Nossa Causa

"Então, sobre o que, realmente, é o Urbano Futuro?"

Basicamente isso:

Octopus City eating the world

(É isso que o capitalismo de compras pelos correios parecia ameaçar em 1939. A monstruosidade cefalocomercial tem que ter se tornado bem mais tentacular desde então. Imagem via @SlateVault.)


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Limites da Cidade

Há, sem dúvida, um caráter quixotesco no modo “a China deveria fazer X” de comentários externos, mas o pequeno artigo de Yukon Huang na Bloomberg, que aconselha a revisão das políticas de urbanização do país, representa o gênero em sua melhor forma. Observando os efeitos de aglomeração que produzem retornos desproporcionais de escala urbana, Huang recomenda um afastamento da proliferação de cidades menores e uma aproximação na direção do crescimento de megacidades.

A China já está em uma classe própria ao ser responsável por 30 das 50 maiores cidades do leste da Ásia. Ela possui meia dúzia de megacidades com populações de mais de 10 milhões e 25 cidades “grandes”, que excedem 4 milhões. Na verdade, porém, a única maneira pela qual a China alcançará os ganhos de produtividade desejados é se seus líderes permitirem que as cidades evoluam mais organicamente em resposta às forças do mercado. Eles precisam deixar cidades como Pequim ficarem maiores.

A concentração urbana cria problemas reais, mas estes são indistinguíveis dos desafios que qualquer processo genuíno de avanço socioeconômico tem que enfrentar. As soluções para esses problemas serão os mesmos passos que levarão o país adiante em território inexplorado — para além da “recuperação” e até os horizontes abertos do futuro. Tudo que se aprende da história econômica concreta sugere que as oportunidades tecnológicas e de negócios serão aumentadas exatamente pelas forças que promovem a aglomeração das megacidades — e, melhor ainda, a concentração ou intensidade urbana — a níveis historicamente sem precedentes. É assim — e onde — que a inovação social profunda ocorre.

Em vez de tentar ativamente espalhar o crescimento para pequenas cidades novas, os planejadores da China deveriam abraçar as economias de aglomeração, que militam por grandes metrópoles. À medida em que a terra e os custos salariais aumentam, algumas indústrias eventualmente gravitarão para cidades de tamanho médio, mas os serviços continuarão a impulsionar a expansão nas cidades maiores. Pessoas inteligentes gostam de se misturar com outras pessoas inteligentes, e a globalização ampliou seus retornos financeiros. Pequim e Shanghai continuaram a crescer por causa de serviços dinâmicos de alto valor, mesmo quando suas bases de produção encolheram. Tudo isso explica porque, na China, a produtividade nas áreas urbanas é mais de três vezes maior que nas áreas rurais.

Mas as megacidades da China não são grandes demais para serem sustentáveis? Na verdade, alguns especialistas urbanos concluíram que até mesmo as maiores cidades da China podem ser muito pequenas. Eles citam a “lei de Zipf”, uma das grandes curiosidades da pesquisa urbana. A lei, que é surpreendentemente precisa para muitos países, afirma que a maior cidade de um país deve ter o dobro do tamanho da segunda maior, três vezes o tamanho da terceira maior, e assim por diante. Com base nisso, as maiores cidades da China parecem muito pequenas.

Pensar através de leis de potência (como as de Zipf) afasta a ideia de tamanhos “normais” de cidades. A escala urbana ótima é decidida por efeitos de rede e depende de toda a ecologia social — regional, nacional e globalmente. O tamanho “ideal” de Shanghai, por exemplo, não pode ser derivado de algum modelo genérico de cidade, mas deve ser entendido, em vez disso, com referência ao papel singular que esta cidade desempenha como um ponto central em múltiplas redes — especialmente redes comerciais — dentro do qual ela acumula funções especializadas. À medida que essas teias se expandem e engrossam, seus nós críticos tendem a crescer e se intensificar espontaneamente. É natural, portanto, ao longo do processo de modernização global, que os limites da escala urbana fiquem cada vez maiores, de acordo com a sofisticação funcional dos centros cruciais do sistema, e os refinamentos associados de especialização que essas cidades-chave promovem.

Pequim está sujeita a teimosas restrições ambientais, com a limitação dos recursos hídricos sendo proeminente entre esses. Sua distância da costa também é um fator inibidor de crescimento. Shanghai, em contraste, está destinada à vastidão por tamanhas e implacáveis forças históricas que é difícil imaginar mesmo a resistência política mais determinada ficando no caminho por muito tempo. Como a capital comercial do país, qualquer distribuição em lei de potência da escala urbana começa com Shanghai no cume. Seria melhor se dobrar ao inevitável, e deixá-la se tornar o laboratório do mundo para intensidade urbana, traçando o avanço da modernidade até o Século do Pacífico. As recompensas por essa aceitação facilmente submergiriam os custos.

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Uma Lição de Detroit

No Project Syndicate, Sanjeev Sanyal argumenta que o colapso de Detroit tem algo a ensinar às economias emergentes — especialmente à China. O “modelo urbano pós-industrial… favorece fortemente cidades generalistas que conseguem aglomerar tipos diferentes de conveniências, serviços essenciais e capital humano”, ele propõe. Isso tem algumas implicações surpreendentes para os prospectos do desenvolvimento urbano.

Conforme ela se transformou na “fábrica do mundo”, a parcela da população urbana da China saltou de 26.4% em 1990 para cerca de 53% hoje. As cidades grandes e cosmopolitas de Pequim e Shanghai cresceram dramaticamente, mas a maior parte da migração urbana foi para cidades industriais de pequeno e médio porte que se multiplicaram na última década. Agrupando infraestrutura industrial e utilizando o sistema hukou de permissões de residência específicas por cidade, as autoridades foram capazes de controlar o processo surpreendentemente bem.

Esse processo de crescimento urbano, no entanto, está prestes a se desfazer. Conforme a China desloca seu modelo econômico para longe do pesado investimento em infraestrutura e da produção em massa, muitas dessas pequenas cidades industriais perderão suas principais indústrias. Isso acontecerá em um momento em que a demografia distorcida do país faz com que a força de trabalho encolha e o fluxo de migração das áreas rurais para as cidades diminua (a população rural agora é desproporcionalmente composta por idosos).

Enquanto isso, as atrações pós-industriais de cidades como Shanghai e Pequim atrairão os filhos mais talentosos e melhor educados dos trabalhadores industriais de hoje. Ao contrário dos migrantes rurais que se dirigem para empregos industriais, será muito mais difícil orientar profissionais educados e criativos usando o sistema hukou. A explosão das cidades bem-sucedidas, portanto, vai esvaziar o capital humano de centros industriais menos atraentes, que então cairão em um ciclo vicioso de decadência e queda de produtividade.

Estórias como a de Detroit aconteceram várias vezes em países desenvolvidos durante o último meio século. E, como sugere o destino das cidades do norte do México, as economias emergentes não estão imunes a esse processo.

É por isso que a China precisa se preparar para esse momento. Em vez de construir cada vez mais pequenas cidades industriais, a China precisa readaptar e atualizar suas cidades existentes. Conforme sua população começar a diminuir, pode até valer a pena fechar as cidades inviáveis e consolidar.

(Via Zero Hedge)

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Visões da Shanghai Tower

Algumas imagens deslumbrantes do fotógrafo local Blackhaven foram selecionadas por James Griffiths no Shanghaiist, apresentando a Luijiazui como nunca foi vista antes. Torres super altas são objetos e plataformas de espetáculo. Provavelmente é fútil argumentar sobre qual aspecto da reconstrução do visual urbano importa mais.

ADICIONADO: Do excelente ensaio de Jabon Rubin sobre o Burj Khalifa:

Ainda assim, um edifício como o Burj exerce uma atração magnética, grande parte da qual deriva da perspectiva de sua visão. Essa é a questão apresentada por uma torre: ela é feita para que se olhe para ela ou a partir dela? “Vista”, enquanto palavra, veio a significar ambos, denotando não apenas a visão em si, mas o poleiro que a oferece, como se o último atingisse o status de perspectiva simplesmente por oferecer uma. Quando se fita a Torre Eiffel ou o Empire State Building, é literalmente para isso que está se olhando: uma vista de uma vista, uma visão de uma visão, e aquela admiração distinta e encharcada de veneração, conhecida de qualquer transeunte, deve derivar, pelo menos em parte, de se imaginar a visão lá de cima. Como o rosto de um visionário, essas construções extraem muito de seu poder daquilo a que contemplam.

