Nossa Causa

"Então, sobre o que, realmente, é o Urbano Futuro?"

Basicamente isso:

Octopus City eating the world

(É isso que o capitalismo de compras pelos correios parecia ameaçar em 1939. A monstruosidade cefalocomercial tem que ter se tornado bem mais tentacular desde então. Imagem via @SlateVault.)


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Limites da Cidade

Há, sem dúvida, um caráter quixotesco no modo “a China deveria fazer X” de comentários externos, mas o pequeno artigo de Yukon Huang na Bloomberg, que aconselha a revisão das políticas de urbanização do país, representa o gênero em sua melhor forma. Observando os efeitos de aglomeração que produzem retornos desproporcionais de escala urbana, Huang recomenda um afastamento da proliferação de cidades menores e uma aproximação na direção do crescimento de megacidades.

A China já está em uma classe própria ao ser responsável por 30 das 50 maiores cidades do leste da Ásia. Ela possui meia dúzia de megacidades com populações de mais de 10 milhões e 25 cidades “grandes”, que excedem 4 milhões. Na verdade, porém, a única maneira pela qual a China alcançará os ganhos de produtividade desejados é se seus líderes permitirem que as cidades evoluam mais organicamente em resposta às forças do mercado. Eles precisam deixar cidades como Pequim ficarem maiores.

A concentração urbana cria problemas reais, mas estes são indistinguíveis dos desafios que qualquer processo genuíno de avanço socioeconômico tem que enfrentar. As soluções para esses problemas serão os mesmos passos que levarão o país adiante em território inexplorado — para além da “recuperação” e até os horizontes abertos do futuro. Tudo que se aprende da história econômica concreta sugere que as oportunidades tecnológicas e de negócios serão aumentadas exatamente pelas forças que promovem a aglomeração das megacidades — e, melhor ainda, a concentração ou intensidade urbana — a níveis historicamente sem precedentes. É assim — e onde — que a inovação social profunda ocorre.

Em vez de tentar ativamente espalhar o crescimento para pequenas cidades novas, os planejadores da China deveriam abraçar as economias de aglomeração, que militam por grandes metrópoles. À medida em que a terra e os custos salariais aumentam, algumas indústrias eventualmente gravitarão para cidades de tamanho médio, mas os serviços continuarão a impulsionar a expansão nas cidades maiores. Pessoas inteligentes gostam de se misturar com outras pessoas inteligentes, e a globalização ampliou seus retornos financeiros. Pequim e Shanghai continuaram a crescer por causa de serviços dinâmicos de alto valor, mesmo quando suas bases de produção encolheram. Tudo isso explica porque, na China, a produtividade nas áreas urbanas é mais de três vezes maior que nas áreas rurais.

Mas as megacidades da China não são grandes demais para serem sustentáveis? Na verdade, alguns especialistas urbanos concluíram que até mesmo as maiores cidades da China podem ser muito pequenas. Eles citam a “lei de Zipf”, uma das grandes curiosidades da pesquisa urbana. A lei, que é surpreendentemente precisa para muitos países, afirma que a maior cidade de um país deve ter o dobro do tamanho da segunda maior, três vezes o tamanho da terceira maior, e assim por diante. Com base nisso, as maiores cidades da China parecem muito pequenas.

Pensar através de leis de potência (como as de Zipf) afasta a ideia de tamanhos “normais” de cidades. A escala urbana ótima é decidida por efeitos de rede e depende de toda a ecologia social — regional, nacional e globalmente. O tamanho “ideal” de Shanghai, por exemplo, não pode ser derivado de algum modelo genérico de cidade, mas deve ser entendido, em vez disso, com referência ao papel singular que esta cidade desempenha como um ponto central em múltiplas redes — especialmente redes comerciais — dentro do qual ela acumula funções especializadas. À medida que essas teias se expandem e engrossam, seus nós críticos tendem a crescer e se intensificar espontaneamente. É natural, portanto, ao longo do processo de modernização global, que os limites da escala urbana fiquem cada vez maiores, de acordo com a sofisticação funcional dos centros cruciais do sistema, e os refinamentos associados de especialização que essas cidades-chave promovem.

