Desacelerando?

Charles Stross quer descer do ônibus

Ao escrever Accelerando, Charles Stross se tornou para a Singularidade Tecnológica o que Dante Alighieri foi para a cosmologia cristã: o transmissor literário preeminente de uma doutrina esotérica, embalando uma concepção metafísica abstrata em imagens vibrantes, detalhadas e concretas. O tom de Accelerando é transparentemente irreverente, mas ainda assim muitas pessoas parecem tê-lo levado inteiramente a sério. Stross já se cansou disso:

“Eu periodicamente recebo e-mails de um pessoal que, tendo lido ‘Accelerando’, assume que eu sou algum tipo de fanático extropiano cuspidor de fogo que acredita na iminência da singularidade, no upload dos libertários e no arrebatamento dos nerds. Eu acho isso levemente angustiante e então eu acho que é hora de ajustar os ponteiros e dizer o que eu realmente penso. …Versão curta: Papai Noel não existe.”

Na seção de comentários (#86), ele esclarece sua motivação:

“Eu não estou convencido de que a singularidade não vai acontecer. É só que eu estou mortalmente cansado do esquadrão de líderes de torcida me abordando e exigindo saber precisamente quantos femtosegundos vai demorar até que eles possam fazer upload até o paraíso da IA e deixar o saco de carne para trás.”

Como essas observações indicam, há mais gesticulação irritável do que argumentação estruturada no post de Stross, o que Robin Hanson bastante razoavelmente descreve como “um tanto como um desabafo – forte em emoção, mas fraco em argumento”. Apesar disso – ou, mais provavelmente, por causa disso – uma pequena tempestade na rede se seguiu, conforme blogueiros pró e contra aproveitaram a desculpa para recriar – e talvez renovar – alguns antigos debates. O militantemente sensível Alex Knapp contribui como uma série em três partes sobre sua própria versão de ceticismo sobre a Singularidade, ao passo em que Michael Anissimov do Singularity Institute for Artificial Intelligence responde tanto a Stross quanto a Knapp, misturando um pouco de contra-argumento com bastante contra-irritação.

Sob o risco de repetir o erro original da base de fãs presos-no-saco-de-carne de Stross e investir muita credibilidade no que é basicamente um post de passagem, poderia valer a pena selecionar alguns de seus aspectos seriamente esquisitos. Em particular, Stross se apoia em uma teoria inteiramente sem explicação de causalidade moral-histórica:

“… antes de criar uma inteligência consciente artificial, temos que perguntar se estamos criando uma entidade merecedora de direitos. É assassinato desligar um processo de software que está, em algum sentido, ‘consciente’? É genocídio usar algoritmos genéticos para evoluir agentes de software em direção à consciência? Esses são alguns grandes impedimentos…”

Anissimov bloqueia essa no passe: “Eu não acho que esses sejam ‘impedimentos’ …Só porque você não quer não significa que não vamos construir.” Pode-se adicionar a questão, de maneira mais geral: Em qual universo objeções arcanas da filosofia moral servem como obstáculos para desenvolvimentos históricos (porque certamente não parece ser este)? Stross seriamente pensa que a pesquisa e o desenvolvimento robótico prático está propenso a ser interrompido por preocupações com os direitos de seres ainda não inventados?

Ele parece pensar, porque mesmo teólogos estão aparentemente recebendo um veto:

“Fazer uploads… não é obviamente impossível, a menos que você seja um dualista mente/corpo cru. Contudo, se isso se tornar plausível no futuro próximo, podemos esperar extensos argumentos teológicos. Se você achava que o debate sobre aborto era acalorado, espere até você ter pessoas tentando se tornar imortais via cabos. Fazer upload refuta implicitamente a doutrina da existência de uma alma imortal e, portanto, apresenta uma rejeição bruta àquelas doutrinas religiosas que acreditam em uma vida após a morte. Pessoas que acreditam no pós-vida irão para o ringue para manter um sistema de crenças que lhes diz que seus entes queridos mortos estão no céu em vez de apodrecendo na terra.”