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Uma Introdução à Urbanomia

Por mais irritantes que neologismos possam ser, às vezes eles são quase compulsórios. Quando um pensamento compacto e comparativamente simples é forçado a se rotear, repetidamente, através de emaranhados terminológicos grosseiramente costurados, a palavra adequada que falta fomenta o equivalente linguístico de uma fome incômoda. A invenção de palavras se torna o pré-requisito simples de uma função cognitiva regular.

O desenvolvimento urbano da cidade individual, ou o processo típico de maturação urbana, é um conceito bastante básico, mas linguisticamente desassistido, desse exato tipo. A ausência é agravada pela presença de uma outra palavra — uma que soa superficialmente adequada, mas que na verdade designa uma ideia inteiramente separada.

Quando uma cidade cresce, ela não se ‘urbaniza’ (apenas um sistema social mais amplo pode fazer isso). Urbanização se aplica a uma sociedade que se torna proporcionalmente mais urbana, conforme pessoas de zonas rurais se mudam para cidades, mas quando uma cidade individual se desenvolve – e, de fato, se individua – ela sofre uma urbanomia (no modelo de uma ‘teleonomia’). A urbanomia – a auto-organização urbana — é bem mais crítica para esse blog do que a urbanização. Cunhar o termo é uma declaração de comprometimento teórico com a individuação urbana enquanto uma realidade estruturada – e, assim, cognitivamente tratável – social, histórica e, em última análise, cósmica.

As fundações do entendimento urbanômico foram lançados por Jane Jacobs em seu livro A Economia das Cidades. Nesta obra, ela esboça uma teoria simples e poderosa da auto-organização urbana, guiada por um processo econômico espontâneo de substituição de importações. As cidades se desenvolvem através de uma autonomização, ou introversão, que ocorre conforme elas aprendem com o comércio, transformando progressivamente uma proporção cada vez maior de seus fluxos comerciais em circuitos endógenos. Esta tendência (urbanômica) não precisa isolar as cidades do mundo, mas ela necessariamente converte uma dependência estável em uma interação dinâmica, que orienta uma modificação comercial contínua. As vantagens logísticas e informacionais dos produtores urbanos locais – minimizar custos de transporte e maximizar a intensidade do feedback – tendem a encorajar a internalização da atividade produtiva, ensinando à cidade o que ela pode fazer por si mesma e consolidando sua identidade singular (enquanto indivíduo real). O crescimento, a complexificação e a individuação da cidade são integrais para um único processo urbanômico.

É a urbanomia que produz cidades, com a urbanização – tipicamente – ocorrendo como uma fenômeno secundário. Cidades funcionais não são lixões demográficos, mas entidades em maturação endógena que puxam coisas (incluindo pessoas) para dentro de si.

Entre as muitas consequências colaterais vindas da tese de Jacobs, uma em particular é tão historicamente sugestiva que merece uma curta digressão. Como as cidades não são nutricionalmente auto-sustentáveis, tem sido natural supor que elas pressupõem uma agricultura estabelecida, à qual elas se relacionam de uma maneira que é – pelo menos em termos calóricos – parasitária. Jacobs vira essa suposição de ponta cabeça, propondo, em vez disso, que a comercialização da produção de comida que acompanhou a emergência das cidades foi, em si, um motor crucial da agriculturação. Ao fornecer mercados concentrados e de escala comparativamente grande, as cidades pela primeira vez tornaram economicamente racional a produção de excedentes substanciais de comida, apoiando automaticamente seu próprio desenvolvimento futuro em uma interconexão interativa com a revolução neolítica.

A compreensão urbanômica básica de maior relevância aqui, contudo, é mais abstrata. A tese de Jacobs estabelece uma estrutura para se explorar de maneira sistemática a estrutura temporal do processo urbano, concebida não unicamente como um episódio (prolongado) no tempo, ou uma história, mas também como o funcionamento de uma máquina social cronogênica ou criadora de tempo.

O conceito que Jacobs introduz tacitamente, como princípio orientador da tendência urbanômica, é a autoprodução. Conforme ela cresce, se especializa internamente, se auto-organiza, dissipa entropia e se individua, a cidade tende a um limite impossível de completa autonomia produtiva. Ela aparece como uma onda convergente, moldada na direção de uma ordem ou complexidade crescente, como se por uma mão invisível, ou de acordo com um projeto inteligente. O padrão é exatamente o que seria esperado se algo ainda não realizado estivesse orquestrando sua auto-criação. Mesmo depois de 150 anos de teoria evolutiva coerente, tais processos – na ausência de um agente criativo dominante – parecem extraordinários e até mesmo sinistros, pois eles parecem correr para trás, contra a corrente do tempo.

O tempo como ele é vivido e explorado é tensionado. Ele é ocupado a partir do meio, que é sempre agora, e do qual o passado recua (parcialmente relembrado, ou registrado), conforme o futuro se aproxima (parcialmente antecipado, ou previsto). A linha do tempo que cruza o ‘agora’, ou o presente, é assimétrica. Ela tem uma ‘seta’.

As correntes científicas principais que sustentam o entendimento moderno do mundo descrevem essa seta do tempo de duas maneiras bastante diferentes. Ambas são facilmente intuídas e geralmente aceitas, pelo menos em seus contornos mais gerais.

Primeiramente, nos é dito que a seta do tempo corresponde a um aumento da desordem. Coisas quebram, erodem, envelhecem, morrem e apodrecem. Apresentadas duas fotos, uma de um ovo intacto e uma do mesmo ovo esmagado, não dúvida sobre qual veio primeiro. Ovos não desamassam, o tempo não se reverte.

Exceto que (em segundo lugar) geralmente antecipamos progresso ou melhoria. O conhecimento se acumula, invenções são feitas; espera-se, normalmente, que as economias cresçam. Mesmo aqueles mais resistentes às mensagens modernas – tais como as ideias evolutivas — trabalham confiantemente para produzir ordem em suas vidas, quando arrumam, classificam, montam, organizam ou compõem. Ovos podem não desamassar, mas existem ovos, e eles foram feitos de alguma forma (não havia nenhuma há 500 milhões de anos).

Então como nossas intuições sobre o tempo se alinham com a seta do tempo? Qual é o caminho adiante e qual é para trás? Entre uma ordem crescente e uma decrescente, qual parece normal e qual, estranha?

Estas questões são complicadas pelo fato de que nós processamos mentalmente o mundo de duas maneiras muito diferentes, dividindo-o tão nitidamente quanto possível entre pessoas e coisas, agência e inércia, o animado e o inanimado, teleologia e mecanismo. Esse sistema dual bastante básico de classificação perceptual – quase certamente favorecido por estruturas neurológicas profundamente arcaicas — corresponde a um aparato cognitivo geminado de profunda expectativa. Violações categóricas são visceralmente inquietantes.

Quando pessoas – ou mesmo animais ‘inferiores’ — se comportam como coisas, elas primitivamente evocam o pavor da morbidez, da mortalidade e de variedades mais radicais de incorreção cósmica, parcialmente capturadas pela figura do zumbi. A zona intermediária, dos ‘mortos-vivos’, pode ser adentrada de qualquer uma das duas direções, desencadeando uma revulsão arcaica à monstruosidade – a mais fundamental das coisas que não deveriam ser. A ficção de horror habita quase inteiramente este mundo crepuscular de escorregões categóricos.

Quando a ordem emerge espontaneamente em meio às coisas, ela parece mágica (no sentido antigo, de captura da alma) e espectadores em pânico reflexivamente buscam os agentes ocultos da interpretação ‘animística’ ou religiosa, compelidos por intuições categóricas bem mais antigas que a espécie humana. Uma calma apreensão de tais ‘teleonomias’ está fundada, talvez invariavelmente, em uma atenuação ou imprecisão da percepção distinta. Se um biólogo verdadeiramente percebesse o processo evolutivo, seu horror integral e primordial seria inelutável. A urbanomia, igualmente, pertence ao âmbito da monstruosidade real. Esta é uma razão pela qual as cidades não podem prontamente ser vistas pelo que são.

