Caminho da Ruína

Keynes lê Lenin e encontra ouro:

Dizem que Lenin declarou que a melhor maneira de destruir o sistema capitalista era depravar a moeda. Através de um processo contínuo de inflação, os governos podem confiscar, de maneira secreta e não observada, uma parte importante da riqueza de seus cidadãos.

Conforme a inflação procede, e o valor real da moeda flutua descontroladamente de mês a mês, todas as relações permanentes entre devedores e credores, que formam a fundação última do capitalismo, ficam tão absolutamente desordenadas, a ponto de serem quase sem sentido; e o processo de obtenção de riqueza se degenera em uma aposta e uma loteria.

Lenin certamente estava certo. Não há nenhum meio mais sutil e mais certo de derrubar a base existente da sociedade do que depravar a moeda. O processo engaja todas as forças ocultas da lei econômica no lado da destruição, e o faz de uma maneira que nenhum homem é capaz de diagnosticar.

(A última frase, que é frequentemente citada, é ainda mais reveladora em contexto.)

Original.

Sobre o #Acelerar (#2b)

"Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo", diz o #Acelerar, de maneira incontestável. "O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social."

Como anteriormente observado, das tendência aqui referidas, o "crescimento econômico" é facilmente a mais acessível (devido a sua auto-quantificação comercial). A compreensão tecnocientífica sobre a tecnociência, embora já embriônica no começo da época moderna, ainda está a alguma distância da auto-compreensão matemática enquanto evento natural. Sua quantificação, portanto, apresenta problemas bem mais desafiadores, deixando até mesmo questões bastante básicas sobre suas linhas de tendências abertas a controvérsias significativas. (A auto-quantificação das tendências de desenvolvimento nos setores de eletrônicos e biotecnologia merecem uma atenção focada em um estágio posterior.) Qualquer tentativa de fornecer uma medida precisa e coerente de "mobilidade social" provavelmente enfrentará obstáculos ainda mais formidáveis.

O capitalismo se apresenta como o mega-objeto acelerativo exemplar porque ele é auto-propulsor e auto-abstrator (por excitação cruzada). Em ambos os seus aspectos técnico e comercial, ele tende a potenciais de propósito geral que facilitam realocações de recursos (e, assim, quantificações eficientes). A capacidade produtiva é plastificada, ficando cada vez mais sensível a mudanças nas oportunidades de mercado, ao passo em que a riqueza é fluidizada, permitindo sua rápida mobilização especulativa. O mesmo processo auto-reforçador que liquida as formas sociais tradicionais libera o capital modernizante como quantidade abstrata volátil, flexivelmente equilibrada entre aplicações técnicas e intrinsecamente inclinada a uma compreensão ‘decodificada’ ou econômica.

Sob a orientação do capital, a modernização da riqueza tende à efetivação de um potencial produtivo abstrato, o que seria dizer, é claro: ela tende ao próprio capital, no circuito de auto-propulsão que o determina como uma hiper-substância genética (ou até mesmo teleológica). Neste ponto, chega-se a uma bifurcação teórica complexa, a partir da qual os caminhos levam a uma série de direções marxianas e decididamente anti-marxianas. A questão primária é se o corpo abstrato do capital é suscetível a uma conversão matemática consistente que se conforme à Lei do Valor, que a interpreta como uma reificação da força de trabalho organicamente composta (entre variável e fixa, ou ‘viva’ e ‘morta’). A coisa acelerativa pode ser reconhecida, de maneira prática, como a capacidade coletiva alienada de uma futura humanidade sem classes?

O #Acelerar considera que esta questão foi satisfatoriamente resolvida com antecedência e respondida na afirmativa. Uma vez que ele não fornece nenhuma referência que sustente essa posição, ele tem que ser considerado um documento identitário da esquerda. Apenas aqueles que afirmam o fechamento anterior de suas questões fundamentais são capazes de acessá-lo no nível de sua própria retórica. Ele assume a solidariedade ideológica como uma preliminar extrínseca e sem marcas.

Intrometer-se, no entanto, a partir de um problema aberto da ontologia capitalista, é navegar o caos. As passagens relevantes são encontradas na segunda parte do manifesto, que consiste de sete parágrafos numerados. Tudo o que nos é dito sobre a coisa acelerativa tem que ser extraído deles … ou quase tudo.

É notável que o primeiro uso de ‘acelerar’ no manifesto é tanto crítico quanto quase desdenhosamente casual. Ela ocorre no terceiro parágrafo da introdução, onde se resume um conjunto de "catástrofes em contínua aceleração":

… colapso do sistema climático do planeta [que " ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo"] … O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia [elevando "a perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes"] …incessante crise financeira [que] levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E] automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, [que] evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.

Isso, de maneira bastante clara, é seu retrato introdutório lúgubre da coisa acelerativa, como ela é em si mesma, convergindo para uma singularidade histórica terminal, ou uma abrangente crise ecológica, econômica e tecnológica de super desempenho. Ela é tanto a coisa sobre a qual o #Acelerar quer falar, quanto a coisa sobre a qual ele decide explicitamente não falar — introduzida como palco teatral, ou um lembrete de algo antes e fora da discussão, que pode ser posteriormente assumido. A função retórica é completamente inequívoca: essa lista serve como uma enumeração daquilo que não precisa mais ser discutido. É infeliz, portanto, para dizer o mínimo, que essa parece ser a abordagem mais próxima, dentro do #Acelerar, ao objeto real da atenção aceleracionista, "ganha[ndo] força e velocidade, [conforme] a política abranda e recua" até que "o futuro" que nos foi prometido seja "cancelado" (ainda que apenas através de uma falha retificável do "imaginário político"). O inimigo é uma coisa acelerativa, mas o #Acelerar discutirá alguma outra coisa.

Antes que o capitalismo caia inteiramente no pano de fundo nebuloso da narrativa implícita, vale a pena fazer uma breve digressão ao "imaginário político" e sua sugestão. Se há uma única fórmula que cristaliza a apropriação esquerdista do aceleracionismo como puro colapso cognitivo é a afirmação de Frederic Jameson — obsessivamente repetida por toda a Web Esquerdista — de que Agora é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Para compreender a profunda falta de atenção desse pronunciamento, é necessário apenas retornar ao pensamento de abstração real, através do qual a virtualização realizada pelo capitalismo é distinguida de qualquer determinação da abstração enquanto propriedade lógica da representação intelectual. Dentro dos mercados de futuros capitalistas, o não-atual tem circulação efetiva. Ele não é um "imaginário", mas uma parte integral do corpo virtual do capital, uma realização do futuro operacionalizada. É difícil imaginar que a Esquerda esteja disposta a seguir o caminho definido aqui, portanto, a menos que seja através de uma falta de pensamento de proporções simplesmente desconcertantes, uma vez que ele necessariamente leva à conclusão: ao passo em que o capital tem um futuro cada vez mais densamente realizado, seus inimigos esquerdistas têm manifestamente apenas um de faz de conta.