Isso é tão profunda e abrangentemente perdido que poderia realmente inspirar um momento de perplexa hesitação (pelo menos entre aqueles de nós atualmente não engajados na implementação urgente da Singularidade). Stross parece ter uma confiança desmesurada em um processo de veto social que, com adequação aproximada, filtra o desenvolvimento tecno-econômico em favor de uma compatibilidade com ideais morais e religiosos de alto nível. Na verdade, ele parece pensar que já gozamos do abrigo paternalista de uma teocracia global eficiente. A Singularidade não pode acontecer, porque isso seria realmente ruim.

Não é de se admirar, então, que ele exiba tamanha exasperação com os libertários, com sua “drástica super-simplificação do comportamento humano”. Se as coisas – especialmente coisas novas – acontecessem principalmente porque mercados descentralizados as facilitaram, então o papel do Conselho Planetário para a Aprovação de Inovações seria vastamente reduzido. Quem sabe que tipo de horrores apareceriam?

Fica pior, porque a ‘catalaxia’ – ou emergência espontânea a partir de transações descentralizada – é o motor básico da inovação histórica, de acordo com a explicação libertária, e ninguém sabe o que os processos catalácticos estão produzindo. Línguas, costumes, precedentes do direito comum, sistemas monetários primordiais, redes comerciais e montagens tecnológicas são sempre apenas retrospectivamente compreensíveis, o que significa que elas eludem inteiramente o julgamento social concentrado – até que a oportunidade de impedir sua gênese tenha sido perdida.

Stross está certo em juntar impulsos singularitários e libertários no mesmo emaranhado de críticas, porque ambos subvertem o poder de veto, e se o poder de veto ficar bravo o suficiente com isso, estamos entrando com total inclinação no território de de Garis. “Só porque você não quer não significa que não vamos construir”, Anissimov insiste, como qualquer Cosmista obstinado faria.

Uma IA auto-aperfeiçoadora avançada é tecnicamente factível? Provavelmente (mas quem sabe?). Há apenas uma maneira de descobrir, e o faremos. Talvez ela até seja projetada, de maneira mais ou menos deliberada, mas é bem mais provável que ela surja espontaneamente de um processo complexo, descentralizado, cataláctico, em algum limiar não antecipado, de uma maneira que nunca foi planejada. Existem candidatos definitivos, que frequentemente são esquecidos. Cidades sencientes parecem quase inevitáveis em algum ponto, por exemplo (‘cidades inteligentes’ já são amplamente discutidas). A informatização financeira empurra o capital em direção à auto-consciência. A guerra com drones está puxando as forças armadas cada vez mais fundo na manufatura de mentes artificiais. A biotecnologia está computadorizando o DNA.

Os ‘singularitários’ não têm nenhuma posição unificada sobre nada disso, e realmente não importa, porque eles são apenas pessoas – e pessoas não são nem de longe inteligentes ou informadas o suficiente para dirigir o curso da história. Apenas a catalaxia pode fazer isso, e é difícil imaginar como alguém poderia pará-la. A vida terrestre foi estúpida por tempo o suficiente.

Pode valer a pena fazer mais um ponto sobre a privação de inteligência, uma vez que este diagnóstico verdadeiramente define a posição singularitária, e confiavelmente enfurece aqueles que não compartilham dela – ou a priorizam. Uma vez que uma espécie alcança um nível de inteligência que permite uma decolagem tecno-cultural, a história começa e se desenvolve muito rapidamente – o que significa que qualquer ser senciente que se encontre na história (pré-singularidade) é, quase por definição, basicamente tão estúpido quanto qualquer ‘ser inteligente’ pode ser. Se, apesar das doutrinas morais e religiosas projetadas para ofuscar essa realidade, isso eventualmente for reconhecido, a resposta natural é buscar sua urgente melhoria, e isso já é transhumanismo, se não ainda um singularitarismo maduro. Talvez uma formulação não controversa seja possível: defender a burrice é realmente burro. (Mesmo os dignatários burros deveriam ficar felizes com isso.)

Original.

