Soberania na Internet

Um declaração de importância geoestratégica imensa é notada pelo Wall Street Journal:

Na extensão de uma página na segunda-feira, o jornal porta-voz do Partido Comunista traçou a posição da China sobre como se deveria lidar com a Internet e sua infraestrutura em todo o globo.

A página apresentava entrevistas com cinco experts chineses, incluindo o chamado "pai" do Grande Firewall da China, Fan Binxing. O resultado: Eles acreditam que cada país deveria ter poder definitivo de determinar qual tráfego da Internet flui para dentro e para fora de seu território. É um conceito que a China denominou como "soberania na Internet" e, embora as opiniões de cada expert no artigo variasse, a mensagem central é que cada nação deveria ter o direito de governar a Internet como lhe aprouver.

A única previsão absolutamente segura nesse ponto: Vai ser complicado.

ADICIONADO: Certamente relacionado —

Concebida pelo Pentágono a fim de manter linhas de comunicação abertas depois de um ataque atômico, a Internet se tornou uma ameaça. A humanidade mais uma vez foi mais esperta que si mesma. Agora precisamos de confiança em nossa capacidade de encontrar uma maneira de neutralizar o inimigo.

(Boa sorte com isso.)

ADICIONADO: The Diplomat estranhamente minimiza o caráter defensivo da iniciativa.


Original.

China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial, Parte 2

Eu tenho muitos amigos que são programadores. Os programadores sempre foram tipo "Esses caras [do Bitcoin] são loucos".

E então, quase 100 por cento do tempo, eles sentam, leem o artigo, leem o código — demora umas duas semanas — e eles saem do outro lado. E eles ficam tipo: "Meu deus, é isso. Esse é o grande avanço. Essa é a coisa pela qual estivemos esperando. Ele resolveu todos os problemas. Quem quer que ele seja deveria ganhar o Prêmio Nobel — ele é um gênio. É isso! Essa é a rede de confiança distribuída que a Internet sempre precisou e nunca teve".

Então, um dos desafios é você pegar pessoas que não são programadores profissionais ou matemáticos e então esperar que elas entendam desde o início. E é intimidador. E então uma palavra é anexada a isso, como ‘moeda’ ou do que quer que você queira chamar isso, e aí as pessoas acham que é algo que não é. E você tem uma noção disso, mas é um conceito muito mais profundo do que moeda. É a ideia de confiança distribuída.

—Marc Andreessen (em conversa com Brian Fing)

Fotografia secreta do BTC Guild, o maior pool de mineração de Bitcoin e um dos mais antigos pools restantes de Bitcoin (crédito: Jakub Szypulka CC-BY)

Observou-se, na primeira parte dessa série de ensaios, que a ordem econômica do mundo está sendo radicalmente remoldada por duas transformações aproximadamente coincidentes de consequências estupendas: uma mudança secular da capacidade industrial, do Ocidente para o Oriente, e uma revolução baseada na Internet na natureza do dinheiro. Desses eventos, o primeiro já está profundamente estabelecido, e é reconhecido de maneira geral, ao passo que o último ainda está em um estágio inicial de emergência e, até o momento, é bem menos óbvio em suas implicações. A intersecção entre eles permanece profundamente obscura.

Um tópico que parece, tentadoramente, conectar esses fios históricos é a morte em perspectiva – ou pelo menos o rebaixamento radical – do dólar dos EUA. O Dilema de Triffin argumenta que qualquer moeda que alcance o status de reserva mundial tende, de maneira talvez irresistível, a se destruir.[1] O declínio econômico relativo da América parece pronto para exacerbar o ‘inverno’ desse grande ciclo. Do outro lado, o dólar é ameaçado pela emergência fragmentada de um sistema monetário não estatal totalmente sem precedentes, livre de todas as instituições familiares de gestão monetária. No horizonte histórico do dólar americano globalizado, o yuan chinês e o bitcoin estão obscuramente reunidos.