Animação espontânea, horror e reversão temporal estão inextricavelmente amarradas juntos na raiz de sua apreensão. O sistema nervoso humano não consegue registrar um erro mais profundo do que uma inversão do tempo, como demonstrado por uma coisa que vem à vida. As cidades, eventualmente, nos assustarão. Ao fazê-lo, elas nos puxarão para além do que tem sido – até hoje — o horizonte do tempo inteligível.

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Urbanização em Foco

A urbanização poderia ser o tema principal da 5ª geração da administração do PC da China? O pano de fundo para essa pergunta é o próprio processo de urbanização chinês. Ao longo das três décadas de Reforma e Abertura, a população urbana da China subiu de 20% para 53% do (crescente) total, resultando em mais de meio bilhão de novos urbanitas. As consequências econômicas e geoestratégicas dessa transformação reestruturaram profundamente o mundo. (Esse é o fato central da Modernidade 2.0 centrada no Pacífico.)

No Atlantic, Matt Schiavenza comunica o básico:

Na China, o crescimento econômico e a urbanização têm andado de mãos dadas. Quando Deng Xiaoping iniciou a Reforma e Abertura em 1978, a vasta maioria da população vivia e trabalhava no interior — da mesma forma em que o povo chinês havia feito por séculos. Mas ao longo das últimas três décadas e meia, conforme as zonas econômicas especiais despejavam exportações e a China modernizava suas cidades, centenas de milhões de pessoas migraram para áreas urbanas buscando trabalho nos setores de manufatura e serviços. Isso… deixou a China — e os chineses — muito mais ricos

O temas de orientação da liderança da 4ª geração do PC da China – ‘sociedade harmoniosa’ e ‘desenvolvimento científico’ – foram sem dúvida esculpidos pelas pressões e pelos desafio políticos de uma urbanização massiva, mas eles abordavam o fenômeno de maneira indireta. Existem inúmeras indicações de que uma ênfase mais especificamente focada na urbanização está emergindo agora. Em particular, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, vislumbra o tópico como um nexo, em que muitas das questões de desenvolvimento e governança do país se encontram.

O jornal chinês Qiushi publicou um artigo de Li Keqiang sobre urbanização em sua edição de inverno em 2012 (traduzida para o inglês por He Shan e Chen Xia aqui). Enquadrado pela expectativa (atribuída a “economistas estrangeiros”) de que “a urbanização da China e a alta tecnologia dos EUA emergiriam como motores gêmeos da economia global no século XXI”, ele recompensa um exame minucioso.

A análise de Michael Pettis, que identifica um consumo doméstico insuficiente (por parte das famílias) como um obstáculo econômico proeminente da China, é uma valiosa preparação para essa discussão, que começa: “A urbanização é o maior potencial para se impulsionar a demanda doméstica”. Li argumenta que a China permanece relativamente sub-urbanizada, de modo que a propulsão a um “crescimento urbano exponencial” continua, com implicações pelo menos parcialmente previsíveis. Uma vez que “os residentes urbanos gastaram 3,6 vezes mais do que os habitantes das zonas rurais em 2010”, pode-se prever com confiança que os gastos dos consumidores aumentarão em função da urbanização, contribuindo automaticamente para o reequilíbrio econômico.

… Estima-se que cada residente rural que se torne um morador urbano aumentará o consumo em mais de 10.000 yuan (US$1.587). E cada um aumento de um por cento na taxa de urbanização em apenas um ano verá mais de 10 milhões de residentes rurais absorvidos pelas cidades. Isso, por sua vez, se traduzirá em um consumo de mais de 100 bilhões de yuans (US$15,9 bilhões) e, consequentemente, criará mais oportunidades de investimento.

A plena realização dessas oportunidades, argumenta Li, exigirá a reforma ou a abolição do sistema hukou de registro de residência do país, com sua “estrutura dupla urbano-rural”. Em outros aspectos, também uma ação vigorosa do governo é recomendada, contanto que ela alcance uma “conformidade com as leis objetivas do desenvolvimento urbano”. (Investigar “as leis objetivas do desenvolvimento urbano” é a missão primária deste blog, então é um conceito ao qual obsessivamente retornaremos.)

Assume-se que as responsabilidades centrais do governo incluem a mitigação de conflitos e problemas sociais, o investimento em infraestrutura e a intervenção administrativa para restringir a instabilidade do mercado imobiliário. A gestão da urbanização, assim, é reconhecida como uma prioridade do governo. Dada a complexidade e a significância global dessa tarefa, que equivale à integração de outro quarto de bilhão de chineses à corrente econômica em pouco mais de uma década, não há realmente nenhuma alternativa decente à observação – com um mínimo absoluto de presunção ou sarcasmo – boa sorte com isso.

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Mesmo quando os gastos diretos de construção são ignorados, ao sistematicamente aumentar o nível de consumo domiciliar, a urbanização chinesa domina a paisagem macroeconômica do país. Não é nenhum grande exagero ver a emergência da economia consumidora mais dinâmica do mundo como um efeito colateral de um processo de urbanização com três décadas de duração, embora – como em qualquer desenvolvimento complexo como esses – a causalidade seja turbular e auto-estimulante. O consumidor chinês é uma criatura da nova época urbana e uma incitação à sua elaboração adicional.

Conforme observado na primeira parte deste post, a centralidade da urbanização para a situação macroeconômica da China foi explicitamente abordada em um artigo significativo do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. A conversão do povo rural em urbanitas (ou ‘cidadãos’ de acordo com uma etimologia estrita) é companhada por um aumento de 3.6 vezes no consumo per capita. Além do impacto puramente quantitativo no nível de demanda econômica doméstica, a ascensão dos consumidores urbanos também impulsiona uma transição qualitativa, caracterizada sobretudo pela expensão do setor de serviços (em termos tanto absolutos quanto relativos). Li busca alinhar ações administrativas com essa tendência:

A escalada do crescimento da indústria de serviços é crítica para se ajustar a estrutura industrial. Medidas efetivas devem ser tomadas para construir um ambiente favorável ao crescimento da indústria de serviços, tanto em termos de tamanho quanto de qualidade. O governo deve promover o desenvolvimento de indústrias de serviços relacionados à produção, como uma logística moderna, e-commerce, pesquisa científica e design. Deve também garantir que os serviços relacionados ao consumo, como turismo, recreação, cuidados aos idosos e serviços domésticos, sejam estimulados e que o desenvolvimento de pequenas e médias empresas de serviços seja apoiado.

A urbanização promove um estrutura econômica mais orientada a serviços, o que, por sua vez, promete diminuir a intensidade energética da produção econômica; aumentar a produtividade total dos fatores (PTF); proliferar pequenas e medias empresas (PMEs) empreendedoras; acelerar a emergência de indústrias embasadas em conhecimento e criativas; e aumentar as oportunidades de emprego. Em outras palavras, uma série previsível de dependências – da urbanização, passando pelo consumismo, até a orientação a serviços – subordina a política econômica às “leis objetivas do desenvolvimento urbano”, que sozinho torna suas metas realizáveis. A expansão e a melhoria das cidades decidirão se a China funciona.

A orquestração de questões políticas centrais sob um tema urbano é também notavelmente vista na área do desenvolvimento regional. Aqui, também, os problemas mais intratáveis do país devem ser destrancados por uma chave urbana:

O desenvolvimento regional está intimamente relacionado à urbanização. Regiões menos desenvolvidas ficam para trás em termos de crescimento, especialmente na urbanização. Em áreas que ostentam condições maduras de desenvolvimento e uma grande capacidade ambiental, o governo deve ativa e continuamente facilitar a urbanização através de uma alocação razoável de recursos, uma disposição centralizada das empresas e do encorajamento do uso intensivo da terra para acionar novos motores de crescimento e melhorar a capacidade local de desenvolvimento auto-sustentável. O governo deve adaptar suas políticas regionais, industriais e agrárias a diferentes regiões e setores, em vez de adotar políticas gerais e abrangentes.

O investimento em infra-estrutura e as ferramentas de política social que têm sido empregadas para ‘Abrir o Ocidente’ desde a virada do milênio são agora especificamente concebidas como formas de catalisar, acelerar e guiar o desenvolvimento urbano em regiões atrasadas. As cidades devem ser a solução.

Alguns links extras:

A excelente introdução de Mi Shih ao chengzhenhua (城镇化) — e por que ‘urbanização’ não é a palavra certa.

