Fogueira das Vaidades

De boas intenções, o inferno está cheio

Como um mantra ideológico, ‘Nunca Mais’ está associado primariamente à política sobre genocídios dos anos 1940 e, nesse contexto, sua eficácia tem sido questionável, na melhor das hipóteses. Como um imperativo dominante, ele tem sido muito mais importante dentro da esfera econômica, como uma resposta à Grande Depressão dos anos 1930. Embora o assassinato em massa etnicamente seletivo seja amplamente desaprovado, suas atrações têm sido difíceis de suprimir. A depressão deflacionária, por outro lado, simplesmente não tem permissão para acontecer. Este tem sido o axioma supremo da moralidade prática por quase um século, moldando nossa era de maneira única e distinta. Podemos chamá-lo de Diretriz Primária.

Para o mundo ocidental, os anos 1930 foram uma experiência de quase morte, um encontro íntimo com o abismo, lembrado com intensidade religiosa. Já que a ameaça era ‘existencial’ – ou insuperável – o remédio foi investido com a paixão absoluta de uma fé. A Diretriz Primária foi adotada como uma lei básica e final, à qual todas as instituições e interesses sociais estavam subordinados, sem reservas. Questionar ou resistir a ela era convidar um desastre abrangente, e apenas um herege radicalmente desinformado ou criminosamente imprudente – um ‘doente’ – faria isso. Qualquer coisa é melhor que a depressão deflacionária. Isso é a New Deal Law.

A consolidação do planejamento financeiro central, baseada em bancos centrais e moedas fiduciárias, fornecia ao sacerdócio da Diretriz Primária tudo o que era necessário para assegurar a obediência coletiva: nenhuma depressão deflacionária sem deflação, e nenhuma deflação com uma impressora bem azeitada. A inflação “anticíclica” sempre foi uma opção, e a hegemonia da experiência histórico-econômica anglófona no florescente século americano marginalizou a memória dos traumas inflacionários para remansos globais de influência limitada. Ao lado da grandeza moral da Diretriz Primária, a integridade monetária não contava de nada (apenas um doente, ou um alemão, poderia argumentar de outra forma).

A Diretriz Primária define um regime que é historicamente concreto e sistemicamente generalizável. Como Ashwin Parameswaran explica em seu blog Macroeconomic Resilience, esse tipo de regime é expresso com igual clareza em projetos para gerenciar uma variedade de outros sistemas complexos (não econômicos), incluindo rios e florestas. A silvicultura moderna, dominada por um imperativo à supressão de incêndios, fornece um exemplo especialmente esclarecedor. Ele observa:

O ímpeto tanto para a supressão de incêndios e quanto para a estabilização macroeconômica veio de uma crise. Na economia, essa crise foi a Grande Depressão, que destacou a necessidade de estabilizar a política fiscal e monetária durante uma crise. De todas as iniciativas, a mais crucial do ponto de vista sistêmico foi a expansão das operações de um credor de último recurso e de resgates bancários que tentaram eliminar todos os distúrbios em sua origem. Nas palavras de [Hyram] Minsky: “A necessidade de operações de credor de último recurso ocorrerá freqüentemente antes que a renda caia abruptamente e antes que a renda semi-automática e os efeitos estabilizadores financeiros do Grande Governo entrem em ação.” (Stabilizing an Unstable Economy pg 46)