Uma vez que a Seção Dois do #Acelerar é um matagal densamente emaranhado de ultrajes conceituais, vale a pena relembrar mais uma vez suas duas primeiras frases, que são excepcionais (neste contexto) por sua sanidade:

Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social.

O objeto primário do Aceleracionismo é o crescimento econômico, conforme demonstrado, de maneira capitalista, em um processo inextricavelmente vinculado ao desenvolvimento tecnológico orientado para a competição, e também à desorganização social. Se o #Acelerar concluísse aqui, não haveria nenhum argumento a ser feito contra ele. Infelizmente, ele continua por entre uma sequência de frases tão radicalmente desordenadas que nenhuma busca elegante de seu argumento é possível. Em vez disso, ele demanda uma série fragmentária de correções, objeções e reanimações de problemas obscurecidos, parcialmente enterrados e arbitrariamente suprimidos.

A descida começa imediatamente: "Em sua forma neoliberal, essa auto-apresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração".

Por que o termo ‘destruição criativa’ (cunhado por Joseph Schumpeter em 1942) está sendo associado ao ‘neoliberalismo‘ aqui? Schumpeter o considerava aplicável ao capitalismo em geral, com abundante razão, e o #Acelerar não articula nenhuma objeção a esse uso padrão. Se o ‘neoliberalismo’ é a ideologia da destruição criativa, ele é a ideologia do capitalismo em geral.

Na introdução, nos é dito que, "desde 1979", o neoliberalismo tem sido "a ideologia política globalmente hegemônica … encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos". Ele é caracterizado, aparentemente, por "ajustes estruturais … em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas". Isso, também, soa como simples capitalismo (como também o faz "neoliberalismo landiano"). A vacuidade do termo apenas ressoa sonoramente com cada uso sucessivo. O ‘neoliberalismo’ é criticado porque ele não é nada além do capitalismo (pós-1979), e não é criticado por nenhuma outra razão. No #Acelerar, se não em outros lugares, ele não tem nenhum conteúdo ideológico distinguível do liberalismo clássico, tornando-a uma palavra perfeitamente inútil. A opacidade serve apenas para contrabeandear duas sugestões prepósteras: (1) A cacofonia das críticas esquerdistas ao ‘neoliberalismo’ compartilha algum cerne coerente de análise política e econômica. (2) As ideias sócio-econômicas liberais clássicas gozam de uma hegemonia essencialmente imperturbável sobre a atual ordem mundial. (Você não sabia que Keynes está morto, e que os Libertários governam a terra?)

(Então, por que não começar a chamar os marxistas fundamentalistas de hoje de ‘neo-coletivistas’, enquanto se implica que o planejamento central industrial estalinista é o arranjo econômico dominante do mundo? — Porque isso seria patentemente ridículo e insensatamente irritante, mas, na verdade, não mais do que a alternativa ‘neoliberal’.)

O tique ‘neoliberal’, embora enfurecedor em sua idiotice presunçosa, na verdade é tão vazio que importa pouco para o argumento do #Acelerar. Seu efeito é meramente servir como um truque de mãos, que apresenta um oponente cartunesco para distrair da ausência de uma atenção concentrada no alvo de uma análise e crítica realistas: a coisa acelerativa. O segundo desvio teórico a aparecer é pouco menos evasivo, o qual se trata de deslizar o problema ontológico central para um ‘esclarecimento conceitual’ de um desleixo surpreendente.

Sabemos pelo dicionário infantil que a aceleração é uma mudança de velocidade ao longo do tempo, o que não impede o #Acelerar de alegar (sem qualquer evidência óbvia):

O filósofo Nick Land captou isso [a dinâmica do capital ou a ideologia neoliberal?] de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. … o neoliberalismo de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

(1) Velocidade não é aceleração.
(2) Uma singularidade que se aproxima é marcada pela aceleração, não pela velocidade constante.
(3) Quem jamais falou sobre "se mover rapidamente" nesse contexto? Isso carece até mesmo da dignidade de um espantalho. O que ‘rápido’ significa? A aceleração não precisa sequer ser ‘rápida’ (apenas ‘ficando mais rápido’).
(4) O apelo para algo para além de "um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas" é mero aceno de mãos. A funcionalidade econômica é um ‘parâmetro’ confinador (para a aceleração)? Há claramente um tentativa de algum tipo de argumento transcendental aqui, marcado pelo apelo aos "parâmetros capitalistas que jamais oscilam". O próprio ‘parâmetro’ oscila entre um uso lógico e um empírico, um conceitualmente definidor e o outro materialmente constrangedor. Se o #Acelerar pensa que pode produzir um conceito significativo de aceleração sem parâmetros, seria algo emocionante de se ver (tempo, massa terrestre, leis físicas, herança biogeológica … são todos ‘parâmetros’). ‘Parâmetros’ capitalistas (indefinidos) devem ser, por alguma razão, aceitáveis como especialmente constrangedores, contudo. Argumento? Claro que não, este é um artigo de fé indisputável.
(5) Se alguém sabe o que "a crescente velocidade de um horizonte local" significa, por favor me conte. Pelo menos é algum tipo de "velocidade crescente", no entanto, ou seja, uma aceleração. Este é um sinal de que o #Acelerar pensa que a diferença entre velocidade e aceleração é trivial demais para se reconhecer, de modo que sua discussão sobre a aceleração não é, na verdade, sequer sobre aceleração, mas sobre algum muito mais profundo e ‘pós-paramétrico’? Talvez, porque…
(6) Para além da "uma simples arremetida descerebrada" (algo certamente está ‘descerebrado’) …
(7) Há "uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades". …e isso está, de alguma forma, conectado ao, é mensurável como, ou pode ser explicado em termos de algum processo rigorosamente determinável de aceleração (ainda que apenas aproximadamente) como?
(8) Independente disso: "É este último modo de aceleração que tomamos por essencial".