Abstratamente antecipada, essa ameaça gêmea se integra em um único evento de significância composta, mas previsões concretas podem facilmente se perder em suas novas complexidades. Por cerca de meio milênio, as transições na liderança econômica mundial foram suavizadas por afinidades culturais e colaboração estratégica íntima, dentro de uma tradição comercial protestante que compartilhava de uma língua comum, e de inimigos comuns, desde o final do século XVIII[2]. Nada comparável é concebível hoje, conforme a supremacia global americana é erodida em um contexto de intensa competição estratégica e marcada diferença entre civilizações.

Dentro de um dos armazéns na Islândia estão as plataformas de mineração da Cointerra, da KnCMiner e da recém-chegada spondoolies-tech. Esses equipamentos empilhadas indicam claramente que a mineração de bitcoin agora é um empreendimento profissional e que estudantes minerando bitcoins inteiros em seus dormitórios logo serão coisa do passado. A CloudHashing está pronta para expandir suas operações. Fonte: cryptocoinsnews.com. Todos os direitos reservados.

Em relação à passagem da libra esterlina para o dólar dos EUA, a adoção sistemática do yuan chinês exigiria "cruzar o grande oceano" – uma expedição tão intimidadora que é improvável, em qualquer sentido simples, que ela ocorra. Superficialmente, as criptomoedas digitais estão situadas em um grau ainda mais distante de separação, alheias até aos pontos em comum que abrangem o abismo entre civilizações. E, ainda assim, elas são positivamente promovidas pela proximidade do iminente precipício monetário mundial, porque representam uma solução para a ausência de confiança.

A palavra "bitcoin" representa duas coisas muito diferentes (embora uma contenha a outra). Em seu uso estrito e exato, ela designa uma moeda específica, abreviada como BTC, que encarna um um sistema monetário radicalmente inovador, cujo projeto foi plenamente especificado no artigo "Bitcoin" de Satoshi Nakamoto em 2008.[3] A moeda se tornou operacional em 2009.

O artigo de 2008 é tanto uma invenção prática quanto uma contribuição substancial para a filosofia do dinheiro. Seu discernimento central é de que o dinheiro funciona como um sistema de racionamento, adquirindo valor ou aplicação a bens e serviços comercializáveis através de uma função de escassez. Se for para o dinheiro digital efetuar essa função, ele tem dois problemas interconectados para resolver. Ele tem que ser intrinsecamente limitado e tem que ser exclusivamente alienável.

O Bitcoin resolve o primeiro desses problemas ao emular um metal precioso. Ele é obtido através de um processo de mineração que requer trabalho criptográfico, a fim de acessar bitcoins de uma ‘reserva’ finita, liberados em estágios e somando, no total, 21 milhões de BTC. Preservar a finitude desse estoque monetário de bitcoins depende da solução para o segundo problema — o de ‘gasto duplo’. Considerado o principal obstáculo para a criação de um dinheiro digital, o problema do gasto duplo surge automaticamente em um meio que efetua transferências através de cópias. A menos que o dinheiro seja deduzido do pagador enquanto é creditado ao beneficiário, despesas que conservem o valor são impossíveis, e, contudo, essa simples operação — que vai na contramão da troca digital de informações — parecia exigir a introdução de um garantidor, ou parte externa confiável, que o sistema em si era incapaz de fornecer integralmente.

Equipamento privado de mineração. Fonte: bitcoinexaminer.org. Todos os direitos reservados.

Este é o avanço mais inconfundível do Bitcoin. Toda transação que ocorre dentro do sistema é incluída em um livro público sequencial, ou blockchain, que tem que ser atualizado como um todo para que qualquer troca seja registrada. O trabalho criptográfico da atividade mineradora do sistema agora adquire uma segunda função automática, a de validar cada iteração do blockchain e de defender o livro da usurpação por parte de agentes fraudulentos. O garantidor de cada transferência – preservadora de valor – ’em dinheiro’ é, portanto, todo o blockchain em si, operando como um mecanismo de confiança espontâneo ou independente de agentes. Através desse registro continuamente atualizado e integrado de todos os eventos comerciais, o blockchain sustenta um relato consistente da escassez sintética comunicável pela Internet, ou racionamento digital auto-regulado — em outras palavras, o primeiro sistema monetário eletrônico totalmente descentralizado do mundo. A escassez do Bitcoin é descentralizada devido a sua independência em relação às promessas de uma autoridade emissora.