De maneira similar, a batalha pela completa supressão de incêndios foi conquistada após os Grandes Incêndios de Idaho em 1910. “Os Grandes Incêndios de Idaho de agosto de 1910 foram um evento decisivo para a política e a gestão de incêndios, de fato para a política e gestão de todos os recursos naturais nos Estados Unidos. Muitas vezes chamado de Big Blowup, o complexo de incêndios consumiu 3 milhões de acres de madeiras valiosas no norte de Idaho e no oeste de Montana… O grito de batalha dos silvicultores e filósofos naquele ano foi simples e convincente: incêndios são maus e devem ser banidos da Terra. O Weeks Act federal, que estava paralisado no Congresso há anos, foi aprovada em fevereiro de 1911. Essa lei ampliou drasticamente o Serviço Florestal e estabeleceu programas federais-estaduais cooperativos de controle de incêndios. Isso marcou o início dos esforços federais de combate a incêndios e efetivamente pôs fim às práticas de queimas leves em quase todo o país. A pronta supressão de incêndios florestais por agências governamentais tornou-se um paradigma nacional e uma política nacional” (Sara Jensen e Guy McPherson). Em 1935, o Serviço Florestal implementou a política ’10 AM’, uma meta para extinguir todos os novos incêndios às 10h00 do dia seguinte ao da denúncia.

Em ambos os casos, o trauma de um desastre catastrófico desencadeou uma nova política que tentaria eliminar todas as perturbações na fonte, por menor que fossem.

No Zerohedge, The World Complex elabora sobre a história da supressão de incêndios nos Estados Unidos:

As florestas do sudoeste dos Estados Unidos eram submetidas a uma longa estação seca, bem diferente das florestas do nordeste. As florestas nordestinas eram úmidas o suficiente para que a decomposição de material morto reabastecesse os solos; mas no sudoeste, o clima era muito seco no verão e muito frio no inverno para que a decomposição fosse eficaz. O fogo era necessário para garantir florestas saudáveis. Além de reabastecer os solos, era necessário fogo para reduzir os resíduos inflamáveis, e o calor ou a fumaça eram necessários para germinar as sementes.

No final do século XIX, as queimas leves – fazer incêndios de pequena superfície episodicamente para limpar a vegetação rasteira e manter as florestas abertas – era uma prática comum no oeste dos Estados Unidos. Contanto que os incêndios permanecessem pequenos, eles tendiam a queimar a vegetação rasteira, deixando o crescimento mais antigo das florestas ileso. Os colonos que seguiam essa prática reconheciam sua herança nativa; assim como seus oponentes a chamavam de ‘florestamento de paiutes’ como uma expressão de desprezo (Pyne, 1982).

Os defensores das queimadas o faziam por razões filosóficas e práticas – fazer queimadas sendo a “maneira indígena”, assim como a expansão de pastagens e a redução de combustíveis para incêndios florestais. Os detratores argumentavam que os pequenos incêndios destruíam as árvores jovens, os solos esgotados, tornavam a floresta mais suscetível a insetos e doenças e eram economicamente prejudiciais. Mas o argumento crítico apresentado pelos oponentes das queimadas era que ela era hostil ao Espírito Progressivo da Conservação. Como um povo moderno, os americanos deveriam usar as abordagens científicas superiores de manejo florestal que estavam agora disponíveis para eles e que não tinham estado disponíveis para os nativos. Pior do que estar errado, aceitar os métodos de manejo florestal nativos seria primitivo.

Soletrar as conseqüências eventuais da reforma ‘progressista’ das práticas de manejo florestal provavelmente não é necessário, pois – em notável contraste com seu análogo econômico – suas lições foram completamente absorvidas, ampla e freqüentemente referenciadas. Ambientalistas ecologicamente sofisticados, em particular, se apegaram a ela como um modelo dissuasivo de intervenção arrogante e suas conseqüências perversas. Todo mundo sabe que a tentativa de eliminar os incêndios florestais, ao invés de extinguir o risco, apenas o deslocava, e até mesmo o acentuava, já que a acumulação de material inflamável transformava um regime pontuado por incêndios relativamente frequentes de escala moderada em um episodicamente devastado por enormes conflagrações que consumiam tudo.