Pequim está sujeita a teimosas restrições ambientais, com a limitação dos recursos hídricos sendo proeminente entre esses. Sua distância da costa também é um fator inibidor de crescimento. Shanghai, em contraste, está destinada à vastidão por tamanhas e implacáveis forças históricas que é difícil imaginar mesmo a resistência política mais determinada ficando no caminho por muito tempo. Como a capital comercial do país, qualquer distribuição em lei de potência da escala urbana começa com Shanghai no cume. Seria melhor se dobrar ao inevitável, e deixá-la se tornar o laboratório do mundo para intensidade urbana, traçando o avanço da modernidade até o Século do Pacífico. As recompensas por essa aceitação facilmente submergiriam os custos.

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Uma Lição de Detroit

No Project Syndicate, Sanjeev Sanyal argumenta que o colapso de Detroit tem algo a ensinar às economias emergentes — especialmente à China. O “modelo urbano pós-industrial… favorece fortemente cidades generalistas que conseguem aglomerar tipos diferentes de conveniências, serviços essenciais e capital humano”, ele propõe. Isso tem algumas implicações surpreendentes para os prospectos do desenvolvimento urbano.

Conforme ela se transformou na “fábrica do mundo”, a parcela da população urbana da China saltou de 26.4% em 1990 para cerca de 53% hoje. As cidades grandes e cosmopolitas de Pequim e Shanghai cresceram dramaticamente, mas a maior parte da migração urbana foi para cidades industriais de pequeno e médio porte que se multiplicaram na última década. Agrupando infraestrutura industrial e utilizando o sistema hukou de permissões de residência específicas por cidade, as autoridades foram capazes de controlar o processo surpreendentemente bem.

Esse processo de crescimento urbano, no entanto, está prestes a se desfazer. Conforme a China desloca seu modelo econômico para longe do pesado investimento em infraestrutura e da produção em massa, muitas dessas pequenas cidades industriais perderão suas principais indústrias. Isso acontecerá em um momento em que a demografia distorcida do país faz com que a força de trabalho encolha e o fluxo de migração das áreas rurais para as cidades diminua (a população rural agora é desproporcionalmente composta por idosos).

Enquanto isso, as atrações pós-industriais de cidades como Shanghai e Pequim atrairão os filhos mais talentosos e melhor educados dos trabalhadores industriais de hoje. Ao contrário dos migrantes rurais que se dirigem para empregos industriais, será muito mais difícil orientar profissionais educados e criativos usando o sistema hukou. A explosão das cidades bem-sucedidas, portanto, vai esvaziar o capital humano de centros industriais menos atraentes, que então cairão em um ciclo vicioso de decadência e queda de produtividade.

Estórias como a de Detroit aconteceram várias vezes em países desenvolvidos durante o último meio século. E, como sugere o destino das cidades do norte do México, as economias emergentes não estão imunes a esse processo.

É por isso que a China precisa se preparar para esse momento. Em vez de construir cada vez mais pequenas cidades industriais, a China precisa readaptar e atualizar suas cidades existentes. Conforme sua população começar a diminuir, pode até valer a pena fechar as cidades inviáveis e consolidar.

(Via Zero Hedge)

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Visões da Shanghai Tower

Algumas imagens deslumbrantes do fotógrafo local Blackhaven foram selecionadas por James Griffiths no Shanghaiist, apresentando a Luijiazui como nunca foi vista antes. Torres super altas são objetos e plataformas de espetáculo. Provavelmente é fútil argumentar sobre qual aspecto da reconstrução do visual urbano importa mais.

ADICIONADO: Do excelente ensaio de Jabon Rubin sobre o Burj Khalifa:

Ainda assim, um edifício como o Burj exerce uma atração magnética, grande parte da qual deriva da perspectiva de sua visão. Essa é a questão apresentada por uma torre: ela é feita para que se olhe para ela ou a partir dela? “Vista”, enquanto palavra, veio a significar ambos, denotando não apenas a visão em si, mas o poleiro que a oferece, como se o último atingisse o status de perspectiva simplesmente por oferecer uma. Quando se fita a Torre Eiffel ou o Empire State Building, é literalmente para isso que está se olhando: uma vista de uma vista, uma visão de uma visão, e aquela admiração distinta e encharcada de veneração, conhecida de qualquer transeunte, deve derivar, pelo menos em parte, de se imaginar a visão lá de cima. Como o rosto de um visionário, essas construções extraem muito de seu poder daquilo a que contemplam.