Esse tipo de coisa é a destruição direta e radical da inteligência. Começamos com um conceito definido (‘aceleração’) e um tópico de investigação ou crítica (a coisa acelerativa). Agora, a menos da metade do caminho do #Acelerar, não tem nenhum dos dois. Em vez disso, somos deixados com algum tipo de "modo de aceleração" supra-paramétrico trans-horizonal imaginário que foi deliberadamente destituído tanto de sentido, quanto de referência. A única realização teórica foi cinzelar de maneira brutal essa ideia política ontologicamente inefável para fora do único processo historicamente evidenciado de navegação, experimentação e descoberta acelerantes conhecido na história humana, a fim de lançá-la em um além miticamente inspirador. Começando com uma máquina sócio-técnica auto-propulsora ciberneticamente inteligível, não acabamos com nada além da declaração inflexível de que, o que quer que ‘ela’ (a aceleração histórica) seja, ela não é isso, ou qualquer coisa que possamos entender, apesar do fato de que o que sabemos sobre ‘ela’ é inteiramente extraído da realidade cumulativa sendo abandonada.

Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração.

Pelo contrário. O único "agente da verdadeira aceleração" reconhecido por Marx é a burguesia revolucionária — seu representante humanístico para a agência do capital. O proletariado não acelera nada, exceto em sua função enquanto força de trabalho sob os imperativos do capital. Ele herda uma pré-história acelerativa concluída, no momento de sua própria auto-dissolução revolucionária em uma humanidade universal.

Ao contrário do #Acelerar, Marx não trabalhava sob nenhuma ilusão de que a coisa acelerativa não era o capital, cujo mecanismo ele se devotou a entender, até a quase perfeita exclusão de todos os outros tópicos. Ao nos voltarmos para o entendimento de Marx sobre essa coisa [semana que vem], parcialmente nos retiramos dos erros caóticos do atual Aceleracionismo de Esquerda, embora talvez permaneçamos próximos o suficiente para irritá-lo.

Original.

#Acelerar Anotado (#3)

[Partes um, e dois]

III: MANIFESTO: Sobre o Futuro

  1. Acreditamos que a cisão mais importante na esquerda de hoje está entre aqueles que sustentam uma política popular de localismo, ação direta e incansável horizontalismo, e aqueles que esboçam o que deve passar a ser chamado livremente de uma política aceleracionista com uma modernidade de abstração, complexidade, globalidade e tecnologia. Os primeiros se mantêm satisfeitos em estabelecer espaços pequenos e temporários de relações sociais não-capitalistas, esquivando-se dos problemas reais envolvidos no enfrentamento de adversários intrinsecamente não-locais, abstratos e profundamente enraizados em nossa infraestrutura diária. O fracasso de tais políticas está embutido desde o começo. Em contraste, uma política aceleracionista procura preservar as conquistas do capitalismo tardio enquanto vai além do que seu sistema de valor, estruturas de governança, e patologias de massa permitem.

(Sem querer me inserir em uma querela de família, vista de fora, a distinção delineada aqui entre sabores de anti-capitalismo faz sentido.)

  1. Todos queremos trabalhar menos. [Empreendedores de todos os tipos excetuados] É uma questão intrigante por que o principal economista do mundo da era pós-guerra acreditava que um capitalismo iluminado inevitavelmente progrediria em direção a uma redução radical da jornada de trabalho. Em “Perspectivas Econômicas para Nossos Netos” (escrito em 1930), Keynes previu um futuro capitalista onde indivíduos teriam seu trabalho reduzido a três horas por dia. O que ocorreu, entretanto, foi a progressiva eliminação da distinção entre trabalho e vida, com o trabalho acabando por permear cada aspecto da fábrica social emergente.

Chegar a Keynes tem que ser uma coisa boa, no que diz respeito à substância teórica e histórica, e essa crítica parece sólida.

  1. O capitalismo começou a restringir as forças produtivas da tecnologia [A tese crucial, mas meramente afirmada], ou ao menos, direcioná-las a fins desnecessariamente estreitos. [Um obscurecimento deliberado da diferença entre ‘estreiteza’ política e técnica é a principal façanha aqui] Guerras de patentes e monopolização de ideias são fenômenos contemporâneos [Sim, PI é complicado] que apontam tanto para a necessidade do capital de mover-se além da competição [impossível por definição], quanto para sua abordagem crescentemente retrógrada da tecnologia [afirmação sem sustentação]. As conquistas apropriadamente aceleracionistas do neoliberalismo [= capitalismo remanescente] não levaram a menos trabalho ou menos estresse [é claro, porque o trabalho e o estresse são os registros sócio-biológicos da aceleração]. E ao invés de um mundo de viagens espaciais, choque futurista e potencial tecnológico revolucionário, existimos em um tempo onde a única coisa que se desenvolve é uma parafernália marginalmente melhor para consumidores [Desde 1979? A revolução da informação não aconteceu?]. Incontáveis iterações dos mesmos produtos básicos sustentam a demanda marginal de consumidores às custas da aceleração humana. [Containerização, comunicação por satélite, computação pessoal, telefonia móvel, Internet, TV a cabo, World Wide Web, mídia social, genômica, robótica de drones, filmes 3D, NewSpace, Bitcoin… o que exatamente é "o mesmo produto básico"?]

  2. Não queremos retornar ao modelo fordista. [OK] Nenhum retorno ao fordismo é possível. [Certo] A “era de ouro” capitalista tinha como premissa o paradigma de produção no ambiente ordenado da fábrica, onde trabalhadores (homens) recebiam segurança e um padrão de vida básico em troca de uma vida inteira de tédio embrutecedor e repressão social. Tal sistema se sustentava sobre uma hierarquia internacional de colônias, impérios e uma periferia subdesenvolvida, sobre uma hierarquia nacional de racismo e sexismo, e sobre uma rígida hierarquia familiar de subjugação feminina. Apesar de toda a nostalgia que muitos podem sentir, esse regime é tão indesejável quanto impossível de retornar na prática. [O Fordismo está sendo identificado com a ‘era de ouro’ (final) do capitalismo aqui? Com o ‘neoliberalismo’ como alguma outra coisa? Então um sistema de acumulação de capital computadorizado, empreendedor e de alta intensidade, embasado fundamentalmente em competição e incentivos econômicos, de alguma maneira não contaria como propriamente ‘capitalista’? Uma afirmação teórica tão extraordinária por certo merece um argumento?]