Ao descrever esse sistema, passa-se muito rapidamente do singular para o genérico, de uma maneira que é facilmente entendida por analogia e digna de reflexão momentânea. Tivesse "Netscape" sido adotado como o nome de navegadores web em geral, certas confusões teriam certamente surgido. De maneira mais significativa, a questão "o Netscape sobreviverá?" teria sido fatalmente ambígua. Como a história real demonstrou, o Netscape nesse sentido contra-factual era tanto capaz de morrer quanto de florescer para além de qualquer expectativa anterior. Muitas centenas de milhões de pessoas usam um ‘Netscape’ todos os dias, embora sob outros nomes (gerais e específicos), ao passo que apenas uma fração extremamente pequena está ciente de que o Netscape jamais existiu. Não está claro se o Bitcoin, em seu sentido específico, jamais poderia ser inteiramente extinto, mas ele certamente poderia ser marginalizado para a borda da irrelevância: expulso do mercado por criptomoedas competitivas, através das quais o Bitcoin, no sentido geral, avança em direção à ubiquidade.

Em sua evocação mais ampla, o Bitcoin simboliza uma revolução crescente da Internet, de escala e profundidade que são difíceis de exagerar. A capacidade técnica exigida para operar o BTC — software instalado de sustentação para o blockchain — tem potencial para se estender muito além da moeda em si, e apenas uma fração muito pequena disso tem sido explorada até o momento. Isso é mais dramaticamente evidenciado no crescimento de altcoins, uma extensa ecologia de ramificações do bitcoin, ou sistemas de contrato P2P parecidos com o Bitcoin, marcadas pelo sufixo "-coin". Altcoins proeminentes incluem Darkcoin, Dogecoin, Litecoin, Namecoin e Truthcoin, com muitas outras a caminho. Na borda exterior da abstração do blockchain estão aplicações tais como o Ethereum, cuja linguagem de programação Turing-completa pode dar suporte a smart contracts e até mesmo agentes inteligentes autônomos. Neste ponto de sofisticação, a potencialidade últimas do sistema não são meramente subdeterminadas, mas indetermináveis em princípio, e o portal para um cosmos tecno-comercial previamente não visitado está aberto.

É essa extrema generalidade que Eli Dourado celebra em seu artigo "Bitcoin isn’t Money — It’s the Internet of Money" ("O Bitcoin não é Dinheiro — Ele é a Internet do Dinheiro", argumentando:

"O Bitcoin não é apenas um substituto para o dinheiro; ele pode ser uma forma de contratação generalizada, programável e descentralizada. […] A maior parte dos críticos do Bitcoin estão cometendo um erro categórico. Eles estão mirando na moeda do Bitcoin, quando, na verdade, o Bitcoin é muito mais que uma moeda, da mesma maneira que a Internet é muito mais do que os serviços de telecomunicação que a precederam. […] O Bitcoin é uma nova camada de transporte para finanças, que permite o desenvolvimento descentralizado, disruptivo e sem permissão[4] de aplicações em uma camada separada. Ele tem a capacidade de fazer pelas finanças o que a Internet fez pela comunicação."

Entre as facilidades embasadas no blockchain que Dourado vislumbra estão contratos de garantia, mercados de previsão e micropagamentos contínuos, além de um notário, identidades vinculadas e serviços de classificação de reputação. É fácil de ver porque ‘sacar’ o Bitcoin desencadeia algo similar a um choque metafísico. Como um depositário digital auto-suficiente de identidades legais, ele exibe — virtualmente — um potencial para absorver a infraestrutura cultural das transações formais sem limites óbvios. Talvez não exista nenhum ‘negócio’ concebível sem compatibilidade com o blockchain e, portanto, nenhum horizonte definitivo para sua utilidade comercial, legal ou mesmo política.

