O Iluminismo Sombrio, Parte 4f(inal)

Parte 4f: Aproximando-se do Horizonte Biônico

É hora de dar a esta longa digressão uma conclusão, esticando-se impacientemente em direção ao fim. O tema básico tem sido controle mental, ou supressão de pensamento, como demonstrado pelo complexo midiático-acadêmico que domina as sociedades ocidentais contemporâneas e ao qual Mencius Moldbug dá o nome de Catedral. Quando as coisas são esmagadas, elas raramente desaparecem. Pelo contrário, elas são deslocadas, fugindo para dentro de sombras acolhedoras e, às vezes, virando monstros. Hoje, conforme a ortodoxia supressora da Catedral se desfaz, de várias maneiras e em numerosos sentidos, um tempo de monstros está se aproximando.

O dogma central da Catedral tem sido formalizado como o Modelo Padrão das Ciências Sociais (SSSM, na sigla em inglês) ou ‘teoria da tábula rasa’. É a crença, completada em sua essência pela antropologia de Franz Boas, de que toda questão legítima sobre a humanidade está restrita à esfera da cultura. A natureza permite que ‘o homem’ seja, mas nunca determina o que o homem é. Questões direcionadas às características e variações naturais entre humanos são, elas mesmas, apropriadamente compreendidas como peculiaridades, ou mesmo patologias, culturais. Falhas de ‘educação’ (nurture) são a única coisa que temos permissão de ver.

Uma vez que a Catedral tem uma orientação ideológica consistente e peneira seus inimigos de acordo, uma avaliação científica comparativamente independente do SSSM facilmente vira antagonismo bruto. Como Simon Blackburn observa (em uma análise criteriosa do Tábula Rasa de Steven Pinker), “A dicotomia entre natureza e educação (nurture) rapidamente adquire implicações políticas e emocionais. Para colocar de maneira crua, a direita gosta de genes e a esquerda gosta de cultura…”.

No limite do ódio recíproco, o determinismo hereditário confronta o construtivismo social, com cada um deles comprometido com um modelo radicalmente reduzido de causalidade. Ou a natureza se expressa como cultura, ou a cultura se expressa em suas imagens (‘construções’) da natureza. Ambas estas posições estão presas em lados opostos de um circuito incompleto, estruturalmente cegas à cultura do naturalismo prático, o que seria dizer: à manipulação tecno-científica / industrial do mundo.

Adquirir conhecimento e usar ferramentas é um único circuito dinâmico, que produz a tecnociência como um sistema integral, sem divisibilidade real em aspectos teóricos e práticos. A ciência se desenvolve em loops, através da técnica experimental e da produção de uma instrumentação cada vez mais sofisticada, ao passo em que está incorporada dentro de um processo industrial mais amplo. Seu avanço é o aperfeiçoamento de uma máquina. Esse caráter intrinsecamente tecnológico da ciência (moderna) demonstra a eficiência da cultura enquanto força natural complexa. Ela nem expressa uma circunstância natural pré-existente, tampouco meramente constroi representações sociais. Em vez disso, natureza e cultura compõem um circuito dinâmico, à beira da natureza, onde o destino é decidido.

De acordo com o pressuposto auto-reforçador da modernização, ser compreendido é ser modificável. É de se esperar, portanto, que a biologia e a medicina evoluam em conjunto. A mesma dinâmica histórica que subverte abrangentemente o SSSM através de ondas inundantes de descoberta científica, simultaneamente volatiliza a identidade biológica humana através da biotecnologia. Não há qualquer diferença essencial entre aprender o que realmente somos e nos redefinirmos como contingências tecnológicas, ou seres tecnoplásticos, suscetíveis a transformações precisas e cientificamente informadas. A ‘humanidade’ se torna inteligível conforme é subsumida na tecnosfera, onde o processamento de informação do genoma – por exemplo – coloca a leitura e a edição em perfeita coincidência.