  3. Aceleracionistas querem libertar as forças produtivas latentes. [De fato — uma definição excelente e impressionantemente ideo-neutra do Aceleracionismo normativo] Nesse projeto, a plataforma material do neoliberalismo não precisa ser destruída. Precisa ser reaproveitada para fins comuns. A infraestrutura existente não é um estágio capitalista a ser esmagado, mas um trampolim para lançar o pós-capitalismo. [Não há nenhuma continuidade conceitual que seja entre esse grito de guerra a primeira frase]

  4. Dada a escravidão da tecnociência aos objetivos capitalistas (especialmente desde o fim dos anos 1970) certamente ainda não sabemos o que um corpo tecnossocial moderno pode fazer. Quem entre nós reconhece completamente quais potenciais inexplorados aguardam na tecnologia que já foi desenvolvida? A nossa aposta é que os potenciais verdadeiramente transformadores de grande parte de nossa pesquisa tecnológica e científica permanecem inexplorados, repletos de características (ou pré-adaptações) atualmente redundantes que, após uma mudança além do míope “socius” capitalista, pode se tornar decisiva.

Não foi dada nenhuma razão para se pensar que a ‘tecnociência’ é, de qualquer maneira real, independente de ‘objetivos capitalistas’, então a retórica de ‘escravidão’ é perfeitamente vazia. Um (outro) experimento em aceleração tecnossocial ‘pós-capitalista’ conduzido ao lado do capitalismo, e em concorrência com ele, seria uma coisa fascinante de se ver. (Eu duvido que esse arranjo seja considerado aceitável pela Esquerda. No que diz respeito à Direita, isso já foi realizado em numerosas ocasiões, com resultados consistentes.)

  1. Queremos acelerar o processo de evolução tecnológica. [Ótimo] Mas o que estamos defendendo não é tecnutopismo. Nunca acredite que a tecnologia será suficiente para nos salvar. [Como a soteriologia se tornou uma questão?] Necessária, sim, mas nunca suficiente sem ação sociopolítica. A tecnologia e o social estão intimamente ligados um ao outro, e mudanças em qualquer um deles potencializam e reforçam mudanças no outro. Enquanto os tecnutópicos [quem?] defendem que a aceleração, por si só, seja capaz de automaticamente superar o conflito social (numa nova era utópica, quando ele não mais tiver sentido); a nossa posição consiste em que a tecnologia deva ser acelerada exatamente porque necessária para tensionar e vencer esses conflitos.

Como essas três metas se interconectam e se hierarquizam?
(a) Aceleração da evolução tecnológica (b) Superação do conflito social
(c) Predominar no conflito social
Se, como parece ser o caso, (c) domina, então a aceleração é meramente um sub-objetivo instrumental. Então, podemos chamar o Aceleracionismo de Esquerda de ‘aceleracionismo condicional‘ (em contraste com um Aceleracionismo de Direita incondicional)?

  1. Acreditamos que qualquer pós-capitalismo exigirá planejamento pós-capitalista. A fé depositada na ideia de que, após uma revolução, as pessoas irão espontaneamente constituir um novo sistema socioeconômico que não seja simplesmente um retorno ao capitalismo é ingênuo na melhor das hipóteses, e ignorante na pior delas. Para aprofundar isso, precisamos desenvolver tanto um mapa cognitivo do sistema existente quanto uma imagem especulativa do futuro sistema econômico.

Aham

  1. Para fazê-lo, a esquerda deve aproveitar cada avanço tecnológico e científico possibilitado pela sociedade capitalista. Declaramos que a quantificação não é um mal a ser eliminado, mas uma ferramenta a ser usada da maneira mais eficaz possível. A modelagem econômica é – colocando de forma simples – uma necessidade para tornar inteligível um mundo complexo. A crise financeira de 2008 revelou os riscos de se aceitarem cegamente modelos matemáticos, ainda que isso seja um problema de autoridade ilegítima e não de matemática propriamente. As ferramentas a ser encontradas na análise de redes sociais, em modelagem baseada em agentes [agente-based modelling], em análise de big data e de modelos econômicos de não-equilíbrio são mediadores cognitivos necessários para entender sistemas complexos como a economia moderna. A esquerda aceleracionista deve se alfabetizar em cada uma dessas áreas técnicas.

Aceleracionismo condicional de novo. (Está começando a parecer que a tecnociência acelerada é um gigantesco pote de biscoitos ideológicos).

  1. Qualquer transformação da sociedade deve envolver experimentação econômica e social. [OK, mas eu suspeito que ‘transformação’ esteja pré-contaminada com aspirações totalitárias] O projeto de gestão participativa da economia Cybersyn, do governo chileno de Salvador Allende (1971-73), é emblemático dessa atitude experimental – fazendo a fusão de tecnologias cibernéticas com modelagem econômica sofisticada e uma plataforma democrática instanciada na própria infraestrutura tecnológica. Experimentos similares foram conduzidos na economia soviética dos anos 1950 e 1960, empregando cibernética e programação linear, numa tentativa de superar os novos problemas enfrentados pela primeira economia comunista. Que ambos tenham fracassado pode-se atribuir, em última análise, às restrições políticas e tecnológicas sob as quais operavam esses pioneiros cibernéticos. [Eu sei que isso não era pra ser cômico…]

  2. A esquerda deve desenvolver a hegemonia sociotécnica: tanto na esfera das ideias, quanto na esfera das plataformas materiais. Plataformas são a infraestrutura da sociedade global. Elas estabelecem os parâmetros básicos do que é possível, tanto em termos de comportamento quanto em termos ideológicos. Neste sentido, elas incorporam o transcendental material da sociedade: elas são o que tornam possíveis conjuntos particulares de ações, relações e poderes. Ainda que boa parte da plataforma global existente esteja direcionada para as relações sociais capitalistas, essa não é uma necessidade inevitável. Essas plataformas materiais de produção, finanças, logística e consumo podem e serão reprogramadas e reformatadas para fins pós-capitalistas. [Há acenos de mão suficientes aqui para comunicar um discurso do Obama aos cegos]

  3. Não acreditamos que ação direta seja suficiente para alcançar nada disso. As táticas habituais de marchar, erguer cartazes, e estabelecer zonas autônomas temporárias correm o risco de se tornarem substitutos confortáveis ao êxito efetivo. “Ao menos fizemos alguma coisa” é o grito de guerra daqueles que privilegiam a autoestima ao invés da ação efetiva. O único critério de uma boa tática é se ela permite êxito significativo ou não. Devemos acabar com a fetichização de modos particulares de ação. A política deve ser tratada como um conjunto de sistemas dinâmicos, dilacerados por conflito, adaptações e contra-adaptações e corridas armamentistas estratégicas. Isso significa que cada tipo individual de ação política se torna embotado e ineficaz com o tempo, à medida que o outro lado se adapta. Nenhum modo de ação política é historicamente inviolável. De fato, com o tempo, há uma crescente necessidade de se descartarem táticas familiares, em função das forças e entidades contra o que se pretenda aprender a lutar de forma eficaz. Em parte, é a inabilidade da esquerda contemporânea em fazer isso que está próximo ao cerne do mal-estar contemporâneo.