De particular relevância aqui é a inovação do blockchain da confiança artificial, frequentemente referido como ausência de confiança, uma vez que ela substitui a confiança e está, assim, pré-adaptada para um mundo no qual a confiança não está disponível.[5] Sob as condições atualmente iminentes, de uma transição hegemônica que ocorre para além do consenso internacional ou da continuidade civilizacional, essa característica profunda do Bitcoin parece certa de ser colocada em primeiro plano. Por uma coincidência aparentemente notável, uma ordem em colapso de promessas, ou de autoridades globais críveis, é acompanhada pela emergência de um sistema alternativo de credibilidade. Conforme os sustentáculos tradicionais da arquitetura institucional do mundo são sujeitados a uma erosão acelerante[6], o prêmio para uma funcionalidade sem confiança só pode aumentar. O Bitcoin se sugere como um substituto para autoridades garantidoras, ao passo em que abre visões inteiramente novas de criação institucional descentralizada. O contexto de fricção, disfunção e desacordo de um mundo em desordem hegemônica apenas reforça sua atração.

Em comparação com as transições suaves em supremacia econômica, das Províncias Unidas, para o Reino Unido, para os Estados Unidos, a passagem para além da ordem mundial americana só pode ser considerada dura. É essa dureza que molda a tomada, para a qual o Bitcoin — em seu sentido mais expansivo — é o plugue. A instalação de sistemas sem confiança se encaixa em um buraco no mundo.

Como o surgimento de tecnologias sem confiança na Internet modifica a paisagem estratégica das grande potências e dos outros principais atores mundiais? Em que medida suas respostas podem ser antecipadas? Apenas abordando essas questões é que alguma concretude pode ser introduzida em nosso entendimento do caminho adiante. Elas, portanto, fornecem o tópico para a terceira (e última) parte dessa série.


Notas:

[1] O mecanismo, descrito de maneira aproximada, é que os déficits crônicos exigidos para a distribuição internacional de uma moeda de reserva minam os fundamentos econômicos domésticos dos quais a credibilidade dessa mesma moeda inicialmente, e em última análise, depende. Esse mecanismo endógeno é afiado por rivalidades geoestratégicas e é ainda mais desestabilizado por fatores complicadores e parcialmente independentes, tais como as vicissitudes da convenção do petrodólar. Em combinação, seu efeito tem exibido uma direcionalidade clara nos tempos recentes, com a proporção de reservas estrangeiras internacionais mantidas em dólares dos EUA caindo de 55% para 33% desde 2000.

[2] A transição da liderança econômica mundial das Províncias Unidades para o Reino Unido foi institucionalmente facilitada pela integração transnacional de elites, coroada pela Revolução Gloriosa de 1688. A sucessão posterior dos Estados Unidos à preeminência econômica global envolveu um grau menos claramente formalizado, mas não obstante inconfundível de coordenação do regimes, construída em grande parte sobre a cooperação militar, administrativa e de inteligência forjada no crisol da Segunda Guerra Mundial. Inúmeros indicadores podem ser mencionados, incluindo até mesmo o fator dinástico da ancestralidade híbrida anglo-americana de Winston Churchill.

[3] A identidade de Satoshi Nakamoto permanece um tópico de especulação intensa, que excede os limites da atual discussão.

[4] Dourado cita o artigo de 2012 "Keep the Internet Open" ("Mantenha a Internet Aberta") de Vinton Cerf, onde a noção de "inovação sem permissão" desempenha um papel conceitual crucial.

[5] Pesquise a combinação "sem confiança + bitcoin" no Google para uma confirmação abundante.

[6] As autoridades monetárias são o exemplo mais relevante aqui, mas qualquer instituição dependente de alguma medida de confiança pública está, em princípio, suscetível a uma concorrência implícita com alternativas embasadas no blockchain (ou seja, sem confiança).