Descrever esse circuito, conforme ele consome a espécie humana, é definir nosso horizonte biônico: o limiar de uma fusão conclusiva entre natureza e cultura, no qual uma população se torna indistinguível de sua tecnologia. Isto não é nem determinismo hereditário, nem construtivismo social, mas é ao que ambos teriam feito referência, tivessem eles indicado qualquer coisa real. É uma síndrome vividamente antecipada por Octavia Butler, cuja trilogia Xenogenesis é devotada ao exame de uma população de além do horizonte biônico. Seus ‘comerciantes de genes’ Oankali não têm nenhuma identidade separável do programa biotecnológico que eles perpetuamente implementam sobre si mesmos, conforme adquirem comercialmente, produzem industrialmente e reproduzem sexualmente sua população dentro de um único processo integral. Entre o que os Oankali são e a maneira em que eles vivem, ou se comportam, não existe nenhuma diferença firme. Uma vez que eles criam a si mesmos, sua natureza é sua cultura e (claro) reciprocamente. O que eles são é exatamente o que eles fazem.

Os tradicionalistas da Ortosfera Ocidental estão certos em identificar o iminente horizonte biônico com um evento teológico (negativo). A auto-produção tecno-científica suplanta de maneira específica a essência fixa e sacralizada do homem enquanto um ser criado, em meio à maior reviravolta na ordem natural desde o surgimento da vida eucarionte, há meio bilhão de anos. Não é meramente um evento evolutivo, mas o limiar de uma nova fase evolutiva. John H. Campbell anuncia a emergência do Homo autocatalyticus, enquanto argumenta: ‘De fato, é difícil imaginar como um sistema de herança poderia ser mais ideal para a engenharia do que o nosso é’.

John H. Campbell? – um profeta da monstruosidade e a desculpa perfeita para uma citação monstruosa:

Os biólogos suspeitam que novas formas evoluem rapidamente a partir de exogrupos bastante pequenos de indivíduos (talvez até mesmo uma única fêmea fertilizada; Mayr, 1942) à margem de uma espécie existente. Ali, a pressão de um ambiente praticamente inabitável, a endogamia forçada entre membros isolados da família, a “introgressão” de genes estranhos de espécies vizinhas, a falta de outros membros da espécie contra quem competir, ou o que seja, promove uma grande reorganização do programa genômico, possivelmente a partir de uma mudança modesta na estrutura genética. Quase todos esses fragmentos transmutados de espécies se extinguem, mas ocasionalmente um deles é afortunado o suficiente para se encaixar em um novo nicho viável. Ele prospera e se expande até uma nova espécie. Sua conversão em um pool genético estatisticamente constrito então estabiliza a espécie contra maiores mudanças evolutivas. Espécies estabelecidas são bem mais notáveis por sua estase do que por mudanças. Mesmo produzir uma nova espécie filha não parece mudar uma espécie existente. Ninguém nega que as espécies possam gradualmente se transformar e o fazer em várias medidas, mas essa chamada “anagênese” é relativamente pouco importante, se comparada à grande saltação, geologicamente súbita, na geração de novidade.

Três implicações são importantes.

1. A maior parte das mudanças evolutivas estão associadas com a origem de novas espécies.

2. Diversos modos de evolução podem operar simultaneamente. Neste caso, o mais efetivo domina o processo.

3. Pequenas minorias de indivíduos fazem a maior parte da evolução, ao invés da espécie como um todo.

Uma segunda característica importante da evolução é a autorreferência (Campbell, 1982). A caricatura cartesiana de um “ambiente” externo autônomo que dita a forma de um espécie, como um cortador de biscoitos corta estêncis a partir de folhas de massa, está completamente errada. A espécie molda seu ambiente tão profundamente quanto o ambiente “evolui” a espécie. Em particular, os organismos causam as condições limitadoras do ambiente sobre o qual eles competem. Portanto, os genes desempenham dois papéis na evolução. Eles são os alvos da seleção natural e são eles também que, em última análise, induzem e determinam as pressões seletivas que agem sobre si. Esta causalidade circular submerge o caráter mecânico da evolução. A evolução é dominada pelo feedback das atividades evoluídas dos organismos sobre sua evolução.