(Querelas de família, vou ficar quieto até que pare.)

  1. O avassalador privilegiamento da democracia-enquanto-processo precisa ser deixado para trás. A fetichização da abertura, horizontalidade, e inclusão de boa parte da atual esquerda “radical” faz a cama da ineficácia. Sigilo, verticalidade e exclusão têm todos o seu lugar também na ação política efetiva (embora, obviamente, não um lugar exclusivo).

  2. A democracia não pode ser definida simplesmente por seus meios – seja via votação, discussão ou assembleias gerais. A democracia real deve ser definida por seu objetivo – autodeterminação coletiva. Este é um projeto que deve alinhar a política com o legado do iluminismo, na medida em que é apenas através da mobilização de nossa habilidade de entender melhor a nós mesmos e a nosso mundo (social, técnico, econômico, psicológico) que podemos governar a nós mesmos. Precisamos postular uma legítima autoridade vertical, controlada coletivamente, além das formas de socialidade distribuídas horizontalmente, para evitar nos tornarmos escravos tanto de um centralismo totalitário tirânico, quanto de uma caprichosa ordem emergente que esteja além de nosso controle. O comando do Plano deve ser casado com a ordem improvisada da Rede.

  3. Não apresentamos nenhuma organização particular como os meios ideais para incorporar esses vetores. O que é preciso – o que sempre foi preciso – é uma ecologia de organizações, um pluralismo de forças, ressoando e retroalimentando suas forças comparativas. Sectarismo é a sentença de morte da esquerda tanto quanto é a centralização, e nesse sentido, continuamos a acolher experimentações com diferentes táticas, (mesmo aquelas das quais discordamos).

  4. Temos três objetivos concretos de médio prazo. Primeiro, precisamos construir uma infraestrutura intelectual. Imitando a Sociedade Mont Pelerin, defensora das benesses da “revolução” do neoliberalismo, a essa infraestrutura deve ser demandada a tarefa de criar uma nova ideologia, um novo modelo econômico e social, e uma visão do bem a substituir e superar os magros ideais que regem nosso mundo hoje. Essa é uma infraestrutura no sentido de requerer a construção não apenas de ideias, mas de instituições e caminhos materiais para incuti-las, encarná-las e espalhá-las.

  5. Precisamos construir uma reforma da mídia em larga escala. Apesar da aparente democratização oferecida pela internet e pelas mídias sociais, os meios de comunicação tradicionais continuam cruciais na seleção e enquadramento de narrativas, além de possuir os recursos para processar o jornalismo investigativo. Trazer esses corpos tão próximo quanto possível do controle popular é crucial para desfazer o atual estado de coisas.

  6. Finalmente, precisamos reconstituir várias formas de poder de classe. Tal reconstituição deve ir além da noção de que um proletariado global gerado organicamente já exista. Ao invés disso, deve-se procurar tecer junto um conjunto heterogêneo de identidades proletárias parciais, muitas vezes incorporadas em formas pós-fordistas de trabalho precário.

  7. Grupos e indivíduos já estão trabalhando em cada um desses objetivos, mas, por si só, cada um deles é insuficiente. É necessário que todos os três retroalimentem uns aos outros, cada um modificando a articulação contemporânea de tal forma que os demais se tornem mais e mais eficazes. Uma retroalimentação circular de transformação ideológica, social, econômica e de infraestrutura, gerando uma nova hegemonia complexa, uma nova plataforma tecnossocial pós-capitalista. A história demonstra que é sempre um amplo agenciamento de táticas e organizações que acarreta mudanças sistemáticas; essas lições devem ser aprendidas.

"Uma retroalimentação circular [positiva]" — finalmente, uma conexão teórica com o tópico da aceleração. Tendo evitado qualquer análise séria do ciclo de retroalimentação positiva capitalista atual — sobre o qual todo o tópico histórico da aceleração repousa — ele agora é introduzido de maneira puramente especulativa, em relação a um programa Aceleracionista de Esquerda ainda não existente. A estrutura parasitária desse argumento (capturando realizações reais a fim de gastá-las em sonhos) diz muito mais do que pretende

  1. Para alcançar cada um desses objetivos, no nível mais prático, sustentamos que a esquerda aceleracionista deva pensar mais seriamente sobre os fluxos de recursos e dinheiro necessários para construir uma nova infraestrutura política eficaz. Para além do ‘poder popular’ de corpos na rua, precisamos de financiamento, seja de governos, instituições, “think tanks”, sindicatos ou patronos individuais. Consideramos a demarcação e condução de tais fluxos de financiamentos essenciais para começar a reconstruir uma ecologia de efetivas organizações de esquerda aceleracionista.

"Queremos dinheiro — mas sem incentivos capitalistas, por favor."

  1. Declaramos que somente uma política prometeica de domínio máximo sobre a sociedade e seu ambiente é capaz de lidar com problemas globais ou obter vitória sobre o capital. Esse domínio deve ser distinto daquele amado por pensadores do Iluminismo original. O universo mecânico de Laplace, tão facilmente controlado ao receber informação suficiente, há muito desapareceu da agenda da compreensão científica séria. Mas não é para nos alinharmos com o cansado resíduo da pós-modernidade, condenando todo domínio como protofascista ou toda autoridade como intrinsecamente ilegítima. Ao invés disso, propomos que os problemas que afligem nosso planeta e nossa espécie nos obrigam a renovar o domínio em uma nova e complexa roupagem; ainda que não possamos prever o resultado de nossas ações, podemos determinar probabilisticamente escalas médias de resultados. O que deve ser acoplado a tal análise complexa de sistemas é uma nova forma de ação: improvisadora e capaz de executar um desenho através de uma prática que trabalhe com a contingência que ela descobre apenas no curso de sua ação, em uma política de arte geo-social e astuta racionalidade. Uma forma de experimentação abdutiva que procura os melhores meios para agir em um mundo complexo.