Parameswaran explica que a ausência de incêndios leva ao acúmulo de combustível, à deriva ecológica em direção a espécies menos resistentes ao fogo, à redução na diversidade e ao aumento da conectividade. A floresta ‘protegida’ ou ‘estabilizada’ muda de natureza, de um sistema limpo, robusto, misto e retalhado para a uma massa cheia de combustível, frágil, cada vez mais mono-cultural e fortemente interconectada, equivalendo quase a um dispositivo explosivo. A estabilidade degrada a resiliência e prevenir a catástrofe-por-vir torna-se cada vez mais caro e incerto, mesmo na medida em que a importância da prevenção aumenta. No penúltimo estágio desse processo, o gerenciamento de crises criou um apocalipse iminente: um evento desastroso que simplesmente não pode ter permissão de acontecer (embora certamente vá acontecer).

Parameswaran chama essa seqüência apocalíptica de desenvolvimento de A Patologia da Estabilização em Sistemas Complexos Adaptativos. É ao que a Diretriz Primária inevitavelmente leva. Infelizmente, o diagnóstico não contém sinais de remédio. Cada passo na estrada torna a fuga mais improvável, à medida em que a escala de calamidade potencial aumenta. Poucos encontrarão muito conforto na percepção de que esse caminho era insano.

“Caixas-pretas” (ou gravadores de voo) recuperados de desastres aéreos são informativos a esse respeito. Com surpreendente regularidade, as últimas palavras do piloto, anunciadas a ninguém em particular, eloquentemente expressam um reconhecimento da realidade pouco atraente mas inconfundível: “Ah %$#&@!”. Menos comum – de fato, inédito – é qualquer abordagem honesta para com os passageiros: “Senhoras e senhores, este é o seu capitão falando. Estamos todos prestes a morrer”. Qual seria o ponto?

Tudo que pode ser realisticamente esperado de nossas elites políticas e financeiras dominantes pode ser previsto por uma analogia rigorosa. Este voo não termina em nenhum lugar bom, mas seria tolice aguardar um anúncio.

Desonerado de uma posição oficial na Catedral da Diretriz Primária, “Mickeyman” no World Complex está livre para resumir as coisas com honestidade brutal:

Temos vivenciado um longo período de gestão financeira, em que instituições financeiras falidas foram apoiadas por intervenções de emergência (aplicadas de maneira um tanto seletiva). Falências não foram permitidas. O resultado foi um tremendo acúmulo de papel pronto para queimar. Se os incêndios de inadimplência tivessem tido permissão para queimar livremente no passado, poderíamos ter instituições financeiras mais saudáveis. Em vez disso, encontramos nossos bancos carregados com todos os tipos de produtos de papel inflamáveis; seus porões estavam cheios de barris de pólvora negra. Trilhas de pó preto correm de um banco para outro, e está chovendo fósforos.

Original.

Re-Animador (Parte 2)

Transformadores da Expo – o visitantes indesejados

O que estava dentro do pavilhão nacional do Reino Unido na Expo 2010? Alguém entrou lá? Talvez possam passar o rolê lá de dentro? Porque uma coisa é certa, se as ressonâncias culturais da ‘Anglosfera’ significam alguma coisa, as expectativas podem ser jogadas em níveis subterrâneos. Assim como o RU, a Austrália fez um bom – talvez até excelente trabalho – com o lado de fora de seu pavilhão, mas sua exposição foi, para ser brutalmente franco, uma desgraça. Vazia, paternalista, revoltantemente sentimental e desprezivelmente covarde – detalhes seriam legais, claro, mas na verdade não havia nenhum – ele serviu para ilustrar perfeitamente o colapso da Expo, de um festival de modernização dinâmica para uma indulgência lamuriante nas patologias culturais mais destrutivas da modernidade. Onde outrora uma exposição, seja corporativa ou nacional, audaciosamente declarava: “É isto que estamos fazendo (não é magnífico?)”, agora elas exaurem suas atenuadas energias explorando novas, embora consistentemente pouco imaginativas, maneiras de dizer “perdão”. Culpa narcisista se agita sem sentido no espaço de exibições como um cardume de peixes encalhados, morrendo na praia.