A terceira percepção seminal é de que a evolução se estende para além da mudança nos organismos enquanto produtos da evolução, a uma mudança no próprio processo. A evolução evolui (Jantsch, 1976; Balsh, 1989; Dawkins, 1989; Campbell, 1993). Os evolucionistas sabem deste fato mas nunca concederam ao fato a importância que ele merece, porque é incomensurável com o darwinismo. Os darwinistas, e especialmente os neodarwinistas modernos, equacionam a evolução com a operação de um princípio lógico simples, que é anterior à biologia: A evolução é meramente o princípio darwiniano da seleção natural em ação e é disso que a ciência da evolução trata. Uma vez que princípios não podem mudar com o tempo ou as circunstâncias, a evolução tem que ser fundamentalmente estática.

Claro, a evolução biológica não é assim de forma alguma. Ela é um processo complexo real, não um princípio. A maneira em que ela ocorre pode mudar com o tempo e indisputavelmente o faz. Isto é de máxima importância, porque o processo de evolução avança conforme procede (Campbell, 1986). A matéria pré-viva na sopa primordial da terra era capaz de evoluir apenas através de mecanismos “químicos” sub-darwinianos. Uma vez que estes processos insignificantes criaram moléculas genéticas com informação para sua autorreplicação, então a evolução foi capaz de se engajar na seleção natural. A evolução então embrulhou os genomas auto-replicantes dentro de organismos auto-replicantes para controlar a maneira em que a vida responderia aos ventos da seleção vindos do ambiente. Mais tarde, ao criar organismos multicelulares, a evolução ganhou acesso à mudança morfológica enquanto alternativa a uma evolução bioquímica mais lenta e menos versátil. Mudanças nas instruções em programas de desenvolvimento substituíram mudanças nos catalisadores enzimáticos. Sistemas nervosos abriram caminho para uma evolução comportamental, social e cultural ainda mais rápida e mais potente. Finalmente, esses modos mais elevados produziram a organização necessária para uma evolução racional e propositada, guiada e propelida por mentes orientadas a metas. Cada um desses passos representou um novo nível emergente de capacidade evolutiva.

Desta forma, existem dois processos evolutivos distintos, mas entrelaçados. Eu os chamo de “evolução adaptativa” e “evolução geradora”. A primeira é a familiar modificação darwiniana de organismos para aumentar sua sobrevivência e sucesso reprodutivo. A evolução geradora é inteiramente diferente. Ela é a mudança em um processo, em vez de uma estrutura. Além disso, esse processo é ontológico. Evolução literalmente significa “se desdobrar” e o que está se desdobrando é a capacidade de evoluir. Animais superiores se tornaram cada vez mais hábeis em evoluir. Em contraste, eles não são nem um pouco mais aptos do que seus ancestrais ou as formas mais baixas de micróbios. Toda espécie hoje teve exatamente o mesmo histórico de sobrevivência; na média, todo organismo mais elevado vivo hoje ainda deixará apenas duas proles, como era o caso cem milhões de anos atrás, e as espécies modernas têm tanta probabilidade de serem extintas quanto aquelas do passado. As espécies não podem se tornar cada vez mais aptas porque o sucesso reprodutivo não é um parâmetro cumulativo.

Para os nacionalistas raciais, preocupados com que seus netos sejam parecidos consigo, Campbell é o abismo. Miscigenação não chega nem perto da questão. Pense em tentáculos faciais.