"Queremos dinheiro, e depois dominância"

  1. Precisamos reviver o argumento que foi tradicionalmente feito para o pós-capitalismo: não apenas é o capitalismo um sistema injusto e pervertido, mas também um sistema que impede o progresso. [Ainda totalmente sem substância] Nosso desenvolvimento tecnológico está sendo suprimido pelo capitalismo, na mesma medida em que foi desencadeado por ele. [Idem.] O aceleracionismo é a crença básica de que essas capacidades podem e devem ser liberadas ao moverem-se para além das limitações impostas pela sociedade capitalista. [Idem.] O movimento em direção a uma superação de nossas restrições atuais deve incluir mais do que simplesmente uma luta por uma sociedade global mais racional. Acreditamos que ele deva incluir a recuperação dos sonhos que fascinaram a muitos, de meados do século 19 até o alovorecer da era neoliberal, sonhando na missão do Homo sapiens em direção a uma expansão além dos limites da Terra e nossas formas corpóreas imediatas. Essas visões são encaradas hoje como relíquias de um momento mais inocente. Ainda assim, elas tanto diagnosticam a impressionante falta de imaginação em nosso próprio tempo, quanto oferecem a promessa de um futuro que é afetivamente revigorante, bem como intelectualmente energizante. Afinal de contas, apenas uma sociedade pós-capitalista, possibilitada por uma política aceleracionista, é que será capaz de executar a nota promissória dos programas espaciais de meados do século 20, para ir além de um mundo de atualizações técnicas mínimas, em direção a uma mudança abrangente. Rumo a um tempo de autodomínio coletivo, e ao futuro propriamente alienígena que isso envolve e possibilita. Rumo a uma conclusão do projeto iluminista da autocrítica e autodomínio, ao invés de sua eliminação.

Escravizar a aceleração tecnossocial ao "autodomínio coletivo"? Esse parece ser o sonho. Já podemos nos fixar no rótulo do ‘aceleracionismo condicional’?

  1. A escolha que enfrentamos é séria: um pós-capitalismo globalizado ou uma lenta fragmentação rumo ao primitivismo, à crise perpétua e ao colapso ecológico planetário. [Nenhum desses resultados soa remotamente plausível, mas estamos fundo na religião nesse estágio, então provavelmente não importa.]

  2. O futuro precisa ser construído. Ele foi demolido pelo capitalismo neoliberal e reduzido a uma promessa barata de grande iniquidade, conflito e caos. [Por que ‘o futuro’ exlui ‘iniquidade, conflito e caos’? Pelo contrário…] Esse colapso na ideia de futuro é sintomático do status histórico retrógrado de nossa época, mais do que, como os cínicos do espectro político nos querem fazer crer, um sinal de maturidade cética. O que o aceleracionismo estimula é um futuro que é mais moderno – uma modernidade alternativa que o neoliberalismo é inerentemente incapaz de gerar. [Um último espasmo de acenos de mão.] O futuro deve ser aberto mais uma vez, ampliando nossos horizontes para as possibilidades universais do Lado de Fora. [‘Deve’ não significa nada, e ‘universal’ não adiciona nada, mas de outra forma uma grande frase — culminação em uma onde de excitação ideo-neutra.]

http://​syn​theti​cedi​fice​.files​.word​press​.com/​2​0​1​3​/​0​6​/​a​c​c​e​l​e​r​a​t​e​.​pdf http://uninomade.net/tenda/manifesto-aceleracionista/

Naturalmente, a pergunta realmente grande: O que vem a seguir…?

Original.

#Acelerar Anotado (#2)

[Continuando daqui]

II. INTERREGNO: Sobre Aceleracionismos

  1. Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social. Em sua forma neoliberal, essa autoapresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração.

A invocação do ‘neoliberalismo’, que machuca o cérebro, à parte, essas observações são todas perfeitamente sãs

  1. O filósofo Nick Land captou isso de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. Nessa visão do capital, o humano pode eventualmente ser descartado como mero obstáculo a uma abstrata inteligência planetária, que se constrói rapidamente a partir da bricolagem de fragmentos das civilizações passadas. Contudo, o neoliberalismo [cada uso dese termo aprofunda sua insensatez] de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

A diferença entre ‘velocidade‘ e ‘aceleração’ é aquela entre a derivativa zero e a primeira. Isso é rigoroso e, em geral, compreendido. A diferença proposta aqui é outra coisa. Eu não tenho nenhuma ideia clara do que ela é. (Parece equivaler, aproximadamente, a uma distinção entre Direita e Esquerda — isto é, a mera asserção de que o ‘capitalismo’ é compreensível como um ‘interior’ — sem qualquer outro conteúdo identificável.)

  1. Ainda pior, como Deleuze e Guattari reconheciam, desde o começo, o que a velocidade capitalista desterritorializa com uma mão, ela reterritorializa com a outra. O progresso se torna restrito a um enquadramento de mais-valor, exército proletário de reserva, e capital de livre flutuação. A modernidade é reduzida a medidas estatísticas de crescimento econômico, e a inovação social fica incrustrada com as sobras kitsch de nosso passado comunal. A desregulação de Tatcher-Reagan senta-se confortavelmente ao lado da família vitoriana “back-to-basics” e valores religiosos.

A Esquerda não é o agente principal da reterritorialização ‘capitalista’?

  1. Uma tensão mais profunda dentro do neoliberalismo ocorre em termos da sua autoimagem como o veículo de modernidade, como sinônimo para modernização, enquanto promete um futuro cuja constituição interna é incapaz de promover. De fato, conforme o neoliberalismo progrediu, ao invés de possibilitar a criatividade individual, tendeu a eliminar a inventividade cognitiva, em favor de uma linha de produção afetiva de interações roteirizadas, junto a cadeias globais de suprimentos e uma zona oriental de produção neo-fordista. Um minúsculo cognitariado de trabalhadores da elite intelectual encolhe com o passar dos anos – e de maneira crescente na medida em que a automação algorítmica adentra as esferas de trabalho afetivo e intelectual. O neoliberalismo, ainda que se postulando como um desenvolvimento histórico necessário, foi de fato um meio meramente contingente para afastar a crise do valor que emergiu nos anos 1970. Era inevitavelmente uma sublimação da crise, ao invés de sua superação final.