Bits e Peças

P2P ou não 2P, eis a questão

Conforme o dólar americano alcança profundezas de depreciação que teriam violentado a imaginação de Calígula, as pessoas têm buscado candidatas alternativas para uma moeda de reserva global. O problema é formidável. O Euro e o Yen japonês enfrentam calamidades próprias comparáveis (que misturam crises de débito e colapso demográfico), o Yuan chinês não é conversível, e os híbridos Direitos Especiais de Saque (DESs) do FMI meramente juntam um grupo de moedas fiduciárias com problemas sob um acrônimo tecnocrático.

Entusiastas dos metais preciosos têm uma opção óbvia, uma que já está sendo espontaneamente exercida. Ainda assim, embora números crescentes sem dúvida se agarrarão ao ouro e à prata enquanto botes salva-vidas financeiros, seu uso mais amplo enquanto moeda (em oposição a reservas de valor) é obstruído por uma gama intimidadora de problemas técnicos e políticos. Eles não são digitalmente transferíveis sem complicados instrumentos de mediação e permanecem expostos a um risco político extremo – crises financeiras foram regularmente acompanhadas por confiscos e controles direcionados a participações e transações privadas de metais preciosos.

Para superar tais problemas, um moeda precisaria ser estruturalmente imunizada contra as depredações de bancos centrais, compartilhar do viés deflacionário dos metais preciosos e participar plenamente da tendência técnica em direção à abstração matemática e à comunicabilidade eletrônica, ao passo em que também goze de forte proteção criptográfica contra fiscalização, expropriação e fraude. Surpreendentemente, tal moeda parece já existir. Seu nome é ‘Bitcoin’.

Os motores gêmeos e interativos da modernidade – comércio e tecnologia – se reúnem no Bitcoin com uma intensidade fusional sem precedentes. Essa é uma moeda que é simultaneamente um programa de computador de código aberto, inteiramente nativa do cyberespaço e uma inovação financeira, conduzindo um experimento em tempo real que é de uma só vez social, técnico e econômico. Construída sobre os fundamentos da criptografia de chave pública (PKE), ela cria uma rede aberta peer-to-peer – sem qualquer nó controlador ou gerenciamento discricionário humano – para sustentar um sistema monetário radicalmente descentralizado.

Originalmente inventada por Satoshi Nakamoto (cujo artigo de esboço pode ser encontrado aqui), o Bitcoin desconecta a confiança da autoridade. Em particular, ele é projetado para superar o problema do gasto duplo.

Uma vez que ‘bens’ digitais podem ser replicados a um custo próximo de zero, eles são economicamente definidos como ‘não-rivais’. Se você me vende um computador, ele agora é minha propriedade e não sua. Assim como com todos os bens rivais, a propriedade implica exclusão. Se você me vende um programa de computador, por outro lado, não há qualquer razão para assumir que você não manteve uma cópia para si, ou que o ‘mesmo’ programa não possa ser vendido a múltiplos compradores. Tais bens não-rivais apresentam diversas questões econômicas intrigantes, mas uma coisa está inteiramente clara: um dinheiro não-rival é uma impossibilidade. Sem escassez, ou troca exclusiva, a própria ideia de quantidade monetária perde qualquer sentido, assim como o valor monetário, gasto e investimento, e a escolha do consumidor.

O algoritmo do Bitcoin torna uma moeda digital rival e, assim, efetiva enquanto dinheiro, sem recurso a nenhuma autoridade administrativa. Ela o faz iniciando um ecologia automática ou espontânea, na qual os computadores na rede autenticam as trocas de Bitcoin como efeito colateral da ‘mineração’ de novas moedas. Nós ganham novas moedas, em uma taxa decrescente, ao resolver um enigma digital – acessível apenas a uma abordagem de força bruta computacionalmente intensiva – e, assim, exibir uma prova de trabalho. Este teste filtra o sistema contra intervenções maliciosas, ao estabelecer uma barreira praticamente intransponível para qualquer usuário que busque falsificar o registro de trocas. Discussões competentes podem ser encontradas aqui, aqui e (de maneira mais diversa) aqui.