Campbell também é um secessionista, embora não tenha quaisquer distrações com as preocupações da política de identidade (pureza racial) ou do elitismo cognitivo tradicional (eugenia). Ao se aproximar do horizonte biônico, o secessionismo assume uma atitude completamente mais selvagem e mais monstruosa – em direção à especiação. O pessoal no euvolution captura bem o cenário:

Raciocinando que a maior parte da humanidade não vai voluntariamente aceitar políticas de gerenciamento populacional qualitativo, Campbell aponta que qualquer tentativa de elevar o QI de toda a raça humana seria tediosamente lento. Ele ainda aponta que o ímpeto geral da eugenia primordial não era tanto melhoria da espécie quanto prevenção do declínio. A eugenia de Campbell, portanto, advoga o abandono do Homo sapiens enquanto ‘relíquia’ ou ‘fóssil vivo’ e a aplicação de tecnologia genética para se intrometer no genoma, provavelmente escrevendo novos genes a partir do zero usando um sintetizador de DNA. Tal eugenia seria praticada por grupos da elite, cujas realizações ultrapassariam tão rápida e radicalmente o andamento comum da evolução que, dentro de dez gerações, os novos grupos terão avançado para além de nossa atual forma, no mesmo grau em que nós transcendemos os símios.

Quando visto do horizonte biônico, o que quer que venha a emergir da dialética do terror racial permanece preso em trivialidades. É hora de seguir em frente.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 3

O fascículo anterior desta série acabou com nosso herói, Mencius Moldbug, até a cintura (ou pior) no pântano mefítico do politicamente incorreto, aproximando-se do coração sombrio de sua meditação político-religiosa em How Dawkins Got  Pwned. Moldbug pegou Dawkins no meio de uma denúncia sintomaticamente significante e excruciantemente beata dos “sentimentos vitorianos” racistas de Thomas Huxley – um sermão que conclui com a estranha declaração de que ele está citando as palavras de Huxley, apesar de sua  auto-evidente e totalmente intolerável pavorosidade, “apenas para ilustrar como o Zeitgeist segue em frente”.

Moldbug dá o bote, perguntando mordazmente: “O que, exatamente, é essa coisa do Zeitgeist?”. É, indiscutivelmente, uma extraordinária captura. Eis aqui um pensador (Dawkins), treinado como biólogo e especialmente fascinado pelos tópicos (disjuntivamente) geminados da evolução naturalista e da religião abraâmica, tropeçando no que ele apreende como uma tendência unidirecional de desenvolvimento espiritual histórico-mundial, que ele então – enfaticamente, mas sem o menor apelo à razão disciplinada ou à evidência – nega que tenha qualquer conexão séria com o avanço da ciência, com a biologia humana ou com a tradição religiosa. O disparate balbuciante que daí se resulta é uma coisa de se admirar, mas, para Moldbug, tudo faz sentido:

Na verdade, o Zeitgeist do Professor Dawkins é… indistinguível do… antigo conceito anglo-calvinista ou puritano de Providência. Talvez esta seja uma falsa correspondência. Mas é uma bem próxima.

Uma outra palavra para Zeitgeist é Progresso. Não é de se surpreender que os Universalistas tendam a acreditar no Progresso – na verdade, em um contexto político, eles frequentemente se denominam progressistas. O universalismo de fato fez um bom bocado de progresso desde [a época da embaraçosa observação de Huxley em] 1913. Mas isto dificilmente refuta a proposição de que o Universalismo é uma tradição parasita. Progresso para o carrapato não é progresso para o cão.

O que, exatamente é essa coisa de Zeitgeist? Vale a pena repetir a questão. Não é espantoso, para começar, que quando um darwinista inglês busca uma arma para golpear outro, o cacete mais conveniente à mão seja uma palavra alemã – associada com uma linhagem abstrusa de filosofia idealista adoradora do estado – fazendo referência explícita a uma concepção de tempo histórico que não tem qualquer conexão discernível com o processo de evolução naturalista? É como se, de maneira dificilmente imaginável, durante uma contenda comparável entre físicos (sobre o tópico da indeterminação quântica), de repente se ouvisse gritar que “Deus não joga dados com o universo”. Na verdade, os dois exemplos estão intimamente emaranhados, uma vez que a fé de Dawkins no Zeitgeist é combinada com uma adesão ao progressismo dogmático da ‘Religião Einsteiniana’ (meticulosamente dissecada, claro, por Moldbug).