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Observe esse espaço

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Hacked Matter sobre a próxima onda de eletrônicos shanzhai:

O Ciberespaço, tanto como palavra quanto como visão, entrou no léxico popular através do romance cyberpunk Neuromancer de William Gibson em 1984. Mas, como se vê, Gibson não estava interessado na Internet até que começou a comprar relógios no Ebay. Em um artigo de 1999 na Wired, ele detalha seu vício compulsivo em fazer ofertas por relógios mecânicos antigos — o que Gibson chama de "finos fósseis de uma era pré-digital". Mal sabia Gibson que, trinta anos depois de Neuromancer, relógios e o ciberespaço se fundiriam — não apenas porque agora é comum comprar relógios online, mas também graças aos "smart watches" que devem se tornar o mais recente portal para o ciberespaço.


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China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial

Países emissores de moedas de reserva são constantemente confrontados com o dilema entre alcançar suas metas domésticas de política monetária e atender à demanda por moedas de reserva dos outros países. […] O Dilema de Triffin, isto é, os países emissores de moedas de reserva não conseguirem manter o valor das moedas de reserva enquanto fornecem liquidez para o mundo, ainda existe. —Zhou Xiaochaun

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O que as tecnologias da energia à vapor foram para a época de dominância global britânica, e os desenvolvimentos de mão dupla da eletricidade e do automóvel para a subsequente Era Americana, a eletrônica digital — e, mais especificamente, a Internet — são para a "ascensão da China" e para o mundo remodelado que ela epitoma. É apenas de se esperar, portanto, que a intersecção entre a Nova China da Abertura-e-Reforma pós-1979 e a Internet possibilitada pela World Wide Web pós-1990 seja um objeto de particular fascínio internacional e de preocupações práticas.

Desde a aurora da época moderna, a hegemonia geopolítica tem sido associada cada vez mais intensamente à liderança tecno-econômica, o que, por sua vez, tem se refletido no status de reserva internacional de uma seleta moeda nacional. Uma ordem monetária mundial cada vez mais explicitamente formalizada tem convertido intuições convincentes, mas obscuras, de prestígio nacional relativo em uma sistema inequívoco de relações financeiras, no qual uma posição de supramacia é claramente estabelecida, com um papel definido e singular.

As suspeitas fomentadas pela liderança não são menos inevitáveis do que a liderança em si. Por razões históricas facilmente inteligíveis, o establishment político francês tem sido um crítico especialmente vociferante do status de reserva internacional e de seu "privilégio exorbitante"[1] de senhoragem — o ‘direito’ espontâneo de emitir papéis promissórios em troca de bens e serviços reais, sem qualquer prospecto definido de resgate. Pode haver pouca dúvida de que tal crítica articula preocupações amplamente mantidas para além do mundo anglófono, e sua substância merece uma exame sério.

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Dos blocos construtivos indispensávels para o futuro próximo, a China e a Internet têm uma proeminência especial. Há inúmeros lugares em que a China encontra a Web, começando com o crescimento expansivo, multidimensional e explosivo da Internet chinesa em si. O Bitcoin é um fio recente e ainda relativamente esguio na tapeçaria da mudança global, mas ao se puxar ele, algumas características centrais do mundo emergente podem ser colocadas em foco.

Em meio às características que o yuan chinês e o bitcoin compartilham é que nenhum deles é o dólar dos EUA. Especificamente, ambos são alternativas limitadas e, contudo, práticas, ao dólar, pelo menos no nível de tomada de decisão microeconômica. Quando se levantam questões sobre a durabilidade do papel internacional do dólar, pode-se prever com confiança que um ou ambos desses desafiantes será invocado. O dólar morrer por gelo ou fogo, hoje, é ele sucumbir a uma substituição geopolítica (pelo yuan chinês) ou a uma obsolescência tecno-financeira (por parte de alguma cripto-moeda descentralizada, embasada na Internet).