Incrivelmente, o pavilhão dos EUA era ainda pior. Não apenas o próprio pavilhão era um insulto em forma de shopping pré-fabricado, indigno de comparação com um Wallmart de segunda categoria, mas a exposição dentro levou a apelação obsequiosa dos australianos a um nível completamente novo. Queríamos uma nave espacial ou um drone predador e nos deram Hillary Clinton dizendo “ni hao” mais alguns disparates sobre plantar canteiros de flores no gueto. Qualquer um que tenha deixado esse pavilhão sem uma profunda e duradoura repulsa por tudo que a América representa em si enquanto ser provavelmente acha que o Barney é um cara bem legal. Essa era a sociedade outrora capaz de organizar a Expo de Chicago em 1893, as Expos de Nova York em 1939-40 e 1964-5, de fazer coisas incríveis e exibi-las, de descrever uma visão convincente do futuro e agora… mórbidas reflexões spenglerianas eram inescapáveis.

Vagando entre esses monumentos de direções erradas, suave falta de sentido, relações públicas adocicadas e lamentáveis concessões ‘por-favor-não-me-odeie’ ao estridente moralismo anti-modernista da era – o que seria dizer, à pura e ruinosa decadência – a consciência pixelada em um padrão de pontos semi-aleatório, rodopiado caleidoscopicamente por uma tempestade de frustração que só poderia ser aliviada ao latir para as autoridades locais da Expo e, além delas, para a cidade, o país e a região que estava recebendo o evento: “Você poderia, por favor, para de ser tão educado, poxa!”

O Ocidente está obviamente descendo pelo ralo e o que ele precisa, acima de tudo, é de alguma concorrência inspiradora. Em particular, e em 2010, ele precisava de uma Expo no oeste do Círculo do Pacífico, com desenvolvimento em aceleração máxima, um-caminho-para-o-futuro-marcado-em-chamas que – puramente por implicação inevitável – maximizasse a humilhação do senescente mundo ‘desenvolvido’ e o sacudisse, com o tipo mais rude imaginável de amor difícil, de seu caminho de declínio. (Claro, as sociedades que mais precisam dessa terapia de choque estão perdidas demais nas cativantes minúcias de sua própria degeneração para terem notado, mas ainda assim…) Em vez disso, a Expo 2010 se manteve escrupulosamente cortês, deferente às profundamente apodrecidas tradições da Expo e respeitosa à devoção multicultural de que mesmo os exemplos mais miseráveis de falha social sistemática têm uma dignidade própria. O que faltou foi uma injeção massiva de arrogância etno-cultural pura e inconsciente, embasada numa confiança imoderada no que estava sendo realizado.

Talvez isso possa ser exposto de maneira ainda mais ofensiva: a modernização deveria fazer as pessoas se sentirem mal. Sua função mais altruísta ou epidêmica é ridicularizar e humilhar tão completamente todos aqueles que estão falhando em se modernizar que, eventualmente, depois que todas as desculpas e projeções tenham sido tentadas e exauridas, o comportamento se modifique. O atraso é tornado vergonhoso e, assim, corrigido. É assim que a história funciona. Começou dessa maneira em meio ao quebra-cabeça de principados da Europa renascentista, funcionou dessa maneira no Japão (trazendo a modernização com a restauração Meiji), na China, há muito difamada por seu ‘confucionismo estagnante’, agora grande mamãe das economias tigresas, na Índia, finalmente vituperada psicologicamente a sair de sua absurda ‘taxa de crescimento hindu’ pelo modelo chinês, e em todos os outros lugares que jamais escalaram para fora da preguiça complacente até a via expressa do desenvolvimento. Já não é sem tempo de começar a acontecer no Ocidente, porque o que tem acontecido lá — pela maior parte de um século agora — simplesmente não está funcionando, e esta falha social crônica não está nem perto de clara, dolorosa ou embaraçosa o suficiente para as populações envolvidas.