O despudor é notável, ou pelo menos seria, se ingenuamente se acreditasse que os protocolos da racionalidade científica ocupavam uma posição soberana em tal disputa, mesmo que apenas em princípio. Na verdade – e aqui a ironia é amplificada à própria beira da psicose uivante – o Old One de Einstein ainda reina. Os critérios de julgamento devem tudo à higiene espiritual neo-puritana e nada que seja à realidade testável. A elocução científica é filtrada para a conformidade com uma agenda social progressista, cuja autoridade parece não ser afetada por sua completa indiferença para com a integridade científica. O que lembra Moldbug de Lysenko, por razões compreensíveis.

“Se os fatos não concordam com a teoria, tanto pior para os fatos” afirmou Hegel. É o Zeitgeist que é Deus, historicamente encarnado no estado, espezinhando meros dados de volta na poeira. A esta altura, todo mundo sabe onde isso acaba. Um ideal moral igualitário, endurecido em um axioma universal ou dogma cada vez mais incontestável, completa a ironia histórica suprema da modernidade, ao tornar a ‘tolerância’ o critério de ferro para os limites da tolerância (cultural). Uma vez que seja aceito de maneira universal ou, falando de maneira mais prática, por todas as forças sociais que empunham um poder cultural significante, que a intolerância é intolerável, a autoridade política legitimou toda e qualquer coisa que seja conveniente para si mesma, sem restrição.

Essa é a mágica da dialética, ou da perversidade lógica. Quando apenas a tolerância é tolerável, e todo mundo (que importa) aceita esta fórmula manifestamente absurda como não apenas racionalmente inteligível, mas como o princípio universalmente afirmado da fé democrática moderna, nada resta exceto a política. A tolerância perfeita e a intolerância absoluta se tornaram logicamente indistinguíveis, com qualquer uma sendo igualmente interpretável como a outra, A = não-A, ou o inverso, e, no mundo abertamente orwelliano que daí resulta, apenas o poder tem as chaves da articulação. A tolerância progrediu em tal grau que tem se tornado uma função de policiamento social, fornecendo o pretexto existencial para novas instituições inquisitoriais. (“Devemos lembrar que aqueles que toleram a intolerância abusam da própria tolerância, e um inimigo da tolerância é um inimigo da democracia”, ironiza Moldbug.)

A tolerância espontânea que caracterizava o liberalismo clássico, enraizada em um conjunto modesto de direitos estritamente negativos que restringiam o domínio da política, ou intolerância governamental, se rende, durante a maré democrática, a um direito positivo a ser tolerado, definido de maneira cada vez mais expansiva como intitulação substancial, envolvendo afirmações públicas de dignidade, garantias impostas pelo estado de tratamento igual por parte de todos os agentes (públicos e privados), proteções governamentais contra desfeitas e humilhações não-físicas, subsídios econômicos e – em última análise – representação estatisticamente proporcional dentro de todos os campos de emprego, realização e reconhecimento. Que a culminação escatológica desta tendência seja simplesmente impossível não importa de maneira alguma para a dialética. Pelo contrário, isso energiza o processo político, comburindo qualquer ameaça de saciação política no combustível do agravo infinito. “I will not cease from Mental Fight, Nor shall my Sword sleep in my hand: Till we have built Jerusalem, In England’s green and pleasant land.”[1] Em algum lugar antes de que Jerusalém fosse alcançada, o pluralismo inarticulado de uma sociedade livre foi transformado no multiculturalismo assertivo de uma democracia totalitária suave.

Os judeus da Amsterdam do século XVII ou os huguenotes da Londres do século XVIII gozaram do direito de serem deixados em paz e enriqueceram suas sociedades anfitriãs em troca. Os grupos de agravo democraticamente empoderados dos tempos modernos posteriores são incitados por líderes políticos a exigirem um (fundamentalmente iliberal) direito de ser ouvido, com consequências sociais que são predominantemente malignas. Para os políticos, contudo, que se identificam e se promovem como a voz dos não ouvidos ou dos ignorados, o auto-interesse em jogo dificilmente poderia ser mais óbvio.