Para uma abordagem mais hostil à agenda de urbanização chinesa, vide Gordon Chang aqui.

Nin-Hai Tseng na Fortune: “[Stephen] Roach oferece uma estatística interessante: o setor de serviços da China exige cerca de 35% mais emprego por unidade de PIB do que a manufatura e a construção.”

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Absorção de Capital: Sobre o tópico de Michael Pettis, este soberbo artigo recente certamente se tornará um ponto de referência indispensável para os observadores da economia chinesa. Pettis há muito tem argumentado que os níveis de investimento chineses excedem a capacidade de absorção do país, e o novo artigo coloca este argumento em um quadro teórico mais amplo, que ele explica com extraordinária lucidez. Se ele estiver correto em sua avaliação básica, algumas suposições bastante generalizadas sobre a economia do desenvolvimento exigirão uma revisão drástica, com fatores culturais e institucionais (“capital social”) adquirindo uma proeminência bem maior.

Pettis tem uma reputação merecida de pessimismo em relação aos prospectos de crescimento chinês, mas esse artigo faz um argumento cauteloso a favor do otimismo em relação à estratégia de desenvolvimento do país, que ele vê passando de um modelo de crescimento guiado por investimento para algo mais sensível a instituições. Essa sub-previsão política prevê um movimento significativo na direção de uma reforma orientado ao mercado durante o período Xi-Li.

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Movimentos de Abertura: No South China Morning Post (via): O premiê Li Keqiang lutou contra a oposição dos reguladores financeiros em sua tentativa de promover um plano de referência para uma zona de livre comércio em Shanghai. É o sinal mais claro ainda de que a nova liderança do país está determinada a realizar reformas econômicas há muito adiadas. […] O novo plano de zona de livre comércio de Shanghai, anunciado oficialmente no início de julho, deve ser o campo de testes para as principais reformas políticas. Ela promoveria os fluxos de capitais e mercadorias transfronteiriças, com experimentos-chave para liberar os mercados de câmbio e liberalizar as taxas de juros domésticas. […] Dentro de dois meses, Li fez uma proposta inicial que abrange 21 iniciativas cujos detalhes não foram oficialmente anunciados. Estes incluíam atalhos para bancos estrangeiros estabelecerem operações de subsidiárias ou de empreendimentos conjuntos, e permissões especiais para bolsas estrangeiras de commodities fazerem depósitos próprios na zona de livre comércio em Shanghai… […] … outras cidades do continente, que enfrentam desemprego e crescimento mais lento, também estão interessadas em seguir o movimento de Shanghai para atrair capital estrangeiro. Mas não se entende que Li esteja interessado em se apressar em copiar o modelo de Shanghai para outras cidades do continente.

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Handle_MZ comentou: “pode-se prever com confiança que os gastos dos consumidores aumentarão em função da urbanização, contribuindo automaticamente para o reequilíbrio econômico.”

Eu li “The Great Rebalancing” (“O Grande Reequilíbrio”) e eu acho que essa previsão estranhamente contradiz a narrativa principal de Pettis. Pettis diz que a participação do consumo no PIB chinês é uma função necessária tanto da propensão das populações a economizar e consumir quanto de toda a política econômica do governo, incluindo as taxas de juros do PBOC, os controles de capital e a estabilização da taxa de câmbio do dólar.

O objetivo é um crescimento alto e sustentável do PIB através de altos níveis de investimento, salários estáveis e acumulação de capital de fator produtivo — especialmente no setor de exportações e comercializáveis. Um objetivo corolário é uma melhoria na competitividade global em mercados acima na cadeia de valor.

Se o consumo domiciliar é um produto de meios que buscam o fim acima, então qualquer aumento no consumo (isto é, vindo da urbanização) que perturbe esse fim será recebido apenas com movimentos compensatórios do governo que o empurre de volta para baixo. A política é o motor imóvel dos níveis de consumo. Bem, ligeiramente móvel, mas por aquele critério de sustentabilidade previamente mencionado. Mas o reequilíbrio não pode ocorrer sob o atual sistema a menos que o governo seja sábio o suficiente para apoiá-lo.

Em todo caso, a urbanização cria um excedente de trabalho que suprime o crescimento dos salários médios urbanos. Quanto mais o consumo urbano cresce (por conta de salários crescentes, por exemplo), tanto mais atraente é se mudar do interior, o que também empurra os salários urbanos de volta para baixo. Isso ajuda a competitividade global da China, mas pode, na realidade, reduzir o consumo doméstico em relação ao contrafactual de menos urbanização.

Resposta do Admin: Como você sabe de discussões anteriores, existem várias suposições que precisam ser corrigidas antes de ir adiante com isso. Nesse ponto, estou satisfeito com a conclusão de que a urbanização está sendo concebida como uma solução para o dilema econômico mais marcado do país (no nível mais alto da nova liderança). Eu acho que isso é bastante sólido, independente das questões que Pettis e você levantam. Sobre essas últimas, no entanto, parece difícil acreditar que a urbanização é incidental para a formação de “capital social”, do tipo que — Pettis argumenta — eleva a capacidade de absorção de capital e, assim, contribui diretamente para a melhoria do problema de deficiência de consumo. Isso é para além dos efeitos diretos sobre o consumo enfatizados por Li Keqiang.

Isto não pretende ser uma resposta adequada ao seu argumento, apenas uma réplica provisória.

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Recuperação

[Pequenos pedaços e peças do UF2.0 foram agrupados aqui]

Captura de Movimento: Doce para os olhos dos urbanófilos.

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Ma Yansong: Siga o link para ver com o que as cidades chinesas vão começar a se parecer, se Ma Yansong for decidir. O Urbano Futuro considera Ma como bastante possivelmente o arquiteto mais empolgante trabalhando no mundo hoje. Quanto mais influência ele conseguir sobre as paisagens urbanas do amanhã, tanto mais deleitados ficaremos.

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Snacktivismo: A Shanghai Studies Society (organizadora do Shanghai Studies Symposium) está procurando potenciais participantes em seu projeto Moveable Feasts (“Banquetes Móveis”), concebido como uma série interligada de eventos e publicações sobre o tópico da comida de rua de Shanghai. Para um gostinho rápido da orientação da SSS, confira o seu (altamente apimentado) Manifesto da Comida de Rua que busca angariar pessoas para a causa. + De bônus, um rastreador de comida de rua (obrigado Josh)

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[b]Mais Uma Vez[/l]: Sean Thomas [l=http://blogs.telegraph.co.uk/news/seanthomas/100223134/americas-supremacy-is-finished-why-dont-we-understand-this/]faz[/l] um ponto simples, mas importante no /Daily Telegraph/ do Reino Unido, sustentado por datas e estatísticas: /A China já é, portanto, de muitas maneiras, o país mais importante do mundo – de longe/. (Leia tudo.)

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Teoria das Franjas: No Gene Expression, Razib Khan sugere que a história é feita nas bordas.

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Benjinx: De Brendan O’Kane, no Rectified:name:

Oficiais do governo estão planejando mover a capital da China para Xinyang, uma cidadezinha em Henan da qual você nunca ouviu falar! Eu sei que isso é verdade porque um cara no Weibo disse isso algumas semanas atrás. O Tea Leaf Nation tem um post sobre essa conversa.

Isso não é particularmente novo. Wang Ping, um professor na Capital University of Economics and Business, sugeriu realocar a capital em 1980 e tem havido agitações periódicas da discussão desde então, geralmente seguindo-se firmes nos calcanhares de tempestades de areia, ar-pocalipses, enchentes, engarrafamentos do tamanho da cidade e outros lembretes de que, com ou sem um bom feng-sui, existem desvantagens reais de se viver em uma bacia de polução na borda do deserto de Gobi, cujos lençóis freáticos caíram cerca de 10 metros ao longo da última década e cujas renovações pós-1949 podem ser usadas para dar aulas em cursos de planejamento urbano no Inferno.

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Nuvens de Tempestade: O Zero Hedge está passando uns alardes de destruição de alta qualidade do comentarista econômico superstar na China, Li Zuojun.

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Drones sobre o Huangpu: Essa história ficou com todo o pacote de biscoitos.