O status internacional do dólar dos EUA concentra duas tendência multi-seculares. Primeiramente, ele representa a peculiaridade etno-geográfica da modernidade, que – até o final do século XX, pelo menos – tendeu a inclinar o poder global não apenas na direção do Oeste ou Ocidente, mas mais especificamente em direção às nações do Atlântico Anglófono, reúnidas, em última análise, sob a liderança americana. Desde o declínio do dólar espanhol, que monetizou o tesouro do Novo Mundo como a primeira moeda global, as finanças internacionais têm sido principalmente denominadas na moeda de uma nação falante do inglês. Não coincidentemente, elas têm, assim, sido fortemente associada a um conjunto de temas culturais específicos, que incluem o cristianismo protestante (filo-semítico), a mão invisível, o livre comércio e a democracia liberal. A institucionalização das finanças mundiais tem estado intimamente conectada com a promoção de uma orientação cultural distinta – e, para muitos, uma que é distintamente questionável.

Em segundo lugar, a formalização de uma ordem monetária global tem sido acompanhada por uma politização incremental do dinheiro, ou seja, pela consolidação de uma política monetária como uma função central do governo. Com o estabelecimento dos bancos centrais e a desmetalização da moeda, a escassez intrínseca é substituída por uma "promessa de pagar" institucional, o que converte o dinheiro de um ativo tangível para uma responsabilidade contratual. A confiança pública no valor do dinheiro é convertida em uma responsabilidade governamental. Torna-se política, e – no contexto de uma moeda de reserva mundial – geopolítica.

Em combinação, essas tendências são inevitavemente provocativas, uma vez que concentram o destino financeiro do mundo em mãos seletas e identificavelmente não-representativas. Por trás da neutralidade estudada das instituições de Bretton Woods (o FMI e o Banco Mundial) está o dólar dos EUA como o símbolo de excepcionalismo americano e da pecualiaridade concreta da ordem mundial moderna.

Embora seja natural — e até mesmo inevitável — que o comando político da moeda de reserva internacional seja entendido como a pedra angular moderna da hegemonia geopolítica, esse não é um privilégio que se pode separar de penosas responsabilidades, ou de profundas ambiguidades. Estas foram claramente reconhecidas desde os anos 1960, quando o economista belga-americano Robert Triffin formulou o paradoxo ou dilema que leva seu nome: que se governos internacionais forem acumular reservas na moeda de uma nação selecionada, essa nação deve necessariamente ser uma exportadora líquida de dinheiro — o que só pode ser alcançado ao se operar com uma balança comercial negativa. Uma nação que emita uma moeda de reserva internacional assume a responsabilidade pela liquidez monetária global. Isso a obriga a consumir mais do que produz, a fim de que a diferença seja disponibilizada como dinheiro mundial. Embora esse requisito seja mera senhoriagem, visto pelo outro lado, a restrição que ele impõe às opções da política econômica doméstica são tão estritas que equivalem quase a um destino.

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Essas restrições são transformadas em um dilema destrutivo pelo fato de que a estrutura política obrigatória exigida para suprir o mundo de liquidez tende a destruir a confiança na moeda ao mesmo tempo, minando, portanto, o seu valor. Déficits crônicos na balança de pagamentos sinalizam fraqueza da moeda, pois normalmente seriam interpratados como um sinal de que a moeda está supervalorizada (ou que necessita de desvalorização). Para o emissor de uma moeda de reserva global, contudo, respostas políticas convencionais a essa situação estão bloqueada em ambas as direções, uma vez que ele não pode nem tomar medidas para fechar o déficit, tampouco tentar fortalecer a moeda através da elevação de taxas de juros. Uma vez que para o emissor de uma moeda de reserva o déficit comercial é uma constante, em vez de uma variável, uma desvalorização meramente incita uma competitiva destruição monetária mundial. Medidas de fortalecimento, por outro lado, trazem dinheiro do exterior (demonominado na moeda internacional) e, assim, expandem ainda mais a demanda por emissão, que só pode ser satisfeita com uma ampliação do déficit comercial.

Em outras palavras, o Dilema de Triffin reconhece que a demanda internacional por uma moeda de reserva é inerentemente paradoxal. O que se busca é a moeda como se ela não fosse suprida através de desequilíbrios comerciais crônicos, e, no entanto, esses mesmos desequilíbrios são o único canal através do qual ela pode de fato ser suprida.