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Uma Introdução à Urbanomia

Por mais irritantes que neologismos possam ser, às vezes eles são quase compulsórios. Quando um pensamento compacto e comparativamente simples é forçado a se rotear, repetidamente, através de emaranhados terminológicos grosseiramente costurados, a palavra adequada que falta fomenta o equivalente linguístico de uma fome incômoda. A invenção de palavras se torna o pré-requisito simples de uma função cognitiva regular.

O desenvolvimento urbano da cidade individual, ou o processo típico de maturação urbana, é um conceito bastante básico, mas linguisticamente desassistido, desse exato tipo. A ausência é agravada pela presença de uma outra palavra — uma que soa superficialmente adequada, mas que na verdade designa uma ideia inteiramente separada.

Quando uma cidade cresce, ela não se ‘urbaniza’ (apenas um sistema social mais amplo pode fazer isso). Urbanização se aplica a uma sociedade que se torna proporcionalmente mais urbana, conforme pessoas de zonas rurais se mudam para cidades, mas quando uma cidade individual se desenvolve – e, de fato, se individua – ela sofre uma urbanomia (no modelo de uma ‘teleonomia’). A urbanomia – a auto-organização urbana — é bem mais crítica para esse blog do que a urbanização. Cunhar o termo é uma declaração de comprometimento teórico com a individuação urbana enquanto uma realidade estruturada – e, assim, cognitivamente tratável – social, histórica e, em última análise, cósmica.

As fundações do entendimento urbanômico foram lançados por Jane Jacobs em seu livro A Economia das Cidades. Nesta obra, ela esboça uma teoria simples e poderosa da auto-organização urbana, guiada por um processo econômico espontâneo de substituição de importações. As cidades se desenvolvem através de uma autonomização, ou introversão, que ocorre conforme elas aprendem com o comércio, transformando progressivamente uma proporção cada vez maior de seus fluxos comerciais em circuitos endógenos. Esta tendência (urbanômica) não precisa isolar as cidades do mundo, mas ela necessariamente converte uma dependência estável em uma interação dinâmica, que orienta uma modificação comercial contínua. As vantagens logísticas e informacionais dos produtores urbanos locais – minimizar custos de transporte e maximizar a intensidade do feedback – tendem a encorajar a internalização da atividade produtiva, ensinando à cidade o que ela pode fazer por si mesma e consolidando sua identidade singular (enquanto indivíduo real). O crescimento, a complexificação e a individuação da cidade são integrais para um único processo urbanômico.

É a urbanomia que produz cidades, com a urbanização – tipicamente – ocorrendo como uma fenômeno secundário. Cidades funcionais não são lixões demográficos, mas entidades em maturação endógena que puxam coisas (incluindo pessoas) para dentro de si.

Entre as muitas consequências colaterais vindas da tese de Jacobs, uma em particular é tão historicamente sugestiva que merece uma curta digressão. Como as cidades não são nutricionalmente auto-sustentáveis, tem sido natural supor que elas pressupõem uma agricultura estabelecida, à qual elas se relacionam de uma maneira que é – pelo menos em termos calóricos – parasitária. Jacobs vira essa suposição de ponta cabeça, propondo, em vez disso, que a comercialização da produção de comida que acompanhou a emergência das cidades foi, em si, um motor crucial da agriculturação. Ao fornecer mercados concentrados e de escala comparativamente grande, as cidades pela primeira vez tornaram economicamente racional a produção de excedentes substanciais de comida, apoiando automaticamente seu próprio desenvolvimento futuro em uma interconexão interativa com a revolução neolítica.

A compreensão urbanômica básica de maior relevância aqui, contudo, é mais abstrata. A tese de Jacobs estabelece uma estrutura para se explorar de maneira sistemática a estrutura temporal do processo urbano, concebida não unicamente como um episódio (prolongado) no tempo, ou uma história, mas também como o funcionamento de uma máquina social cronogênica ou criadora de tempo.

O conceito que Jacobs introduz tacitamente, como princípio orientador da tendência urbanômica, é a autoprodução. Conforme ela cresce, se especializa internamente, se auto-organiza, dissipa entropia e se individua, a cidade tende a um limite impossível de completa autonomia produtiva. Ela aparece como uma onda convergente, moldada na direção de uma ordem ou complexidade crescente, como se por uma mão invisível, ou de acordo com um projeto inteligente. O padrão é exatamente o que seria esperado se algo ainda não realizado estivesse orquestrando sua auto-criação. Mesmo depois de 150 anos de teoria evolutiva coerente, tais processos – na ausência de um agente criativo dominante – parecem extraordinários e até mesmo sinistros, pois eles parecem correr para trás, contra a corrente do tempo.