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FredShasta comentou (sobre Ma Yonsong): Existem modelos dessas coisas em exposição no Himalayas Art Museum em Shanghai agora (o Zendai Himalayas Center provavelmente parecia bem legal na sua fase de projeto, também, mas a construção mesmo é um pouco… menos do que excelente).

Resposta do Admin: Essa exibição é fantástica — Estou querendo postar sobre ela, mas ficou bastante complicado. É triste ouvir que a execução é decepcionante, mas acho que é de se esperar.

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O Iluminismo Sombrio, Parte 4a

Parte 4a: Uma sub-digressão multiparte ao terror racial

Meu próprio sentimento da coisa é que, por debaixo de toda a conversa feliz, debaixo da adesão obstinada a ideias falhas e teorias mortas, debaixo da gritaria e do anátema contra pessoas como eu, há um desespero profundo e frio. Em nossos mais íntimos corações, não acreditamos que a harmonia racial possa ser alcançada. Daí a tendência à separação. Só queremos continuar com nossas vidas longe um dos outros. Ainda assim, para um povo moralista e otimista como os americanos, esse desespero é insuportável. Ele é empurrado para longe, para algum lugar em que não tenhamos que pensar sobre ele. Quando alguém nos força a pensar sobre ele, reagimos com fúria. Aquele menininho na estória de Andersen sobre as novas roupas do Imperador? O fim seria mais verdadeiro para com a vida se ele tivesse sido linchado por uma multidão uivante de cidadãos ultrajados.
– John Derbyshire, entrevistado na Gawker

Acreditamos na igual dignidade e na presunção de igual decência em relação a toda pessoa – não importa qual raça, não importa o que a ciência nos diga sobre inteligência comparativa e não importa o que possa ser obtido das estatísticas criminais. É importante que a pesquisa seja feita, que as conclusões não sejam fraudadas e que tenhamos liberdade de falar francamente sobre o que ela nos diz. Mas isto não é um argumento a favor de conclusões a priori sobre como pessoas individuais devem ser tratadas em diversas situações – ou a favor de calcular medo ou amizade com base apenas na raça. Manter e ensinar de outra forma é prescrever a desintegração de uma sociedade pluralista, minar a aspiração do E Pluribus Unum.
– Andrew McCarthy, defendendo a expulsão de JD da National Review

“A Conversa”, da forma em que os americanos negros e os liberais a apresentam (a saber: necessitada pela malícia branca), é uma afronta cômica – porque ninguém tem permissão (vide Barro acima) de notar o contexto no qual os americanos negros estão tendo desentendimentos com a lei, uns com os outros e com outros. O contexto apropriado para entender isto, e a mania que é o Travyonicus aliás, é o medo razoável da violência. Este é o fato mais exigente aqui – e, ainda assim, você decreta que ele não pode ser falado.
– Dennis Dale, respondendo ao chamado de Josh Barro pela demissão de JD.

Tremenda experiência viver com medo, não é? É isso que é ser um escravo.
– Bladerunner

Não há nenhuma parte de Singapura, Hong Kong, Taipei, Xangai ou muitas outras cidades no Leste asiático em que seja impossível passear, com segurança, tarde da noite. Mulheres, sejam jovens ou velhas, sozinhas ou com crianças pequenas, podem ficar confortavelmente alheias aos detalhes do espaço e do tempo, pelo menos no que diz respeito à ameaça de agressão. Embora isto possa não ser bem suficiente para definir uma sociedade civilizada, chega extremamente próximo. É certamente necessário a qualquer definição dessas. O caso contrário é o barbarismo.

Essas cidades afortunadas do oeste do Círculo do Pacífico são tipificadas por localizações geográficas e perfis demográficos que ecoam de maneira conspícua as embaraçosamente bem-comportadas ‘minorias modelo’ dos países ocidentais. Elas são dominadas (de maneira não desagradável) por populações que – devido à herança biológica, a profundas tradições culturais ou ao algum emaranhamento inextricável das duas – acham interações sociais educadas, prudentes e pacíficas comparativamente fáceis e dignas de reforço contínuo. Elas são também, importantemente, sociedades abertas e cosmopolitas, notavelmente desprovidas de arrogância chauvinista ou de um sentimento etno-nacionalista paranoico. Seus cidadãos não estão inclinados a enfatizar suas próprias virtudes. Pelo contrário, eles serão tipicamente modestos quanto aos seus atributos e realizações individuais e coletivas, anormalmente sensíveis às suas falhas e deficiências e estarão constantemente alertas para oportunidades de melhoria. A complacência é quase tão rara quanto a delinquência. Nessas cidades, toda uma dimensão de terror social está simplesmente ausente  – com consequências massivas.

Em muito do mundo ocidental, em um contraste gritante, o barbarismo foi normalizado. É considerado simplesmente óbvio que cidades têm ‘áreas ruins’ que não são meramente pobres, mas letalmente ameaçadoras, para estranhos assim como para residentes. Adverte-se os visitantes para que fiquem longe, ao passo que os locais fazem o seu melhor para transformar suas casas em fortalezas, evitam se aventurar nas ruas depois do anoitecer e – especialmente se forem homens jovens – voltam-se para gangues criminosas em busca de proteção, o que degrada ainda mais a segurança de todas as outras pessoas. Predadores controlam o espaço público, parques são armadilhas mortais, a ameaça agressiva é celebrada como ‘atitude’, a aquisição de propriedade é para caretas (ou assaltantes), a aspiração educacional é ridicularizada e a atividade empresarial não-criminosa é desprezada como uma violação das normas culturais. Todo mecanismo significativo de pressão sócio-cultural, desde heranças interpretadas e influências dos pares até a retórica política e incentivos econômicos, está alinhado com o aprofundamento da depravação complacente e da extirpação cruel de todo impulso de auto-melhoria. Bastante claramente, esses são lugares em que a civilização colapsou de maneira fundamental, e uma sociedade que os inclua, em uma medida substancial, falhou.

Dentro dos países mais influentes do mundo de língua inglesa, a desintegração da civilização urbana moldou profundamente a estrutura e o desenvolvimento das cidades. Em muitos casos, o padrão ‘natural’ (agora se poderia dizer ‘asiático’), no qual a urbanização intensiva e os valores imobiliários correspondentes são maiores no centro da cidade, foi destruído ou, pelo menos, profundamente deformado. A desintegração social do centro urbano levou a um êxodo dos (sequer moderadamente) prósperos para refúgios suburbanos e extra-urbanos, produzindo um padrão grotesco e historicamente sem precedentes de desenvolvimento estilo ‘rosquinha’, com cidades que toleram – ou meramente se acomodam a – interiores arruinados e podres, nos quais pessoas sãs temem pisar. ‘Centro da cidade’ veio a significar quase exatamente o oposto do que um curso não distorcido de desenvolvimento urbano produziria. Esta é a expressão geográfica de um problema social ocidental – e especialmente americano – que é, de uma só vez, basicamente imencionável e visível do espaço sideral.

Surpreendentemente, a síndrome da rosquinha com núcleo quebrado tem um nome notavelmente insensível e ainda assim comumente aceito, que a captura em linhas gerais – pelo menos de acordo com suas características secundárias – e em um grau razoável de aproximação estatística: White Flight (Fuga dos Brancos). Este é um termo que prende, por uma variedade de razões. Ele é marcado, primeiro de tudo, pela bipolaridade racial que – como um arcaísmo vital – ressoa com a crise social crônica da América, em uma série de níveis. Embora superficialmente datado, em uma era de questões multiculturais e de imigração de muitos matizes, ele se reverte ao código morto-vivo herdado da escravidão e da segregação, perpetuamente identificada com as palavras de Faulkner: “O passado não está morto. Ele nem mesmo é passado.” Ainda assim, mesmo neste atípico momento de candura racial, a negritude é elidida e implicitamente desconectada da agência. É denotada apenas por alusão, como um resíduo, concentrado passiva e derivadamente pela função peneiradora de um pânico branco altamente adrenalinizado. O que não pode ser dito é indicado mesmo enquanto não é mencionado. Um silêncio distintivo acompanha a meia-expressão quebrantada de uma maré muda de separatismo racial, guiado por terrores e animosidades civilizacionalmente incapacitantes, cujas profundidades e estruturas de reciprocidade permanecem inconfessáveis.