A "Chimérica" exemplifica perfeitamente as características essenciais da situação. Os dois trilhões de dólares americanos de reservas da China correspondem a um excedente cumulativo na balança de pagamento precisamente da mesma soma, uma vez que isso é simplesmente o que são as reservas. Quando percebida de maneira apreciativa — o que era bem mais fácil nas décadas finais do século XX do que nas primeiras décadas do século XXI — a Chimérica tem sido um arranjo econômico complementar, através do quala América alcançou altos níveis de consumo acoplados a uma inflação de preços contida, ao passo em que a China realizou um desenvolvimento econômico orientado a exportações e à modernização revolucionária que a eludiu durante 150 anos. Para olhos mais invejosos, o mesmo arranjo é uma armadilha que casou a desindustrialização americana com a devastação ambiental chinesa, ao passo em que alimentava uma incontinência fiscal insustentável na América e uma bolha de investimentos chinesa. Qualquer das duas imagens que tenha maior realismo, provavelmente pode-se concluir com segurança que a dissimetria imposta por uma moeda de reserva internacional tem consequências extensas e ambíguas.

Cinicamente, seria possível argumentar que o aspecto tributário de um status de moeda de reserva é coincide perfeitamente com profundas tradições chinesas nas relações internacionais, de modo que uma ascenção ao privilégio exorbitante embasado no yuan seria uma meta geopolítica natural para o Reino do Meio, conforme ele restaurasse sua posição central no mundo. De maneira mais realista, contudo — pelo menos no curto prazo — é um reconhecimento de que a perda do controle sobre a política econômica doméstica é uma consequência inevitável e bem entendida da hegemonia monetária global, e uma que o governo chinês certamente achará inaceitável. Quaisquer que sejam os custos (primariamente ambientais) associados com o papel de "fábrica do mundo", eles são imensamente compensados, da perspectiva chinesa, pelas vantagens. É do lado tributário do resgistro da moeda internacional de reserva, no qual a China esteve por mais de quatro décadas, que todos os vetores cruciais de desenvolvimento são encontrados — absorção tecnológica, aprofundamento da infraestrutura, industrialização, urbanização, emprego e até mesmo capacidade militar.

Se a Chimérica está sendo demolida, isso tem bem menos a ver com qualquer tipo de desafio chinês — mesmo um que seja espontâneo e não intencional — do que com uma estrutura trágica inerente à hegemonia monetária. Assim como a hubris leva à nemesis, igualmente o privilégio monetário exorbitante leva à crise, e até mesmo à ruína. Nos antecedentes tanto espanhol quanto britânico, a supremacia financeira se tornou auto-derrotadora, porque exportar dinheiro (em vez de coisas) dava uma vantagem diferencial para competidores industriais, fixando o declínio social secular. Não há nenhuma razão convincente para se acreditar que a América tenha se isentado do mesmo padrão agourento.

Em 29 de março de 2009, na esteira da crise financeira, Zhou Xiaochaun, governador do Banco Popular da China, fez um importante discurso entitulado "Reform the International Monetary System" ("Reforme o Sistema Monetário Internacional", em tradução livre). Ele se referiu explicitamente ao Dilema de Triffin como a chave para se entender a instabilidade econômica do mundo, ao passo em que sugeria que uma mudança para além da hegemonia do dólar dos EUA seria, em última análise, necessária para remediá-la. A este respeito, sua palavras se conformaram a uma tradição que remonta a mais de meio século, até às negociações do Bretton Woods, quando John Maynard Keynes recomendou a introdução de um meio monetário global neutro — a ser chamado de bancor — que tornasse a oferta de liquidez global independente de moedas nacionais.

Historicamente, moedas de reserva internacional não surgiram de propósito. Seria possível argumentar, portanto, que o bancor keynesiano era um remendo tecnocrático irrealista, cego ao impulso espontâneo que já havia tornado o mundo dolarizado um fato não negociável, mesmo antes que os procedimentos de Bretton Woods tivessem começado. Isso não impediu que a mesma ideia básica reemergisse de formas diferentes, a mais proeminente das quais são os DESs (Direitos Especiais de Saque) do FMI, regularmente propostos como o embrião de uma moeda internacional neutra. Foi ainda para os DESs que Zhou se voltou quando buscava por um candidato para uma moeda mundial neutra.