O tempo como ele é vivido e explorado é tensionado. Ele é ocupado a partir do meio, que é sempre agora, e do qual o passado recua (parcialmente relembrado, ou registrado), conforme o futuro se aproxima (parcialmente antecipado, ou previsto). A linha do tempo que cruza o ‘agora’, ou o presente, é assimétrica. Ela tem uma ‘seta’.

As correntes científicas principais que sustentam o entendimento moderno do mundo descrevem essa seta do tempo de duas maneiras bastante diferentes. Ambas são facilmente intuídas e geralmente aceitas, pelo menos em seus contornos mais gerais.

Primeiramente, nos é dito que a seta do tempo corresponde a um aumento da desordem. Coisas quebram, erodem, envelhecem, morrem e apodrecem. Apresentadas duas fotos, uma de um ovo intacto e uma do mesmo ovo esmagado, não dúvida sobre qual veio primeiro. Ovos não desamassam, o tempo não se reverte.

Exceto que (em segundo lugar) geralmente antecipamos progresso ou melhoria. O conhecimento se acumula, invenções são feitas; espera-se, normalmente, que as economias cresçam. Mesmo aqueles mais resistentes às mensagens modernas – tais como as ideias evolutivas — trabalham confiantemente para produzir ordem em suas vidas, quando arrumam, classificam, montam, organizam ou compõem. Ovos podem não desamassar, mas existem ovos, e eles foram feitos de alguma forma (não havia nenhuma há 500 milhões de anos).

Então como nossas intuições sobre o tempo se alinham com a seta do tempo? Qual é o caminho adiante e qual é para trás? Entre uma ordem crescente e uma decrescente, qual parece normal e qual, estranha?

Estas questões são complicadas pelo fato de que nós processamos mentalmente o mundo de duas maneiras muito diferentes, dividindo-o tão nitidamente quanto possível entre pessoas e coisas, agência e inércia, o animado e o inanimado, teleologia e mecanismo. Esse sistema dual bastante básico de classificação perceptual – quase certamente favorecido por estruturas neurológicas profundamente arcaicas — corresponde a um aparato cognitivo geminado de profunda expectativa. Violações categóricas são visceralmente inquietantes.

Quando pessoas – ou mesmo animais ‘inferiores’ — se comportam como coisas, elas primitivamente evocam o pavor da morbidez, da mortalidade e de variedades mais radicais de incorreção cósmica, parcialmente capturadas pela figura do zumbi. A zona intermediária, dos ‘mortos-vivos’, pode ser adentrada de qualquer uma das duas direções, desencadeando uma revulsão arcaica à monstruosidade – a mais fundamental das coisas que não deveriam ser. A ficção de horror habita quase inteiramente este mundo crepuscular de escorregões categóricos.

Quando a ordem emerge espontaneamente em meio às coisas, ela parece mágica (no sentido antigo, de captura da alma) e espectadores em pânico reflexivamente buscam os agentes ocultos da interpretação ‘animística’ ou religiosa, compelidos por intuições categóricas bem mais antigas que a espécie humana. Uma calma apreensão de tais ‘teleonomias’ está fundada, talvez invariavelmente, em uma atenuação ou imprecisão da percepção distinta. Se um biólogo verdadeiramente percebesse o processo evolutivo, seu horror integral e primordial seria inelutável. A urbanomia, igualmente, pertence ao âmbito da monstruosidade real. Esta é uma razão pela qual as cidades não podem prontamente ser vistas pelo que são.

Animação espontânea, horror e reversão temporal estão inextricavelmente amarradas juntos na raiz de sua apreensão. O sistema nervoso humano não consegue registrar um erro mais profundo do que uma inversão do tempo, como demonstrado por uma coisa que vem à vida. As cidades, eventualmente, nos assustarão. Ao fazê-lo, elas nos puxarão para além do que tem sido – até hoje — o horizonte do tempo inteligível.

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Urbanização em Foco

A urbanização poderia ser o tema principal da 5ª geração da administração do PC da China? O pano de fundo para essa pergunta é o próprio processo de urbanização chinês. Ao longo das três décadas de Reforma e Abertura, a população urbana da China subiu de 20% para 53% do (crescente) total, resultando em mais de meio bilhão de novos urbanitas. As consequências econômicas e geoestratégicas dessa transformação reestruturaram profundamente o mundo. (Esse é o fato central da Modernidade 2.0 centrada no Pacífico.)