A tolerância, que já pressupôs a negligência, agora a condena e, ao fazê-lo, se torna seu oposto. Fosse este um desenvolvimento partidário, a política partidária de um tipo democrático poderia sustentar a possibilidade de reversão, mas ele não é nada do tipo. “Quando alguém está sofrendo, o governo tem que se mover” declarou o Presidente ‘conservador compassivo’ dos EUA George W. Bush, em um fútil esforço de canalizar a Catedral. Quando a ‘direita’ soa assim, ela não está apenas morta, mas inequivocamente fedendo a decomposição avançada. O ‘Progresso’ venceu, mas isso é ruim? Moldbug aborda a questão de  maneira rigorosa:

Se uma tradição faz com que seus hospedeiros cometam erros de cálculo que comprometem suas metas pessoais, ela exibe um morbidez misesiana. Se ela faz com que seus hospedeiros ajam de maneiras que comprometam os interesses reprodutivos de seus genes, ela exibe uma morbidez darwiniana. Se se subscrever à tradição é individualmente vantajoso ou neutro (desertores são recompensados ou pelo menos não são punidos), mas coletivamente prejudicial, a tradição é parasitária. Se se subscrever é individualmente desvantajoso, mas coletivamente benéfico, a tradição é altruísta. Se é tanto individual quanto coletivamente benigna, ela é simbiótica. Se é tanto individual quanto coletivamente danosa, é maligna. Cada um desses rótulos podem ser aplicados tanto à morbidez misesiana quanto à darwiniana. Um tema que seja arracional, mas não exiba nem morbidez misesiana, nem darwiniana, é trivialmente mórbido.

Considerados de maneira comportamental, os sistemas misesiano e darwiniano são aglomerações de incentivos ‘egoístas’, orientados, respectivamente, à acumulação de propriedade e à propagação de genes. Ao passo que os darwinistas concebem a esfera ‘misesiana’ como um caso especial da motivação geneticamente auto-interessada, a tradição austríaca, enraizada em um anti-naturalismo neokantiano altamente racionalizado, está predisposta a resistir a tal reducionismo. Embora as consequências finais desta disputa sejam consideráveis, sob as atuais condições ela é uma querela de urgência menor, uma vez que ambas as formações estão unidas no ‘ódio’, isto é, em sua tolerância reacionária a estruturas de incentivos que punem os mal adaptados.

‘Ódio’ é uma palavra sobre a qual se deter. Ela testemunha com especial clareza a ortodoxia religiosa da Catedral, e suas peculiaridades merecem uma observação cuidadosa. Talvez sua característica mais notável seja sua perfeita redundância, quando avaliada da perspectiva de qualquer análise das normas legais e culturais que não esteja inflamada pelo entusiamo evangélico neo-puritano. Um ‘crime de ódio’, se for qualquer coisa que seja, é apenas um crime, mais ‘ódio’, e o que o ‘ódio’ adiciona é revelador. Para nos restringirmos, momentaneamente, a exemplos de criminalidade incontroversa, se poderia perguntar: o que é, exatamente, que agrava um assassinato, ou uma agressão, se a motivação for atribuída ao ‘ódio’? Dois fatores parecem especialmente proeminentes, e nenhum tem qualquer conexão óbvia com as normas legais comuns.

Primeiramente, o crime é aumentado por um elemento puramente ideacional, ideológico ou mesmo ‘espiritual’, que atesta não apenas uma violação da conduta civilizada, mas também uma intenção herética. Isto facilita a abstração completa do ódio em relação à criminalidade, após a qual ele toma a forma de ‘discurso de ódio’ ou simplesmente ‘ódio’ (que deve sempre ser contrastado com a ‘paixão’, ‘injúria’ ou ‘ira’ justificada representada pela linguagem crítica, controversa ou meramente abusiva que é dirigida contra grupos, categorias sociais ou indivíduos não protegidos). ‘Ódio’ é uma ofensa contra a própria Catedral, uma recusa de sua orientação espiritual e um ato mental de provocação contra o destino religioso manifesto do mundo.