Talvez alguma solução tecnocrática para o problema da hegemonia monetária venha ser finalmente encontrado, mas em caso positivo, ele marcaria um afastamento sem precedentes da história financeira mundial. Se, como tem sempre sido o caso até o momento, marés econômicas para além do controle político devam determinar tais resultados, é compreensível que a atenção deva flutuar em direção ao yuan chinês como eventual substituto para o dólar dos EUA. No entanto, as lições da história estão disponíveis para os formuladores de políticas, mesmo quando a lição mais insistente diz respeito a limitações à sua própria influência e, nesse caso, a principal delas é de que o prospecto de um yuan com status de reserva internacional apresenta à China um cálice envenenado. É muito improvável que ele seja aceito de bom grado.

Alguma evolução espontânea alternativa na natureza do dinheiro poderia levar esse dilema geopolítico crítico em uma nova direção? Tal evolução parece estar ocorrendo, simbolizada pelo bitcoin, o primeiro exemplo na história de uma cripto-moeda digital descentralizada. Para a China, o bitcoin — ou algo comparável a ele — poderia ser a única maneira de se evadir de uma suposição de privilégio econômico global cuja essência é uma ruinosa hubris.

Como o rei sagrado de James Frazer, que é coroado afim de ser sacrificado, o significado interior da hegemonia monetária é destruição econômica e social. A China estende isso bastente claramente e, conforme a era do dólar chegue a um fim, ela está buscando uma saída. É assim que a estória da China e do bitcoin realmente começa.


Notas

[1] Cunhado por Valéry Giscard d’Estaing, durante seu serviço como ministro de finanças francês na década de 1960. Vide: http://www.j-bradford-delong.net/movable_type/2005-3_archives/000397.html (acessado em 29 de abril de 2014).


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Alibaba

O Wall Street Journal produziu uma introdução excelente e cheia de gráficos à gigante chinesa do e-commerce, que conduziu US$240 bilhões em negócios online em 2013 (mais do que a Amazon e o E-Bay combinados). A definição informal no início explica porque você deveria se importar:

A Alibaba é maior empresa de comércio online da China – e, por algumas métricas, do mundo. Seus três principais sites – Taobao, Tmall e Alibaba.com – têm centenas de milhões de usuários e hospedam milhões de comerciantes e negócios. A Alibaba lida com mais negócios do que qualquer outra empresa de comércio eletrônico.

Espera-se que o IPO da Alibaba o valorize entre US$150 e 250 bilhões (colocando-a entre as dez empresas de tecnologia mais valiosas do mundo). A rapidez da mudança neste setor é difícil de compreender. Espera-se que o mercado de e-commerce chinês, hoje em US$300 bilhões, exceda US$700 bilhões em 2017.

ADICIONADO: Alguns antecedentes sobre o relacionamento Alibaba-Yahoo.

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Promovida pela PPC

Ilusões monetárias têm sido algo como uma obsessão aqui recentemente (por exemplo. Como exemplo de quanta diferença elas podem fazer, a ordem econômica do mundo, que é confortavelmente dominada pelos Estados Unidos em taxas de câmbio internacionais, está à beira de sua maior transição em meio milênio se a contabilidade for conduzida de acordo com a PPC.

Do Bloomberg:

A China está pronta para ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo, enquanto a Índia saltou para o terceiro lugar, à frente do Japão, usando cálculos que levam em consideração as taxas de câmbio.

A economia da China era 87 por cento do tamanho da dos E.U.A. em 2011, avaliada de acordo com a chamada paridade do poder de compra, O Programa Internacional de Comparação disse em comunicado ontem em Washington. O programa, que envolve organizações como o Banco Mundial e as Nações Unidas, colocou o número em 43% em 2005.

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