O que o êxodo puritano do Antigo para o Novo Mundo foi para a fundação da modernidade anglófona global, o white flight é para o seu desgaste e dissolução. Assim como com a migração pré-fundadora, o que dá relevância inelutável ao white flight aqui é seu caráter sub-político: tudo saída e nenhuma voz. Ele é o ‘outro’ sutil, não-argumentativo e não-exigente da democracia social e seus sonhos – o impulso espontâneo do iluminismo sombrio, da maneira em que é inicialmente vislumbrado, de uma só vez desilusivo e implacável.

A rosquinha com o núcleo quebrado não é o único modelo de síndrome da cidade doente (o fenômeno da favela marginal enfatizado no Planet of Slums de Mike Davis é muito diferente). Tampouco o urbanismo do desastre-rosquinha é redutível à crise racial, pelo menos em suas origens. Fatores tecnológicos desempenharam um papel crucial (mais proeminentemente, a geografia do automóvel), assim como o fizeram outras tradições culturais de longa data (tais como a construção de subúrbios enquanto idílios burgueses). Ainda assim, todas essas linhagens foram, em medida muito grande, suplantadas ou, pelo menos, subordinadas ao ‘problema racial’ herdado e que ainda emerge.

Então, o que é este ‘problema’? Como ele está se desenvolvendo? Por que alguém fora da América deveria estar preocupado com ele? Por que levantar o tópico agora (ou jamais)? – Se o seu coração está afundando sob a sombria suspeita de que isto vai ser enorme, sinuoso, estressante e torturante, você está certo. Temos semanas pelas quais esperar nesta câmara de horrores.

As duas respostas mais simples, bastante amplamente mantidas e basicamente incompatíveis para a primeira questão merecem ser consideradas como partes importantes do problema.

Questão: Qual é o problema racial americano?

Resposta-1: Pessoas negras.

Resposta-2: Pessoas brancas.

A popularidade combinada destas opções é significantemente expandida, muito provavelmente para englobar a grande maioria de todos os americanos, quando se considera que ela inclui aqueles que assumem que uma destas duas respostas domina o pensamento do outro lado. Entre si, as proposições “O problema estaria acabado se pudéssemos simplesmente nos livrar dos vadios negros / racistas brancos” e / ou “Eles pensam que somos todos vadios / racistas e querem se livrar de nós” consomem uma proporção impressionante do espectro político, estabelecendo uma fundação sólida de terror e aversão recíprocos. Quando projeções defensivas são adicionadas (“Não somos vadios, vocês são racistas” ou “Não somos racistas, você são vadios”), o potencial para uma dialética superaquecida e não-sintetizadora se aproxima do infinito.

Não que estes ‘lados’ sejam raciais (exceto na fantasia tribal-nacionalista negra ou branca). Para estereótipos crus, é bem mais útil se voltar para a dimensão política principal e suas categorias de ‘liberal’ e ‘conservador’ no sentido americano contemporâneo. Identificar o problema racial da América com o racismo branco é a posição liberal estereotípica, ao passo que identificá-lo com a disfunção social negra é o exato complemento conservador. Embora estas posições sejam formalmente simétricas, é sua assimetria política real que investe o problema racial americano com seu extraordinário dinamismo histórico e significância universal.

Que os brancos e negros americanos – considerados grosseiramente como agregados estatísticos – coexistem em uma relação de medo recíproco e vitimização percebida é atestado pelos padrões manifestos de desenvolvimento e navegação urbana, escolha de escolas, propriedade de armas, policiamento e encarceramento, e quase todas as outras expressões de preferência revelada (ao contrário da afirmada) que estejam relacionadas à distribuição social voluntária e à segurança. Um equilíbrio objetivo de terror reina, apagado da visibilidade por perspectivas complementares, mas incompatíveis, de supremacismo e negação vitimológicos. Ainda assim, entre as posições liberal e conservadora sobre raça não há qualquer equilíbrio que seja, mas algo próximo de uma derrota. Os conservadores estão completamente aterrorizados com a questão, ao passo que, para os liberais, ela é um jardim de delícias terrenas, cujos prazeres transcendem os limites da compreensão humana. Quando qualquer discussão política chega firme e claramente ao tópico da raça, o liberalismo vence. Esta é a lei fundamental da efetividade ideológica à sombra fragante meia-luz da Catedral. Em certos aspectos, este desequilíbrio político dinâmico é até mesmo o fenômeno primário sob consideração (e muito mais precisa ser dito sobre isso, mais à frente).

A humilhação regular, excruciante e esmagadora do conservadorismo na questão da raça não deveria ser nenhuma surpresa para ninguém. Afinal, o papel principal do conservadorismo na política moderna é ser humilhado. É para isto que uma perpétua e leal oposição, ou bobo da corte, serve. O caráter essencial do liberalismo, enquanto guardião e proponente da fé espiritual neo-puritana, o investe com domínio supremo sobre a dialética, ou invulnerabilidade à contradição. Aquilo que é impossível de se pensar deve, necessariamente, ser adotado através da fé. Considere apenas a doutrina fundamental ou primeiro artigo do credo liberal, conforme promulgado através de toda discussão pública, articulação acadêmica e iniciativa legislativa relevante ao tópico: Raça não existe, exceto enquanto construto social empregado por uma raça para explorar e oprimir uma outra. Meramente entreter isso é estremecer antes à incrível majestade do absoluto, onde tudo é simultaneamente seu preciso oposto, e a razão evapora de maneira extasiante à beira do sublime.

Se o mundo fosse construído com ideologia, esta estória já estaria acabada ou, pelo menos, previsivelmente programada. Para além do aparente zigue-zague da dialética, há uma tendência dominante, que leva em uma direção única e inequívoca. Ainda assim, a solução liberal-progressista para o problema da raça – um ‘anti-racismo’ abrangentemente sistemático e dinamicamente paradoxal que se escala sem limites – confronta um obstáculo real que é apenas muito parcialmente refletido nas atitudes, retórica e ideologia conservadoras. O verdadeiro inimigo – glacial, incipiente e não-argumentativo – é o ‘white flight‘.

Neste ponto, uma referência explícita ao Caso Derbyshire se torna irresistível. Há uma quantia muito considerável de contexto histórico complexo e recente que clama por introdução – a convulsão cultural que acompanhou ao incidente Trayvon Martin em particular – mas haverá tempo para isso mais tarde (ah sim, eu temo que sim). A intervenção de Derbyshire e a explosão de palavras que ela provocou, embora em alguma medida iluminada por tal contexto, de longe o excede. Isso porque o termo crucial não dito, tanto no agora notório artigo curto de Derbyshire, quanto também – aparentemente – nas respostas que ele gerou, é ‘white flight‘. Ao publicar um conselho paternal para seus filhos (euroasiáticos) que foi – não inteiramente sem razão – resumido como ‘evite pessoas negras’, ele converteu a fuga dos brancos, de um fato muito lamentado, mas aparentemente inexorável, para um imperativo explícito, até mesmo uma causa. Não discuta, fuja.

A palavra que Derbyshire enfatiza, em sua própria penumbra de comentários e em escritos antecedentes, não é ‘fuga’ ou ‘pânico’, mas desespero. Quando perguntado pelo blogueiro Vox Day se ele concordava que a ‘race card’ (‘carta da raça’) havia se tornado menos intimidadora ao longo das últimas duas décadas, Derbyshire responde:

Um [fator], sobre o qual eu já escrevi mais de uma vez, eu acho, nos Estados Unidos, é simplesmente o desespero. Eu tenho uma certa idade e eu estava por aí 50 anos atrás. Eu lia os jornais e seguia o eventos mundiais e lembro do movimento dos direitos civis. Eu estava na Inglaterra, mas nós o acompanhávamos. Eu lembro dele, lembro do que sentíamos sobre ele e do que as pessoas estavam escrevendo sobre ele. Tinha muita esperança. A ideia na mente de todo mundo era que, se derrubássemos essas leis injustas e baníssemos toda essa discriminação, então seríamos curados. Então a América seria restaurada. Depois de um período intermediário de alguns anos, quem sabe, talvez 20 anos, com uma mão de coisas como a ação afirmativa, a América negra simplesmente se fundirá à população geral e a coisa toda simplesmente irá embora. Isso é o que todo mundo acreditava. Todo mundo pensava isso. E não aconteceu.