Nada seria melhor para o Ocidente do que ter seu nariz esfregado em sua própria decadência, quanto mais abusiva e intensamente melhor. A fim de acelerar o processo, todo o baú do tesouro da condescendência colonial deveria ser reaberto e vasculhado, na busca pelo que quer que melhor agrave, provoque e catalize uma transformação, talvez com fortes insinuações de inferioridade racial e cultural jogadas no meio para temperar. A lição da história é que a espécie humana está confortável com a inércia e geralmente mais do que contente em gradualmente se degenerar. Uma das poucas coisas que jamais faz as pessoas pararem e se virarem é o desprezo transparente que escorre de outras sociedades mais dinâmicas. Se a Expo precisa de uma ‘dimensão social’, essa é ela.

Sem dúvidas, 2010 ainda é muito recente para uma história alternativa ou contra-factual, para um gênero Expo-punk (ou X-punk), que procurasse tudo que poderia ter sido reanimado através do evento — mas a empreitada é irresistível. Chame-a de Asia Unleashed 2010, uma afirmação absolutamente indelicada das novas realidades sócio-geográfica que expressa, em um estilo cru e esmagador, a verdade central da era: a simultânea des-ocidentalização e o radical revigoramento da modernidade.

A Asia Unleashed poderia ter emprestado bastante da real Expo 2010, adotando quase tudo que foi criado pela anfitriã, na verdade, e muito mais além disso. O Pavilhão da China, os Pavilhões Temáticos, a Área de Melhores Práticas Urbanas, o Centro Cultural da Expo, o Centro da Expo, o Boulevard da Expo, o Museu da Expo, e as paisagens do local, assim como o Pavilhão de Transportes, o Pavilhão da GM/SAIC e sua exibição, o Pavilhão das Telecoms, o Pavilhão do Petróleo, o Pavilhão Corporativo de Shanghai com todas as suas coisas, o Pavilhão da Coca-Cola, muitos dos projetos dos pavilhões internacionais e mesmo algumas das exibições internas… todas coisas a serem mantidas. O alvo das gargalhadas são os vídeos sentimentaloides de relações públicas, os atos de perdão, perdão, perdão de verdade mesmo com música e dança, a performance de éramos terríveis, o Pavilhão Kumbaiá, o Pavilhão da Hiperssensibilidade Ambiental, o Pavilhão dos Agravos Vitimológicos, o Pavilhão Além do Crescimento, o Pavilhão do Tem Que Haver Um Meio Mais Gentil, qualquer pavilhão nacional ou corporativo sem objetos de exposição (cerca de metade), quase tudo que carregava a marca dos conselhos de turismo, pós-graduandos em estudos de mídia ou serviços diplomáticos, e todas as utilizações de painéis solares que não estivessem estritamente adaptadas à exploração comercial em escala massiva. Além disso, qualquer pavilhão nacional embasado inteiramente em kitsch étnico seria agrupado com outros de seu tipo em uma área de turismo exótico, porque está admitindo uma completa ausência de capacidade criativa e precisa ser zombado. Sem robôs, sem plataforma: essa é a regra.

A Asia Unleashed precisa trazer várias coisas, sobretudo máquinas, A Expo é toda sobre máquinas, muito embora todas as Expos do último meio século tenham sido lamentavelmente deficientes nesse aspecto. Dificilmente se precisa mencionar que todo o local da Expo deveria estar pulsando, formigando e se contorcendo com robôs de todos os tipos e escalas, desde gigantes industriais, submarinos automatizados e veículos espaciais, passando por androides carismáticos, até aparelhos domésticos, jogadores de Go, robô-pets e mecanismos insectiformes. Para dar um empurrão no processo, os países e corporações com as exibições mais preguiçosas de robôs podem ser publicamente ridicularizados no sistema de som.