Em segundo lugar, e de maneira relacionada, o ‘ódio’ é deliberadamente e mesmo estrategicamente assimétrico em relação à polaridade política de equilíbrio das sociedades democráticas avançadas. Entre a implacável marcha do progresso e o resmungo ineficaz do conservadorismo, ele não vacila. Como vimos, apenas a direita pode ‘odiar’. Conforme o sistema imunológico doxológico da supressão de ‘ódio’ é consolidado dentro dos sistemas educacional da elite e midiático, a distribuição altamente seletiva de proteções garante que o ‘discurso’ – especialmente o discurso empoderado – seja consistentemente reajustado para a esquerda, o que quer dizer, na direção de um Universalismo cada vez mais abrangentemente radicalizado. A morbidez desta tendência é extrema.

Uma vez que o status de agravo é concedido como compensação política para a incompetência econômica, ele constrói um mecanismo cultural automático que advoga a disfunção. O credo Universalista, com sua identificação reflexiva da igualdade com a injustiça, não consegue conceber nenhuma alternativa à proposição de que, quanto mais baixo a situação ou o status de alguém, mais convincente é a sua revindicação sobre a sociedade, mais pura e mais nobre é a sua causa. A falha temporal é a o sinal da eleição espiritual (marxo-calvinista) e disputar qualquer parte disso é claramente ‘ódio’.

Isto não força nem mesmo o neo-reacionário de coração mais duro a sugerir, em uma caricatura do estilo cultural alto-vitoriano, que a desvantagem social, como manifesta em violência política, criminalidade, falta de moradia, insolvência e dependência do bem-estar social, é um índice simples da culpabilidade moral. Em grande parte – talvez uma parte esmagadoramente grande – ela reflete o puro infortúnio. Pessoas obscuras, impulsivas, sem saúde e pouco atraentes, criadas caoticamente em famílias abusivas e encalhadas em comunidades despedaçadas e assoladas pelo crime, têm toda razão de amaldiçoaram os deuses antes de si mesmas. Além disso, um desastre pode atingir qualquer um.

Em relação a estruturas efetivas de incentivos, contudo, nada disto é da menor importância. A realidade comportamental conhece apenas uma lei de ferro: O que quer que seja subsidiado é promovido. Com uma necessidade não mais fraca do que aquela da própria entropia, na medida em que a democracia social busca suavizar as más consequências – para grandes corporações não menos do que para indivíduos batalhadores e culturas desafortunadas – as coisas ficam piores. Não há maneira de contornar ou ir além desta fórmula, só pensamento positivo e cumplicidade com a degeneração. Claro, esta compreensão reacionária definidora está condenada à inconsequência, uma vez que equivale à conclusão supremamente impalatável de que toda tentativa de melhoria ‘progressiva’ está fadada a se reverter, ‘perversamente’, em uma falha horrível. Nenhuma democracia poderia aceitar isto, o que significa que toda democracia falhará.

A excitada espiral da fuga degeneradora misesiana-darwiniana é nitidamente capturada nas palavras da libertária mais fofa do Beltway, Megan McArdle, escrevendo na embocadura central da Catedral, The Atlantic:

É um pouco irônico que as primeiras tensões sérias causadas pelas mudanças demográficas da Europa estejam aparecendo nos orçamentos de bem-estar social do continente, porque os próprios sistemas de pensão podem bem ter moldado e limitado o crescimento da Europa. O século XX viu a adoção internacional de sistemas de seguridade social que prometiam benefícios definidos, pagos a partir da receita tributária futura – conhecidos pelos especialistas em pensão como sistemas de “paygo” e pelos críticos como esquemas de Ponzi. Estes sistemas tem aliviado grandemente os medos de uma velhice destituída, mas múltiplos estudos mostram que conforme os sistemas seguridade social se tornam mais generosos (e a velhice mais segura), as pessoas têm menos filhos. De acordo com uma estimativa, de 50 as 60 por cento da diferença entre a taxa de natalidade (acima da taxa de reposição) da América e da Europa pode explicada pelos sistemas mais generosos da última. Em outras palavras, o sistema de pensão da Europa pode ter posto em ação o próprio declínio demográfico que ajudou a tornar esse sistema – e alguns governos europeus – insolvente.