Aqui estamos, 50 anos mais tarde, e ainda temos essas tremendas disparidades de taxas de crimes, realizações educacionais e assim por diante. E eu acho que, embora eles ainda estejam declamando as banalidades, os americanos, em seus corações, sentem um tipo de desespero frio sobre isso. Eles sentem que Thomas Jefferson provavelmente estava certo e que não podemos viver juntos em harmonia. Acho que é por isso que você vê esse lento desagregamento étnico. Temos um sistema escolar muito segregado agora. Existem escolas a 10 milhas de onde estou sentado que são 98 por cento minorias. Na habitação residencial também é a mesma coisa. Então, eu acho que há um desespero frio e sombrio, à espreita no coração coletivo da América, sobre toda essa coisa.

Esta é uma versão da realidade que poucos querem ouvir. Como Derbyshire reconhece, os americanos são um povo predominantemente cristão, otimista, ‘dá pra fazer’, cujo ‘coração coletivo’ é incomumente mal-adaptado a um abandono da esperança. Esse é um país culturalmente programado para interpretar o desespero não meramente como erro ou fraqueza, mas como um pecado. Ninguém que entenda isto poderia ficar remotamente surpreso de encontrar o fatalismo hereditário desolador sendo rejeitado – tipicamente com hostilidade veemente – não apenas por progressistas, mas também pela esmagadora maioria dos conservadores. Na NRO, Andrew C. McCarthy sem dúvida falou por muitos ao observar:

Há um mundo de diferença, no entanto, entre a necessidade de ser capaz de discutir fatos desconfortáveis sobre QI e encarceramento, por um lado, e, por outro, insistir na raça como um fundamento para se abandonar a caridade cristã básica.

Outros foram muito além. No Examiner, James Gibson aproveitou “a torpe arenga racista de John Derbyshire” como uma oportunidade para ensinar uma lição mais ampla – “o perigo do conservadorismo divorciado do cristianismo”:

…uma vez que Derbyshire não acredita “que Jesus de Nazaré era divino …e que a Ressurreição foi um evento real”, ele não pode compreender o grande mistério da Encarnação, através da qual o Divino verdadeiramente assumiu carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré e sofreu a morte nas mãos de uma humanidade caída, a fim de redimir esta humanidade de seu estado de queda.

Nisto jaz o perigo de uma filosofia sociopolítica conservadora divorciada de uma robusta fé cristã. Ela se torna uma ideologia morta, produzindo uma visão da humanidade que é tóxica, fatalista e (como Derbyshire prova de maneira abundante) pouco caridosa.

Foi, claro, na esquerda que os fogos de artifício realmente acenderam. Elspeth Reeve, no Atlantic Wire afirmou que Derbyshire se agarrara à sua relação com a National Review porque estava oferecendo aos “leitores menos iluminados” da revista o que eles queriam: “estereótipos raciais datados”. Assim como Gibson na direita, ela estava interessada em que as pessoas aprendessem uma lição mais ampla: não pense, nem por um minuto, que isto acaba em Derbyshire. (Vale a pena notar a seção de comentários incrivelmente pouco cooperativa de seu artigo.)

Na Gawker, Louis Peitzman diminui a qualidade (na direção aprovada) ao descrever a “horrível diatribe” de Derbyshire como “o artigo mais racista possível”, um julgamento que denuncia extrema ignorância histórica, uma vida protegida, inocência incomum e uma falta de imaginação, assim como faz o artigo soar bem mais interessante do que realmente é. Os comentadores de Peitzman são impecavelmente liberais e, claro, estão uniformemente, completamente, chocantemente assustados (ao ponto de um orgasmo). Para além do emocionar, Peitzman não oferece muito conteúdo, com exceção apenas de um pouco mais de emocionar – desta vez uma leve satisfação misturada com uma raiva residual – com as notícias de que a punição de Derbyshire havia pelo menos começado (“um passo na direção certa”) com seu “enxotamento” da National Review.

Joanna Schroeder (escrevendo em algo chamado Good Feel Blog) buscou estender o expurgo para além de Derbyshire, para incluir qualquer um que ainda não tenha irrompido em paroxismos suficientemente melodramáticos de indignação, a começar com David Weigel na Slate (que ela não conhece “na vida real, mas, ao ler este artigo, parece que você bem poderia ser um racista, cara”). “Há tantas… referências racistas e desumanizantes a pessoas negras no artigo de Derbyshire que eu tenho que me parar aqui, antes que reconte a coisa toda, ponto a ponto, fumegante de raiva”, ela compartilha. Ao contrário de Peitzman, contudo, pelo menos Schroeder tem um ponto – a dialética do terror racial – “…propagar a ideia de que deveríamos ter medo de homens negros, de pessoas negras em geral, torna este mundo perigoso para americanos inocentes”. Seu medo o torna assustador (embora aparentemente não com reciprocidade legítima).

Quanto a Weigel, ele entende o terror bem e arduamente. Em poucas horas, ele está de volta ao teclado, se desculpando por sua despreocupação anterior e pelo fato de que ele “acabou nunca dizendo o óbvio: Povo, o ensaio era repugnante”.

Então, o que Derbyshire realmente disse, de onde isso veio e o que isso significa para a política americana (e além)? Esta sub-série penteará por entre o espectro, da esquerda à direita, em busca de sugestões, com o pânico / desespero ‘branco’ sócio-geograficamente manifesto como uma linha guia…

A seguir: O Ecstasy Liberal

Original.

Re-Animador (Parte 3)

O que faz uma grande cidade?

De longe, o elemento mais interessante da Expo Mundial 2010: Shanghai era Shanghai. Embora tradições profundamente enraizadas de cortesia sustentassem a ficção de que essa Feira Mundial era sobre o mundo, na realidade não era. Quaisquer que sejam os benefícios diplomáticos da pretensão internacionalista quase universalmente conveniente, para a China e para os participantes internacionais da Expo igualmente, a Expo 2010 era sobre Shanghai e para Shanghai. A Expo era global porque Shanghai o é, era sobre a China porque Shanghai é o portal da China para o mundo, era sobre cidades a fim de ser ainda mais sobre Shanghai, ninguém desinteressado em Shanghai prestou a menor atenção, e Shanghai a utilizou para se reestruturar, se intensificar e se promover.

A Expo enquanto instituição estava em declínio antes de 2010 e continua a decair. Shanghai estava em ascendência antes de 2010 e continua a se elevar, mas agora com uma infraestrutura atualizada, completamente renovada e decorada com a medalha de mérito histórica da hospitalidade da Expo. Cidade Melhor, Vida Melhor, um tema tipicamente etéreo e aspirativo da Expo, é uma descrição fria e sóbria do efeito da Expo sobre Shanghai.

As cidades são, em certos aspectos importantes, genéricas. Existe algo como ‘a cidade em geral’, como o trabalho de Geoffrey West, em particular, demonstrou. Sabemos, graças a West, que as cidades são organismos negativos, com características consistentes de escala, que as diferenciam estruturalmente de animais e corporações. Conforme elas crescem, elas se aceleram e se intensificam em uma taxa quantificável e previsível, exibindo retornos cada vez maiores de escala (em nítido contraste com animais e empresas, que ficam mais lentos em proporção ao seu tamanho). Organismos e firmas morrem normalmente e por necessidade, as cidades apenas raramente e por acidente.

As cidades pertencem a um gênero real, mas elas também são singularidades, que sofrem uma individuação espontânea. Na verdade, elas são genericamente singulares – singulares sem exceção – como buracos negros. Não é apenas que nenhuma cidade é como outra, nenhuma cidade pode ser como outra, e isto é uma característica que todas as cidades compartilham, sem dúvida mais do que qualquer outra.

Para além de tal singularidade genérica, há um nível adicional de diferenciação aumentada que emerge da posição que a cidade ocupa dentro de sistemas maiores. Estes sistemas não são apenas internamente especializados, mas também hierárquicos, dividindo o centro da periferia e distribuindo influência de forma desigual entre elas. Em última análise, dentro da encarnação plenamente global do ‘sistema-mundo’, as cidades adquirem características metropolitanas secundárias, em diversos graus, de acordo com sua proximidade geográfica e funcional ao centro do mundo. Elas transcendem suas histórias locais, para se tornarem eixos ou nós em uma rede global que as re-caracteriza como partes de um todo, em vez de todos feitos de partes, como metrópoles-versus-periferias em vez de (ou por sobre) metrópoles-versus-vila.