A Expo é uma exposição, e sua enfermidade histórica é perfeitamente traçada pela degeneração dessa concepção elementar em RP. Organizadores em todos os níveis, do pináculo da burocracia internacional da Expo (BIE) para baixo, claramente precisam ser forçosamente lembrados da diferença. Por exemplo, tecnologias de vídeo são um objeto inteiramente apropriado para exibição na Expo, e os próprios vídeos podem, bastante apropriadamente, desempenhar um papel informativo de apoio. Centrar uma ‘exposição’ em vídeos, contudo, especialmente quando eles foram reunidos, usando técnicas de publicidade avançadas, com o único propósito de vender uma marca nacional ou corporativa através de associações e giros de imagens, é uma completa abnegação de responsabilidade e deveria ser banida de forma direta, ou pelo menos boicotada, ridicularizada e tornada inefetiva através de um desprezo inundante. O único centro aceitável de uma exibição da Expo é um objeto, de preferência espantoso, trazido da borda exterior da capacidade industrial, a fim de representar de maneira concreta a trajetória do progresso material. Exibir tais objetos – e, assim, respeitar a audiência o suficiente para avaliá-los por si mesma – é a função básica e não-negociável da Expo enquanto instituição. Se ela não pode mais aceitar essa tarefa, ela deveria ser exterminada (por um robô gigante, se possível).

A Asia Unleashed é dedicada às últimas e iminentes fases da civilização industrial global, o que deveria estar mais ou menos implícito no fato de que é uma Expo Mundial, embora infelizmente não esteja. Existe bastante espaço para obras de arte e outras criações culturais singulares, mas a ênfase é claramente modernista. A tecnologia verde entra porque é tecnologia, e a indústria do turismo entra porque é uma indústria, mas em ambos os casos os mestres-das-voltas foram duramente refreados, e a questão preliminar insistentemente levantada: “O que, de verdade, você está exibindo aqui?”. Os únicos organizadores que conseguem evitar tais interrogações de suspeita são os que supervisionam a construção de alguma estrutura fabulosa que parece vinda de algum cenário de filme de ficção científica, ou os que estão descarregando montagens parcialmente animadas de metal reluzente de pilhas montanhosas de containers de transporte, porque – claramente – eles entendem do que a Expo se trata. A estação de ancoragem do ciclópico elevador espacial que toma forma na Zona de Exploração de Recursos Espaciais serve como modelo para o espírito orientador do festival. O maquinário no pavilhão de impressão 3D imprimiu o pavilhão.

A indústria de mineração emprega caminhões monstruosos que pesam 203 toneladas, com capacidade para carregar 360 toneladas, eles custam US$3 milhões cada um, suas rodas têm quatro metros de diâmetro e dirigir um é como “dirigir uma casa” – por que cargas d’água a Expo 2010 não tinha um? A Asia Unleashed muito certamente teria. Para países desenvolvidos com recursos para fazer um espetáculo na Expo, precisa haver algo como um preço de admissão, e um fragmento impressionante de maquinário industrial se encaixa perfeitamente. As areias betuminosas canadenses estão sendo atravessadas por esses caminhões monstruosos, e o pavilhão nacional do Canadá deveria ter sido fortemente aconselhado a trazer um para cá. Em vez disso, eles trouxeram… (levante a mão se alguém lembrar).

Toda a imaginação que foi desperdiçada ao longo de décadas de especulações utópicas de como “um outro mundo é possível” tem sido bem mais produtivamente empregada na Asia Unleashed, contrabalançando a tendência das capacidades industriais avançadas de fugir da arena do espetáculo. As realizações monumentais e as consequências de tecnologias intensamente miniaturizadas e amolecidas exigem exposição, desde a fabricação de chips de silicone, o sequenciamento genético e a nanotecnologia rudimentar, até cripto-sistemas, redes sociais, micro-finanças digitais e arquiteturas virtuais, mesmo ao passo em que elas escorregam, por sua própria lógica inexorável, à invisibilidade. Apresentar essas fronteiras da capacidade industrial de maneira rápida, dramática e memorável para a audiência altamente diversa e transiente da Expo exige a aplicação de uma inteligência criativa em escala massiva. Os crescentes desafios dessa tarefa são dignos dos emergentes talentos aumentados por computador que são exercidos sobre ela.

