me faz ser caloroso com o cara.)

ADICIONADO: A rebugenta do Slate, Rebecca Schuman não está feliz.


Original.

Automação Radical

Para repetir a compreensão filosófica mais importante de Thomas Piketty: "… como descobri, o capital é um fim em si mesmo e nada mais".

Parece que Slavoj Žižek concorda:

"O Slavoj Žižek é uma psyop de propaganda dos EUA?" se pergunta o Left Forum. Há possibilidades bem mais interessantes…


Original.

Observe esse espaço

shanzhai 0

Hacked Matter sobre a próxima onda de eletrônicos shanzhai:

O Ciberespaço, tanto como palavra quanto como visão, entrou no léxico popular através do romance cyberpunk Neuromancer de William Gibson em 1984. Mas, como se vê, Gibson não estava interessado na Internet até que começou a comprar relógios no Ebay. Em um artigo de 1999 na Wired, ele detalha seu vício compulsivo em fazer ofertas por relógios mecânicos antigos — o que Gibson chama de "finos fósseis de uma era pré-digital". Mal sabia Gibson que, trinta anos depois de Neuromancer, relógios e o ciberespaço se fundiriam — não apenas porque agora é comum comprar relógios online, mas também graças aos "smart watches" que devem se tornar o mais recente portal para o ciberespaço.


Original.

Sub-K

Com a teoria do capital repentinamente transformada em um tópico quente pelo best-seller de Thomas Piketty, Robert P. Murphy lucidamente reafirma a concepção austríaca, atenta aos problemas de comensurabilidade entre o aparato produtivo e sua sumarização financeira. Como ele observa: "A distinção entre capital financeiro e bens físicos de capital é crucial e sublinha todas as questões que se seguem".

A hipóstase macroeconômica da equivalência transacional (‘preço’) em substância homogênea (‘riqueza’) é coloca em questão em nome de um substrato de capital intrínseca e irredutivelmente diverso. O ‘valor de troca’ do capital – em vez de ser derivado de algum tipo de essência econômica estável – emerge continuamente do processo de mercado como uma consequência volátil dos vários projetos empresariais que o atravessam. (Como qualquer outro bem, o ‘valor’ do capital é exatamente o que ele consegue alcançar, sem qualquer suporte subjacente de valor objetivo último.)

Como Murphy enfatiza, essa qualificação é de especial relevância para a teoria dos ciclos empresariais, uma vez que esses são episódios de destruição drástica do (valor do) capital, de um tipo de que foge à compreensão macroeconômica. Uma vez que o capital ’em si mesmo’ é variado e está preso a um caminho, suas quantidades ‘mal-investidas’ – quando expostas pelo colapso de projetos econômicos insustentáveis – são esmagadas a valores brutalmente descontados de recuperação ou sucata.

Se usarmos um modelo que representa o estoque de capital com um único número (chame-o de "K"), então é difícil de ver por que um período de explosão deveria levar a um período recessivo "de ressaca". Contudo, se adotarmos um modelo mais rico que inclua as complexidades da estrutura heterogênea do capital, podemos ver que os excessos de um período de explosão realmente podem ter efeitos negativos no longo prazo. Nesse quadro, faz sentido que depois que uma bolha de ativos estoure, possamos ver um desemprego anormalmente alto e outros recursos "ociosos", enquanto a economia "recalcula", para usar a metáfora de Arnold Kling. (Link de Kling.)

‘K’ – o agregado neoclássico do capital, denominado em unidades monetárias – é, assim, problematizado por uma matéria opaca, heterogênea e viscosa, não apenas em teoria, mas também efetivamente — através de crises financeiras. A quebra econômica é um evento epistemológico-semiótico complexo, situado entre os aspectos gêmeos do capital, na forma de uma catástrofe de comensuração.

O ‘recálculo’ necessitado pela quebra pode, portanto, ser avaliado como uma ‘teoria do capital’ imanente à economia, intrinsecamente propensa a uma alucinação macroeconômica consensual. Em vez de um erro arbitrário, alojado em uma perspectiva superior, a tradução do sub-K (capital técnico heterogêneo) em K (capital financeiro homogêneo) é um processo de cálculo inerente ao – e definitivo do – capitalismo em si, antes de ele ser isolado como um tópico teórico de análise político-econômica. O capitalismo, em si, é a tendência à compreensão aritmética de si mesmo. A operação do sistema de preços não pode deixar de implicar em uma avaliação agregada (financeira) do ser produtivo total.

O austrianismo abre uma questão tanto quanto resolve uma, porque o capitalismo não pode se abster de um engajamento criptográfico com o sub-K. O austro-ceticismo em relação à macroeconomia é consumado na compreensão de que apenas a economia pode pensar a economia (sem transcendência social-científica), mas, ao atingir este pico, ele simultaneamente reconhece a economia como uma entidade auto-decriptadora, que não pode ser liberada do problema que é para si mesma.

Murphy argumenta:

Uma apreciação apropriada da estrutura heterogênea do capital demonstra a fraqueza das abordagens teóricas padrão, que empregam "simplificações por conveniência analítica" que, na verdade obscurecem a realidade econômica.

Seria conveniente demais, neste ponto, reduzir a "realidade econômica" (ou o sub-K) à heterogeneidade em geral – o simplesmente incognoscível. Desta forma, estaríamos buscando – sem dúvidas em vão – nos dispensar do problema criptográfico em que o próprio capitalismo está trabalhando.

Original.