A estrutura geográfica e a instabilidade histórica da arquitetura núcleo-periferia da modernidade têm sido o foco da ‘teoria de sistemas-mundo’, desenvolvida, a partir da Escola de Annales de Fernand Braudel (1902-85), por Immanuel Wallerstein (1930-) e – de maneira mais impressionante – Giovanni Arrighi (1937-2009). De acordo com os teóricos dos sistemas-mundo, as revoluções que importam mais não são mudanças nacionais de regime, tais como as da França (1789) e da Rússia (1917), mas sim reorganizações globais que balizam as fases básicas da história moderna, jogando o mundo em novas estruturas de núcleo-periferia. A modernidade sofreu quatro desses deslocamentos até o presente, com cada fase durando um ‘longo século’, introduzindo um novo estado núcleo, ou hegemon, com capacidades aumentadas, e um novo centro urbano – sucessivamente, Veneza, Amsterdam, Londres e Nova York – que opera como uma efetiva capital do mundo.

Como o exemplo de Nova York atesta, este status não é primariamente político. Tampouco a proeminência na manufatura parece ser um fator relevante (a ‘capital mundial’ nunca foi o centro industrial dominante de sua respectiva região ou estado). Ao longo da história moderna até hoje, as características cruciais da capital mundial parecem ser que ela é a maior aglomeração urbana na região ou estado dominante (‘hegemônica’); que ela é um centro financeiro bem estabelecido que bastante rapidamente alcança uma posição de preeminência global nesse aspecto; que ela é uma cidade portuária aberta, com uma clara orientação marítima; e que ela tem um perfil demográfico excepcionalmente internacionalizado, com um grande segmento de residentes internacionalmente móveis e oportunistas. Um período significativo de liderança nas artes criativas poderia plausivelmente ser adicionado a esta lista. Funcionalmente, a capital mundial serve como o centro-nervoso supremo da economia global, especializada nacionalmente e então super-especializada internacionalmente como o eixo de serviços financeiros, logísticos e empresariais de um sistema cuja integridade global está refletida na singularidade privilegiada da cidade.

O drama excepcional de nossa era está em sua natureza enquanto um tempo de transição entre fases da modernidade, algo entre o inverno de um longo século, quando uma época de hegemonia se exaure. Mais especificamente, o cerco está se fechando sobre a Era Americana, como comentadores de quase toda estirpe intelectual e ideológica estão cada vez mais cientes. Sobrecarregada, essencialmente falida, politicamente paralisada e desiludida, a América afunda em uma crise auto-consciente, seu humor sombrio e anuviado. Seria um erro limitar a atenção à América, contudo, porque a crise é sistêmica-mundial, proclamando o fim de uma ordem internacional que surgiu em meio ao caos das guerras mundiais e alcançou definição nas instituições pós Segunda Guerra das Nações Unidas e do Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o descendente do GATT, hoje OMC). Afeta não só o papel do dólar americano enquanto moeda de reserva internacional, de uma OTAN centrada no Atlântico e de um aparato da ONU enviesado para o Ocidente, mas também a União Européia, o sistema de estados pós-colonial no Oriente Médio e (muito) mais coisas.

Ao longo das próxima duas décadas, sob o impacto de forças econômicas de extrema profundidade (que de longe excedem a capacidade de resposta das instituições existentes), pode-se esperar que um reordenamento revolucionário do mundo se desenrole. Se a América for bem sucedida em manter sua posição de liderança dentro do sistema global por um período que significantemente exceda o longo século XX (que não começou antes de 1914 e que, assim, pode-se esperar que persista por alguns anos adicionais), terá quebrado um padrão que permaneceu consistente por todo um meio-milênio de história. Embora não seja estritamente impossível, a perpetuação da presente ordem hegemônica seria, bastante literalmente, um exagero.

Uma outra visão de quebra com o precedente histórico, desta vez transparentemente utópica, vislumbra – ao invés da continuação da preeminência dos EUA – a obsolescência da estrutura global núcleo-periferia em sua totalidade, pondo um fim na geografia hierárquica e na hegemonia em geral. Mesmo que tal visão verdadeiramente se eleve ao nível de uma expectativa definitiva (em vez um exercício nebuloso de ilusão), ela continua sem fundamentos históricos e teóricos confiáveis. Intenções políticas altruístas – se jamais fossem críveis – ainda seriam insuficientes para superar a tendência espontânea e dinâmica de se aproximar de um equilíbrio sistêmico mundial, no qual uma zona central e sua capital metropolitana sejam automaticamente nomeadas, por correntes econômicas difusas em busca de uma casa de compensação central.

Embora sem dúvida profundamente decepcionante para a escatologia utópica e para todos os sonhos de conclusão histórica (ou de passagem para a terra prometida), mudanças de fase no sistema-mundo são menos sinistras do que frequentemente descritas. Entre os discernimentos mais importantes de Arrighi está o lembrete de que, quando quer que uma tentativa de reconstrução da ordem mundia tenha sido embasada em um desafio militar e geo-estratégico frontal ao hegemon, ela falhou. Isso é exemplificado, sobretudo, pelas histórias alemã e russa nos séculos XIX e XX, nas quais repetidas confrontações diretas com o sistema internacional predominantemente anglófono estabelecido levou apenas a frustração, colapso do regime e reintegração subalterna.

Talvez ironicamente, uma aversão subjetiva marcada à afirmação firme de poder e à presunção de hegemonia pode bastante confiavelmente ser tomada como um indicador positivo da emergência objetiva de um status hegemônico. Holanda, Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram todos, em certos aspectos cruciais, imperialistas acidentais, cujas ascensões sucessivas à dominância mundial compartilharam uma priorização de motivos comerciais, um envolvimento estatal retardado, correntes culturais ‘isolacionistas’ e ‘anti-imperialistas’ fortes e uma evitação determinada da colisão decisiva ‘clauswitzeana’ (especialmente o hegemon anterior). Os métodos de guerra britânicos e americanos, em particular, são notáveis por sua ênfase comum em cobertura e triangulação, tais como a exploração da posição oceânica e da supremacia marítima para evitar um enredamento prematuro em conflitos ‘continentais’ de alta intensidade, o uso da capacidade financeira e logística para manipular conflitos à distância e a inclusão diplomática dos adversários derrotados em sistemas de poder reconstruídos, policêntricos e ‘equilibrados’. A hegemonia foi, em cada caso, herdada de maneira pacífica, mesmo quando foi cimentada pela guerra (em parceria com o hegemon anterior) e mais tarde deu origem a oportunidades para um aventureirismo imperialista cada vez mais agressivo.

Dado esse padrão histórico largamente incontroverso, é ainda mais surpreendente que o exemplo alemão seja tão amplamente invocado nas discussões sobre a ‘ascensão pacífica’ da China. Na verdade, a ascensão da China tem ficado bem mais perto do modelo de entrega hegemônica do que dos desafios confrontativos, como indicado pela priorização do desenvolvimento comercial, pela relação altamente cooperativa (e até mesmo sinérgica ou ‘chimérica’) com o hegemon predominante, pela acumulação gradual de poder financeiro por meio de uma redistribuição espontânea e sistêmica e pela consolidação igualmente gradual de interesses marítimos, que emergem do sistema de comércio global e trazem o foco da política estratégica governamental – talvez de maneira relutante – das preocupações domésticas para o alto-mar.

Historicamente, a China tem sido uma potência bem mais continental do que marítima, e este fato fornece a mais persuasiva objeção à suposição de um (Longo) Século Chinês. A emergência de um sistema-mundo continental seria um afastamento tão decisivo do precedente quanto qualquer um dos já discutidos, e, se tal possibilidade for entretida, a previsão disciplinada falha. Se invertido, contudo, esse problema se torna um previsão em si mesmo: a trajetória da ascensão da China necessariamente implica em sua transformação em uma potência marítima (uma compreensão já tácita na controversa série de TV chinesa de 1988 River Elegy).

Uma vaga intuição, parcial mas elusivamente cristalizada pela Expo 2010, agora se precipita, pelo puro reconhecimento de padrões históricos, na forma de uma questão explícita:

Shanghai está destinada a se tornar a capital do mundo?

(Parte 4 por vir)

Original