A Asia Unleashed nunca aconteceu, claro, parcialmente porque o aparato institucional internacional da Expo está preso na tirolesa da morte Ocidental, mas principalmente porque teria sido indelicado. Em última análise, o politicamente correto multicultural pós-modernista – a ideologia globalista hegemônica de hoje – é uma etiqueta elaborada, projetada para impedir a identificação e o diagnóstico ‘insensível’ da falha e evadir indefinidamente a franca afirmação: “O que você está fazendo não funciona”. Nenhuma Expo que se mantivesse verdadeira às suas profundas tradições institucionais poderia evitar que tal afirmação surgisse, implicitamente, através do contraste. Consequentemente, a Expo foi condenada a morrer, por forças inerciais profundas demais para que a Expo 2010 impedisse totalmente, muito menos revertesse: Melhor degenerado do que rude.

Dos destroços da instituição da Expo, contudo, a Expo 2010 foi capaz de extrair, polir e ressuscitar um tópico modernista crucial: a cidade enquanto motor do progresso. Mais sobre isso na Parte 3.

Original.

Re-Animador (Parte 1)

A Expo pode voltar à vida?

Verdades diferentes são ‘duras’ para diferentes pessoas. Para os chineses, uma verdade tão dura que escapou ao reconhecimento público no momento em que mais importava é que quase ninguém, fora do país, ligou muito para a a Expo Mundial de 2010. No momento em que a China ansiosa mas tardiamente aproveitou sua chance de tomar a tocha desse festival da civilização moderna, a época de significância radiante da Expo havia passado. Ainda mais duro: esse era o fato básico e a principal realidade condicionante do evento, ondulando com implicações sinistras para o futuro da modernidade e da resposta internacional ao redespertar da China. Para melhorar, existem verdades mais sombrias e contrárias – primeira entre elas a de que Shanghai já havia descontado a indiferença de uma Expo Mundial cansada e a contornado, a fim de fazer do evento uma oportunidade para algo mais e para si mesma.

A história da Expo Mundial, desde a Grande Exposição de Londres em 1851, está por demais abundantemente documentada para se recontar aqui. O padrão básico, contudo, não é difícil de esboçar, uma vez que se conforma com uma curva relativamente regular, partindo de uma crescimento meteórico (1851-1940) até uma decadência gradual (de 1958 em diante), traçando quase perfeitamente a trajetória do otimismo modernista, desde sua ignição na forja prometeica da revolução industrial até sua expiração em cinismo pós-moderno / pós-colonial, masoquismo de elite e apologia.

De maneira importante, essa permaneceu sendo uma estória essencialmente Ocidental, a despeito do globalismo consistente de suas ambições culturais. A ascensão do capitalismo Ocidental, globalizante e industrial, em suas ondas européia e americana, foi refletida em Exposições Mundiais de glória eletrizante. A crise e o declínio do Ocidente – tanto relativos quanto absolutos – jogaram o evento na marginalidade, na negligência e na dúvida, enganchado no aperto de morte de um anti-modernismo amargurado e auto-mortificante. De maneira mais crucial – e surpreendente – a aurora há muito evidente do historicamente revitalizante e freneticamente modernizante ‘Século Asiático’ parece ter tido um impacto negligenciável na ‘Grande Narrativa’ declinista encarnada na Expo Mundial, que mergulhou ainda mais fundo no pânico gesticulante hipersensível com a suposta calamidade social e ambiental do crescimento modernista.

A ironia dessa situação merece uma ênfase explícita. Precisamente quando a globalização passou de aspiração questionável e ideologia a fato histórico definitivo, com a emergência de centros não-ocidentais de desenvolvimento econômico robustos, primeiro no Leste Asiático no Pacífico, depois no Sul da Ásia e além, o projeto de modernização cosmopolita sofreu uma deslegitimação aparentemente irremediável na corte da opinião ‘mundial’ aprovada. Aparentemente, se o Ocidente não pode mais se pavonear pelo palco mundial com uma confiança invencível e incontestável, a única opção alternativa aceitável é cilícios para todos. Se essa epítome do triunfante ressentimento do cão na manjedoura não exemplifica uma ‘hegemonia cultural’ em sua forma mais potente e tóxica, é difícil imaginar o que o faria.