No Atlantic, Matt Schiavenza comunica o básico:

Na China, o crescimento econômico e a urbanização têm andado de mãos dadas. Quando Deng Xiaoping iniciou a Reforma e Abertura em 1978, a vasta maioria da população vivia e trabalhava no interior — da mesma forma em que o povo chinês havia feito por séculos. Mas ao longo das últimas três décadas e meia, conforme as zonas econômicas especiais despejavam exportações e a China modernizava suas cidades, centenas de milhões de pessoas migraram para áreas urbanas buscando trabalho nos setores de manufatura e serviços. Isso… deixou a China — e os chineses — muito mais ricos

O temas de orientação da liderança da 4ª geração do PC da China – ‘sociedade harmoniosa’ e ‘desenvolvimento científico’ – foram sem dúvida esculpidos pelas pressões e pelos desafio políticos de uma urbanização massiva, mas eles abordavam o fenômeno de maneira indireta. Existem inúmeras indicações de que uma ênfase mais especificamente focada na urbanização está emergindo agora. Em particular, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, vislumbra o tópico como um nexo, em que muitas das questões de desenvolvimento e governança do país se encontram.

O jornal chinês Qiushi publicou um artigo de Li Keqiang sobre urbanização em sua edição de inverno em 2012 (traduzida para o inglês por He Shan e Chen Xia aqui). Enquadrado pela expectativa (atribuída a “economistas estrangeiros”) de que “a urbanização da China e a alta tecnologia dos EUA emergiriam como motores gêmeos da economia global no século XXI”, ele recompensa um exame minucioso.

A análise de Michael Pettis, que identifica um consumo doméstico insuficiente (por parte das famílias) como um obstáculo econômico proeminente da China, é uma valiosa preparação para essa discussão, que começa: “A urbanização é o maior potencial para se impulsionar a demanda doméstica”. Li argumenta que a China permanece relativamente sub-urbanizada, de modo que a propulsão a um “crescimento urbano exponencial” continua, com implicações pelo menos parcialmente previsíveis. Uma vez que “os residentes urbanos gastaram 3,6 vezes mais do que os habitantes das zonas rurais em 2010”, pode-se prever com confiança que os gastos dos consumidores aumentarão em função da urbanização, contribuindo automaticamente para o reequilíbrio econômico.

… Estima-se que cada residente rural que se torne um morador urbano aumentará o consumo em mais de 10.000 yuan (US$1.587). E cada um aumento de um por cento na taxa de urbanização em apenas um ano verá mais de 10 milhões de residentes rurais absorvidos pelas cidades. Isso, por sua vez, se traduzirá em um consumo de mais de 100 bilhões de yuans (US$15,9 bilhões) e, consequentemente, criará mais oportunidades de investimento.

A plena realização dessas oportunidades, argumenta Li, exigirá a reforma ou a abolição do sistema hukou de registro de residência do país, com sua “estrutura dupla urbano-rural”. Em outros aspectos, também uma ação vigorosa do governo é recomendada, contanto que ela alcance uma “conformidade com as leis objetivas do desenvolvimento urbano”. (Investigar “as leis objetivas do desenvolvimento urbano” é a missão primária deste blog, então é um conceito ao qual obsessivamente retornaremos.)

Assume-se que as responsabilidades centrais do governo incluem a mitigação de conflitos e problemas sociais, o investimento em infraestrutura e a intervenção administrativa para restringir a instabilidade do mercado imobiliário. A gestão da urbanização, assim, é reconhecida como uma prioridade do governo. Dada a complexidade e a significância global dessa tarefa, que equivale à integração de outro quarto de bilhão de chineses à corrente econômica em pouco mais de uma década, não há realmente nenhuma alternativa decente à observação – com um mínimo absoluto de presunção ou sarcasmo – boa sorte com isso.

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Mesmo quando os gastos diretos de construção são ignorados, ao sistematicamente aumentar o nível de consumo domiciliar, a urbanização chinesa domina a paisagem macroeconômica do país. Não é nenhum grande exagero ver a emergência da economia consumidora mais dinâmica do mundo como um efeito colateral de um processo de urbanização com três décadas de duração, embora – como em qualquer desenvolvimento complexo como esses – a causalidade seja turbular e auto-estimulante. O consumidor chinês é uma criatura da nova época urbana e uma incitação à sua elaboração adicional.