— É a política que faz promessas (o capitalismo faz negócios). Se você pensa que o ‘capitalismo’ já te prometeu algo, você pode estar dando ouvidos a um político.
— Qual é o mecanismo através do qual a ‘inventividade cognitiva’ é progressivamente eliminada, dado que a inovação é uma fonte de vantagem competitiva, pela qual o mercado seleciona?
— O ‘cognitariado’ está diminuindo? A resposta para isso parece ser um dado que a ciência social poderia fornecer.
— Por que (ah, por quê) ainda estamos falando sobre o ‘neoliberalismo’? O capitalismo como tal não é o ‘problema’ que define isso como um projeto político-cultural da Esquerda? Essa palavra ridícula é meramente uma profissão de fé, que serve bem mais como sinal de solidariedade tribal do que como ferramenta analítica. (Ironicamente, esse tique de ‘neoliberalismo’, como uma torneira pingando, perturba significantemente o projeto aqui. A renovação aceleracionista da Esquerda, como toda espécie de renovação modernista profunda, visa reativar linhas de desenvolvimento que remontam ao alto-modernismo do começo do século XX, quando — como os autores entendem de maneira plena, ainda que apenas intuitiva — a dinâmica fundamental da modernidade chegou à crista e quebrou. Ou devemos seriamente acreditar que "de volta para o meio dos anos 1970!" é o grito de guerra implícito?)

Eu estou, é claro, fortemente inclinado a aceitar que a paródia aleijada de capitalismo que existe hoje tem um desempenho pequeno comparado ao seu potencial sobre condições de desinibição laissez-faire — isto é, sem ser compensada pela Esquerda. Mas é Keynes e os anos 1930, não o ‘neoliberalismo’ e os anos 1970, que estabelecem os termos da subordinação do capital ao planejamento macroeconômico.

  1. É Marx, junto com Land, que continua a ser o pensador aceleracionista paradigmático. Ao contrário da crítica bastante familiar, e mesmo ao comportamento de alguns marxianos contemporâneos, devemos lembrar que o próprio Marx usou as mais avançadas ferramentas teóricas e dados empíricos disponíveis, na tentativa de entender e transformar completamente seu mundo. Ele não foi um pensador que resistiu à modernidade, mas antes um que procurou analisar e intervir dentro dela, compreendendo que apesar de toda sua exploração e corrupção, o capitalismo permanecia como o mais avançado sistema econômico em sua época. Suas conquistas não deveriam ser revertidas, mas aceleradas para além das restrições da forma valor capitalista.

Um micro-retrato sólido. Que a ‘forma-valor’ capitalista (a quantificação formatada no comércio) possa ser descrita, de maneira realista, como uma ‘restrição’ é a proposta mais básica em jogo aqui.

  1. De fato, como Lênin escreveu no texto de 1918, intitulado “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”: O socialismo é inconcebível sem a engenharia capitalista de larga escala baseada nas últimas descobertas da ciência moderna. É inconcebível sem a organização estatal planificada que mantém dezenas de milhões de pessoas na observância mais estrita de um padrão unificado de produção e distribuição. Nós, marxistas, sempre falamos disso, e não vale a pena perder dois segundos que seja falando com pessoas que não entendem nem mesmo isso (anarquistas e uma boa parte dos revolucionários da esquerda socialista).

Tal adesão ao princípio do planejamento central é esclarecedora

  1. Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração. [Argumento?] Da mesma forma, a avaliação de políticas de esquerda como antitéticas à aceleração tecnossocial também é, pelo menos em parte, uma deturpação grave. [OK, contanto que seja o ‘ideal desconhecido’ da política de Esquerda do qual estejamos falando] De fato, se a esquerda política tiver um futuro, ele deve ser um que abraça ao máximo essa tendência aceleracionista suprimida.

A frase final nessa seção é, de uma só vez, crucial e escorregadia. O que é — de maneira prática — "abraçar" uma tendência? Como e por quê essa tendência foi "suprimida"? "Ter" ou perder um futuro seriam coisas interessantes, então é o futuro que vem a seguir…

Original.

#Acelerar Anotado (#1)

Meus rabiscos marginais foram adicionados em negrito. Por questão de clareza, portanto, eu subtraí os negritos usados no texto de Williams e Srnicek. Em todos os outros aspectos, o texto base foi plenamente respeitado. A maior parte das anotações feitas são espaços reservados para um engajamento futuro. O texto foi quebrado em três posts, em conformidade com a organização do original

#ACELERAR MANIFESTO: por uma Política Aceleracionista Por Alex Williams e Nick Srnicek | Trad. Bruno Stehling • 14 de maio de 2013

O aceleracionismo impulsiona rumo um futuro que é mais moderno, uma modernidade alternativa que o neoliberalismo é incapaz de gerar intrinsecamente.

Uma vez que isso é um slogan, o número bastante incrível de problemas que ele consegue comprimir em dezenove palavras está sendo colocado de lado, como efeitos da compressão

I. INTRODUÇÃO: Sobre a Conjuntura

  1. No começo da segunda década do século 21, a civilização global enfrenta uma nova espécie de cataclismo. Os apocalipses a caminho tornam ridículas normas e estruturas organizacionais da política forjadas com o nascimento do estado-nação, a ascensão do capitalismo e um século 20 de guerras sem precedentes.

De fato

  1. Ainda mais significante, é o colapso do sistema climático do planeta. Com o tempo, se ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo. [Então a análise cascateia a partir da climatologia institucional? Como essa previsão hipotética alcança prestígio tão extraordinário?] Ainda que essa seja a mais crítica das ameaças que a humanidade enfrenta, coexiste e se entrecruza uma série de problemas menores, mas potencialmente tão desestabilizadores. O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia, oferece uma perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes. [Sim, a descoberta de preços politicamente inibida tem esse efeito] A incessante crise financeira levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E, ainda assim, nenhum sinal de diminuição do estado pode ser encontrado em qualquer lugar] A automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.[Se a automação é um sintoma de crise, esta ‘crise’ coincidiu perfeitamente com a produção de capital, desde sua concepção.]