Uma abundância esmagadora de evidências públicas atestam o ímpeto implacável da degeneração da Expo, embora a maior parte desses dados resistam a uma quantificação ordenada. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o propósito original do evento, que era promover a modernização industrial mundialmente, através de uma exibição pública abrangente de tecnologias produtivas avançadas, engenharia estrutural, manufaturas e mercadorias, foi progressivamente eliminada, para ser substituída por uma agenda que reflete as preocupações de burocracias inter-governamentais, serviços diplomáticos nacionais e conselhos de turismo. Exibições de relações públicas sistematicamente substituíram exposições tecnológicas, e o número de importantes inovações mecânicas e de produtos que alcançaram uma exposição popular através da Expo – outrora substancial – caiu a praticamente zero. Os temas da Expo foram constantemente despojados de suas associações com um materialismo acumulador e remodelados em exortações sérias da transformação moral e social, conforme um evento que foi inicialmente projetado para celebrar a modernidade cada vez mais veio a se desculpar por ela. Previsivelmente, essa transmutação burocraticamente alquimizada de um festival em lamentos foi acompanhada por um ingrime colapso de interesse e engajamento popular. Audiências que outrora se inundavam para conseguir uma visão do futuro, agora evitam um evento que reúne todo o fascínio de uma palestra das Nações Unidas.

No Ocidente, tudo isso é tediosamente familiar. Dificilmente alguém presta mais atenção à Expo, ou se importa muito com ela. Talvez a maioria, se forçada a uma opinião sobre o assunto, vagamente aprovaria o curso politicamente correto que o evento tomou, embora não o suficiente, claro, para jamais entreter o prospecto de ir a um deles. Afinal, poucos ocidentais ainda acreditam na modernidade, tendências mundiais os angustiam, e a Expo parece aproximadamente tão relevante para suas ansiedades quanto o prospecto da colonização de Marte.

No Oriente, as coisas são mais intrigantes. Sociedades que estão sofrendo um rápido desenvolvimento modernista são hospedeiros naturais da Expo, como consistentemente demonstrado ao longo de toda a história do evento. Nunca houve uma grande Expo Mundial que não tenha correspondido, de maneira ampla, a um momento de florescimento nacional e urbano excepcional. Por que, então, a Expo não sofreu uma profunda revitalização asiática, que a restaurasse a suas glórias anteriores? Por que o oeste do Círculo do Pacífico não capturou a Expo, reconstruindo-a como um veículo promocional para seus próprios prospectos de desenvolvimento, como a América o fez no começo do século XX?

Pesadas pelo simples número de visitantes, as duas maiores Expos Mundiais na história foram do Leste Asiático. Ainda assim, o pathos moribundo e devastado de culpa do declínio Ocidental continua a dominar o evento. O Japão passou sua Expo de 1970 tentando provar que conseguia superar até mesmo o Ocidente em beatice solapante de crescimento (como sua economia mais tarde demonstraria), ao passo em que o humor na Shanghai pós-Expo 2010 parece notoriamente desprovido de qualquer sentimento eufórico de realização e mais semelhante ao que poderia se esperar de um grupo de estudantes que acabaram de escapar de uma aula de seis meses anormalmente sem inspiração sobre retificação comportamental guiada pela ética ministrada por um mandarinato internacional. Tendo acabado de executar o maior evento individual na história humana, os sentimentos predominantes são alívio obediente e anticlímax, entorpecidos por algo como uma amnésia deliberada. Em todo caso, há Shanghai para se continuar, então por que perder tempo relembrando a Expo? Isso não vai só encher o lugar com o odor da morte ocidental?

(Algumas sugestões, respostas tentativas, ainda mais lados ruins, e muito mais lados bons, a seguir.)

Original.