Conforme observado na primeira parte deste post, a centralidade da urbanização para a situação macroeconômica da China foi explicitamente abordada em um artigo significativo do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. A conversão do povo rural em urbanitas (ou ‘cidadãos’ de acordo com uma etimologia estrita) é companhada por um aumento de 3.6 vezes no consumo per capita. Além do impacto puramente quantitativo no nível de demanda econômica doméstica, a ascensão dos consumidores urbanos também impulsiona uma transição qualitativa, caracterizada sobretudo pela expensão do setor de serviços (em termos tanto absolutos quanto relativos). Li busca alinhar ações administrativas com essa tendência:

A escalada do crescimento da indústria de serviços é crítica para se ajustar a estrutura industrial. Medidas efetivas devem ser tomadas para construir um ambiente favorável ao crescimento da indústria de serviços, tanto em termos de tamanho quanto de qualidade. O governo deve promover o desenvolvimento de indústrias de serviços relacionados à produção, como uma logística moderna, e-commerce, pesquisa científica e design. Deve também garantir que os serviços relacionados ao consumo, como turismo, recreação, cuidados aos idosos e serviços domésticos, sejam estimulados e que o desenvolvimento de pequenas e médias empresas de serviços seja apoiado.

A urbanização promove um estrutura econômica mais orientada a serviços, o que, por sua vez, promete diminuir a intensidade energética da produção econômica; aumentar a produtividade total dos fatores (PTF); proliferar pequenas e medias empresas (PMEs) empreendedoras; acelerar a emergência de indústrias embasadas em conhecimento e criativas; e aumentar as oportunidades de emprego. Em outras palavras, uma série previsível de dependências – da urbanização, passando pelo consumismo, até a orientação a serviços – subordina a política econômica às “leis objetivas do desenvolvimento urbano”, que sozinho torna suas metas realizáveis. A expansão e a melhoria das cidades decidirão se a China funciona.

A orquestração de questões políticas centrais sob um tema urbano é também notavelmente vista na área do desenvolvimento regional. Aqui, também, os problemas mais intratáveis do país devem ser destrancados por uma chave urbana:

O desenvolvimento regional está intimamente relacionado à urbanização. Regiões menos desenvolvidas ficam para trás em termos de crescimento, especialmente na urbanização. Em áreas que ostentam condições maduras de desenvolvimento e uma grande capacidade ambiental, o governo deve ativa e continuamente facilitar a urbanização através de uma alocação razoável de recursos, uma disposição centralizada das empresas e do encorajamento do uso intensivo da terra para acionar novos motores de crescimento e melhorar a capacidade local de desenvolvimento auto-sustentável. O governo deve adaptar suas políticas regionais, industriais e agrárias a diferentes regiões e setores, em vez de adotar políticas gerais e abrangentes.

O investimento em infra-estrutura e as ferramentas de política social que têm sido empregadas para ‘Abrir o Ocidente’ desde a virada do milênio são agora especificamente concebidas como formas de catalisar, acelerar e guiar o desenvolvimento urbano em regiões atrasadas. As cidades devem ser a solução.

Alguns links extras:

A excelente introdução de Mi Shih ao chengzhenhua (城镇化) — e por que ‘urbanização’ não é a palavra certa.

Para uma abordagem mais hostil à agenda de urbanização chinesa, vide Gordon Chang aqui.

Nin-Hai Tseng na Fortune: “[Stephen] Roach oferece uma estatística interessante: o setor de serviços da China exige cerca de 35% mais emprego por unidade de PIB do que a manufatura e a construção.”

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Absorção de Capital: Sobre o tópico de Michael Pettis, este soberbo artigo recente certamente se tornará um ponto de referência indispensável para os observadores da economia chinesa. Pettis há muito tem argumentado que os níveis de investimento chineses excedem a capacidade de absorção do país, e o novo artigo coloca este argumento em um quadro teórico mais amplo, que ele explica com extraordinária lucidez. Se ele estiver correto em sua avaliação básica, algumas suposições bastante generalizadas sobre a economia do desenvolvimento exigirão uma revisão drástica, com fatores culturais e institucionais (“capital social”) adquirindo uma proeminência bem maior.