Esse problema e essa solução estão muito longe de serem arbitrários. É precisamente porque as moedas fiduciárias existentes assumiram características não-rivais perturbadores que a preocupação com a depreciação da moeda alcançou tamanho tom de exasperação. Quando um banco central, no curso de operar uma política monetária tipicamente relaxada, pode simplesmente acelerar as impressoras ou (ainda pior) seu equivalente eletrônico, a integridade da oferta de dinheiro é devastada na raiz. O Bitcoin rigorosamente extirpa tal ruinosa discrição de seu sistema, ao instanciar uma teoria de dinheiro saudável enquanto experimento eletrônico precisa e publicamente definido.

Sem surpresa, o agregado monetário do Bitcoin é modelado sobre os metais preciosos, gerados por mineradores a partir de uma reserva global finita, com custos crescentes de extração. A recompensa pela mineração de moedas cai ao longo do tempo em uma taxa logarítmica (zenônica), em direção a um limite fracionariamente abaixo de 21000000 BTC. Cada Bitcoin pode ser subdividido até oito casas decimais, até um total de mais de dois quadrilhões (2100000000000000) de fragmentos, equivalente a 210000 ‘quanta’ de Bitcoin para cada uma das 10 bilhões de pessoas que compõem a população humana máxima antecipada da Terra. Um quantum de Bitcoin (0,00000001 BTC) é chamado de um ‘Satoshi’ (de Satoshi Nakamoto), embora emendas ao sistema, que permitam mais subdivisões em algum estágio futuro, não estejam excluídas. (Para o tamanho total da economia do Bitcoin olhe aqui.)

O Bitcoin é programado para a deflação ([de um tipo). Isto é uma fonte de deleite para os tipos do dinheiro forte, e de ultraje para aquelas no campo do dinheiro relaxado (inflacionário). Enquanto experimento, o grande mérito do Bitcoin é elevar esse antagonismo para além do nível da polêmica recíproca, até aquele de potencial evidência histórica – e escolha real. Austrolibertários há muito alegam que sistemas de dinheiro livre tendem à deflação e que o banco central encoraja a inflação como um mecanismo sorrateiro de expropriação econômica, com um efeito em última análise desastroso. Os keynesianos, em contraste, deploram a deflação como uma doença econômica que suprime o investimento produtivo e o emprego. Um teste empírico logo poderia ser possível.

Diversas outras questões, teóricas e práticas, se apresentam. No nível prático, tais questões se realizam através de volatilidade especulativa, adaptação institucional e desafios técnicos. Uma vez que toda a economia do Bitcoin continua muito pequena, mudanças relativamente modestas no comportamento econômico produzem oscilações selvagens no valor do BTC, incluindo picos como de bolhas, colapsos precipitados, hypes incontinentes e acusações extravagantes. Apesar da resiliência do algoritmo central, as instituições periféricas que sustentam a economia do Bitcoin permanecem vulneráveis a roubo, fraude e intervenções maliciosas. Como com qualquer experimento revolucionário, a trajetória de desenvolvimento do Bitcoin provavelmente será tumultuosa e altamente imprevisível.

As questões teóricas podem ser entretidas de maneira mais calma. A mais importante destas se relaciona à natureza essencial do dinheiro e seu futuro. O Bitcoin simula de maneira bem-sucedida as características significantes dos metais preciosos, de tal modo que sua substância pode ser descartada da equação monetária como escória irrelevante? Quão poderosas são as forças que levam à convergência monetária? As vantagens de primeiro movimento ‘prenderão’ o Bitcoin, às custas de alternativas posteriores? Ou sistemas monetários múltiplos – talvez cada vez mais heterogêneos – continuarão a co-existir? O Bitcoin é meramente um estágio em uma sequência aberta de sistemas monetários inovadores, ou ele captura as características essenciais do dinheiro de maneira bastante definitiva (deixando espaço apenas para melhorias incrementais ou ajustes)?

Defensores do status quo monetário poderiam insistir em mais uma linha de questionamento, mais escarnecedora: o Bitcoin é um beco sem saída, uma irrelevância ou uma fantasia libertária cipherpunk ilusória, a ser julgada eventualmente como algo similar a um boato? O que seria notar que, em última análise, as maiores questões serão políticas, e as discussões mais aquecidas já o são.

Os governos podem se dar ao luxo de tolerar moedas não geridas e autônomas? Veremos.

Original.