Visto pela Direita, o único desastre social abrangente em andamento é a expansão não compensada do estado, em termos tanto absolutos quanto proporcionais. (Este é um prognóstico da teoria dos sistemas, antes de ser qualquer tipo de objeção moral.) É notável que o Aceleracionismo de Esquerda não parece achar esse desenvolvimento mórbido de forma alguma, a despeito do fato de que sua linha de tendência é manifestamente insustentável e, assim, prevê resolutamente uma catástrofe. Pelo contrário, aquelas tentativas mais mínimas de se moderar a tendência em direção a uma administração política total são depreciadas como "espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial". Nesse aspecto, o manifesto ecoa de maneira fiel o processo sócio-cultural mais amplo através do qual a catástrofe se faz necessária. Ele é a voz de um desastre deliberado (supra-investido politicamente).

  1. Em contraste com essas catástrofes em contínua aceleração, a política atual está assolada pela inabilidade de gerar novas ideias e modos de organização, necessários para transformar as nossas sociedades, de modo a enfrentar e solucionar as aniquilações futuras. Enquanto a crise ganha força e velocidade, a política abranda e recua. Nessa paralisia do imaginário político, o futuro foi cancelado.

A "a crise [que] ganha força e velocidade" é a política. Qualquer futuro que não seja um que a política comanda foi cancelado por proclamação. É apenas na medida em que a realidade for politicamente solúvel, contudo, que essa proclamação pode ser decisiva. Sobre essa questão, há muito mais por vir.

  1. Desde 1979, a ideologia política globalmente hegemônica é o neoliberalismo, encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos. Apesar dos desafios profundamente estruturais que os novos problemas globais lhe apresentam, mais imediatamente as crises financeiras, fiscais e de crédito, em curso desde 2007-8, os programas neoliberais só evoluíram no sentido de aprofundá-los. A continuação do projeto neoliberal, ou neoliberalismo 2.0, começou a aplicar outra rodada de ajustes estruturais, em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas. Isso tudo apesar dos efeitos econômicos e sociais imediatamente negativos, e das barreiras de longo prazo impostas pelas novas crises globais.

Dentro das democracias anglófonas, 1979 marcou uma transição limitada do consenso keynesiano dominante, uma transição que nunca foi resolutamente perseguida e que foi rapidamente revertida (dentro de cerca de uma década). O princípio da politização econômica (macroeconomia) nunca foi destronado. O ‘neoliberalismo’ não é um conceito sério. Dentro da China (e, mais tarde, de maneira menos audaciosa, em outros ‘mercados emergentes’) uma transformação bem mais substancial ocorreu, mas em nenhum desses casos a descrição ‘neoliberal’ fornece iluminação — a menos que seu significado seja redutível a um repúdio dos métodos crus de uma economia de comando para a subordinação social ao estado.

  1. Que as forças do poder governamental, não-governamental e corporativo, de direita, tenham sido capazes de fazer pressão com a neoliberalização é, ao menos em parte, um resultado da paralisia contínua e da natureza ineficaz de muito do que resta da esquerda. Trinta anos de neoliberalismo tornaram a maioria dos partidos políticos de esquerda desprovida de pensamento radical, esvaziada e sem um mandato popular. Na melhor das hipóteses, eles responderam a nossa presente crise com chamados a um retorno à economia keynesiana, apesar da evidência de que as condições que possibilitaram a socialdemocracia do pós-guerra não existem mais. Não podemos absolutamente retornar por decreto ao trabalho industrial-fordista de massa. Mesmo os regimes neossocialistas da Revolução Bolivariana da América do Sul, ainda que animadores em sua habilidade de resistir aos dogmas do capitalismo contemporâneo, se mantêm lamentavelmente incapazes de apresentar uma alternativa para além do socialismo de meados do século 20. O trabalho organizado, sistematicamente enfraquecido pelas mudanças introduzidas no projeto neoliberal, está esclerosado em um nível institucional e – quando muito – é capaz apenas de mitigar ligeiramente os novos ajustes estruturais. Mas sem uma abordagem sistemática para construir uma nova economia, ou uma solidariedade estrutural para promover mudanças, por hora o trabalho permanece relativamente impotente. Os novos movimentos sociais que emergiram a partir do fim da guerra fria, experimentando um ressurgimento nos anos após 2008, foram igualmente incapazes de conceber uma nova visão ideológico-política. Ao invés disso, eles consomem uma considerável energia em processos direto-democráticos internos e numa autovalorização afetiva dissociada da eficácia estratégica, e frequentemente propõem alguma variante de um localismo neoprimitivista, como se, para fazer oposição à violência abstrata do capital globalizado, fosse suficiente a frágil e efêmera “autenticidade” do imediatismo comunal.

A direita foi destruída, quase completamente, nos anos 1930. Desde então, ela existiu apenas como uma voz simbólica de dissidência impotente, resmungando distraidamente, conforme o rolo compressor do Leviatã avançou adiante. Nem o New Deal, nem a Great Society foram revogados. Em vez disso, o vetor para a politização total foi perseguido até os redutos finais de uma sociedade civil quebrada. A Esquerda não enfrente nehuma restrição política séria que seja, mas apenas aquelas restrições ‘ontológicas’ impostas por uma realidade intratável e politicamente indiferente — exemplificada pelo ‘Problema do Cálculo Econômico’ de Mises. São essas que estão agora derrubando o Socialismo Bolivariano. O ‘Capital Globalizado’ é primariamente denominado na moeda politizada emitida pelo Banco Central dos EUA. Sua subserviência é radical e explícita.

  1. Na ausência de uma visão social, política, organizacional e econômica radicalmente nova, os poderes hegemônicos da direita continuarão capazes de impor o seu imaginário obtuso, a despeito de toda e qualquer evidência. Quando muito, a esquerda será capaz momentaneamente de resistir parcialmente a algumas das piores incursões. Mas isso será irrisório contra uma maré inexorável em última instância. Gerar uma nova hegemonia global de esquerda implica na recuperação de futuros possíveis que foram perdidos, e, de fato, na recuperação do futuro como tal.

Então está claro, por ora, que a Direita e a Esuqerda pelo menos concordam em uma coisa — os outros caras têm uma hegemonia quase total e estão levando o mundo ao desastre. Uma Esquerda cada vez mais esquerdista consegue acelerar o processo?

Explorar essa ideia requer um exame da ideia de aceleração… [a seguir]

Original.