Pettis tem uma reputação merecida de pessimismo em relação aos prospectos de crescimento chinês, mas esse artigo faz um argumento cauteloso a favor do otimismo em relação à estratégia de desenvolvimento do país, que ele vê passando de um modelo de crescimento guiado por investimento para algo mais sensível a instituições. Essa sub-previsão política prevê um movimento significativo na direção de uma reforma orientado ao mercado durante o período Xi-Li.

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Movimentos de Abertura: No South China Morning Post (via): O premiê Li Keqiang lutou contra a oposição dos reguladores financeiros em sua tentativa de promover um plano de referência para uma zona de livre comércio em Shanghai. É o sinal mais claro ainda de que a nova liderança do país está determinada a realizar reformas econômicas há muito adiadas. […] O novo plano de zona de livre comércio de Shanghai, anunciado oficialmente no início de julho, deve ser o campo de testes para as principais reformas políticas. Ela promoveria os fluxos de capitais e mercadorias transfronteiriças, com experimentos-chave para liberar os mercados de câmbio e liberalizar as taxas de juros domésticas. […] Dentro de dois meses, Li fez uma proposta inicial que abrange 21 iniciativas cujos detalhes não foram oficialmente anunciados. Estes incluíam atalhos para bancos estrangeiros estabelecerem operações de subsidiárias ou de empreendimentos conjuntos, e permissões especiais para bolsas estrangeiras de commodities fazerem depósitos próprios na zona de livre comércio em Shanghai… […] … outras cidades do continente, que enfrentam desemprego e crescimento mais lento, também estão interessadas em seguir o movimento de Shanghai para atrair capital estrangeiro. Mas não se entende que Li esteja interessado em se apressar em copiar o modelo de Shanghai para outras cidades do continente.

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Handle_MZ comentou: “pode-se prever com confiança que os gastos dos consumidores aumentarão em função da urbanização, contribuindo automaticamente para o reequilíbrio econômico.”

Eu li “The Great Rebalancing” (“O Grande Reequilíbrio”) e eu acho que essa previsão estranhamente contradiz a narrativa principal de Pettis. Pettis diz que a participação do consumo no PIB chinês é uma função necessária tanto da propensão das populações a economizar e consumir quanto de toda a política econômica do governo, incluindo as taxas de juros do PBOC, os controles de capital e a estabilização da taxa de câmbio do dólar.

O objetivo é um crescimento alto e sustentável do PIB através de altos níveis de investimento, salários estáveis e acumulação de capital de fator produtivo — especialmente no setor de exportações e comercializáveis. Um objetivo corolário é uma melhoria na competitividade global em mercados acima na cadeia de valor.

Se o consumo domiciliar é um produto de meios que buscam o fim acima, então qualquer aumento no consumo (isto é, vindo da urbanização) que perturbe esse fim será recebido apenas com movimentos compensatórios do governo que o empurre de volta para baixo. A política é o motor imóvel dos níveis de consumo. Bem, ligeiramente móvel, mas por aquele critério de sustentabilidade previamente mencionado. Mas o reequilíbrio não pode ocorrer sob o atual sistema a menos que o governo seja sábio o suficiente para apoiá-lo.

Em todo caso, a urbanização cria um excedente de trabalho que suprime o crescimento dos salários médios urbanos. Quanto mais o consumo urbano cresce (por conta de salários crescentes, por exemplo), tanto mais atraente é se mudar do interior, o que também empurra os salários urbanos de volta para baixo. Isso ajuda a competitividade global da China, mas pode, na realidade, reduzir o consumo doméstico em relação ao contrafactual de menos urbanização.

Resposta do Admin: Como você sabe de discussões anteriores, existem várias suposições que precisam ser corrigidas antes de ir adiante com isso. Nesse ponto, estou satisfeito com a conclusão de que a urbanização está sendo concebida como uma solução para o dilema econômico mais marcado do país (no nível mais alto da nova liderança). Eu acho que isso é bastante sólido, independente das questões que Pettis e você levantam. Sobre essas últimas, no entanto, parece difícil acreditar que a urbanização é incidental para a formação de “capital social”, do tipo que — Pettis argumenta — eleva a capacidade de absorção de capital e, assim, contribui diretamente para a melhoria do problema de deficiência de consumo. Isso é para além dos efeitos diretos sobre o consumo enfatizados por Li Keqiang.

Isto não pretende ser uma resposta adequada ao seu argumento, apenas uma réplica provisória.

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