Apesar da ridícula sugestão de McArdle de que os Estados Unidos da América, de alguma maneira, se isentaram do caminho mortuário da Europa, o esboço geral do diagnóstico é claro e cada vez mais aceito como senso comum (embora melhor ignorado). De acordo com o credo ascendente, o bem-estar social alcançado através da progenitura e da poupança não é universal e, assim, é moralmente ignorante. Ele deveria ser suplantado, tão ampla e rapidamente quanto possível, por benefícios universais ou ‘direitos positivos’, distribuídos universalmente ao cidadão democrático e, assim, inevitavelmente, roteado através do Estado altruísta. Se, como resultado, devido à irremediável incorreção política da realidade, economias e populações colapsarem em concerto, pelo menos isso não danificará nossas almas. Ó, democracia! Sua idiota moribunda doce como sacarina, você acha que as hordas zumbis se preocuparão com a sua alma?

Moldbug comenta:

O Universalismo, na minha opinião, é melhor descrito como um culto dos mistérios do poder. É um culto do poder porque um estágio crítico em seu ciclo replicador de vida é uma criaturazinha chamada Estado. Quando olhamos para as proteínas de superfície dos grandes Us, notamos que a maioria delas podem ser explicadas por sua necessidade de capturar, reter e manter o Estado e dirigir seus poderes à criação de condições que favoreçam a replicação continuada do Universalismo. É tão difícil imaginar o Universalismo sem o Estado quanto a malaria sem o mosquito.

É um culto dos mistérios porque ele desloca as tradições teístas, substituindo as superstições metafísicas por mistérios filosóficos, tais como humanidade, progresso, igualdade, democracia, justiça, meio ambiente, comunidade, paz, etc.

Nenhum destes conceitos, como definidos na doutrina Universalista ortodoxa, é sequer ligeiramente coerente. Todos podem absorver uma energia mental arbitrária sem produzir nenhum pensamento racional. Nisto, eles são melhor comparados aos
absurdos plotinianos, talmúdicos ou escolásticos.

Como bônus, eis aqui o guia do Urbano Futuro para a sequência principal dos regimes políticos modernos:

Regime(1): Tirania Comunista
Crescimento Típico: ~0%
Voz / Saída: Baixa / Baixa
Clima cultural: Utopismo psicótico
A vida é… dura, mas ‘justa’
Mecanismo de transição: Redescobre os mercados no grau zero econômico

Regime(2): Capitalismo Autoritário
Crescimento Típico: 5-10%
Voz / Saída: Baixa / Alta
Clima cultural: Realismo insensível
A vida é… dura, mas produtiva
Mecanismo de transição: Pressurizado pela Catedral a se democratizar

Regime(3): Social Democracia
Crescimento Típico: 0-3%
Voz / Saída: Alta / Alta
Clima cultural: Desonestidade beata
A vida é… suave e insustentável
Mecanismo de transição: Empurrar com a barriga até sair da pista

Regime(4): Apocalipse Zumbi
Crescimento Típico: N/A
Voz / Saída: Alta (em sua maioria gritaria inútil) / Alta (com combustível, munição, comida seca, moedas de metais preciosos)
Clima cultural: Sobrevivencialismo
A vida é… de dura a impossível
Mecanismo de transição: Desconhecido

Para todos os regimes, as expectativas de crescimento assumem uma população moderadamente competente, de outra forma, vá direto para (4).

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[1] Nota do Tradutor: Estrofe final do poema “And did those feet in ancient time” de William Blake, na introdução de seu épico Milton (1808). Tradução livre: “Eu não deixarei de Lutar com a Mente, Tampouco minha Espada dormirá em minha mão: Até que tenhamos construído Jerusalém, na terra verde e agradável da Inglaterra”.

Original.